RTP, A DESEJADA - Está aberto o processo de escolha de um novo Conselho de Administração para a RTP e há quatro candidaturas, um recorde. Uma delas é apresentada pelo actual CA, presidido por Nicolau Santos, em funções desde Junho de 2021 e que já foi reconduzido uma vez. As candidaturas serão apreciadas pelo Conselho Geral Independente, a quem cabe supervisionar a actuação da RTP e designar o Conselho de Administração. Este órgão, que por vezes recebe o nome de Conselho Geral Inútil, foi uma invenção do então ministro Poiares Maduro que se inspirou num modelo da BBC que a própria estação britânica já estava a abandonar. Integra seis pessoas, das quais três têm competências e experiência na área da comunicação e, destas, apenas duas têm experiência de audiovisual. É o CGI que deve avaliar, no âmbito da sua supervisão, o cumprimento das obrigações de serviço público audiovisual, o que na realidade tem ocorrido de forma muito limitada - verdade seja dita que em parte isto se deve à ausência de uma clara definição, por parte do accionista Estado, do que deseja do serviço público. Teoricamente a RTP devia caracterizar-se por ter uma programação, nas suas diversas plataformas, alternativa e complementar à dos operadores privados. Mas não é isso que acontece, com a RTP a assumir-se frequentemente como concorrente dos privados numa série de tipologias de programas, do desporto aos concursos. Ora nunca se ouviu o CGI a interpelar este estado de coisas e, no caso do incumbente, que se apresenta de novo a concurso, não há um balanço crítico da sua actividade. Aquilo que o Conselho de Administração da RTP é suposto fazer ultrapassa a boa gestão da empresa, porque a sua missão prioritária deve ser garantir a prestação do serviço público, dando condições para que ele se concretize da melhor forma, dentro de critérios de gestão transparentes e que garantam o equilíbrio da empresa. Creio ser fundamental ter um serviço público audiovisual que contribua para a presença da língua e cultura portuguesa no mundo, que assegure uma programação diversificada, nomeadamente em áreas onde os privados geralmente não estão, como os documentários, a ficção, o apoio à produção independente e a programação infantil. O CGI, nas suas várias composições ao longo dos anos, desde que foi criado em 2014, nunca mostrou o seu empenho na defesa e implementação destes temas. Seria desejável que o accionista Estado dissesse, de forma clara, o que pretende do serviço público e não fugisse à questão, deixando o vazio que agora existe. É grande o risco que deste concurso não saia nada de bom. (a imagem desta nota foi produzida por IA)
SEMANADA- Mais de 4,7 milhões de pessoas subscrevem em Portugal serviços de televisão pagos e dois terços deles utilizam a fibra óptica; cerca de 60% dos espectadores prefere pagar para ter acesso a canais de cabo e plataformas de streaming à programação dos canais de livre acesso gratuitos; um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos faz um levantamento dos 507 ministros da democracia portuguesa, concluindo que quem tem governado Portugal em democracia são sobretudo homens, com mais de 50 anos, que pertencem a “elites políticas altamente profissionalizadas, nas quais a experiência partidária e a competência técnica se entrelaçam de forma estrutural”; de acordo com o estudo, os governos portugueses estão a ficar mais velhos, mais qualificados e mais partidários e para entrarem no círculo do poder as mulheres precisam de mais estudos; outro dado: ser ministro em Portugal não é um emprego estável já que a duração média no cargo é de um ano e meio, 19% dos membros do governo não completam o mandato e quatro em cada dez saem devido a escândalos, pressões dos jornais ou contestação social; a colecta de IVA entre Março e Julho esteve 925,8 milhões de euros acima do obtido no mesmo período do ano passado, em boa parte devido às receitas provenientes do IVA sobre combustíveis; segundo a SIBS, o valor dos levantamentos nos caixas automáticos do Multibanco ultrapassa anualmente os 30 mil milhões de euros, cinco vezes mais que o valor registado há 30 anos; segundo a Marktest nos últimos 30 anos o consumo doméstico de energia mais que duplicou nas últimas três décadas.
O ARCO DA VELHA - A formação de tripulantes de ambulâncias dos bombeiros, que asseguram a maior parte do socorro, tem um terço das horas dos socorristas do INEM, deixou de ser auditada por este instituto e está sem controlo.
A TENTAÇÃO DO FUTURO - “com o coração livre de cuidados” é o título da primeira grande exposição de Pedro Cabrita Reis no MAAT, que está a celebrar os seus 10 anos de existência. O artista ocupa todo o espaço do grande hall do edifício do MAAT, utilizando as paredes para mostrar desenhos e pinturas e a área oval central para a colocação de esculturas, mesas com estudos e esboços preparatórios de diversas obras. Quase todos os trabalhos foram feitos propositadamente para esta exposição, nomeadamente grandes pinturas, em séries que evocam Monet ou El Greco e desenhos que surgem numa homenagem a Rodin. Num dos topos da oval está um trabalho misto de escultura e pintura de grandes dimensões, num jogo de cores e formas que condiciona todo o espaço, com grandes peças metálicas com várias camadas e leituras que delimitam o outro topo. À excepção das obras colocadas na rampa de acesso ao piso térreo, um conjunto de trabalhos de técnica mista onde Pedro Cabrita Reis utilizou fotografias suas em diversos contextos, que depois transformou num jogo entre o humor e o exibicionismo, o resto das paredes está ocupado por telas de grandes dimensões, algumas delas transformando imagens do imaginário religioso clássico, e uma série de pequenas pinturas que evocam paisagens. É o primeiro artista português a apostar neste tipo de ocupação do espaço, com quase duas centenas de obras. Nesta exposição torna-se evidente como Cabrita Reis parte de referências e estudo do passado e dos grandes clássicos para desafiar o futuro. É esse aliás o sentido do título da exposição, “com o coração livre de cuidados”, baseado numa passagem de Hesíodo, um poeta grego da antiguidade. No MAAT até Fevereiro.
PORTUGAL REVISTO - Há livros que apetece ter sempre à mão para ir folheando. Este é um deles. O primeiro texto é um excerto da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, escrito em 1443. E a primeira fotografia é o marco da fronteira na Serra do Gerês, em Terras de Bouro. Ao longo de 500 páginas, as fotografias de Duarte Belo são acompanhadas por textos de António Araújo que as enquadram e complementam, abrindo novos horizontes para o que se vê e elas mostram num levantamento impressionante da paisagem e do território de Portugal, feito ao longo dos anos por Duarte Belo. Neste livro, da editora Museu da Paisagem, as notas de António Araújo, incisivas, aprofundam o que se vê, com informação e observações com humor. Por exemplo, comentando uma fotografia tirada em 2020 é invocado José Leite de Vasconcelos quando se insurgiu numa viagem a Trás os montes, por ter sido construída uma cavalariça por baixo de uma biblioteca -”quem está por cima consultando os livros nem aguenta o mau cheiro que vem da loja, nem o tropear dos animais”. E depois prossegue António Araújo, numa fotografia que mostra um avião a passar por cima da Biblioteca Nacional: “não tem cavalos por baixo mas muitos aviões por cima, a toda a hora do dia, com ruído condizente. Ou seja, e em suma: de 1917 até hoje, mudou o meio de transporte, mas a estupidez é a mesma”. “Portugal Refractário, um País Entre o Imobilismo e a Mudança” é uma obra que mostra, sublinham os autores, que “apesar das muitas e profundas transformações que sofreu e vem sofrendo nas últimas décadas, há um Portugal refractário, que persiste e resiste, ancorado na terra e na história do povo.“
MESA DE CABECEIRA - José Milhazes, jornalista, tradutor e escritor português, viveu na Rússia entre 1977 e 2015, onde estudou e foi correspondente de vários órgãos de comunicação. Milhazes conhece a evolução da União Soviética durante esse período como poucos, assistiu à queda da “cortina de ferro” e à formação de novos Estados no Leste da Europa, viveu a diferença entre o que a propaganda dizia e o que se passava na vida real. O livro,”Porque Não Sou Comunista” é uma verdadeira lição de História, editado pela Oficina do Livro. “António Barreto - do meu ponto de vista”, é um livro que resulta de 25 conversas realizadas entre junho de 2025 e fevereiro de 2026, entre o jornalista João Céu e Silva e o sociólogo António Barreto . São conversas que abordam a história recente do país, da reforma agrária à eleição de Seguro, passando pelas ascensão do Chega. Uma das conversas aborda o papel de Salazar na valorização do PCP e António Barreto considera que o governante e o partido de Cunhal «se aproveitaram» um do outro. Edição Contraponto.
PURO YOUNG - Aos 80 anos Neil Young acabou de lançar o seu 50º álbum de estúdio, o primeiro de originais desde 2012. Chama-se “Second Song” e tem sete canções, cinco das quais inéditas. Ao lado de Young estão os Chrome Hearts, o quarteto que o tem acompanhado - bateria, teclas, guitarra e baixo. Dois dos temas são canções que Young compôs nos anos 60 e nunca tinham sido editadas. A faixa título, “Second Song” tem cerca de 11 minutos e juntamente com “Day After Day” e “Soon I Might Be Going” são canções puro Neil Young na sua melhor forma, onde canta as suas preocupações com o estado do mundo, com a vida à sua volta, e a sua própria vida. É um testemunho forte, um álbum que apetece ir ouvindo, escutando devagar as palavras que ele canta. Disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE- A 36.ª edição dos Encontros da Imagem decorre a partir desta sexta-feira, até 1 de novembro, com mais de 30 exposições de fotografia em Braga, Guimarães, Porto, Vila Verde e Avintes. Cooper & Gorfer, César Dezfuli, Ciril Jazbec, Tânia Dinis e Eurico Lino do Vale são alguns dos nomes que compõem o programa daquele que é o mais antigo festival de fotografia de Portugal.
DIXIT - “O início do ano lectivo foi novamente um falhanço. Alunos sem escolas ou sem aulas. Professores sem escolas, alunos sem professores. Tudo isto se repete e agrava.” - António Barreto, no Público.
BACK TO BASICS - “O serviço público de televisão nunca deveria ser julgado pelos números da audiência, mas sim pela medida do impacto que a sua programação tem nas pessoas que o vêem” - Ron Hull, um dos pioneiros do Public Broadcasting Service nos Estados Unidos.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS