dezembro 30, 2021

ELEIÇÕES PARA QUE VOS QUERO....

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TRANSFORMISMOS - Estamos em plena época áurea do transformismo político. Tudo começou com o início da crise actual, quando alguns integrantes da geringonça resolveram  deixar os camuflados com que andaram uns anos e vestiram novas roupagens, com maquilhagem apropriada. Ainda não percebi se estavam a contar com o desfecho que isto teve, ou se foram vítimas da sua criatividade e, sejamos francos, da sua voracidade política. Seja como fôr o motor da geringonça, que era o PS, também se cansou das birras e bateu o pé. Os passos posteriores já se conhecem: o Presidente fez o que disse que faria, dissolveu a Assembleia, convocou eleições e sentou-se à espera. O que se seguiu é um misto  de campeonato de roleta russa com uma simultânea de xadrez, que se desenrolou em reuniões e eleições  partidárias e no sempre muito divertido e esclarecedor processo de elaboração das listas de candidatos a deputados por cada clube. Já se percebeu que o CDS ficou entalado por falta de parceiro para dançar a valsa da coligação, que o PSD acordou cheio de entusiasmo depois de Rio ter passado a ser querido por todos (mesmo os que contra ele disputaram eleições),  que Pedro Nuno dos Santos ganhou novo fôlego com decisão de Bruxelas sobre a TAP e que António Costa se desmultiplica em sessões de propaganda televisiva: sem contar com o seu tempo de antena oficial, Costa apareceu na última quinzena em sete momentos televisivos entre declarações, entrevistas e presença em talk shows populares. Tudo, claro, antes de a campanha eleitoral começar. No fim de Janeiro há eleições, sabe-se lá como no meio do Ómicron. Mas há mais um problema que geralmente é esquecido: cruzando os dados do número de eleitores da Comissão Nacional de Eleições com as estimativas da população residente do Instituto nacional de Estatística verifica-se que há 600 mil eleitores a mais nos cadernos eleitorais, o que pode desvirtuar os resultados eleitorais.  


 


SEMANADA - Quatro investigadores do Instituto Superior Técnico estão a trabalhar num projecto para produzir um filete de robalo numa impressora 3D; nos dois dias do fim de semana de Natal foram cancelados 7000 vôos em todo o mundo; em Portugal foram realizados 620 mil testes ao Covid em dois dias, o que dá uma média de sete testes por segundo; no início da semana existiam 233 mil pessoas em isolamento em Portugal; o Papa Francisco encorajou os casais  a escutarem-se mutuamente para evitarem conflitos em vez de se colarem nos telemóveis; Portugal ficou ligado à Internet há 30 anos, em Dezembro de 1991; apesar das recomendações da Organização Mundial de Saúde só 31% dos alimentos para crianças cumprem todas as suas orientações, nomeadamente no tocante à presença de açúcar; este ano foram registados 35 casos de agressões a motoristas da Carris, um aumento significativo em relação ao ano passado; numa entrevista à CNN António Costa disse que seu objectivo não era a maioria absoluta nas próximas eleições e sorriu ao dizer que o seu objectivo era obter metade mais um do total de deputados; no espaço de uma semana a Omicron passou de 47% para 70% dos casos testados de COVID 19; Gouveia e Melo é o novo Chefe de Estado maior da Armada, mas o seu antecessor, que deixou críticas à forma como foi tratado pelo Governo, não esteve presente na tomada de posse que durou apenas dois minutos.


O ARCO DA VELHA - Apesar do voto contra do Parlamento, no final de 2020, o Ministro das Finanças encontrou um subterfúgio para injectar 317 milhões de euros no Novo Banco ao longo deste ano que está a findar.


 


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EXPOSIÇÕES EM TRÂNSITO - Aproveitem estes dias para visitar algumas exposições que vão terminar em meados de Janeiro. Sugiro que comecem na Fundação Gulbenkian, no Centro de Arte Moderna, por “Morder O Pó”, uma mostra individual de Fernão Cruz que apresenta uma seleção de pinturas e esculturas inéditas num projeto pensado de raiz para a Gulbenkian, comissariado por  Leonor Nazaré. São mostradas 30 obras inéditas: 10 telas pintadas a óleo e a resina e 20 esculturas, quase todas em bronze. Há um lado lúdico na pintura de Fernão Cruz (como se pode ver na imagem, numa fotografia de Bruno Lopes). Há cores vivas, jogos de formas, que têm continuidade nas suas esculturas em bronze. A exposição pode ser vista até 17 de Janeiro. Outras sugestões, agora na área da fotografia: “O Mais Comprido Museu do Mundo” é uma exposição que dá espaço a uma nova forma de ver e pensar a Estrada Nacional 2. De Chaves a Faro, a mais longa estrada portuguesa, ao longo de 739 quilómetros, é um percurso que muitos assumiram como roteiro de descoberta durante a pandemia que impediu outras viagens. A exposição tem curadoria de Pedro Campos Costa e Eduardo Costa Pinto, baseada em fotografias de Álvaro Domingues, Duarte Belo, Valter Vinagre, Daniel Malhão, Nuno Cera e Paulo Catrica. “O Mais Comprido Museu do Mundo” pode ser visitado até 15 de Janeiro de 2022 na Galeria Antecâmara, rua de Cabo Verde 17A. E para terminar, se puderem, vão até ao Largo do Chiado 15, à Escola do Largo, para ver o trabalho de Filipe Condado - podem fazer a marcação pelo telefone 912305928. As fotografias resultam de um convite a Filipe Condado, feito por Tolentino Mendonça quando era ainda pároco da capela do Rato, para acompanhar uma viagem à Holanda com o propósito de seguir o percurso que a escritora judia Etty Hillesum deixou registado num diário durante a ocupação nazi do país. Além da exposição está editado o livro “Nos Passos de Etty Hillesum”, com as fotografias de Filipe Condado e texto de José Tolentino de Mendonça.


 


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UM MISTÉRIO AFEGÃO - David Lagercrantz é um escritor sueco que ganhou notoriedade depois de ter sido convidado a escrever a continuação da trilogia Millennium”, após a morte do seu criador, Stieg Larsson. Agora Lagercrantz regressa com “Obscuritas”, um policial em nome próprio que ganha uma dimensão especial com o regresso ao poder dos talibãs no Afeganistão ocorrido este ano. Neste novo livro Lagercrantz parte da morte, na Suécia, de um árbitro, emigrado afegão, que comandava o jogo como se fosse um maestro a dirigir uma orquestra. “Obscuritas”, que se passa em 2003, em plena invasão do Iraque pelos Estados Unido, cruza a investigação com as perseguições e assassinatos que os talibãs fizeram, em 1997,  contra os músicos que tocavam música clássica ocidental, e com os esforços da CIA para evitar que alguns dos métodos que utilizou em Cabul fossem revelados. O livro baseia a história na acção da agente policial Micalea Vargas, de origem sul-americana, mas criada em Estocolmo, e na de Hanks Renne, um psicólogo e professor em universidades americanas que delas foi afastado num conflito com a CIA sobre técnicas de interrogatório. Ex- pianista com notoriedade, Rekke decide aplicar os seus conhecimentos de psicologia e de técnicas de interrogatório à descoberta, em conjunto com  Mikaela, do assassino do árbitro que estava, ele próprio, ligado à perseguição dos músicos afegãos. Um policial intrincado e aliciante.


 


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GRANDES VERSÕES - “Blind Date Party” é um divertimento em forma de disco, dirigido por Bill Callaham e Bonnie “Prince” Billy, que chamaram em seu auxílio um lote de músicos que normalmente trabalham com a editora independente Drag City, de Chicago. O repertório das 19 canções inclui versões de temas tradicionais de gospel, country, pop e rock. Entre os autores das canções estão nomes como Leonard Cohen, John Prine, Lowell George, e  Robert Wyatt O conceito do álbum é simples: Oldham e Callahan selecionaram canções que gostavam ambos de cantar e enviaram-nas a vários e bem diferentes convidados que trataram de fazer arranjos e gravar as suas próprias contribuições, devolvendo as novas versões ao duo que tinha lançado o desafio, que posteriormente as ordenou como agora aparecem na sequência de “Blind Date Party”. Oldham e Callaham não deram diretivas aos seus convidados quando enviaram as canções a cada um, contando com a criatividade e espontaneidade no trabalho remoto que todos foram fazendo. A ideia era mesmo que cada um fizesse aquilo que mais lhe agradava. E foi assim que, por exemplo, Cooper Crain, dos Bitchin Bajas deu ao tema de  Iggy Pop “I Want To Go To the Beach” uma versão reggae a reggae makeover, enquanto Bill McKay pegou nas sonoridades do samba brasileiro para refazer “Deacon Blues” dos Steely Dan. Outros pontos altos são a versão de Callahan para “Rooftop Garden” de Lou Reed ou a aventura pop de Sean O’Hagan em “Wish You Were GAy” de Billie Eilish.Mas o melhor mesmo é ouvirem o disco, hora e meia de grandes canções, numa destas tardes de fim de ano, um testemunho à imaginação musical. Disponível em streaming. 


 


UMA SANDUÍCHE COM SURPRESA - Estes dias foram difíceis imagino, aposto que anda aí no ar uma daquelas decisões de ano novo de fazer dieta e cortar muita coisa. Para quem se deliciou com alguns excessos, nada como uma ideia para uma refeição ligeira. A minha sugestão é uma sanduíche de peru. A que prefiro é em pão de centeio do Museu do Pão, muito levemente tostado. O peru quer-se fatiado em pedaços finos  (eu pessoalmente prefiro a carne mais escura). O segundo passo é barrar bem as duas fatias de pão com mostarda e, nessa matéria, a minha preferência vai para a Savora - que tem a consistência certa para espalhar no pão e não tem um sabor demasiado impositivo. A parte seguinte é distribuir os pedaços de peru em cima de cada uma das fatias de pão. E o remate é feito - e aqui é que está a surpresa - com fatias bem finas de maçã Granny Smith espalhadas generosamente sobre um dos lados. Fecha-se a sanduíche, calca-se um pouco e eventualmente faz-se uma uma ligeira prensadela  numa tostadeira. Vão ver que o sabor da maçã dá um toque especial, fresco. Acompanha com uma cerveja, nesta altura do ano de preferência uma cerveja preta artesanal, como a da Vadia. Podem rematar a refeição com laranjas algarvias, amplamente disponíveis nesta época, fatiadas e polvilhadas de raspa da sua casca e um pouco, pouco mesmo, de açúcar amarelo, tudo bem misturado e deixado a repousar uma meia hora antes de servir.


 


DIXIT - “Não podemos editar em cima de ideias feitas. O trabalho do editor é, exatamente, andar no escuro, tatear, provocar, e, no limite, inventar novos leitores” - João Paulo Cotrim


 


BACK TO BASICS - “Na passagem de ano um optimista fica acordado para ver o novo ano a entrar; um pessimista fica acordado para ver o ano velho a ir-se embora.” - Billy Vaughan, escritor. 


 








dezembro 23, 2021

ELEIÇÕES INCERTAS

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QUEM DECIDE AS ELEIÇÕES ? - Já viram o que se passou em dois meses? No final de Outubro, pela primeira vez em 47 anos, um orçamento foi chumbado no Parlamento; a geringonça desfez-se com acusações recíprocas e o Governo entrou em crise, perdendo até um passageiro; o Presidente da República dissolveu o Parlamento e convocou eleições legislativas antecipadas; a maioria dos partidos parlamentares realizou congressos; nas eleições directas do PSD, Rui Rio, que as não queria, saíu vencedor contra Paulo Rangel e uma boa parte do aparelho; o CDS entrou em crise profunda e viu saírem militantes históricos; Rui Rio fechou as portas a uma coligação pré-eleitoral com o CDS, criando o sério risco que os centristas tenham a sua pior votação de sempre; todas as sondagens indicam que os partidos que pela primeira vez entraram na Assembleia da República nas anteriores legislativas tenham um expressivo aumento de votação, o que provocará um reajustamento do quadro parlamentar. E, se olharmos para a frente, teremos uma campanha eleitoral marcada pela evolução incerta, mas preocupante, da pandemia. Tudo isto reforça as dúvidas sobre o cenário do dia seguinte às eleições. Quem decide o resultado das eleições? Muita gente especula como poderá ser a transferência de votos, sobretudo entre os dois maiores partidos. Não deixando de lado que essa transferência pode acontecer, creio no entanto que o fiel da balança vai depender, em grande parte, da forma como se portar o enorme núcleo de abstencionistas. Será que alguns vão desta vez decidir sair de casa para mostrarem o que querem? Nas recentes autárquicas, em Lisboa, foi o voto dos que decidiram sair de casa ao contrário do habitual, e a ausência  dos que sendo habituais votantes resolveram não votar dessa vez,  que alteraram o sentido das sondagens. E é nesse jogo, entre quem decide ficar em casa e quem decide sair no dia das eleições que se vai jogar o próximo Governo.



SEMANADA - Do Censos 2021: desde os anos sessenta do século passado o número de portugueses aumentou dois milhões; se compararmos com o que se passava há 20 anos Portugal perdeu mais de duzentos mil habitantes; a população imigrante estrangeira residente em Portugal deverá representar entre 5 a 6% do total e há quarenta anos eram menos de meio por cento; a população com mais de 65 anos representava 8% do total em 1960 e hoje anda pelos 24%; os pensionistas e reformados eram 120.000 há meio século e são hoje perto de quatro milhões, mais de 40% da população activa; há cinquenta anos os jovens com menos de 15 anos eram um terço do total da população e hoje são apenas 12%; os nascimentos que chegaram a atingir 200 mil por ano são agora cerca de 80 mil; nos anos 60 a agricultura ocupava 45% da população e hoje ocupa menos de 5%; na indústria chegou a trabalhar 40% da população e hoje a indústria ocupa apenas 24% dos portugueses; o analfabetismo, que nos anos 60 era de 40% hoje anda abaixo dos 5%; na mesma altura os alunos do secundário eram dez mil e hoje são 400 mil; hoje em dia cerca de 20% dos residentes têm um curso superior, quando há meio século eram menos de 1%; cerca de 25% das pessoas em Portugal vivem sózinhas; a área Metropolitana de Lisboa concentra 28% dos habitantes em território nacional; é no litoral que vive a maior parte da população; Odemira foi o município que ganhou mais gente nos últimos dez anos, quase 3 500 pessoas, o equivalente a um aumento de 13,3%, em grande medida devido à imigração, segue-se Mafra, Palmela, Alcochete e Vila do Bispo; o Alentejo foi a região onde a desertificação populacional mais se agravou, entre 2011 e 2021, com uma redução de 52 mil residentes (6,9%), seguido da Madeira com menos 6,2%; 


 


O ARCO DA VELHA - Há tradutores de tribunais à espera de serem pagos há dez anos.


 


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SURREALISTA SEIXAS - “O Sentido do Encontro” agrupa um conjunto de 160  obras de Cruzeiro Seixas, um dos principais representantes do surrealismo em Portugal. A exposição fecha o ciclo das comemorações do centenário do artista, que morreu em 2020, e está na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, até 26 de Fevereiro do próximo ano. “O Sentido do Encontro é uma exposição organizada pela Fundação Cupertino de Miranda, cuja colecção tem um apreciável conjunto de obras do autor, e tem como comissários Marlene Oliveira e Perfecto E. Cuadrado. Inclui ainda obras de diversas colecções, nomeadamente do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian, da Biblioteca Nacional de Portugal,do Centro Português de Serigrafia e do Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado. Esta exposição permite dar a conhecer algumas das mais importantes obras de Cruzeiro Seixas, apresentando as diferentes técnicas por ele exploradas e integra desenhos, pintura, colagens e objectos-escultura. Com entrada livre, a exposição conta ainda com o documentário As Cartas do Rei Artur, de Cláudia Rita Oliveira, além de objetos pessoais do artista, documentos e os seus «diários não diários», um registo de memórias, projetos e ideias, recorrendo essencialmente à colagem com fragmentos de vivências, com  alusões diárias do que se passava no seu universo pessoal e profissional. 


 


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UM SONHO ENCANTADO - Conheci “A Menina do Mar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, algures nos anos 80, numa edição que então foi feita. Mas não conhecia a edição original, de 1958, com ilustrações da pintora Sarah Affonso, que agora foi reeditada. “A Menina do Mar” é o primeiro conto da escritora para a infância e, tendo uma  praia como cenário, revela-nos a história de amizade entre um rapaz e a Menina do Mar. Cada um vive no seu mundo, o rapaz na terra e a menina no mar, mas a curiosidade de ambos leva-os a querer partilhar essas diferenças: a menina fica a saber o que é o amor, a saudade e a alegria; o rapaz aceita viver com ela no fundo do mar. A edição especial, agora lançada pela Porto Editora,  recupera a dezena de ilustrações originais que Sarah Affonso fez para a primeira edição. Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919 e publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia. Em 1944 saíu, em edição de autor, o seu primeiro livro de poemas, Poesia, título inaugural de uma obra que a consagrou como um dos grandes nomes da poesia portuguesa do século XX. Este “A Menina do Mar” é uma obra onde o encanto e o fantástico se cruzam, como que num sonho. No mesmo ano, 1958, escreveu outro conto infantil, “A Fada Oriana” e, depois, mais cinco até 1985: ” A Noite de natal”, “O Cavaleiro da Dinamarca”, “O Rapaz de Bronze”, “A Floresta” e “A Árvore”. Em 2012, já postumamente, foi publicado “Os Ciganos”, em co-autoria com Pedro Sousa Tavares. O texto da presente edição foi revisto de acordo com as notas deixadas pela autora em alguns exemplares e o poema “A Casa Branca”, que na primeira edição havia sido colocado em epígrafe, foi também mantido.


 


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O IMPROVÁVEL DISCO - Para o jornal “New York Times” o disco "Promises", que resulta da colaboração entre Pharoah Sanders e Floating Points, com a London Symphony Orchestra, é o melhor disco de jazz deste ano. O próprio jornal reconhece que este não é bem jazz, mas também não é música clássica, nem tão pouco música pop electrónica - o território de Floating Points, o nome de trabalho do compositor e músico britânico Sam Shepherd, um experimentalista em música electrónica que tem um doutoramento em neurociência. Pharoah Sanders, que já ultrapassou os 80 anos, é um saxofonista norte-americano que se afirmou no território do jazz improvisado e que integrou o grupo de John Coltrane em meados da década de 60. Sam Shepherd, com pouco mais de 30 anos, grava sob o nome Floating Points, geralmente a solo. O disco derruba as barreiras entre os mundos da música electrónica e acústica, percorrendo territórios do jazz, da música clássica e do pop.  “Promises”, uma obra em nove movimentos, com a duração de quase 50 minutos, foi gravado antes do início da pandemia, após um processo criativo que durou quase cinco anos,  mas só foi editado em Abril deste ano. Shepherd compôs a música, toca vários instrumentos e trouxe a London Symphony Orchestra para a interpretar. Pharoah Sanders é o ponto de união de tudo, com o seu saxofone (e, num momento a sua própria voz), a ligar todas as peças, com a sua forma de tocar, intensa e repleta de emoção. Este é um daqueles discos que surpreende e agarra à primeira audição. Editado pela Luaka Bop, disponível nas plataformas de streaming.


 


MESA DE NATAL - Por muitas voltas que se dê, o Natal passa-se à mesa e o que está nas travessas varia nas várias regiões do país, mas há três hipóteses incontornáveis: bacalhau, peru e polvo. Há regiões onde se ataca o bacalhau ou o polvo na noite de 24, outras em que se avança logo para o peru. O bacalhau originalmente queria-se de posta alta, e cozido, hoje já aparece disfarçado de várias formas. Tradicionalmente tanto polvo como bacalhau eram, nesta circunstância, devidamente acompanhados de boas batatas e couve. Quem ataca bacalhau ou polvo na consoada de dia 24, guarda o peru para o dia de Natal. Feito à moda antiga, o peru de Natal, assado, é uma coisa para de preparação demorada. Ainda sou do tempo em que o peru vinha vivo para casa, era embebedado a goles de aguardente pura pela goela abaixo, para que quando o pescoço lhe fosse cortado ele não estivesse contraído e a carne resultasse mais tenra. Claro que nada disso se passa hoje, o peru vem já embalado, depenado, pronto a ser temperado. E o tempero era outro assunto sério - com laranja, limão, sal, pimenta, louro, especiarias, ficava a marinar mais de um dia num grande alguidar. Depois vinha o recheio que lhe enchia as entranhas, feito dos miúdos da ave, chouriço, azeitonas aos pedaços, cenoura, cebola e alho, miolo de pão, ovo, chouriço. Após um bom tempo no forno o petisco ficava pronto para ser trinchado e, na maior parte das vezes, havia peru para vários dias - a parte mais escura da carne, cortada fina, fazia umas belas sanduíches. E, depois há os doces - todo um campeonato à parte, tudo frito, claro, bem polvilhado de canela. Enfim, antes do takeaway, o Natal era garantia de uns dois dias de intenso trabalho de cozinha.


 


DIXIT - “Fiz mal em ir para o Governo. Perdi uma fortuna incalculável” - Manuel Pinho


 


BACK TO BASICS - “Nunca se deve tentar resolver um problema grave pensando nele a meio da noite” - Philip K. Dick


 


 








dezembro 17, 2021

OS DEPUTADOS DEVEM OBEDECER AOS CHEFES DOS PARTIDOS OU REPRESENTAR OS ELEITORES?

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OS DEPUTADOS - Quando se olha para qualquer balanço da actividade parlamentar constata-se que apenas uma pequena parte dos deputados dos partidos com maiores grupos parlamentares desenvolve algum trabalho relevante no plenário ou em comissões. Isso é particularmente visível no PSD e PS - alguns dos seus deputados mal abrem a boca durante uma legislatura e não se lhes conhece história. Ficam nas filas de trás das respectivas bancadas, assinam o ponto e a sua principal função é levantarem o braço de acordo com as instruções de votação dadas pelos respectivos partidos. Na realidade só prestam contas a quem os escolheu para integrarem as listas de candidatos a deputados, não têm a quem dar satisfações e não representam as populações dos círculos onde são eleitos e onde muitas vezes efectivamente não vivem e cujos problemas desconhecem. Não existe relação de proximidade com eleitores e muitas vezes nem com militantes locais. Se olharmos para o processo em curso de elaboração de listas pelos dois maiores partidos é isso mesmo que vemos: os líderes partidários, nomeadamente no PSD e no PS, são quem tem a derradeira palavra sobre quem integra a lista e em que lugar ficam os candidatos - se numa posição em que podem ser eleitos e entrar no Parlamento, ou se ficam só a fazer número. Nestas semanas tem-se percebido que muitas vezes nem as indicações das concelhias ou distritais são tidas em conta. Quem entra é quem está próximo da cúpula do aparelho e ser deputado é ainda encarado por muitos como um emprego e não um serviço à causa pública. O efeito que isto produz é um divórcio cada vez maior entre eleitos e eleitores.  O respeitinho aos chefes é muito bonito - e é isso mesmo que  as listas de candidatos a deputados comprova. E já agora - enquanto a Lei Eleitoral não for alterada, criando nomeadamente círculos uninominais - não haverá nenhuma reforma do sistema político e partidário. E assim vai-se registando uma perda de qualidade dos deputados. O facto de alguns dos mais activos e melhores deputados da legislatura que agora acaba estarem fora do próximo parlamento, porque não estão alinhados com as direcções dos seus partidos, é um sinal de que nesta matéria a coisa se agrava.


