outubro 10, 2026

ENERGIAS



A 10 de Junho de 1891 nasceu em Lisboa a sociedade Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, conhecida por CRGE, resultante da fusão da Companhia Lisbonense de iluminação e da Companhia de Gás de Lisboa. Passado um século o gás foi para um lado e a electricidade para outro. E assim as duas fontes de energia permaneceram separadas, mas não por muito tempo. Quem tinha ficado a mandar no gás e na electricidade, com empresas diferentes, decidiu voltar a juntar tudo e hoje o fornecimento de gás e de electricidade está de novo, em muitos casos, numa mesma empresa. Mas as memórias não se perdem e ainda é possível encontrar em alguns prédios lisboetas placas como estas, histórico símbolo de uma época em que a iluminação e a força motriz se combinavam sob a égide da palavra “INVIOLÁVEL”. Gosto destas marcas da memória que se encontram, assim por acaso, quando se visita um amigo, num prédio de meados do século passado. Aposto que no futuro não haverá registos destes, com placas tão bonitas com os nomes dos fornecedores - às vezes nem sabemos quem nos fornece o quê. Por falar nisso esta semana percebi que o Governo português anda conduzido por combustível americano. Passo a explicar:  há dias li que a maior parte da frota automóvel do Estado tem motores diesel. Ora a maioria do gasóleo que se vende em Portugal é importado dos Estados Unidos, já que a Europa não tem suficiente capacidade de refinação e por aqui , neste cantinho, muito menos -  que a refinação foi chão que já deu uvas. Se a lógica não é uma batata, é caso para dizer que os movimentos de muitos ministros e organismos do Estado só  acontecem graças aos americanos. Estranho mundo este.

outubro 09, 2026

SOBRE A PERNICIOSA INFLUÊNCIA DO CLUBISMO NA POLÍTICA


O BLOCO CENTRAL - O dia da apresentação do Orçamento de Estado coincidiu com o rebentar da guerrilha entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo. Esse episódio futebolístico arrebatou a maior fatia de tempo das notícias e relegou para segundo plano a convergência encontrada entre PS e PSD para garantir o OE. O futebol, já se sabe, não vive da razão, as disputas são violentas, os fãs excedem-se com frequência. Este clima de rivalidade passa muitas vezes para a política e Portugal tem sido palco constante de uma atitude em que os partidos procuram mais as diferenças e os problemas do que encontrar plataformas comuns e soluções. Conseguir acordos para governar o país, melhorando-o, fazendo reformas e procurando dar melhor vida às pessoas, implica não haver clubismo e colocar o interesse nacional acima das coisas. Obriga a não radicalizar, não privilegiar as diferenças, sobretudo obriga a saber abdicar do acessório para conseguir o essencial. Não é novidade que Portugal precisa de mais entendimentos entre as forças políticas e sociais, como acontece em outros países onde a estabilidade é garantida pelo diálogo e não pela imposição. Um grupo de empresários, economistas e antigos ministros de Cavaco Silva e de António Guterres divulgou na semana passada um manifesto que apela a PS e PSD para se entenderem e reformarem o país, muito para lá de uma só legislatura. Intitulado “Manifesto pelo Bom Entendimento em Democracia”, o texto pede aos dois maiores partidos que iniciem “tão rápida e solidamente quanto possível” negociações para um “acordo de médio e longo prazo” que vá além dos ciclos eleitorais. Poucos dias depois, no seu discurso do 5 de Outubro, o Presidente da República afirmou : “Portugal precisa de uma nova cultura política, com base em entendimentos e compromissos interpartidários, focada na resolução concreta dos problemas das pessoas e numa visão estratégica para Portugal.” E, sublinhou: “Os partidos políticos, os parceiros sociais e outros atores da sociedade têm de entender-se sobre os caminhos fundamentais para o nosso desenvolvimento. (...) Num regime democrático, ninguém abdica das suas diferenças. Mas a democracia também não pode transformar as diferenças em impossibilidade de entendimento, nomeadamente, quando os Governos não dispõem de apoio parlamentar maioritário”. O Parlamento devia ser um lugar onde se procuram consensos e não rupturas, onde as luzes da razão se acendem. Mas muitas vezes, como agora tem acontecido frequentemente, os líderes parlamentares do PS e PSD parecem mais líderes de claques de futebol do que políticos a procurar melhorar o país e dar melhor vida a quem cá vive. 

