julho 10, 2026

SEGREDOS DE ESTADO


OS EXAMES E A LEI DA ROLHA O Ministério da Educação, Ciência e Inovação, tutelado por Fernando Alexandre, não respondeu atempadamente a perguntas colocadas pela imprensa sobre as entidades envolvidas no processo de digitalização, as dificuldades técnicas reportadas por professores e só depois de muita pressão identificou os criadores da plataforma que está a ser usada para classificar os exames do secundário. Fernando Alexandre tem-se portado mal neste processo - não percebeu que existiam problemas técnicos, não quis assumir a necessidade de fazer alterações no calendário da classificação face aos problemas surgidos e por fim - e isto está a tornar-se um rotina neste Governo - não responde a perguntas concretas de jornalistas sobre os problemas surgidos, preferindo esconder os nomes dos responsáveis do ministério e das empresas fornecedoras. Sabe-se que nos últimos três anos a digitalização dos exames custou mais de sete milhões de euros e neste momento parece evidente que não houve da parte do Ministério de Fernando Alexandre a implementação de mecanismos de controlo de qualidade e a realização de testes sobre a eficácia de toda a plataforma antes de ela ser posta em utilização real. O caso de Fernando Alexandre não é único - muitas vezes cria-se a sensação de que o Estado adjudica serviços complexos, sobretudo na área tecnológica, sem garantir que existe competência técnica e um histórico de experiência que permita evitar problemas na implementação dos sistemas adjudicados. Que isto se passe num Ministério que tem nas suas competências a Inovação torna a coisa ainda mais anacrónica. Para além deste problema, muitas plataformas existentes a diversos níveis do Estado, têm uma utilização complexa e não são, para usar uma terminologia inglesa, “user friendly” - parece uma anedota mas recentemente, para conseguir cumprir os passos que uma plataforma digital do Estado me exigia, tive que recorrer a um manual de instruções em vídeo disponível no YouTube, e feito por um brasileiro, que finalmente me explicou aquilo que um serviço oficial não foi capaz de fazer. Mas verdadeiramente o mais assustador é o manto de silêncio com que o Estado se protege. Cito uma nota recente de Eduardo Cintra Torres no “Correio da Manhã” : A ERC deliberou duas vezes em duas semanas contra o jornal digital Página Um, estabelecendo que para esse jornal aceder a informação estatal, que deve ser pública, tem de explicar porquê e o que quer investigar. Com esta Lei da Rolha o Ministro Fernando Alexandre pode dormir descansado, bem embalado pela ERC.


SEMANADA Portugal já paga cerca de 200 milhões de euros por ano a Bruxelas por não reciclar embalagens de plástico em número suficiente; um em cada quatro alunos inscritos num curso Técnico Superior Profissional abandonou o ensino superior um ano após ter entrado; a Administração Pública portuguesa terminou 2025 com um número recorde de cargos dirigentes e o Estado contabilizava no final do ano 16.115 dirigentes, sendo o aumento particularmente expressivo na administração regional e local; a Autoridade Tributária recebeu 5.710 denúncias e participações de fraude fiscal em 2025, nesse mesmo ano fez 641.678 pedidos de penhora por dívidas fiscais e pediu o levantamento do sigilo bancário mais de 800 vezes; os gastos nos hospitais do SNS com medicamentos oncológicos mais que triplicaram nos últimos dez anos; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a aumentar no ano passado, para 1,56 milhões de pessoas no final de dezembro passado, cerca de mais 41 mil do que um ano antes;  5% das despesas das famílias portuguesas são na área da saúde; as contribuições de estrangeiros para a segurança social tiveram em Abril uma subida de 10,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, atingindo 365,4 milhões de euros.


O ARCO DA VELHA - Em vésperas do jogo com a Espanha, Hugo Soares anunciou que Luís Montenegro era ”uma espécie de amuleto da sorte” da seleção nacional…



COLECTIVA GERACIONAL
- Uma exposição colectiva de quatro artistas, "Arqueologia Remix", reúne até 3 de Outubro, na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, os trabalhos de Xiao Zhiyu, Luís Rocha, Lyz Parayzo e Joana Lourenço, com curadoria de Filipa da Rocha Nunes. Os artistas, dois portugueses, um chinês e uma brasileira, todos nascidos entre o final dos anos 80 e dos anos 90, são nomes de uma nova geração que desenvolve a sua actividade entre Guimarães ou Viseu (Luis Rocha e Joana Lourenço), Helsínquia (onde vive Xiao Zhiyu) e Paris (Lyz Parayzo).  Xiao Zhiyu apresenta  paisagens aéreas pintadas  que são como compilações das suas viagens constantes como artista entre cidades onde vive, lugares onde faz residência artística e desenvolve exposições. Instalação  “Cuir Mouvement”, de Lyz Parayzo, é constituída por móbiles em aço inoxidável que se movem através da força de um motor, em sintonia com um texto da poeta Márcia X que a artista escolheu e que  funciona como uma espécie de declaração de intenções. Finalmente as três pinturas de Luís Rocha fazem da paisagem a protagonista do seu trabalho e da sua visão,com  formas de cor bem marcada que marcam as telas trabalhadas com óleo e acrílico (na imagem). Rua de Santo António à Estrela 33.




OLHOS NA AMÉRICA  - A partir da colecção de Julião Sarmento, as curadoras  Isabel Carlos e Rita McBride puseram de pé a exposição “Era Uma Vez na América” que apresenta um conjunto impressionante de obras de vários artistas que mostram o seu olhar sobre os Estados Unidos e onde se aborda o impacto da mitologia e da cultura dos EUA na criação contemporânea do pós-guerra. Nesta exposição figuram trabalhos de  Bruce Nauman, Christopher Williams, Cristina Iglesias, Dan Graham, Ed Ruscha, Glen Rubsamen, James Casebere, James Turrell, João Louro, João Paulo Feliciano, John Baldessari, Jorge Molder (na imagem) , Juan Muñoz, Lawrence Weiner, Louise Lawler, Matt Mullican, Nan Goldin, Richard Artschwager, Richard Nonas, Richard Serra, Rita McBride, Robert Gober e Robert Morris. A exposição pode ser vista no Pavilhão Julião Sarmento, de terça a domingo das 11 às 19h00, na Avenida da Índia 172. 



PODER E SEDUÇÃO - Pamela Churchill Harriman moveu-se na segunda metade do século XX num círculo onde política, economia, cultura e moda se entrelaçavam. Conviveu com algumas das pessoas mais notáveis da época, a começar pelo seu sogro, Winston Churchill, mas também com os Kennedy, Bill Clinton, Nelson Mandela, Frank Sinatra, Gloria Steinem ou Christian Dior. Inglesa, viveu muitos anos em Paris e depois apaixonou-se pelos Estados Unidos e em particular pelo vigor e energia de Nova Iorque e as intrigas políticas de Washington no pós-guerra. Sedutora, as suas aventuras amorosas e escapadas eróticas tornaram-se lendárias. Movia-se com habilidade e tinha muitos amigos em Hollywood, entre os quais Oleg Cassini, o estilista de Jacqueline Kennedy, que conheceu bem Pamela e faz dela este retrato: “Os homens envolvidos na política interessavam-lhe, mas como forma de acumular poder”. E foi isso o que fez ao longo da vida. “A Fazedora de Reis” é o título da sua biografia escrita por uma jornalista britânica, Sonia Purnell. Foi considerada uma das mulheres mais influentes do século XX e o seu elogio fúnebre foi proferido por Bill Clinton em 1997, num dos mais imponentes funerais a que Washington tinha assistido em muitos anos. Edição D. Quixote.




MESA DE CABECEIRA - Separados por quase cinco séculos o britânico Robert Burton, nascido em 1577, e o australiano Gerald Murnane, nascido em 1939, têm vários pontos comuns: tiveram uma vida sedentária, não viajavam, dedicaram-se com afinco à escrita e a aumentar o seu próprio conhecimento e o dos outros. Comecemos por Robert Burton e a sua “Anatomia da Melancolia”, editada na nova colecção da Quetzal, Biblioteca de Alexandria, numa tradução de Salvato Teles de Menezes. A edição é um resumo da obra que o autor nunca terminou e que já ultrapassava as 1500 páginas quando morreu. Marcada pela ironia, filosofia, pela poesia e sobretudo pela leitura de todos os livros da biblioteca de Oxford, onde trabalhava, a obra foi concebida como um ensaio que explica e  acompanha as emoções e pensamentos humanos. “Territórios de Fronteira”, de Gerald Murnane, é também uma edição da Quetzal e é o último livro de ficção do autor, que  se mantém fiel aos temas que percorrem toda a sua obra, e conta a história de um homem que muda de uma grande metrópole para uma pequena cidade remota onde pretende passar os seus últimos anos e  revisitar uma vida de observações e de leituras. 




UMA GRAVAÇÃO HISTÓRICA - Em Agosto de 1960 Oscar Peterson tinha já consolidado o seu reconhecimento como um dos mais importantes pianistas do jazz. Nesse mês fez uma série de concertos num dos palcos mais célebres de Detroit, o Baker 's Keyboard Lounge. Ao lado de Oscar Peterson no piano estavam Ray Brown no baixo e Ed Thigpen na bateria. Os cinco concertos foram gravados e a Verve editou-os já este ano, numa caixa que inclui 27 temas clássicos, de “Autumn Leaves”, que abre o disco, até “When The Saints Go Marchin’ In”, passando por “My Funny Valentine”, “Where Do I go From Here”, “Confirmation”, “Blues For Big Scotia” ou “The Touch Of Your Lips”. Duas horas e vinte de grande música gravada ao vivo onde, para além de temas do próprio Oscar Peterson, ele recria originais de John Lewis, Charlie Parker ou Benny Golson, entre outros. Mais do que uma curiosidade histórica, este conjunto de gravações revela o trio de Oscar Peterson num momento pujante da sua carreira. Disponível nas plataformas de streaming.


ALMANAQUE - Anton Corbijn fotografou ao longo de meio século nomes célebres da música, como Joy Division, U2, Tom Waits,  Rolling Stones, mas também de nomes do cinema como Martin Scorsese ou Clint Eastwood e artistas plásticos como Ai Weiwei ou Gerhard Richter. O museu Fotografiska Berlin apresenta até 20 de Setembro uma retrospectiva do seu trabalho na exposição “Corbijn, Anton” que agrupa 150 das suas obras. No Spotify há uma playlist que Corbijn fez com uma centena das suas canções preferidas.



DIXIT -  Um país que se desenvolve retém talento. Portugal exportou talento. Um país que se desenvolve aumenta produtividade. Portugal importou mão de obra para sustentar setores de baixos salários. Um país que se desenvolve cria salários altos. Portugal continuou dependente de atividades de baixo valor acrescentado. (…) E depois chamou a isso crescimento” - Pedro Santa Clara.



BACK TO BASICS - “O meu objectivo nunca foi registar os meus sonhos e sim conseguir concretizá-los”- Man Ray


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








julho 04, 2026

CHAPÉUS HÁ MUITOS


Nos dias de sol infernal um bom chapéu é meio caminho andado para o conforto. Nesses dias há poucas coisas melhores que um chapéu leve, abas largas, que faça sombra e não pese na cabeça, em suma. O célebre chapéu Panamá encaixa nesta descrição. Apesar do nome, o modelo original nasceu no Equador, onde é chamado El Fino e fabricado com a finíssima palha de uma planta local conhecida como toquilla. Levou com o nome Panamá em cima porque, numa visita ao Canal do Panamá, em 1906, num dia de calor, o presidente americano Theodore Roosevelt protegeu-se do sol com um desses chapéus. Foi aí que perdeu a nacionalidade equatoriana e ganhou fama pelo mundo fora como panamense, um autêntico toldo portátil elegante ainda por cima. É das melhores coisas que se pode usar no verão para proteger a cabeça. Mas, este é apenas um de muitos chapéus. Convém, a propósito, recordar que no filme “A Canção de Lisboa”, de 1933, o célebre e grande Vasco Santana,  depois de perder o seu “palhinha” - e por isso ser gozado por um passante -  saiu-se com esta réplica que ainda hoje faz escola: “chapéus há muitos, seu palerma!”. Os chapéus não se ficaram só pelo cinema. Também invadiram a música e poucas canções o evocam tão bem como o célebre “Papa Was a Rollin' Stone", um tema clássico da música soul, escrito por Norman Whitfield e Barrett Strong, imortalizado pelas Temptations e, mais tarde, por Marvin Gaye. Vale a pena recordar a maneira como o chapéu entrou na canção, citando estes versos, uma descrição única de quem anda pelo mundo: “Papa was a rolling stone, wherever he laid his hat was his home”.

(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMANALMENTE EM SAPO.PT)


julho 03, 2026

FRACOS LÍDERES, ENGANOS GRANDES


OS DISCURSOS POMPOSOS - Quando vejo alguns políticos a falar na televisão lembro-me sempre da Rainha Má, em “Branca de Neve e os Sete Anões”,  a ver-se ao espelho e a perguntar: “Espelho, espelho meu, quem é mais bela do que eu?” Nove décadas depois de a Disney ter feito este filme, o pequeno ecrã está cheio de imitadores da Rainha Má. São raros os políticos que conseguem evitar desempenhar este papel e Luís Montenegro não é um deles, seguindo o exemplo de José Sócrates e António Costa. A imagem é tudo o que lhes interessa. A verdade dos factos ou a realidade dos números, são coisas de somenos importância. Vem isto a propósito da ilusão que Costa e depois Montangero, coadjuvados por Centeno e Miranda Sarmento, andaram a  espalhar sobre a nossa convergência com a Europa. Bastou o INE fazer bem as contas a quantos vivemos neste rectângulo à beira mar plantado para as ilusões ruírem que nem um castelo de cartas ao ar livre em dia de ventania provocando um trambolhão do PIB. Depois deste romance aposto que vem aí outra novela, desta vez em torno do PRR. Por todo o lado surgem avisos que os prazos não vão ser cumpridos, que as obras não estão feitas. O que me espanta é que os membros do Governo, que têm numerosos assessores, não tenham percebido a verdade do que se passava. A dúvida que tenho é se os responsáveis do governo que deviam acompanhar estas áreas foram enganados, são incompetentes, ignorantes  ou querem apenas atirar-nos areia para os olhos. Numa entrevista publicada esta semana o economista Alfredo Marques, que foi alto quadro da UE, afirma que muitas decisões dos políticos “são um misto de conveniência política, de interesses próprios e de ignorância”, sublinhando que “infelizmente a qualidade dos nossos decisores é muito fraca”. E, sublinha : “uma das dimensões da má governação é a falta de credibilidade dos nossos decisores políticos e a má qualidade das políticas públicas.” Ou seja: continuamos num beco sem saída à vista.


SEMANADA - Actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década; 58% das crianças até aos 3 anos estão em creches ou amas, muito acima da média europeia, que é de 40,5%;

há 27 concelhos em Portugal onde a população estrangeira já é mais de um quinto do total de residentes; a idade média da população aumentou e  Porto Santo foi o município com maior aumento de residentes com mais de 65 anos seguindo-se Albufeira, Ribeira Grande, Santa Cruz e Vizela; Penamacor é o concelho com maior proporção de residentes com 85 ou mais anos, seguindo-se Pampilhosa da Serra e Oleiros; os novos dados do INE mostram que Portugal passa de 81% para 76,2% da riqueza média da UE por habitante e cai para a 22.ª posição do ranking; no ano passado foram vendidos em Portugal 3700 automóveis de marcas desportivas, um mercado liderado pela Porsche; a Comboios de Portugal mais que duplicou o lucro em 2025, um número que contrasta com os atrasos sistemáticos nalgumas linhas, como a de Sintra, a degradação de composições, os atrasos nas obras e o número de ligações anuladas durante as greves; em 2025, a obesidade atingia em Portugal 1,7 milhões de pessoas com 18 ou mais anos, e o excesso de peso atingia 3,8 milhões de residentes; em seis anos o Ministério Público deduziu quase 800 acusações por exploração ilegal de jogo; em seis meses as autoridades portuguesas apreenderam 41 toneladas de cocaína com valor de mercado superior a 1,5 mil milhões de euros.


O ARCO DA VELHA - 43 técnicos de saúde africanos não puderam participar numa formação em oncologia no IPO de Coimbra porque os consulados portugueses nos seus países não conseguiram processar os seus vistos em tempo útil.


 


UMA DESCOBERTA - O destaque da semana vai para a exposição “Dos Gestos e das Formas: Um Diálogo entre Coleções”, que concretiza  um reencontro entre as coleções do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC). As duas colecções  tiveram uma origem partilhada no antigo Museu Nacional de Belas-Artes, mas,  por decreto, a coleção foi dividida em 1911, criando dois museus dedicados a tempos distintos da história da arte. Esta exposição evidencia essa história comum,  através de uma escolha realizada conjuntamente pelas equipas de ambos os museus. Assim se cruzam obras de diferentes séculos, permitindo uma leitura ainda mais ampla pela integração de  obras da Coleção Fundação Millennium BCP e da doação recente da colecção Alberto Caetano. Seria exaustivo citar artistas representados, mas vale a pena referir que ao longo da exposição, entre obras do Museu Nacional de Arte Antiga, estão outras obras de nomes como Portinari, Menez, Carlos Botelho, Júlio Pomar, Fernando Lanhas, Maria Beatriz (na imagem), E um dos quadros mais importantes de Columbano que está em restauro mas exposto. Com curadoria coletiva das equipas do MNAA e do MNAC, a exposição “Dos Gestos e das Formas” está patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, Rua Serpa Pinto 4, até 20 de Setembro. 




ROTEIRO - Actualmente em Lisboa existem quatro galerias focadas em mostrar fotografia, uma realidade bem diferente do que acontecia há uns anos. São elas A Pequena Galeria, a Narrativa, a Ochre Space e a Lumina, que é a mais recente das quatro. Já na semana passada falei da exposição “Maputo Diary”, que está até 1 de Agosto na Narrativa (Rua Dr. Gama Barros 60), mas volto a destacar  este trabalho. Maputo Diary, de Ditte Haarløv Johnsen, é uma das melhores exposições de fotografia dos últimos tempos em Lisboa, um conjunto de imagens fortes que permitem traçar um percurso que mistura o afectivo com o documental , numa montagem muito boa e invulgar. Outra exposição que destaco é “Ocean Spray”, de João Mariano,  que está até 12 de Setembro na Lumina (Rua Actor Vale 53). O autor apresenta 17 obras realizadas no sudoeste de Portugal, com o pano de fundo do mar vicentino (na imagem). João Mariano tem desenvolvido um trabalho assinalável em fotografia e na edição de livros e esta é a primeira apresentação desta nova série “Ocean Spray”, que o autor classifica como um trabalho em curso. E na Ochre Space, até dia 4 pode ainda ser vista a exposição “Mongolian Horse In North Wind” do fotógrafo chinês Wang Zhengping (Rua da Bica do Marquês 31, à Ajuda). Finalmente A Pequena Galeria fica na Avenida 24 de Julho perto do Mercado da Ribeira e teve até há poucos dias uma exposição de Vasco Grilo.




QUEM ERA CERVANTES? - Aqui está uma biografia inesperada de Miguel de Cervantes que nos dá uma outra leitura da vida do autor de D. Quixote. Intitulada “Cervantes Íntimo - Amor e Sexo nos Séculos de Ouro”, de José Manuel Lucía Megías, professor da Universidade Complutense de Madrid e um dos mais respeitados estudiosos de Cervantes. O autor faz-nos descobrir a vida de Cervantes  desde o seu papel na Batalha de Lepanto ou no seu cativeiro em Argel, até às muitas especulações sobre a sua vida romântica e sexual. O livro aborda os mitos em torno de Cervantes, os seus vícios públicos e privados, a forma como foi marginalizado e como era o sexo na sua época, desde o cavaleiro andante sodomita, as suas amantes, a dúvida sobre se era heterosexual, num retrato da complexa sexualidade de Cervantes. É um livro inesperado, mas divertido. Edição Quetzal.




MESA DE CABECEIRA - Duas abordagens bem diferentes para quem tem o desejo de escrever e ser publicado. Em “Escrever - Memórias: como a escrita moldou a minha vida”, Stephen King partilha histórias da sua vida enquanto escritor e oferece conselhos a todos quantos querem sentar-se em frente a uma folha branca e começar a escrever. «Se quer ser escritor, há duas coisas que tem de fazer acima de tudo: ler muito e escrever muito”, afirma o autor de livros como “The Shining” e “Misery”. King fala sobre o desenvolvimento do enredo e a criação de personagens e sublinha que não há diferença entre a história pessoal e a história profissional: “viver e escrever são uma e a mesma coisa.”. Edição Bertrand. O outro livro é “A Palavra Mágica”, de Isabel Allende. São dela estas palavras: «A literatura é mágica: montar uma história é um processo misterioso, orgânico, instintivo. Ao escrever, entro na dimensão dos sonhos, da intuição, das premonições; aí, devo render-me e deixar que as personagens façam o que têm de fazer e que a história se conte por si. Passo a maior parte do tempo sozinha e em silêncio, como um monge em clausura. Escrever é como meditar. Na solidão, recordo, ouço vozes, tenho visões. Quanto mais calada estou, mais ouço e mais vejo. No silêncio da escrita, às vezes, sou visitada por espíritos – ou serão musas? Sinto-o como um toque na nuca. Ao escrever, transformo-me em médium. Para mim, a escrita não é uma opção, é um vício.» Edição  Porto Editora.




O GRANDE WAITS - “Where The Willow And the Dogwood Grow” é uma homenagem ao talento de Tom Waits e às grandes canções que fez, muitas delas em parceria com a sua mulher Kathleen Brennan. Esta compilação reúne quase duas dezenas de versões das suas canções, desde “The Jersey Girl” interpretada por Springsteen, que abre o álbum, até “Day After Tomorrow” por Joan Baez, passando por Johnny Cash com “Down There By The Train”, em cujos versos se encontra o título desta compilação. Aqui não há inéditos, mas apenas uma compilação bem organizada pela Ace Records que mostra a diversidade do panorama musical explorado por Waits na música popular, dos blues ao jazz, passando pelo vaudeville e o folk. Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson,  Lucinda Williams Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond, Los Lobos, Bob Seger, Norah Jones e  Ramones estão entre os intérpretes escolhidos para esta compilação, editada em CD e disponível em playlist nas plataformas de streaming.



ALMANAQUE - Se ficar em Lisboa no fim de semana as galerias de arte da zona da Estrela e Rato promovem sábado dia 4, entre as 15 e as 19h, a quinta edição do Passeio da Estrela, com inaugurações, visitas guiadas, palestras, e outros eventos especiais, uma oportunidade para ver arte contemporânea. As galerias participantes são a 3+1 Arte Contemporânea, a Consonni Radziszewski, a Cristina Guerra Contemporary Art, a Encounter, a Jahn und Jahn, a Monitor Lisbon, a No-No, a Galeria Pedro Cera e a Galeria Miguel Nabinho.

 

DIXIT - “Abdicar do poder é a coisa mais difícil que há” - Henrique Raposo


BACK TO BASICS - “A política é a arte de se servirem das pessoas, fazendo crer que as estão a servir a elas” - Louis Dumur.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








junho 27, 2026

O QUE NOS DIZEM AS PEDRAS?


Quando  percorro devagar as estradas estreitas do interior gosto de ver a paisagem, a linha do horizonte desenhada pelas árvores, pelos desníveis do terreno, pelos arbustos e folhagens, pelas mil e uma coisas que existem à nossa volta e que muitas vezes não vemos. Aqui e ali saltam pedras que marcam a terra de forma única. Volta e meia páro para as ver mais de perto. Quando se olha com atenção para pedras de grandes dimensões, como esta, tem-se a sensação de que elas têm dentro de si a sabedoria do mundo. São testemunhas do passar do tempo. À sua volta tudo muda, mas elas continuam a marcar o espaço, a sinalizar o território. São como faróis, dão-nos um ponto de referência, obrigam a estrada a contorná-las, ficam ali vigilantes. Sócrates, o filósofo grego e não qualquer outro, dizia que nós, em vez de tropeçarmos nas pedras que aparecem no caminho, as devíamos usar para construir escadas que nos levem onde desejamos. O filósofo está pois sintonizado com aqueles que dizem que as pedras simbolizam resistência e superação dos obstáculos. Existe nas pedras uma beleza selvagem, quer estejam em bruto quer depois, quando são  trabalhadas, e são parte de algo de novo. Há uma frase, frequentemente citada, que resume a situação: “Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo".


(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)


junho 26, 2026

A REALIDADE E A FICÇÃO MADE IN MONTENEGRO


A PAISAGEM DEVASTADA - O PSD foi a Congresso uns dias depois de Hugo Soares ter anunciado que metera o Chega no bolso e um dia depois de o Chega o ter desmentido. Este é o estado do país que temos, mas, pior um pouco, o retrato do partido que nos governa, dividido entre a participação do estado em empresas privadas e  reformas por fazer em sectores cruciais como justiça, saúde ou educação. Este PSD, tem no comando descendentes e cúmplices de Rui Rio, gente que andou anos a manipular votos partidários e cujo programa é apenas tomar o poder, conservá-lo e distribuir prebendas. As medidas que tomam são pensadas em termos de captação de eleitores, não há uma estratégia para o país. Na semana passada Montenegro anunciou num discurso em Aljustrel que a saúde financeira de Portugal faz com que outros países da União Europeia fiquem verdes de inveja. Não mencionou o facto de o poder de compra das famílias portuguesas ser o 6º mais reduzido da UE ou de o PIB per capita português em 2025 ter sido inferior ao de países como a Eslovénia, Chéquia, Estónia e Lituânia e menos de metade do PIB per capita da Dinamarca e Países Baixos. Também não referiu que a inflação já vai a 3,3% e que os custos de energia e de comida estão respectivamente 13,1% e 36% acima dos valores de 2022. Esqueceu-se de dizer que o custo da habitação mais que duplicou na maior parte das cidades portuguesas desde 2017 e que Lisboa é a capital de um país da União Europeia onde o custo da habitação ocupa a maior fatia do rendimento dos arrendatários com um salário médio. Também não refere que um em cada três portugueses está abaixo do limiar da pobreza quando se consideram os custos de habitação. Não recorda que os excedentes orçamentais se devem à política de cortes nos serviços públicos iniciada por Centeno no Governo do PS e que este PSD tem mantido, até ao ponto de se passar o que conhecemos no funcionamento da administração e serviços públicos. Vista de cima a economia parece uma linda paisagem, mas quando se desce à terra e se tem de viver com salários baixos essa paisagem fica devastada.


SEMANADA - Em 2025, a produtividade por hora foi 66,8% da média europeia, um valor abaixo do obtido em 2024; actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década; 58% das crianças até aos 3 anos estão em creches e amas, muito acima da média europeia, que é de 40,5%, passando muito menos tempo com os pais do que em outros países da UE; famílias sobre endividadas estão a pedir cada vez mais crédito pessoal para fazer face as despesas básicas; este ano já morreram quatro crianças vítimas de violência doméstica; segundo o INE, em final de 2025 havia 11,4 milhões de residentes em Portugal, 14% dos quais estrangeiros e a idade mediana da população aumentou para 45,8 anos; no aeroporto de Lisboa o número de passageiros que entram no país de origens não Schengen é já superior ao total de passageiros de cidadãos que vêem do espaço Schengen;  até ao passado dia 10 de junho o filme português mais visto do ano foi ‘Projecto Global’  de Ivo M. Ferreira, com 9600 espectadores desde a estreia no final de Abril;  os 29 filmes portugueses que já passaram pelas salas em 2026 conseguiram um total de 51 655 espectadores;  as receitas de jogo online cresceram 13,7% no primeiro trimestre para 323,7 milhões de euros; o número de reclamações sobre o funcionamento de TVDE’s e táxis em 2025 aumentou 25% em relação ao ano anterior; no Algarve vão abrir 13 novos hotéis de luxo nos próximos três anos; o valor médio do crédito à habitação duplicou nos últimos dez anos.

 

O ARCO DA VELHA - Os adolescentes portugueses estão entre os que mais tempo gastam na União Europeia à frente de ecrãs durante o fim de semana, acima das seis horas.




A FORÇA DA PALAVRA  - Jenny Holzer é uma artista americana que usa a linguagem - as letras e as palavras - como suporte das suas obras que surgem quase como slogans. O seu percurso artístico data de finais dos anos 70, ganhou notoriedade nos anos 80 e é centrado em encontrar formas de difusão das suas frases em ambiente público que levem quem as vê a pensar no significado que podem ter. Distinguiu-se por usar suportes normalmente associados à publicidade, como cartazes de rua, inscrições electrónicas em ecrãs LED, sites da internet, inscrições em pedra ou bronze e projecções de grande dimensão. Mas também colocou as suas palavras na Internet, em t-shirts do actor Will Smith e até num automóvel de competição da BMW, a pedido da marca. A obra de Jenny Holzer é apresentada pela primeira vez em Serralves com a exposição “Wrong Answers”, que vai estar patente até 1 de Novembro, e que teve curadoria de Philippe Vergne, o Director do Museu de Serralves que está de saída para o Bass Museum of Art em Miami. “Wrong Answers” percorre a trajetória da carreira de Holzer, desde as primeiras séries de textos, como “Inflammatory Essays”, até às explorações mais recentes usando diversos materiais e formas, A exposição inclui duas colaborações com o artista de graffiti portuense Kilos, que trabalhou sobre os cartazes de “Truism,” a obra que marcou o início da carreira artística de Holzer de 1977 a 1979. Utilizando preferencialmente letras maiúsculas e frases curtas, Holzer demonstra como as palavras podem amplificar percepções e atitudes, mas também perder o seu valor e impacto quando se vulgarizam. A exposição apresenta algumas das séries mais famosas de Holzer como as  já citadas “Truisms”, e “Inflammatory Essays” e outras mais recentes como “Living”, “Survival” ou “Laments”.





ROTEIRO - No Palácio Duques de Cadaval, em Évora, está patente a exposição “Índia”, que apresenta 90 obras, de mais de 20 artistas indianos contemporâneos provenientes dos mais diversos contextos culturais e que pode ser vista até 25 de Outubro. Na imagem está uma obra de T. Venkanna, “Fruitless”, de 2019.  Com curadoria de Hervé Perdriolle, a exposição leva até ao Palácio Duques de Cadaval um diálogo entre culturas e teve o apoio, de entre outras entidades, da Kalhath Foundation, da Embaixada da Índia em Portugal e da Embaixada de Portugal na Índia. A exposição pode ser visitada até 25 de Novembro no Palácio Duques de Cadaval, Rua Augusto Filipe Simões, Évora, de terça a domingo entre as 10 e as 18h. Em Lisboa a galeria Narrativa (Rua Doutor Gama Barros 60, junto à Avenida de Roma) apresenta  até 1 de Agosto a exposição de fotografia “Maputo Diary” , um testemunho sobre o dia a dia na capital moçambicana feito ao longo de duas décadas pela pela fotógrafa e cineasta dinamarquesa Ditte Haarløv Johnsen




UM GUIA DO MUNDO -  Este é um dos mais deliciosos livros que li nos últimos tempos e um dos que me mais me ensinou. Chama-se “Atlas de Lugares em Extinção” e leva-nos a conhecer, com textos, mapas e ilustrações, cidades soterradas sob a poeira de terras ou submersas em rios e mares que alteraram a paisagem ao seu redor, por lugares que aparentemente desapareceram, sem deixar vestígios, depois de uma catástrofe natural, de uma guerra ou da erosão natural do tempo e da demografia. O livro está dividido em várias secções: “Cidades Antigas” evoca por exemplo Xanadu, na Mongólia, nas “Terras Esquecidas” está a Cidade dos leões, na China, em “Locais Em Contracção” está o Rio Danúbio, na Europa e em “Mundos Ameaçados” surge Veneza e a Grande Muralha da China. Ao todo são descritos 37 locais que nos apetece conhecer à medida que se lê este livro. “Atlas de Lugares Em Extinção” foi Vencedor do Prémio de Livro Ilustrado do Ano pelo Edward Stanford Travel Writing Awards 2020 e o seu autor, Travis Elborough, um escritor britânico, mostra esses locais como eles eram antigamente e como eles se revelam hoje: um guia fascinante de terras perdidas que nos fala sobre a fragilidade da nossa relação com o mundo e a história. Com o autor visitamos cidades antigas – entre elas Alexandria, um dos berços da humanidade, a cidade maia de Palenque, um centro de civilização e poder, ou Petra, na Jordânia, que John William Burgon descreveu como «uma cidade rosa e vermelha tão velha quanto o tempo» – mergulhamos em mistérios como o de uma ilha japonesa desaparecida e exploramos terras esquecidas como Port Royal, na Jamaica, a «Cidade Mais Perversa do Mundo». Edição Quetzal.


 


MESA DE CABECEIRA -Dois momentos e duas visões bem diversas de europas, elas próprias bem diferentes. Jaime Nogueira Pinto propõe no seu novo livro, “Valores Europeus”, uma revisitação de três milénios de percurso europeu para tentar responder a uma questão que é cada vez mais enigmática: o que são hoje os muito invocados valores europeus? O ensaísta passa pela mitologia, o império Romano, a idade média, o pensamento de nomes como Maquiavel, Shakespeare, Cervantes e Camões, a revolução francesa, o fascismo, o comunismo, as batalhas actuais entre soberanistas e globalistas, populistas e tecnocratas, a tensão entre a fé, pertença e liberdade individual, percorrendo as referências que fizeram da Europa um espaço único. Edição D. Quixote. O outro livro aborda uma época da História da Europa, o conflito entre Cartago e o Império Romano. Eve Mac Donald, Professora de História Antiga em Cardiff  escreveu “Cartago, O Império Que Desafiou Roma”. A autora defende que sem Cartago, reino do Norte de África, Roma não teria existido com o poder que teve. O livro ajuda a perceber como era Cartago, uma civilização injustamente esquecida, e guia-nos com informações sobre  a sua significação política, económica e cultural. A vitória de Roma apagou a história dos cartagineses, essa civilização, defende a autora, injustamente esquecida. Um livro Bertrand editora.



ALMANAQUE - Até 27 de Setembro, se for a Madrid, não deixe de visitar “Prado, Siglo XXI”, a exposição criada para mostrar o que o célebre museu fez nos últimos 25 anos, desde novas obras que adquiriu até à evolução permanente evidenciada através das suas exposições. A mostra está centrada em apresentar o progresso que o Prado fez desde que em 2003 foi aprovada a sua autonomia de funcionamento. Um bom exemplo que há muito se reivindica que seja seguido em Portugal.


DIXIT - “Futebol e língua estão ligados pela combinação de um falso patriotismo que contém apenas a boçalidade do momento, e que se extingue quando se perde um jogo” -  José Pacheco Pereira


BACK TO BASICS - “Se a vida nos dá limões, o melhor é aprendermos a fazer limonada” - provérbio cubano, citado pelo escritor Leonardo Padura no seu livro “Morrer na Praia”.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS












junho 20, 2026

AS CORTINAS E OS SINAIS DOS TEMPOS


Existem várias teorias sobre a utilidade das cortinas. Para algumas pessoas são apenas uma peça decorativa, para outras uma forma de controlar a luz, para outras ainda a melhor forma de evitar olhares indiscretos. Nalguns casos, e dependendo dos materiais, podem ser um isolante acústico ou térmico. Podem ser pesadas e opacas, leves e translúcidas.  O grau de liberdade das cortinas é grande. Tão grande que há outras cortinas, como as que aqui estão, que se usam no exterior e que servem para evitar a entrada num espaço de visitantes indesejados, como moscas ou até pássaros. Há uns anos era frequente vermos essas cortinas, feitas por fiadas de metal ou de fitas plásticas, que se afastavam para o lado com facilidade, para as pessoas passarem e a bicharada não entrar. Com o andar dos tempos foram-se perdendo, agora  quase já não se vêem nas grandes cidades, só se encontram ainda nas vilas e aldeias do interior. E, claro, há montes delas em sites, do Temu à Amazon, em materiais que vão do alumínio ao bambu e em diversas cores. Eu acho graça a estas cortinas verticais, que funcionam graças à gravidade, que as mantém esticadas. Gosto do movimento de as abrir com a mão, de as sentir a enrolarem-se à volta do corpo, fechando-se de novo logo a seguir. São cortinas sábias, impedem os indesejáveis bicharocos de as atravessar, mas permitem que o ar circule.Talvez por isso foram desaparecendo nestes tempos do ar condicionado, quando as portas ficam fechadas para não deixar sair o fresco. Sinais dos tempos…

(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)


junho 19, 2026

AS PORTAS ESCANCARADAS DE MONTENEGRO


DALTONISMO GALOPANTE - Tenho constatado que o Primeiro-Ministro e o seu círculo mais próximo foram acometidos de um surto galopante de daltonismo. Trocam as cores todas, e das ideias já nem falo. As linhas vermelhas esbateram-se tanto que agora, são meras recordações no horizonte. O Chega tomou conta do asilo com rapidez, aproveitando as portas escancaradas que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro lhes abrem. Estes três nomes são os porteiros de serviço, às ordens de Ventura. Montenegro fala, Soares manda e Amaro incentiva. Este trio criou pacientemente uma nova geringonça. Mas há uma diferença fundamental: enquanto Costa criou a geringonça para, pelo caminho, esvaziar os partidos à sua esquerda, Montenegro está a encher quem está à sua direita. É certo que o PS fez tudo para alimentar o Chega, na esperança de apoucar o PSD e Montenegro está a engordar Ventura ainda mais. O fim desta dieta adivinha-se: o Chega continuará a engordar e o PSD a emagrecer. Se repararmos bem o impulso definitivo para o PSD aprovar as medidas mais radicais que preconiza, na RSU ou nas leis da imigração, vem sempre do Chega, que consegue sempre um  ir além do que o Governo anunciava que iria dar. Montenegro, que fala, fala e diz pouco, afirma que este Governo é o mais reformista quando na realidade, é cheguista.  O que o seu Governo consegue concretizar precisa da benção de Ventura. Basta ver o que se passa com a legislação laboral e a forma como o líder do Chega aproveita para fazer campanha sobre a descida da idade da reforma e o aumento do número de dias de férias anuais. Ou seja: já está em campanha para nas próximas legislativas ser ele a substituir Montenegro. Em vésperas do congresso o PSD alinhou na geringonça do Chega.


