setembro 19, 2025

SERÁ A CULTURA UM PROBLEMA MENOR?

 


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A CULTURA NO MINISTÉRIO DAS FINANÇAS  -  Daqui a menos de um mês, a 10 de Outubro, o Governo apresentará a sua proposta de Orçamento de Estado que, além das grandes linhas gerais, terá o enquadramento para alterações que possam existir  na política fiscal. Uma das alterações pretendidas é uma reivindicação das galerias de arte e traduz-se na possibilidade de aplicação de IVA à taxa reduzida de 6%, possibilidade prevista aliás numa directiva comunitária. No início deste ano a taxa de IVA aplicável nestas vendas variava entre 11.5% e 14,5%. Inexplicavelmente, pouco tempo depois de a anterior Ministra da Cultura, Dalila Rodrigues, ter declarado, na inauguração da feira ARCO Madrid, que considerava fundamental que o IVA reduzido se aplicasse aos galeristas, o Ministério das Finanças aplicou à venda de obras nas galerias de arte a taxa de IVA de 23%, muito além dos 6% de taxa reduzida  pretendidos. A situação é bem diversa em França, Alemanha, Itália, Luxemburgo e brevemente também na Bélgica,  onde, na aplicação da referida directiva comunitária, a taxa foi reduzida  para os valores mínimos de IVA existentes nesses países, alguns abaixo dos 6%. A divergência pública entre Dalila Rodrigues e o Ministério das Finanças pôs mais uma vez a nu a dificuldade de entendimento entre estas duas áreas do Governo. Na realidade o que se passa é que ou a pasta da Cultura é dirigida por alguém com peso político capaz de se fazer ouvir, ou as Finanças abafam qualquer veleidade de proporcionar incentivos fiscais ao desenvolvimento do mercado de bens culturais e das indústrias criativas. Cabe ao Governo em primeira instância, e eventualmente também às oposições, aquando da discussão do OE na especialidade, incluir a venda de obras de arte em galerias no valor da taxa mínima de IVA. A actual Ministra, que acumula a Cultura com a Juventude e o Desporto, é hábil em fazer de conta que ouve, enquanto deixa as coisas correrem sem as resolver - prova aliás do fraco peso político que tem. Entretanto o mercado afunila, as vendas este ano estão abaixo dos valores do ano passado e começa a desenhar-se uma crise no sector. É mais barato comprar uma obra de um artista português na representação de uma galeria portuguesa em Paris do que fazê-lo em Lisboa. As galerias, que são de entrada livre, não têm subsídios e são tanto a montra de divulgação de novos talentos como a de consagrados. Todos os artistas necessitam da actividade das galerias, não só no país, como nas feiras internacionais onde os galeristas levam as suas obras, contribuindo assim para a afirmação da cultura portuguesa no estrangeiro. As galerias, sublinhe-se, não pedem um subsídio, pedem um incentivo fiscal que permita dinamizar o mercado. Os mais cínicos, raça abundante entre governantes e políticos de várias origens, dirão que essas questões da Cultura são um problema menor e agem em conformidade. É o país que temos, a Ministra que temos, o Primeiro-Ministro que temos.


 


SEMANADA - Vítor Escária, o chefe de Gabinete de António Costa que tinha 75.800 euros em numerário numa estante da sua sala de trabalho em S. Bento, de origem mal explicada, foi premiado com o cargo de director do Instituto Superior de Gestão, passados 674 dias sobre a busca policial que encontrou o dinheiro e desencadeou a queda do Governo de António Costa; um inquérito recente indica que  49% dos portugueses não se identificam com um partido; o número de passageiros nos aeroportos portugueses cresceu 4,9% de janeiro a julho, face a igual período no ano passado, para um total de  42 milhões de passageiros que se movimentaram nos primeiros sete meses do ano pelos aeroportos nacionais; desses, o Aeroporto de Lisboa movimentou 49,1% do total de passageiro;  de janeiro a agosto houve 81 813 óbitos em Portugal, mais que no mesmo período do ano passado; no hospital de D. Estefânia em 2020 apenas uma criança estava em lista de espera para cirurgia de ortopedia, agora são 280 e o prazo de espera pode chegar aos 4 anos; entre janeiro e julho celebraram-se em Portugal 19 630 casamentos, mais 372 do que no mesmo período de 2024;  dos jovens cujos pais têm apenas o ensino básico apenas 23% concluíram o ensino superior; nos primeiros seis meses do ano as queixas de violência doméstica subiram 26% e foram identificadas 21 mil vítimas; no primeiro semestre deste ano as queixas em relação às urgências hospitalares aumentaram 90% face ao mesmo período do ano passado.


 


O ARCO DA VELHA - Um professor de Educação Moral e Religiosa condenado a oito anos de prisão, por 62 crimes de abuso sexual de menores, Fernando Silvestre, foi colocado no Agrupamento de Escolas de Gondifelos, em Famalicão. 


 


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CONVERSA DE ARTISTAS - Existe um quadro de Manuel Dacosta intitulado “Cão a Uivar à Lua”, que remete para uma expressão popular que relembra que o uivo é uma forma de comunicação à distância entre animais. A imagem da comunicação é boa, e aplica-se a uma nova recolha de textos de Delfim Sardo precisamente intitulada “Uivar à Lua”. Delfim Sardo, historiador de arte, professor e curador, agrupou em cerca de 350 páginas textos que foi produzindo sobre a obra de 23 artistas, dois dos quais arquitectos, e que inclui nomes como José Pedro Croft, Julião Sarmento. Lourdes Castro, Luísa Cunha, Michael Biberstein, João Onofre, Rui Sanches, Sara Bichão, Alberto Carneiro, Gordon Matta-Clark, Gustavo Sumpta, Helena Almeida, Carrilho da Graça, Aires Mateus, entre outros. Estes textos, foram feitos entre 2013 e 2025, e quase todos foram escritos para catálogos de exposições ou a convite de artistas e curadores. Os ensaios de “Uivar à Lua, sublinha Delfim Sardo,  tentam compreender os processos criativos dos artistas e “partem de relações de cumplicidade, “frequentemente inseparáveis das opções curatoriais que os enformaram, e são, por isso, muito físicos, influenciados pela convivência com os autores e com as obras, mesmo quando foram escritos já na sua ausência”. Edição Tinta da China.


 


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PINTURAS ESCRITAS -  Ver numa galeria uma espécie de banda desenhada criada por um artista plástico é uma ideia desafiadora. A Ocupart associou-se à Galeria Sá da Costa para a exposição “ O Circo do Senhor Clyde Beatty” uma narrativa visual de pinturas de Pedro Zamith com textos de Hugo Barreiros. Zamith estudou pintura, cenografia e figurinos e Barreiros estudou teatro, e escreve argumentos para cinema, televisão e peças de teatro. Este é o primeiro projecto dos dois, num cruzamento entre as artes plásticas e a palavra. Inspirado na figura histórica do domador americano Clyde Beatty (1903–1965), Pedro Zamith “explora com ironia o universo decadente e fascinante do circo clássico e propõe uma reflexão visual sobre o lado sombrio, grotesco e profundamente humano do espetáculo” - assinala a galeria. As obras apresentadas,  pintura, desenho e texto sobre tela, dão vida a diversas  personagens e os textos acrescentam ironia às figuras representadas. Hugo Barreiros conta que “o  processo de criação foi partilhado. Uma palavra pode ser pintada de muitas formas diferentes tanto quanto uma pintura pode ser descrita por milhares de palavras. Eu escrevia um mundo e o Pedro contrapunha com uma pintura, ou Pedro pintava um mundo para eu escrever. Nunca foi muito claro quem escrevia para quem pintar ou quem pintava para quem escrever.” Até 11 de Outubro na Sá da Costa, Rua Serpa Pinto, 19, ao Chiado.


 


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ROTEIRO - Em 1975  Fernando Negreira tinha 18 anos e como tantas outras pessoas integrou-se nas brigadas de alfabetização que foram pelo país fora integradas nas Campanhas de Dinamização Cultural do MFA. Negreira, apaixonado desde cedo pela fotografia, documentou o que viu e que mais tarde mostrou na Associação Académica de Coimbra e numa exposição colectiva no Palácio Foz, em Lisboa. Foi o princípio de uma carreira de fotojornalista que assinala agora 50 anos de trabalho com a exposição “Monochrome 50”,  na Casa da Imprensa até 14 de Novembro, com curadoria de Paulo Alexandrino e Paulo Petronilho, organizada pelo colectivo CC11 (Rua da Horta Seca 20). Ao longo dos anos Fernando Negreira trabalhou em numerosos jornais e revistas, e foi também editor fotográfico em algumas dessas publicações. Negreira sublinha que “esta não é uma retrospectiva de vida mas um apontamento pessoal de imagens captadas entre 1975- 1980, uma espécie de recolha paralela à vida profissional de um fotógrafo de imprensa”. Na imagem uma das fotos dessa época. Mais fotografia nos Jardins do Bombarda, numa série de exposições promovidas também pelo colectivo CC11 que na sua Mostra de Fotografia de Autores  apresenta “Blessed Ground” de Ricardo Lopes, “Almas em Cura” a partir da colecção de fotografia do antigo Hospital Miguel Bombarda, “Brava” de Ricardo Rocha sobre o universo das touradas e “Cante”, de Ana Baião, todas até 5 de Outubro. E na galeria Narrativa (Rua Dr. Gama Barros, 60) está em exposição até 25 de Outubro “Temporada Turva”, de João Salgueiro Batista,  trabalho vencedor do prémio FNAC Novos Talentos de fotografia.


 


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BOWIE COMPILADO - A coisa é gigantesca. uma caixa com 13 CD’s ou 18 LP’s que agrupa um conjunto extenso de gravações de David Bowie, em novas versões remasterizadas e algumas gravações até agora não editadas de concertos. O título da caixa é “I Cant Give Everything Away (2002-2016)”. Aqui estão os discos “Heathen” (2002), “Reality” (2003), “A Reality Tour” (com 33 faixas dos concertos da derradeira digressão de Bowie feita em 2003 com quase centena e meia de concertos), “The Next Day” (2013); “The Next Day Extra “(2013), “Blackstar “ (o seu derradeiro álbum de originais editado dias antes de morrer, em 2016),  o EP “No Plan “ (2017) e um conjunto de 44 faixas, em três CD’s, com remisturas para singles e colaborações com nomes como Lou Reed, Earl Slick, David Gilmour, Kristeen Young, ou Arcade Fire. Também estão neste lote os lados B de singles, remisturas feitas para rádio, excertos de bandas sonoras, faixas extras de várias edições especiais e versões alternativas às que foram editadas nos álbuns. Ao todo são 12 horas de música com 163 faixas. Além das edições físicas em CD e LP esta compilação está disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT - “O Estado português prefere investir em coisas novas e muitas vezes inúteis em vez de reparar e modernizar o que tem” - Luís Marques, no Expresso


 


BACK TO BASICS -  “Não há mérito especial para um humorista quando o governo faz o trabalho por ele”  - Will Rogers


 


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setembro 13, 2025

CENTROS COMERCIAIS HÁ MUITOS

 









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Numa feira à beira de estrada há de tudo para cobrir o corpo, mesmo aquelas peças que só os mais íntimos, ou o próprio, podem ver. Com uma nota de vinte euros mais uns trocos compram-se umas calças, duas ou três t-shirts, meias e cuecas para quase uma semana. Ali o que se vende é barato, prático e menos descartável do que se pensa. Nos corredores das feiras a coisa não tem artifícios e o marketing é outro:  em vez de modelos deslumbrantes de roupa íntima para homem ou mulher exibidos em grandes cartazes publicitários que arrancam os olhos das estradas e provocam travagens súbitas, ali há manequins de plástico que reproduzem curvas e contrastam com as cores. No estendal da mesma banca surgem cuecas para menino e menina, soutiens e meias. As feiras contemporâneas, daquelas que se realizam num dia certo de cada mês, geralmente num domingo em determinado local, a estrutura parece-se com a de um Centro Comercial urbano. Ali, nestas feiras de estrada, há ruas e zonas bem definidas para tudo: uma para roupa interior, outra para sapatos, chinelas e ténis, uma outra para calças, vestidos, blusas e camisas e, de forma arrumada, surgem secções de ferramentas que já não se vêem em mais lado nenhum, electrónica moderna (com painéis solares portáteis), passarinhos e suas gaiolas, cestos de verga e mobílias de bucho, alcofas miniaturas e coloridas para senhoras levarem no braço, quais birkins lusitanas, plantas para todos os gostos, fruta e legumes com ar fresco e viçoso e, até um  autêntico food corner que se estende por um apreciável número de barracas, cada um com a sua esplanada, onde o menu principal é a bifana e a bebida de eleição é a mini. Uma manhã de feira é uma ida ao país real. 





setembro 12, 2025

E DEPOIS DAS TRAGÉDIAS?

