Esta semana dei comigo num autocarro a ir pela auto-estrada fora, rumo ao norte. Sem ter que conduzir, restava-me olhar para o que se passava à volta. Percebi que num autocarro se olha por cima das barreiras laterais da estrada, que temos outras vistas, que há casas que nunca tínhamos sequer imaginado, campos cultivados, animais a pastar. E assim fui vendo o que nunca tinha visto, nesta mesma estrada por onde tantas vezes já passei a guiar. É bem certo que quando não vamos a conduzir a atenção à paisagem é diferente. Em vez de olhar para o carro da frente e para os retrovisores, podia olhar para os lados. É todo um mundo novo que se abre. Quem conduz, não vê; quem é conduzido, espreita - eis a conclusão a que cheguei. A certa altura dei por mim a recordar-me do tempo em que andava no Liceu e ainda havia em Lisboa autocarros de dois andares. Eu gostava de subir a escada e ir lá para cima - havia menos gente, mais espaço, e descobria-se outra cidade. Hoje já não há autocarros desses para os residentes, só há para os turistas, com esplanadas em cima ou vidros panorâmicos. Na altura fazia de turista na minha terra, via a avenida da República e o Saldanha de cima. Depois passei a andar de metro e passei a ver só pessoas sempre apressadas. No andar de cima do autocarro via a cidade a cores; no metropolitano, via as profundezas da cidade a preto e branco. Esta viagem de autocarro pela estrada fora devolveu-me o prazer de ver por onde a estrada passa. (pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt)
A Esquina Do Rio
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
outubro 17, 2026
OUTRAS VISTAS
Esta semana dei comigo num autocarro a ir pela auto-estrada fora, rumo ao norte. Sem ter que conduzir, restava-me olhar para o que se passava à volta. Percebi que num autocarro se olha por cima das barreiras laterais da estrada, que temos outras vistas, que há casas que nunca tínhamos sequer imaginado, campos cultivados, animais a pastar. E assim fui vendo o que nunca tinha visto, nesta mesma estrada por onde tantas vezes já passei a guiar. É bem certo que quando não vamos a conduzir a atenção à paisagem é diferente. Em vez de olhar para o carro da frente e para os retrovisores, podia olhar para os lados. É todo um mundo novo que se abre. Quem conduz, não vê; quem é conduzido, espreita - eis a conclusão a que cheguei. A certa altura dei por mim a recordar-me do tempo em que andava no Liceu e ainda havia em Lisboa autocarros de dois andares. Eu gostava de subir a escada e ir lá para cima - havia menos gente, mais espaço, e descobria-se outra cidade. Hoje já não há autocarros desses para os residentes, só há para os turistas, com esplanadas em cima ou vidros panorâmicos. Na altura fazia de turista na minha terra, via a avenida da República e o Saldanha de cima. Depois passei a andar de metro e passei a ver só pessoas sempre apressadas. No andar de cima do autocarro via a cidade a cores; no metropolitano, via as profundezas da cidade a preto e branco. Esta viagem de autocarro pela estrada fora devolveu-me o prazer de ver por onde a estrada passa. (pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt)
outubro 16, 2026
A MANIA DAS COMPRAS
SEMANADA - As verbas para o ensino desceram de 6,7% do PIB em 2010 para 4,4% em 2022 e esta redução coincidiu com o regredir dos resultados de Portugal no estudo PISA; a falta de vagas para alunos nas escolas gera 46% das reclamações contra o Ministério da Educação e mais de metade dos casos reportados no Portal da Queixa envolve crianças do pré-escolar e do 1º ciclo; desde que o ano letivo se iniciou, em setembro, o número de aposentações disparou e as escolas perderam 1542 professores, que adicionam aos 1721 que tinham saído nos primeiros oito meses de 2026; em 2025, o índice de preços da habitação registou uma subida anual de 17,6%; no segundo trimestre de 2026 foram transaccionadas em Portugal 40.1412 habitações, menos 6,4% do que no mesmo período de 2025; quase um em cada cinco dos portugueses entre 25 e 34 anos teve uma consulta na área da saúde mental no ano passado; a carga fiscal portuguesa, sobre combustíveis, em valor e em paridades de poder de compra, é a quarta mais elevada da UE na gasolina 95 e a sétima no gasóleo; um estudo divulgado na semana passada indica que das 12 campanhas publicitárias analisadas em Portugal em torno do Mundial 2026 a mais eficaz foi a da McDonald’s, seguida pelas do Continente e do BPI; os seguros de saúde já cobrem 4,5 milhões de pessoas em Portugal; o volume de negócio dos hospitais privados subiu 44% em quatro anos; em apenas oito meses, a população prisional aumentou em 652 detidos, enquanto o corpo da guarda prisional perdeu 73 profissionais; a PSP e a GNR registaram 35 assaltos a residências por dia em 2025; a GNR registou, a nível nacional, um total de 964 desaparecimentos; quem ganha o salário médio será menos beneficiado com as alterações ao IRS.
