junho 27, 2026

O QUE NOS DIZEM AS PEDRAS?


Quando  percorro devagar as estradas estreitas do interior gosto de ver a paisagem, a linha do horizonte desenhada pelas árvores, pelos desníveis do terreno, pelos arbustos e folhagens, pelas mil e uma coisas que existem à nossa volta e que muitas vezes não vemos. Aqui e ali saltam pedras que marcam a terra de forma única. Volta e meia páro para as ver mais de perto. Quando se olha com atenção para pedras de grandes dimensões, como esta, tem-se a sensação de que elas têm dentro de si a sabedoria do mundo. São testemunhas do passar do tempo. À sua volta tudo muda, mas elas continuam a marcar o espaço, a sinalizar o território. São como faróis, dão-nos um ponto de referência, obrigam a estrada a contorná-las, ficam ali vigilantes. Sócrates, o filósofo grego e não qualquer outro, dizia que nós, em vez de tropeçarmos nas pedras que aparecem no caminho, as devíamos usar para construir escadas que nos levem onde desejamos. O filósofo está pois sintonizado com aqueles que dizem que as pedras simbolizam resistência e superação dos obstáculos. Existe nas pedras uma beleza selvagem, quer estejam em bruto quer depois, quando são  trabalhadas, e são parte de algo de novo. Há uma frase, frequentemente citada, que resume a situação: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo".


(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)


junho 26, 2026

A REALIDADE E A FICÇÃO MADE IN MONTENEGRO


A PAISAGEM DEVASTADA - O PSD foi a Congresso uns dias depois de Hugo Soares ter anunciado que metera o Chega no bolso e um dia depois de o Chega o ter desmentido. Este é o estado do país que temos, mas, pior um pouco, o retrato do partido que nos governa, dividido entre a participação do estado em empresas privadas e  reformas por fazer em sectores cruciais como justiça, saúde ou educação. Este PSD, tem no comando descendentes e cúmplices de Rui Rio, gente que andou anos a manipular votos partidários e cujo programa é apenas tomar o poder, conservá-lo e distribuir prebendas. As medidas que tomam são pensadas em termos de captação de eleitores, não há uma estratégia para o país. Na semana passada Montenegro anunciou num discurso em Aljustrel que a saúde financeira de Portugal faz com que outros países da União Europeia fiquem verdes de inveja. Não mencionou o facto de o poder de compra das famílias portuguesas ser o 6º mais reduzido da UE ou de o PIB per capita português em 2025 ter sido inferior ao de países como a Eslovénia, Chéquia, Estónia e Lituânia e menos de metade do PIB per capita da Dinamarca e Países Baixos. Também não referiu que a inflação já vai a 3,3% e que os custos de energia e de comida estão respectivamente 13,1% e 36% acima dos valores de 2022. Esqueceu-se de dizer que o custo da habitação mais que duplicou na maior parte das cidades portuguesas desde 2017 e que Lisboa é a capital de um país da União Europeia onde o custo da habitação ocupa a maior fatia do rendimento dos arrendatários com um salário médio. Também não refere que um em cada três portugueses está abaixo do limiar da pobreza quando se consideram os custos de habitação. Não recorda que os excedentes orçamentais se devem à política de cortes nos serviços públicos iniciada por Centeno no Governo do PS e que este PSD tem mantido, até ao ponto de se passar o que conhecemos no funcionamento da administração e serviços públicos. Vista de cima a economia parece uma linda paisagem, mas quando se desce à terra e se tem de viver com salários baixos essa paisagem fica devastada.


SEMANADA - Em 2025, a produtividade por hora foi 66,8% da média europeia, um valor abaixo do obtido em 2024; actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década; 58% das crianças até aos 3 anos estão em creches e amas, muito acima da média europeia, que é de 40,5%, passando muito menos tempo com os pais do que em outros países da UE; famílias sobre endividadas estão a pedir cada vez mais crédito pessoal para fazer face as despesas básicas; este ano já morreram quatro crianças vítimas de violência doméstica; segundo o INE, em final de 2025 havia 11,4 milhões de residentes em Portugal, 14% dos quais estrangeiros e a idade mediana da população aumentou para 45,8 anos; no aeroporto de Lisboa o número de passageiros que entram no país de origens não Schengen é já superior ao total de passageiros de cidadãos que vêem do espaço Schengen;  até ao passado dia 10 de junho o filme português mais visto do ano foi ‘Projecto Global’  de Ivo M. Ferreira, com 9600 espectadores desde a estreia no final de Abril;  os 29 filmes portugueses que já passaram pelas salas em 2026 conseguiram um total de 51 655 espectadores;  as receitas de jogo online cresceram 13,7% no primeiro trimestre para 323,7 milhões de euros; o número de reclamações sobre o funcionamento de TVDE’s e táxis em 2025 aumentou 25% em relação ao ano anterior; no Algarve vão abrir 13 novos hotéis de luxo nos próximos três anos; o valor médio do crédito à habitação duplicou nos últimos dez anos.