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ENTREGUES AOS BICHOS - Primeiro foram os fogos, agora a tragédia do elevador da Glória. Passámos Agosto a protestar contra a forma como decorreu o combate aos incêndios, por todo o lado surgiram denúncias de falta de articulação entre as várias entidades envolvidas. O assunto é sério: em Portugal não há registo de uma época de incêndios que tenha deixado uma área ardida tão grande como a de este ano. Mais de 250 mil hectares, uma emissão de 3,5 milhões de toneladas de carbono, ou seja 22% do total anual das emissões nacionais. Sabe-se que o Estado só executou 44% das verbas do PRR para a floresta e toda a gente se esquece que o interior, onde ocorreram os grandes fogos, proporciona ao litoral, o necessário equilíbrio  ambiental e biodiversidade. A zona da Serra da Estrela, que foi uma das mais fustigadas este ano, fornece 80% da água que Lisboa consome. O interior não interessa para nada aos poderes nacionais. Estou para ver, daqui a um ano, o que se concretizou de tudo o que se disse a propósito do que está por fazer na política florestal e no combate aos incêndios . Claro que as altas individualidades foram aos funerais das vítimas, lamentaram os feridos e começaram logo a ficar silenciosas, a adubar o esquecimento. Na semana passada, um acidente terrível no coração de Lisboa,  num equipamento sobreutilizado, muito para além daquilo para que foi projectado, numa zona de concentração turística, ceifou a vida de 16 pessoas e deixou ainda mais feridas e em estado grave. Lá foram as entidades oficiais, tais gatos pingados, às cerimónias de homenagem às vítimas. Quem manda, veio dizer que não é tempo de averiguar responsabilidades políticas sobre o acontecido. Do lado dos poderes argumentam com a proximidade das eleições para reclamar silêncio, num dos mais absurdos discursos anti-democráticos de que há memória. A verdade é que os mais altos responsáveis do país eximem-se a assumir responsabilidades em todas as situações graves, enquanto usam expressões de uma pesarosa hipocrisia. Não querem saber do facto de os cidadãos pretenderem saber o que na realidade aconteceu. A culpa não pode ficar solteira. Têm de ser encontrados e denunciados os responsáveis, que é coisa bem diferente de encontrar bodes expiatórios, uma especialidade nacional. Não há santos nesta matéria - desde governos a autarcas anteriores aos que hoje estão no poder também têm de ser chamados à pedra. A tendência nacional para esquecer os problemas em escassa meia dúzia de meses é uma das causas maiores da descrença no regime. Promover o esquecimento só interessa aos culpados. Estamos entregues aos bichos, essa é que é essa. 


 


SEMANADA - Entre janeiro e junho de 2025, houve uma média mensal de 130 despejos, número que supera os números de todo o ano de 2024 e 2023, sendo que incumprimento do pagamento da renda é a principal causa; os pagamentos em atraso do SNS a fornecedores aumentaram dez vezes entre Janeiro e Maio; em 2024 o INEM funcionou com menos 709 trabalhadores face aos previstos e quase 21 mil doentes graves não tiveram o nível de socorro exigido; as queixas de utentes do SNS sobre as urgências hospitalares no primeiro semestre do ano  aumentaram 90% face aos mesmo período do ano passado;  Portugal está entre os países que têm  uma maior percentagem de população com 80 anos ou mais (7%) e os que têm uma menor representação das faixas etárias com menos de 15 anos (abaixo dos 13%) e tem a segunda idade média mais elevada, 41,7 anos, da União Europeia; 38% dos portugueses não têm o ensino secundário; alunos do 4º ano têm melhor desempenho a inglês que a português; nos últimos 25 anos a CP reduziu em 40% o número de comboios em circulação na linha de Cascais, apesar de a população servida por essa linha ter aumentado 16% desde 2001; a modernização da linha ferroviária do norte foi iniciada há 29 anos mas o último troço de 19 kms só ficará concluído em 2030, 33 anos depois do início dos trabalhos; um estudo da Universidade Nova indica  que nos próximos 25 anos se vão reformar 4000 professores por ano;  José Mourinho já acumulou 108 milhões de euros em indemnizações por despedimento ao longo da sua carreira de treinador; no último ano lectivo a PSP encontrou 52 armas em escolas.


 


O ARCO DA VELHA - Os guardas no Estabelecimento Prisional do Linhó estão em greve total há nove meses e não se vislumbra o seu fim.


 


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UM MISTÉRIO FILOSÓFICO - Espinosa, o filósofo, tinha o seu primeiro nome disponível em várias versões: Baruch, que quer dizer abençoado em hebraico; Bento, em português; e Benedictus em latim. O avô e o pai, judeus convertidos à força à religião cristã, fugiram de Portugal e dos massacres da Inquisição e refugiaram-se na sinagoga portuguesa de Amsterdão. E foi nessa cidade que Espinosa nasceu, tendo morrido aos 44 anos, em 1677. A obra que fez ao longo da sua curta vida foi polémica mas hoje em dia ele é considerado um dos primeiros pensadores do iluminismo e um dos grandes racionalistas da filosofia do século XVII, o que lhe trouxe uma boa quantidade de inimigos, quer na religião católica quer no judaísmo. O polimento de vidro óptico para fabricar lentes era a actividade que o sustentava e lhe dava meios para o seu trabalho filosófico enquanto livre pensador e terão sido as poeiras de vidro que lhe  causaram problemas respiratórios, que podem ter sido  a causa da sua morte. Mas há uma outra história: acamado, doente, Bento de Espinosa terá recebido no dia 21 de fevereiro de 1677 uma misteriosa visita e três horas depois foi encontrado sozinho e sem vida. O dinheiro destinado ao médico desapareceu, assim como uma faca com cabo de prata e suspeita-se que manuscritos inéditos que estavam na sua secretária também desapareceram com a sua morte. É este o ponto de partida para “Quem Matou Espinosa”, obra a que já chamaram “thriller” filosófico. O autor do livro, Jean-François Bensahel, um matemático e empresário francês, leitor voraz de filosofia, reconstitui a vida e a obra de Espinosa e percorre esse tempo e os inimigos que podiam beneficiar com a morte do filósofo. É um misto de policial com um romance de investigação filosófica, com tradução de Antonio Sabler e edição Quetzal.


 


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TUDO A PRETO -   Tomaz Hipólito e a sua Azan Art dirigiram um convite a 50 artistas contemporâneos, de várias gerações e nacionalidades, desafiando-os a explorar o poder, o simbolismo e as subtilezas de uma única cor: o preto. O resultado é a exposição “Random Black” na Galeria de Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147) onde  estarão até 4 de Outubro as respostas dos artistas a este desafio monocromático. “O preto é o vazio, a origem, o fim, o desconhecido, o elegante, o político, o radical, o poético, queremos ver até onde pode ir a cor preta” - sublinha a Azan na apresentação da exposição. Tomaz Hipólito, ele próprio um dos participantes, desafiou nomes como  Alexandre Baptista, Anja Vermeir, Carlos No, Catarina Pinto Leite, Cristina Ataíde, Filipe Alarcão, Jeff Perkins, Jorge Queiroz, Miguel Navas (na imagem), Miguel Palma, Pedro Cabrita Reis, Rita Gaspar Vieira , Rui Horta Pereira e Vasco Futscher Pereira entre outros. A imagem do cartaz da exposição é de uma pedra negra vulcânica dos Açores, a obsidiana, que assim representa o conjunto dos 50 trabalhos apresentados. 


 


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ROTEIRO - Em Évora, no Palácio dos Duques de Cadaval, está até 26 de Outubro uma nova exposição de fotografia de Guillaume Bonn, um fotógrafo documental, escritor, cineasta e editor de imagens, nascido em Madagáscar e que apresenta sob o título “Mosquito Coast” uma série de fotografias que exploram a essência da identidade arquitetónica da África Oriental (na imagem). Em Lisboa, no Museu da Farmácia (Rua Marechal Saldanha 1) estão expostos trabalhos de uma dezena de Urban Sketchers em torno de museus nacionais, sob o título “Sei de um rio, Sei de um museu”. Fernanda Lamelas, Filipe Leal Faria, João Catarino, José Louro, Luís Frasco, Marcelo de Deus, Marta Castro, Pedro Cabral, Rosário Félix e Teresa Ruivo representam locais como a Casa das Histórias Paulo Rego, em Cascais, a Casa do Careto, em Podence, ou o Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira. Na Fábrica da Moagem, ao Beato, Frederico Ferreira, que assina como FRED, apresenta a exposição “Once Upon A Time”, um trabalho que encara conflito e  destruição como catalisadores do acto criativo. Na Galeria Zé dos Bois (rua da Barroca 59) há cinco exposições para ver até 20 de Setembro:”Pizza Space-Time” de João Marçal, “Baahahal” de Pizz Buin, “Pedreiras/Quarries” de Ellie Ga e Karin Monteiro, “Fricção Científica”  de Beatriz Capitulé e “Ao longe endireita”, de Luís RochaNa Galeria de exposições temporárias de S. Roque, com entrada pela Igreja,  prossegue até final do mês a exposição “Casar”, com fotografias e outros materiais do Arquivo Ephemera.


 


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MINGUS INÉDITO - Em final de 1977 o estado de saúde do contrabaixista Charles Mingus agravou-se subitamente e ele teve de cancelar as digressões que tinha programado. Em Março desse ano tinha gravado os seus derradeiros álbuns de originais, “Three or Four Shades of Blues” e “Cumbia & Jazz Fusion”  e foi com custo que partiu em digressão pela América do Sul. No início de Junho tocou em Buenos Aires e o álbum “Mingus In Argentina”, agora editado depois de restauradas as gravações dos dois concertos que tocou nessa cidade, é o último testemunho da forma como estava em palco. Ao seu lado estavam dois fiéis companheiros - o trompetista Jack Walrath e o baterista Dannie Richmond, a que se juntavam o pianista Bob Neloms e o saxofonista Ricky Ford, então com 23 anos. Este é o único registo desta formação e um dos derradeiros concertos de Charles Mingus. “Mingus In Argentina” tem quase duas horas de duração ao longo de 13 temas, maioritariamente composições do próprio Mingus. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Este início de outono está bem recheado de exposições para quem for a Paris: 90 trabalhos do pintor britânico John Singer Sargeant durante os anos em que viveu em Paris no final do século XIX, muitas das quais hoje em dia integram a colecção do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque que co-produziu a exposição patente no Musée d’Orsay. E na Fundação Louis Vuitton está uma grande exposição do alemão Gerhard Richter.


 


DIXIT - “Montenegro e Carlos Moedas não podem esperar bocas amordaçadas após a queda do elevador lisboeta” - João Miguel Tavares, no Público


 


BACK TO BASICS -  “Um homem verdadeiro encara os acidentes com dignidade” - Aristóteles 


 


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setembro 06, 2025

RITUAIS

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Um desejo não consumado é das piores coisas que pode acontecer. Chegar ao areal e dar logo de caras com uma embalagem vazia de bolas de berlim sem ter vendedor à vista é uma forma de tortura direccionada aos sentidos. Longe vai o tempo da bola de berlim embalada em papel pardo. Agora, estas embalagens formulam pergunta e resposta na mesma frase, alinhando pontos de interrogação com pontos de exclamação e inquirindo o destinatário sobre as suas preferências: bola mais seca, ou mais húmida, ou, para desfazer equívocos maldosos, sem creme ou com creme? Vá lá que na embalagem ainda não aparece a possibilidade de chocolate, caso em que certamente a pergunta passaria a ser com ou sem pistachio e, com um bocado de cosmopolitismo modernaço, passaria a interrogar se o pretendido seria à moda do dubai ou simplesmente tuga?. Eu gosto de coisas simples, basta-me o toque aveludado da massa frita polvilhada de açúcar, dispenso cremes adicionais. Há uma volúpia especial em sair da água do mar, mesmo que fria, e ouvir ali perto o pregão do vendedor de bolinhas. O prazer aumenta quando a bola chega às nossas mãos e, cara virada ao sol (nos dias em que ele desponta) chegamos à boca a essa fonte de pecados - calóricos bem entendido - e a mordiscamos e vamos saboreando. Uma das melhores razões para ir pelo menos uma vez por ano à praia é cair na tentação da bola de berlim à saída do banho. Praia sem bola de berlim é como açorda sem coentros. Fica a faltar a explosão do prazer.




A LUZ QUE NASCE DO FERRO

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Desde os tempos mais remotos o homem é desafiado a moldar o ferro e dele foi fazendo, ao longo dos séculos, matéria prima para criar o necessário para a vida e para a guerra, já que é o quarto elemento mais abundante na crosta do nosso planeta e um dos constituintes principais do núcleo da Terra. Trabalhar o ferro exige saber e destreza. Usá-lo como base de produção artística é um desafio em tudo: na criação de formas, na sua cor e como reage à luz, na imagem que projecta na imaginação de cada pessoa. Rui Chafes é um escultor português que usa o ferro como matéria prima. Além do ferro que molda e solda, das formas que cria, usa apenas o desenho como se fosse um diário, não o misturando com a sua oficina onde só existe o metal e os utensílios para o trabalhar. Chafes é também um apaixonado pelas palavras e foi o tradutor, logo aos 25 anos, de “Fragmentos de Novalis”, uma obra de referência com citações de Georg Philipp Friedrich von Hardenberg, um expoente do período do idealismo alemão no final do século XVIII. São dele frases como “apenas um artista é capaz de adivinhar o sentido da vida” ou “o maior bem consiste na imaginação”. Cada trabalho de Rui Chafes tem um período de preparação longo: levou nove meses a trabalhar nas 19 novas obras, de grandes dimensões, suspensas do tecto na Galeria Filomena Soares, e que, logo à entrada, formam uma floresta aberta a todas as interpretações - intenção desde logo manifestada no título “Acredito em tudo”. Para além da emoção imediata que a primeira visão deste conjunto de obras provoca, há depois toda uma descoberta de pormenores, dentro de cada uma das esculturas, do ferro que, mesmo sendo negro, tem uma luz própria, como este fragmento mostrado na imagem. Ao ver de perto essas obras é inevitável recordar uma outra citação de Novalis - “a luz é símbolo da verdadeira lucidez”. O trabalho de Rui Chafes suscita inquietações e pode ter várias interpretações, sobretudo nestes tempos tão estranhos e preocupantes. Numa conversa que teve com Delfim Sardo e Nuno Faria em Março de 2019, a propósito da exposição “Desenho Sem Fim”, Chafes afirma: “O resultado artístico final tem de ser muito mais forte do que as intenções conceptuais do artista: não pode necessitar de explicações para ter força. Uma obra de arte, seja de que natureza for, tem de existir na sua autonomia”.




setembro 05, 2025

A CRESCENTE VIOLÊNCIA

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CIDADANIA - Hoje o tema é cidadania, entendida como o comportamento em sociedade baseado no respeito pelos outros, pelas opções de cada um, sejam políticas, religiosas, culturais ou sexuais. Infelizmente a cidadania e o civismo têm vindo a perder-se. Há uma sensação crescente de intranquilidade e assistimos à revelação de uma série de crimes que desmentem a teoria de que Portugal é um país de brandos costumes. Os dados são terríveis: num semestre a PSP registou 3743 queixas de agressões feitas por filhos aos seus pais e nos primeiros seis meses deste ano foram recebidas pela PSP e GNR 18396 denúncias de violência doméstica, muitas delas causadas por questões passionais e acusações de traição, algumas culminando em violações e outras em mortes. Entre janeiro e agosto deste ano registaram-se 84 homicídios, número quase igual aos 89 ocorridos durante todo o ano de 2024. Segundo a Polícia Judiciária, nos últimos 14 anos 63 crianças foram mortas em ambiente familiar e  a maioria dos crimes foram cometidos pelas mães. Nesta semana soube-se que após uma série de ameaças, chantagem para extorquir dinheiro e repetidas agressões, um homem de 43 anos esganou a ex-companheira e incendiou-a para garantir que  morreria, o que veio a suceder. Todas as semanas surgem notícias sobre disputas entre vizinhos, muitas vezes por razões fúteis, que acabam com agressões graves e até mortes a tiro. Na rua há cada vez mais cenas de agressões, sobretudo na sequência de discussões no trânsito e já aconteceu um dos protagonistas puxar de uma arma e disparar. Os comportamentos sociais alteraram-se, a violência, verbal e física, passou a fazer parte do quotidiano. O problema não é policial, tem a ver com a degradação de comportamentos em sociedade, com falta de civismo e de bom senso. No meio das muitas discussões sobre a disciplina de Cidadania talvez não fosse má ideia centrar o seu ensino acima de tudo o resto, naquele princípio básico de que todos devemos respeitar as opiniões dos outros, por muito que sejam diferentes das nossas, e que as questões não se resolvem com violência. Respeitar os outros deixou de ser a regra, infelizmente passou a ser a excepção e vejo pouca gente a preocupar-se com isso e a ter particular atenção em incutir essa ideia nos mais novos e também naqueles que vindos de outros mundos e outras culturas decidem vir para Portugal.


 


SEMANADA - Mais de um terço dos candidatos à Câmara de Lisboa vivem fora da cidade; no mês passado o número de funcionários do Estado ultrapassou os 760 mil, o maior número de sempre, o que significa 14% da população activa; um inquérito recente indica que 72% dos portugueses afirmam trabalhar naquilo que gostam; o valor que as famílias portuguesas prevêem gastar em lojas on line para preparar o regresso às aulas é 200 euros; mais de 15% dos portugueses não consegue aceder a cuidados dentários por razões financeiras; os incêndios florestais ocorridos desde 1 de Janeiro consumiram 250 mil hectares, a maior parte dos quais entre 26 de julho e 31 de Agosto e representam dez vezes a área da barragem do Alqueva ou 25 vezes a área de Lisboa, ou 62 vezes a área do Porto; os incêndios causaram quatro mortes e centenas de feridos; dados oficiais indicam que  entre 2011 e 2020 registaram-se 17 grandes fogos e em oito deles fogo posto é a causa apontada; as prisões portuguesas estão a funcionar com menos dois mil guardas do que previsto; o número de estrangeiros com autorização de residência que estão inscritos no Serviço Nacional de Saúde era, em julho deste ano, seis vezes maior do que em 2017 atingindo quase um milhão de utentes; no mesmo período, os imigrantes no país aumentaram 267% e as contribuições para a Segurança Social subiram 600%; Portugal perdeu 400 milhões de euros em investimento directo estrangeiro nos primeiros seis meses deste ano; em julho a dívida pública aumentou cerca de mil milhões de euros, atingindo um novo recorde histórico de 288 mil milhões de euros; segundo o Banco de Portugal a dívida pública está a crescer desde dezembro do ano passado e nestes oito meses o endividamento público agravou-se 18,8 mil milhões de euros.


 


O ARCO DA VELHA - Dois agentes da PSP de Coimbra foram mordidos e arranhados por um casal, após terem sido chamados para resolver uma denúncia de ruído num prédio.


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CONHECIMENTOS LITERÁRIOS - Para quem gosta de livros foi publicada há pouco tempo uma obra fundamental: A Literatura Universal em 100 Perguntas”, de Felipe Díaz Pardo. O autor aborda géneros, obras e autores fundamentais, formas, estilos e personagens que atravessaram os séculos, épocas, movimentos e gerações literárias. E responde a perguntas como estas: Porque é que os temas das peças de Shakespeare continuam a ser actuais? Quando é que surgiu o romance de folhetim na Europa? Quais são os bestsellers da literatura universal? Quais são as grandes obras da literatura para jovens? Onde nasceu o modernismo? Quando é que se tornou mágico o Realismo? “Existem regras para escrever um conto? Em que ano nasceu o romance policial? Em que casos é que a literatura e o jornalismo se aproximam? Porque é que Gulliver não é um livro para crianças? “Qual o livro mais difundido da História? ou, em que se parecem as obras de Camões e Cervantes?. Estas são apenas algumas das cem perguntas a que o autor responde ao longo de 300 páginas. Felipe Diaz Prado é professor, escreveu materiais didácticos, ensaios, romances, contos e um livro infantil. A edição é da Guerra & Paz.


 


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FESTIVAL DE FOTOGRAFIA -  Até Novembro a sétima edição do Imago Lisboa apresenta  nove exposições, a primeira inaugurou esta semana na SNBA e sob o título “Invisible Borders” apresenta até 4 de Outubro os olhares fotográficos de Alina Zaharia, Gloria Oyarzabal, Grace Ribeiro, Patrik Rastenberger, Omar Victor Diop e Wendel A. White, com curadoria de Rui Prata. O título da exposição evoca as fronteiras que se impõem entre o que é visto e o que é reconhecido e os trabalhos apresentados procuram abordar a subtileza e a brutalidade do racismo. A imagem aqui reproduzida é de Omar Victor Diop  e inspira-se nos retratos ocidentais dos séculos XV a XIX, que retratam figuras negras que ascenderam a um estatuto social elevado nos tribunais e na ciência, por exemplo. Victor Diop é ele próprio o modelo fotografado em auto-retrato em estúdio e todos os trabalhos expostos contêm pormenores que evocam o futebol, como luvas de guardas redes , bolas, apitos ou chuteiras. Diop evoca assim que o futebol é um fenómeno global onde jogadores de origem africana ganham uma grande notoriedade mas são muitas vezes alvo de manifestações racistas. Esta edição de 2025 do Imago Lisboa tem como tema  “Quebrar o silêncio, caminhar juntos” e  “convida à escuta e à partilha, num momento em que a convivência entre culturas e experiências se torna imperativa e Portugal, enquanto território histórico de cruzamentos, encontros e deslocações, revela-se simultaneamente como espaço de acolhimento e de silêncio.” - afirma Rui Prata, responsável pelo festival. A programação artística do Imago Lisboa 2025 espelha a diversidade das práticas fotográficas actuais e são complementadas por um programa de actividades que inclui debates, oficinas, projeções, leituras de portfólios e conferências. Ao longo dos meses, até Novembro, vão abrir exposições nas Carpintarias de São Lázaro (16 de Setembro), Museu da Água (18 de Setembro), Galeria Santa Maria Maior (9 de Outubro), Arquivo Municipal Fotográfico de Lisboa (15 de Outubro)  Imago Garage (17 de Outubro) Procurarte  e Galeria Imago (18 de Outubro) , Museu Nacional de Arte Contemporânea (20 de Novembro). Todo o programa está disponível em www.imagolisboa.pt .


 


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ROTEIRO - De 5 de Setembro a 1 de Outubro, pode ver na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery 42)  “Espelhos e Sombras, uma exposição inédita que junta as fotografias de Jorge Molder a obras de Rui Sanches, esculturas e um diptico de fotografia e desenho (na imagem). É uma exposição inesperada muito bem montada no espaço da Diferença. A galeria Underdogs apresenta, até 1 de Novembro “Broken Vision”, a primeira exposição individual de Paul Insect em Portugal. A mostra reúne 22 obras inéditas e originais que, segundo a galeria, exploram “o universo visual inconfundível do artista britânico, cuja prática se move entre a colagem, o simbolismo gráfico e uma abordagem crítica ao quotidiano contemporâneo”. (Rua Fernando Palha, Armazém 56, a Marvila). Em Braga está de volta “A Noite Branca”, entre 5 e 7 de setembro, com dezenas de atividades culturais, artísticas e musicais por toda a cidade. Dois dos espaços em destaque são o Museu de Arqueologia D. Diogo de Sousa e o Museu dos Biscainhos, que terão uma programação especial. E em Lisboa arrancou a 3ª edição da Mostra de Fotografia e Autores com 12 exposições anunciadas em telões gigantes no mercado da Ribeira. E dia 7 os Jardins do Bombarda acolhem quatro inaugurações às 16h00: “Passos em Volta” de Eduardo Gageiro (a partir do espólio que o fotógrafo depositou na Cãmara Municipal de Torres Vedras), “Blessed Ground” de Ricardo Lopes, “Almas em Cura” e “Cante” de Ana Baião. 


 


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REDESCOBERTA - Bernie Maupin tocou em discos como “Bitches Brew” de Miles Davis, ou “Mwandishi and Headhunters” de Herbie Hancock. Fez fama como um multifacetado músico de estúdio no saxofone, clarinete ou flauta. Em 1974 gravou o seu primeiro disco como líder de um grupo que incluía Herbie Hancock no piano, Buster Williams no baixo, Bill Hart, Freddie Waits e Bill Summers nas percussões e em alguns temas Charles Sullivan no trompete - uma rara conjugação de talentos e uma sonoridade bem de acordo com essa época. Com oito temas, todos originais de Maupin, “The Jewel in the Lotus” é um daqueles clássicos esquecidos que vale a pena redescobrir. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Para assinalar o 40ºaniversário da histórica exposição “New Photography” no MOMA em Nova Iorque, o Museu apresenta a partir de 14 de Setembro e até 17 de Janeiro  ‘New Photography 2025: Lines of Belonging’, com trabalhos de artistas de quatro cidades: Joanesburgo, Nova Orleans, Katmandu e Cidade do México.


 


DIXIT - “Durante décadas, o país construiu uma paisagem altamente inflamável. Grandes extensões de monoculturas de pinheiro-bravo e eucalipto, no meio de matos abandonadas e sem qualquer gestão ativa, criaram um contínuo de vegetação seca e densa — combustível perfeito para alimentar incêndios de grandes proporções.” - Rui Simões, no “Público”.


 


BACK TO BASICS -  “O grande mistério do Governo não é perceber como Washington funciona, mas sim como se pode parar” - P.J. O’Rourke


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




agosto 30, 2025

A VER O MAR

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Uma das coisas que gosto de fazer é olhar para o mar a diversas horas. E uma das coisas mais fascinantes que podemos experimentar é ver como a luz ao longo do dia faz mudar o que vemos - as cores, o brilho, tudo. A luz é uma fábrica de ilusões, tanto acentua a nitidez da realidade como insinua o mistério da fantasia. A fotografia é a extensão do olhar que nos permite moldar a luz, fixá-la, e até mesmo alterá-la- David Hockney, o célebre pintor britânico, tem uma frase de que gosto muito: ”as fotografias não são exactamente o que nós achamos que elas são”. Por isso mesmo a fotografia pode ser realidade ou fantasia mesmo sem usar truques ou manipulações. Moldar a luz, ver para além das aparências, é uma coisa de que gosto. Ver a luz a incidir no mar permite imaginar que estamos a ver algo diferente, que o horizonte se confunde com a água, que na realidade os limites de uma coisa e de outra são variáveis. A luz é a ferramenta do olhar e quem fica a imaginar o que vê à sua frente encontra nas variações da luz a chave para poder descobrir outros olhares, para fantasiar e até para descobrir. Onde nos lava o mar? Ao fim do horizonte? Ou é o horizonte que nos traz o mar? Olhar é um exercício de procurar respostas para descobrir o que a luz nos oferece. E poucas coisas são mais aliciantes do que conseguir parar para ver e pensar. Andamos todos com tanta pressa que olhamos pouco. E sendo assim, pensamos ainda menos.


 


(Publicado em sapo.pt às sextas-feiras)




agosto 29, 2025

O INCÓMODO DOS NÓMADAS DIGITAIS E DOS REFUGIADOS FISCAIS

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LÁ VAI LISBOA - Gosto sempre de ler aquilo que os estrangeiros dizem sobre Portugal e os portugueses. Recentemente o jornal Guardian publicou um artigo de uma inglesa que vive em Lisboa desde há cinco anos, Alex Holder, na qual ela se interroga sobre se estará na hora de, tal como outros nómadas digitais já ponderam, deixar a cidade. A autora admite que existe uma tensão crescente entre os estrangeiros que vêm para Lisboa beneficiar dos incentivos fiscais dados aos estrangeiros e o resto da população que crescentemente olha para eles com desconfiança. E interroga-se, ela própria, sobre se esta situação está a ser mais prejudicial que benéfica ao país que os acolhe e sabe que muitos locais cada vez mais acham os residentes estrangeiros arrogantes e olham para eles de lado. Ela tem consciência que este afluxo de nómadas digitais fez disparar os preços das rendas de casa e do imobiliário em geral, assim como influencia o aumento do custo de vida. E sente que há lisboetas que já não escondem o seu desagrado pela invasão estrangeira, que cada vez torna mais difícil a vida na sua cidade. Eu próprio sou testemunha de que em Campo de Ourique, onde na colónia de estrangeiros há uma maioria de franceses, a arrogância que mostram, típica aliás da sua nacionalidade, é notória e muito desagradável. E no Centro Comercial das Amoreiras, em tempo de aulas, agora quase a recomeçar,  as barulhentas invasões de alunos do Liceu Francês, que fica do outro lado da rua, mostram o seu lado arruaceiro, gritando palavrões em francês com a arrogância dos imbecis que julgam que só eles falam esse idioma. Alex Holder relata o rol de coisas que aconteceram na cidade nos últimos anos: lojas tradicionais a  fechar,  novas lojas abertas por estrangeiros que não têm nada a ver com a cultura local e que funcionam num ghetto onde proprietários e clientes são de outros países e onde mal se encontram portugueses. A autora reconhece que há um crescente isolamento entre a comunidade de estrangeiros de vários países que trabalham remotamente a partir de Lisboa e os portugueses, que ganham menos, pagam mais impostos e se vão vendo desalojados da sua cidade. Holder admite que, face ao aumento dos preços, agravado com a  entrada em cena de norte-americanos,  que acham tudo barato e são litigantes e conflituais, até mesmo pessoas de outros países admitem já  começar a pensar em encontrar novo poiso. E já nem se fala do lixo acumulado e agravado pela invasão de turistas, das ruas sujas e descuidadas, dos jardins que se deterioram. Lisboa, que começou a ser vendida às postas por Medina, continua, infelizmente, nas mãos de Moedas, a ser entregue a quem mais der. Estou certo que não foi nisto que muitos lisboetas, entre os quais me incluo, votaram há quatro anos. 


 


SEMANADA - No primeiro semestre deste ano as câmaras municipais arrecadaram um valor histórico de 65 milhões de euros com a taxa turística, valor que compara com os 33 milhões de euros encaixados no mesmo período do ano passado; Lisboa já cobrou em taxas turisticas, no primeiro semestre deste ano, 38,3 milhões de euros, um aumento de 98% em relação ao mesmo período de 2024; a receita total do Imposto Municipal sobre as Transmissões onerosas de imóveis (IMT) ascendeu a 1.732,8 milhões de euros em 2024, o valor mais elevado de sempre; a receita total de IMI relativa ao ano de 2024 foi de 1.466 milhões; as autarquias arrecadaram portanto cerca de 3,2 mil milhões de euros com impostos relativos à compra ou posse de casa; a fatura média da água subiu mais de 16% em três anos, sendo que a gestão dos resíduos urbanos e das águas residuais é responsável por 59% da fatura do fornecimento de água; por todo o país sucedem-se as queixas pela acumulação de lixo nas ruas cujo tratamento é da responsabilidade das autarquias, e isto apesar de todos os valores que cobram em impostos e taxas; os municípios portugueses já gastaram neste ano eleitoral entre 1 de janeiro e 20 de agosto mais 32% em concertos do que no mesmo período de 2024, num total de 13,4 milhões de euros; há câmaras municipais, como Tábua, Melgaço e Évora, que levam mais de cinco meses a pagar aos seus fornecedores e pelo menos 5,5% dos municípios em Portugal pagam as suas faturas a mais de 60 dias;  Setúbal, Santa Comba Dão e Pinhel demoram mais de cem dias a pagar; os fundos do PRR para a construção de faixas de segurança para facilitar o combate a incêndios florestais tinham apenas 23% de execução em junho passado; o Portal da Queixa já recebeu este ano mais 18% de queixas dirigidas a câmaras municipais sobre a falta de limpeza de matas e terrenos.