O ARCO DA VELHA - O consumo de combustíveis em Portugal está a crescer acima da média europeia.
O TRIUNFO DA PINTURA - Juan Araujo é um artista venezuelano que tem vivido em Lisboa, com uma extensa carreira internacional e presença em algumas colecções públicas importantes, como a Tate de Londres, o MOMA de Nova Iorque ou o Centro Galego de Arte Contemporânea. “El Pez Que Fuma” é o título da sua exposição patente na galeria Cristina Guerra Contemporary Art até 14 de Novembro. São trabalhos essencialmente de pintura, a óleo, de pequenas dimensões, registos detalhados “imagens de mundos perdidos, cidades mortas, ruínas, pedras que opõem ao tempo a sua própria plasticidade, a sua aptidão para se fragmentarem, sobreviverem e significarem a obsolescência das coisas”, como escreveu Leopoldo Iribarren na folha de sala desta exposição, sublinhando ainda que “quem, como Juan Araujo, aspira a produzir uma poética da ruína não pode senão escavar na sua própria memória.” Nas paredes surgem imagens de vulcões, de destruição, mas também de um famoso toureiro venezuelano conhecido como Diamente Negro. Várias obras integram séries, como acontece na evocação de Pompeia ou na referência à intrusão dos Estados Unidos na Venezuela e no ataque a navios venezuelanos no ano passado. O traço é magnífico, o detalhe dos pequenos quadros a óleo é o testemunho do triunfo da pintura. Na inauguração algumas das obras já estavam reservadas por colecionadores. (Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33) .
ROTEIRO - Na Galeria Lumina a fotógrafa Luísa Ferreira mostra um lado menos conhecido do trabalho documental e de fotojornalismo que tem feito ao longo dos anos. Mas, em paralelo, durante quase três décadas e meia Luísa Ferreira desenvolveu um trabalho persistente com base em Polaroids em cujo processo de revelação interveio (na imagem). O resultado está agora à vista em “Metamorfoses”, a surpreendente exposição que está patente na Lumina Galeria até 7 de Novembro, mostrando outro lado do trabalho da artista, sem recurso a facilitismos e com o mesmo rigor que caracteriza o seu trabalho documental. (Rua Actor Vale 53 a - no sábado pelas 18h30 decorre uma conversa sobre o processo criativo do trabalho exposto). Em Lisboa o "Imago Photo Festival" já começou , com exposições em vários locais como a Mitra, o Museu da Água, o Instituto Cervantes, a Sociedade Nacional de Belas Artes , a Galeria Sá da Costa ou a Galeria de Santa Maria Maior. Ao todo são nove locais onde podem ser vistas obras de, Joan Fontcuberta, Viktoria Sorochinski, Marc Schroeder ou José Luis Neto, entre cerca de três dezenas de autores. O Imago Photo Festival deste ano tem por tema “Repensar a Fotografia” e a programação pode ser vista em imagolisboa.pt .
ESCALDANTE - O tema da IA está ao rubro e este livro vem a propósito. “Se Alguém a Criar, Morremos Todos”, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, é uma obra dedicada aos riscos associados ao desenvolvimento de uma superinteligência artificial. Os autores defendem que uma inteligência artificial capaz de ultrapassar as capacidades humanas poderá desenvolver objetivos incompatíveis com os interesses da Humanidade. e consideram que o risco de extinção associado à inteligência artificial deve ser tratado como uma questão de escala global, colocando-o ao lado de ameaças como as pandemias e a guerra nuclear. A investigação que desenvolveram indica que IAs suficientemente avançadas irão desenvolver metas próprias, que as colocarão em conflito connosco. Os autores são fundadores e responsáveis do MIRI - Machine Intelligence Research Institute e têm larga experiência nesta área. Edição Dom Quixote.
COLTRANE REVISITADO - Em 1963, por insistência da sua editora de então, a Impulse, que queria que o músico seguisse um caminho menos experimental, John Coltrane convidou o cantor Johnny Hartman a gravar um disco que ficou célebre e se tornou numa lenda das gravações de jazz. Foi a única vez em que o saxofonista gravou com um vocalista e o resultado foi um disco soberbo que tinha por título o nome de ambos. Agora Branford Marsalis, no centenário de Coltrane, revisitou a aventura de 1963 e convidou Dianne Reeves a juntar a voz ao saxofone, no album “Dedicated To You”recriando os seis temas que tinham sido gravados por Coltrane e Hartman, “They Say It’s Wonderful”, “Dedicated To You”, “My One And Only Love”, “Lush Life”, “You Are Too Beautiful” e “Autumn Serenade”. A estes temas Marsalis juntou peças instrumentais compostas por Coltrane na mesma época, com destaque para “Big Nick”, aqui interpretadas pelo seu quarteto e ainda três faixas extra. Edição Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “Na sua mensagem de Natal de 2025, Luís Montenegro exortou-nos a ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo. O Primeiro-Ministro considera que faz falta ao país. Se calhar tem razão e é isso que vai fazer avançar a economia portuguesa. Mas não toda. Apenas a indústria do papel. Sobretudo o sector dos lenços de papel. Dez milhões de Cristianos Ronaldos vão precisar de muitas caixas de kleenex para assoarem todo o ranho produzido nas suas birras.” - José Diogo Quintela, no Observador.
BACK TO BASICS - “Não há nada tão inútil como fazer de forma eficiente aquilo que não precisava de ser feito” - Peter Drucker.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
outubro 10, 2026
ENERGIAS
A 10 de Junho de 1891 nasceu em Lisboa a sociedade Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, conhecida por CRGE, resultante da fusão da Companhia Lisbonense de iluminação e da Companhia de Gás de Lisboa. Passado um século o gás foi para um lado e a electricidade para outro. E assim as duas fontes de energia permaneceram separadas, mas não por muito tempo. Quem tinha ficado a mandar no gás e na electricidade, com empresas diferentes, decidiu voltar a juntar tudo e hoje o fornecimento de gás e de electricidade está de novo, em muitos casos, numa mesma empresa. Mas as memórias não se perdem e ainda é possível encontrar em alguns prédios lisboetas placas como estas, histórico símbolo de uma época em que a iluminação e a força motriz se combinavam sob a égide da palavra “INVIOLÁVEL”. Gosto destas marcas da memória que se encontram, assim por acaso, quando se visita um amigo, num prédio de meados do século passado. Aposto que no futuro não haverá registos destes, com placas tão bonitas com os nomes dos fornecedores - às vezes nem sabemos quem nos fornece o quê. Por falar nisso esta semana percebi que o Governo português anda conduzido por combustível americano. Passo a explicar: há dias li que a maior parte da frota automóvel do Estado tem motores diesel. Ora a maioria do gasóleo que se vende em Portugal é importado dos Estados Unidos, já que a Europa não tem suficiente capacidade de refinação e por aqui , neste cantinho, muito menos - que a refinação foi chão que já deu uvas. Se a lógica não é uma batata, é caso para dizer que os movimentos de muitos ministros e organismos do Estado só acontecem graças aos americanos. Estranho mundo este.