 

O ARCO DA VELHA - Os adolescentes portugueses estão entre os que mais tempo gastam na União Europeia à frente de ecrãs durante o fim de semana, acima das seis horas.




A FORÇA DA PALAVRA  - Jenny Holzer é uma artista americana que usa a linguagem - as letras e as palavras - como suporte das suas obras que surgem quase como slogans. O seu percurso artístico data de finais dos anos 70, ganhou notoriedade nos anos 80 e é centrado em encontrar formas de difusão das suas frases em ambiente público que levem quem as vê a pensar no significado que podem ter. Distinguiu-se por usar suportes normalmente associados à publicidade, como cartazes de rua, inscrições electrónicas em ecrãs LED, sites da internet, inscrições em pedra ou bronze e projecções de grande dimensão. Mas também colocou as suas palavras na Internet, em t-shirts do actor Will Smith e até num automóvel de competição da BMW, a pedido da marca. A obra de Jenny Holzer é apresentada pela primeira vez em Serralves com a exposição “Wrong Answers”, que vai estar patente até 1 de Novembro, e que teve curadoria de Philippe Vergne, o Director do Museu de Serralves que está de saída para o Bass Museum of Art em Miami. “Wrong Answers” percorre a trajetória da carreira de Holzer, desde as primeiras séries de textos, como “Inflammatory Essays”, até às explorações mais recentes usando diversos materiais e formas, A exposição inclui duas colaborações com o artista de graffiti portuense Kilos, que trabalhou sobre os cartazes de “Truism,” a obra que marcou o início da carreira artística de Holzer de 1977 a 1979. Utilizando preferencialmente letras maiúsculas e frases curtas, Holzer demonstra como as palavras podem amplificar percepções e atitudes, mas também perder o seu valor e impacto quando se vulgarizam. A exposição apresenta algumas das séries mais famosas de Holzer como as  já citadas “Truisms”, e “Inflammatory Essays” e outras mais recentes como “Living”, “Survival” ou “Laments”.





ROTEIRO - No Palácio Duques de Cadaval, em Évora, está patente a exposição “Índia”, que apresenta 90 obras, de mais de 20 artistas indianos contemporâneos provenientes dos mais diversos contextos culturais e que pode ser vista até 25 de Outubro. Na imagem está uma obra de T. Venkanna, “Fruitless”, de 2019.  Com curadoria de Hervé Perdriolle, a exposição leva até ao Palácio Duques de Cadaval um diálogo entre culturas e teve o apoio, de entre outras entidades, da Kalhath Foundation, da Embaixada da Índia em Portugal e da Embaixada de Portugal na Índia. A exposição pode ser visitada até 25 de Novembro no Palácio Duques de Cadaval, Rua Augusto Filipe Simões, Évora, de terça a domingo entre as 10 e as 18h. Em Lisboa a galeria Narrativa (Rua Doutor Gama Barros 60, junto à Avenida de Roma) apresenta  até 1 de Agosto a exposição de fotografia “Maputo Diary” , um testemunho sobre o dia a dia na capital moçambicana feito ao longo de duas décadas pela pela fotógrafa e cineasta dinamarquesa Ditte Haarløv Johnsen




UM GUIA DO MUNDO -  Este é um dos mais deliciosos livros que li nos últimos tempos e um dos que me mais me ensinou. Chama-se “Atlas de Lugares em Extinção” e leva-nos a conhecer, com textos, mapas e ilustrações, cidades soterradas sob a poeira de terras ou submersas em rios e mares que alteraram a paisagem ao seu redor, por lugares que aparentemente desapareceram, sem deixar vestígios, depois de uma catástrofe natural, de uma guerra ou da erosão natural do tempo e da demografia. O livro está dividido em várias secções: “Cidades Antigas” evoca por exemplo Xanadu, na Mongólia, nas “Terras Esquecidas” está a Cidade dos leões, na China, em “Locais Em Contracção” está o Rio Danúbio, na Europa e em “Mundos Ameaçados” surge Veneza e a Grande Muralha da China. Ao todo são descritos 37 locais que nos apetece conhecer à medida que se lê este livro. “Atlas de Lugares Em Extinção” foi Vencedor do Prémio de Livro Ilustrado do Ano pelo Edward Stanford Travel Writing Awards 2020 e o seu autor, Travis Elborough, um escritor britânico, mostra esses locais como eles eram antigamente e como eles se revelam hoje: um guia fascinante de terras perdidas que nos fala sobre a fragilidade da nossa relação com o mundo e a história. Com o autor visitamos cidades antigas – entre elas Alexandria, um dos berços da humanidade, a cidade maia de Palenque, um centro de civilização e poder, ou Petra, na Jordânia, que John William Burgon descreveu como «uma cidade rosa e vermelha tão velha quanto o tempo» – mergulhamos em mistérios como o de uma ilha japonesa desaparecida e exploramos terras esquecidas como Port Royal, na Jamaica, a «Cidade Mais Perversa do Mundo». Edição Quetzal.


 


MESA DE CABECEIRA -Dois momentos e duas visões bem diversas de europas, elas próprias bem diferentes. Jaime Nogueira Pinto propõe no seu novo livro, “Valores Europeus”, uma revisitação de três milénios de percurso europeu para tentar responder a uma questão que é cada vez mais enigmática: o que são hoje os muito invocados valores europeus? O ensaísta passa pela mitologia, o império Romano, a idade média, o pensamento de nomes como Maquiavel, Shakespeare, Cervantes e Camões, a revolução francesa, o fascismo, o comunismo, as batalhas actuais entre soberanistas e globalistas, populistas e tecnocratas, a tensão entre a fé, pertença e liberdade individual, percorrendo as referências que fizeram da Europa um espaço único. Edição D. Quixote. O outro livro aborda uma época da História da Europa, o conflito entre Cartago e o Império Romano. Eve Mac Donald, Professora de História Antiga em Cardiff  escreveu “Cartago, O Império Que Desafiou Roma”. A autora defende que sem Cartago, reino do Norte de África, Roma não teria existido com o poder que teve. O livro ajuda a perceber como era Cartago, uma civilização injustamente esquecida, e guia-nos com informações sobre  a sua significação política, económica e cultural. A vitória de Roma apagou a história dos cartagineses, essa civilização, defende a autora, injustamente esquecida. Um livro Bertrand editora.



ALMANAQUE - Até 27 de Setembro, se for a Madrid, não deixe de visitar “Prado, Siglo XXI”, a exposição criada para mostrar o que o célebre museu fez nos últimos 25 anos, desde novas obras que adquiriu até à evolução permanente evidenciada através das suas exposições. A mostra está centrada em apresentar o progresso que o Prado fez desde que em 2003 foi aprovada a sua autonomia de funcionamento. Um bom exemplo que há muito se reivindica que seja seguido em Portugal.


DIXIT - “Futebol e língua estão ligados pela combinação de um falso patriotismo que contém apenas a boçalidade do momento, e que se extingue quando se perde um jogo” -  José Pacheco Pereira


BACK TO BASICS - “Se a vida nos dá limões, o melhor é aprendermos a fazer limonada” - provérbio cubano, citado pelo escritor Leonardo Padura no seu livro “Morrer na Praia”.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS












junho 20, 2026

AS CORTINAS E OS SINAIS DOS TEMPOS


Existem várias teorias sobre a utilidade das cortinas. Para algumas pessoas são apenas uma peça decorativa, para outras uma forma de controlar a luz, para outras ainda a melhor forma de evitar olhares indiscretos. Nalguns casos, e dependendo dos materiais, podem ser um isolante acústico ou térmico. Podem ser pesadas e opacas, leves e translúcidas.  O grau de liberdade das cortinas é grande. Tão grande que há outras cortinas, como as que aqui estão, que se usam no exterior e que servem para evitar a entrada num espaço de visitantes indesejados, como moscas ou até pássaros. Há uns anos era frequente vermos essas cortinas, feitas por fiadas de metal ou de fitas plásticas, que se afastavam para o lado com facilidade, para as pessoas passarem e a bicharada não entrar. Com o andar dos tempos foram-se perdendo, agora  quase já não se vêem nas grandes cidades, só se encontram ainda nas vilas e aldeias do interior. E, claro, há montes delas em sites, do Temu à Amazon, em materiais que vão do alumínio ao bambu e em diversas cores. Eu acho graça a estas cortinas verticais, que funcionam graças à gravidade, que as mantém esticadas. Gosto do movimento de as abrir com a mão, de as sentir a enrolarem-se à volta do corpo, fechando-se de novo logo a seguir. São cortinas sábias, impedem os indesejáveis bicharocos de as atravessar, mas permitem que o ar circule.Talvez por isso foram desaparecendo nestes tempos do ar condicionado, quando as portas ficam fechadas para não deixar sair o fresco. Sinais dos tempos…

(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)


junho 19, 2026

AS PORTAS ESCANCARADAS DE MONTENEGRO


DALTONISMO GALOPANTE - Tenho constatado que o Primeiro-Ministro e o seu círculo mais próximo foram acometidos de um surto galopante de daltonismo. Trocam as cores todas, e das ideias já nem falo. As linhas vermelhas esbateram-se tanto que agora, são meras recordações no horizonte. O Chega tomou conta do asilo com rapidez, aproveitando as portas escancaradas que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro lhes abrem. Estes três nomes são os porteiros de serviço, às ordens de Ventura. Montenegro fala, Soares manda e Amaro incentiva. Este trio criou pacientemente uma nova geringonça. Mas há uma diferença fundamental: enquanto Costa criou a geringonça para, pelo caminho, esvaziar os partidos à sua esquerda, Montenegro está a encher quem está à sua direita. É certo que o PS fez tudo para alimentar o Chega, na esperança de apoucar o PSD e Montenegro está a engordar Ventura ainda mais. O fim desta dieta adivinha-se: o Chega continuará a engordar e o PSD a emagrecer. Se repararmos bem o impulso definitivo para o PSD aprovar as medidas mais radicais que preconiza, na RSU ou nas leis da imigração, vem sempre do Chega, que consegue sempre um  ir além do que o Governo anunciava que iria dar. Montenegro, que fala, fala e diz pouco, afirma que este Governo é o mais reformista quando na realidade, é cheguista.  O que o seu Governo consegue concretizar precisa da benção de Ventura. Basta ver o que se passa com a legislação laboral e a forma como o líder do Chega aproveita para fazer campanha sobre a descida da idade da reforma e o aumento do número de dias de férias anuais. Ou seja: já está em campanha para nas próximas legislativas ser ele a substituir Montenegro. Em vésperas do congresso o PSD alinhou na geringonça do Chega.


SEMANADA - Partidos e movimentos políticos representados na Assembleia da República devem 1,4 milhões em coimas, mas as autoridades não revelam quem foi multado nem o valor de cada um em dívida; nos últimos dez anos disparou a presença de alunos estrangeiros nas escolas públicas, que agora são 15% do total de matriculados, com o Brasil em primeiro lugar com 47% do total; um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa indica que dois terços dos portugueses consideram que a imigração tem efeitos positivos na economia; 4300 condutores portugueses ficaram sem carta de condução nos últimos dez anos devido ao sistema da carta por pontos; na noite de Santo António, a  GNR deteve nas vias rápidas de acesso a Lisboa, em 4 horas, 66 condutores embriagados; 91 em cada 100 famílias residentes em Portugal tem TV cabo e o número total de assinantes residenciais é de 4,1 milhões; na Damaia foram detidos dois homens que estavam a desmontar e roubar portas de prédios; 16.6% é a taxa de risco de pobreza em Portugal após transferências de apoios sociais; em 2024 dois milhões de pessoas estavam em risco de pobreza ou exclusão social; o preço da sardinha na lota é o dobro do verificado em 2025; o sistema de videovigilância e de deteção automática de incêndios rurais só cobre metade do território continental.



ARCO DA VELHA - Um agente da PSP de Angra do Heroísmo foi filmado por um traficante que era o seu fornecedor a inalar cocaína.



RELAÇÕES VIOLENTAS - “The Comfort of Strangers” é a segunda novela de Ian McEwan, editada em 1981. Em português recebeu o título “Estranha Sedução” e teve a sua primeira edição em 1991. A Gradiva lançou agora a quinta edição desta obra, que já deu um filme. O livro passa-se numa cidade que nunca é nomeada, mas sugerida, e tudo indica que seja Veneza, que foi aliás o cenário do filme. Tudo gira em torno de dois casais, Mary e Colin, que estão de visita à cidade e Robert e Caroline, que ali vivem numa relação complexa, violenta e cheia de obsessões. A escrita de Ian McEwan é fascinante, explora as relações humanas através da intimidade de um casal que expõe fragilidades, num ambiente de crescente erotismo, um romance intenso, cheio de suspense  e violência psicológica numa sucessão de jogos de poder, por vezes cruéis,  que criam dependências. Ian McEwan escreveu dois livros de contos e 17 romances, escreveu também o libreto de uma ópera e diversos argumentos originais para cinema. Edição Gradiva.





MESA DE CABECEIRA - Jorge Luis Borges morreu há 40 anos e este “O Livro dos Prólogos” é um legado que  nos deixou sobre livros e autores que amava.  Ao longo da sua vida, Borges foi um apaixonado promotor dos escritores de que gostava, muitas vezes desconhecidos dos seus compatriotas, e usou os seus prólogos não só como um texto de introdução a um livro, mas também como uma forma brilhante de crítica, contextualizando o autor e a sua obra. Nas 300 páginas desta selecção do que é a literatura segundo Borges, estão autores como William Shakespeare, Cervantes, Kafka, Herman Melville, Francisco de Quevedo, Lewis Carroll, Emerson, Ray Bradbury, Adolfo Bioy Casares, Paul Valéry, Walt Whitman, Henry James, Edward Gibbon, Thomas Carlyle ou Marcel Schwob.   Nalguns casos estes prólogos assumiram a forma mais adequada ao tema: a biografia sintética, por exemplo, onde se concentra uma obra inteira e paira uma deliciosa ironia. Edição Quetzal. “Reflexões sobre a Dor”, de Umberto Eco, tem por base um texto da lição que Eco proferiu em 2014 na cerimónia de  entrega dos diplomas da Academia das Ciências de Medicina Paliativa da Universidade de Bolonha. A dor é um termo que, no campo da medicina, é geralmente identificado como sofrimento físico, mas o seu verdadeiro significado deve ser alargado ao sofrimento emocional, espiritual, social, afectivo - esta é a base deste texto de Umberto Eco, que analisou a dor num contexto semiológico, histórico e filosófico, contextualizando a discussão em diversas situações, nas quais a palavra dor se pode libertar dos vínculos estereotipados de derivação clínica. Edição Gradiva.




O PODER DA ARQUITECTURA  - Frank Gehry, que morreu no ano passado, foi um dos mais importantes arquitectos das últimas décadas, responsável por numerosos projectos que deixaram marca nas cidades onde foram construídos, como foi o caso de Bilbao onde projetou a extensão na cidade espanhola do Museu Guggenheim. Agora podem ser vistos na Ala Siza da Fundação de Serralves 19 dos seus projectos, entre os quais, e que me lembre pela primeira vez desde há duas décadas, a sua proposta para o Parque Mayer em Lisboa, um projecto encomendado por Pedro Santana Lopes quando foi Presidente da Câmara e descontinuado por António Costa logo que chegou à autarquia. Esse projecto em exposição em Serralves (a imagem aqui mostrada é dos arquivos
Frank O. Gehry & Gehry Partners) foi desenvolvido em 2003 e 2004 e a sua construção seria financiada pelas contrapartidas do Casino de Lisboa que, depois do abandono do projecto de Gehry, foi para a Expo. Lisboa ficou sem uma obra de arquitectura de referência que poderia ter transformado aquela zona da cidade, então praticamente em ruínas. Quem visitar Serralves poderá imaginar o efeito que a proposta de Gehry teria e compará-la com aquilo que agora é. Mas adiante, o que interessa é visitar esta exposição e compreender como a arquitectura pode deixar uma marca. Entre os projetos de Gehry apresentados na exposição estão a Gehry Residence em Santa Monica;  a Loyola Law School de  Los Angeles; o Vitra Design Museum na Alemanha a Lewis Residence no Ohio o Guggenheim Museum de Bilbao, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles o ArtCenter College of Design em  Pasadena, o Parque Mayer em Lisboa, o DZ Bank em Berlim, as adegas Marqués de Riscal em Espanha, a Fondation Louis Vuitton em Paris; e a Beekman Tower / 8 Spruce, em Nova Iorque. Esta exposição “O Século de Gehry” é organizada pela Fundação de Serralves e comissariada pelo seu Diretor de Arquitetura, António Choupina, em conjunto com a Gehry Partners e  pode ser vista até 26 de dezembro deste ano. Uma nota final para destacar a inclusão na exposição da colaboração entre o arquiteto Frank Gehry e a marca portuguesa de tapeçarias Ferreira de Sá, que traduziu os traços do arquiteto em tapeçarias feitas à mão, uma colaboração que se iniciou em 2012, quando o arquiteto português Álvaro Siza apresentou a marca portuguesa  de Espinho a Frank Gehry.




ROTEIRO - “Mongolian Horse in North Wind” é o título da exposição de  Wang Zhengping, um dos mais importantes fotógrafos chineses contemporâneos, que inaugura dia 16 na Galeria Ochre Space, em Lisboa, com a presença do artista.

Nascido e criado na Mongólia Interior, Wang Zhengping dedica-se há mais de quinze anos a fotografar o cavalo mongol e as vastas paisagens da estepe que moldaram a sua vida (na imagem). Esta é a primeira vez que o trabalho deste fotógrafo é apresentado em Portugal e a Ochre Space tem programas mais três exposições que a galeria apresentará ao longo do Ano Chinês do Cavalo, celebrando a riqueza e diversidade da fotografia contemporânea chinesa e japonesa, de nomes como A.Hin, Hosoe Eikoh e Li Gang. A exposição decorre até  4 de Julho, na Ochre Space,de quarta a sábado, entre as 15H e as 18H30, na Rua Bica do Marquês, 31-A, à Ajuda.




UM QUARTETO - O saxofonista Joe Lovano  juntou-se a Julian Lage na guitarra, Asante Santi Debriano no baixo e Will Calhoun na bateria. O nome do disco é “Paramount Quartet” e além de cinco temas de Joe Lovano, inclui versões de originais de Charlie Haden (“First Song”, que abre o álbum), e de Wayne Shorter ( “Lady Day”, uma homenagem a Billie Holiday). Deve realçar-se o diálogo entre o saxofone e a guitarra que desempenham o papel principal em várias faixas, bem apoiados no excelente trabalho da secção rítmica. O disco foi gravado em estúdio a cerca de um ano e editado agora pela ECM, com produção de Manfred Eicher. Disponível em streaming.

ALMANAQUE - No Museu Bordalo (Campo Grande 382) decorre neste fim de semana de 20 e 21 mais uma edição da “Paródia no Bordalo”, que apresenta uma série de actividades, desde uma feira do livro, a oficinas artísticas, visitas guiadas à óptima exposição permanente, filmes e conversas a propósito. Entrada livre.


DIXIT - “Como está, este Estado pode ser retocado, mas não reformado. A fragmentação política reforçou o imobilismo, não o contrário. Há muitos Estados dentro deste Estado.” - Luís Marques, no Expresso.


BACK TO BASICS - “A Arte não é apenas beleza. A Arte é uma pergunta. É reflexão. É o contraste. É uma revolução. É uma tensão entre o que sabemos e o que intuímos.(…) Precisamos de continuar a procurar a beleza. Mas também a verdade.”- António Banderas , para o Papa Leão XIV.



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS






junho 13, 2026

QUAL FUTURO?

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Este país não é para novos, no interior ainda menos. Estou a escrever de numa aldeia bonita, com História. A paisagem, a descer para o Tejo, é soberba, o último pedaço de Alentejo, antes da Beira Baixa. A aldeia chama-se Amieira do Tejo. Como muitas outras aldeias do interior esta existe há centenas de anos, desde o século XII para ser mais exacto . Hoje, esta e outras aldeias estão quase desertas, um contraste com o que se passava há pouco mais de meio século. Amieira do Tejo, concelho de Nisa, de onde é a minha família, tem um castelo construído no século XIV pelo pai de D.Nuno Álvares Pereira, uma fortificação  de defesa que servia para proteger a linha do Tejo. Mais tarde, no início do século XVIII, Amieira era uma vila próspera e desenvolvida, onde viviam cerca de setecentas pessoas. Em meados do século XX mantinha quase 800 habitantes, tinha uma actividade agrícola intensa, dois lagares de azeite, muita cortiça, meia dúzia de estabelecimentos comerciais,  escola primária, hospital, médico  e padre residentes. Nas décadas de 60 e 70 do século passado chegaram os eucaliptos e foram-se as oliveiras e os sobreiros, a aldeia esvaziou-se, gente a ir trabalhar para Lisboa, outros partiram para França ou  Alemanha.  No final dos anos 70 a aldeia já só tinha cerca de 500 habitantes e hoje em dia tem pouco mais de 200. Nos últimos anos acentuou-se o declínio demográfico, muitas das casas estão degradadas, muitas à venda, mas poucas são recuperadas - encontrar quem faça obras não é fácil.  Passeio pelas ruas e vejo várias casas com correntes fechadas a cadeado, janelas partidas, algumas com os telhados caídos. Quase desapareceram crianças, a média de idades dos que cá vivem é alta, mas recentemente chegou gente de fora com filhos pequenos, a tentar fazer aqui vida. As crianças têm de fazer quase vinte quilómetros para irem à escola. Os mais velhos têm mais sorte: na aldeia há um centro de dia e um lar de idosos. Este país não é para novos, e é uma pena. Mudar isto era a mais necessária das muitas reformas de que Portugal prercisa.



junho 12, 2026

OUTROS OLHARES

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VISTOS COM OLHOS DE FORA - É muito curioso ver como os estrangeiros que vivem em Portugal olham para nós e para o que se passa no país. Duas publicações feitas por estrangeiros que nos permiotem ver isto são “Lisboète Magazine”, que se apresenta como a revista dos francófonos em Portugal,  e  “The Portugal News”, sucessor do histórico “Anglo Portuguese News” que se publicou entre 1937 e 2004, dedicado à comunidade inglesa. Hoje em dia o Portugal News é mais abrangente no público alvo e distribui diariamente uma newsletter. Outra newsletter diária, e na minha opinião a que é maios informativa, é  “The Lisbon Letter”, um exemplo de bom jornalismo. Os temas de edições recentes desta newsletter vão da greve geral, às dificuldades no aeroporto de Lisboa, passando pelas dificuldades de funcionamento da AIMA, o risco dos incêndios florestais ou o elevado número de mortes nas estradas portuguesas. Cada edição da newsletter tem sugestões de locais a visitar, de livrarias a restaurantes e ainda um mini guia de coisas a fazer, do desporto à caltura, passando por sugestões de passeios. A “Lisboète Magazine” tem também informações genéricas, mas apresenta recomendações sobre cuidados a ter em matéria fiscal em Portugal e conselhos úteis para lidar com a burocracia portuguesa. Estas três publicações estão disponíveis on line (basta googlar os respectivos títulos). Não dispenso esta Lisbon letter todas as amnhãs, ajuda-me a ver  o que às vezes me escapa nos jornais portugueses. E é muito bem feita tecnicamente.

 

SEMANADA - Entre 2021 e 2024 foram sinalizadas 690 vítimas de tráfico humano em Portugal, entre elas 39 crianças; desde o início do ano já morreram 210 pessoas nas estradas portuguesas, mais 54 que em igual período de 2025; uma sondagem publicada pelo Expresso indica que 16% dos portugueses preferem não falar de política para evitar conflitos e um em cada quatro portugueses detesta pessoas com ideias políticas opostas às suas; o Porto é a cidade com oferta mais densa de alojamento local; Lisboa ocupa a pior posição entre 37 capitais europeias em termos de custo de vida para uma pessoa que vive sózinha; a GNR registou, até 30 de maio, 2921 incêndios florestais, enquanto no mesmo período de 2025 foram registados 795 e fez 109 detenções; este ano já arderam 10 501 hectares, comparativamente com 3673 no período homólogo do ano passado; segundo a Inspecção-Geral de Finanças, mais   de metade das 42 empresas que integram o SNS têm falhas no plano de prevenção de riscos contra a corrupção; nunca houve tantos reclusos nas cadeias nacionais com curso superior como atualmente - no final de 2025, dos 13 136 reclusos no sistema prisional português, 470 tinham formação superior, quatro vezes mais do que no início do século (eram 104 em 2000). 

 

ARCO DA VELHA - Um passageiro, que estaria atrasado para um voo, entrou a correr na pista do Aeroporto da Madeira numa derradeira tentativa de apanhar o avião antes de ele levantar.

 

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FOTOGRAFIA - Américo Marques é um arquitecto português que nas últimas décadas reuniu uma colecção de obras de arte com cerca de mil peças, das quais um terço são fotografias. Trata-se de uma das mais importantes colecções de fotografia existentes em Portugal e o MACAM (Museu de Arte Contemporeânea Armando Martins, na Junqueira) apresenta até 26 de Outubro a primeira parte da exposição “Espaços Outros” com obras dessa colecção. As obras expostas permitem traçar um percurso pela fotografia contemporânea desde finais dos anos 1950 até à atualidade. A segunda parte desta exposição será apresentada depois, em Novembro deste ano. A curadoria é da directora do MACAM, Adelaide Ginga, que sublinha que a colecção “articula paisagem, figura humana e arquitetura, revelando a fotografia como um lugar privilegiado de observação, construção crítica e elaboração conceptual do visível. “ Entre os artistas representados encontram-se Andreas Gursky, Andres Serrano, Bernd Becher & Hilla Becher, Candida Höfer, Cindy Sherman, Edgar Martins, Eija-Liisa Ahtila, Helena Almeida, Helmut Newton, João Penalva, Jorge Molder, Martin Parr, Nan Goldin, Richard Prince, Thomas Ruff e Wolfgang Tillmans, entre muitos outros. E, também, João Tabarra, autor de “A Viagem”, uma fotografia de 2001, aqui reproduzida.

 

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ROTEIRO - Esta semana o destaque vai para a exposição  “Retirar A Gravidade à Queda”, de Carolina Serrano na Galeria Balcony  até 4 de Julho (Rua Coronel Bento Roma 12A). São onze obras, construídas a partir de jogos de espelhos que mostram e sugerem outras imagens, levando o espectador a procurar resolver o mistério que se desenrola ao longo do percurso (pormenor de um a peça na imagem). É uma das mais interessantes exposições apresentadas pela Balcony nos últimos meses. A artista escreve na folha de sala que esta exposição é “um convite para tornarmo-nos nós próprios a interrogação, um convite para duvidar”. Outra exposição que merece atenção é “O Esquena Narrativo”, de Ana Vieira, uma importante artidsta plástica portuguesa que morreu em 2016, e que está patente na Galeria Vera Cortês, até 5 de Setembro. A galeria assinala assim ter passado a gerir o espólio de Ana Vieira e esta exposição, com curadoria de Antónia Gaeta, mostra uma selecção de trabalhos da artista que permite ver como encarou a tensão entre evocações do interior e do exterior e tensões entre a representação e a realidade. No torreão nascente da Cordoaria Nacional as Galerias Municipais de Lisboa apresentam até 30 de Agosto a exposição “Timescape” que reúne meia centena de obras recentes de pintura e desenho, de Jorge Martins, com curadoria de Óscar Faria. 

 

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CRÓNICA DA DESILUSÃO - As notícias que leio sobre Cuba mostram um país a desfazer-se. Os hotéis, outrora cheios de turistas, fecham uns atrás dos outros. A vida quotidiana é uma aventura cada vez maior, produtos básicos tornam-se uma raridade.  Nessa ilha, em colapso crescente, há ainda quem consiga erscrever livros fantásticos no meio de todo o caos. Leonardo Padura, escritor e jornalista, é uma das maiores figuras da literatura cubana. As suas obras mostram uma sociedade onde todas as tensões se agudizam, a corrupção alastra e a sobrevivência depende das remessas de algum familiar no estrangeiro. “Morrer na Praia”, o seu mais recente livro, de 2025, passa-se já depois da pandemia, começou a ser escrito em 2023, e foi agora editado em Portugal. É mais uma história com fundo familiar e enredo policial. O título evoca o desespero de uma geração que deu tudo pela revolução e que agora se defronta com a sensação de que afinal o esforço de pouco valeu e que os sonhos acabam por morrer na praia, nas praias que tornaram Cuba um destino turístico desejado e que agora de pouco valem, num cenário em que a escassez de quase tudo é a constante e a emigração o destino que resta. A história é simples: Rodolfo, funcionário público, reforma-se, debate-se com a incerteza de como irá viver, com menos dinheiro e sem acesso ao que, mesmo assim, conseguia arranjar no seu emprego. Foi soldado em Angola, funcionário na contabilidade de um município, onde assistiu às corruptelas quotidianas. Ao fim de uma vida de trabalho não tem nada, a não ser a amizade de uma vizinha com quem teve um quase caso ainda no liceu e que depois se casou com o seu irmão, que está preso. Na sua vida paira a sombra da morte do pai, assassinado pelo irmão, de seu nome Geni, detido por esse crime há muitos anos. E é nesse dia, em que a reforma se torna realidade, que sabe que Geni vai ser solto por estar gravemente doente, e irá viver com ele. Mais não conto, mas o livro é apaixonante, um relato cru das relações humanas. Porto Editora, tradução de Helena Pitta.

 

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MESA DE CABECEIRA - Este livro é um risco, porque partilha emoções e quotidianos de um casal: Inês Meneses, jornalista, radialista, tornou-se conhecida sobretudo pelas suas entrevistas e Tozé Brito, músico, compositor, produtor, é dos nomes maiores da música portuguesa, dezenas de grandes canções saíram das suas mãos. A ideia é atrevida: ao longo de vários meses, ao final de cada dia, o casal partilhou reflexões e confidências através da escrita. Não estabeleceram limites e trocaram ideias sobre o que faziam, da rádio, da música, claro, mas também do que vão descobrindo um dos outro do que pensam do que se passa à sua volta. Para pôr as coisas simples: escrevem-se, como antigamente, partilhando o que fazem. O resultado é “Ao Fim dos Dia, Memórias e confissões de um casal”, assinado a quatro mãos, e editado pela Quetzal. O outro livro é de Filipa Martins, “No Meu Fim Está o Começo”. Esta é uma viagem dura pela vida de uma enfermeira, Isabel, que acompanha o declínio mental da mãe e percorre em simultâneo a sua própria vida, a infância num bairro periférico, um pai ausente, a necessidade que a leva a ccomeçar a trabalhar bem cedo,  a formação no hospital , um casamento falhado. A vida de Isabel é cuidar: os doentes no hospital e a mãe em casa, entre a profissão e os seus afectos, com as memórias cruzadas do país, o que foi da mãe e o que é o da sua geração.É talvez o melhor livro de Filipa Martins. Edição Quetzal.

 

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JAZZ CLÁSSICO  - O disco desta semana é o resultado de uma incursão de músicos de jazz portugueses por algumas obras de Mozart. Mário Laginha e Daniel Bernardes no piano chamaram para perto de si Bernardo Moreira no contrabaixo e Joel Silva na bateria, recriaram dez peças do compositor. O resultado é Mozart Transfigurado e nasceu de uma encomenda do Festival Around Classic para a criação de um concerto de jazz a partir da música do compositor vienense. O resultado é um belo disco que retoma da melhor foma  a tradição do encontro do jazz com a música cássica. O disco “Mozart Transfigurado” foi editado pela  Artway Next e está disponível em streaming.

 

ALMANAQUE - A  encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, foca-se na salvaguarda da dignidade e dos direitos da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. Não rejeita a tecnologia, mas defende que o ser humano deve ser sempre o centro do progresso. Ao mesmo tempo faz um forte apelo à Paz, manifestando-se contra a normalização da guerra a que assistimos presentemente. O texto integral está disponível on line no site da Santa Sé.

 

DIXIT - “Em Portugal não se consegue ter uma verdadeira conversa nacional sobre tema nenhum” - Sérgio Sousa Pinto.

 

BACK TO BASICS - “O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram”  - Tucídedes

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








junho 06, 2026

A FILOSOFIA INESPERADA

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Quase todos os fins de semana faço compras no mesmo supermercado e é lá que compro também o jornal diário. Tenho ainda essa mania de gostar de ver as coisas em papel mesmo quando já vi quase tudo nas edições online. Regressemos ao supermercado. Muitas vezes quem está na caixa é um rapaz com quem, ao longo dos anos, fui metendo conversa - a culpa é dele aliás porque, sempre bem disposto e simpático, reparou que eu, além dos frescos e mercearias, levava sempre o jornal - e me elogiou por isso. A partir daí, já lá vão uns anos, trocamos dois dedos de conversa sobre a actualidade. Ele muitas vezes já espreitou a capa na banca onde estão os jornais e faz um comentário interessado, ou, por vezes, pergunta a minha opinião sobre um qualquer assunto que está nas notícias. Aos poucos, conversa traz conversa, soube que ele estudava na área do design. Trabalha uns tantos dias no supermercado e, em simultâneo,  frequenta as aulas, por sinal ainda um bocado longe de casa. É um rapaz interessado pelas coisas, o país e o mundo,  como não se encontra com facilidade hoje em dia. Gosta de ler, gosta de estar a par das notícias. No domingo passado lá ia eu para pagar, com o jornal no meio do resto das compras. Foi o dia em que Edgar Morin estava na capa, a notícia da sua morte a ocupar quase toda a página. E vai daí, diz ele: “gostei muito de estudar Morin, em filosofia”. E antes que eu dissesse alguma coisa, continuou:”viveu felizmente muitos anos, sempre a pensar bem, deixou-nos muitas lições”. Concordei com ele, claro, e fiquei a apreciar o momento, esta súbita troca de palavras no sítio mais inesperado. Como estava escrito na capa do jornal, Morin foi “o filósofo que nos ensinou a viver na incerteza” e teria ficado bem contente por saber que foi o tópico de uma conversa na fila de pagamento de um supermercado da periferia de Lisboa. Ainda fiquei a apreciar mais o meu habitual interlocutor das compras de fim de semana.