 


O ARCO DA VELHA - Há seis entidades diferentes no dispositivo de combate aos incêndios florestais, há dispersão e funções duplicadas, demasiados chefes e não existe um mecanismo comum de coordenação e comando, indica um estudo divulgado esta semana.


 


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UM MISTÉRIO GELADO - Dos livros que já li da islandesa Yrsa Sigurdardóttir “A Presa”, um original de 2020 agora editado entre nós é um dos mais imprevistos em termos de narrativa e inesperados em termos de conclusão. É um misto de livro policial e de história de terror. Ao contrário de boa parte dos livros da autora já editados em Portugal, este não se baseia em nenhuma das personagens recorrentes da sua ficção, como Thóra Gudmundsdóttir ou Freyja & Huldar (que protagonizaram a série DNA). Em “A Presa” Yrsa Sigurdardóttir desenvolve uma história que se desenrola entre a descoberta de um sapato de criança enterrado no jardim de uma casa, a busca por um grupo de aventureiros mal preparados numa expedição nas paisagens geladas da Islândia e uma estranha morte ocorrida muitos anos antes. As duas histórias não se cruzam e têm um remoto ponto comum. Quando o leitor pensa que uma vez resolvido mistério do desaparecimento e morte, pelo frio, dos aventureiros, é confrontado com uma nova situação, que não vou aqui relatar e que mostra a capacidade ficcional da autora. As 400 páginas do livro lêem-se num fôlego, sempre na expectativa do que pode acontecer  a seguir. Mas é esse o objectivo de um policial, certo? Boa tradução de Maria José Figueiredo, edição Quetzal.


 


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UM OÁSIS NO VERÃO - A Galeria  Salgadeiras - Arte Contemporânea, que se chama assim por ter nascido na Rua das Salgadeiras, no Bairro Alto, mudou há alguns meses para a zona de Alvalade, que começa a concentrar uma assinalável actividade nesta área. Ao longo dos tempos a Salgadeiras, dirigida por Ana Matos, tem criado uma identidade própria, atenta a novos artistas e a vários géneros de expressão artística, do desenho ao vídeo, passando pela fotografia, a pintura ou a escultura. Agora, quando grande parte das galerias de arte lisboetas ainda estão encerradas para férias, a Salgadeiras abriu na semana passada a exposição «Queimar o céu da boca», que é apresentada como uma colectiva de verão e que teve curadoria de Rui Dias Monteiro, para quem esta mostra  “é resultado de um ano de convívio e de trabalho com os artistas e obras da galeria”. Estão expostos até 20 de Setembro trabalhos de Augusto Brázio, Fátima Frade Reis, Martinho Costa, Rita Gaspar Vieira, Rui Horta Pereira (na imagem) e Rui Soares Costa. A Salgadeiras fica na Avenida dos Estados Unidos da América 53D.


 


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ROTEIRO - Em Lisboa, na Galeria Vera Cortês, pode ver até 13 de Setembro “Al Tramonto” uma exposição colectiva  com curadoria de Antonia Gaeta, que agrupa trabalhos de Ana Santos, Fala Mariam de Lisboa, Juliana Matsumura e Manuela Marques (na imagem). Mais a a sul, na Casa das Artes , em Tavira, pode ver até 13 de Setembro a exposição que assinala 40 anos da galeria. Sob o título “Empatia e Resistência” são exibidas obras de quatro dezenas de artistas como Adriana Molder, André Cepeda, João Louro, Manuel João Vieira, Pedro Cabrita Reis, Pedro Chorão, Pedro Calapez, Rui Chafes, Xana e Valter Vinagre, entre outros. E para finalizar, no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode-se ver até  novas aquisições, com destaque para o  conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte de uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.


 


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 UM DISCO DELICIOSAMENTE SIMPLES - Cass McCombs é um músico e compositor norte-americano que tem tido uma discreta mas importante carreira no território  folk-rock, que começou no início deste século e que tem já no activo 11 álbuns, o mais recente dos quais é “Interior Live Oak”, editado fisicamente na forma de um duplo LP com 16 músicas que totalizam 74 minutos. McCombs é antes de mais um esplêndido contador de histórias, cada canção desenha-se como um capítulo de uma novela onde ele nos vai contando as suas experiências de vida e desejos em canções que têm títulos como “Home At Last”, “I’m Not Ashamed”, “I Never Dream About Trains”, “Diamonds in The Mine” ou o delicioso “Lola Montez Danced The Spider Dance”. A produção é minimalista, no disco McCombs canta e toca guitarra com mais três músicos: bateria, baixo e teclas. Este “Interior Live Oak” é mais uma prova de que a simplicidade pode ser  a melhor forma de fazer música - canções com boas melodias, palavras que fazem sentido e arranjos eficazes. Disponível em streaming.


 


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ALMANAQUE -  A Atlas Gallery, de Londres, adquiriu recentemente todo o importante espólio de fotografia da Marlborough Gallery que inclui impressões de exposição assinadas por  nomes como Berenice Abbott, Brassai, Robert Frank, Helmut Newton e Bill Brandt. Para assinalar a compra desta importante colecção expõe até 25 de Outubro  uma série de fotografias feitas por Bill Brandt sob o título “Beach Nudes”, a maioria nos anos 40 e 50 do século passado na costa leste de Sussex e no sul de França. As fotografias foram feitas quase sempre com uma grande angular que distorcia propositadamente as formas dos corpos fotografados. A Atlas Gallery fica no nº 49 de Dorset Street.


 


DIXIT - “Um desleixo civilizacional generalizado em relação ao espaço público por parte dos responsáveis em Lisboa” - Teresa Gouveia, a propósito da situação no Jardim do Príncipe Real.


 


BACK TO BASICS -  “Um pacificador é alguém que vai alimentando um crocodilo na esperança que o animal não o devore “ - Sir Winston Churchill


 


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agosto 23, 2025

PALADARES ESQUECIDOS

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Cada vez que visito um mercado tradicional lembro-me que deve haver pessoas que acham que a rúcula nasce dentro de pacotes de celofane, que os limões saem da terra envernizados e que se esfregam nas maçãs para com elas partilhar esse verniz. Essas pessoas nunca provaram uma folha de rúcula fresca na banca de legumes de um mercado e não fazem ideia do que estão a perder. Não fazem ideia do aroma que se desprende de um molho de beldroegas das autênticas e não de estufa. Não sabem o que é a lascívia deixada na boca pelas maçãs riscadiinhas de Palmela acabadas de colher nesta altura do ano. Há uma geração que olha para o que consome no dia a dia como tudo sendo naturalmente empacotado e acondicionado. Olhem a fruta - cansada de viagens transatlânticas que baralham as estações, exausta de tanto tempo em câmaras frigoríficas, arrancada às árvores ainda longe de estar boa para consumo, esse ponto ideal de amadurecimento que exalta o sabor e que raramente se consegue na banca de um supermercado. Uma visita a um mercado tradicional é uma lufada de ar fresco que nos faz lembrar aromas e sabores entretanto esquecidos. É uma aprendizagem com talhantes experientes que sabem como cortar a carne de forma a enaltecer o seu paladar, é uma descoberta de conselhos  para melhor confeccionar o  que sai do mar com peixeiras que sabem amanhar o peixe. E pode ser também a descoberta de um tesouro, como estes alhos bem portugueses, hoje em dia cada vez mais raros, ausentes dos supermercados mas bem presentes nos mercados, viçosos, de côr esplêndida, em vez dos raquíticos exemplares, importados de tão longe como a China, e que cá arribam sem sabor, incapazes de desempenhar o seu papel de dar aroma e sabor ao que se cozinha.




agosto 22, 2025

SOBRE A FALTA DE NOÇÃO

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VAMOS EMBORA - Na semana passada, na pior altura dos incêndios, o primeiro-ministro foi repetidamente fotografado na praia, com o seu permanente sorriso de anúncio dentífrico e mais tarde, talvez no pior dia dos fogos, surgiu radiante na Festa do Pontal, um evento tradicional do PSD que mistura comício com cantorias. Qualquer pessoa tem direito a ter férias e a promover festas, mas um primeiro-ministro tem deveres especiais - retomando uma velha frase, “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta". Montenegro parece não se preocupar com isso, mas no entanto foi  ele próprio, em 2022 e 2023, a criticar a atitude do então governo de António Costa face aos incêndios que assolavam o país. Mais: pouco tempo depois de iniciar funções como líder do PSD e da oposição, em 2022, Luís Montenegro foi a Pedrógão recordar a tragédia que ali ocorrera em 2017 e criticou a falta de preparação do Governo de António Costa para enfrentar os  incêndios. Agora, que é primeiro-ministro, preferiu o silêncio que antes denunciava. Ninguém quer que os membros do governo andem de mangueira na mão a apagar fogos e menos ainda que estejam no meio da floresta a atrapalhar os bombeiros. Mas espera-se que definam políticas de prevenção, que controlem a sua execução, que tenham meios prontos a funcionar em vez de aviões Canadair imobilizados por grosseiro descuido, que articulem atempadamente os mecanismos de emergência com outros países, que se mostrem atentos. Montenegro não governa o país há três meses, é primeiro-ministro desde Abril de 2024, não pode proclamar ignorância das situações. O seu Governo teve mais de um ano para tomar medidas e não o fez.  De um primeiro ministro espera-se que nestas circunstâncias mantenha um módico de contenção festiva e que fale de políticas para os incêndios, que certamente já terá estudado atendendo ao que defendeu enquanto líder da oposição. Não resisto a citar o que Henrique Gouveia e Melo disse sobre estes dias: “um verdadeiro líder , mesmo sem poder fazer mais, está na frente com o seu povo, mostrando que não se esconde das responsabilidades que pediu para assumir” . E, num artigo no “Correio da Manhã”, Pedro Santana Lopes, reivindicando maior presença das autarquias no sistema de prevenção e combate dos incêndios,  escreveu: Ninguém como os responsáveis das Câmaras e das Freguesias conhece o respetivo território e tem os meios de interagir com os privados que não limpam as suas propriedades. A incompetência política leva a que quem ascende ao Poder, em cada momento, julgue que basta mudar os dirigentes da Proteção Civil e outros responsáveis para as coisas correrem bem. Ainda não se percebeu? É a organização e o sistema que não servem. Acordem.” Era sobre isto, sobre as mudanças necessárias na prevenção e combate aos fogos,  que eu gostava de ouvir o Governo falar. Montenegro, como se viu no comício do Pontal, numa das piores noites dos incêndios, culpa quem o critica e não consegue olhar, e muito menos assumir o que faz,  um padrão de comportamento que já vem do caso Spinunviva. Em vez de se queixar de jornalistas e analistas, talvez não fosse pior que pensasse que, sob a sua liderança no PSD, o Chega passou de 12 deputados para 50 dois anos depois de Montenegro se proclamar líder da oposição e para 60 deputados passado mais um ano. Em vez de olhar para os outros, Montenegro e o seu núcleo de yesmen, todos muito rodados na politiquice interna do aparelho do PSD, mas com pouco serviço prestado ao país, deviam perceber que na realidade não estão a dar conta do recado. A Ministra da Administração Interna resumiu a posição do Governo sobre os incêndios: “vamos embora”, disse ela.