outubro 09, 2026
SOBRE A PERNICIOSA INFLUÊNCIA DO CLUBISMO NA POLÍTICA
O BLOCO CENTRAL - O dia da apresentação do Orçamento de Estado coincidiu com o rebentar da guerrilha entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Esse episódio futebolístico arrebatou a maior fatia de tempo das notícias e relegou para segundo plano a convergência encontrada entre PS e PSD para garantir o OE. O futebol, já se sabe, não vive da razão, as disputas são violentas, os fãs excedem-se com frequência. Este clima de rivalidade passa muitas vezes para a política e Portugal tem sido palco constante de uma atitude em que os partidos procuram mais as diferenças e os problemas do que encontrar plataformas comuns e soluções. Conseguir acordos para governar o país, melhorando-o, fazendo reformas e procurando dar melhor vida às pessoas, implica não haver clubismo e colocar o interesse nacional acima das coisas. Obriga a não radicalizar, não privilegiar as diferenças, sobretudo obriga a saber abdicar do acessório para conseguir o essencial. Não é novidade que Portugal precisa de mais entendimentos entre as forças políticas e sociais, como acontece em outros países onde a estabilidade é garantida pelo diálogo e não pela imposição. Um grupo de empresários, economistas e antigos ministros de Cavaco Silva e de António Guterres divulgou na semana passada um manifesto que apela a PS e PSD para se entenderem e reformarem o país, muito para lá de uma só legislatura. Intitulado “Manifesto pelo Bom Entendimento em Democracia”, o texto pede aos dois maiores partidos que iniciem “tão rápida e solidamente quanto possível” negociações para um “acordo de médio e longo prazo” que vá além dos ciclos eleitorais. Poucos dias depois, no seu discurso do 5 de Outubro, o Presidente da República afirmou : “Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal.” E, sublinhou: “Os partidos políticos, os parceiros sociais e outros atores da sociedade têm de entender-se sobre os caminhos fundamentais para o nosso desenvolvimento. (...) Num regime democrático, ninguém abdica das suas diferenças. Mas a democracia também não pode transformar as diferenças em impossibilidade de entendimento, nomeadamente, quando os Governos não dispõem de apoio parlamentar maioritário”. O Parlamento devia ser um lugar onde se procuram consensos e não rupturas, onde as luzes da razão se acendem. Mas muitas vezes, como agora tem acontecido frequentemente, os líderes parlamentares do PS e PSD parecem mais líderes de claques de futebol do que políticos a procurar melhorar o país e dar melhor vida a quem cá vive.
SEMANADA - Até Julho foram entregues mais de 700 pré avisos de greve, um aumento significativo em relação ao ano passado; Portugal é o quarto país da União Europeia no ranking do desperdício alimentar e a maior parte da comida vai para o lixo dentro de casa; Portugal desperdiça 161 kgs de alimentos por habitante anualmente, 24,8% acima dos valores registados na média comunitária; um estudo recente indica que seis em cada dez jovens dizem já não querer saber das notícias e três em cada quatro, entre os 18 e os 24 anos, informam-se mais nas redes sociais do que nos sites dos jornais; mais de metade dos inquiridos diz-se saturada da negatividade e considera que os media dão demasiado destaque aos políticos e pouco às pessoas comuns; quase dois terços das pessoas condenadas em 2025 por crimes de abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes não tiveram de cumprir uma pena de prisão; o número de estrangeiros que vivem em Portugal e que adquiriram a nacionalidade portuguesa caíu 38% no ano passado; Guimarães é o município onde se regista o maior aumento dos valores das rendas de casa, uma subida superior a 20% num ano; duas dezenas de estradas nacionais estão fechadas ao trânsito há oito meses na sequência dos estragos causados pelas tempestades do início do ano; milhões de euros em subsídios de emergência previstos para famílias afectadas pelos fogos e cheias que ocorreram entre 2022 e 2025 nunca chegaram aos beneficiários.
O ARCO DA VELHA - Luís Montenegro foi dar uma aula sobre ética, integridade e prevenção da corrupção a uma escola de Espinho, a cidade onde vive e onde o processo de construção da sua casa é alvo de uma investigação pelo Ministério Público do Porto, para apurar aspetos relacionados com a faturação e os custos reais da obra.
IMAGENS COM MOVIMENTO - O Oriente está cheio de grandes fotógrafos pouco conhecidos entre nós e a Galeria Ochre Space, dirigida por João Miguel Barros, um advogado português há anos estabelecido em Macau, e que dali fez base para explorar o que se passa, fotograficamente falando, na China e Japão, é um dos poucos locais onde podemos descobrir estas formas de ver. Depois de três fotógrafos chineses mostrados nas mais recentes exposições da Ochre, a galeria volta a apresentar o trabalho de Eikoh Hosoe, que se tornou conhecido no Ocidente por ser o autor de alguns dos mais expressivos retratos do escritor Yukio Mishima e pela obra “Barakei”, baseada no escritor. O trabalho agora exposto é baseado no livro “Kamitachi”, publicado em 1969. São 13 imagens que saltaram das páginas do livro para as paredes da galeria, todas sobre o trabalho do bailarino fundador da “dança das trevas”. A exposição fica até 24 de Outubro e a Ochre está aberta de quarta a sábado entre as 15 e as 18h30.
A MENTE HUMANA - O livro já tem uns anos, o original é de 1999, chama-se “Breves Entrevistas a Homens Hediondos”, foi agora editado entre nós pela Quetzal e inclui vinte e três contos onde David Foster Wallace escreve sobre temas que vão da dependência de drogas, à depressão, passando pelo sexo, a misoginia, os relacionamentos amorosos e até os mídia. O estilo é bem-humorado, divertido, sarcástico e experimental. David Foster Wallace, que se suicidou em 2008, aos 46 anos, depois de um longo período de depressão, ganhou notoriedade com o seu livro “A Piada Infinita” , de 1996, considerado pela revista “Time” um dos 100 melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923 e que foi editado em Portugal em 2012, também pela Quetzal. Em “Breves Entrevistas a Homens Hediondos" as histórias de Wallace retratam um mundo onde o bizarro e o banal se entrelaçam e onde homens horrendos aparecem sob as mais diversas formas. O livro, que já teve uma adaptação para cinema, tem sido considerado como uma exploração do comportamento humano e da psicologia moderna, uma meditação sobre a crueldade humana e o narcisismo. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Rebecca Solnit é uma observadora crítica da vida pública e cultural norte-americana e dos modos de vida do mundo ocidental e tem cerca de duas dezenas de livros publicados. Em “Não Há Caminho a Direito que te leve até lá ?”, editado pela Quetzal, Solnit propõe-nos perseverança, coragem e esperança para encontrar percursos para um mundo melhor e mais justo, defendendo que a nossa visão tem de procurar a dimensão do longo prazo, uma interessante recomendação para muitos políticos portugueses. O outro livro da semana é “Curiosidade Mórbida” onde o cientista Coltan Scrivner escreve sobre a psicologia da curiosidade mórbida, revelando as razões por que não conseguimos resistir ao macabro. Por exemplo, o que nos leva a abrandar para ver as consequências de um acidente de viação ou a assistir a maratonas de programas sobre crimes até altas horas da noite? Por que razão alguns de nós se sentem atraídos por filmes de terror, enquanto outros estremecem só de pensar nisso? (Edição Temas & Debates).
MÚSICA SALGADA - O novo disco do saxofonista Andy Sheppard, acompanhado de Rita Marcotulli ao piano e Michel Benita no baixo, “Salt Catchers”, combina melodias com diálogos acústicos entre os três músicos numa série de baladas envolventes. Sheppard tem uma carreira que inclui uma trilogia de álbuns gravados com Carla Bley e Steve Swallow e dois discos com o Trio Libero. Com o seu novo trio apresenta neste disco oito temas originais de Sheppard e um de Carla Bley. O fraseado do saxofone de Sheppard dialoga com o piano e o baixo num trio perfeito e prova a criatividade de Sheppard enquanto compositor. Há uma curiosidade adicional. Sheppard actualmente vive em Lisboa e este disco nasce de um projecto relacionado com a Universidade de Aveiro e vai buscar o título às salinas locais. Algumas faixas têm até títulos portugueses, como o romântico “Encantos” ou “Salgado”, talvez o ponto alto do álbum. Edição ECM, disponível em streaming.
ALMANAQUE - A Casa Roque Gameiro, na Amadora, acolhe a exposição “Eu, Leitão de Barros”, uma figura de proa das artes e mídia que deixou marca no jornalismo e foi o responsável por alguns dos grandes filmes portugueses, sobretudo nos anos 20, 30 e 40 do século passado. A mostra destaca o seu posicionamento ao lado dos modernistas e a sua profunda influência na construção do imaginário português do Estado Novo. A exposição pode ser visitada de terça a domingo, tem entrada gratuita e foi comissariada pela historiadora de arte e investigadora Filomena Serra.
DIXIT - “Se a última moda é marchar com os radicais, seja original, às vezes a moderação é a verdadeira resistência” - João Pereira Coutinho, na Sábado.
BACK TO BASICS - “A política não é a arte do possível. Consiste em escolher entre o desastroso e o desagradável” - John Kenneth Galbraith.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
outubro 03, 2026
OUTRAS PAISAGENS
Tenho a certeza que poucos têm ideia do lixo que produzem. Um estudo recente indica que , cada português gera em média mais de 500 kgs de lixo por ano, desde papel a embalagens de vidro, metal, cartão ou electrodomésticos variados. A isto há que adicionar os resíduos sólidos das indústrias e serviços, que incluem desde material electrónico a caixas multibanco. Os resíduos urbanos, aquilo que produzimos em casa e que não incluem a indústria e serviços, ultrapassam os 5,5 milhões de kgs por ano. E que fazemos a esse lixo? A esmagadora maioria continua a ser depositada em aterros e só pouco mais de um quarto é reciclado, estamos longe das metas europeias. A imagem mostra montanhas de papel que vai ser reciclado e dará origem a caixas para ovos que compramos nos supermercados. Esta montanha de restos de papel de todo género é uma paisagem que não estamos habituados a ver, e que é um retrato, pouco conhecido, deste mundo em que vivemos. Ao longo de uns meses percorri várias instalações de reciclagem do norte ao sul do país, a maioria ligadas à Sociedade Ponto Verde. O resultado desse trabalho constitui uma exposição de fotografia que está até ao fim do ano no Mercado de Campo de Ourique, organizada pelo CC11, um colectivo de fotojornalistas. Estas imagens, estas paisagens que muitos não conhecem, obrigam-nos a olhar para a forma como estamos a cuidar do planeta. Penso que o estamos a deixar em pior estado do que aquele em que o recebemos.
(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)
outubro 02, 2026
O ESTADO DA NAÇÃO EM MATÉRIA DE TELEVISÃO
FAITES VOS JEUX - As palavras do início desta nota reproduzem uma frase habitual nas mesas de roleta dos casinos. Lembrei-me dela a propósito do processo de nomeação de novo Conselho de Administração da RTP. Vale a pena olhar para a realidade televisiva e a paisagem mediática portuguesa. A RTP1 é vista, em média, por cerca de 2,5 milhões de espectadores, a SIC e a TVI por 3,1 milhões e a RTP2 por cerca de 200 mil. Passando para os canais informativos do cabo a CMTV tem uma média de 1,3 milhões, a CNN e a SIC Notícias andam pelos 600 mil, o News Now pelos 400 mil e a RTP Notícias por 300 mil. O canal de cabo na área do entretenimento com maior audiência tem sido o Star Channel, com 400 mil espectadores. Feitas as contas os telespectadores seguem preferencialmente canais de cabo (39,7%) e plataformas de streaming (21,5%), num total de 61,2%, o que deixa 38,8% para os canais de sinal aberto e gratuitos, que podem ser vistos nos operadores de telecomunicações ou, muito residualmente, na TDT. Vamos a mais números: segundo a ANACOM 95% dos alojamentos portugueses estão cablados com fibra óptica e 92% das famílias portuguesas subscrevem serviços de comunicações em pacote, que incluem acesso a canais generalistas e de cabo e ligação à internet. Em termos publicitários isto significa que a televisão, no total, entre canais de cabo e generalistas, capta 45,3% do investimento publicitário em Portugal, sendo seguida pelo digital, com cerca de 32%, a publicidade de rua em outdoors com cerca de 15% e a rádio com 6%. A imprensa, jornais e revistas captam menos de 1,5% do total do volume da publicidade, o que explica a sua crise. Os números mostram que a RTP, apesar das limitações que tem, por lei, quanto ao tempo de publicidade por hora (no máximo seis minutos, metade dos canais privados) pode ser um negócio apetecível se cair nas mãos de quem quer faturar em vez de fazer serviço público. Com um Governo que sobre esta matéria lava as mãos como Pilatos mas continua a poder influenciar a escolha de quem dirigirá a RTP, sem dizer de forma transparente que orientação quer para o serviço público, a situação é preocupante. Com o mercado publicitário a valer no final deste ano, provavelmente, cerca de 670 milhões de euros, isso quer dizer que os operadores de televisão encaixam à volta de 300 milhões. A ver vamos quem arrebata o prémio e em que condições.