 

SEMANADA - Até Julho foram entregues mais de 700 pré avisos de greve, um aumento significativo  em relação ao ano passado; Portugal é o quarto país da União Europeia no ranking do desperdício alimentar e a maior parte da comida vai para o lixo dentro de casa; Portugal desperdiça 161 kgs de alimentos por habitante anualmente, 24,8% acima dos valores registados na média comunitária; um estudo recente indica  que seis em cada dez jovens dizem já não querer saber das notícias e três em cada quatro, entre os 18 e os 24 anos, informam-se mais nas redes sociais do que nos sites dos jornais; mais de metade dos inquiridos diz-se saturada da negatividade e considera que os media dão demasiado destaque aos políticos e pouco às pessoas comuns; quase dois terços das pessoas condenadas em 2025 por crimes de abuso sexual de crianças, adolescentes e menores dependentes não tiveram de cumprir uma pena de prisão; o número de estrangeiros que vivem em Portugal e que adquiriram a nacionalidade portuguesa caíu 38% no ano passado; Guimarães é o município onde se regista o maior aumento dos valores das rendas de casa, uma subida superior a 20% num ano; duas dezenas de estradas nacionais estão fechadas ao trânsito há oito meses na sequência dos estragos causados pelas tempestades do início do ano; milhões de euros em subsídios de emergência previstos para famílias afectadas pelos fogos e cheias que ocorreram entre 2022 e 2025 nunca chegaram aos beneficiários. 


O ARCO DA VELHA - Luís Montenegro foi dar uma aula sobre ética, integridade e prevenção da corrupção a uma escola de Espinho, a cidade onde vive e onde o processo de construção da sua casa é alvo de uma investigação pelo Ministério Público do Porto, para apurar aspetos relacionados com a faturação e os custos reais da obra. 




IMAGENS COM MOVIMENTO - O Oriente está cheio de grandes fotógrafos pouco conhecidos entre nós e a Galeria Ochre Space, dirigida por João Miguel Barros, um advogado português há anos estabelecido em Macau, e que dali fez base para explorar o que se passa, fotograficamente falando, na China e Japão, é um dos poucos locais onde podemos descobrir estas formas de ver. Depois de três fotógrafos chineses mostrados nas mais recentes exposições da Ochre, a galeria volta a apresentar o trabalho de Eikoh Hosoe, que se tornou conhecido no Ocidente por ser o autor de alguns dos mais expressivos retratos do escritor Yukio Mishima e pela obra “Barakei”, baseada no escritor. O trabalho agora exposto é baseado no livro “Kamitachi”, publicado em 1969.  São 13 imagens que saltaram das páginas do livro para as paredes da galeria, todas sobre o trabalho do bailarino fundador da “dança das trevas”. A exposição fica até 24 de Outubro e a Ochre está aberta de quarta a sábado entre as 15 e as 18h30.



ROTEIRO - 
Em Guimarães, no Centro Internacional de Artes José de Guimarães, é apresentada até 28 de Fevereiro a segunda parte da exposição “Come di”, de Jorge Molder (na imagem), que mostra trabalhos realizados entre 1997 e 2003. Este período é marcado por séries tão significativas quanto “Anatomia e boxe” (1997), “Nox” (1999), “La reine vous salue” (2001) ou “Comportamento animal” (2002). A primeira parte da exposição tinha mostrado trabalhos realizados entre 1991 e 1997. O trabalho de Jorge Molder baseia-se na auto representação e não deve ser entendido, como o artista sublinha, como sinónimo de auto retrato. Na Fundação Gulbenkian é apresentada a exposição “Pintar É Fácil. Faça Você Mesmo!”  baseada na colecção da Fundação La Caixa que reúne quatro dezenas de obras de 31 artistas como Antoni Muntadas, Giovanni Anselmo, Angela de la Cruz, Peter Halley, Damián Ortega, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Doris Salcedo, Thomas Schütte e Michael Snow e também  obras de artistas portugueses como Ana Jotta, Jorge Queiroz, a luso-alemã Susanne Themlitz e João Maria Gusmão.



A MENTE HUMANA  - O livro já tem uns anos, o original é de 1999, chama-se “Breves Entrevistas a Homens Hediondos”, foi agora editado entre nós pela Quetzal e inclui vinte e três contos onde David Foster Wallace escreve sobre temas que vão da dependência de drogas, à depressão, passando pelo sexo, a misoginia, os relacionamentos amorosos e até os mídia. O estilo é bem-humorado, divertido, sarcástico e experimental. David Foster Wallace, que se suicidou em 2008, aos 46 anos, depois de um longo período de depressão, ganhou notoriedade com o seu livro “A Piada Infinita” , de 1996, considerado pela revista “Time” um dos 100 melhores romances de língua inglesa publicados desde 1923 e que foi editado em Portugal em 2012, também  pela Quetzal. Em “Breves Entrevistas a Homens Hediondos" as histórias de Wallace  retratam um mundo onde o bizarro e o banal se entrelaçam e onde homens horrendos aparecem sob as mais diversas formas. O livro, que já teve uma adaptação para cinema, tem sido considerado como uma exploração do comportamento humano e da psicologia moderna, uma meditação sobre a crueldade humana e o narcisismo. Edição Quetzal.





MESA DE CABECEIRA -  Rebecca Solnit é uma observadora crítica da vida pública e cultural norte-americana e dos modos de vida do mundo ocidental e tem cerca de duas dezenas de livros publicados. Em “Não Há Caminho a Direito que te leve até lá ?”, editado pela Quetzal, Solnit propõe-nos perseverança, coragem e esperança para encontrar percursos para um mundo melhor e mais justo, defendendo que  a nossa visão tem de procurar a dimensão do longo prazo, uma  interessante recomendação para muitos políticos portugueses. O outro livro da semana é “Curiosidade Mórbida” onde o cientista Coltan Scrivner escreve sobre a psicologia da curiosidade mórbida, revelando as razões por que não conseguimos resistir ao macabro. Por exemplo, o  que nos leva a abrandar para ver as consequências de um acidente de viação ou a assistir a maratonas de programas sobre crimes até altas horas da noite? Por que razão alguns de nós se sentem atraídos por filmes de terror, enquanto outros estremecem só de pensar nisso?  (Edição Temas & Debates).




MÚSICA SALGADA - O novo disco do saxofonista Andy Sheppard, acompanhado de Rita Marcotulli ao piano e Michel Benita no baixo, “Salt Catchers”, combina melodias com diálogos acústicos entre os três músicos numa série de baladas envolventes. Sheppard tem uma carreira que inclui uma trilogia de álbuns gravados com Carla Bley e Steve Swallow e dois discos com o Trio Libero. Com o seu novo trio apresenta neste disco oito temas originais de Sheppard e um de Carla Bley. O fraseado do saxofone de Sheppard dialoga com o piano e o baixo num trio perfeito e prova a criatividade de Sheppard enquanto compositor. Há uma curiosidade adicional. Sheppard actualmente vive em Lisboa e este disco nasce de um projecto relacionado com a Universidade de Aveiro e vai buscar o título às salinas locais. Algumas faixas têm até títulos portugueses, como o romântico “Encantos” ou “Salgado”, talvez o ponto alto do álbum. Edição ECM, disponível em streaming.


ALMANAQUE - A Casa Roque Gameiro, na Amadora, acolhe a exposição “Eu, Leitão de Barros”, uma figura de proa das artes e mídia que deixou marca no jornalismo e foi o responsável por alguns dos grandes filmes portugueses, sobretudo nos anos 20, 30 e 40 do século passado. A mostra destaca o seu posicionamento ao lado dos modernistas e a sua profunda influência na construção do imaginário português do Estado Novo. A exposição pode ser visitada de terça a domingo, tem entrada gratuita e foi comissariada pela historiadora de arte e investigadora Filomena Serra.


DIXIT - “Se a última moda é marchar com os radicais, seja original, às vezes a moderação é a verdadeira resistência” - João Pereira Coutinho, na Sábado. 


BACK TO BASICS - “A política não é a arte do possível. Consiste em escolher entre o desastroso e o desagradável”  - John Kenneth Galbraith.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


outubro 03, 2026

OUTRAS PAISAGENS

 

Fazemos muito lixo, muito mais do que pensamos. E onde vai ele parar?

Tenho a certeza que poucos têm ideia do lixo que produzem. Um estudo recente indica que , cada português gera em média mais de 500 kgs de lixo por ano, desde papel a embalagens de vidro, metal, cartão ou electrodomésticos variados. A isto há que adicionar os resíduos sólidos das indústrias e serviços, que incluem desde material electrónico a caixas multibanco. Os resíduos urbanos, aquilo que produzimos em casa e que não incluem a indústria e serviços, ultrapassam os 5,5 milhões de kgs por ano. E que fazemos a esse lixo? A esmagadora maioria continua a ser depositada em aterros e só pouco mais de um quarto é reciclado, estamos longe das metas europeias. A imagem mostra montanhas de papel que vai ser reciclado e dará origem a caixas para ovos que compramos nos supermercados. Esta montanha de restos de papel de todo género é uma paisagem que não estamos habituados a ver, e que é um retrato, pouco conhecido,  deste mundo em que vivemos. Ao longo de uns meses percorri várias instalações de reciclagem do norte ao sul do país, a maioria ligadas à Sociedade Ponto Verde. O resultado desse trabalho constitui uma exposição de fotografia que está até ao fim do ano no Mercado de Campo de Ourique, organizada pelo CC11, um colectivo de fotojornalistas. Estas imagens, estas paisagens que muitos não conhecem, obrigam-nos a olhar para a forma como estamos a cuidar do planeta. Penso que o estamos a deixar em pior estado do que aquele em que o recebemos.


(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)


outubro 02, 2026

O ESTADO DA NAÇÃO EM MATÉRIA DE TELEVISÃO



 FAITES VOS JEUX - As palavras do início desta nota reproduzem uma frase habitual nas mesas de roleta dos casinos. Lembrei-me dela a propósito do  processo de nomeação de novo Conselho de Administração da RTP. Vale a pena olhar para a realidade televisiva e a paisagem mediática portuguesa. A RTP1 é vista, em média,  por cerca de 2,5 milhões de espectadores, a SIC e a TVI por 3,1 milhões e a RTP2 por cerca de 200 mil. Passando para os canais informativos do cabo a CMTV tem uma média de 1,3 milhões, a CNN e a SIC Notícias andam pelos 600 mil, o News Now pelos 400 mil e a RTP Notícias por 300 mil. O canal de cabo na área do entretenimento com maior audiência tem sido o Star Channel, com 400 mil espectadores. Feitas as contas os telespectadores seguem preferencialmente canais de cabo (39,7%) e plataformas de streaming (21,5%), num total de 61,2%, o que deixa 38,8% para os canais de sinal aberto e gratuitos, que podem ser vistos nos operadores de telecomunicações ou, muito residualmente, na TDT. Vamos a mais números: segundo a ANACOM 95% dos alojamentos portugueses estão cablados com fibra óptica e 92% das famílias portuguesas subscrevem serviços de comunicações em pacote, que incluem acesso a canais generalistas e de cabo e ligação à internet. Em termos publicitários isto significa que a televisão, no total, entre canais de cabo e generalistas, capta 45,3% do investimento publicitário em Portugal, sendo seguida pelo digital, com cerca de 32%, a publicidade de rua em outdoors com cerca de 15% e a rádio com 6%. A imprensa, jornais e revistas captam menos de 1,5% do total do volume da publicidade, o que explica a sua crise. Os números mostram que a RTP, apesar das limitações que tem, por lei, quanto ao tempo de publicidade por hora (no máximo seis minutos, metade dos canais privados) pode ser um negócio apetecível se cair nas mãos de quem quer faturar em vez de fazer serviço público. Com um Governo que sobre esta matéria lava as mãos como Pilatos mas continua a poder influenciar a escolha de quem dirigirá a RTP, sem dizer de forma transparente que orientação quer para o serviço público,  a situação é preocupante. Com o mercado publicitário a valer no final deste ano, provavelmente, cerca de 670 milhões de euros, isso quer dizer que os operadores de televisão encaixam à volta de 300 milhões. A ver vamos quem arrebata o prémio e em que condições.



SEMANADA - A quantidade média de resíduos urbanos produzidos por cada português em 2024 foi de 517 kgs, acima dos 502 kgs registados no ano anterior; um estudo recente indica os sacos de plástico fino têm um pegada ecológica menor que os de papel;as trotinetas já causaram este ano seis mortes, segundo os dados oficiais da PSP e GNR e o número de acidentes registados com trotinetas até final de Agosto, 1493,  é equivalente a todo o ano passado e acima de todos os anos anteriores; as licenças para construção e reabilitação de edifícios habitacionais caíram 6,9% no primeiro semestre; “Santo António, O Casamenteiro de Lisboa”, o novo filme de Ruben Alves foi o filme mais visto nas salas de cinema portuguesas durante duas semanas, à frente de todas as produções internacionais: o aumento de veículos novos 100% eléctricos matriculados em Portugal no primeiro semestre deste ano foi de 45% face ao mesmo período do ano passado; segundo o INE a idade média das mulheres portuguesas ao primeiro filho é de 30 anos, aproximadamente 2,6 anos acima do registado há 20 anos; os 37 centros de dados existentes em Portugal gastam mais do dobro do consumo doméstico de electricidade em Lisboa.



O ARCO DA VELHA - Um idoso de 82 anos, que tinha sofrido uma queda, aguardou 18 horas nas urgências do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, até descobrirem que tinha o fémur fraturado.




O DESENHO
- Maria Lassnig (1919-2014) é uma importante artista plástica austríaca conhecida pelo seu trabalho em torno do corpo e das suas formas e também pelos seus auto-retratos. Em Viena está sediada uma fundação que gere o seu extenso acervo, que além da pintura inclui uma grande quantidade de desenhos, esboços e estudos preparatórios. A galeria  Jahn und Jahn, originária de Munique e que também está em Portugal, apresenta nas suas instalações em Lisboa a exposição “The pencil is the best instrument of thinking” a partir de obras dessa Fundação, numa rara possibilidade, entre nós,  de ver e adquirir o trabalho de Lassnig. A exposição reúne um conjunto de trabalhos sobre papel, produzidos entre 1986 e 2012. Dos 22 desenhos em grafite, 10 incluem a aguarela, o pastel e o acrílico. Um excelente ensaio sobre a obra de Lassnig escrito para a exposição por João Sousa Cardoso, sublinha que a artista afirma “o lápis e o pincel como as ferramentas primordiais”, e destaca que nas obras expostas se encontra “o recorte das figuras isoladas contra o fundo monocromático ou a sugestão mínima de espaço”,  mostrando personagens solitárias, a fragmentação dos corpos e a evocação dos objetos. A Jahn und Jahn fica na Rua de S. Bernardo 15 R/C e a exposição pode ser vista até 14 de Novembro.




ROTEIRO - Esta semana um destaque incontornável é “Arpad”, a primeira grande exposição individual em Portugal dedicada à obra de Arpad Szenes, que em vida se colocou propositadamente na sombra do trabalho da sua mulher, Maria Helena Vieira da Silva. “Arpad”  reúne peças de pequena e média escala, entre desenho, gravura e pintura, incluindo numerosas obras raramente apresentadas ao público e várias inéditas. Aquando da criação do museu dedicado a Vieira da Silva, a artista exigiu que o nome do seu marido, já falecido na altura, figurasse primeiro na designação. E assim  nasceu o Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, onde agora finalmente é possível conhecer o luminoso trabalho de Arpad. A exposição está patente até 24 de Janeiro, na Praça das Amoreiras 56. Outra exposição importante é a de António Poppe, “Uccelacci e uccellini”, (na imagem), apresentada na Galeria Miguel Nabinho até 31 de Outubro ( Rua Tenente Ferreira Durão 18). Poppe apresenta-se como poeta, artista visual e performer, estudou no Ar.Co em Lisboa, no Royal College of Arts, em Londres e na School of the Art Institute of Chicago. No Porto, na Galeria Fernando Santos  (Rua Miguel Bombarda 526) está a exposição “Desenhos de Cinismo e Melancolia”, um conjunto de novas obras de Ana Vidigal. Na fotografia destaque para a exposição retrospectiva do fotojornalista Manuel Moura na Casa da Imprensa.




FAMÍLIAS - Jo Hamya é uma romancista britânica, nascida em 1997, que publicou o seu primeiro livro, "Three Rooms” aos 24 anos. O segundo livro, “Hipócrita”, agora editado em Portugal, ganhou em 2025 o prémio Somerset Maugham. É um romance sobre o acto de escrever, que pode assim ser resumido: no  verão de 2010, uma jovem , Sophia, vai para a Sicília com o pai, escritor, recém divorciado da sua mãe. Debatendo-se com um apertado prazo de entrega do novo romance, o escritor pouco acompanhou a filha em passeios ou em idas à praia e em vez disso ocupava-a muitas horas, obrigando-a a digitar o que lhe ditava. O prometido programa de férias a dois resumiu-se à solidão de Sophia que acabava por ouvir ao longo da noite o pai a fazer sexo com mulheres variadas e desconhecidas que ele engatava nos bares noturnos da vila balnear. Dez anos depois, em Londres, Sophia é uma jovem dramaturga com a sua nova peça em cena, recebida com boas críticas . O pai, o autor famoso cujos romances envelheceram mal, tem evitado lê-las mas acaba por ir ver a peça, desconhecendo que esta se centra nas férias que ambos haviam passado juntos na Sicília. É um romance sobre as relações familiares, as heranças difíceis que cada geração tem de gerir e a dificuldade de viver num mundo que muda à velocidade da luz. Edição Quetzal.






MESA DE CABECEIRA - Aos 51 anos de idade, Ovídio, poeta de grande fama em Roma, foi condenado ao exílio pelo Imperador para longe, nos confins do império. Dessa radical mudança de vida (da grande cidade, do luxo, da luz, dos festins, do amor, para uma paisagem deserta e inóspita, para o frio e para a aridez) nasceu um novo modelo de poesia que teve por título “Tristia”, e que na edição portuguesa, recebeu o título “Cantos de Tristeza” com tradução, introdução e notas de Carlos Ascenso André. São cartas endereçadas aos amigos mais fiéis, à esposa; e até mesmo ao imperador Augusto. Ovídio encara a poesia como modo de libertação, como arma que triunfa sobre a punição de que foi alvo. A outra edição, tem também uma origem poética: “China - Poemas do Erotismo Suave”, uma  antologia de poemas organizada e traduzida por António Graça de Abreu e que junta a mais bela poesia erótica chinesa. A obra percorre, entre muitos textos,  o “Livro das Odes” de Shi Jing e poemas de Li Qingzhao, a maior poetisa chinesa de sempre. Edição Guerra & Paz.



PETISCO - Esta semana tive uma das melhores refeições dos últimos tempos no restaurante Fismuler, que está integrado no Hotel ME, com entrada pela avenida Fontes Pereira de Melo 7. O Fismuler de Lisboa é a primeira internacionalização dos espanhóis Fismuler de Madrid e de Barcelona. O Guia Repsol, concorrente ibérico do Guia Michelin, descreve  a cozinha do Fismuler como “gastronomia espanhola de inspiração nórdica”. Há que dizer que, em Lisboa, há muita inspiração portuguesa. Qualidade dos ingredientes, cuidado na confecção, mistura de sabores surpreendente, serviço descontraído e exemplar. Boa oferta de vinhos espanhóis e portugueses com propostas a copo de  produtores, bem escolhidos, como o espumante Berberetta ou o encruzado da Quinta da Alameda. Pela mesa passaram alcachofra grelhada servida em caldo meunière fumado, que serviu de entrada, a que se seguiu bacalhau fresco com den miso e pak choi e um arroz malandro de beterraba com choco finamente cortado e frito a preceito. A terminar veio a sobremesa de espuma de coco, talharim de manga, gelado de lima, aipo, e gengibre. Se lá forem, peçam para ficar nas mesas junto à cozinha, aberta, para poderem assistir ao autêntico bailado do Chef e da sua equipa na confecção dos pratos. Imperdível.


DIXIT - “Lideranças fortes não têm aves de mau agoiro a rondá-las. Montenegro e Carneiro não são líderes fortes – e Passos Coelho e Mário Centeno sabem disso. As intervenções de ambos contra as lideranças das respectivas famílias seriam difíceis de imaginar sob Cavaco ou Soares” -  João Pereira Coutinho, no “Correio da Manhã “


BACK TO BASICS - “Não receio os computadores, mas sim a falta que eles fazem” - Isaac Asimov


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








setembro 26, 2026

O OLHAR CURIOSO

 


O  prazer da descoberta dando livre curso à curiosidade é das coisas mais fantásticas da mente humana. As crianças são curiosas por natureza, percorrem com o olhar, tocam, espreitam, mudam de posição para descobrir outros ângulos. Enquanto os adultos são cépticos, as crianças não têm preconceitos e mostram uma mente mais aberta. Não estão formatadas. Por isso é que os desenhos das crianças ou as suas construções em barro ou plasticina surpreendem tantas vezes: conseguem sair da regra e mostrar o que o seu próprio olhar e imaginação vêem. Gosto muito de ver crianças nos museus e exposições, a olhar, a fazer perguntas, às vezes sentadas no chão, com lápis e caderno, a desenharem o que está à sua frente. As crianças não se coíbem de se colocarem em posições que lhes permitem ver o que os outros, crescidos, não imaginam que se pode observar. Esta fotografia foi feita no dia da inauguração da nova exposição de Pedro Cabrita Reis no grande hall do MAAT, em Lisboa. A exposição chama-se
com o coração livre de cuidados, O título é todo um programa e aplica-se à forma como as crianças conseguem observar o mundo à sua volta mas, também, como um guia para o comportamento dos adultos, dispostos a mostrar que há outras formas de ver o mundo - como Pedro Cabrita Reis fez nesta exposição. O título tem origem numa passagem de Hesíodo, um poeta grego da antiguidade, na sua obra Trabalhos e Dias, dedicada à «Idade de Ouro», tempo primordial em que os homens viviam «como deuses», sem sofrimento, fadiga ou inquietação. É isto que alimenta a curiosidade: descobrir, conseguir ver sem ser por obrigação e sem inquietação. A exposição fica no MAAT até meados de Fevereiro.

(Pensamentos Ociosos, sempre em sapo.pt)

setembro 23, 2026

QUE VAI SER DO SERVIÇO PÚBLICO AUDIOVISUAL?



RTP, A DESEJADA - Está aberto o processo de escolha de um novo Conselho de Administração para a RTP e há quatro candidaturas, um recorde. Uma delas é apresentada pelo actual CA, presidido por Nicolau Santos, em funções desde Junho de 2021 e que já foi reconduzido uma vez. As candidaturas serão apreciadas pelo Conselho Geral Independente, a quem cabe supervisionar a actuação da RTP e designar o Conselho de Administração. Este órgão, que por vezes recebe o nome de Conselho Geral Inútil, foi uma invenção do então ministro Poiares Maduro que se inspirou num modelo da BBC que a própria estação britânica já estava a abandonar.  Integra seis pessoas,  das quais três  têm competências e experiência na área da comunicação e, destas, apenas duas têm experiência de audiovisual. É o CGI que deve avaliar, no âmbito da sua supervisão, o cumprimento das obrigações de serviço público audiovisual, o que na realidade tem ocorrido de forma muito limitada - verdade seja dita que em parte isto se deve à ausência de uma clara definição, por parte do accionista Estado, do que deseja do serviço público. Teoricamente a RTP devia caracterizar-se por ter uma programação, nas suas diversas plataformas, alternativa e complementar à dos operadores privados. Mas não é isso que acontece, com a RTP a assumir-se frequentemente como concorrente dos privados numa série de tipologias de programas, do desporto aos concursos. Ora nunca se ouviu o CGI a interpelar este estado de coisas e, no caso do incumbente, que se apresenta de novo a concurso, não há um balanço crítico da sua actividade. Aquilo que o Conselho de Administração da RTP é suposto fazer ultrapassa a boa gestão da empresa, porque a sua missão prioritária deve ser garantir a prestação do serviço público, dando condições para que ele se concretize da melhor forma, dentro de critérios de gestão transparentes e que garantam o equilíbrio da empresa. Creio ser fundamental ter um serviço público audiovisual que contribua para a presença da língua e cultura portuguesa no mundo,  que assegure uma programação diversificada, nomeadamente em áreas onde os privados geralmente não estão, como os documentários, a ficção, o apoio à produção independente e a programação infantil. O CGI, nas suas várias composições ao longo dos anos, desde que foi criado em 2014, nunca mostrou  o seu empenho na defesa e implementação destes temas. Seria desejável que o accionista Estado dissesse, de forma clara, o que pretende do serviço público e não fugisse à questão, deixando o vazio que agora existe. É grande o risco que deste concurso não saia nada de bom. (a imagem desta nota foi produzida por IA)




SEMANADA- Mais de 4,7 milhões de pessoas subscrevem em Portugal  serviços de televisão pagos e dois terços deles utilizam a fibra óptica; cerca de 60% dos espectadores prefere pagar para ter acesso a  canais de cabo e plataformas de streaming à programação dos canais de livre acesso gratuitos; um estudo recente da Fundação Francisco Manuel dos Santos faz um levantamento  dos 507 ministros da democracia portuguesa, concluindo que quem  tem governado Portugal em democracia são sobretudo homens, com mais de 50 anos, que  pertencem a “elites políticas altamente profissionalizadas, nas quais a experiência partidária e a competência técnica se entrelaçam de forma estrutural”; de acordo com o estudo, os governos portugueses estão a ficar mais velhos, mais qualificados e mais partidários e para entrarem no círculo do poder as mulheres precisam de mais estudos; outro dado: ser ministro em Portugal não é um emprego estável já que  a duração média no cargo é de um ano e meio, 19% dos membros do governo  não completam o mandato e quatro em cada dez saem devido a escândalos, pressões dos jornais ou contestação social; a colecta de IVA entre Março e Julho esteve 925,8 milhões de euros acima do obtido no mesmo período do ano passado, em boa parte devido às receitas provenientes do IVA sobre combustíveis; segundo a SIBS, o valor dos levantamentos nos caixas automáticos do Multibanco ultrapassa anualmente os 30 mil milhões de euros, cinco vezes mais que o valor registado há 30 anos; segundo a Marktest nos últimos 30 anos o consumo doméstico de energia mais que duplicou nas últimas três décadas. 



O ARCO DA VELHA - A formação de tripulantes de ambulâncias dos bombeiros, que asseguram a maior parte do socorro, tem um terço das horas dos socorristas do INEM, deixou de ser auditada por este instituto e está sem controlo.





A TENTAÇÃO DO FUTURO - “com o coração livre de cuidados” é o título da primeira grande exposição de Pedro Cabrita Reis no MAAT, que está a celebrar os seus 10 anos de existência. O artista ocupa todo o espaço do grande hall do edifício do MAAT, utilizando as paredes para mostrar desenhos e pinturas e a área oval central para a colocação de esculturas, mesas com estudos e esboços preparatórios de diversas obras. Quase todos os trabalhos foram feitos propositadamente para esta exposição, nomeadamente grandes pinturas, em séries que evocam Monet ou El Greco e desenhos que surgem numa homenagem a Rodin. Num dos topos da oval está  um trabalho misto de escultura e pintura de grandes dimensões, num jogo de cores e formas que condiciona todo o espaço, com  grandes peças metálicas com várias camadas e leituras que delimitam o outro topo. À excepção das obras colocadas na rampa de acesso ao piso térreo,  um conjunto de trabalhos de técnica  mista  onde Pedro Cabrita Reis utilizou  fotografias suas em diversos contextos, que depois transformou num jogo entre o humor e o exibicionismo, o resto das paredes está ocupado por telas de grandes dimensões, algumas delas transformando imagens do imaginário religioso clássico,  e uma série de pequenas pinturas que evocam paisagens. É o primeiro artista português a apostar neste tipo de ocupação do espaço,  com quase duas centenas de obras. Nesta exposição torna-se evidente como Cabrita Reis parte de referências e estudo do passado e dos grandes clássicos para desafiar o futuro. É esse aliás o sentido do título da exposição, “com o coração livre de cuidados”, baseado numa passagem de Hesíodo, um poeta grego da antiguidade. No MAAT até Fevereiro.





PORTUGAL REVISTO -  Há livros que apetece ter sempre à mão para ir folheando. Este é um deles. O primeiro texto é um excerto da Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, escrito em 1443. E a primeira fotografia é o marco da fronteira na Serra do Gerês, em Terras de Bouro. Ao longo de 500 páginas, as fotografias de Duarte Belo são acompanhadas por textos de António Araújo que as enquadram e complementam, abrindo novos horizontes para o que se vê e elas mostram num levantamento impressionante da paisagem e do território de Portugal, feito ao longo dos anos por Duarte Belo. Neste livro, da editora Museu da Paisagem, as notas de António Araújo, incisivas, aprofundam  o que se vê, com informação e observações com humor. Por exemplo, comentando uma fotografia tirada em 2020 é invocado José Leite de Vasconcelos quando se insurgiu numa viagem a Trás os montes, por ter sido construída uma cavalariça por baixo de uma biblioteca -”quem está por cima consultando os livros nem aguenta o mau cheiro que vem da loja, nem o tropear dos animais”. E depois prossegue António Araújo, numa fotografia que mostra um avião a passar por cima da Biblioteca Nacional: “não tem cavalos por baixo mas muitos aviões por cima, a toda a hora  do dia, com ruído condizente. Ou seja, e em suma: de 1917 até hoje, mudou o meio de transporte, mas a estupidez é a mesma”. “Portugal Refractário, um País Entre o Imobilismo e a Mudança” é uma obra que  mostra, sublinham os autores, que  “apesar das muitas e profundas transformações que sofreu e vem sofrendo nas últimas décadas, há um Portugal refractário, que persiste e resiste, ancorado na terra e na história do povo.“