 


SEMANADA - Este ano já foram detidas 90 pessoas pelo crime de fogo florestal; os incêndios já consumiram, até domingo passado,  155.000 hectares, 18 vezes mais do que a área ardida em igual período do ano passado, perto de atingir a área ardida no trágico ano de 2017, quando as chamas queimaram 164 249 hectares; até  ao fim de semana deflagraram 6296 fogos;  cereja no topo do bolo: o objectivo de atingir um milhão de hectares de floresta limpa em 2024 ficou a menos de metade, apenas 400 mil hectares; o comandante Jorge Mendes, do Observatório de Bombeiros Portugueses, afirmou que “temos andado a correr atrás do prejuízo e tem havido falhas de coordenação no posicionamento dos meios no terreno”; ​​ Tiago Oliveira, presidente da Agência Integrada para a Gestão de Fogos Rurais , tinha alertado no início do verão ser fundamental “para que se evitasse que o fogo ande à solta”, pré-posicionar os operacionais e os meios nos locais previamente identificados e sublinhava ainda ser essencial “dirigir a vigilância e dissuasão para os locais de maior risco e lá colocar os meios e recursos do dispositivo”; o engenheiro florestal Cardoso Pereira afirmou que apesar de este ano haver  “ melhor planeamento e melhor articulação entre entidades, grande parte do planeado não foi transferido para o terreno”; em plena situação de alerta por causa dos incêndios dois homens detidos por atearem fogo em Vinhais vão aguardar julgamento em liberdade por decisão do tribunal judicial de Bragança; os suspeitos tinham sido apanhados em flagrante, a atearem um incêndio com um isqueiro na localidade de Quirás, concelho de Vinhais e foram detidos pela GNR para depois o juiz os soltar; duas dezenas de bombeiros morreram em serviço nos últimos cinco anos.


 


O ARCO DA VELHA - Este ano já ardeu 2,35% do território português e em média, nos últimos 18 anos, a percentagem foi de 1,05%, quase três vezes mais do que a da Grécia, que ocupa o segundo lugar e deixa a Portugal o título de campeão da União Europeia da percentagem de área ardida do seu território.


 


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LEITURA SILENCIOSA - A minha recomendação de leitura desta semana vai para o livro  “História do Silêncio”, do historiador francês Alain Corbin. conhecido pela forma como aborda temas menos convencionais (como a história dos ventos, da sombra ou do prazer e da paisagem). A obra é particularmente interessante nesta época em que o ruído invade todos os espaços - o autor mostra como depois da década de 1950 o silêncio perdeu o seu valor filosófico e a sua dimensão educativa e como a hipermediatização do século XXI torna difícil ouvir-nos a nós próprios e sentir o silêncio. Edição Quetzal.


 


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LISBOA EXPOSTA - Ao fundo do Campo Grande fica o Palácio Pimenta, que alberga o núcleo central, renovado, do Museu de Lisboa, que também integra outros espaços da cidade, nomeadamente o Teatro Romano, junto ao Castelo de S. Jorge e o Museu de Santo António, junto à Sé (ver nota no Roteiro nestas páginas). No núcleo do Palácio Pimenta  pode ser vista a exposição  “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” que, através de uma centena de obras, mostra uma Lisboa ignorada. Algumas das peças expostas nunca foram mostradas e outras foram restauradas para serem exibidas e desvendarem uma Lisboa menos óbvia. A exposição parte da aventura aeronáutica de um italiano no final do século XVIII até às bombas dos primeiros anos da  República, passando pelos fados de Amália e a vida de uma poetisa e ativista dos direitos humanos, que no século XIX defendeu o fim da escravatura e a emancipação das mulheres. A fotografia de António Rafael, tirada em 1972, que integra a exposição e que aqui se reproduz, retrata a apanha da minhoca no Terreiro do Paço. Dá para perceber como a cidade mudou. Também no Palácio Pimenta pode ver a exposição “O Palácio da Cidade, de Keil do Amaral”, que mostra quatro propostas que ao longo de 27 anos o arquiteto idealizou para coroar o topo do Alto do Parque Eduardo VII e que nunca passaram da fase de projecto.


 


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ROTEIRO - Começo por uma doce exposição que está no Museu de Santo António, em Lisboa, junto à Sé. A exposição “Quando o Corpo se Faz Doce”, que pode ser vista até 7 de Setembro.  mostra exemplos da doçaria tradicional portuguesa que, modelados de forma sugestiva, a partir de açúcar, amêndoa e ovo, ganham contornos de partes do corpo ou de estados de alma, “fazendo a ponte entre vivências quotidianas carregadas de uma profunda religiosidade e a realidade terrena e material das sensações e da natureza do corpo humano” (na imagem) . Em matéria de fotografia este é o derradeiro fim de semana para poder ver duas exposições que mostram imagens de Portugal em 1974 e 1975. Na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa pode ainda ver “50 de 25” , que apresenta 50 fotografias de Luiz Carvalho que documentam essa época. E em Almada , junto à Lisnave, no Parque Empresarial da Mutela, pode ver a exposição organizada por Sérgio Tréfaut com o trabalho de três dezenas de fotojornalistas estrangeiros que acompanharam o que se passou em Portugal nesses anos. A exposição é de uma qualidade impressionante, a montagem e iluminação são boas, e este é um fundamental  testemunho da maneira de olhar para Portugal naquela altura por alguns dos grandes nomes da fotografia da época (Sebastião Salgado, Guy Le Querrec, Hervé Bureau ou Jean Claude Francolon, entre outros). 


 


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MÚSICAS DE VERÃO - Gosto de explorar as playlists do Spotify que alguns jornais compilam. Recentemente descobri no espanhol “El País”  a playlist “Un verano por la música”, uma recolha de temas de 1h e 43 minutos, desde “Summertime” na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, até composições de  Berlioz, Bach, Tchaikovsky, Vivaldi, Beethoven, Schumann, Debussy, Handel ou Mahler. Pesquisem as playlists do El País no Spotify e podem viajar por esta tentadora selecção.



ALMANAQUE - Na quinta-feira 28 de Agosto , pelas 18h00, o Pavilhão Julião Sarmento organiza uma visita guiada dirigida por Isabel Carlos, a curadora da exposição  inaugural daquele espaço. Isabel Carlos, que é também a directora do Pavilhão Julião Sarmento, partilhará com o público a visão, as histórias e os contextos por detrás das obras expostas. A visita terá interpretação em língua gestual portuguesa e a participação nesta iniciativa requer inscrição prévia através do endereço de email bilheteira@pavilhaojuliaosarmento.pt .


 


DIXIT - “Já basta o que basta: um desleixo criminoso do Estado central e local no ordenamento do território. Que, até agora, nunca teve consequências políticas. (...) O país arde porque, no fundo, os portugueses não responsabilizam quem devem” - João Pereira Coutinho na Sábado.





BACK TO BASICS -  “Pouco se pode esperar de alguém que só se esforça quando tem a certeza de vir a ser recompensado”- Jose Ortega Y Gasset


 


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agosto 15, 2025

À PESCA

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Fico sempre fascinado quando vejo alguém a pescar e tenho sempre vontade de ficar no seu lugar. Olho para a pesca como um ritual que exige preparação. Não falo do material. Falo da atitude, de pegar nas coisas e ir embora para junto da água. Percebo quem faça da pesca uma obsessão, procurando a cana de fibra com mais elasticidade e sensibilidade, o carreto da linha com mais funcionalidades, o tipo de iscos artificiais e naturais, as bóias, a chumbada e os anzóis ideais. Não sou assim, não tenho a obsessão da técnica nem, do equipamento. O que me fascina é lançar o anzol e ficar a aguardar. Sou daqueles que pensam que o acaso da pesca é apanhar um peixe. Para mim o seu verdadeiro objectivo é adivinhar a água, observar o horizonte. Gosto de estar na margem de um rio, a sentir a corrente a passar mas tenho vontade de um dia ir ao mar. Um dia destes vou voltar a comprar cana e demais apetrechos e faço como este homem que vislumbrei num pontão, a falar com o mar, ali sózinho, com o bugio ao fundo sem mais nada a distraí-lo. Vejo a pesca como uma coisa solitária, um espaço onde podemos desligar-nos do que se passa à volta e ficar a aguardar o que a água nos pode trazer. Não me importo se o peixe não picar, fico contente por estar ali, sem muito mais em que pensar. A pesca é como um exercício de egoísmo durante o qual viramos costas ao mundo e ficamos, sem pressas, a deixar o tempo passar, ao ritmo da água que vai correndo. Esta ideia fascina-me.




agosto 14, 2025

A REALIDADE NÃO É NADA BRILHANTE

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ESCURIDÃO - No início desta semana o jornal espanhol “El País” titulava que o Vox, um partido comparável ao Chega, está a aumentar a sua influência entre os trabalhadores e os desempregados. O jornal recorda que esse crescimento também se verificou em França em relação ao partido de Le Pen. E se olharmos para o crescimento do Chega em Portugal, sobretudo nas regiões onde ele foi mais pronunciado, não é preciso ter uma bola de cristal para perceber que algo de muito parecido está a acontecer. O jornal cita um estudo recente que indica que o Vox lidera em três das seis categorias salariais mais baixas e entre os que se consideram pobres. Lá, como cá, o que cativa os eleitores destes partidos de extrema direita é a combinação de um discurso antipolítico que proclama que o Estado não funciona, com um discurso anti-imigração. Em Espanha o Vox já dispõe de uma organização sindical cuja influência cresce de forma relevante, com base em protestos contra a perda do poder de compra dos trabalhadores e a insegurança nos bairros de subúrbios onde há mais imigrantes. Os  dirigentes sindicais do Vox acusam os partidos de esquerda de terem abandonado os trabalhadores e as suas reivindicações, substituindo-as pela defesa de questões que não se traduzem na melhoria da qualidade de vida. Entre os assalariados com menores vencimentos apenas no sector de serviços o Vox tem, por enquanto, pouca penetração. Se olharmos para o que se passa em Portugal nos últimos anos a conclusão é inevitável: nenhum dos partidos do bloco central conseguiu desenvolver políticas capazes de ir ao encontro de grande parte do eleitorado e deixou esse terreno ao Chega. O PS esteve no Governo entre 2015 e 2024 e não fez o que agora reivindica e, na realidade, através da sua política de alianças na geringonça e na forma como geriu a maioria absoluta de 2022, deu sempre bons argumentos para o Chega crescer, na esperança de conseguir travar com esse crescimento o PSD. E o PSD, cada vez mais distante das suas origens programáticas, fez o resto. Na realidade PS e PSD trocaram as suas matrizes políticas por tácticas de conveniência apenas com a luta pelo poder em vista e o resultado foi este: o Chega teve 1,9% de votos e um deputado em 2019, 12 deputados e 7,18% dos votos em 2022, 18,7% dos votos e 50 deputados em 2024 e 60 deputados e 22,76% dos votos em 2025. No Parlamento Ferro Rodrigues primeiro, e Santos Silva depois, fizeram tudo o que podiam para dar palco a André Ventura e com isso conseguiram que o PS ficasse atrás do Chega e que o PSD se aproximasse de André Ventura em nome da governabilidade tacticista. A coisa não está brilhante. Na realidade está bastante escura.