SEMANADA - A quantidade média de resíduos urbanos produzidos por cada português em 2024 foi de 517 kgs, acima dos 502 kgs registados no ano anterior; um estudo recente indica os sacos de plástico fino têm um pegada ecológica menor que os de papel;as trotinetas já causaram este ano seis mortes, segundo os dados oficiais da PSP e GNR e o número de acidentes registados com trotinetas até final de Agosto, 1493, é equivalente a todo o ano passado e acima de todos os anos anteriores; as licenças para construção e reabilitação de edifícios habitacionais caíram 6,9% no primeiro semestre; “Santo António, O Casamenteiro de Lisboa”, o novo filme de Ruben Alves foi o filme mais visto nas salas de cinema portuguesas durante duas semanas, à frente de todas as produções internacionais: o aumento de veículos novos 100% eléctricos matriculados em Portugal no primeiro semestre deste ano foi de 45% face ao mesmo período do ano passado; segundo o INE a idade média das mulheres portuguesas ao primeiro filho é de 30 anos, aproximadamente 2,6 anos acima do registado há 20 anos; os 37 centros de dados existentes em Portugal gastam mais do dobro do consumo doméstico de electricidade em Lisboa.
O ARCO DA VELHA - Um idoso de 82 anos, que tinha sofrido uma queda, aguardou 18 horas nas urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, até descobrirem que tinha o fémur fraturado.
ROTEIRO - Esta semana um destaque incontornável é “Arpad”, a primeira grande exposição individual em Portugal dedicada à obra de Arpad Szenes, que em vida se colocou propositadamente na sombra do trabalho da sua mulher, Maria Helena Vieira da Silva. “Arpad” reúne peças de pequena e média escala, entre desenho, gravura e pintura, incluindo numerosas obras raramente apresentadas ao público e várias inéditas. Aquando da criação do museu dedicado a Vieira da Silva, a artista exigiu que o nome do seu marido, já falecido na altura, figurasse primeiro na designação. E assim nasceu o Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, onde agora finalmente é possível conhecer o luminoso trabalho de Arpad. A exposição está patente até 24 de Janeiro, na Praça das Amoreiras 56. Outra exposição importante é a de António Poppe, “Uccelacci e uccellini”, (na imagem), apresentada na Galeria Miguel Nabinho até 31 de Outubro ( Rua Tenente Ferreira Durão 18). Poppe apresenta-se como poeta, artista visual e performer, estudou no Ar.Co em Lisboa, no Royal College of Arts, em Londres e na School of the Art Institute of Chicago. No Porto, na Galeria Fernando Santos (Rua Miguel Bombarda 526) está a exposição “Desenhos de Cinismo e Melancolia”, um conjunto de novas obras de Ana Vidigal. Na fotografia destaque para a exposição retrospectiva do fotojornalista Manuel Moura na Casa da Imprensa.
