agosto 29, 2025

O INCÓMODO DOS NÓMADAS DIGITAIS E DOS REFUGIADOS FISCAIS

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LÁ VAI LISBOA - Gosto sempre de ler aquilo que os estrangeiros dizem sobre Portugal e os portugueses. Recentemente o jornal Guardian publicou um artigo de uma inglesa que vive em Lisboa desde há cinco anos, Alex Holder, na qual ela se interroga sobre se estará na hora de, tal como outros nómadas digitais já ponderam, deixar a cidade. A autora admite que existe uma tensão crescente entre os estrangeiros que vêm para Lisboa beneficiar dos incentivos fiscais dados aos estrangeiros e o resto da população que crescentemente olha para eles com desconfiança. E interroga-se, ela própria, sobre se esta situação está a ser mais prejudicial que benéfica ao país que os acolhe e sabe que muitos locais cada vez mais acham os residentes estrangeiros arrogantes e olham para eles de lado. Ela tem consciência que este afluxo de nómadas digitais fez disparar os preços das rendas de casa e do imobiliário em geral, assim como influencia o aumento do custo de vida. E sente que há lisboetas que já não escondem o seu desagrado pela invasão estrangeira, que cada vez torna mais difícil a vida na sua cidade. Eu próprio sou testemunha de que em Campo de Ourique, onde na colónia de estrangeiros há uma maioria de franceses, a arrogância que mostram, típica aliás da sua nacionalidade, é notória e muito desagradável. E no Centro Comercial das Amoreiras, em tempo de aulas, agora quase a recomeçar,  as barulhentas invasões de alunos do Liceu Francês, que fica do outro lado da rua, mostram o seu lado arruaceiro, gritando palavrões em francês com a arrogância dos imbecis que julgam que só eles falam esse idioma. Alex Holder relata o rol de coisas que aconteceram na cidade nos últimos anos: lojas tradicionais a  fechar,  novas lojas abertas por estrangeiros que não têm nada a ver com a cultura local e que funcionam num ghetto onde proprietários e clientes são de outros países e onde mal se encontram portugueses. A autora reconhece que há um crescente isolamento entre a comunidade de estrangeiros de vários países que trabalham remotamente a partir de Lisboa e os portugueses, que ganham menos, pagam mais impostos e se vão vendo desalojados da sua cidade. Holder admite que, face ao aumento dos preços, agravado com a  entrada em cena de norte-americanos,  que acham tudo barato e são litigantes e conflituais, até mesmo pessoas de outros países admitem já  começar a pensar em encontrar novo poiso. E já nem se fala do lixo acumulado e agravado pela invasão de turistas, das ruas sujas e descuidadas, dos jardins que se deterioram. Lisboa, que começou a ser vendida às postas por Medina, continua, infelizmente, nas mãos de Moedas, a ser entregue a quem mais der. Estou certo que não foi nisto que muitos lisboetas, entre os quais me incluo, votaram há quatro anos. 


 


SEMANADA - No primeiro semestre deste ano as câmaras municipais arrecadaram um valor histórico de 65 milhões de euros com a taxa turística, valor que compara com os 33 milhões de euros encaixados no mesmo período do ano passado; Lisboa já cobrou em taxas turisticas, no primeiro semestre deste ano, 38,3 milhões de euros, um aumento de 98% em relação ao mesmo período de 2024; a receita total do Imposto Municipal sobre as Transmissões onerosas de imóveis (IMT) ascendeu a 1.732,8 milhões de euros em 2024, o valor mais elevado de sempre; a receita total de IMI relativa ao ano de 2024 foi de 1.466 milhões; as autarquias arrecadaram portanto cerca de 3,2 mil milhões de euros com impostos relativos à compra ou posse de casa; a fatura média da água subiu mais de 16% em três anos, sendo que a gestão dos resíduos urbanos e das águas residuais é responsável por 59% da fatura do fornecimento de água; por todo o país sucedem-se as queixas pela acumulação de lixo nas ruas cujo tratamento é da responsabilidade das autarquias, e isto apesar de todos os valores que cobram em impostos e taxas; os municípios portugueses já gastaram neste ano eleitoral entre 1 de janeiro e 20 de agosto mais 32% em concertos do que no mesmo período de 2024, num total de 13,4 milhões de euros; há câmaras municipais, como Tábua, Melgaço e Évora, que levam mais de cinco meses a pagar aos seus fornecedores e pelo menos 5,5% dos municípios em Portugal pagam as suas faturas a mais de 60 dias;  Setúbal, Santa Comba Dão e Pinhel demoram mais de cem dias a pagar; os fundos do PRR para a construção de faixas de segurança para facilitar o combate a incêndios florestais tinham apenas 23% de execução em junho passado; o Portal da Queixa já recebeu este ano mais 18% de queixas dirigidas a câmaras municipais sobre a falta de limpeza de matas e terrenos.


 


O ARCO DA VELHA - Há seis entidades diferentes no dispositivo de combate aos incêndios florestais, há dispersão e funções duplicadas, demasiados chefes e não existe um mecanismo comum de coordenação e comando, indica um estudo divulgado esta semana.


