A Câmara Municipal de Lisboa resolveu alterar significativamente o trânsito da zona de Campolide e Marquês da Fronteira. O cruzamento ao cimo da Av. Miguel Torga deixou de permitir a viragem para a Rua D. Francisco Manuel de Melo, obrigando a seguir em frente e virando depois na Padre António Vieira, um cruzamento sem semáforos e com má visibilidade, mais perigoso. Paradoxalmente, quem vem da Marquês de Fronteira pode à mesma seguir pela D. Francisco Manuel de Melo. A situação mais perigosa, no entanto, ocorre no cruzamento entre a Marquês de Fronteira, a Artilharia Um e a Miguel Torga. Como o trânsito se complicou bastante com as alterações feitas, quem vem desta última artéria, a subir, arrisca-se a ficar no meio do cruzamento, sem indicação de semáforos, arriscando-se a levar com um carro em cima, ainda por cima numa zona de dificil visibilidade. E quem vem da Marquês da Fronteira e quer virar para a Rua de Campolide ficou também com a vida mais dificultada com a faixa à direita quase sempre bloqueada. O Presidente da Câmara, Fernando Medina, o Vereador Manuel Salgado e os serviços que regulamentam o trãnsito em Lisboa são os responsáveis pela calamitosa situação que prejudica gravemente os residentes locais, sobretudo os moradores na Freguesia de Campolide - nada de novo numa política autárquica que tem por princípio fazer a vida difícil aos munícipes. Eu não sei quem planeia estas alterações, mas pelo que está à vista, deve ser alguém que está sentado num gabinete e nem conhece o local. Senhor Medina, vá ver o que fez, assuma o trânsito perigoso que criou e o desconforto que deu de prenda de Natal a quem ali vive.
Coisas que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
dezembro 31, 2016
dezembro 30, 2016
TODO O TEMPO É FEITO DE MUDANÇA
TEMPOS - Em 2017 os primeiros nascidos da Geração Z completarão 21 anos. Vieram ao mundo em 1996, ao mesmo tempo que o Google. Fazem já parte integral do universo digital. Mais do que isso, de um mundo onde a comunicação é constante, disponível em qualquer lugar, como nunca antes deles. No bolso levam computadores mais potentes que os PC’s do ano em que nasceram. Fotografam, escrevem e filmam com eles. Acessoriamente também os usam para telefonar. Comunicam entre si por sistemas de mensagens. Da mesma forma que a geraçaão nascida nos anos 60 ouvia música em transistores fanhosos, e a dos anos 80 andava de walkmans atrás, esta geração ouve e vê em streaming e partilha a vida online. Acompanharam o nascimento do Facebook em 2004, do Twitter em 2006, do iPhone em 2007 (e depois começaram os outros smartphones...), do Instagram em 2007, do whatsapp em 2009. Muitos vêem mais video, filmes e séries nos ecrãs dos telemóveis, tablets e laptops que nos aparelhos de televisão tradicionais. Para uma percentagem importante o canal principal de imagem é o YouTube, que nasceu em 2005. Se olharmos bem para estas datas, estamos perante uma geração que assistiu e cresceu a par com o novo mundo digital e móvel. Em Portugal, actualmente, segundo a Marktest, 35% das páginas dos sites são acedidas através de equipamentos móveis. Entre estes equipamentos, os acessos por smartphone representaram 30% , enquanto os tablet foram responsáveis por 5% dos pageviews. Para usar uma expressão da consultora de inovação Fabernovel, a GAFAnomics (o sistema económico desenvolvido pela Google, Apple, Facebook e Amazon) já é coisa corrente e agora está a crescer uma nova economia, onde a inteligência artificial, a realidade aumentada, os carros autodirigidos de motores eléctricos e a segunda geração da conquista espacial estão ao virar da esquina do tempo. É uma geração que, no dia a dia, nas marcas, valoriza a atracção, a relação que se estabelece, a prontidão na resposta e a capacidade de crescimento. É este o próximo desafio. 2017 está aí e é a porta aberta para o Futuro.
SEMANADA - Numa reunião do PS o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, comparou as conversações na concertação social a uma negociação numa feira de gado; dias depois veio pedir desculpa, mas só após diversas entidades terem manifestado o seu desagrado; os protestos vieram de parceiros da concertação social e de negociantes de gado; os combustíveis estão a aumentar há cinco semanas; ao longo deste ano os acidentes de viação provocaram um morto por semana; no ano passado existiam 176 docentes contratados por universidades portuguesas que não recebiam qualquer remuneração; sobre este facto o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, disse estar "tranquilo" e considerou que a situação de docentes a trabalhar nas faculdades sem remuneração "é normal"; nos dez primeiros meses do ano foram comunicadas ao Ministério Público quase 4300 alertas por suspeitas de branqueamentos de capitais; segundo a Polícia Judiciária António Palolo é o pintor português mais falsificado de sempre; o Presidente da República sublinhou que a Justiça nacional “é ainda muito lenta”; em 2017 Lisboa vai ser a capital ibero-americana da Cultura; o Governo autorizou por estes dias a transferência de mais de meio milhão de euros para quatro autarquias governadas pelo PS - Proença-a-Nova, Arruda dos Vinhos, São Pedro do Sul e Penamacor.
ARCO DA VELHA - Familiares directos do presidente da Câmara de Gaia, e do vice-presidente, a adjunta da presidência e autarcas de juntas de freguesia, todos com responsabilidades políticas no PS, integram a direcção, remunerada, de três das principais instituições de solidariedades social do concelho, a quem a autarquia entregou o negócio dos Ateliers de Tempos Livres (ATL) nas escolas, que antes eram geridos pelas associações de pais.
FOLHEAR - Desde 2014 a equipa editorial da Monocle começou a publicar em Dezembro uma edição especial, autónoma, a que chamou “The Forecast”, porque explora tendências. Há duas semanas saíu a terceira edição e o tema de capa deste novo “The Forecast” é o evoluir da comunicação entre as pessoas, com base no princípio de que nada substitui uma boa conversa. Tal como a “Monocle”, a publicação não tem uma conta de Facebook - para sublinhar o seu apego à continuada importância do papel impresso como forma de comunicação. “The Forescast” é quase um livro - tem 210 páginas em bom papel, e incorpora um suplemento adicional de 50 páginas sobre 100 ideias, destinos, design e descobertas que vale a pena fazer em 2017. Na declaração de princípios deste “Monocle 100”, uma frase define tudo: “Na paisagem digital acontece o expectável; no mundo real, cara a cara, pés no chão, coisas inesperadas e interessantes acontecem”. A primeira imagem deste “Monocle 100” é da Praia da Arrifana, em Aljezur. Nada substitui ir ao sítio, falar com as pessoas, olhos nos olhos, à volta de um café ou de uma refeição - esse é o mote de toda esta publicação. “The Forecast” sublinha que uma reportagem não se faz através da internet - faz-se indo aos locais, falando com as pessoas - uma verdade básica que por vezes hoje é esquecida. Temas imperdíveis: como envelhecer bem, a importância do transporte automóvel na vida das cidades, exemplos de boa televisão na Dinamarca e na Alemanha. Custa 18 euros e vale a pena - é boa companhia para muitas horas.
VER - A Galeria Quadrado Azul, criada por Manuel Ulisses, foi buscar o seu nome à revista fundada por Almada e Amadeo no tempo do futurismo. A Galeria Quadrado Azul nasceu no Porto em 1986 e abriu outras portas em Lisboa, em 2006. Para assinalar os 30 anos de actividade Manuel Ulisses, apresenta nas Quadrado Azul do Porto e Lisboa duas exposições colectivas, comissariadas por Miguel Von Hafe Pérez, ambas com o título genérico QAXXX. A de Lisboa (na imagem) fica até 14 de Janeiro e a do Porto até 25 de Fevereiro. Em ambas estão expostas obras de artistas que marcaram a actividade da Galeria, como Alberto Carneiro, Álvaro Lapa, Ângelo de Sousa, Artur Barrio, Candice Lin, Fernando Lanhas, Francisco Tropa, Hugo Canoilas, José de Guimarães, José Pedro Croft, Mica Tajima, Paulo Nozolino, Pedro Tropa, Susana Solano e Renato Ferrão, entre outros. Porto: Rua Miguel Bombarda 553; Lisboa: Rua Reinaldo Ferreira 20A, Alvalade. Outras sugestões: reabriu o Museu de Arte Popular com a exposição “da fotografia ao azulejo”, até 1 de Outubro de 2017. A exposição mostra aspectos de Portugal e de tradições regionais, tomando como ponto de partida o azulejo e a imagem fotográfica que muitas vezes o inspira. Finalmente se passarem por Elvas, até 16 de Abril, não percam no Museu Colecção António Cachola Rua da Cadeia) a exposição “Crystal Clear”, de Augusto Alves da Silva, uma das melhores mostras de 2016.
OUVIR - Aos 71 anos Neil Young continua a surpreender. Está a tornar-se comum descobrir como alguns nomes do rock conseguem manter o seu espírito criativo tão aceso durante tanto tempo, e no entanto isto não é surpresa noutras artes - basta ver Clint Eastwood no cinema ou David Hockney nas artes plásticas para ter bons exemplos disso mesmo. A carreira musical de Neil Young começou há 50 anos, com os Buffalo Springfield mas a fama a sério veio com Crosby, Stills, Nash & Young. Ao longo da sua carreira Neil Young sempre gostou de abordar temas políticos e sociais e o seu novo álbum, “Peace Trail” é musicalmente oriundo dos blues e do rock (logo a começar pela sua inconfundível guitarra) e tematicamente relata situações concretas na política americana e na situação mundial, um pouco como um jornal de actualidades cantado. Há duas canções que fogem desse universo - “Can’t Stop Working” explica porque é que aos 71 anos ele continua a gravar discos atrás de discos e como isso é fundamental para se sentir vivo; e a faixa final, “My New Robot”, explora sonoridades electrónicas que fazem lembrar o seu álbum Trans. “Mr Pledge” fala das pessoas já com alguma idade que “caminham com os seus olhos postos num ecrã” - é uma metáfora dos tempos modernos. “Indian Givers”, “Texas Rangers”, “Show Me” e “John Oaks” são outras canções a reter neste disco onde Young conta com a participação do baterista Jim Keltner e do baixista Paul Bushnell. Musicalmente "Peace Trail" é dos seus melhores trabalhos dos últimos tempos. Pode ouvir no Spotify, onde Young finalmente autorizou que a sua obra fosse acessível.