 


SEMANADA - Lisboa é o distrito onde se verifica um maior número de despejos, que aumentaram 21% no espaço de um ano; os custos de construção de casas novas subiram 4% em Junho face a igual mês do ano passado; o preço dos quartos para estudantes subiu 33% em três anos; as apólices individuais de seguros de saúde tiveram um crescimento de 6% em 2024 e já abrangem quatro milhões de pessoas; 96% dos estudantes do 9º ano tiveram nota negativa na prova de matemática; o Governo reconheceu não ter dados sobre o número de mães que pedem direito a dispensa para amamentação dos filhos nem sobre eventuais abusos verificados; Portugal tem 10 aeronaves que podem ser usadas para combate aos incêndios rurais, mas comprou-as sem os "kits" necessários para as adaptar para essa finalidade; a área ardida até agora neste ano já ultrapassou a média dos últimos 20 anos; o plano oficial que previa a limpeza de um milhão de hectares de floresta no ano passado apenas tratou 400 mil hectares; as exportações portuguesas para os Estados Unidos caíram 39% em Junho; o peso do investimento americano no mercado de capital de risco nacional chega quase a 80% ; 58% das equipas do futebol português têm accionistas estrangeiros; o Fisco está a investigar a fuga ao pagamento de impostos de mais de 536 milhões de euros, um crescimento de 26% face a 2023 ; em 2024, existiam em Portugal 563 salas de cinema, mas em 174 concelhos não há nenhuma; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos indica que no início da década de 1960 nasciam mais de 200 mil bebés por ano e  hoje esse número é inferior a 85 mil. 


 


O ARCO DA VELHA - Uma assistente social, casada com o Presidente da Câmara de Esposende, atropelou uma menor que esteve internada 16 dias em estado grave, não parou depois do acidente que diz não ter percebido que ocorreu e nem ela nem o marido contactaram posteriormente a vítima ou a sua família.


 


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UMA AVENTURA NA ESTRADA - Pode alguém planear uma viagem de duas semanas sózinha e depois seguir um caminho completamente diferente, e pelo meio ter uma série de revelações sobre si própria, os amigos, a família, a sua sexualidade e os seus interesses? “De Quatro”, da norte-americana Miranda July dá uma resposta afirmativa a todas estas questões. O livro conta como uma mulher de 45 anos, casada, um filho, uma artista que trabalha em publicidade, cujo nome nunca é referido, mas que é a narradora de tudo o que se passa, programa uma viagem de Los Angeles, onde vive, a Nova Iorque onde deseja ir rever amigos e ver exposições. Decide ir de carro, sózinha, mas sucede que escassa meia hora depois de sair da sua cidade sai da auto-estrada para meter gasolina e encanta-se por um rapaz que vê numa bomba de gasolina. Decide alugar um quarto num Motel e gasta todo o dinheiro que tinha para a viagem, vinte mil dólares, a remodelá-lo. É nesse quarto que passa todo o tempo que a sua viagem era suposta demorar. Ao marido e filho nada conta, e ilude-os inventando onde está ao longo do itinerário previsto, dando a ilusão que de facto está em viagem. A relação com o rapaz é um misto de atracção com desejo não consumado e as conversas que têm e o que vai descobrindo levam-na a repensar a vida e viver experiências que lhe abrem  novos horizontes físicos e sexuais. A protagonista, uma mulher de meia idade, procura, e encontra, uma vida que antes não tinha. Miranda July é realizadora e argumentista de filmes, actriz e, também escritora. Este “De Quatro” é a sua segunda novela. O “New York Times” escreveu que este livro “ inspira as mulheres a fantasiar sobre desejo e liberdade”. Originalmente editado em 2024, foi considerado livro do ano pelo The Observer e foi finalista do National Book Award. Edição Quetzal, tradução de Telma Costa.


 


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A NORMALIDADE DA PINTURA -   No regresso de férias, a partir do início de Setembro, pode ver  na galeria  Jahn und Jahn, em Lisboa,  a exposição “normal”,  da artista alemã  Gülbin Ünlü. O título, pode ser lido como uma espécie de provocação que tem por base a pergunta: o que significa que algo seja normal? As obras expostas respondem a essa questão proporcionando uma visão sobre o método de trabalho do artista através das 14 obras que são apresentadas. Para Gülbin Ünlü tudo o que a rodeia e está no interior do seu atelier, mesmo peças que regressaram  de uma exposição num museu, são matéria prima que continua a utilizar, por vezes colocando novas camadas em pinturas e, noutros casos, retirando-as.  Ünlü sublinha que para qualquer artista que trabalhe primariamente no domínio da pintura o movimento é fundamental: a velocidade e pressão da pincelada influencia directamente a intensidade da cor. Assim Ünlü, desenvolveu uma técnica que reflecte esse dinamismo, fundindo pintura e gravura. Em muitas das suas obras, Ünlü começa por compor imagens digitalmente, para depois selecionar fragmentos, imprimi-los em película e transferi-los, ainda húmidos, para tela ou tecido, trabalhando-os depois. A exposição pode ser visitada até 10 de Setembro na Rua de São Bernardo 15-1º, de quarta a sábado entre as 12 e as 19h00 e mediante marcação para o telefone 213 950 708.


 


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ROTEIRO - Se estão em Lisboa tenho uma sugestão para os dias de calor: visitem o Museu Nacional de Arte Antiga, onde poderão ver a magnífica selecção de obras primas da pintura europeia com destaque para o tríptico das “Tentações de Santo Antão”, de Jheronimus Bosch na “Sala do Tecto Pintado”( na imagem), junto a outras “tentações” flamengas do século XVI onde se pode perceber a influência do imaginário do diabólico criado por Bosch. Nas nove salas da exposição pode também ver duas pinturas de Nuno Gonçalves e obras de Piero della Francesca, Bartolomé Bermejo, Hugo van der Goes e Dürer, entre outros. Para os mais novos saiba que de terça a sexta, de manhã ou à tarde, há visitas-jogos para grupos de crianças, mediante marcação no site do MNAA. Há outras exposições, entre elas as de novas aquisições e de desenho europeu do século XVI ao século XVIII sobre seres e animais fantásticos e pode sempre percorrer os jardins com uma magnífica vista sobre o Tejo e parar no restaurante e cafetaria que está aberto de terça a domingo entre as 10h00 e 17h30.  


 


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MÚSICA REVISTA - No início deste século, há pouco mais de 20 anos,a prestigiada editora discográfica Verve teve a ideia de convidar DJ’s e produtores a pegar em canções do seu catálogo de standards de jazz e blues e dar-lhes uma nova roupagem. Assim nasceu a série “Verve Remixed”, que teve quatro volumes. A capa que aqui se reproduz é do primeiro, editado em 2002 e que inclui remixes de temas de Nina Simone, Billie Holiday, Astrud Gilberto, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald ou Shirley Horn, entre outras. Para assinalar as duas décadas da série a Verve  editou o primeiro dos discos numa edição especial em vinil laranja e amarelo. Podem ouvir as várias versões no Spotify e há mesmo uma playlist que junta todos os discos da Verve Remixed.


 


ALMANAQUE - Em Londres, a partir de 28 de Agosto, poderão ver na prestigiada galeria Gagosian uma exposição com 18 fotografias feitas por Paul McCartney no início da carreira dos Beatles, “Rearview Mirror: Liverpool-London-Paris”. As fotografias foram feitas no final de 1963 e no início de 1964, durante a primeira digressão do grupo aos Estados Unidos, depois do êxito obtido pelos dois primeiros álbuns da banda, “”Please Please Me” e “With The Beatles”.


 


DIXIT - “A Europa capitulou (...) porque é um projecto político adiado, incompleto, indefeso e crescentemente disfuncional” - Pedro Norton sobre as negociações de taxas alfandegárias entre os Estados Unidos e a União Europeia.


 


BACK TO BASICS -  “O que quero de todos os portugueses é o seguinte: sejam curiosos; e que a organização em sociedade possa ser de tal maneira que eles possam satisfazer essa curiosidade completamente”  - Agostinho da Silva


 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


 


 







agosto 09, 2025

SOL E SOMBRA


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Em relação à prática da praia sou um pouco paradoxal: em não havendo sombra, não contem comigo. Ficar à torreira do sol não é coisa que me agrade. Fico inquieto, transpirado e, se a coisa demorar muito tempo, mal disposto. Preferia os toldos antigos de lona a estes chapéus meio tropicais que se tornaram a imagem de marca de muitas praias portuguesas. O toldo permitia orientar a sombra, puxando as cordas e fazendo variar o ângulo da lona É toda uma ciência que agora entra para o rol dos conhecimentos desnecessários. O chapéu de palhota é estático, temos que andar à volta dele a arrastar a espreguiçadeira à procura da sombra e há sempre um bocado do corpo que fica de fora. Sombra redonda é sombra incompleta. Por falar nisso, faço parte daquela minoria silenciosa que prefere uma cadeira a uma espreguiçadeira. Ler sentado é bem melhor que deitado e já que se vai à praia iluminam-se as ideias em vez de tostar na cabeça. Mas pronto, palhotas com espreguiçadeira é o que temos, e haver uma nesga de sombra já é bem bom. Só gosto de sol quando caminho à beira mar - e escusam de pensar que faço longas distâncias. Ando um bocado a chapinhar, de vez em quando entro dentro de água para refrescar, dou meia volta e ando para trás. Não corro nem uso aparelhos para medir passos e distâncias. Não vou à praia fazer treino físico, e quando vejo alguém nessa actividade fico sempre a pensar na falta de noção - e elegância - de muita gente. Gosto de andar sózinho, a espreitar o que o mar deixou na areia, volta e meia a ver a espuma das ondas. Andar na areia é um bom exercício visual - quer olhando para o mar, olhando para o chão, ou voltando a atenção para cima a observar o areal e seus habitantes. No fundo, bisbilhotar. Se não fosse assim, a praia não tinha metade da graça.


 

agosto 08, 2025

Episódios da comunicação governamental

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COMUNICAÇÃO - O Governo de Luís Montenegro despacha actividade quase ao ritmo com que Trump assina ordens executivas e na última semana têm surgido notícias que vão da educação à reforma do Estado, passando pela revisão da legislação laboral. Mas começa a saltar à vista que existe um problema de comunicação na atividade do Governo: as medidas são anunciadas mas  frequentemente são mal explicadas - o caso da legislação laboral é talvez o mais gritante exemplo disso mesmo nas medidas recentes, mas a extinção da FCT também. É certo que alguns dos ministros envolvidos nestas medidas têm pouco jeito para comunicar, mas os seus assessores podiam aconselhá-los melhor. Não chega dizer que se vai fazer em termos gerais, é fundamental explicar e justificar o que se anuncia. A não ser assim cria-se especulação e dá-se azo à desinformação, que é o que acontece com os casos da revisão do período de aleitamento na lei laboral, a revisão da legislação sobre emigração, as alterações fiscais ou a extinção da FCT ou as alterações na disciplina de cidadania. Já nem falo do caso da saúde onde o que é anunciado esbarra frequentemente com o desmentido que os factos mostram - um confronto entre a propaganda mal feita e a realidade. Por vezes os governantes envolvidos têm uma posição arrogante tipo “quero posso e mando”, noutros casos são apenas desprovidos de senso comum e falam para o país como se estivessem a falar para accionistas na assembleia geral de uma empresa. Na realidade são os cidadãos a pagar o funcionamento do Governo e do país e merecem ser bem informados sobre o que perdem e ganham em cada mudança. E claramente não é isso que está a acontecer - o Governo privilegia o foguetório em vez da serena comunicação. Assim não vai por bom caminho. Quando o Presidente da República afirma, sobre o reagrupamento familiar dos emigrantes que a lei “será julgada pela História” está tudo dito. Como Miguel Monjardino afirmou numa entrevista à revista “Ler”,  os governantes contemporâneos,  são líderes que se mantêm no poder através de ‘presidências cinematográficas’: o Governo não interessa, o que interessa é ter um episódio novo todos os dias”.



