outubro 31, 2026

O REGRESSO DAS NOITES LONGAS

Agora, a noite começa mais cedo. Aos poucos a luz começa a desaparecer quando ainda devia ser dia e o Outono nem a meio vai. Primeiro, o sol esconde-se e aparece a sombra. Depois, a sombra desaparece e instala-se o escuro. Vou para a janela espreitar e vejo os faróis dos carros. Fecho um pouco os olhos e a luz dos faróis transforma-se em riscos luminosos que me perduram na memória. Sempre gostei de espreitar a luz que a noite deixa ver, a luz que de dia não tem lugar. Não há duas luzes iguais e ela é sempre passageira e permanentemente em mutação. A maneira como a vemos é das coisas que mais me fascina: a luz e a falta dela é o que regula os nossos dias, a luz é o que faz o que vemos. Quando desaparece e se veste de negro a luz é o passaporte para a imaginação. O que está no meio da escuridão? Para onde vão os carros que deixam fios de luz na estrada? Há tanto mistério que se adivinha no meio da escuridão, desde encontros furtivos a  beijos escondidos, passando por conversas onde se ouve mas não se vê. Quem sabe isso tudo são os candeeiros, esses guardiões da noite. De vez em quando a paisagem da noite muda quando a lua começa a ficar grande. As  noites de lua cheia são mágicas porque a noite é invadida por um brilho que muda tudo à sua volta - mas a lua cheia é efémera como a própria luz. Aparece e desaparece, é um jogo das escondidas. Um dia destes volta para nos fazer companhia nas noites longas agora regressadas.


outubro 30, 2026

O XERIFE ALDRABÃO

 

O ABUSADOR - Luis Neves construíu a sua carreira sob o lema não olhar a meios para atingir os fins. Foi assim que repetidamente fez interpretações muito pessoais de leis e regulamentos para conseguir rapidez na execução, foi assim que, até em termos pessoais,  ignorou o que a lei dizia quando fazia obras numa propriedade sua, e foi assim que tomou decisões graves sobre material apreendido pela Polícia Judiciária que então dirigia, com um histórico de contorcionismo do estabelecido na lei. O bom senso não é certamente uma das suas virtudes, o abuso de poder é uma das suas características, a deturpação da verdade é frequente em parte do seu discurso. Não é tranquilizador ter à frente dos corpos policiais um homem com estas características e os recentes acontecimentos relacionados com os protestos desencadeados pela crise da habitação vêm comprovar isso mesmo. Logo no início dos protestos, na madrugada de 15 de Outubro, quando uma carga policial provocou mais de 30 feridos, o Director Nacional da PSP e o ministro defenderam que a polícia  tinha actuado bem, de forma adequada e proporcional, mesmo com imagens que mostravam polícias a pontapear um manifestante já caído depois de ter levado bastonadas. No fim de semana passado o pior voltou a acontecer, com uma carga policial a provocar trinta e três feridos, com Luís Neves a dizer hipocritamente que apenas foi usada a “força física para fazer cumprir a lei e o Estado de Direito”.  Talvez tivesse sido útil que ele próprio fosse sujeito a esse tratamento quando, com as suas acções, como o desencaminhamento do célebre atrelado com barris de amoníaco,  pôs em causa o cumprimento da lei e o Estado de Direito. A violência das actuações policiais tem sido claramente incentivada pela cobertura que o ministro lhes tem dado. Estas acções são questionadas por constitucionalistas que colocam em dúvida se a polícia pode interromper os protestos que se prolongam depois da meia noite e meia - a legislação invocada pelas autoridades sobre o limite horário da manifestação foi feita pelo governo de Vasco Gonçalves, antes da aprovação da Constituição. Certo é que ao longo dos anos se têm verificado vários protestos e vigílias com tendas montadas no espaço público e que foram sempre toleradas, em qualquer horário, algumas durante dias a fio, sem intervenção das autoridades. Resumo do sucedido: temos um Ministro da Administração Interna que quando lhe dá jeito a si mesmo despreza e contorna a lei, mas que é muito zeloso a exigir que os outros a cumpram, mesmo quando não é claro que haja transgressões; e temos um primeiro-ministro silenciosamente cúmplice perante o que se passa, o que volta a trazer à baila a possibilidade de esse silêncio, em relação a Luis Neves, ser insuflado por alguma coisa que ele saiba sobre Montenegro. Escrevo estas páginas segunda-feira. Será que o silêncio e os abusos continuaram pela semana fora?


SEMANADA - No segundo trimestre deste ano os preços das casas aumentaram mais de 20% em quase metade do país; entre os 33 Estados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal é o país onde há mais dificuldade em comprar casa; A dificuldade em ser proprietário de uma casa, em Portugal, está 36% acima da média da OCDE e 50% acima da média da zona euro; na última década, os preços das casas aumentaram 164%; actualmente 46% dos jovens portugueses entre os 18 e os 34 anos que trabalham a tempo inteiro continuam a viver com os pais; o Índice Internacional de Competitividade Fiscal 2026 da Tax Foundation coloca portugal no 33º lugar entre 38 países da OCDE, ou seja é o sexto sistema fiscal menos competitivo; entre 2010 e 2025, Portugal emitiu, por habitante, apenas 55% das licenças de construção de nova habitação registadas na média europeia; o crédito à habitação das famílias portuguesas até ao final de Agosto totaliza €119.100.000.000 mais 11,2% que no período homólogo; Em sete anos, o preço mediano de venda da habitação em Portugal mais do que duplicou, passando dos 1098 euros por metro quadrado no 2.º trimestre de 2019 para 2445 euros/m2 no final de junho deste ano, uma taxa de variação de 122% neste período; em 101 dos 308 municípios portugueses pelo menos 10% dos residentes são estrangeiros; em Lisboa 25,64% dos residentes são estrangeiros e no Porto são mais de 22%; em Odemira a maior parte da população residente, 52,6%, são estrangeiros; a taxa mais baixa de estrangeiros residentes é a de Resende, no distrito de Viseu, com 1,31%; como lembrou a jornalista Bárbara Reis, em 100 anos Lisboa só fez 96 obras de habitação pública. 


O ARCO DA VELHA - Todas as sete dezenas de queixas de vítimas de abusos sexuais de padres sobre crianças foram arquivadas pelo Ministério Público.




O ANO DO CAVALO  - A galeria Ochre Space, que se tem especializado em mostrar fotografia de autores chineses e japoneses, centrou a sua actividade ao longo deste ano a evocar o ano do Cavalo na astrologia chinesa. Para encerrar este ciclo o responsável pelo espaço, João Miguel Barros, escolheu o trabalho “Appearance and Abstraction”, do chinês  Li Gang, que nos últimos dez anos se tem dedicado a fotografar cavalos. O fotógrafo aproxima-se tanto dos animais que quase os faz desaparecer, mostrando apenas detalhes e contornos dos seus corpos. Ao longo deste tempo Li Gang fez quatro livros sempre sobre esta mesma temática e a exposição é baseada no mais recente desses livros. João Miguel Barros explica que para esta série, o artista estudou a fundo a dimensão abstracta da pintura tradicional chinesa e a arte abstracta moderna do Ocidente. E sublinha que “a fotografia abstracta não é o mesmo que a arte abstracta, mas há entre ambas uma afinidade estrutural no plano espiritual, e isso deu a Li Gang uma nova maneira de ver. Naquilo que fotografa, busca as possibilidades de composição dos elementos visuais básicos e um equilíbrio subtil entre ordem e liberdade; entre o ocultamento e a descoberta”. A exposição pode ser vista até 14 de Novembro, de quinta a sábado entre as 15 e as 18h30. A Ochre fica na Rua Bica Do Marquês 31, à Ajuda.




ROTEIRO
- Sinal dos tempos, na semana passada duas exposições assumiram um carácter vincadamente político. No MAC/CCB Ângela Ferreira apresentou “Here I Stand” onde aborda o colonialismo e os mecanismos de comunicação a ele associados, numa abordagem que entende a arte como uma forma de pensar a contemporaneidade. A outra exposição, que assinala os 39 anos de existência da Galeria Ratton, é um trabalho sobre azulejo, de Tiago Cutileiro, “Dois Trípticos do Fim”, que mostra a sua visão sobre a situação criada no médio oriente, entre palestinianos e israelitas, claramente tomando posição a favor dos primeiros. Já noutro campo, na Galeria Carlos Carvalho, está até 5 de Dezembro um trabalho de fotografia e instalação, fruto da colaboração entre Os Espacialistas e Gonçalo M. Tavares, baseado em imagens, palavras e objectos. Finalmente na Galeria Filomena Soares, até 14 de Novembro, Pedro Barateiro expõe “Pão e Circo” e Sandra Baía apresenta “Cabeça de Cão”.




A DESCOBERTA DA VIDA - “Uma Casa no Fim do Mundo”, um  romance de Michael Cunningham  conta a história de dois amigos: Jonathan, solitário, inseguro e introspectivo e Bobby, sombrio e silencioso. Depois da adolescência numa tranquila cidade do interior, a relação entre ambos encontra em Nova Iorque um novo espaço de crescimento com a cumplicidade de Clare que com eles partilha a casa, uma mulher mais velha e mais experiente. Jonathan, Bobby e Clare procuram  construir um novo tipo de família, testando os limites da amizade e do amor. Michael Cunningham descreve a fragilidade e tensão das relações afectivas  que assim se estabelecem. Os diálogos entre Clare, Bobby e Jonathan são imperdíveis, sobretudo a descoberta do corpo de uma mulher que Clare proporciona a Bobby. Tudo nasce no espaço de um corredor, numa casa partilhada entre uma mulher divorciada e farta da vida que tem levado, e dois rapazes mais novos que têm uma relação. Como ela diz a certa altura, a velha Clare vai ensinar uma dúzia de truques. Como em outras obras, Michael Cunningham escreve sobre o amor e a fragilidade da condição humana. Edição Gradiva.