PROVAR - Estou fã da Mercearia dos Açores e da Loja Açores, estabelecimentos inteiramente dedicados aos produtos do arquipélago. Na Baixa, Rua da Madalena 115, fica a propriamente dita Mercearia dos Açores e junto a Picoas, na Rua Viriato 14, fica a Loja Açores. O destaque vai para os diversos queijos dos Açores, que são dos melhores de Portugal e também para a belíssima manteiga Rainha do Pico. Bolo lêvedo, doces artesanais (de amoras, maracujá, physalis, ananás ou capucho, entre outros), biscoitos de canela, chá Gorreana nas suas várias qualidades e numerosas conservas das melhores marcas açorianas - nomeadamente as Santa Catarina, da ilha de S. Jorge, com atum temperado com gengibre, funcho, tomilho ou tomate picante são incontornáveis. A loja da Rua da Madalena é maior, mas a das Picoas tem também os principais produtos. E se não estiver em Lisboa pode sempre usar a loja online em www.merceariadosacores.pt. Há também um belíssimo patê de atum com oregãos e flocos de atum temperados, ideais para sanduíches. Entre as bebidas destaque para os vinhos do Pico, nomeadamente os brancos, e para o Gin Goshawk. Na charcutaria prove o chouriço picante ou a morcela de S. Miguel. Uma visita à loja online mostra bem a diversidade de produtos disponíveis.
DIXIT - “O PM faz o discurso de Natal numa creche. O PR comenta, lamentando, a morte de George Michael. O MNE chama gado aos parceiros sociais. Alguém consegue levar os nossos governantes a sério? Mais grave, será que eles se levam a sério?” - João Marques de Almeida, no Facebook
GOSTO - As subvenções públicas aos partidos políticos e às campanhas eleitorais vão ser reduzidas em definitivo em 10% e 20%
NÃO GOSTO - A dívida pública portuguesa chegou ao fim de 2016 com um significativo aumento face a 2015.
BACK TO BASICS - Jamais haverá ano novo se continuarmos a copiar os erros dos anos velhos - Anónimo
dezembro 29, 2016
VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICAS VIRTUDES
Vai para aí um grande alvoroço sobre o facto de umas declarações informais, em conversa privada, do Ministro Santos Silva, terem sido utilizadas publicamente na comparação entre a negociação na concertação social e a negociação em feiras de gado. Há quem ache que, por serem privadas, não deviam ser usadas. Vêm dos que pensam que os políticos podem esconder o que de facto pensam e fazerem só declarações bonitas. Este alvoroço espelha o estado do país e da política: uma coisa é o que se diz publicamente, outra coisa é o que se diz entre amigalhaços e que, na maioria dos casos, espelha o verdadeiro e sincero pensamento das pessoas. Por estas e outras é que os políticos se desacreditam e as pessoas descrêem na política e seus agentes. O que aconteceu a Santos Silva podia ter acontecido a muitos dirigentes de outros partidos. À mulher de César não lhe basta parecer ser séria, tem que o ser de facto. O problema, digo eu, não está em usar uma declaração privada neste tempo em que as pessoas se expõem e aceitam ser captadas em quaisquer circusntâncias quando estão na ribalta pública. Fazem aliás por isso. O problema é quando o discurso público de um Ministro é tão diferente do discurso privado. O que se reportou não é uma conversa íntima - é a declaração de que um Ministro e dirigente partidário não tem qualquer respeito pela concertação social, que entende ser uma chicana infelizmente necessária. Como diz hoje o Fernando Sobral no Jornal de Negócios, "o principal sintoma de que um regime político está a desmoronar-se é a corrupção da linguagem". O que o microfone indiscreto captou foi isto - não foi nenhuma intimidade pessoal nem nenhum segredo de alcova.
dezembro 23, 2016
SOBRE O ESPECTÁCULO NA POLÍTICA
TEATRO - Achei muito curioso que, à medida que os dias foram passando, o foco das redes sociais tenha deixado de ser o fim do Teatro da Cornucópia e passado a ser o protesto contra a visita que Marcelo Rebelo de Sousa fez no dia, anunciado publicamente, do encerramento das portas ao público. O mais curioso de tudo é que muitas pessoas que se insurgem geralmente contra a apatia dos poderes e dos políticos perante a cultura, desta vez insurgiram-se contra o facto de o Presidente da República ter mostrado preocupação com uma companhia de teatro referencial no nosso panorama artístico. Não houve idêntica preocupação por parte do apagado ser que foi proclamado Ministro da Cultura, e que se viu obrigado a alterar os seus planos de fim de semana para ir ter com o Presidente e encarar a situação de frente, o que antes nem lhe passava pela cabeça fazer; nem se ouviu tão pouco palavra dessa espantosa criatura, que gere esta área de actuação, o secretário de Estado, que, de Honrado, na acção política, tem apenas o nome. O que me quer parecer é que a visita de Marcelo Rebelo de Sousa incomodou todos os que se ficaram pelas palavras e posts no Facebook, na função habitual de carpideiras. Num assomo de interesse pela Constituição multiplicaram-se os que disseram que o Presidente estava a sair da sua esfera de competências. Esses e mais uns tantos clamaram pelo fim da ingerência de Belém nas acções de S. Bento, coisa curiosa vinda de quem, há tempos, tanto dizia, defendia e pugnava pelo contrário. Por muito que me espante não vejo onde está o problema - Marcelo sempre se interessou por temas culturais e ainda por cima, é público, gosta de Teatro, e não estou a ser irónico. E, em abono da verdade se diga, seja qual fôr o desfecho de tudo isto, que também não me causa engulhos que haja na atribuição de subsídios critérios de mérito - desde que se assumam de forma clara. A realidade é que, usando subterfúgios, em diversas áreas, o mérito e o peso histórico de alguns criadores sempre foi reconhecido, em todos os governos, em todos os regimes, em todas as épocas. O estranho é avaliar da mesma forma quem começa e quem é referência. O cinismo aplicado em regulamentos é a arte dos indigentes. E dos oportunistas.
SEMANADA - Os custos da habitação pesam cerca de 32% no orçamento das famílias portuguesas; mais de 1700 famílias foram despejadas em 2016; a lista de espera de habitação social é composta por quase quatro mil famílias; o índice dos preços de habitação aumentou 7,6% no terceiro trimestre deste ano; 37% dos novos contratos de trabalho foram feitos com salário mínimo; este ano os CTT contam receber cerca de 200 mil cartas dirigidas ao Pai Natal; neste Natal cada consumidor português deverá gastar 373.35 euros, mais 25% que em 2015; as compras no comércio de rua tradicional estão a aumentar, em detrimento dos centros comerciais; em Lisboa os Sapadores Bombeiros realizam cerca de 20 mil intervenções por ano; os incêndios deste ano provocaram a destruição de mais de 8% do Parque Nacional da Peneda-Gerês; este ano arderam 160 mil hectares no continente, dos quais 14 mil em áreas protegidas; em 2016 a criminalidade geral desceu 6,5% mas a chantagem sexual por actividades nas redes sociais e na net aumentou; apenas 1,5% dos inquéritos sobre pornografia infantil resultam em acusação; o Bareme Imprensa da Marktest quantifica em sete milhões o número de portugueses que contactam regularmente com jornais ou revistas.
ARCO DA VELHA - Cristina Pinto, uma desempregada de Felgueiras, criou um bolo que pretende representar Portugal, e a que chamou Dom Marcelo, em homenagem ao Presidente da República.
FOLHEAR - A mais recente edição da colecção “Livros Amarelos” inclui “A Noite Que Foi Natal” de Jorge de Sena, a “Carta do Pai Natal” de Mark Twain e “Os Mortos”, de James Joyce. Esta colecção é feita com o objectivo de mostrar, e dar a ler, o diálogo entre ensaios, contos, poemas ou novelas, procurando as relações que existem entre textos célebres. “A Noite Que Fora de Natal” foi escrita por Jorge de Sena em 1962 e a “Carta do Pai Natal” reproduz um texto de Mark Twain escrito em 1895, em resposta a uma carta enviada pela sua filha Susy ao Pai Natal, em seu nome e em nome da irmã mais nova, fazendo uma série de pedidos. É um texto marcante, onde é impossível não vislumbrar a ternura de Twain pela sua filha, as brincadeiras que imaginou para que ela pudesse falar directamente com Santa Claus. Finalmente, “Os Mortos” é o derradeiro conto, short story melhor dizendo, de “Dubliners”, de 1914 - e por acaso é, em dimensão, o maior de todos. É também considerado como o expoente das short stories em língua inglesa e já serviu de inspiração a um filme realizado por John Huston e a um musical da Broadway. E é um texto fascinante.
VER - Pode ver-se o “Memorial do Convento”? Até aqui podia apenas ler-se, agora já se pode visualizar. O editor José Cruz dos Santos imaginou uma edição especial da obra, ilustrada por João Abel Manta e prefaciada por Carlos Reis, uma ideia que de imediato seduziu José Saramago, poucos anos antes da sua morte. João Abel Manta fez uma série de 20 ilustrações, até agora inéditas, já que a projectada edição nunca se chegou a concretizar. A “Guerra & Paz” conseguiu ressuscitar o projecto e fez agora essa edição, numa tiragem única e limitada de 500 exemplares, que mostra exactamente a edição que havia sido pensada e criada entre 2005 e 2010, mas que nunca havia sido concretizada. A edição é graficamente magnífica, capa dura, as ilustrações, a côr, coladas ao longo das páginas. São desenhos inspirados pela obra, a maioria a viver num imaginário onde o fantástico é omnipresente e que vive da sugestão dos corpos e dos seus actos. O prefácio de Carlos Reis é magnífico, permite contextualizar “Memorial do Convento” no percurso literário do autor, no momento editorial da sua primeira edição (1982), e, claro, no cruzamento da ficção com a História.
OUVIR - Quando escreveu “The Last Ship”, sobre a decadência de Wallsend, a cidade onde cresceu, entre docas e estaleiros que foram encerrando, Sting disse numa entrevista, em 2013, que tinha deixado de lhe interessar fazer canções para uma banda rock. “The Last Ship” foi escrito para orquestra, pensado para representação teatral, estreado na Broadway em finais de 2014 e foi um falhanço de bilheteira. Surpreendentemente Sting lançou agora um disco novo, só com temas inéditos, todos com um fraseado claramente rock, com guitarras, baixo e bateria, num som inequivocamente Police. Para além da clara inspiração rock, “57th & 9th”, é um trabalho onde se notam as influências do jazz que Sting foi cultivando nos últimos anos, assim como das sonoridades celtas que sempre foram uma obsessão sua. Além do amor e suas desventuras estas canções falam também de questões contemporâneas, como as mudanças climáticas ou a questão dos refugiados. Há momentos em que é inevitável recordar “Born In The 50’s” do primeiro álbum dos Police, um hino rock onde a voz de Sting disputava o protagonismo da gravação com a guitarra - o que aqui volta a acontecer em várias ocasiões, nomeadamente em “I can’t stop thinking about you” ou “Petrol Head”. Uma das faixas iniciais, “50.000”, é claramente uma evocação da emoção de estar em palco e ao mesmo tempo uma homenagem a nomes como Prince e Bowie, desaparecidos este ano. O disco vai buscar o seu nome a uma das zonas de Nova Iorque onde ainda há estúdios de gravação e foi num deles que grande parte do trabalho de “57th & 9th” decorreu. Há uma edição especial, uma caixa, disponível na FNAC e El Corte Ingles, com três faixas extra, notas sobre as canções, escritas pelo próprio Sting, um dvd com uma entrevista ao autor, uma gravação ao vivo e ainda uma colecção de fotografias feitas para este disco.
PROVAR - Às vezes leio por aí algumas crónicas e notícias sobre novos restaurantes que me levam a querer conhecê-los. De repente percebo que o local em causa se dedica apenas a servir menus de degustação, onde os comensais são obrigados a encarar o que o cozinheiro (que nestes sítios se chama Chef) lhes dá, sem possibilidade de escolha. O racional por trás desta coisa é simples: se o cozinheiro é tão artista que se intitula Chef, a sua obra carece de liberdade de expressão que não pode ser toldada por um qualquer apetite momentâneo de um freguês insensível. Assim sendo quem vai ao local é para apreciar arte, porque a escolha já foi feita - seleccionando o artista que se vai provar. Pois devo dizer que não é coisa que me agrade. Gosto de olhar para uma lista e escolher o que me apetece, se quero entrada ou não, se quero peixe ou carne, e se quero doce, o que raramente acontece. Felizmente alguns locais mantêm o bom senso e, tendo menus de degustação, têm também alternativas; e outros possibilitam que se escolha apenas parte do menu. Chama-se a isto oferecer ao cliente liberdade de escolha em vez de imposição de gosto. Não tenho paciência nenhuma para cozinheiros que dedicam mais atenção a elaborar nomes complicados para os pratos que apresentam do que a querer servir e satisfazer quem os visita.
DIXIT - “Éramos nós todos que estávamos a cair com aquele homem (o embaixador Russo em Ancara) e, quase ao mesmo tempo, a ser trespassados por um camião em Berlim. Este é o século XXI que teve início, não em Janeiro de 2000, mas em Setembro de 2001” - João Gonçalves, no Facebook.
GOSTO - O Diário da República passou a estar disponível online, com todo o seu arquivo, e um motor de busca de funcionamento exemplar.
NÃO GOSTO - Os cursos de comandos estão sem regras orientadoras há oito anos.
BACK TO BASICS - “As ideias são o que faz erguer as civilizações e o que desencadeia revoluções, Há mais dinamite numa ideia do que em muitas bombas” - Vincent Long Van Nguyen, bispo católico vietnamita
instagram: mfalcao
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dezembro 16, 2016
SOBRE A EVOLUÇÃO DAS FORMAS DE VER TV
TELEVISÃO - Quando olhamos para o panorama da televisão em Portugal, que vemos? - o canal mais visto é a TVI, seguido da SIC a alguma distância e pela RTP1, bastante mais abaixo. Mas se olharmos para o visionamento de televisão o quadro é um bocadinho diferente. De segunda a sexta o conjunto dos canais de acesso livre, fica um pouco acima dos 50 por cento do total da audiência e o cabo e outras formas de televisão (you tube, jogos e, claro, netflix e proximamente Amazon) ficam um pouco abaixo. Mas ao fim de semana, quando as pessoas estão mais tempo em casa e o desporto, sobretudo o futebol, assume maior importância, os canais de acesso livre já ficam abaixo dos 50% e as outras formas de televisão, chamemos-lhes assim, são já, no seu conjunto, maioritárias. Se olharmos para o tempo que os espectadores passam à frente do televisor, desde o início do corrente ano, detectamos uma diminuição, mas sobretudo notamos uma perda nos canais de acesso livre e um incremento nos canais de cabo e nas outras formas de consumo. Nada disto é estranho. No Reino Unido um estudo recente mostra que o número de espectadores que utiliza o aparelho de televisão para ver YouTube duplicou desde o princípio do ano - e as pessoas entre 18 e 34 anos nesse país consomem 45 minutos de YouTube diariamente. À medida que o número de aparelhos de televisão com capacidade de conexão digital aumentar ( e estão a aumentar de forma rápida) a emissão digital vai crescer - o que a médio prazo colocará um dilema significativo aos operadores que apostarem na emissão tradicional. Na televisão o futuro está cheio de novos desafios.
SEMANADA - Uma investigação do Observatório Europeu da Droga e da Toxidependência sinaliza um aumento do consumo de ecstasy e indica que a cocaína continua a ser a droga mais consumida em Portugal; o mesmo estudo indica que em Lisboa o consumo destas drogas é maior que em Paris; a Ministra da Justiça admitiu que há prisões onde se regista falta de comida para os detidos; as prisões portuguesas devem sete milhões de euros a fornecedores; 41 euros é quanto custa ao Estado cada preso por dia; Pedro Dias, o foragido que se entregou em directo à RTP, diz-se inocente e pediu a saída da prisão; Sandra Felgueiras, que se dispôs a acompanhar essa rendição, afirmou que “Pedro Dias é uma pessoa que cria conforto”; segundo a PJ Pedro Dias é também suspeito de ter roubado antiguidades e obras de arte no Alentejo há quatro anos e algumas dessas peças furtadas foram encontradas na casa do suspeito e de familiares; a Autoridade de Mobilidade e dos Transportes recebeu 4576 queixas de utentes no primeiro semestre, uma grande parte tendo por alvo o Metropolitano de Lisboa; a Gatewit, uma plataforma que geria compras do Estado, foi impedida de operar. ao fim de váruiosmeses de queixas, por incumprimento “grave e reiterado”, designadamente a cobrança de serviços que por lei são gratuitos; em Portugal há centros de procriação assistida com ovócitos, espermatozóides e embriões guardados há dez anos, sem serem reclamados; “ Não estou nada arrependido de ter estado na política, mas menos arrependido estou de ter saído” - afirmou Fernando Nogueira numa recente entrevista.
ARCO DA VELHA - Rui Rio, putativo candidato à liderança do PSD, propôs a criação de um novo imposto para pagar os juros da dívida pública.
FOLHEAR - Um dos mais fascinantes livros sobre fotografia que me foi dado descobrir nos últimos tempos foi “Seeing Things - A Kid’s Guide To Looking At Photographs”, de Joel Meyerowitz, um fotógrafo norte-americano, de Nova Iorque, que se destacou por ser um dos precursores de uma utilização criativa da fotografia a cores numa época em que o preto e branco era ainda largamente dominante. Com uma carreira longa de ensino da fotografia, ele é também autor de quase duas dezenas de livros. Agora, para a prestigiada editora norte-americana Aperture ele fez este livro dedicado às crianças. “Escolhi as fotografias deste livro com a esperança de que as coisas que vão descobrir a vê-las possam encorajar-vos a abrir os olhos e a mente para que possam olhar para o mundo à vossa volta de uma nova maneira” - escreve Meyerowitz na introdução ao livro. A primeira fotografia apresentada é de Henri Cartier-Bresson, na Gare de Saint-Lazare, em 1932. E a segunda é uma das imagens mais célebres de uma das referências do autor, Eugène Atget, o tocador de orgão, de 1890. As imagens escolhidas percorrem mais de um século de fotografia e todas merecem um texto que as enquadra e as analisa, mostrando-as para além das evidências. E isto é o que faz deste livro uma obra não só para crianças mas para todos os que verdadeiramente se interessam por compreender a fotografia. “Seeing Things”, disponível na Amazon, edição original da Aperture. de 2016.
VER - Para ver, hoje recomendo um documentário feito para televisão há uma década. Esta é uma semana particularmente interessante para trazer aqui esta obra, em paralelo com a cerimónia do Nobel onde Patti Smith, em nome de Bob Dylan, fez uma arrepiante interpretação (disponível no YouTube) de “A Hard Rain’s Gonna Fall”, uma canção de 1962. Realizado por Martin Scorsese, estreado em 2005 na PBS americana e na BBC no Reino Unido, “No Direction Home” retrata a evolução de Bob Dylan, entre 1961 e 1966, de cantor folk para voz de protesto de uma geração de jovens norte-americanos e, finalmente, para uma estrela rock de dimensão mundial. No fundo retrata o nascimento da carreira de Dylan até ao acidente de moto que durante muito tempo o afastou dos palcos. O título é um dos versos de uma das suas canções mais conhecidas, “Like A Rolling Stone”, de 1965. Para assinalar o décimo aniversário da edição original foi agora distribuída, também no mercado português, uma nova edição de um duplo DVD que inclui imagens inéditas, versões originais de entrevistas concedidas aquando das filmagens e outro material raro. Dylan gravou mais de dez horas de entrevista no âmbito da produção, que registou também depoimentos do poeta Allen Ginsberg, de Suze Rotolo (a namorada Dylan da época, numa das suas raras entrevistas), Joan Baez e Pete Seeger, entre outros. O documentário ganhou uma série de prémios quando foi originalmente exibido e lançado em DVD e é ainda hoje uma obra de referência quando falamos de documentários sobre criadores musicais contemporâneos. “No Direction Home”, 2xDVD Capitol, distribuído em Portugal pela Universal, edição especial disponível na FNAC e El Corte Inglés
OUVIR - Quando o disco começa e se ouvem os versos “Tristeza não tem fim/ Felicidade sim”, percebe-se que há aqui qualquer coisa de diferente. Estes versos fazem parte de “A Felicidade”, um dos grandes êxitos de Tom Jobin, em parceria com Vinicius de Moraes, que aqui surge cantado pela portuguesa Carminho, um dos nomes do Fado da nova geração. Atrever-se a fazer um disco baseado em canções de Jobin é uma aventura, ainda para mais quando conta com duetos com Marisa Monte, Chico Buarque e Maria Bethânia. A direcção musical de "Carminho canta Tom Jobin" e os arranjos foram de Paulo Jobim e o acompanhamento foi da Banda Nova, onde além de Paulo e Daniel Jobin estão Jaques Morelenbaum e Paulo Braga. O que é surpreendente neste disco é que Carminho recusa abrasileirar-se e canta no seu estilo próprio, uma opção inteligente que ao princípio parece estranha mas depois se compreende. A sua interpretação é foneticamente tão diferente, que, por exemplo, no dueto com Chico Buarque em “Falando de Amor”, o contraste entre os dois intérpretes se torna num desafio atraente. Para mim a interpretação de “Wave - Fundamental é mesmo o amor/É Impossível ser feliz sozinho” com letra e música de Tom Jobin, é talvez o momento mais alto do disco, logo seguido de “Retrato em Branco e Preto”.
PROVAR - A Tasca do João é um daqueles clássicos lisboetas que nunca engana. Existe há muitos anos, já mudou de localização várias vezes, sempre na Rua do Lumiar. A casa tem origens nortenhas, que se notam na ementa e no apuro da cozinha. Há pratos clássicos, como a posta mirandesa, temperada como manda a tradição, grelhada na brasa, acompanhada de batatas a murro e feijão verde, ou os lombinhos de porco preto na grelha, ou então, mediante encomenda, o coelho bravo à caçador, a feijoada de lebre, o cozido minhoto ou o arroz de cabidela de galo. A atestar a origem minhota destaque, na época adequada, para uma das melhores lampreias de Lisboa. Do couvert fazem parte umas boas azeitonas, fatias de lombo fumado, em pão de milho, e pataniscas de bacalhau. A casa está sempre cheia, a clientela é fiel, o vinho da verde da casa é servido em jarros e malgas e a carta de bebidas tem boas surpresas como o Bafarela, do Douro, que acompanhou bem a posta à mirandesa - atenção que duas doses dão à vontade para três comilões. Nesta altura do ano,entre as sobremesas, destaque para o marmelo cozido. Rua do Lumiar 122, telefone 217 590 311
DIXIT - “Nunca tinha tido oportunidade de colocar a mim mesmo esta questão: será que as minhas canções são literatura?” - Bob Dylan, no discurso enviado à Academia Sueca a propósito da atribuição do Nobel.
GOSTO - Artur Anselmo, Presidente da Academia das Ciências, defende que em relação ao acordo ortográfico “o normal é o respeito pelas ortografias nacionais”.
NÃO GOSTO - As empresas públicas de transportes têm um passivo que já ultrapassa os 20 mil milhões de euros
BACK TO BASICS - A diplomacia é a arte de se ir dizendo “cãozinho lindo” até se encontrar uma pedra para lhe atirar - Will Rogers
dezembro 09, 2016
GOVERNO - UM ANIVERSÁRIO REPIMPADO
REPIMPAMENTE - Tenho para mim que o estado de graça do Governo se deve a duas coisas: à habilidade de António Costa e à inabilidade da oposição. As duas coisas juntas, polvilhadas pelo tempero de afectos do Presidente da República, deram o que está à vista. Para que não surjam más interpretações devo dizer que a habilidade de António Costa inclui alguma eficácia negocial em Bruxelas, tácticas bem imaginadas e bem utilizadas em algumas situações mais explosivas e, acima de tudo, uma enorme capacidade de só dizer o que lhe interessa, construindo uma realidade própria e negando tudo o que ele entenda não caber dentro dessa realidade. Isto é uma arte - ou, melhor dizendo, estes pontos são parcelas dessa arte a que se chama política. Se existir um Óscar para a melhor ficção política, António Costa ganha-o de certeza absoluta. Nestes últimos dias, e a propósito do primeiro aniversário do seu Governo, o Primeiro Ministro esteve envolvido em duas manobras de comunicação política pura, ambas a tender (usando palavreado da moda) para uma versão pós-verdade das conversas em família. A primeira, era uma ideia engraçada, mas acabou por sair frouxa, e tinha a ver com uma produção ensaiada na Aula Magna da Reitoria de Lisboa em que um grupo de pessoas, seleccionadas pelo Instituto de Ciências Sociais, colocava perguntas ao chefe do governo e aos seus Ministros. A outra foi a entrevista concedida à RTP. Sobre a forma como António Costa se desempenhou das duas tarefas opto por citar um dos próprios entrevistadores, André Macedo, que, referindo-se ao espectáculo da Aula Magna, acabou por fazer o retrato geral da situação e escreveu o seguinte sobre a prestação do Primeiro Ministro: “transformou o debate numa imensa piscina olímpica aquecida, habilmente aproveitada por António Costa para se banhar repimpamente”. Tudo indica que, com a oposição adormecida, este Governo vai ter longa vida. Mais vale, a bem de nós todos, que isto não corra mal. Mas, temos sempre que ter presente, como dizia Galileu perante a inquisição, falando sobre o movimento da Terra, “e pur si muove!”. Quer dizer, a realidade acaba por se sobrepôr à fantasia. Às vezes com custos pesados.
SEMANADA - Num estudo internacional, realizado de três em três anos, que avalia a literacia dos alunos de 15 anos de idade em Ciências, Leitura e Matemática os jovens portugueses ficaram pela primeira vez à frente da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico; a segurança social fecha três lares ilegais por mês; O Tribunal de Contas acusa o Ministério das Finanças de “falta de controlo” na Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2013 e 2015, salientando que o Estado aprovou documentos de prestação de contas sem ter a informação completa; nos últimos dois anos houve 33360 processos ligados à criminalidade económica e foram feitas 297 acusações por corrupção; 17 empresas portuguesas são fornecedoras da da agência espacial europeia e o Governo fala em criar uma agência espacial portuguesa; segundo a Marktest 3,6 milhões de portugueses já têm o hábito de ler notícias através do tablet ou do smartphone, o que significa que o número destes utilizadores quadriplicou desde 2013; nos últimos três anos foram multados três mil condutores por não obedecerem às novas regras de circulação em rotundas; 2015 foi o ano com menos greves desde 2010 - 95 verificadas no ano passado que comparam com as 199 registadas em no início da década; 2012 foi o ano com mais greves, 233; o congresso do PCP realizado este fim de semana caucionou o apoio comunista ao Governo de António Costa.
ARCO DA VELHA - O serviço de estrangeiros e fronteiras admite desconhecer a quantos imigrantes ilegais concedeu autorização de residência sem cumprirem a principal exigência da lei, terem entrado legalmente no espaço Schengen.
FOLHEAR - “Tabacaria” é um poema escrito por Fernando Pessoa, sob o heterónimo Álvaro de Campos, em Janeiro de 1928, publicado pela primeira vez na revista Presença em Julho de 1933. É considerado como um dos mais importantes poemas de Pessoa e o crítico e escritor italiano António Tabucchi considerava-o mesmo o poema mais importante do século XX. “Tabacaria” pertence à fase intimista do heterónimo Álvaro de Campos, onde os temas são a solidão interior, a incapacidade de amar, a descrença em relação a tudo e o conflito entre a realidade e o próprio poeta. Esta belíssima nova edição, da “Guerra & Paz”, inclui a versão original portuguesa e ainda traduções para inglês, francês, espanhol e italiano. É composta por um livro, de 176 páginas, muitíssimo bem paginado e impresso, onde além de Tabacaria nos cinco idiomas, estão recolhidos um conjunto de textos agrupados sob a designação “A Tabacaria vista de outra janela - das páginas íntimas de Fernando Pessoa”. Estes textos, que vários estudiosos do poeta consideram autobiográficos, são reproduzidos nas versões originais em que foram escritos - em português, inglês e francês. O livro inclui ainda um texto do editor, Manuel S. Fonseca, e 25 fotografias de Pedro Norton em que ele mostra a Baixa de Lisboa, digamos que o território natural do poeta. Numa pasta separada estão agrupadas estas 25 fotografias, em impressões de alta qualidade. O livro e a pasta com as fotografias estão guardados numa caixa de madeira de choupo e de maple, impressas a laser e UV e feita em Proença-A-Nova na empresa Ambiente d’Interni - a caixa só por si é uma obra. O grafismo e o design global foram de Ilídio Vasco. Trata-se de uma edição especial, de coleccionador, com uma tiragem numerada de 1500 exemplares.
VER - Até 26 de Fevereiro, na renovada sacristia da Igreja de Nossa Senhora da Conceição Velha, na Rua da Alfândega, em Lisboa, pode ser vista a exposição “Mater Dei”, que apresenta obras de 25 artistas contemporâneos portugueses, que foram desafiados a criarem peças inspiradas na figura de Maria (na imagem). A exposição inclui trabalhos de escultura, pintura, desenho e outras técnicas de artistas como Manuel Amado, Rui Chafes, Ilda David, João Queiroz, Pedro Calapez e Cristina Ataíde. O pároco de São Nicolau, Mário Rui Pedras, explica que não foi feito “qualquer tipo de limitação do ponto de vista nem da sua vida de fé, nem da sua orientação como artista”. Destaque ainda, para a exposição de Miguel Telles da Gama na Giefarte, até 13 de Janeiro (Rua da Arrábida 54B). O artista mostra a sua produção mais recente com um conjunto de obras a que deu o nome de “Vanishing Act”. Observador de detalhes, contador de histórias através de imagens, estas suas obras conjugam o hiper realismo da pintura com as palavras usadas para cada peça, a constituir uma narrativa ao longo da sala onde estão em exposição. Há aqui, até no título escolhido para a exposição, uma evocação quase cinematográfica do olhar, como se o artista fosse realizando planos e contra planos, numa cuidada edição de diálogos e de olhares.
OUVIR - Já lá vão 14 anos de Dead Combo, esse encontro musical de dois talentos - Tó Trips na guitarra e Pedro Gonçalves no baixo. O novo disco chama-se "Dead Combo e As Cordas Da Má Fama" - sendo que essas cordas são Carlos Tony Gomes, no Violoncelo, Bruno Silva, na Viola e Denys Stetsenko, no Violino. O objectivo era recriar com esta formação alargada 12 temas da história dos Dead Combo, como “Quando A Alma Não É Pequena”, “A Menina Dança”, “Lisboa Mulata”, “Rodada”, “Puto Que Cais Descalço”, “Welcome Simone” e “Anadamastor”, entre outros. Como se deseja nestas ocasiões as versões estão diferentes e para melhor - mas mantêm-se as melodias originais e o espírito de desafio que os Dead Combo sempre imprimem à sua música, algures entre a tradição portuguesa e as bandas sonoras de westerns. Por falar em filmes é curioso notar como a imagem em movimento acompanha a história dos Dead Combo - desde a banda sonora escolhida por Anthony Bourdain para o seu episódio de “No Reservations” sobre Lisboa até à música que compuseram para “Slightly Smaller Than Indiana” de Daniel Blaufuks, até ao facto de terem sido convidados a actuar na estreia, em Cannes, do filme “Cosmopolis”, de David Cronenberg, produzido por Paulo Branco. Este é o seu primeiro disco desde “A Bunch Of Meninos”, de 2014.
PROVAR - Apanhar com crianças num restaurante pode ser por vezes um pesadelo e muitos restaurantes não acolhem bem estes pequenos clientes. Outros recebem-nos de braços abertos e até têm espaços para eles brincarem. Que isto acontece em cadeias de fast-food já se sabia. Mas que isto aconteça num restaurante dedicado à cozinha tradicional portuguesa e onde se come verdadeiramente bem, já é mais raro. O 13% Restaurante fica no Porto, na zona da Foz, e além da sala tem uma esplanada coberta e um jardim onde, caso o tempo o permita, as crianças podem estar á vontade. Talvez por isso é procurado ao fim de semana para almoços de família ou de amigos. O serviço é muito simpático, sempre disponível e as mesas são amplas e confortáveis. Na cozinha as coisas correm muito bem e a casa tem várias especialidades: rosbife à inglesa, cabrito assado com arroz de forno, batatas e grelos, filetes de polvo com açorda de coentros, e, claro, dobrada. Boa garrafeira a preços sensatos. Nos doces destaque para o crumble de maçã com gelado e o leite creme. Durante a semana ao almoço há um menu especial. Fecha às terças, marcação recomendável especialmente ao fim de semana. O 13% Restaurante fica na Rua da Cerca 440, telefone 912 332 690.
DIXIT - “Quando se perde, não se finge que não aconteceu nada” - Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, após a derrota no referendo.
GOSTO - O sector da cortiça vai fechar 2016 com valor recorde nas exportações, cerca de 950 milhões de euros.
NÃO GOSTO - A Câmara Municipal de Lisboa escondeu no seu site os atrasos verificados nas obras com o expediente de mudar as datas inicialmente previstas de conclusão dos trabalhos.
BACK TO BASICS - “Dar dinheiro e poder ao governo é a mesma coisa que dar bebidas alcoólicas e as chaves de um carro a um adolescente” - P.J . O’Rourke
dezembro 02, 2016
ESTADO APROVEITA LENTIDÃO DOS TRIBUNAIS PARA ABUSAR DOS CONTRIBUINTES
ABUSOS - A Comissão de Protecção de Dados alertou que a ineficácia dos serviços públicos está a ser compensada com “sacrifício da privacidade dos cidadãos” e alerta para o facto de o Orçamento de Estado prever novos acessos à base de dados do Fisco que”colocam em risco” a segurança da informação. Este alerta, conhecido esta semana e de que este jornal se fez eco, é apenas a parte mais visível da situação de crescente impotência dos cidadãos face à máquina fiscal e aos seus serviços. Escudados na lentidão dos tribunais (mais de uma dezena de anos em média para que se chegue ao fim de um processo), os serviços do Fisco fazem tudo o que podem - e algumas coisas que não podem - para considerar os cidadãos culpados desde o primeiro minuto. Os argumentos apresentados em Tribunal não contam, os factos e provas compilados são ignorados. A lentidão e ineficácia dos tribunais que julgam estes processos criam uma situação duplamente injusta: beneficiam os que são efectivamente prevaricadores e que assim vêem afastadas para as calendas decisões sobre as penas aplicáveis; e prejudicam os inocentes, que vêem os seus direitos reduzidos, o seu património ameaçado e o seu dia a dia penalizado quando o Estado retém montantes sem fundamento. A culpa não é deste Governo evidentemente, vem de longe. Mas esta é uma situação que está a ultrapassar todas as marcas. É preciso um simplex na administração da justiça no âmbito fiscal e sobretudo é necessário que quem de direito tome um conjunto de medidas que impeçam automatismos, travem decisões administrativas sobre casos não julgados e impeçam o expediente do recurso sistemático das decisões dos tribunais pela Autoridade Tributária com o único fito de prolongar os processos e evitar a sua conclusão, mantendo assim penalizações abusivas. E, sobretudo, é urgente que o Estado faça a mais elementar das coisas: que até existir sentença os cidadãos sejam considerados inocentes e não se sintam permanentemente alvo de medidas persecutórias do fisco. Esta é uma responsabilidade do Estado e, em vez de agravar a situação, como agora alerta a Comissão de Protecção de Dados, seria bom que os Ministérios da Justiça e das Finanças tomassem medidas concretas em defesa do Estado de Direito.
SEMANADA - Há dois milhões de lâmpadas nas iluminações de Natal de Lisboa, que este ano custaram 700 mil euros, o dobro do custo do ano passado; Fernando Medina disse numa entrevista que no futuro devem ser reforçados os laços entre o PS, PCP e BE; uma sondagem da Universidade Católica indica que 42% dos inquiridos consideram que Rui Rio faria melhor que Passos Coelho à frente do PSD; há sinais de que Rui Rio poderia querer um congresso extraordinário do PSD antes das autárquicas; o Presidente da República sinalizou pretender “que se mantenha a estabilidade que é desejável na área do Governo e na área da oposição, no plano dos partidos como no plano das suas lideranças”; a falta de médicos em alguns hospitais está a dificultar as escalas dos serviços de urgência no Natal e Ano Novo; nos primeiros meses do ano as vendas de automóveis eléctricos aumentaram 48% em relação a igual período do ano passado; a partir do próximo ano os carros eléctricos pagarão os carregamentos de energia que realizarem na via pública; há 14 mil detidos nas 49 cadeias portuguesas; o Futebol Clube do Porto já gastou 146 milhões de euros no reforço do plantel desde Junho de 2014; os contribuintes suportaram 74% do esforço inicial para salvar a banca privada.
ARCO DA VELHA - Um organismo público, o Compete, divulgou que a execução dos fundos comunitários era de 12% , quando afinal é de 4,3%.
FOLHEAR - António Mexia, o CEO da EDP, surge em destaque nas personalidades de todo o mundo alinhadas na resenha anual “Who’s Next” da revista MONOCLE, na sua edição de Dezembro/Janeiro. Apresentado como um lutador nas áreas da energia e cultura, Mexia explica porque gosta de trabalhar com grandes arquitectos e porque entende que a EDP deve estar associada a edifícios que assinalem mudanças na cidade - em Lisboa, no caso - como acontece com a nova sede da empresa e com o MAAT: “Queremos contribuir para criar uma sociedade mais cosmopolita e mais aberta” - explica o CEO da EDP. Como é hábito esta edição de fim de ano da MONOCLE tem a lista dos países que conseguem fazer-se notar pelas suas capacidades (a “soft power survey”) e Portugal subiu para a 15ª posição, graças aos resultados obtidos no Europeu de Futebol e na jogo diplomático que conduziu Guterres à liderança das Nações Unidas, nomeadamente na obtenção do apoio da China. Mas esta edição da revista destaca também start ups portuguesas e a aposta em instalações turísticas como o hotel Casa Mãe, de Lagos, baseadas numa utilização certeira do design português ou o projecto das Casas Caiadas, no Sabugueiro. Outros motivos de interesse desta edição são o especial sobre a forma como a pequena cidade de Utrecht conseguiu dinamizar a sua economia e uma deliciosa narrativa sobre a criação de uma livraria numa cidade periférica de Nova Iorque. A Monocle ajuda-nos a ir descobrindo bons exemplos.
VER - É muito interessante que em Lisboa, ao mesmo tempo, estejam duas exposições que mostram as ruas da cidade de perspectivas diferentes - a começar pelos materiais utilizados e a terminar nas épocas que mostram. Vou começar por “Lisboa - Uma Grande Surpresa”, um impressionante trabalho de registo fotográfico da cidade feito entre 1898 e 1908, por Arthur Júlio Machado e José Candido d’Assumpção e Souza, ambos desenhadores da Cãmara Municipal de Lisboa e que propuseram à edilidade fotografar os prédios da cidade para memória futura. É um impressionante conjunto de imagens, exposto no Arquivo Municipal, na Rua da Palma 246, sob a direcção de José Luis Neto - vai estar até 23 de Janeiro. Aqui se pode ver a cidade como ela foi pensada e existia no virar do século XIX para o século XX - uma cidade noutra escala, e que foi muito mal conservada nos 100 anos seguintes. A outra exposição, “Cidade Gráfica, Letreiros e Reclames de Lisboa no Século XX” (na imagem) mostra décadas de letreiros de lojas, cartazes de publicidade, anúncios luminosos de néon e fachadas diversas - está no Convento da Trindade, Rua da Trindade, ao Chiado, até 18 de Março. Inserido na programação do MUDE fora de portas esta exposição é fruto de um exemplar trabalho de pesquisa, recolha, restauro e preservação de Rita Múrias e Paulo Barata. Aqui se observa a técnica dos reclames luminosos, a arte de desenhar tubos de néon, o humor de alguns slogans do início da publicidade e a evolução gráfica que se fez ao longo dos anos. As duas exposições são peças essenciais para rever a História de Lisboa, cidade que tão maltratada tem sido.
OUVIR - Uma das maiores dificuldades da carreira de um músico é fazer um segundo disco, depois de um primeiro que tenha sido um êxito. Na música portuguesa isto é particularmente difícil, por causa da dimensão do mercado e do provincianismo local que normalmente castiga o êxito. Gisela João gravou o seu primeiro disco em 2013 e foi muito aplaudida. Dela se disse, e bem, que tinha do Fado um sentir diferente daquilo a que se chama a nova geração de fadistas. Gisela João, neste sentido, não é desta geração - canta Fado, que é um género sem tempo. É muito raro, num segundo disco, fugir da tentação da complicação e da produção exagerada. Gisela João, que agora lançou “Nua”, teve a inteligência de evitar as armadilhas habituais. Em vez de fazer truques sonoros, preferiu dedicar-se a escolher um repertório diversificado, que vai de clássicos de Alberto Janes, Ferrer Trindade ou Alain Oulman, até canções pop de Carlos Paião ou poemas de David Mourão Ferreira , Pedro Homem de Melo ou Franciso Ribeirinho, passando pelo brasileiro Cartola ou pela contemporânea Capicua. O tema que encerra o disco, o tradicional mexicano “Llorona”, vem aqui interpretado de uma maneira invulgar e arrebatadora. Gisela João, neste seu segundo disco, arriscou e deu um salto. Não se acomodou, desinquietou-se e isso está na alma do Fado. Uma nota final para o excelente trabalho fotográfico de Estelle Valente. Gisela João, Nua, Edição Valentim de Carvalho.
PROVAR - Um dos melhores bifes que provei nos últimos tempos foi no restaurante e cervejaria Valbom, situado ao fundo da rua do mesmo nome, quase a chegar ao cruzamento com a Elias Garcia. Este é um daqueles tradicionais restaurantes lisboetas, com pratos fixos semanais, como o cozido e que se mantém fiel a sólidos princípios: boa matéria prima, preços razoáveis, serviço atencioso, mesas espaçosas. É um restaurante onde o vocabulário da pós-verdade não entra e é um local onde é frequente encontrar mesas de amigos a conviverem, outras com conversas de trabalho ou negócios e não poucas mesas de pessoas que gostam de almoçar sozinhas. Para além do cozido, destaque para os filetes de pescada e o cabrito no forno. A garrafeira é ampla e vale a pena pedir conselho sobre os vinhos. que são a preço honesto. A escolha de cervejas é também acima do habitual. Mas voltemos ao bife. A especialidade da casa passa pela grelha a carvão e aí, o meio bife do lombo é algo de muito recomendável. Quantidade suficiente de boa carne, bem cortada, cozinhada no ponto, acompanhada por batatas fritas exemplares e, a pedido, um ovo estrelado que está entre os melhores que me foi dado provar num restaurante. Avenida Conde de Valbom 104-112. Telefone 217 970 410
DIXIT - “É o orçamento possível, mas não o desejável. Não devia aumentar a despesa pública nem os impostos porque isso já temos em excesso” - Eduardo Catroga
GOSTO - Da exposição que celebra os 100 anos das máquinas fotográficas Leica, na Galeria Municipal do Porto. A marca tem uma das suas fábricas em Famalicão.
NÃO GOSTO - Este ano já morreram 114 pessoas em acidentes de trabalho em Portugal.
BACK TO BASICS - “Nunca devemos confundir pensamento com uma inscrição lida num autocolante” - Charles M. Schulz
ESTADO APROVEITA_SE
ABUSOS - A Comissão de Protecção de Dados alertou que a ineficácia dos serviços públicos está a ser compensada com “sacrifício da privacidade dos cidadãos” e alerta para o facto de o Orçamento de Estado prever novos acessos à base de dados do Fisco que”colocam em risco” a segurança da informação. Este alerta, conhecido esta semana e de que este jornal se fez eco, é apenas a parte mais visível da situação de crescente impotência dos cidadãos face à máquina fiscal e aos seus serviços. Escudados na lentidão dos tribunais (mais de uma dezena de anos em média para que se chegue ao fim de um processo), os serviços do Fisco fazem tudo o que podem - e algumas coisas que não podem - para considerar os cidadãos culpados desde o primeiro minuto. Os argumentos apresentados em Tribunal não contam, os factos e provas compilados são ignorados. A lentidão e ineficácia dos tribunais que julgam estes processos criam uma situação duplamente injusta: beneficiam os que são efectivamente prevaricadores e que assim vêem afastadas para as calendas decisões sobre as penas aplicáveis; e prejudicam os inocentes, que vêem os seus direitos reduzidos, o seu património ameaçado e o seu dia a dia penalizado quando o Estado retém montantes sem fundamento. A culpa não é deste Governo evidentemente, vem de longe. Mas esta é uma situação que está a ultrapassar todas as marcas. É preciso um simplex na administração da justiça no âmbito fiscal e sobretudo é necessário que quem de direito tome um conjunto de medidas que impeçam automatismos, travem decisões administrativas sobre casos não julgados e impeçam o expediente do recurso sistemático das decisões dos tribunais pela Autoridade Tributária com o único fito de prolongar os processos e evitar a sua conclusão, mantendo assim penalizações abusivas. E, sobretudo, é urgente que o Estado faça a mais elementar das coisas: que até existir sentença os cidadãos sejam considerados inocentes e não se sintam permanentemente alvo de medidas persecutórias do fisco. Esta é uma responsabilidade do Estado e, em vez de agravar a situação, como agora alerta a Comissão de Protecção de Dados, seria bom que os Ministérios da Justiça e das Finanças tomassem medidas concretas em defesa do Estado de Direito.
SEMANADA - Há dois milhões de lâmpadas nas iluminações de Natal de Lisboa, que este ano custaram 700 mil euros, o dobro do custo do ano passado; Fernando Medina disse numa entrevista que no futuro devem ser reforçados os laços entre o PS, PCP e BE; uma sondagem da Universidade Católica indica que 42% dos inquiridos consideram que Rui Rio faria melhor que Passos Coelho à frente do PSD; há sinais de que Rui Rio poderia querer um congresso extraordinário do PSD antes das autárquicas; o Presidente da República sinalizou pretender “que se mantenha a estabilidade que é desejável na área do Governo e na área da oposição, no plano dos partidos como no plano das suas lideranças”; a falta de médicos em alguns hospitais está a dificultar as escalas dos serviços de urgência no Natal e Ano Novo; nos primeiros meses do ano as vendas de automóveis eléctricos aumentaram 48% em relação a igual período do ano passado; a partir do próximo ano os carros eléctricos pagarão os carregamentos de energia que realizarem na via pública; há 14 mil detidos nas 49 cadeias portuguesas; o Futebol Clube do Porto já gastou 146 milhões de euros no reforço do plantel desde Junho de 2014; os contribuintes suportaram 74% do esforço inicial para salvar a banca privada.
ARCO DA VELHA - Um organismo público, o Compete, divulgou que a execução dos fundos comunitários era de 12% , quando afinal é de 4,3%.
FOLHEAR - António Mexia, o CEO da EDP, surge em destaque nas personalidades de todo o mundo alinhadas na resenha anual “Who’s Next” da revista MONOCLE, na sua edição de Dezembro/Janeiro. Apresentado como um lutador nas áreas da energia e cultura, Mexia explica porque gosta de trabalhar com grandes arquitectos e porque entende que a EDP deve estar associada a edifícios que assinalem mudanças na cidade - em Lisboa, no caso - como acontece com a nova sede da empresa e com o MAAT: “Queremos contribuir para criar uma sociedade mais cosmopolita e mais aberta” - explica o CEO da EDP. Como é hábito esta edição de fim de ano da MONOCLE tem a lista dos países que conseguem fazer-se notar pelas suas capacidades (a “soft power survey”) e Portugal subiu para a 15ª posição, graças aos resultados obtidos no Europeu de Futebol e na jogo diplomático que conduziu Guterres à liderança das Nações Unidas, nomeadamente na obtenção do apoio da China. Mas esta edição da revista destaca também start ups portuguesas e a aposta em instalações turísticas como o hotel Casa Mãe, de Lagos, baseadas numa utilização certeira do design português ou o projecto das Casas Caiadas, no Sabugueiro. Outros motivos de interesse desta edição são o especial sobre a forma como a pequena cidade de Utrecht conseguiu dinamizar a sua economia e uma deliciosa narrativa sobre a criação de uma livraria numa cidade periférica de Nova Iorque. A Monocle ajuda-nos a ir descobrindo bons exemplos.
VER - É muito interessante que em Lisboa, ao mesmo tempo, estejam duas exposições que mostram as ruas da cidade de perspectivas diferentes - a começar pelos materiais utilizados e a terminar nas épocas que mostram. Vou começar por “Lisboa - Uma Grande Surpresa”, um impressionante trabalho de registo fotográfico da cidade feito entre 1898 e 1908, por Arthur Júlio Machado e José Candido d’Assumpção e Souza, ambos desenhadores da Cãmara Municipal de Lisboa e que propuseram à edilidade fotografar os prédios da cidade para memória futura. É um impressionante conjunto de imagens, exposto no Arquivo Municipal, na Rua da Palma 246, sob a direcção de José Luis Neto - vai estar até 23 de Janeiro. Aqui se pode ver a cidade como ela foi pensada e existia no virar do século XIX para o século XX - uma cidade noutra escala, e que foi muito mal conservada nos 100 anos seguintes. A outra exposição, “Cidade Gráfica, Letreiros e Reclames de Lisboa no Século XX” (na imagem) mostra décadas de letreiros de lojas, cartazes de publicidade, anúncios luminosos de néon e fachadas diversas - está no Convento da Trindade, Rua da Trindade, ao Chiado, até 18 de Março. Inserido na programação do MUDE fora de portas esta exposição é fruto de um exemplar trabalho de pesquisa, recolha, restauro e preservação de Rita Múrias e Paulo Barata. Aqui se observa a técnica dos reclames luminosos, a arte de desenhar tubos de néon, o humor de alguns slogans do início da publicidade e a evolução gráfica que se fez ao longo dos anos. As duas exposições são peças essenciais para rever a História de Lisboa, cidade que tão maltratada tem sido.
OUVIR - Uma das maiores dificuldades da carreira de um músico é fazer um segundo disco, depois de um primeiro que tenha sido um êxito. Na música portuguesa isto é particularmente difícil, por causa da dimensão do mercado e do provincianismo local que normalmente castiga o êxito. Gisela João gravou o seu primeiro disco em 2013 e foi muito aplaudida. Dela se disse, e bem, que tinha do Fado um sentir diferente daquilo a que se chama a nova geração de fadistas. Gisela João, neste sentido, não é desta geração - canta Fado, que é um género sem tempo. É muito raro, num segundo disco, fugir da tentação da complicação e da produção exagerada. Gisela João, que agora lançou “Nua”, teve a inteligência de evitar as armadilhas habituais. Em vez de fazer truques sonoros, preferiu dedicar-se a escolher um repertório diversificado, que vai de clássicos de Alberto Janes, Ferrer Trindade ou Alain Oulman, até canções pop de Carlos Paião ou poemas de David Mourão Ferreira , Pedro Homem de Melo ou Franciso Ribeirinho, passando pelo brasileiro Cartola ou pela contemporânea Capicua. O tema que encerra o disco, o tradicional mexicano “Llorona”, vem aqui interpretado de uma maneira invulgar e arrebatadora. Gisela João, neste seu segundo disco, arriscou e deu um salto. Não se acomodou, desinquietou-se e isso está na alma do Fado. Uma nota final para o excelente trabalho fotográfico de Estelle Valente. Gisela João, Nua, Edição Valentim de Carvalho.
PROVAR - Um dos melhores bifes que provei nos últimos tempos foi no restaurante e cervejaria Valbom, situado ao fundo da rua do mesmo nome, quase a chegar ao cruzamento com a Elias Garcia. Este é um daqueles tradicionais restaurantes lisboetas, com pratos fixos semanais, como o cozido e que se mantém fiel a sólidos princípios: boa matéria prima, preços razoáveis, serviço atencioso, mesas espaçosas. É um restaurante onde o vocabulário da pós-verdade não entra e é um local onde é frequente encontrar mesas de amigos a conviverem, outras com conversas de trabalho ou negócios e não poucas mesas de pessoas que gostam de almoçar sozinhas. Para além do cozido, destaque para os filetes de pescada e o cabrito no forno. A garrafeira é ampla e vale a pena pedir conselho sobre os vinhos. que são a preço honesto. A escolha de cervejas é também acima do habitual. Mas voltemos ao bife. A especialidade da casa passa pela grelha a carvão e aí, o meio bife do lombo é algo de muito recomendável. Quantidade suficiente de boa carne, bem cortada, cozinhada no ponto, acompanhada por batatas fritas exemplares e, a pedido, um ovo estrelado que está entre os melhores que me foi dado provar num restaurante. Avenida Conde de Valbom 104-112. Telefone 217 970 410
DIXIT - “É o orçamento possível, mas não o desejável. Não devia aumentar a despesa pública nem os impostos porque isso já temos em excesso” - Eduardo Catroga
GOSTO - Da exposição que celebra os 100 anos das máquinas fotográficas Leica, na Galeria Municipal do Porto. A marca tem uma das suas fábricas em Famalicão.
NÃO GOSTO - Este ano já morreram 114 pessoas em acidentes de trabalho em Portugal.
BACK TO BASICS - “Nunca devemos confundir pensamento com uma inscrição lida num autocolante” - Charles M. Schulz
novembro 25, 2016
SOBRE A MAQUILHAGEM DE UMA CIDADE E A CIRURGIA PLÁSTICA APLICADA AO ALCATRÃO
DESRESPEITO - O ar que Medina respira vem-lhe soprado pela falta de oposição que tem na Câmara Municipal de Lisboa e pelo desrespeito que mostra para com os habitantes da cidade. Com o PSD desaparecido em parte incerta praticamente desde o início do mandato, se não fosse João Gonçalves Pereira do PP, as tropelias de Salgado & Medina passariam quase incólumes entre os vereadores. Ambos vocacionaram a cidade para ser um albergue em vez de ser vivida pelos seus, As medidas de fundo que tomam são da esfera da maquilhagem e da cirurgia plástica aplicada ao alcatrão. Sistematicamente ignoram o bem estar e os interesses de quem vive no centro da cidade e mostram-se mais preocupados em beneficiar os que vêm de fora, seja por um fim de semana ou todos os dias. Se a oposição, para se mostrar, está à espera que as flores dos canteiros plantados à pressa desabrochem na primavera e iludam os incautos, a coisa não vai correr bem. A Lisboa de Medina é artificial, asséptica, sem vida nem calor, um lindo jardim para ser passeio de visitantes ocasionais e um inferno para quem cá vive. Quererá Medina que a cidade fique ainda mais desertificada e perca ainda mais habitantes? O destino de uma cidade como Lisboa não pode ser traçado por quem não se preocupa em a deixar viver e gosta mais de compôr cenários do que em resolver problemas.
SEMANADA - O número de turistas chineses a visitar Portugal tem aumentado, registando-se no início deste ano um acréscimo de 44% face ao mesmo período do ano passado; a média das compras efectuadas por cada turista chinês é de 600 euros; em Outubro, 36% das páginas dos sites auditados pela Marktest foram acedidas através de equipamentos móveis e 64% através de PC’s; a dívida dos quatro maiores grupos de mídia portugueses ascende a 470 milhões de euros; a receita das câmaras municipais com taxas e impostos em 2015 alcançou o valor mais alto da última década; Cascais é o município onde os impostos e taxas têm maior peso na receita; a zona do Chiado subiu no ranking das zonas mais caras do Mundo e está agora na 34ª posição de uma lista liderada pela 5ª Avenida, de Nova Iorque; as famílias portugueses viram o prazo de pagamento do subsídio parental aumentar em média para dois meses; a dívida pública portuguesa bateu um novo recorde: em Setembro escalou para 133,1% do PIB, o valor mais alto de sempre; em termos de percentagem do PIB a dívida portuguesa é a quinta mais alta do mundo; António Costa diz que o PS devolveu o país à normalidade no meio de um mundo de incertezas; Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que Portugal soube reencontrar a estabilidade e construir confiança e defendeu a necessidade de um projecto nacional de médio e longo prazo; depois de ver a capa do Expresso on line na madrugada de sábado António Costa fez publicar um twitter a desmentir a manchete do jornal sobre o salário mínimo.
ARCO DA VELHA - O PS propôs que os membros de executivos municipais e os presidentes de juntas de freguesia façam parte da lista dos titulares de cargos políticos que não serão punidos caso o dinheiro público seja mal gasto e, para colocar a cereja em cima do bolo, António Costa prometeu mais meios e mais poderes aos autarcas.
FOLHEAR - O início da década de 80, em Lisboa, foi marcado por uma geração que se tornou adulta depois do 25 de Abril de 1974, que viveu os anos da brasa, que terminou os seus estudos e começou a trabalhar. Esta geração já não tinha tido a experiência da guerra, mas vivera no fim da adolescência o que se chamava de revolução. Fora moldada no desafio às regras e entrou de peito feito numa sociedade que já se abrira e estava a desenvolver-se, com a Europa no horizonte mas livre das suas baias que hoje nos condicionam. A confluência de uma geração com um tempo específico e uma oportunidade gerou uma explosão de criatividade na música, nas artes plásticas, no cinema, na imprensa, na rádio, em toda a comunicação, e, claro, também na economia. Para quem a viveu por dentro a década de oitenta foi a mais espectacular de Lisboa - tudo era possível e muita coisa se fez. Revisitar essa década é um exercício ainda difícil porque vai chocar com as memórias próprias de cada um, por enquanto muito vivas. Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes tinham já feito dois livros, dedicados às décadas de 60 e 70 e agora arriscaram a década de 80. O trabalho de pesquisa continua a ser minucioso, a recolha de depoimentos, factos e imagens permanece exemplar, mas nalgum ponto perdeu-se o distanciamento e sente-se por vezes o condicionamento das influências de quem quer moldar a história, mais do que nos livros anteriores. Com esta ressalva “LX 80 - Lisboa entra numa nova era” é um testemunho de um tempo em que o Chiado ardeu, as Amoreiras nasceram e a cidade começou a ser intensamente vivida pelos seus habitantes - o que hoje é cada vez mais difícil. LX 80 - Edição D. Quixote/Leya.
VER - Pedro Chorão nasceu em 1945, estudou biologia em Inglaterra e começou a interessar-se pela pintura já depois de fazer 20 anos. Nos anos 70 estudou na Escola Superior de Belas Artes e as suas primeiras exposições datam dessa altura. Pela primeira vez é possível descobrir o conjunto da sua obra, graças a duas exposições sob o título genérico “O Que Diz A Pintura, obra entre 1971 e 2016”. No Torreão Nascente da Cordoaria Nacional está um conjunto de obras a que deu o título de “Corpo a Corpo” e na Fundação Carmona e Costa está outro conjunto de obras sob a designação “A Torto E A Direito”. As duas exposições são complementares e permitem apreciar facetas diferentes da actividade do artista. No vasto espaço da Cordoaria é possível apreciar de forma clara a evolução desde os tempos de estudante de Belas Artes até obras já deste ano e no conjunto permito-me destacar um grupo de trabalhos de 1987, ali titulado “um ensaio fotográfico”, todo ele focado no Alentejo, que Chorão diz ser a região que mais lhe interessa em Portugal “pela simplicidade plástica, tanto na forma como na cor” (na imagem). Na Fundação Carmona e Costa o destaque vai para o trabalho de colagens, marcante numa fase da carreira de Pedro Chorão, e que evidencia como no panorama nacional ele estava à frente do seu tempo. A exposição da Cordoaria é imperdível e fica até 19 de Fevereiro e a da Fundação até 7 de Janeiro.
Outras sugestões: na Galeria Fonseca Macedo, em Ponta Delgada, Backstage Of An Island, de Miguel Palma. Teresa Gonçalves Lobo mostra no seu atelier do Funchal e em Lisboa, na Galeria das Salgadeiras, “Entre Nós”, uma exposição de desenho, instalação e fotografia a partir da obra de Herberto Hélder. Para terminar a Galeria Vera Cortês mudou de sítio e da 24 de Julho passou para Alvalade, Rua João Saraiva 16, 1º. A exposição inaugural do novo espaço é “Attempting Exhaustion” de Daniel Blaufuks, até 14 de Janeiro.
OUVIR - O meu disco da semana é “Legacy”, uma colectânea de David Bowie que em dois CD’s,por ordem cronológica, reúne quatro dezenas de canções que revisitam os melhores momentos da sua carreira discográfica - de “Space Oddity a “Ashes To Ashes”, passando por versões de temas que tiveram convidados tão especiais como os Queen (“Under Pressure”), Pat Metheny (“This Is Not America”), Mick Jagger (“Dancing In The Street”) ou Pet Shop Boys (“Hello Spaceboy”). Destaque igualmente para uma nova mistura de “Life ,On Mars” ou o muitas vezes mal ignorado “Drive-In Saturday”.
Na senda de redescobrir velhos discos, trago a notícia de uma reedição de “The Last Waltz”, um duplo CD que registou o concerto de despedida de The Band, a 25 de Novembro de 1976, em São Francisco, portanto há 40 anos. Entre os convidados estavam Dylan, Clapton, Neil Young, Van Morrison e Joni Mitchell, entre outros. É curioso estas duas edições - a de Bowie e a The Band serem agora lançadas ao mesmo tempo. Trazem-nos de volta a outros tempos, mas servem também para mostrar como há sempre quem faça música que nunca envelhece e que fica uma referência.
PROVAR - Já se sabe que a Mealhada é a zona por excelência do leitão à moda da Bairrada, mas muitas vezes pensa-se que é tudo igual e, na verdade, não é. Seguindo uma recomendação amiga experimentei há pouco “O Rei dos Leitões”, um restaurante amplo que existe desde 1947 mas que há poucos anos foi alvo de remodelações profundas, que o tornaram mais confortável. Se as obras foram de feição a mudar o que dantes existia, na cozinha manteve-se a boa tradição e uma excelente qualidade, que se estende muito para além do leitão e dá cartas em pratos tradicionais como a chanfana ou noutros mais inesperados na região, como excelentes pratos de peixe e de marisco - de bacalhau a Nero dos Açores. Mas o leitão foi o que lá me levou e, pelo que provei, levará mais vezes. Perfeito, temperado como deve ser, assado no ponto, acompanhado de excelentes e frescas batatas fritas e salada bem apresentada. No couvert a manteiga proposta é a Marinhas, uma produção artesanal e de superior qualidade. de Esposende. A rematar um pastel de Tentúgal que foi boa companhia para o café. A lista de vinhos mostra uma garrafeira soberba, para todos os gostos e bolsas, com o Dão bem representado e os frisantes locais bem escolhidos - se quiser algo mais a carta de champagnes e espumantes é também assinalável. Nota final para o conforto das mesas e cadeiras, para a excelente insonorização que permite uma refeição tranquila mesmo com o restaurante cheio e para o serviço atencioso, eficaz e conhecedor. O "Rei dos Leitões" fica no nº17 da Avenida da Restauração, na Mealhada, tem um amplo parque de estacionamento próprio e o telefone é o 231 202 093. Encerra às quartas-feiras.
DIXIT - “Fair Play? Isso para mim não existe, é tudo treta” - Jorge Jesus, treinador do Sporting.
GOSTO - Pedro Borges, da Midas Filmes, ganhou com o seu Cinema Ideal o prémio de melhor empreendedor da Associação Europa Cinemas. Esta semana tive o prazer de ir lá ver o magnífico “Ela”, de Paul Verhoeven, com Isabelle Huppert.
NÃO GOSTO - Dos ataques anti semitas verificados em Portugal contra figuras públicas que visitaram Israel.
BACK TO BASICS - “Hegel tinha toda a razão quando disse que na História aprendemos que o Homem nunca aprende nada com a História” - George Bernard Shaw
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novembro 18, 2016
EUROPA: UTOPIA & CONFORMISMO
EUROPA - Quando olho para a política portuguesa e para a relação dos seus vários actores com a Europa e o Mundo fico a pensar que tudo se resume a isto: um dos lados gosta de alimentar utopias e é um pouco avesso às realidades, enquanto o outro se apresenta sistematicamente conformista e sobrevaloriza exigências externas. O problema não é de agora - desde a adesão à União Europeia criou-se o mito do aluno exemplar, sempre obediente. Foi assim que enquanto outros países, como a Espanha, foram protelando ou mesmo evitando acabar com o proteccionismo a actividades económicas nacionais, Portugal foi rápido a cumprir ordens, com manifesto prejuízo para a agricultura, a pesca e a indústria. Sabe-se hoje que a França, especialista em proteger a sua agricultura e indústria, violou sistematicamente os compromissos que assumiu, com a complacência de outros estados. Na realidade o que existe é uma Europa a duas velocidades, o que criou em cada um dos Estados membros níveis diferentes de obediência a Bruxelas. O poder da burocracia comunitária é sempre rápido a querer mais dos cumpridores e tolerante para com os prevaricadores. Quando as coisas funcionam assim o resultado não pode ser bom. Está à vista de todos a fraqueza da Europa nos dias que correm.
SEMANADA - Este ano o emprego precário na administração pública aumentou 9,6%; a economia portuguesa cresceu 1,6% no terceiro trimestre deste ano e o turismo teve um peso relevante nesse crescimento; a concessão de crédito ao consumo voltou a aumentar em setembro, atingindo 514 milhões de euros, o valor mensal mais elevado desde 2013; um estudo recente revela que metade dos portugueses consideram a corrupção um dos maiores problemas do país; o fisco deu ordens para acelerar a cobrança de impostos em falta; devido aos impostos a gasolina portuguesa é a sexta mais cara da Europa; os depósitos acima dos 100 mil euros caíram 3400 milhões de euros nos últimos 12 meses; o custo dos cartões multibanco disparou 30% num ano; está prevista a abertura de mais trinta hotéis em Portugal durante 2017; as autoridades policiais portuguesas registam 26 queixas por dia de burlas na internet; as burlas informáticas quadriplicaram nos últimos cinco anos; há 150 mil pessoas com deficiência auditiva profunda que têm dificuldades no acesso a serviços públicos; segundo a marktest 76,8% dos lares portugueses subscrevem serviços em pacote de telefone, internet e televisão.
ARCO DA VELHA - Uma exposição sobre o quotidiano de Lisboa no século XVI, “A Cidade Global”, prevista para o Museu Nacional de Arte Antiga, foi inesperadamente adiada para o próximo ano e coleccionadores que iam emprestar obras dizem que a explicação que lhes foi dada sobre o adiamento é a falta de dinheiro para pagar o transporte e seguros das peças.
FOLHEAR - As primeiras 53 páginas da revista que tenho nas mãos são dedicadas a uma reportagem sobre a vida dos ciganos no Alentejo. A revista chama-se “Berlin Quarterly” e tem por subtítulo “ European Review Of Culture”. Este é a sua quinta edição. “Berlin Quarterly” é mais um dos exemplos da nova imprensa de nicho que aposta na preservação do papel como meio privilegiado para a publicação de reportagens e ensaios. “Across Those Hills” é o título da reportagem sobre os ciganos alentejanos, com texto de Tiago Carrasco e fotografia de Daniel Costa Neves, que têm aqui um espaço editorial que em Portugal dificilmente obteriam. A revista é feita a partir de colaborações de diversas nacionalidades e que retratam realidades bem diversas dentro do espaço europeu . seja lá isso o que fôr. Inclui reportagens, ensaios escritos e fotográficos, poesia e ficção - como por exemplo a proposta de Matilde Campilho, intitulada “Jockey”. Os textos são publicados em inglês e no idioma original. Com um total de 250 páginas, cada autor tem espaço para publicar como entende. Este é um conceito muito curioso, podem saber mais em berlinquarterly.com . Um dos artigos mais interessantes é uma entrevista com Trevor Panglen na qual ele explica como as máquinas estão actualmente a captar imagens que outras máquinas vão ler e interpretar, removendo o ser humano da intermediação da observação da realidade.
VER - No fim de semana passado rumei a S. João da Madeira para a Oliva Creative Factory, um espaço que ocupa as antigas instalações industriais da Oliva - que no pós guerra do século XX fabricou de máquinas de costura a banheiras, no tempo em que havia indústria e se compravam produtos portugueses. Ali, por obra do município local, nasceu um espaço que acolhe diversas artes e algum comércio da área do design e do artesanato contemporâneo. A Oliva Creative Factory tem vários espaços e acolheu, por exemplo, a colecção de Treger/Saint Silvestre, um casal de franceses que escolheram o local para depositarem o seu acervo, com núcleos de arte bruta, artes marginais e arte contemporânea e ainda núcleos de vocação etnográfica, num conjunto de dimensão importante a nível internacional. Mas o que ali me levou foi uma instalação de José Barrias, um artista plástico português que vive em Milão há décadas, e que deu um novo sentido à antiga sala dos fornos, induzindo na arquitectura industrial arruinada a componente majestática de uma catedral imaginada, usando as cores como símbolos, num exercício de transfiguração do espaço e do tempo. Rumando mais a norte, ao Porto, fui ver o que Pedro Calapez levou à Galeria Fernando Santos, um dos espaços de referência da Rua Miguel Bombarda. Calapez apresenta obras novas (na imagem), sob o título genérico “Configurações”, introduzindo peças que exploram várias dimensões e perspectivas, com planos diferenciados, e que, pontualmente, revelam a reintrodução do desenho na sua pintura com algumas técnicas novas em relação à sua produção mais recente. Não certamente por acaso as derradeiras salas da Galeria são dedicadas a desenhos seus de grandes dimensões, imponentes e marcantes. É impossível não pensar que, até na forma como a exposição está montada, Calapez evoca o triunfo do desenho nesta sua nova exposição que ficará patente na Rua Miguel Bombarda 526 até 7 de Janeiro.
OUVIR - Deixei de gostar dos Pinkfloyd em 1973, quando foi publicado “Dark Side Of The Moon”. Já não tinha gostado muito de “Atom Heart Mother” e decididamente os meus preferidos são os discos gravados entre 1967 e 1972. Em vésperas de se assinalarem 50 anos sobre o primeiro disco do grupo, “The Piper At The Gates Of Dawn”, foi editada uma belíssima colectânea intitulada “Pink Floyd, The Early Years, 1967 - 1972, Cre/ation”. “Arnold Layne” e “See Emily Play” são as duas primeiras canções deste duplo CD, e são os dois primeiros singles da banda. “Ummagumma”, de 1969, é o álbum de que eu gosto mais - e ainda conservo a edição original em vinyl e uma posterior em CD. A presente colectânea tem 27 temas que representam na realidade a quase totalidade dos momentos altos dos Pink Floyd na fase inicial da sua carreira. Inclui gravações originais, mas também registos ao vivo (como uma aceitável versão de “Atom Heart Mother” gravada em 1970 em Montreux) e até remixes contemporâneas. “Obscured By Clouds”, de 1972, foi o último álbum da banda que verdadeiramente apreciei. Em 1970 compuseram alguns temas para “Zabriskie Point”, de Michaelangelo Antonioni, e aqui eles surgem em remisturas. Depois da desilusão que tive com “Dark Side Of The Moon” deixei praticamente de os ouvir e centrei-me, quando necessário, em “Ummagumma”. Quem quiser ouvir ainda mais tem disponível, em vez deste duplo CD, uma caixa de 27 discos, com o mesmo nome, que recolhe toda a carreira da banda nos cinco anos entre 1967 e 1972. Distribuído em Portugal pela Warner.
PROVAR - No lugar onde dantes existia uma oficina que recuperava automóveis antigos está desde Setembro um dos restaurantes mais vibrantes do Porto. Chama-se, claro está, “Oficina” e é uma iniciativa do galerista Fernando Santos que, na mesma rua e um pouco mais acima, tem a sua Galeria. O Oficina desenvolve-se em dois pisos, com o superior a acolher frequentemente a mesa do Chef, mas também as tertúlias que Fernando Santos promove e que darão direito a um livro que pretende ter edição anual. O próprio restaurante tem o prazer de mostrar arte, logo a começar por uma instalação de luz que Pedro Cabrita Reis criou para a empena do prédio que dá para o terraço que ladeia o piso superior. Há um cuidado assinalável na decoração, desde as mesas ao conforto das cadeiras e às peças de arte que irão rodando em sintonia com o acervo da Galeria. O responsável pela cozinha é o chef Marco Gomes, um transmontano que criou e fez nome no Foz Velha, um bom intérprete de versões de pratos inspirados na gastronomia tradicional portuguesa. Numa recente visita destacou-se a vitela mendinha, os medalhões de lombo maturado, a açorda de perdiz, o polvo grelhado com arroz do mesmo e um robalo ao vapor sobre risotto de lima e hortelã. O couvert inclui uma bola transmontana miniatura que é por si só um programa e a carta de sobremesas é tentadora. Desde há dias o restaurante abre ao almoço com uma proposta de menu executivo e ao jantar é mesmo melhor reservar. A garrafeira tem boa escolha, o serviço precisa de rodar mais, mas a experiência é muito positiva. Oficina, Rua Miguel Bombarda 273, Porto, telefone 220 165 807 ou reservas@oficinaporto.com
DIXIT - “Gosto dos números, mas fico preocupado porque vejo que são sustentados no turismo e isso é um risco” - João Duque, sobre o crescimento da economia portuguesa.
GOSTO - Do trabalho que Marco Martins fez com o texto de Jean Genet, “As Criadas”, no D. Maria II. Boas interpretações de Luísa Cruz, Beatriz Batarda e, sobretudo, Sara Carinhas. Até 18 de Dezembro
NÃO GOSTO - Das demoras da justiça nos casos em que o Fisco abusa dos cidadãos e da forma como o abuso de poder do Estado é protegido - e nenhum dos partidos do arco da governação se preocupa com o assunto.
BACK TO BASICS - “O desporto não constrói o carácter das pessoas; apenas o revela” - Heywood Broun