 


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UM MISTÉRIO GELADO - Dos livros que já li da islandesa Yrsa Sigurdardóttir “A Presa”, um original de 2020 agora editado entre nós é um dos mais imprevistos em termos de narrativa e inesperados em termos de conclusão. É um misto de livro policial e de história de terror. Ao contrário de boa parte dos livros da autora já editados em Portugal, este não se baseia em nenhuma das personagens recorrentes da sua ficção, como Thóra Gudmundsdóttir ou Freyja & Huldar (que protagonizaram a série DNA). Em “A Presa” Yrsa Sigurdardóttir desenvolve uma história que se desenrola entre a descoberta de um sapato de criança enterrado no jardim de uma casa, a busca por um grupo de aventureiros mal preparados numa expedição nas paisagens geladas da Islândia e uma estranha morte ocorrida muitos anos antes. As duas histórias não se cruzam e têm um remoto ponto comum. Quando o leitor pensa que uma vez resolvido mistério do desaparecimento e morte, pelo frio, dos aventureiros, é confrontado com uma nova situação, que não vou aqui relatar e que mostra a capacidade ficcional da autora. As 400 páginas do livro lêem-se num fôlego, sempre na expectativa do que pode acontecer  a seguir. Mas é esse o objectivo de um policial, certo? Boa tradução de Maria José Figueiredo, edição Quetzal.


 


RHP. #2 Cruzar o fogo. Pastel seco s_ papel negro


UM OÁSIS NO VERÃO - A Galeria  Salgadeiras - Arte Contemporânea, que se chama assim por ter nascido na Rua das Salgadeiras, no Bairro Alto, mudou há alguns meses para a zona de Alvalade, que começa a concentrar uma assinalável actividade nesta área. Ao longo dos tempos a Salgadeiras, dirigida por Ana Matos, tem criado uma identidade própria, atenta a novos artistas e a vários géneros de expressão artística, do desenho ao vídeo, passando pela fotografia, a pintura ou a escultura. Agora, quando grande parte das galerias de arte lisboetas ainda estão encerradas para férias, a Salgadeiras abriu na semana passada a exposição «Queimar o céu da boca», que é apresentada como uma colectiva de verão e que teve curadoria de Rui Dias Monteiro, para quem esta mostra  “é resultado de um ano de convívio e de trabalho com os artistas e obras da galeria”. Estão expostos até 20 de Setembro trabalhos de Augusto Brázio, Fátima Frade Reis, Martinho Costa, Rita Gaspar Vieira, Rui Horta Pereira (na imagem) e Rui Soares Costa. A Salgadeiras fica na Avenida dos Estados Unidos da América 53D.


 


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ROTEIRO - Em Lisboa, na Galeria Vera Cortês, pode ver até 13 de Setembro “Al Tramonto” uma exposição colectiva  com curadoria de Antonia Gaeta, que agrupa trabalhos de Ana Santos, Fala Mariam de Lisboa, Juliana Matsumura e Manuela Marques (na imagem). Mais a a sul, na Casa das Artes , em Tavira, pode ver até 13 de Setembro a exposição que assinala 40 anos da galeria. Sob o título “Empatia e Resistência” são exibidas obras de quatro dezenas de artistas como Adriana Molder, André Cepeda, João Louro, Manuel João Vieira, Pedro Cabrita Reis, Pedro Chorão, Pedro Calapez, Rui Chafes, Xana e Valter Vinagre, entre outros. E para finalizar, no Museu Berardo Estremoz, focado na azulejaria, pode-se ver até  novas aquisições, com destaque para o  conjunto de azulejos provenientes do Paço Ducal de Vila Viçosa que revestiam as salas mais requintadas deste palácio. Estes azulejos fizeram parte de uma encomenda do Duque D. Teodósio às oficinas de Antuérpia e é considerado um verdadeiro tesouro nacional, por se tratar do primeiro programa azulejar renascentista do país. O Museu está localizado no Palácio Tocha.


 


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 UM DISCO DELICIOSAMENTE SIMPLES - Cass McCombs é um músico e compositor norte-americano que tem tido uma discreta mas importante carreira no território  folk-rock, que começou no início deste século e que tem já no activo 11 álbuns, o mais recente dos quais é “Interior Live Oak”, editado fisicamente na forma de um duplo LP com 16 músicas que totalizam 74 minutos. McCombs é antes de mais um esplêndido contador de histórias, cada canção desenha-se como um capítulo de uma novela onde ele nos vai contando as suas experiências de vida e desejos em canções que têm títulos como “Home At Last”, “I’m Not Ashamed”, “I Never Dream About Trains”, “Diamonds in The Mine” ou o delicioso “Lola Montez Danced The Spider Dance”. A produção é minimalista, no disco McCombs canta e toca guitarra com mais três músicos: bateria, baixo e teclas. Este “Interior Live Oak” é mais uma prova de que a simplicidade pode ser  a melhor forma de fazer música - canções com boas melodias, palavras que fazem sentido e arranjos eficazes. Disponível em streaming.


 


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ALMANAQUE -  A Atlas Gallery, de Londres, adquiriu recentemente todo o importante espólio de fotografia da Marlborough Gallery que inclui impressões de exposição assinadas por  nomes como Berenice Abbott, Brassai, Robert Frank, Helmut Newton e Bill Brandt. Para assinalar a compra desta importante colecção expõe até 25 de Outubro  uma série de fotografias feitas por Bill Brandt sob o título “Beach Nudes”, a maioria nos anos 40 e 50 do século passado na costa leste de Sussex e no sul de França. As fotografias foram feitas quase sempre com uma grande angular que distorcia propositadamente as formas dos corpos fotografados. A Atlas Gallery fica no nº 49 de Dorset Street.


 


DIXIT - “Um desleixo civilizacional generalizado em relação ao espaço público por parte dos responsáveis em Lisboa” - Teresa Gouveia, a propósito da situação no Jardim do Príncipe Real.


 


BACK TO BASICS -  “Um pacificador é alguém que vai alimentando um crocodilo na esperança que o animal não o devore “ - Sir Winston Churchill


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS