dezembro 29, 2016

VÍCIOS PRIVADOS, PÚBLICAS VIRTUDES

Vai para aí um grande alvoroço sobre o facto de umas declarações informais, em conversa privada, do Ministro Santos Silva, terem sido utilizadas publicamente na comparação entre a negociação na concertação social e a negociação em feiras de gado. Há quem ache que, por serem privadas, não deviam ser usadas. Vêm dos que pensam que os políticos podem esconder o que de facto pensam e fazerem só declarações bonitas. Este alvoroço espelha o estado do país e da política: uma coisa é o que se diz publicamente, outra coisa é o que se diz entre amigalhaços e que, na maioria dos casos, espelha o verdadeiro e sincero pensamento das pessoas. Por estas e outras é que os políticos se desacreditam e as pessoas descrêem na política e seus agentes. O que aconteceu a Santos Silva podia ter acontecido a muitos dirigentes de outros partidos. À mulher de César não lhe basta parecer ser séria, tem que o ser de facto. O problema, digo eu, não está em usar uma declaração privada neste tempo em que as pessoas se expõem e aceitam ser captadas em quaisquer circusntâncias quando estão na ribalta pública. Fazem aliás por isso. O problema é quando o discurso público de um Ministro é tão diferente do discurso privado. O que se reportou não é uma conversa íntima - é a declaração de que um Ministro e dirigente partidário não tem qualquer respeito pela concertação social, que entende ser uma chicana infelizmente necessária. Como diz hoje o Fernando Sobral no Jornal de Negócios, "o principal sintoma de que um regime político está a desmoronar-se é a corrupção da linguagem". O que o microfone indiscreto captou foi isto - não foi nenhuma intimidade pessoal nem nenhum segredo de alcova.