 


SEMANADA - Das quatro listas candidatas ao Montepio apenas uma não reivindica ajudas públicas e o apoio do Estado para ultrapassar as dificuldades da mutualista; desde o surgimento da Ómicron a venda de autotestes à Covid 19 nas grandes superfícies passou de uma média de 300 por dia para cerca de 15 mil e os preços aumentaram 10%; durante a pandemia foram criadas 375 esplanadas no Porto e pelo menos 361 em Lisboa; apenas cinco projetos de Ferrovia 2020 foram concluídos dentro do prazo e há 19 projectos para concretizar que já deviam ter sido fechados o ano passado; na Rua do Ouro e na Rua da Prata há 60 lojas fechadas; num balanço da actividade legislativa do Parlamento constata-se que houve mais diplomas do executivo aprovados pelo PAN e PSD do que pelas bancadas à esquerda do PS; em 2020 a cobrança do IMT recuou em 149 municípios e a de IMI em 80; um estudo internacional indica que um em cada quatro portugueses espera terminar o ano de 2021 mais endividado do que alguma vez esteve, o que coloca Portugal no Top 3 dos mais afectados nos rendimentos pela pandemia; o Ministério Público deixou prescrever crimes de políticos suspeitos nas PPP, o que livrou ex-governantes de responderem em tribunal; o Índice Global de Segurança de Saúde, que analisa 195 países, colocou Portugal na 33ª posição na capacidade de resposta a pandemias; em Novembro a inflação atingiu o máximo de nove anos e o INE detectou que “os retalhistas estão já a passar custos das subidas na energia para o consumidor”.


 


O ARCO DA VELHA - O Estado recomendou trabalho remoto a partir de 1 de Dezembro mas não está a cumprir as suas próprias recomendações nos serviços públicos.


 


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GERAÇÕES CRUZADAS - ”Pintura: campo de observação - Parte II” é o título da nova exposição da Galeria Cristina Guerra Contemporary Art (Rua Santo António à Estrela, 33), que inclui trabalhos de 13 artistas e que prossegue a lógica da primeira parte desta exposição, apresentada em Junho passado. Segundo o curador da exposição, João Pinharanda, as duas exposições “foram construídas a partir de um vasto (mas sempre necessariamente incompleto) “inquérito” realizado junto de alguma da produção artística, maioritariamente desenvolvida em Lisboa e nas artistas e nos artistas presentes estão uma maioria de jovens ou com carreira recente ou pouco divulgada a que se juntam algumas carreiras mais longas, capazes de fazer a ponte para contextos anteriores e mesmo alguns desses artistas históricos, que desenvolveram a sua produção a partir dos anos de 1960 e 70.” Isabel Madureira Andrade, Anamary Bilbao, Joaquim Bravo, Hugo Brazão, Pedro Calapez, Pedro Chorão, Luís Paulo Costa, Maria Ana Vasco Costa, Carlos Noronha Feio, José Loureiro (na imagem num óleo sobre tela de 2015), João Ferro Martins,  Jorge Rodrigues e Ângelo de Sousa são os artistas com obras em exibição até 22 de Janeiro. Outros destaques: no Centro de Artes Visuais, de Coimbra, com curadoria de Ana Anacleto, prossegue o ciclo “Museu das Obsessões” com duas exposições,  “Flor Fantasma ” de Mariana Caló e Francisco Queimadela e “Onças espreitam do breu matagal” de Bernardo Simões, patentes de 18 de Dezembro até 22 de Fevereiro.


 


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PARA QUEM GOSTA DE MOTOS - No ano passado Pedro Pinto tinha lançado o livro “As Motos da Nossa Vida”, onde recordava as motocicletas que nos anos 60 e 70 percorriam as estradas e ruas das cidades. Este ano regressa com “50 Motos Portuguesas”, uma lista que reúne 50 motos de várias cilindradas, concebidas e fabricadas em Portugal. Estas motos movimentavam uma indústria inventiva e arrojada que enfrentou vicissitudes e que, com poucas exceções, não resistiu ao tempo. A magia das Sachs, o motor das Pachancho, o slogan das Famel ou a elegância das Vilar Cucciolo e da Casal Carina são ainda hoje objetos de referência, sendo hoje em dia o seu restauro um hobby de um número crescente de entusiastas saudosos desses veículos. Pedro Pinto foi ele próprio piloto de motocross e velocidade e foi membro fundador do Moto Clube de Sintra dinamizador do Vespa Clube de Lisboa. E foi desde cedo um colecionador de tudo o que dizia respeito ao mundo das motos em Portugal,tendo organizado, na Expo 98, a exposição «As Motos do Século, o Século das Motos». Como Pedro Pinto escreve não há uma estatística correcta do número de motocicletas portuguesas que se venderam, mas era significativo o contributo para a economia do país e os postos de trabalho criados, entre as fábricas onde eram produzidas e as centenas de oficinas que asseguravam a sua manutenção, Nas 50 motos que seleccionou para esta edição estão máquinas como a V5 da Sachs, a rara bicicleta motorizada Vilar Cucciolo ou a ainda mais rara Nacional de 500 cc fabricadas na década de 30. A edição é da Quetzal e já me fez recordar algum tempo de juventude e a minha Sachs Minor.


 


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O REGRESSO DA GUITARRA - Não há nada a fazer, emociono-me com todos os discos novos de Neil Young de quem me confesso um fidelíssimo fã, capaz de perdoar quase tudo. E é com grande satisfação que vejo que o seu novo disco, “Barn”, é talvez o seu melhor trabalho desde há algum tempo. Neil Young tem agora 76 anos, este é o seu 41º disco de estúdio, o 14º com os Crazy Horse, desde que começou a gravar com a banda há quase 50 anos. E este “Barn” é bem melhor que o anterior disco com os “Crazy Horse”, “Colorado”, de 2019. Gravado num celeiro, como o nome indica, em meia dúzia de dias, o disco é pelo título, ambiente de gravação e sonoridade, um regresso a uma versão mais crua de rock, com a inconfundível guitarra de Neil Young, acompanhado por uns Crazy Horse em que Nils Lofgren substituíu Frank “Poncho” Sanpedro, já retirado destas lides, e com o baterista Ralph Molina e o baixista Billy Talbot a completarem, bem, o elenco. Se eu escolhesse uma faixa entre todas, apontava para “Welcome Back”, uma canção exemplar com Neil Young num dos seus melhores momentos à guitarra, sem exuberâncias.  Mas há outras a merecer destaque como “Canerican”, "Change Ain't Never Gonna", "Today's People", "Tumblin' Through the Years", and "Don't Forget Love". “Barn” está disponível em streaming, vinil e CD e há uma edição especial que inclui um documentário realizado por Daryl Hannah, a mulher de Neil Young,


 


A BATATA - Ao contrário do que muita gente pensa as batatas não são todas iguais e as batatas de supermercado têm pouco a ver com as verdadeiras batatas do campo, no sabor e  na textura. Esta semana recebi uma deliciosa prenda de um homem que com quase 90 anos, depois de uma vida de trabalho, continua apegado ao que a terra pode oferecer. Adelino Lopes, assim se chama, gosta de cultivar a sua horta, em Outeiro, distrito de Viseu. Oferece o que produz a familiares e amigos, é generoso como as pessoas do campo sabem ser. Há umas semanas fui cativado pelo sabor de umas batatas que a sua neta me serviu num almoço familiar e que elogiei. Resultado? Esta semana fui brindado com um saco desses belos tubérculos que já me estão a proporcionar bons momentos. Penso muitas vezes nestas diferenças de sabores e vêem-me à memória os paladares com que cresci e que vinham de casa dos meus avós, numa aldeia do Alto Alentejo. Ter acesso a produtos assim é um privilégio. Já estou a imaginar o que posso fazer com estas batatas… A propósito: esta semana li um curioso estudo da Marktest: em ano de pandemia, teletrabalho e ensino à distância, o cozinhar/fazer bolos foi, entre as principais atividade de tempos livres ou hobby, a que mais cresceu, passando de 29.5% em 2019 para 34.2% em 2020, um aumento relativo de 16%. A Marktest sublinha que estes números significam que mais de um em cada três portugueses tem este hábito. 


 


DIXIT - “ E, pairando sobre todos, um primeiro-ministro que nunca sabe de nada, que lava as mãos de todo o tipo de problemas e é famoso pela habilidade de se agarrar ao poder” - João Cotrim de Figueiredo.


 


BACK TO BASICS - “Perguntar a um artista o que ele acha dos críticos é como perguntar a um candeeiro o que acha dos cães” - Christopher Hampton


 








dezembro 10, 2021

A POUCA VERGONHA OU UM PODER COBARDE

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O SILÊNCIO DO ESTADO - Agora que o Ministro Eduardo Cabrita deixou de ser passageiro do Governo viremo-nos para o comportamento do Estado no caso do acidente em que um veículo oficial, a alta velocidade, atropelou um trabalhador que coordenava uma equipa de manutenção numa auto-estrada. Durante algum tempo o Estado  ficou silencioso, na expectativa do que o referido Ministro dissesse. Mas há um ponto em que o silêncio do Estado se revela demasiado ruidoso. Estamos nesse ponto. O acidente ocorreu em meados de Junho passado e quase seis meses depois, e após vários percalços, conhece-se, parcialmente, o conteúdo dos diversos relatórios elaborados. Durante todo este período o Estado não fez nada para avaliar se a família da pessoa que morreu precisava de algum apoio. Esteve ausente do funeral, nem  fez um gesto de simpatia.   Recordo que o Governo é quem, aos olhos dos cidadãos, representa o Estado. O Governo, e o seu Primeiro-Ministro, ficaram mudos e quedos todos estes meses. Pior: a GNR, num súbito acesso de zelo, vem agora pôr em causa que o trabalhador estivesse a trabalhar - sendo que o seu local de trabalho, naquele dia, era aquela auto-estrada onde morreu. O Ministro saíu mal, a confessar-se apenas passageiro, imputando as culpas ao motorista e depois ao corpo de segurança da PSP. Eduardo Cabrita diz que se o carro ía a alta velocidade era porque seguia as instruções do corpo de segurança da PSP. O Corpo de Segurança da PSP, segundo um assessor do Ministro, não estabeleceu qualquer velocidade. A velocidade média escrita na acusação pública - 163 kms/h - peca por defeito. O “Correio da Manhã” fez as contas e diz que o carro do Ministro fez 30 quilómetros em dez minutos, o que sugere uma velocidade média de pelo menos 180 kms/h. O que é certo é que Nuno Santos, chefe de equipa de limpezas que se encontrava na berma da A6 no quilómetro 77 no dia 18 de Junho, morreu atropelado por um carro do Governo, em excesso de velocidade, onde seguia um Ministro.  O que a seguir se passou em termos de ocultação, mentiras e desresponsabilização é uma vergonha. Um nojo. O retrato de um poder cobarde.


 


SEMANADA - Com o primeiro período escolar  quase a chegar ao fim há falta de 388 professores que abrangem um total de mais de 20 mil alunos; as disciplinas de Física, Química, Informática e Português são aquelas onde faltam mais professores e o distrito de Lisboa é o que tem maior falta de docentes; segundo um estudo da Marktest os três municípios portugueses com maior qualidade de vida são Castelo de Vide, Manteigas e Porto Moniz; segundo dados da Segurança Social a zona litoral é a que tem a média de salários brutos mais elevada, com Lisboa a liderar com 1390 euros, e as zonas do interior têm os salários mais baixos com Beja na cauda da lista com 964 euros; um inquérito recente, no âmbito escolar, indica que são os mais novos e as raparigas que têm maiores hábitos de leitura; os trabalhadores da CP Carga esperam há quase seis anos pelos 5% que lhes são devidos no processo de privatização da CP Carga, que o actual Governo fez no início de 2016;  um estudo recente indica que a partir da segunda metade deste século o Algarve e o Alentejo terão uma redução de 50% da água disponível; Portugal tem duas escolas de negócios no Top 30 europeu, Nova SBE na 27ª posição e Católica Business School na 29ª; os balanços trimestrais das empresas públicas não são divulgados desde 2018, o que já motivou críticas da União Europeia. 


 


O ARCO DA VELHA - Um empresário de Penafiel registou em seu nome a autoria das samarras, capas e dos capotes alentejanos, vestuário com mais de um século de existência, e exige receber direitos pela utilização dos nomes dessas peças.


 


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VISTAS DE ALMADA E AZULEJOS REINVENTADOS - Na Casa da Cerca, em Almada, Susanne S.D. Themlitz apresenta até  Fevereiro, duas exposições: “Um berlinde no chão, quase no meio da sala”  e “More Or Less Spots” - folhas e folhas na Sala da Leitura da Biblioteca. Na primeira exposição Themlitz revisita 20 anos de trabalho criando uma intervenção onde incorpora obras pensadas explicitamente para a Casa da Cerca (na imagem) com outras já existentes. Na sala de leitura “More Or Less Spots” apresenta uma exposição dos livros de artista que Susan Themlitz vem fazendo desde 1994, agora apresentada em conjunto pela primeira vez. Outras sugestões: Em Torres Novas, para assinalar os 41 anos da Galeria Neupergama, pode ver a exposição “Estudos e Procedimentos”, de Pedro Calapez, até 6 de Março. No Funchal Teresa Gonçalves Lobo abre o seu atelier a quem o queira visitar dias 9, 10 e 11. Fica na Rua dos Carpinteiros 18-1º com obras de pintura, desenho, gravura e fotografia. Na Fidelidade Arte, no Chiado, pode ver “Reacção em cadeia #9”, uma mostra de desenhos de Ângelo de Sousa dos finais dos anos 80. Na Galeria da Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101) João Belga apresenta desenhos e pintura em “I’m Alive - Yet I´m Not Alive”. E na Galeria Ratton, (Rua da Academia das Ciências 2, Lisboa), apresenta-se o resultado da 1ª Residência Artística Ratton: durante vinte dias Bárbara Fonte, Maria Morais, Mónica Pimentel Coelho e Sofia Pinto  trabalharam na Oficina Ratton, em Setúbal.  A Galeria desde 1987 desafia artistas contemporâneos que nunca utilizaram o azulejo, como estas quatro jovens artistas.


 


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PALAVRAS FOTOGRAFADAS - Costumo dizer que Sérgio Godinho é quem melhor escreve canções. Os seus poemas, musicados, são retratos do quotidiano, que eu me habituei a cantarolar enquanto ouço os seus discos. Mas nunca me tinha ocorrido que os podia ver, embora reconheça que a sua escrita é muito visual. “Palavras São Imagens, São Palavras” é um livro que recolhe poemas e fotografias de Sérgio Godinho, agora editado pela Quetzal. As canções de Sérgio Godinho são muito visuais, contam uma história - várias vezes, ao longo dos anos, pensei que algumas delas davam a base para o argumento de um filme. São short-stories musicadas, com um olhar certeiro sobre o que nos rodeia. Neste livro não estão letras de canções, estão poemas que Sérgio foi escrevendo nos intervalos da vida, das suas músicas e concertos, acompanhadas de fotografias, que foi coleccionando e que mostram como o seu olhar se materializa além das palavras. Já agora recordo que  além da sua vida musical, Sérgio Godinho já trabalhou em guiões de cinema e de séries de televisão, em histórias infantis, em peças de teatro, livros de contos, poesia e romance. Como ele escreveu neste livro, “A ausência parte de uma janela aberta/o destino é desconhecido”.


 


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CANÇÕES VADIAS, COM ESPERANÇA - Logo por acaso nesta semana calha.me um livro de Sérgio Godinho e de outro português, de uma geração diferente, que também faz canções exemplares. Se disserem que falo de Miguel Araújo, acertaram. “As Canções da Esperança”, o seu novo disco, inclui temas que compôs para a série “Esperança” do canal de streaming Opto, e outras inspiradas na própria série, escrita por de Pedro Varela e César Mourão - este último faz uma aparição numa das canções do disco, onde aparecem também convidados como António Zambujo, Cláudia Pascoal e Camané. Tirando os já conhecidos méritos de Camané e Zambujo, destaco Cláudia Pascoal, claramente uma das únicas surpresas interessantes da música portuguesa dos últimos tempos. “Estou Por Tudo”, a canção que cantam em dueto tem um vídeo que merece ser visto no YouTube. E ainda por cima é uma das melhores canções do disco, a par com “Canção da Esperança”, “A Procissão da Vida”, “Valsa Sem Tempo” e “O Milagre da Travessa do Funil”.


 


ABÓBORA & VIEIRAS - Gostam de abóbora? Experimentem uma esmagada de abóbora misturada com chutney. Não arregalem os olhos e experimentem. Eu utilizo abóbora congelada aos cubos e funciona muito bem. Uma embalagem de 400 gramas dá uma boa dose de puré. Cozam bem a abóbora, tendo o cuidado de a colocar na água só quando já estiver a ferver. Vão verificando a cozedura. Quando estiver cozida, mas com boa consistência, escorram, coloquem no mesmo tacho, e com a ajuda de um esmagador vão calcando até estar em puré. A abóbora liberta muita água, por isso não é necessário acrescentar nenhum líquido, muito menos leite. Adicionem duas colheres de manteiga, sal e pimenta preta moída na hora a gosto, mexam tudo muito bem e levem a lume brando. Antes de servir coloquem duas colheres de sopa generosas de chutney de manga e voltem a misturar tudo muito bem. É bom para acompanhar vieiras na chapa - hoje já as encontram congeladas em bons supermercados. Deixem-nas descongelar e secar muito bem, coloquem na chapa só quando estiver já muito quente, com um pouco de manteiga. Dois minutos de um lado, minuto e meio do outro. Sal e pimenta a gosto. Experimentem a combinação que vão gostar.


 


DIXIT - ​”Peguem nas listas de deputados da legislatura cessante e façam um teste para ver se alguém sabe quem são e o que fizeram de útil para a sociedade. Salvo raras excepções e, cada vez menos de legislatura a legislatura, o resultado é próximo de zero.” - José Pacheco Pereira


 


BACK TO BASICS - “Conhecer os outros é sinal de inteligência; conhecer-se a si mesmo é sinal de sabedoria” - Lao Tzu.


 





dezembro 03, 2021

Um aparelho partidário sabe o que as pessoas querem?

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O RIO QUE TRANSBORDOU - A incontornável vitória de Rui Rio, contra os prognósticos e apoios da elite partidária e dos donos do aparelho do PSD, coloca uma questão interessante: até que ponto é que os dirigentes locais e distritais são ouvidos e respeitados pela base? Até que ponto é que esses dirigentes se representam apenas a si próprios e a um grupo de fiéis próximos, empenhados essencialmente em trocar o seu apoio por benesses futuras quando o poder lhes voltar a sorrir? O que o processo eleitoral do PSD veio evidenciar é que a figura preferida pelo aparelho partidário, que estava claramente alinhado com Rangel, é a que menos mereceu a confiança dos eleitores. E, coloca uma outra dúvida: até que ponto é que os apoios aparelhísticos são hoje em dia olhados com desconfiança, pela base dos partidos e, em última análise pelos cidadãos comuns. E coloca ainda outra questão: até que ponto observadores, comentadores políticos e jornalistas são contaminados pelas influências das suas fontes no aparelho partidário e perdem eles próprios a realidade das bases, confundido declarações de dirigentes com opinião pública? Na realidade o que se passou na última semana - e já se tinha passado em Lisboa nas autárquicas, é que existe um distanciamento entre o que era previsto e o que na realidade aconteceu. Li algures esta semana esta nota: “Meia dúzia de comentadores desdobram-se por diversos títulos; os jornais deixaram o centro das cidades e os jornalistas convivem uns com os outros. Já ninguém se lembra do exemplo do editor do NYT que se deslocava de metro para saber o que os leitores escolhiam. Era bom descer à terra. Que direito têm, jornalistas e comentadores, de dizerem “o que as pessoas pensam é…”? E termino com outra citação, lida também nestes dias: “Lidos os comentadores, analistas e politólogos cheguei à conclusão de que o povo do PSD não votou em quem eles estavam à espera.”





SEMANADA - Apenas 34% dos estágios financiados pelo quadro comunitário de apoio, para inserir jovens que não estudam nem trabalham, resultaram em contratos de trabalho permanente; um estudo da Fundação Belmiro de Azevedo concluíu que os estudantes oriundos de meios mais desfavorecidos continuam a ser segregados no acesso aos cursos que garantem maior remuneração; um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos  indica que 26% dos jovens portugueses já se medicaram contra a depressão; o mesmo estudo revela que 23% dos jovens já tentaram ou pensaram no suicídio; na GNR há 1017 agentes que não quiseram a vacina contra o COVID-19 e a PSP diz não ter dados certos mas calcula-se que centenas de polícias, que contactam diariamente com o público, também se recusaram a ser vacinados; no âmbito do PRR as Finanças vão ter 43 milhões da bazuka europeia para organizar cadastros e subir a base da tributação; há mais de dois anos que o tribunal tenta, sem sucesso,  notificar Vale e Azevedo, que vive e trabalha em Londres,  para ser julgado; Portugal é o único país da UE que não apresentou dados de novos casos de VIH/Sida no último relatório do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças e da OMS; até Setembro enfermeiros e médicos já fizeram mais de nove milhões de horas extraordinárias, ultrapassando o valor de todo o ano passado; a TAP apenas transporta um em cada dez passageiros de avião no Porto, tendo sido ultrapassada pela Ryanair e easyjet.


 


O ARCO DA VELHA - Uma viagem desenhada pela União Europeia para fomentar as viagens de comboio teve este resultado: o Europa Express precisou de recorrer a três composições distintas e 55 locomotivas diferentes para atravessar 33 fronteiras em 26 estados. União?


 


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COISAS PARA VER - “Sarkis”, a nova exposição de Cláudio Garrudo na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12, até 22 de Janeiro), na imagem, explora formas pouco usuais de utilização da fotografia, quer através da evocação da memória de objectos como ardósias escolares, recurso a diversas técnicas laboratoriais fotográficas, a reprodução de pequenas imagens de filmes portugueses dos anos 50 e até o recurso a papel perfurado utilizado em pianolas. “Sarkis” é um cruzamento propositado entre a música, o cinema, as artes plásticas e a literatura, abordados como partes que se ligam perante o olhar através de um fio condutor, que é a fotografia. No texto de apresentação da exposição Manuel João Vieira faz notar a diferença entre “a fotografia límpida, nítida, precisa, virgem, bidimensional, de superfície lisa e regular, que capta o objecto que é o seu contrário.” e a arte que  “capta também o duplo, o outro que há em nós, um outro que simula e projecta pela primeira vez as suas impressões no seu jogo.” Outras sugestões: na Galeria Filomena Soares, em Lisboa, “A Mecânica do Efémero” mostra até 15 de Janeiro  trabalhos de Flávio Cardoso, Kiluanji Kia Henda, Damara Inglês, Délio Jasse, Rui Magalhães e Sofia Yala. Na Biblioteca Nacional Pedro Proença apresenta até 19 de Janeiro “Mestres & Monstros”, um conjunto de aguarelas e poemas visuais, acompanhados por três livros criados para a ocasião.  E em Serralves pode ser vista "Ágora", a primeira exposição do  artista norte-americano Mark Bradford em Portugal. Serralves é aliás o primeiro museu europeu a acolher uma grande exposição deste artista desde que representou os EUA na Bienal de Veneza, em 2017, com a exposição "Tomorrow is Another Day" ("Amanhã é outro dia"). 


 


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OS POEMAS DE PESSANHA - Camilo Pessanha é um vulto maior das letras portuguesas e um dos menos conhecidos hoje em dia. Nasceu em Coimbra em 1867 e morreu em Macau, onde viveu muitos anos, em 1926. Publicou poemas  em várias revistas e jornais, mas o seu único livro, “Clepsydra”, foi editado em 1920, sem a sua participação directa,  pela jornalista e escritora  Ana de Castro Osório, que recolheu o material disperso que foi encontrando. Posteriormente, João Castro Osório, filho de Ana Castro Osório,  ampliou a “Clepsydra” original, acrescentando-lhe poemas que foram entretanto encontrados. Essas edições foram publicadas em 1945, 1954 e 1969. E surge agora, pela mão da editora Guerra & Paz, uma nova edição da “Clepsydra”, graças à  iniciativa de Ilídio Vasco.  Na organização  desta nova edição Ilídio Vasco recuperou a intenção original de ordenação dos poemas, baseada na interpretação de uma sinalética críptica deixada por Camilo Pessanha numa lista manuscrita. Essa nota, escrita no verso da procuração que deu a Ana de Castro Osório os direitos de publicação da obra, é, pela primeira vez, divulgada em fac-simile nesta edição de Clepsydra, que inclui, para além da obra integral, as notas do organizador e um anexo com textos que Pessanha traduziu do chinês, ao longo da vida: «Elegias Chinesas» (em versão bilingue), «Legenda Budista», «Vozes de Outono», «Chon-kôc-chao» e «Provérbios Chineses». “Clepsydra”,  é para muitos o mais belo livro da poesia portuguesa e Camilo Pessanha foi elogiado por Pessoa, Mário de Sá-Carneiro, Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, reconhecendo que ele inspirou fortemente a geração de Orpheu e o que viria a ser o modernismo português. 


 


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BRUCE ROCKS - No Outono de 1979 Bruce Springsteen, então quase a fazer 30 anos, realizou dois concertos no Madison Square Garden, em Nova Iorque, que ficaram para a história. Acompanhado pela sua E Street Band, Springsteen tinha lançado há um ano “Darkness On The Edge Of Town" e começava a preparar “The River”. Era um ponto alto da sua carreira. Esses concertos podem ser ouvidos e vistos em “The Legendary 1979 No Nukes Concerts”. Aqui estão gravados ao vivo 13 temas, uma hora e meia de uma grande actuação, agora editada pela primeira vez. Desde “Prove It All Night” até ao final com “Rave On”, o disco inclui temas como “The Promised Land”, “Rosalita”, “Born To Run”, “The River” ou "Thunder Road”, entre outros. O concerto foi gravado e filmado no momento em que Springsteen atingia uma popularidade que até aí não tinha conhecido e este registo, disponível em CD e DVD, mostra como ele era há 42 anos e testemunha ainda o momento em que Springsteen começa a assumir posições políticas bem marcadas e a empenhar-se em movimentos cívicos, como foi o  caso destas actuações. Na parte final de um concerto, que claramente foi uma festa de rock’n’roll, ao lado da E Street Band surgem convidados como Tom Petty e Jackson Browne que o acompanham numa versão de “Stay”, de Maurice Williams & The Zodiacs, seguido por entusiásticas versões de standards do rock e de temas de Gary U.S. Bonds e Buddy Holly. 


 


FAZ DE CONTA - Escolher o sítio para o almoço de domingo até começou com um gesto de boa vontade. O objectivo era experimentar o novo restaurante do MAAT, que prolonga a cafetaria que já existia. Apesar de saber ser gerido pelo grupo Mercantina, que já me proporcionou outras más experiências que bons momentos, lá decidi arriscar. Passemos aos factos: reserva feita online directamente para o MAAT Kitchen (assim se chama o local), com indicação de que a reserva estava anotada e seria confirmada posteriormente. Nunca chegou confirmação mas lá nos apresentámos à hora devida. E sim , a reserva existia mas a menina do acolhimento indicou-nos que devíamos esperar no bar, apesar de ser notório que estavam muitas mesas vazias no restaurante. Este truque de mandar para o bar é dos que mais me irrita quando é evidente que não se está à espera que vague uma mesa. A casa é anunciada como sendo de fine fusion dining, mas apesar de se tratar de almoço a expressão é largamente exagerada. O serviço é lento, pouco simpático e pouco atento. O couvert tinha uma manteiga trufada interessante, um azeite corriqueiro e um pão sem história e pouco sabor. Uma pena as bebidas terem chegado um bom bocado depois e apenas após chamada de atenção. Uma vez na refeição o outro lado achou bem o polvo assado à Algarvia com batata doce e tomatada rústica. E eu, que em má hora tinha escolhido entrecôte Txogitxu do País Basco com batatas fritas, fiquei a lamentar-me: a carne estava de facto mal passada, como pedido, mas o seu interior era seco e sem sabor, porventura a indiciar frigorífico a mais, enquanto as batatas eram mais cozidas do que fritas. No fim um café pedido cheio veio a metade da chávena, a evidenciar mais uma vez desatenção. Do outro lado da mesa veio uma frase que descreve bem o MAAT Kitchen: isto é tudo um faz de conta.


DIXIT - “Olhamos à volta e o que vemos é inquietante. Parece que os partidos fazem parte da crise, em vez de a combater” - António Barreto.


BACK TO BASICS - A vitória é sempre uma ficção política - Anónimo


 








novembro 26, 2021

CAMPANHA ELEITORAL EM PANDEMIA?

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AS ELEIÇÕES - Em princípio, na próxima semana, o Presidente da República dissolverá o Parlamento, 60 dias antes das eleições legislativas antecipadas, marcadas para 30 de Janeiro. Quer isto dizer que a campanha eleitoral, informal e formal, se desenrolará com o Natal à vista e, em força, durante Janeiro. Com o agravamento da pandemia tudo indica que esta campanha eleitoral decorrerá com limitações, situação que é susceptível de afectar também a forma como o acto eleitoral propriamente dito decorrerá.  Esta é uma boa altura para os responsáveis políticos e o novo Parlamento que sairá deste  acto eleitoral encararem de frente a necessidade de uma revisão profunda da Lei Eleitoral, quer no que ela estabelece em relação à forma como a campanha se pode desenvolver, adequando-a a uma paisagem mediática que é radicalmente diferente daquela em que a Lei foi criada há mais de 40 anos. O consumo dos mídia e da informação pelos cidadãos não tem nada a ver com o quadro regulamentado na Lei existente e o próprio processo eleitoral deve poder reflectir mais formas de votação não presenciais, obviamente seguras. E já nem falo em questões como os círculos uninominais, a revisão do mapa eleitoral e do sistema de representatividade dos votos. Esta revisão, de forma e de conteúdo, não é uma fantasia, é uma necessidade e face à situação que vivemos ela ganha caráter de urgência. Seja qual fôr o resultado das eleições, o novo Parlamento e os partidos nele representados têm a obrigação de olhar de frente esta questão. Sob pena de a abstração crescer ainda mais e de os eleitores serem cada vez menos representativos da população. Não basta dizer que se defende a democracia, é preciso dar provas disso.


 


SEMANADA - Os deputados, para celebrar o fim desta legislatura, decidiram proteger-se adiando a votação da lei do lobbying para a próxima Assembleia; Manuel S. Fonseca lembrou na sua coluna do Correio da Manhã que temos um “Estado que nos custa 100 mil milhões de euros ao ano, com uma distribuição desequilibrada de uma legião de funcionários públicos e com um SNS que geme em todos os telejornais num cortejo de demissões”; segundo dados do Eurostat os portugueses recebem os salários mais baixos da Europa ocidental mas pagam a sétima carga fiscal mais elevada sobre o trabalho, 41%; os dez chefes de equipa da cirurgia do hospital de Santa Maria demitiram-se na sequência da falta de resposta às pretensões que formularam há cerca de um mês e que tinha a ver com condições de trabalho, nomeadamente na área das urgências;  o Ministério da Saúde atrasou-se a colocar os técnicos necessários e da sua responsabilidade na nova task force da vacinação; as idas às urgências hospitalares por infecção respiratória são quase o triplo de 2020; na área das lojas, hotéis, restaurantes e actividades imobiliárias há falta de mão-de-obra; no total existem 24 mil postos de trabalho por preencher, um aumento de 54% relativamente a outubro de 2020; as exportações de vinho português cresceram 12% nos primeiros nove meses deste ano; os cinco sites mais visitados em todo o mundo são, por esta ordem, o Google, YouTube, Facebook, Wikipedia e Amazon; João Rendeiro afirmou numa entrevista que pretende processar o Estado português por atrasos na justiça; José Sócrates escreveu um artigo de opinião no Diário de Notícias queixando-se da actuação da justiça em relação à sua pessoa, nomeadamente nos atrasos dos julgamentos dos processos em que está envolvido; segundo a Marktest o chá de camomila é a infusão mais consumida pelos portugueses.


 


O ARCO DA VELHA - O relatório do tráfico de estupefacientes elaborado pela PSP indica que estão a ser usados estafetas de empresas de entrega de comida e pagamentos via MBWay para realizar a venda de droga.


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IMAGENS MALANDRAS - Na Galeria Miguel Nabinho Pedro Casqueiro mostra até final de Dezembro uma série de 17 novas pinturas em acrílico sobre tela a que deu o nome de “Granuja” um termo espanhol que, numa tradução livre, significa malandro. São obras de médio formato, que espelham por um lado a atracção de Casqueiro pelo universo da banda desenhada, com um uso propositadamente limitado da côr. Na imagem está uma das obras, “pavimento”. A exposição fica até ao final do ano na Galeria Miguel Nabinho, de segunda a sábado, Rua Tenente Ferreira Durão 18. Outras sugestões: na galeria Módulo (calçada dos Mestres 34) ainda pode ver a exposição If All The Time is Eternally Present, de David Infante. No campo da fotografia destaque também para o trabalho de Valter Vinagre, exposto no Arquivo Municipal de Lisboa , "Homem Morto Passou Aqui", o resultado de um trabalho de cerca de cinco anos sobre a história das três invasões a Portugal e suas batalhas. Utilizando a paisagem para fazer a reconstituição de um legado histórico o autor retrata os cenários actuais dos vários eventos das guerras peninsulares, ocorridos de norte a sul do país, desde Almeida, Bussaco, Chaves, Porto, Amarante, Évora e Olhão, juntamente com as Linhas de Torres Vedras.


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OS POEMAS - Há muitos livros que dizem ter poemas, mas há poucos que tenham poesia. E num país que se diz de poetas, encontrar um que saia dos lugares comuns é difícil. António Franco Alexandre é um poeta que faz poemas, o que não é uma coisa muito frequente. A nova versão de “Poemas” recolhe a obra de Franco Alexandre, de 1974 até agora, acrescentada de um livro inédito, “Carrossel”, que finaliza esta belíssima edição de cerca de 600 páginas da Assírio & Alvim. Descobri António Franco Alexandre com “A Pequena Face”, de 1983, depois com “As Moradas”, de 1987. A partir daí fui seguindo o que publicava e fui cada vez gostando mais do que ele escrevia. Esta nova edição de “Poemas”, a segunda recolha da sua obra (a primeira foi em 1996), recolhe os poemas publicados pelo autor posteriores a essa data, (Quatro Caprichos, Uma Fábula, Aniversário, Duende e Aracne) e um conjunto de inéditos com o título «Carrocel», escritos desde a publicação de Aracne em 2004. Permitam-me finalizar com uma breve citação, precisamente de um dos inéditos, “Domínio Público”: “Tantas canções e versos pelo mundo fora/e só um, em querendo, será teu.”


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CANÇÕES PORTUGUESAS - Em Setembro de 2020 Jorge Palma subiu ao palco do Castelo de São Jorge, para apresentar o espectáculo “Jorge Palma - 70 Voltas ao Sol”, pensado para  celebrar em palco o seu 70.º aniversário. Filipe Melo e Filipe Raposo fizeram a direcção musical e arranjos das versões cantadas em palco e gravadas ao vivo, num disco agora editado. Jorge Palma foi acompanhado em palco por uma orquestra de câmara de 14 elementos, conduzidos pelo maestro Cesário Costa. O trabalho de direcção e de selecção dos músicos que constituem o ensemble ficou a cargo do Maestro Cesário Costa. O disco “70 Voltas Ao Sol” inclui 15 temas, pouco mais de uma hora, com temas incontornáveis da carreira de Palma, como “O Meu Amor”, “Deixa-me Rir”, “Bairro do Amor”, “O Lado errado da Noite”, “Frágil”, “Estrela do Mar” (com a participação de Cristina Branco e , a finalizar, uma versão de “Portugal Portugal”, uma canção cada vez mais actual. Aos 70 anos Jorge Palma mantém-se com uma capacidade de interpretação notável, aqui auxiliada por arranjos que fogem à sonoridade habitual das suas canções. Jorge Palma, um músico com formação clássica no Conservatório de Lisboa, é um dos mais brilhantes compositores portugueses, com um raro sentido de conjugação de palavras com música, autor de relatos de um quotidiano que acompanha a nossa história mais recente. Disponível em streaming.





JOINT VENTURE DE SABORES - Vou pegar em duas coisas magníficas que comi esta semana para propôr a sua junção. Começo por um puré de batata com espinafres, cozinhado por uma familiar belga e que, no seu país, leva o nome de stoempe. Trata-se de uma esmagada de boa batata  (nada de preparados instantâneos), devidamente temperada, a que no final se juntam folhas de espinafres crus que acabam de cozinhar no puré. A conjugação de sabores é fantástica e liga bem com qualquer carne, na minha opinião ainda melhor se fôr com um estufado. E chegamos à proposta de joint venture: juntar este stoempe belga com língua de vaca lentamente estufada,cortada em finas fatias, num molho onde nadam pedaços de cenoura. Esta carne foi degustada num dos meus poisos favoritos, que é o Apuradinho, em Campolide. Para rematar com outro petisco que provei esta semana, noutro local muito do meu agrado, o Salsa & Coentros, convoco aqui os sabores de um arroz de entrecosto que lá comi e que estava perfeito no tempero e no ponto de confecção. Resta recomendar que nesta altura do ano, para sobremesa, comam uma pêra bêbada ou marmelo assado no forno. Como o tempo vai esfriando, claro que a época apela a um tinto reconfortante.


 


DIXIT - “O PS está a agir na Assembleia Municipal como se ainda estivesse a governar Lisboa” - Luís Newton.


 


BACK TO BASICS - Os dois pecados capitais, de onde derivam todos os outros, são a impaciência e a preguiça - Franz Kafka


 







novembro 19, 2021

SOBRE O ESQUECIMENTO DA OPOSIÇÃO

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O DESCOBRIDOR TARDIO - Rui Rio é presidente do PSD desde Fevereiro de 2018, há três anos e meio. Quando tomou conta do PSD pairava no ar a ideia de que ele e António Costa se davam bem. Enquanto presidentes das Câmaras Municipais do Porto e de Lisboa ambos trocaram galhardetes nos respectivos santos populares e abraçaram-se publicamente em tempo de arraiais. A verdade é que, quando Rio passou a dirigir o PSD, já António Costa estava como Primeiro Ministro desde 2015. E assim tem continuado sem que nada acontecesse. A oposição de Rui Rio a Costa primou pela inexistência ao longo destes anos. Nalguns casos, como na redução dos debates quinzenais no Parlamento, ele foi a ajuda de que Costa necessitou para ter menos pressão no hemiciclo. Agora, que se recandidata à liderança do PSD, contra Paulo Rangel, seguiu o princípio de evitar debates e  proclamou que não faria campanha interna no seu partido e se concentraria na oposição ao Governo do PS. Digamos que vem tarde. Depois de tantas distracções ao longo dos últimos anos, descobriu os méritos de proclamar oposição quando, até aqui, foi um fraco opositor do Governo. Agora quer tudo o que nunca fez e ainda não foi capaz de entender que a crise que levou à convocação de eleições não foi gerada pela sua oposição mas sim pela avaria na geringonça e a falta de vontade de Costa em se assumir como mecânico da maquineta. O mandato de Rio como Presidente do PSD tem sido pautado por ser mais agressivo no interior do seu partido do que para o exterior. Em matéria de política tem-lhe faltado coerência nas ideias e imaginação na acção. É pena só agora ter descoberto o que um líder da oposição deve fazer.


 


SEMANADA - A manterem-se as normas actuais mais de 800 mil pessoas com mais de 65 anos só podem levar dose de reforço em 2022; a Ordem dos Médicos pede o regresso de medidas restritivas e afirma que na pandemia Portugal já passou do nível de “alerta” para o de “alarme”; “o nosso comportamento é o travão à doença", afirmou a pneumologista Raquel Duarte que alertou contra o relaxamento das regras de protecção individual; durante a pandemia registou-se um aumento de 10% das bebidas alcoólicas vendidas nos supermercados;a faixa de militares no activo que rejeitaram ser vacinados contra COVID 19 está muito acima da média nacional;  Portugal foi o sexto país da UE onde a pandemia atirou mais jovens para o desemprego; segundo o Instituto Nacional de Estatística o número de pessoas com segundo emprego subiu 20% no terceiro trimestre do ano atingindo agora cerca de 220 mil trabalhadores que acumulam dois empregos; segundo a agência Europeia do Ambiente a poluição foi responsável por 4900 mortes em Portugal e um total de 364 200 em toda  a Europa; há mais de mil turmas com horários por preencher e milhares de alunos que continuam sem aulas; o Ministério Público perdeu um quarto dos magistrados em dois anos; procuradores sem nota ou experiência tratam casos complexos e, em instâncias centrais, há cerca de 70 magistrados sem classificação de mérito; o preço da tonelada de pinho aumentou 40% no último ano e existe um défice de 57% desta matéria prima para consumo industrial; no dia 18 completaram-se cinco meses sobre o acidente com o veículo que transportava o Ministro Eduardo Cabrita e do qual resultou um morto por atropelamento - e continua sem haver resultado conhecido do inquérito instaurado.


 


O ARCO DA VELHA - O reforço da vacinação contra o COVID 19 decorre claramente com problemas, o sistema voltou a emperrar, dificilmente serão atingidos os objetivos anunciados e até as vacinas contra a gripe sazonal estão em falta nas farmácias. E que diz a Directora Geral da Saúde? - Que é preciso ter paciência.


 


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UMA VIAGEM PERTURBANTE - As exposições de Nádia Duvall são sempre surpreendentes e muito frequentemente inquietantes. “Com o deserto nos olhos”, a sua nova mostra na Galeria Foco, não foge a esta regra. No trabalho de Duvall há uma raiz orgânica que se mistura com a manipulação de objectos subtraídos à função que normalmente lhes é atribuída e o resultado é um cenário onde o fantástico é claramente dominante. Estes trabalhos nunca espelham a realidade, mas mostram a imaginação de Nádia Duvall e a forma como a artista vai observando o mundo. Aqui o tema tem a ver com viagem, descoberta, distância e, no fim, a interrogação sobre o sentido da vida, sobre o significado do tempo. Uma viagem perturbante e perturabadora. “Vagamente um Segredo (ou um abrigo para tão longa fuga)” (na imagem) está montada como o diário de uma viagem que vamos visitando por etapas onde o encanto e o desencanto andam de mãos dadas até culminar na espera de alguém que se recorda. A Galeria Foco fica na Rua Antero de Quental 55A e a exposição estará patente até 11 de Dezembro.  Outras sugestões: a Galeria 11 (rua dr. João Soares 5B) expõe um conjunto de obras de Paula Rego sob o título “Saudades”. A mostra, que ficará patente até 15 de janeiro de 2022, junta 27 obras que atravessam várias décadas e temas, desde os anos de 1980 até 2017. E finalmente no atelier - museu Júlio Pomar prossegue a série de exposições comissariada por Sara Antónia Matos que coloca em confronto obras de Pomar com outros artistas - desta vez com Menez e Sónia Almeida. Até Abril do próximo ano.


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A CIDADE REVISITADA  - A nova obra de Daniel Blaufuks, “Lisboa Clichê”, parece um livro de viagens que nos faz descobrir um tempo perdido. Não é apenas um livro de fotografia, o território mais habitual do trabalho de Blaufuks, é também um diário onde o autor foi colocando notas sobre o final dos anos 80 e como ele próprio foi vivendo o que se passava numa cidade que então se redescobria. No fundo é o livro de um viajante pela cidade, que recorda uma Lisboa em parte desaparecida, das tascas e casas de pasto, do fecho dos cinemas históricos, do arranque da vida nocturna no Bairro Alto, da liberdade no Frágil, das bandas rock portuguesas, dos encontros e desencontros na era das cabines telefónicas, do grande incêndio no Chiado.  Inteiramente a preto e branco o livro evoca pessoas e sítios, deixa espreitar para a vida de Blaufuks nessa época e dá conta dos seus pensamentos, ao mesmo tempo que faz descrições do seu quotidiano de então. Pelo meio estão textos de autores como Ruy Belo, Al Berto, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade, Rui Cinatti, Agostinho da Silva, ou Sérgio Godinho, entre outros. O Bairro Alto e as suas noites são recorrentes no livro. E é de uma dessas páginas, depois de um relato do que era o “Frágil” de então, que retiro estas linhas: “Sair do Bairro e caminhar por Lisboa. Ainda é noite, mas sente-se já o próximo dia, os candeeiros dão ainda uma luz de outro tempo, como numa velha fotografia. À noite, Lisboa é uma fotografia a preto e branco”.  Fotógrafo, cineasta e artista plástico, Daniel Blaufuks tem trabalhado na relação entre fotografia e literatura. A relação entre o público e o privado, a memória individual e a memória colectiva, tem sido uma das bases do seu trabalho.


image (1).png30 ANOS DE LITHIUM - “Nevermind”, o segundo álbum dos Nirvana, saíu em finais de Setembro de 1991. Há 30 anos, números redondos. Na altura provocou um sobressalto na música de então, com epicentro no grunge que saía de Seattle. Três anos depois Kurt Cobain morria e começava o mito. Lendas à parte “Nevermind”  está na lista dos discos que é preciso conhecer. Agora, por ocasião do 30º aniversário da sua edição, saiu uma caixa que inclui 5 discos e 75 canções, mais de quatro horas de música. Para além de uma nova remasterização do álbum original, aqui estão  gravações de quatro concertos dos Nirvana, realizados entre Novembro de 1991 e Fevereiro de 1992, mostrando como nesse período a evolução da presença em palco da banda foi significativa. O primeiro é um concerto no Paradiso de Amsterdão, o segundo um concerto sem grande história na California, o terceiro uma arrebatadora actuação em Melbourne, na Austrália, com uma versão de “Lithium” , onde banda e público se completam de forma rara  e finalmente um concerto em Tóquio que é talvez o mais conseguido de todos,do ponto de vista da qualidade de gravação e da evolução musical da banda. Disponível em streaming.





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OS SEGREDOS DA MASSA - Tenho um novo livro de cabeceira que volta e meia visita a cozinha. Trata-se de “Breve história da massa italiana em dez pratos célebres”, de Luca Cesar. E que pratos são esses? O fetuccine Alfredo, a amatriciana, a carbonara, os gnocchi, os tortellini à bolonhesa, o ragu à napolitana, o ragu à bolonhesa, a lasanha, o pesto à genovesa e o esparguete com molho de tomate. Luca Cesari é um  historiador e jornalista gastronómico que tem investigado a origem de alguns dos pratos mais famosos da tradição italiana - podem saber mais sobre ele em ricettestoriche. O livro vai fundo na história da cozinha italiana, mostra como a própria afirmação da massa no interior do panorama gastronómico italiano foi uma lenta conquista que acelerou decididamente somente depois de meados do século XIX. O livro inclui receitas de diversas épocas de cada um dos dez pratos, relata o percurso histórico de cada um deles, indica quando foi publicada pela primeira vez a receita e as várias versões que se foram desenvolvendo. Sem preconceitos Luca Cesari rejeita as natas e conta como a cebola e o alho não fazem parte da tradição inicial da cozinha italiana. Pelo meio demarca-se daquilo a que chama os “gastropuristas”,  que se proclamam os únicos conhecedores dos insubstituíveis ingredientes de todas as receitas típicas e recorda que os pratos tradicionais, como tudo o resto na vida, evoluíram ao longo dos tempos. Como o autor refere, a antiguidade e a estabilidade ao longo do tempo são os dois critérios principais para definir o que pode ser considerado “tradicional” ou não. Porm isso mesmo, diz não ser de estranhar que uma lasanha ou uma amatriciana feitas há um século não fossem iguais às que comemos hoje. “Os pratos que servimos à mesa são apenas o último estágio de uma longa evolução que os foi transformando inexoravelmente ao longo do tempo” - conclui. Arrebatador, é o que vos digo.


 


DIXIT - “Como a vida política se resume cada vez mais à intriga e ao processo, ao adjectivo e ao fútil, quase nada de essencial faz parte dos debates actuais. Vai ser uma campanha dura. Nem sequer vamos ter um duelo de fantasias” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - Não utilizem o vosso poder para eliminar opiniões que considerem perniciosas, porque se o fizerem serão as opiniões a derrotar-vos” - Bertrand Russell


 








novembro 12, 2021

MANUAL DE EXTINÇÃO DA DIVERSIDADE CRIATIVA - EDITADO POR SERRALVES

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UM MENOS UM - A decisão de integrar a programação artística da Fundação EDP (MAAT e da Central Tejo) na esfera da Fundação de Serralves é uma daquelas operações em que o resultado é inferior à soma das partes. Serralves é fruto de uma parceria organizada pelo Estado com empresas privadas do norte do país e a sua actividade conta com uma participação financeira regular e importante de fundos públicos. A Fundação EDP, por outro lado, é um dos raros casos de aposta de uma empresa privada numa obra de responsabilidade social, com diversas esferas de influência e acção, sendo uma delas no domínio da arte e da cultura. A importante intervenção cultural que a Fundação EDP tem mantido deve-se em muito ao perfil que lhe foi desenhado por António Mexia, enquanto dirigiu a EDP. Depois da sua saída cedo se começaram a ouvir vozes, na direcção da empresa, clamando por um foco maior na esfera de apoios sociais e menor na esfera cultural - como se a responsabilidade social das empresas não se devesse também fazer sentir no desenvolvimento do acesso a formas de criação artística. Tudo culminou agora com a entrega da direcção da programação do MAAT e Central Tejo a Serralves. Assim se diminui a diversidade de critérios, escolhas, programações e se reduz a importância que o MAAT tem tido e a sua repercussão positiva na marca EDP. A administração de Serralves regozijou-se com o facto e os actuais dirigentes da EDP mostraram-se conformados, senão mesmo aliviados. Vem a propósito recordar que Ana Pinho liderava já a Administração de Serralves no incidente ocorrido em 2018 com a exposição do fotógrafo Robert Mapplethorpe e que levou à demissão do então director do Museu, João Ribas, por não concordar com a forma como a administração condicionou a montagem da exposição, chegando inclusivamente a preconizar que algumas das obras não fossem incluídas. Estamos pois perante a junção de uma Fundação fortemente participada pelo Estado, e que tem no currículo recente um incidente censório, com uma Fundação privada que tem sido um território de grande liberdade criativa. Ora isto não é uma boa notícia. O melhor resumo da situação criada veio de João Fernandes, que dirigiu Serralves entre 2003 e 2012 e que, do Brasil, onde dirige o Instituto Moreira Sales, rompeu o seu silêncio sobre a instituição a que esteve ligado, afirmando ao “Público” : “Sendo tão poucas as instituições de arte em Portugal, preferiria também aqui a diversidade, por contraponto à concentração de responsabilidades e de poderes de programação”.





SEMANADA - O Governo quer autorizar a plantação de mais 37 mil hectares de eucaliptos em 126 concelhos, contrariando compromissos anteriores; Portugal é o país com mais área plantada de eucaliptos na Europa e o quinto a nível mundial; se o plano for para a frente Portugal terá 10% da superfície de Portugal continental plantada com eucaliptos; as autoridades reconhecem que não é possível saber se a legislação sobre os prazos máximos de resposta do Serviço Nacional de Saúde estão a ser cumprdios nos hospitais públicos, nomeadamente a realização de meios auxiliares de diagnóstico; no ano passado apenas um terço das crianças em condições de serem adoptadas ganharam uma nova família e muitas já passaram mais de seis anos nos lares;  nos últimos cinco anos foram feitas 300 queixas sobre a qualidade das refeições escolares; segundo a Marktest, os resultados de 2021 do estudo “Os Portugueses e as Redes Sociais” revelam que um em cada cinco utilizadores abandonou alguma rede social no último ano e que o Facebook foi a mais mencionada; Rui Rio deve estar à procura do tempo perdido:  anunciou que, até às Directas do PSD, se vai dedicar exclusivamente a acções políticas de oposição ao PS”, coisa que não fez ao longo dos últimos anos; soube-se que no caso Rendeiro a Justiça andou a investigar as viagens de um João Rendeiro que não tinha nada a ver com o ex-banqueiro.


 


O ARCO DA VELHA - Seis meses de uma operação exemplar de vacinação e não se aprendeu nada? Saíu a equipa liderada pelo vice-almirante Gouveia e Melo,  o caos voltou e a incerteza instalou-se de novo.


 


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IMAGENS NÓMADAS - No Museu Municipal de Faro Pauliana Valente Pimentel apresenta as suas fotografias de uma comunidade cigana sob o título “Faro-Oeste” (na imagem). O trabalho de Pauliana Valente Pimentel foi efectuado ao longo de um ano, em 2019, com algumas famílias ciganas na zona de Castro Marim e Vila Real de Santo António, nos acampamentos Cerro do Bruxo, Horta da Areia, Alto do Relógio e Monte João Preto.  A fotógrafa foi movida pelo seu interesse em mostrar a forma como as famílias ciganas preservaram as suas tradições, mantendo-se num registo nómada. O trabalho pretende, nas palavras da autora, “mostrar o dia a dia destas famílias, dando ênfase às suas tradições, com o intuito de combater preconceitos e estereótipos racistas e xenófobos de que são constantemente alvos”.  “Faro-Oeste” é um bom exemplo da forma de trabalhar de Pauliana Valente Pimentel, entrando dentro dos temas que aborda, criando uma narrativa através de imagens, na realidade um ensaio fotográfico que consegue simultaneamente documentar a realidade e interpretá-la com o seu olhar pessoal. A exposição está inserida na programação do Verão Azul, Festival Transdisciplinar de Artes Contemporâneas, que vai na sua décima edição e estará patente até 19 de Dezembro.


 


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ONDE ESTÁ O LÍDER? - Prometo que não vou falar da situação de nenhum partido político. O tema é outro e tem a ver com o que se passa nas empresas. A pandemia provocou a alteração de hábitos, a mudança de rotinas e de ferramentas de trabalho. A importância de uma liderança eficaz nas empresas tornou-se cada vez maior. A pandemia desestabilizou equipas criou receios, colocou desafios. Neste contexto a capacidade de liderança é cada vez mais importante  não só para mobilizar os colaboradores, mas sobretudo para tornar as empresas mais fortes e eficazes.  “Onde Está O Líder” é um livro que evoca o período antes da pandemia e vai até ao tempo presente, passando por temas como a cultura de empresa, a gestão de talento, o recrutamento e, claro, a liderança. E, no pós-pandemia, aborda o regresso aos locais de trabalho, a vida no mundo digital e dos dados  ou a resiliência. Luis Cervantes, Presidente da Caravela Seguros, que prefacia o livro, diz que ele se insere “na categoria que classifica de “manual de cabeceira”, ou seja, sublinha, “o companheiro que está sempre à mão e a que recorremos frequentemente quando somos defrontados com desafios difíceis”. Mesmo no final do livro a autora, Dalila Pinto de Almeida, deixa um alerta: “A época em que vivemos exige de um líder o que sempre exigiu: que saiba conduzir as pessoas até ao ponto que só ele ainda viu, através de um caminho desenhado por todos, mesmo se depois alguns escolhem atalhos para lá chegar”. Aqui chegado devo fazer  uma declaração de interesse: a minha proximidade com a autora levou-me a conhecer todo o livro antes de ele ser editado. Mas o que aqui deixei escrito não é um favorecimento, é uma apreciação genuína.


 


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O FADISTA - “Aves Agoirentas” é um fado de David Mourão Ferreira e Alain Oulman gravado por Amália para o histórico álbum “Busto”, um dos mais importantes e surpreendentes da sua carreira - e que em breve vai ter nova edição. Nunca tinha ouvido “Aves Agoirentas” por outra voz - ainda por cima por uma voz de homem. É como se, sendo o mesmo fado, fosse outro, com um sentido de respeito e homenagem a Amália. Este novo álbum “Horas Vazias”, de Camané, é um reforço da sua crença no Fado. Por isso gravou o “Fado Rosa” de João David Rosa com um poema de Sebastião Cerqueira, “As Vezes Há Um Silêncio” de Jaime Santos,  “Amar Não Custa”, também com um poema de Sebastião Cerqueira; e destaco o  atrevimento mostrado na abordagem de “As Ilhas Afortunadas” de Fernando Pessoa, aqui dedicado a José Pracana. Camané é um fadista de palavras - sabe-as sentir e cantar como mais nenhum da sua geração - é esse talvez o maior testemunho que guardou do seu trabalho com José Mário Branco, que produziu todos os seus discos até ter morrido. Para produzir este novo álbum, Camané foi buscar um homem do jazz, Pedro Moreira que trabalhou com habituais parceiros de Camané: José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola de fado e Carlos Bica no contrabaixo, que tiveram a companhia ocasional do saxofone de Ricardo Toscano, o acordeão de João Barradas e um sexteto de cordas. José Mário Branco continua no entanto presente, com uma música que fez para o poema  inédito de Amália Rodrigues “Tenho Dois Corações”. Além dos nomes já referidos há outros nestes 16 temas, como Amélia Muge, Maria do Rosário Pedreira, João Monge, Jorge Palma,  Sérgio Godinho, Vitorino Salomé e Pedro Abrunhosa - a quem coube o primeiro tema do álbum, “Que Flor Se Abre No Peito”, onde Camané mostra logo tudo o que o torna único.


 


A MORCELA - Ora bem, hoje vou escrever sobre comida de conforto, alimentos que nos façam aquecer o corpo e a alma. Registo com agrado que recomeçou a época do cozido à portuguesa. Por mais paradoxal que pareça, uma das coisas de que mais gosto no cozido não tem a ver com carne. Para eventual espanto de alguns defendo a essência vegetariana do cozido à portuguesa: a cabeça de nabo, as cenouras, a couve, um arrozinho aprimorado dentro da tradicional bola de cozedura que mergulha no panelão e ganha o sabor das carnes, sabor que se estende ao molho que há-de regar os legumes. No cozido, em matéria carnívora, sou um morceleiro. Sem boa morcela o cozido não é a mesma coisa e um pedaço de toucinho rico também acompanha a preceito. Uma boa amiga que festeja sempre o aniversário com um belo cozido faz questão lembrar a assistência que há reforço de morcela em minha honra - por uma vez há mais morcela que farinheira, digo eu sorrindo para dentro. Ainda tenho na memória o sabor de infância da morcela fresca, larga, cortada sem ser muito grossa, em cima de uma fatia de bom pão alentejano. Para mim era um lanche, sentado nas escadas de granito dos meus avós. Não é fácil arranjar boa morcela, mas naqueles aniversários ela é sempre de boa qualidade e a que mais me lembra a minha infância.


 


DIXIT - “É este o grande princípio das democracias liberais: limitar o poder político de modo a garantir que ninguém, seja por via do Estado ou das grandes empresas, controle ou condicione a vida dos cidadãos” - André Abrantes Amaral


 


BACK TO BASICS - “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada” -  Otto von Bismark


 








novembro 05, 2021

QUEREMOS UMA POLÍTICA DA ESCURIDÃO?

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A PRESSA É MÁ CONSELHEIRA - Pedro Nuno Santos tem uma vantagem: diz ao que vem, sem rodeios. Não cria suspense. Ora leiam o que afirmou esta semana: “o entendimento à esquerda não foi um parênteses na história da democracia portuguesa e a direita tem de se habituar a isso”. O discurso é apelativo aos militantes do PS que gostariam de estar no Bloco de Esquerda, mas preocupante para os que acreditam no ideário social-democrata puro da fundação do PS. Adalberto Campos Fernandes, ex-ministro da Saúde, alertou: “dentro do PS, há uma atração que eu diria às vezes mesmo uma atração fatal, um certo fascínio por fazer do PS uma espécie de ‘BE 2.0’ e esse não é o meu Partido Socialista e não é o de muitos milhares de militantes e muitos milhares de homens e mulheres que fazem o PS”. E deixou um aviso: o PS não pode abandonar o centro político sob pena de abandonar uma parte importante do eleitorado. Assim sendo, entre o que Pedro Nuno Santos diz e o que Adalberto Campos Fernandes defende, surge a certeza de que também no PS, como no CDS e PSD, existe uma clivagem em questões fundamentais - não só de alianças, mas de todo um programa político. Numa situação assim as propostas sobre as quais o eleitorado é chamado a pronunciar-se têm de ser claras. Esta semana foi conhecida uma carta aberta de um grupo de cidadãos que apela a que não surjam precipitações e que se proporcione condições para que próximas eleições possam resultar numa clarificação e não numa nova confusão: “Está em causa o respeito integral pela igualdade de oportunidades e imparcialidade no tratamento de candidaturas expressamente garantidas pela Lei dos Partidos Políticos. Trata-se de um valor político-constitucional inafastável, que não podendo prevalecer em exclusivo, deve fazer parte da equação decisória. Havendo vários partidos com processos eleitorais internos, regulares, obrigatórios e previamente iniciados, a resposta democrática não pode ser exigir-lhes que prescindam da democracia interna.” E sublinham: “A preparação dos programas e escolha dos candidatos, os vários debates e a campanha devem decorrer em tempo rápido mas razoável, sem precipitações que sempre frustrariam os objectivos de esclarecimento dos eleitores e de superação dos impasses políticos”. Ao ler esta oportuna carta aberta lembrei-me desta velha citação: “O dever daqueles que são eleitos é defender o povo face ao Estado e não impôr o que o Estado decide ao povo.”. A pressa é má conselheira.





SEMANADA - Portugal aproveitou apenas metade dos fundos da União Europeia para apoio a refugiados e as organizações que trabalham no terreno queixam-se de um processo com muitas falhas e de falta de transparência na forma como o dinheiro tem sido gerido; o Plano de Recuperação de Aprendizagens lançado pelo Governo para apoiar a escola pública tem o cumprimento das metas em dúvida devido à falta de professores, de computadores, de redes wi-fi funcionais e até de falta de tomadas eléctricas em muitas salas de aula; o trabalho extraordinário  realizado por profissionais do Serviço Nacional de Saúde entre Janeiro e Setembro deste ano já atingia cerca de 17 milhões de horas, mais 36% do que em igual período do ano passado; a pandemia pode ter deixado sem diagnóstico 4400 casos de cancro; o endurecimento de penas e a simplificação de processos não estão entre as cinco medidas mais urgentes preconizadas pelo Observatório de Economia e Gestão da Fraude num livro recentemente publicado; uma reportagem da SIC mostrou que além de Eduardo Cabrita, também os carros oficiais de Pedro Nuno dos Santos, Matos Fernandes e João Galamba foram apanhados em excesso de velocidade; José Manuel Trigoso, presidente da Prevenção Rodoviária portuguesa, afirmou que os carros do Estado não devem infringir as normas, até por uma questão de exemplo; 400 jactos privados transportaram participantes na cimeira do clima na Escócia; o Ministério da Economia divulgou uma avaliação onde se verifica que o impacto económico da web summit ficou aquém do esperado em termos de receita fiscal, no valor acrescentado bruto e na criação de emprego; segundo o Eurostat, em 2020 Portugal foi o 4.º maior produtor e o 2.º maior exportador de abóboras da Europa.


 


O ARCO DA VELHA - A GNR tem estado a investigar papel higiénico e fragmentos biológicos com o objectivo de tentar provar que Nuno Santos, a vítima mortal do carro que transportava o Ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita,  no dia 18 de Junho na A6, não estaria a trabalhar quando foi atropelado. 


 


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OS COLECCIONADORES  - No Centro Cultural de Cascais, pode ser vista uma exposição montada a partir da Colecção Norlinda e José Lima, iniciada há mais de 40 anos pelas mãos do empresário português da indústria do calçado José Lima,  uma das mais significativas e abrangentes coleções de arte privada do país, e que está baseada no vinda do Centro de Arte Oliva, de S. João da Madeira. Formada por aproximadamente 1300 obras de cerca de 480 artistas de todo o mundo, a mostra "Entre as Palavras e os Silêncios” reúne 104 obras dessa colecção, entre pinturas, desenhos, fotografias, esculturas e instalações, realizadas por alguns dos mais importantes artistas contemporâneos, portugueses e estrangeiros, muitas delas nunca antes mostradas em Cascais ou Lisboa, com curadoria de Luisa Soares de Oliveira e Andreia Guimarães. Ali podem ser vistos trabalhos de Paula Rego, Andy Warhol, Julião Sarmento, Rui Chafes, Cindy Sherman, Júlio Pomar, Damien Hirst e Victor Vasarely, entre tantos outros. Esta fotografia da exposição é de Valter Vinagre. A ver até 6 de Fevereiro de 2022. Vem a propósito dizer que nos últimos tempos tem sido frequente a apresentação pública de colecções de arte privadas. O próprio Primeiro Ministro tem assinalado o 5 de Outubro para abrir as portas da sua residência oficial e aí mostrar obras de colecções particulares. Até ao mês passado estava a de Fernando Figueiredo Ribeiro e agora estão 41 peças da colecção de Ana Cristina e António Albertino, dois coleccionadores de Coimbra. Até bem recentemente esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga a “Colecção Utópica”, com peças do Museu do Caramulo, desde o primeiro Picasso que se expôs em Portugal, até obras de Amadeo-Souza Cardoso ou Maria Helena Vieira da Silva. E  no Museu Arpad Szenes / Vieira da Silva, que já em 2018 apresentou a colecção de António Pinto da Fonseca, estão  agora obras de Arpad e Vieira da Silva da colecção da Fundação Ilídio de Pinho. Em janeiro, no Museu do Chiado será mostrada a colecção de Mário Teixeira da Silva (galeria Módulo) . 


 


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CONTRIBUTOS PARA A COMPREENSÃO DA VIDA -  “Um Caminho no Mundo” é a 11ª novela de V.S. Naipaul, editada originalmente em 1994, muito antes de o autor ter recebido o Nobel da Literatura em 2001. O livro, agora com uma edição portuguesa, ultrapassa os limites daquilo que se pode esperar de uma obra de ficção. A história é composta por nove narrativas ligadas entre si e complementares, algumas de natureza mais pessoal, outras mais históricas e outras mais ficcionais. O conteúdo é épico e integra personagens como Cristóvão Colombo, Sir Walter Raleigh, Simon Bolívar e o revolucionário venezuelano Francisco Miranda. A obra começa nas Caraíbas dos tempos modernos, nos anos de 1940, e acaba num país da África Oriental. É na terra natal de Naipaul, Trindade e Tobago, mais especificamente em Port of Spain, a cidade onde viveu na juventude, que a história se inicia - tinha ele 17 anos, acabado de sair do ensino secundário, ocupando os meses de Verão com um trabalho administrativo, como escrivão nos Arquivos de Estado, até que aos 18 anos vai para Inglaterra, estudar literatura em Oxford.  Naipaul interroga-se sobre a sua própria vida, o caminho que percorreu até se tornar escritor, como se transformou de um tímido e inexperiente jovem de uma colónia distante numa voz do exílio que alcançou a fama. O livro conta a história de Blair, um funcionário público local competente, sistematicamente ultrapassado por quadros brancos vindos de Londres. Percebe-se a radicalização política na ilha e a desilusão de Blair que sai da sua terra e se transforma num reputado conselheiro financeiro que auxilia governos do terceiro mundo. Numa dessas missões, num corrupto país da África, Blair é assassinado por ordem de altos funcionários do governo envolvidos no contrabando, de marfim a ouro, que ele se preparava para denunciar. Esta é considerada uma das grandes obras de Naipaul, “uma viagem pelo mistério dos destinos humanos e uma observação de como a História molda a personalidade e esta molda a História”. Edição Quetzal, traduzida por Maria João Lourenço.


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O TROMPETE MÁGICO - O trompetista italiano Enrico Rava, actualmente com 82 anos, é uma das principais figuras do jazz europeu e tem desempenhado um importante papel na formação de jovens músicos no seu país.  O seu mais recente disco é uma gravação ao vivo, realizada no Middelheim Festival, de Antuérpia, há dois anos. Reza a história que Rava começou por tocar trombone mas, depois de ter ouvido Miles Davis, entregou-se ao trompete. Ao todo tem meia centena de discos e desde 2004 tem editado com a ECM. Como se pode ouvir neste “Edizione Speciale” ele fala com  o trompete ao longo dos seis temas que preenchem esta hora de gravação. Aqui ele é acompanhado por um grupo de jovens músicos que como ele se entregam à improvisação, deixando espaço para o trompete, mas respondendo sem receio aos desafios melódicos que Rava vai lançando: Francesco Bearzatti no sax tenor,  Giovanni Guidi no piano, Francesco Diodati na guitarra, Gabriele Evangelista no baixo e Enrico Morello na bateria. Os temas do disco incluem versões de trabalhos anteriores de Rava desde uma versão de uma gravação de 1978, até “Wild Dance” de 2015, passando por “The Fearless Five” de 1978,  ou a evocação de uma melodia italiana, “Le Solite Cose”, que evolui para um arrebatador “iva”. Registo também uma versão de “Once Upon A Summertime” de Michel Legrand e outra do clássico cubano  “Quizás, Quizás, Quizás”. Um dos temas mais fascinantes do disco é logo o de abertura, “Infant” onde os músicos deste sexteto mostram logo todo o seu potencial. 





DIXIT - “Não se vai para eleições nacionais a fugir de eleições partidárias. Ninguém vota em dois cobardes para tomar conta de um país” - João Miguel Tavares


 


BACK TO BASICS - São muito raras as pessoas que ouvem aquilo que não querem ouvir - Dick Cavett