MESA DE CABECEIRA
-  John Clare foi um dos maiores poetas românticos ingleses do século XIX, apenas devidamente reconhecido no século seguinte. Filho de um trabalhador rural, Clare foi agricultor, jardineiro, trabalhou em tabernas e em fábricas de cal e teve uma breve educação formal. Ao lado da mulher e sete filhos, a sua vida foi periclitante, entre a pobreza extrema e o desejo de reconhecimento literário. Passou longos períodos internado em asilos e “Recordações da Fuga de Essex” é o seu relato da fuga de uma dessas instituições, um texto impressionante, que é seguido de “20 poemas do manicómio”. O título diz tudo e este é um livro que merece ser lido. Afinal recordo, a nossa sociedade foi tomada por loucos, muitos  não diagnosticados. Edição Assírio & Alvim. O outro livro é uma nova edição da poesia completa de Alberto Caeiro, um dos heterónimos mais importantes de Fernando Pessoa. Esta edição conta com os três principais ciclos de poemas de Alberto Caeiro, um conjunto de textos que constitui o cerne poético da obra de Fernando Pessoa, e ainda com vários textos de estudiosos que facilitam e enriquecem a leitura da sua obra. Edição Assírio & Alvim.


MÚSICA ANTIGA  - O disco “A Bússola Branca” regista o conjunto de sonatas de Carlos Seixas, a figura maior da música portuguesa para teclas do século XVIII, agora editadas pela primeira vez. A gravação destas sonatas baseia-se na interpretação  da cravista francesa Béatrice Martin,  que as tocou num instrumento do tempo de Carlos Seixas, o cravo construído em Lisboa por Joaquim José Antunes em 1758 e classificado como Tesouro Nacional. O projeto reúne oito sonatas de Carlos Seixas e uma obra contemporânea de António Pinho Vargas, num diálogo entre o período barroco e a criação musical contemporânea. Este trabalho  recupera uma parte do património musical português que permanecia fora do registo discográfico, e fá-lo com um dos poucos cravos portugueses da época que ainda se conservam, hoje em exposição no renovado Museu Nacional da Música, em Mafra. Disponível nas plataformas de streaming.

 


DIXIT - “A habitação é um dos melhores exemplos do cruel falhanço dos serviços públicos portugueses no século XXI”- António Barreto, no Público

 

BACK TO BASICS - A Imaginação é a única arma eficaz na guerra contra a realidade” - Jules de Gaultier


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








outubro 24, 2026

AS JANELAS BORDADAS


Nas grandes cidades já se vêem poucas janelas assim, com cortinados de bordados laboriosamente feitos com linha branca. Nalgumas vilas do interior, e numas muito poucas janelas de rés de chão de zonas antigas das cidades maiores, às vezes ainda se encontram estes cortinados. Nasceram assim arrendados para que entrasse alguma luz enquanto impediam os curiosos de espreitar para dentro de casa. Os bordados eram o retrato de uma época, feitos nos tempos livres, muitas vezes à noite, depois do jantar, numa época em que ainda não havia televisão e os trabalhos manuais eram uma forma de passar o tempo. As pessoas com mãos mais hábeis bordavam enquanto falavam, mantinham um diálogo de agulha na mão, contando os pontos mentalmente enquanto a conversa andava noutras paragens. Havia revistas com modelos de bordados, havia lojas que vendiam os seus fios, havia até concursos de bordados. Não se pense que os bordados ficavam só na janela, eles podiam invadir as casas por todo o lado, principalmente em cima de mesas ou nos braços dos sofás e, quando a televisão começou a ser o centro das atenções domésticas, um bordado por cima do grande móvel de madeira que suportava um ainda pequeno ecrã era muito habitual. Hoje em dia quase desapareceram, das janelas e das casas. Poucas pessoas sabem já bordar, foi um saber que se foi perdendo. O rito do bordado à noite perdeu-se entre telenovelas e reality shows. E, nestes dias que correm, a agulha e a linha foram substituídas pelo telemóvel e redes sociais. Despiram-se as janelas.

(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE EM SAPO.PT)


outubro 23, 2026

A MÂO LEVE DO ESTADO QUE ENTRA NOS BOLSOS



O NOSSO DINHEIRINHO - Esta semana selecionei alguns dados sobre a maneira como o Estado nos vai buscar dinheiro ao bolso. Prevê-se que para o ano o Estado cobrará 70,672 mil milhões de euros, o valor mais alto de sempre, que significa um crescimento de 4,2% face à estimativa para 2026.  A  parte de leão vem do IVA, o maior imposto indireto, cuja receita deve subir 5,3%, graças às previsões que apontam para um aumento do consumo. Recordo que as nossas taxas de IVA são das maiores da Europa (a nossa normal é de 23% quando em Espanha é de 21% e na Alemanha de 19%). Outro imposto indireto deste rectângulo à beira- mar plantado  é o ISP, relativo aos produtos petrolíferos,que tem aqui uma das taxas mais altas da Europa e cuja receita se estima que crescerá 5,2%. Neste imposto há um caso particularmente aberrante que é o facto de o IVA incidir sobre o ISP: isto é, o Estado cobra um imposto sobre um imposto. O nosso bolso passou a ter dois buracos. Passemos à alínea seguinte, a do IRS e do IRC , que são impostos directos. A receita do primeiro deve subir 3,4%, enquanto a do segundo deve cair 1%. Em média, o rácio entre o nosso IRS e os rendimentos de trabalho é baixo no quadro europeu. Esta média é, porém, enganadora: muitas famílias ganham muito pouco e não pagam IRS, enquanto outras, como os escalões sobem rapidamente, são bastante penalizadas, mesmo não sendo ricas, o que agrava particularmente a classe média. Por sua vez, os impostos efetivamente pagos pelas empresas (IRC mais derramas) são dos mais altos da Europa. No Orçamento de Estado para 2027 as receitas previstas em taxas e taxinhas somam mais de quatro mil milhões de euros, em pagamentos tão diversos como portagens, propinas, multas, coimas, registos de imóveis e automóveis. O ministro das Finanças,  Joaquim Miranda Sarmento, veio dizer com cara alegre que a carga fiscal vai descer em 2027. Mas nada disse sobre o esforço fiscal, uma métrica mais adequada, porque relaciona os impostos cobrados com a capacidade económica do contribuinte. E aí os portugueses estão entre os cidadãos com maior esforço fiscal na Europa. Para um salário bruto de 1500 euros, um português fica com 1115 euros, menos do que um espanhol ou um alemão. Hoje é o que temos, como diz uma amiga minha.

SEMANADA - O PIB português apenas cresceu 41,6% em três décadas o que classifica a economia portuguesa como uma das mais lentas do mundo no século XXI; quase metade das vagas com incentivos para a colocação de médicos em zonas carenciadas ficou por preencher; Portugal é o país do mundo mais exposto ao capital chinês; a margem de refinação obtida pela GALP no terceiro trimestre deste ano foi de mais 101% que no trimestre anterior e mais 256% que no mesmo período do ano passado; durante 2025 o consumo médio de petróleo de cada português, nas suas várias formas e aplicações, foi de 3,3 litros; um trabalhador que ganhe o salário médio líquido, 1348 euros, e que faça 25 kms por dia em viatura própria para ir trabalhar, gasta o que ganha em dois dias só para pagar o combustível que consome mensalmente em deslocações para o emprego; a TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões; entre Janeiro e Agosto foram iniciadas 862 investigações de abuso sexual de crianças e 887 de pornografia de menores; segundo a PJ em média são abertos oito inquéritos por dia com crimes sexuais contra crianças e adolescentes; pelo terceiro ano consecutivo, o Instagram é a rede social mais utilizada pelos portugueses com 32.2%  de utilizadores, o WhatsApp ocupa a segunda posição, com 25.6%, enquanto o Facebook, que até 2023 liderava a utilização, surge em terceiro, com 21.7%.


O ARCO DA VELHA - O valor médio gasto por dia pelos portugueses, nos primeiros oito meses do ano, em medicamentos para emagrecer,  foi de cerca de  795 mil euros e em 2025, a média foi de 380 mil euros.




FOTOGRAFIAS INESPERADAS - Juan Fontcuberta é um dos mais importantes fotógrafos espanhóis e europeus e o Imago Lisboa Photo Festival tem como um dos pontos altos desta edição de 2026 a sua exposição “Wunderkammer”. Este termo evoca os gabinetes de curiosidades, uma prática que vem do século XVI e que designa espaços onde se mostram colecções que misturam objectos de várias origens e sem relações entre si. Nesta exposição Fontcuberta juntou oito séries de imagens articuladas como um gabinete de curiosidades contemporâneo. Em “Wunderkammer” Fontcuberta mostra como para si a fotografia deixou de ser um mero testemunho do mundo e recorda-nos que a fotografia já não se conforma em refletir a realidade, mas “reinventa-a, contamina-a e projeta-a para outros mundos possíveis.” A exposição pode ser vista até  dia 15 de Novembro, no Museu da Água, Rua do Alviela 12, Estação elevatória dos Barbadinhos, de 3ª a Domingo entre as 10 e as 18. 




ROTEIRO - Uma das mais interessantes exposições das últimas semanas é de Cecília Costa, “One’s head placing other’s heart” (na imagem). São seis desenhos a fita adesiva de papel e carvão, instalados dentro de armários e da base da chaminé da sala de Química do Museu Nacional de História Natural e Ciência, a que se junta uma mesa do espólio do museu que Cecília Costa converteu efemeramente num objecto artístico, em diálogo com os desenhos. A artista, cuja formação é na área da matemática, tem um desenho muito característico e, em relação a estas obras, afirma:  “temos nas nossas mãos a linha da cabeça e a linha do coração, a linha do coração é uma curva exponencial, cresce muito rápido, e a linha da cabeça é uma curva logarítmica, é uma curva muito contida que cresce devagarinho, até dá a sensação que estabiliza, mas não”. A exposição fica patente até 15 de Novembro e tem curadoria de Sofia Marçal. Um destaque da semana é mais uma edição da mostra “Drawing Room”, dedicada ao desenho, que junta até Domingo, na Sociedade Nacional de Belas Artes, 23 galerias de Portugal e Espanha, com trabalhos de mais de sete dezenas de artistas. Ali existem de certeza boas oportunidades para quem quiser começar uma colecção de arte contemporânea. (Rua Barata Salgueiro 36)


HISTÓRIAS DO NOSSO TEMPO - Francis Fukuyama tornou-se conhecido em 1992, com o seu livro “O Fim da História e o Último Homem”. Tinha então 39 anos, era um académico em início de carreira e o livro tornou-se uma das obras de teoria política mais celebradas e controversas do nosso tempo. Fukuyama está associado ao surgimento do neoconservadorismo, movimento do qual depois se distanciou. Doutor em ciência política pela Universidade de Harvard, vive em Palo Alto, na Califórnia e lecciona estudos internacionais na Universidade de Stanford. Em 2009, rompeu com os seus mentores neoconservadores, após renegar o seu apoio à invasão do Iraque em 2003 e com duras críticas à chamada economia de “laissez-faire”, uma teoria ultra-liberal que desvaloriza o papel do Estado na economia e que é considerada como tendo estado na origem da crise financeira de 2008. Este novo livro “No Reino do Último Homem” explica por que razão mudou de posição. É uma obra de memórias pessoais e políticas, desde a evocação do seu pai até aos seus trabalhos de início de carreira, como consultor de Ronald Reagan e da CIA. Ao longo do livro Fukuyama analisa a sua vida em paralelo com as profundas mudanças políticas dos últimos trinta anos – de Bush a Obama e a Trump, desde a guerra ao terror depois do ataque às torres gémeas à invasão da Ucrânia pela Rússia. Fukuyama, um dos pensadores mais importantes do século XXI, analisa a situação política global contemporânea e, na sua forma de escrever provocadora, sugere pistas sobre como o Ocidente pode resgatar a democracia  num momento em que ela parece estar à beira do abismo. (Edição D. Quixote).





MESA DE CABECEIRA - “A Revolução Invisível - como as mulheres revolucionaram o pensamento político no século XX”, guia-nos pela vida e obra de sete pensadoras fundamentais do século XX que fizeram ouvir a sua voz para questionar as formas de poder e os conceitos universais tradicionais. A autora, Mariana Dimópulos, mostra o pensamento de Rosa Luxemburgo, Hannah Arendt, Simone Weil, Simone de Beauvoir, Iris Murdoch, Ágnes Heller e Judith Butler. Mariana Dimópulos,  escritora, tradutora e docente que vive em Berlim, combina história, biografia e filosofia e analisa a forma como estas mulheres do século XX repensaram a liberdade e a justiça e como revolucionaram os fundamentos do pensamento político moderno (edição Temas e Debates). O outro livro foi escrito por uma das mulheres citadas em “A Revolução Invisível” e é a grande obra de Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, editado pela primeira vez há 70 anos, uma análise dos desequilíbrios de poder entre os sexos e que se tornou na bíblia do feminismo. Neste Volume 1, agora editado na colecção Biblioteca de Alexandria, da Quetzal, Beauvoir explora a identidade feminina através dos mitos e símbolos. 




UMA BOA SURPRESA - Este é um disco inesperado: 15 anos depois da morte de Cesária Évora, surge um novo álbum, “Reina da Morna”, com canções que a artista gravou mas que não foram editadas na época. São gravações originais que sobraram de álbuns anteriores, baseadas em instrumentos de cordas e no piano e, claro na voz e forma de cantar inconfundíveis de Cesária Évora. Foram todas gravadas à primeira tentativa e se algumas não são versões finais perfeitas, têm todas um peso de espontaneidade notável . No repertório do disco, com dez temas,  estão obras de compositores de Cabo Verde, como b.Leza, Manuel d’Novas e, pela primeira vez num disco de Cesária, Eugénio Tavares. É uma magnífica surpresa, com temas surpreendentes como “Sosente”, dedicado ao Mindelo. Disponível nas plataformas de streaming.




ALMANAQUE - Até final do ano pode ser vista a exposição “A Outra Guerra”, que mostra numerosos exemplos de propaganda em português na Segunda Guerra Mundial, materiais originais criados sobretudo pelos alemães e os britânicos, mas também pelos americanos e italianos. Feita a partir de materiais do Arquivo Ephemera, comissariada por José Pacheco Pereira, a exposição pode ser vista às terças, sábados e domingos entre as 10 e as 18 horas, no Armazém, 150, Rua 44, no Parque Empresarial do Barreiro.


DIXIT - “A vitória nas eleições é de quem tiver um programa de habitação” - Ana Sá Lopes, no “Público”.

 

BACK TO BASICS - “Não me agrada pensar se prefiro ir para o céu ou o inferno, porque tenho amigos em ambos os sítios” - Mark Twain


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS



outubro 17, 2026

OUTRAS VISTAS


Esta semana dei comigo num autocarro a ir pela auto-estrada fora, rumo ao norte. Sem ter que conduzir, restava-me olhar para o que se passava à volta. Percebi que num autocarro se olha por cima das barreiras laterais da estrada, que temos outras vistas, que há casas que nunca tínhamos sequer imaginado, campos cultivados, animais a pastar. E assim fui vendo o que nunca tinha visto, nesta mesma estrada por onde tantas vezes já passei a guiar. É bem certo que quando não vamos a conduzir a atenção à paisagem é diferente. Em vez de olhar para o carro da frente e para os retrovisores, podia olhar para os lados. É todo um mundo novo que se abre. Quem conduz, não vê; quem é conduzido, espreita - eis a conclusão a que cheguei. A certa altura dei por mim a recordar-me do tempo em que andava no Liceu e ainda havia em Lisboa autocarros de dois andares. Eu gostava de subir a escada e ir lá para cima - havia menos gente, mais espaço,  e descobria-se outra cidade. Hoje já não há autocarros desses para os residentes, só há para os turistas, com esplanadas em cima ou vidros panorâmicos. Na altura fazia de turista na minha terra, via a avenida da República e o Saldanha de cima. Depois passei a andar de metro e passei a ver só pessoas sempre apressadas. No andar de cima do autocarro via a cidade a cores; no metropolitano, via as profundezas da cidade a preto e branco. Esta viagem de autocarro pela estrada fora devolveu-me o prazer de ver por onde a estrada passa. 

(pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt)

outubro 16, 2026

A MANIA DAS COMPRAS

O ESTADO EXPLICADO A CRIANÇAS - Aviso já que este texto  é baseado na cópia de excertos de um brilhante post do economista e Professor Pedro Santa Clara, no Linkedin, sobre esta mania que o Estado Português agora desenvolveu de comprar participações em empresas privadas, teoricamente através de um fundo soberano que o Primeiro Ministro anunciou numa festa do PSD. As compras estão em movimento, primeiro na REN, agora no BCP, com o Estado a recomprar, caro, o que há uns anos vendeu. Vamos então aos escritos de Pedro Santa Clara,  apresentados no seu Linkedin como se fosse um livro para crianças, em 17 páginas deslumbrantes, cuja capa aqui reproduzo e que se chama “O Estado vai às compras”. Começa pelo tal fundo soberano: “O fundo chama-se Fundo Soberano. Foi anunciado em junho. Ainda não existe. Não tem estatutos, não tem conselho, não tem regras, não tem relatório. Mas já comprou duas coisas. É um fundo muito especial: compra antes de nascer. O Senhor Primeiro-Ministro diz que é como o fundo da Noruega. O fundo da Noruega tem uma regra, só uma, escrita no mandato: não pode investir na Noruega. A Noruega tem petróleo e põe o dinheiro fora, para o Estado não mandar nas empresas do país. Portugal não tem petróleo, tem dívida, e põe o dinheiro dentro, para o Estado mandar nas empresas do país. É igualzinho, só que ao contrário”. E, mais adiante, sobre o desejo de o Estado tomar posição no BCP: “Sabes que países têm Estados que mandam nos bancos? A China. A Rússia. A Índia. O Brasil. A Turquia, onde o presidente baixa os juros por decreto. A Hungria, onde o Estado comprou bancos para dar aos amigos. Olha que bonito, Portugal vai brincar com eles. Nos outros países, os Estados só são donos de bancos quando os tiveram de salvar, e vendem assim que podem. O Reino Unido salvou o Nat West em 2008 e saiu em 2025. A Holanda está a sair do ABN Amro. A Itália vendeu o Monte dei Paschi. Em vinte anos, nenhum Estado rico comprou um bocadinho de um banco saudável por o achar estratégico. Portugal vai ser o primeiro. Portugal é muito original.”. E prossegue:  “Quem é que vigia as compras do Estado? O Tribunal de Contas põe um carimbo que diz que o contrato está bem escrito. Não diz se o preço está bem. A CMVM recebe um papel. O Parlamento não vota. Quem aconselhou o Estado a comprar a REN foi o CaixaBI, que é da Caixa, que é do Estado. O Estado perguntou ao Estado se devia comprar, e o Estado disse que sim. Um ministro decide, um banco do Estado aconselha, um tribunal carimba, e tu pagas” (com os impostos que todos pagamos). Vão ao Linkedin e leiam o livrinho todo, o respectivo link é este https://lnkd.in/p/ei529GUX .



SEMANADA - As verbas para o ensino desceram de 6,7% do PIB em 2010 para 4,4% em 2022 e esta redução coincidiu com o regredir dos resultados de Portugal no estudo PISA; a falta de vagas para alunos nas escolas gera 46% das reclamações contra o Ministério da Educação e mais de metade dos casos reportados no Portal da Queixa envolve crianças do pré-escolar e do 1º ciclo; desde que o ano letivo se iniciou, em setembro, o número de aposentações disparou e as escolas perderam 1542 professores, que adicionam aos  1721 que tinham saído nos primeiros oito meses de 2026;  em 2025, o índice de preços da habitação registou uma subida anual de 17,6%; no segundo trimestre de 2026 foram transaccionadas em Portugal 40.1412 habitações, menos 6,4% do que no mesmo período de 2025;  quase um em cada cinco dos portugueses entre 25 e 34 anos teve uma consulta na área da saúde mental no ano passado; a carga fiscal portuguesa,  sobre combustíveis, em valor e em paridades de poder de compra, é a quarta mais elevada da UE na gasolina 95 e a sétima no gasóleo; um estudo divulgado na semana passada indica que das 12 campanhas publicitárias analisadas em Portugal em torno do Mundial 2026 a mais eficaz foi a da McDonald’s, seguida pelas do Continente e do BPI; os seguros de saúde já cobrem 4,5 milhões de pessoas em Portugal; o volume de negócio dos hospitais privados subiu 44% em quatro anos; em apenas oito meses, a população prisional aumentou em 652 detidos, enquanto o corpo da guarda prisional perdeu 73 profissionais; a PSP e a GNR registaram 35 assaltos a residências por dia em 2025; a GNR registou, a nível nacional, um total de 964 desaparecimentos; quem ganha o salário médio será menos beneficiado com as alterações ao IRS.  


O ARCO DA VELHA -  O consumo de combustíveis em Portugal está a crescer acima da média europeia.





O TRIUNFO DA PINTURA - Juan Araujo é um artista venezuelano que tem vivido em Lisboa, com uma extensa carreira internacional  e presença em algumas colecções públicas importantes, como a Tate de Londres, o MOMA de Nova Iorque ou o Centro Galego de Arte Contemporânea. “El Pez Que Fuma” é o título da sua exposição patente na galeria Cristina Guerra Contemporary Art até 14 de Novembro. São trabalhos essencialmente de pintura, a óleo, de pequenas dimensões, registos detalhados  “imagens de mundos perdidos, cidades mortas, ruínas, pedras que opõem ao tempo a sua própria plasticidade, a sua aptidão para se fragmentarem, sobreviverem e significarem a obsolescência das coisas”, como escreveu Leopoldo Iribarren na folha de sala desta exposição, sublinhando ainda que “quem, como Juan Araujo, aspira a produzir uma poética da ruína não pode senão escavar na sua própria memória.” Nas paredes surgem imagens de vulcões, de destruição, mas também de um famoso toureiro venezuelano conhecido como Diamente Negro. Várias obras integram séries, como acontece na evocação de Pompeia ou na referência à intrusão dos Estados Unidos na Venezuela e no ataque a navios venezuelanos no ano passado. O traço é magnífico, o detalhe dos pequenos quadros a óleo é o testemunho do triunfo da pintura. Na inauguração algumas das obras já estavam reservadas por colecionadores. (Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33) .





ROTEIRO
-  Na Galeria Lumina a fotógrafa Luísa Ferreira mostra um lado menos conhecido do trabalho documental e de fotojornalismo que tem feito ao longo dos anos. Mas, em paralelo,
durante quase três décadas e meia Luísa Ferreira desenvolveu um trabalho persistente com base em Polaroids em cujo processo de revelação interveio (na imagem). O resultado está agora à vista em “Metamorfoses”, a surpreendente exposição que está patente na Lumina Galeria até 7 de Novembro, mostrando outro lado do trabalho da artista, sem recurso a facilitismos e com o mesmo rigor que caracteriza o seu trabalho documental.  (Rua Actor Vale 53 a - no sábado pelas 18h30 decorre uma conversa sobre o processo criativo do trabalho exposto). Em Lisboa o "Imago Photo Festival" já começou , com exposições em vários locais como a Mitra, o Museu da Água, o Instituto Cervantes, a Sociedade Nacional de Belas Artes , a Galeria Sá da Costa ou a Galeria de Santa Maria Maior. Ao todo são nove locais onde podem ser vistas obras de, Joan Fontcuberta, Viktoria Sorochinski, Marc Schroeder ou José Luis Neto, entre cerca de três dezenas de autores. O  Imago Photo Festival deste ano tem por tema “Repensar a Fotografia” e a programação pode ser vista em imagolisboa.pt .





ESCALDANTE - O tema da IA está ao rubro e este livro vem a propósito. “Se Alguém a Criar, Morremos Todos”, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, é uma obra dedicada aos riscos associados ao desenvolvimento de uma superinteligência artificial. Os autores defendem que uma inteligência artificial  capaz de ultrapassar as capacidades humanas poderá desenvolver objetivos incompatíveis com os interesses da Humanidade. e consideram que o risco de extinção associado à inteligência artificial deve ser tratado como uma questão de escala global, colocando-o ao lado de ameaças como as pandemias e a guerra nuclear. A investigação que desenvolveram  indica que IAs suficientemente avançadas irão desenvolver metas próprias, que as colocarão em conflito connosco. Os autores são fundadores e responsáveis do MIRI - Machine Intelligence Research Institute e têm larga experiência nesta área. Edição Dom Quixote.



SOBRE A CRISE FRANCESA - Numa altura em que a França atravessa de novo uma crise profunda, espartilhada entre uma situação económica difícil e crescentes protestos, vale a pena ler esta biografia de Charles De Gaulle, um retrato do herói da resistência francesa contra os nazis, estadista incontornável do pós guerra europeu, responsável pelo fim da guerra da Argélia, uma figura controversa e conservadora que no final da sua carreira política se defrontou com tudo o que aconteceu em Maio de 1968,  e decidiu dissolver a Assembleia Nacional e convocar eleições gerais, que reforçaram o seu partido gaullista. Esta biografia de De Gaulle foi escrita por Bernard Phan especialista em história contemporânea, e autor de numerosas obras ligadas à educação e divulgação histórica. Edição Guerra & Paz.




COLTRANE REVISITADO - Em 1963, por insistência da sua editora de então, a Impulse, que queria que o músico seguisse um caminho menos experimental,  John Coltrane convidou o cantor Johnny Hartman  a gravar um disco que ficou célebre e se tornou numa lenda das gravações de jazz. Foi a única vez em que o saxofonista gravou com um vocalista e o resultado foi um disco soberbo que tinha por título o nome de ambos. Agora Branford Marsalis, no centenário de Coltrane, revisitou a aventura de 1963 e convidou Dianne Reeves a juntar a voz ao saxofone, no album “Dedicated To You”recriando os seis temas que tinham sido gravados  por Coltrane e Hartman, “They Say It’s Wonderful”, “Dedicated To You”, “My One And Only Love”, “Lush Life”, “You Are Too Beautiful” e “Autumn Serenade”. A estes temas Marsalis juntou peças instrumentais compostas por Coltrane na mesma época, com destaque para “Big Nick”, aqui interpretadas pelo seu quarteto e ainda três faixas extra. Edição Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT - “Na sua mensagem de Natal de 2025, Luís Montenegro exortou-nos a ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo. O Primeiro-Ministro considera que faz falta ao país. Se calhar tem razão e é isso que vai fazer avançar a economia portuguesa. Mas não toda. Apenas a indústria do papel. Sobretudo o sector dos lenços de papel. Dez milhões de Cristianos Ronaldos vão precisar de muitas caixas de kleenex para assoarem todo o ranho produzido nas suas birras.” - José Diogo Quintela, no Observador.


BACK TO BASICS - “Não há nada tão inútil como fazer de forma eficiente aquilo que não precisava de ser feito” - Peter Drucker.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




outubro 10, 2026

ENERGIAS



A 10 de Junho de 1891 nasceu em Lisboa a sociedade Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, conhecida por CRGE, resultante da fusão da Companhia Lisbonense de iluminação e da Companhia de Gás de Lisboa. Passado um século o gás foi para um lado e a electricidade para outro. E assim as duas fontes de energia permaneceram separadas, mas não por muito tempo. Quem tinha ficado a mandar no gás e na electricidade, com empresas diferentes, decidiu voltar a juntar tudo e hoje o fornecimento de gás e de electricidade está de novo, em muitos casos, numa mesma empresa. Mas as memórias não se perdem e ainda é possível encontrar em alguns prédios lisboetas placas como estas, histórico símbolo de uma época em que a iluminação e a força motriz se combinavam sob a égide da palavra “INVIOLÁVEL”. Gosto destas marcas da memória que se encontram, assim por acaso, quando se visita um amigo, num prédio de meados do século passado. Aposto que no futuro não haverá registos destes, com placas tão bonitas com os nomes dos fornecedores - às vezes nem sabemos quem nos fornece o quê. Por falar nisso esta semana percebi que o Governo português anda conduzido por combustível americano. Passo a explicar:  há dias li que a maior parte da frota automóvel do Estado tem motores diesel. Ora a maioria do gasóleo que se vende em Portugal é importado dos Estados Unidos, já que a Europa não tem suficiente capacidade de refinação e por aqui , neste cantinho, muito menos -  que a refinação foi chão que já deu uvas. Se a lógica não é uma batata, é caso para dizer que os movimentos de muitos ministros e organismos do Estado só  acontecem graças aos americanos. Estranho mundo este.