FAMÍLIAS - Jo Hamya é uma romancista britânica, nascida em 1997, que publicou o seu primeiro livro, "Three Rooms” aos 24 anos. O segundo livro, “Hipócrita”, agora editado em Portugal, ganhou em 2025 o prémio Somerset Maugham. É um romance sobre o acto de escrever, que pode assim ser resumido: no verão de 2010, uma jovem , Sophia, vai para a Sicília com o pai, escritor, recém divorciado da sua mãe. Debatendo-se com um apertado prazo de entrega do novo romance, o escritor pouco acompanhou a filha em passeios ou em idas à praia e em vez disso ocupava-a muitas horas, obrigando-a a digitar o que lhe ditava. O prometido programa de férias a dois resumiu-se à solidão de Sophia que acabava por ouvir ao longo da noite o pai a fazer sexo com mulheres variadas e desconhecidas que ele engatava nos bares noturnos da vila balnear. Dez anos depois, em Londres, Sophia é uma jovem dramaturga com a sua nova peça em cena, recebida com boas críticas . O pai, o autor famoso cujos romances envelheceram mal, tem evitado lê-las mas acaba por ir ver a peça, desconhecendo que esta se centra nas férias que ambos haviam passado juntos na Sicília. É um romance sobre as relações familiares, as heranças difíceis que cada geração tem de gerir e a dificuldade de viver num mundo que muda à velocidade da luz. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Aos 51 anos de idade, Ovídio, poeta de grande fama em Roma, foi condenado ao exílio pelo Imperador para longe, nos confins do império. Dessa radical mudança de vida (da grande cidade, do luxo, da luz, dos festins, do amor, para uma paisagem deserta e inóspita, para o frio e para a aridez) nasceu um novo modelo de poesia que teve por título “Tristia”, e que na edição portuguesa, recebeu o título “Cantos de Tristeza” com tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. São cartas endereçadas aos amigos mais fiéis, à esposa; e até mesmo ao imperador Augusto. Ovídio encara a poesia como modo de libertação, como arma que triunfa sobre a punição de que foi alvo. A outra edição, tem também uma origem poética: “China - Poemas do Erotismo Suave”, uma antologia de poemas organizada e traduzida por António Graça de Abreu e que junta a mais bela poesia erótica chinesa. A obra percorre, entre muitos textos, o “Livro das Odes” de Shi Jing e poemas de Li Qingzhao, a maior poetisa chinesa de sempre. Edição Guerra & Paz.
PETISCO - Esta semana tive uma das melhores refeições dos últimos tempos no restaurante Fismuler, que está integrado no Hotel ME, com entrada pela avenida Fontes Pereira de Melo 7. O Fismuler de Lisboa é a primeira internacionalização dos espanhóis Fismuler de Madrid e de Barcelona. O Guia Repsol, concorrente ibérico do Guia Michelin, descreve a cozinha do Fismuler como “gastronomia espanhola de inspiração nórdica”. Há que dizer que, em Lisboa, há muita inspiração portuguesa. Qualidade dos ingredientes, cuidado na confecção, mistura de sabores surpreendente, serviço descontraído e exemplar. Boa oferta de vinhos espanhóis e portugueses com propostas a copo de produtores, bem escolhidos, como o espumante Berberetta ou o encruzado da Quinta da Alameda. Pela mesa passaram alcachofra grelhada servida em caldo meunière fumado, que serviu de entrada, a que se seguiu bacalhau fresco com den miso e pak choi e um arroz malandro de beterraba com choco finamente cortado e frito a preceito. A terminar veio a sobremesa de espuma de coco, talharim de manga, gelado de lima, aipo, e gengibre. Se lá forem, peçam para ficar nas mesas junto à cozinha, aberta, para poderem assistir ao autêntico bailado do Chef e da sua equipa na confecção dos pratos. Imperdível.
DIXIT - “Lideranças fortes não têm aves de mau agoiro a rondá-las. Montenegro e Carneiro não são líderes fortes – e Passos Coelho e Mário Centeno sabem disso. As intervenções de ambos contra as lideranças das respectivas famílias seriam difíceis de imaginar sob Cavaco ou Soares” - João Pereira Coutinho, no “Correio da Manhã “
BACK TO BASICS - “Não receio os computadores, mas sim a falta que eles fazem” - Isaac Asimov
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
setembro 26, 2026
O OLHAR CURIOSO
(Pensamentos Ociosos, sempre em sapo.pt)