 



MESA DE CABECEIRA - José Milhazes, jornalista, tradutor e escritor português, viveu na Rússia entre 1977 e 2015, onde estudou e foi correspondente de vários órgãos de comunicação. Milhazes conhece a evolução da União Soviética durante esse período como poucos, assistiu à queda da “cortina de ferro” e à formação de novos Estados no Leste da Europa, viveu a diferença entre o que a propaganda dizia e o que se passava na vida real. O livro,”Porque Não Sou Comunista” é uma verdadeira lição de História,  editado pela Oficina do Livro. “António Barreto - do meu ponto de vista”, é um livro que resulta de 25 conversas realizadas entre junho de 2025 e fevereiro de 2026, entre o jornalista João Céu e Silva e o sociólogo António Barreto . São conversas que abordam a história recente do país, da reforma agrária à eleição de Seguro, passando pelas ascensão do Chega. Uma das conversas aborda o papel de Salazar na valorização do PCP e António Barreto considera que o governante e o partido de Cunhal «se aproveitaram» um do outro. Edição Contraponto.




PURO YOUNG  - Aos 80 anos Neil Young acabou de lançar o seu 50º álbum de estúdio, o primeiro de originais desde 2012. Chama-se “Second Song” e tem sete canções, cinco das quais inéditas. Ao lado de Young estão os Chrome Hearts, o quarteto que o tem acompanhado - bateria, teclas, guitarra e baixo. Dois dos temas são canções que Young compôs nos anos 60 e nunca tinham sido editadas. A faixa título, “Second Song”  tem cerca de 11 minutos e juntamente com “Day After Day” e “Soon I Might Be Going” são canções puro Neil Young na sua melhor forma, onde canta as suas preocupações com o estado do mundo, com a vida à sua volta, e a sua própria vida. É um testemunho forte, um álbum que apetece ir ouvindo, escutando devagar as palavras que ele canta. Disponível nas plataformas de streaming.

ALMANAQUE- A 36.ª edição dos Encontros da Imagem decorre a partir desta sexta-feira, até 1 de novembro, com mais de 30 exposições de fotografia em Braga, Guimarães, Porto, Vila Verde e Avintes. Cooper & Gorfer, César Dezfuli, Ciril Jazbec, Tânia Dinis e Eurico Lino do Vale são alguns dos nomes que compõem o programa daquele que é o mais antigo festival de fotografia de Portugal.



DIXIT - “O início do ano lectivo foi novamente um falhanço. Alunos sem escolas ou sem aulas. Professores sem escolas, alunos sem professores. Tudo isto se repete e agrava.” - António Barreto, no Público.


BACK TO BASICS - “O serviço público de televisão nunca deveria ser julgado pelos números da audiência, mas sim pela medida do impacto que a sua programação tem nas pessoas que o vêem” - Ron Hull, um dos pioneiros do Public Broadcasting Service nos Estados Unidos.




A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS


setembro 19, 2026

TRUZ, TRUZ, É O OUTONO….

 

Gosto de ver como as cores mudam ao longo das quatro estações do ano. Perceber como a luz se comporta,  umas vezes a levantar-se cedo e deitar-se tarde, outras vezes a preguiçar de manhã e a ir para cama mais cedo. O ciclo da luz, o mesmo é dizer a viagem do sol, é sempre fascinante. A forma como vai mudando, de cor, intensidade, cria novas imagens, transformando as paisagens que conhecemos e refrescando as memórias. Em cada mês de Setembro tenho esta sensação de um Verão que se vai despedindo, de forma tímida, com idas e vindas, como se tivesse pena de partir. A partida do Verão não me faz grande impressão - gosto do Outono a aparecer pé ante pé, da mesma maneira que, daqui a alguns meses, hei-de ansiar pela chegada da Primavera. A verdade, verdadinha, é que Outono e Primavera são as minhas duas estações preferidas. Gosto desses fins de tarde, que vão sempre mudando, mas gosto sobretudo dos de Outubro e de Abril, talvez os meus meses preferidos por uma série de razões, algumas até nada atmosféricas. São as melhores épocas do ano para, ao fim do dia, ficar sentado ao lusco fusco a  ver as cores mudarem.


(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE EM SAPO.PT)