SEMANADA - A área ardida até meio de Julho triplicou face ao ano passado;só na última semana a área ardida este ano mais que duplicou; nos últimos 12 anos o número de reclusos nas cadeias portuguesas presos por atearem fogos aumentou de 21 para 65; entre 2021 e 2024 houve 72 ordens de encerramento de creches por falta de condições ou de licenciamento; entre 2019 e 2024 foram sinalizadas em Portugal 2211 presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos; o aumento do preço da habitação em Portugal no primeiro trimestre de 2025 foi de 18,7%; o número de despejos nos primeiros cinco meses deste ano aumentou 14% em relação ao mesmo período do ano passado; no mês de maio verificou-se um acréscimo de 5% das aterragens diárias de vôos comerciais nos aeroportos portugueses em comparação com o mesmo período do ano passado; entre 2015 e 2024 o número de dormidas em estabelecimentos de alojamentos turísticos aumentou 51%; a idade média do conselho estratégico do PS é de 67 anos; um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos; o salário mínimo português, 870 euros, desceu um lugar na tabela europeia, para a 12ª posição, depois de a Grécia ter aumentado a sua retribuição mínima para 880 euros; este  ano estão confirmados 383 festivais de verão  em todo o território nacional, o maior número de sempre. 


 


O ARCO DA VELHA - Apesar de ter gasto quase 90 milhões de euros nos últimos dois anos a queimar vinho que existia em excesso e que os produtores não conseguiam escoar, Portugal continua a importar vinhos a granel de Espanha.


 


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HISTÓRIAS DO PODER - Para não estar a ler apenas romances policiais em férias, e depois de muito ter ouvido falar de Giuliano da Empoli, atirei-me ao seu mais recente livro, “A Hora dos Predadores”. O autor, de origem italiana e suíça, estudou direito e ciência política e tem ocupado cargos de conselheiro de membros de governos italianos, como o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, e fundou um think tank a que chamou “Volta”. Estar no círculo do governo permite-lhe assistir na primeira fila ao funcionamento das instituições e de dirigentes mundiais. Empoli tem estudado com particular cuidado a modificação operada na actuação política através das redes sociais e os efeitos da digitalização na comunicação - antes tinha escrito, precisamente sobre esse tema,”Os Engenheiros do Caos”. Neste “A Hora dos Predadores” Giuliano da Empoli relata as suas experiências em locais que vão da sede da ONU em Nova Iorque até uma reunião no hotel Ritz Carlton em Riade com  Mohammed Bin Salman, o príncipe que governa a Arábia Saudita,  passando por uma descrição hilariante de um jantar da Fundação Obama. São nacos de excelente prosa que nos ajudam a ver o mundo de outra forma e a compreender como as aparências iludem - e muito. É um livro de leitura rápida, 120 páginas, e quando acabei de o ler fiquei com a sensação que tinha lido a versão moderna de “O Príncipe”, de Maquiavel, centrada nas comparações dos líderes de vários países e organizações com César Bórgia, o príncipe italiano cuja vida e acções inspiraram Maquiavel. O livro é atual e alerta para a situação grave que a Europa atravessa. Cito um parágrafo, que retrata o presidente norte-americano: “No fundo, Trump é apenas e enésima ilustração de um dos princípios imutáveis da política, que qualquer um pode constatar: não há praticamente nenhuma relação entre o poderio intelectual e a inteligência política”. “A Hora dos Predadores", de Giuliano da Empoli, foi traduzido por Jorge Pereirinha Pires e editado pela Gradiva.


 


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ALGARVE FOTO -   Até 23 de Agosto, na 3.ª edição da Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro pode ver 13 exposições de fotografia e uma de cartoons na Fábrica da Cerveja, em pleno centro histórico de Faro, uma organização da CC11 com o apoio do município local, sempre com entrada livre até às 11 da noite de terça a sábado e no domingo de manhã. No piso térreo pode ver “A Fabulosa Máquina de Fazer Parar o Tempo”, um trabalho de João Paulo Barrinha, do Walking Camera Project em que o acto fotográfico é encarado como performance, recorrendo à fotografia à la minute. No piso 0.5 está o projecto vencedor da 1.ª edição do Prémio CC11 Fotografia, “Blessed Ground”, de Ricardo Lopes, um ensaio documental feito durante 2024, sobre o impacto da extracção industrial de ouro em comunidades rurais de Moçambique (na foto em cima). Na sala ao lado pode ver um mergulho nas tradições da destilação de aguardente de medronho, ainda bem vivas nas serras de Monchique e Espinhaço de Cão. "Alambiques & Alquimistas”  de João Mariano. No piso 1,  Marc Schroeder apresenta “Muito Frágil”, um regresso à fotografia de retrato feito em 2023  na zona da Alameda, em Lisboa, quando ia pedindo a estranhos para os  retratar (na foto em baixo).


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Na outra sala, “Margem Sul” , de Luís Ramos, mostra um território de contrastes, das migrações internas dos anos 60 aos recém-chegados nómadas digitais. No piso 1.5, “Joy Bangla” é  projecto de 2024 de Filipe Bianchi, que dá a conhecer o quotidiano da comunidade bangladeshi do bairro do Intendente, em Lisboa. Ao lado Alberto Picco olha para a cidade de Setúbal e os seus vestígios industriais, transformando ruínas e estruturas abandonadas em símbolos de memória e identidade. A mistura de técnicas e suportes de “Crossing Boundaries” levanta questões sobre os eventuais limites da fotografia enquanto possível espelho do real, através da mistura de técnicas e suportes. No piso 2, cinco exposições: na primeira sala está uma retrospectiva,do percurso do fotojornalista Carlos Lopes (1949- 2021), a partir de uma selecção de Clara Azevedo e Daniel Rocha, “O’ Lopes”; a sala seguinte acolhe 31 fotografias do projecto “Cante”, de Ana Baião, o retrato de quem dá corpo e voz ao cante alentejano, feito ao longo de uma década, numa selecção dos curadores António Pedro Ferreira e João Mariano. No mesmo período de tempo (entre 2014 e 2024), mas numa geografia distinta, Joe Wood emigrou para a Lituânia e “Middle Ground” é uma viagem fotográfica pelo país, mostrando a sua transformação e identidade. “Change Of Season”, um projecto da Procurarte,  mostra o trabalho de 13 fotógrafas  que reflectem sobre os processos de transformação, identidade e mudança:  Adriana João, Ana Alejos, Beatriz Banha, Beatriz Blasi, Carla Rebelo, Carolina Lino, Carolina Tardin, Catarina Cesário Jesus, Cristiana Ortiga, Eugénia Burnay, Joana Hintze, Rita Ruivo e Vera Cruz A fechar este piso, um salto no tempo. com “O Algarve de Asta e Luís de Almeida d’Eça”,  um mergulho no passado, no arquivo fotográfico deste casal que se notabilizou na fotografia vocacionada para a promoção turística ao longo das décadas de 1960 a 1980. O piso 3 está inteiramente dedicado a “Da Ucrânia Com Amor” de Adriano Miranda, que reúne fotografias e crónicas publicadas no jornal Público que dão um testemunho directo da guerra. E no piso térreo pode ver “Senhor Lobo”, de André Carrilho, uma selecção de ilustrações criadas para a imprensa ao longo de 2024. Mais uma vez a Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro é uma oportunidade para ver o trabalho de fotojornalistas consagrados e de jovens fotógrafos.


 


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ALMANAQUE - E que tal escolher Málaga como destino de uns dias de férias? Na cidade estão museus como o Thyssen Bornemisza, o Museu Picasso, o Centro Pompidou de Málaga, o Museu da Cidade, além de temáticos sobre automobilismo, vinho, videojogos ou História Militar, para só citar alguns. No Thyssen pode ver a exposição  American People. American Documentary Photography (1930–1980),  com trabalhos de Harry Callahan, Imogen Cunningham, Walker Evans, Louis Faurer , Robert Frank, Lee Friedlander, Anthony Hernández, Helen Levitt, Susan Meiselas, Tod Papageorge e Garry Winogrand /esta foto de Marylin). E no Pompidou pode ver uma exposição sobre a obra de Vassily Kandinsky, pioneiro da arte abstrata”. Málaga, a sexta maior cidade de Espanha,  fundada pelos fenícios no século XII, localiza-se na Andaluzia, na costa sul do país, junto ao Mediterrâneo e lá está a praia da Malagueta. Além disso é um bom destino gastronómico.


DIXIT - ““Um painel situado algures entre os hóspedes de um lar e a respectiva família não augura estratégia nenhuma.” - Manuel Carvalho, no “Público”, sobre o Conselho Estratégico do PS.


BACK TO BASICS -  “Já não sou suficientemente novo para achar que sei tudo” - Oscar Wilde


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




agosto 02, 2025

O BARCO DOS DESEJOS

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Um cais é sempre um lugar de surpresas que puxam pela imaginação. Por exemplo este barco,descoberto num passeio acidental à beira da amurada, é incontornável. O contraste entre a sua cor e a da água onde se equilibra prende logo os olhos. Sózinho num pequeno barco no alto mar não deve ser agradável. Mas imaginar-me naquele barco, ali perto do cais, a remar  ao longo da amurada, é uma tentação. Um barco assim pode ser um refúgio, um salto fora do quotidiano. Quando estou no meio da cidade, nestes dias de calor intenso, às vezes vem-me esta imagem à cabeça e sonho em sentar-me ali na popa, a namorar com o banco em frente, o fresco da água a acariciar-nos, livres dos ruídos, sem distracções. O barco ocorreu-me quando, no meio do trânsito, fiquei parado num engarrafamento, entalado entre dois carros e olhei para o que estava do meu lado esquerdo. Lá dentro um casal na casa dos 30 anos, carro recente, de boa marca, cada um com o seu smartphone na mão, ambos a olhar para os ecrãs, sem falarem um com o outro, como se fossem estranhos num autocarro sentados em bancos próximos. O mundo deles resumia-se aos telemóveis, não havia nada, nem os outros carros, nem o trânsito à volta, nem eles próprios se calhar. Estavam isolados da realidade, imersos sabe-se lá em quê.. Quando o semáforo abriu, dois ou três carros à sua frente, não deram por nada - só foram despertos pelo insistente buzinar de alguns condutores que atrás deles, queriam andar e não podiam. Fizeram má cara por terem sido distraídos dos seus ecrãs. Encolho os ombros, o meu pensamento volta ao barco que parece chamar por quem passa. A mim só me apetece dizer-lhe fique onde está, a alimentar-me o desejo. (os pensamentos ociosos estao à sexta em sapo.pt)