SEMANADA - Partidos e movimentos políticos representados na Assembleia da República devem 1,4 milhões em coimas, mas as autoridades não revelam quem foi multado nem o valor de cada um em dívida; nos últimos dez anos disparou a presença de alunos estrangeiros nas escolas públicas, que agora são 15% do total de matriculados, com o Brasil em primeiro lugar com 47% do total; um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa indica que dois terços dos portugueses consideram que a imigração tem efeitos positivos na economia; 4300 condutores portugueses ficaram sem carta de condução nos últimos dez anos devido ao sistema da carta por pontos; na noite de Santo António, a  GNR deteve nas vias rápidas de acesso a Lisboa, em 4 horas, 66 condutores embriagados; 91 em cada 100 famílias residentes em Portugal tem TV cabo e o número total de assinantes residenciais é de 4,1 milhões; na Damaia foram detidos dois homens que estavam a desmontar e roubar portas de prédios; 16.6% é a taxa de risco de pobreza em Portugal após transferências de apoios sociais; em 2024 dois milhões de pessoas estavam em risco de pobreza ou exclusão social; o preço da sardinha na lota é o dobro do verificado em 2025; o sistema de videovigilância e de deteção automática de incêndios rurais só cobre metade do território continental.



ARCO DA VELHA - Um agente da PSP de Angra do Heroísmo foi filmado por um traficante que era o seu fornecedor a inalar cocaína.



RELAÇÕES VIOLENTAS - “The Comfort of Strangers” é a segunda novela de Ian McEwan, editada em 1981. Em português recebeu o título “Estranha Sedução” e teve a sua primeira edição em 1991. A Gradiva lançou agora a quinta edição desta obra, que já deu um filme. O livro passa-se numa cidade que nunca é nomeada, mas sugerida, e tudo indica que seja Veneza, que foi aliás o cenário do filme. Tudo gira em torno de dois casais, Mary e Colin, que estão de visita à cidade e Robert e Caroline, que ali vivem numa relação complexa, violenta e cheia de obsessões. A escrita de Ian McEwan é fascinante, explora as relações humanas através da intimidade de um casal que expõe fragilidades, num ambiente de crescente erotismo, um romance intenso, cheio de suspense  e violência psicológica numa sucessão de jogos de poder, por vezes cruéis,  que criam dependências. Ian McEwan escreveu dois livros de contos e 17 romances, escreveu também o libreto de uma ópera e diversos argumentos originais para cinema. Edição Gradiva.





MESA DE CABECEIRA - Jorge Luis Borges morreu há 40 anos e este “O Livro dos Prólogos” é um legado que  nos deixou sobre livros e autores que amava.  Ao longo da sua vida, Borges foi um apaixonado promotor dos escritores de que gostava, muitas vezes desconhecidos dos seus compatriotas, e usou os seus prólogos não só como um texto de introdução a um livro, mas também como uma forma brilhante de crítica, contextualizando o autor e a sua obra. Nas 300 páginas desta selecção do que é a literatura segundo Borges, estão autores como William Shakespeare, Cervantes, Kafka, Herman Melville, Francisco de Quevedo, Lewis Carroll, Emerson, Ray Bradbury, Adolfo Bioy Casares, Paul Valéry, Walt Whitman, Henry James, Edward Gibbon, Thomas Carlyle ou Marcel Schwob.   Nalguns casos estes prólogos assumiram a forma mais adequada ao tema: a biografia sintética, por exemplo, onde se concentra uma obra inteira e paira uma deliciosa ironia. Edição Quetzal. “Reflexões sobre a Dor”, de Umberto Eco, tem por base um texto da lição que Eco proferiu em 2014 na cerimónia de  entrega dos diplomas da Academia das Ciências de Medicina Paliativa da Universidade de Bolonha. A dor é um termo que, no campo da medicina, é geralmente identificado como sofrimento físico, mas o seu verdadeiro significado deve ser alargado ao sofrimento emocional, espiritual, social, afectivo - esta é a base deste texto de Umberto Eco, que analisou a dor num contexto semiológico, histórico e filosófico, contextualizando a discussão em diversas situações, nas quais a palavra dor se pode libertar dos vínculos estereotipados de derivação clínica. Edição Gradiva.




O PODER DA ARQUITECTURA  - Frank Gehry, que morreu no ano passado, foi um dos mais importantes arquitectos das últimas décadas, responsável por numerosos projectos que deixaram marca nas cidades onde foram construídos, como foi o caso de Bilbao onde projetou a extensão na cidade espanhola do Museu Guggenheim. Agora podem ser vistos na Ala Siza da Fundação de Serralves 19 dos seus projectos, entre os quais, e que me lembre pela primeira vez desde há duas décadas, a sua proposta para o Parque Mayer em Lisboa, um projecto encomendado por Pedro Santana Lopes quando foi Presidente da Câmara e descontinuado por António Costa logo que chegou à autarquia. Esse projecto em exposição em Serralves (a imagem aqui mostrada é dos arquivos
Frank O. Gehry & Gehry Partners) foi desenvolvido em 2003 e 2004 e a sua construção seria financiada pelas contrapartidas do Casino de Lisboa que, depois do abandono do projecto de Gehry, foi para a Expo. Lisboa ficou sem uma obra de arquitectura de referência que poderia ter transformado aquela zona da cidade, então praticamente em ruínas. Quem visitar Serralves poderá imaginar o efeito que a proposta de Gehry teria e compará-la com aquilo que agora é. Mas adiante, o que interessa é visitar esta exposição e compreender como a arquitectura pode deixar uma marca. Entre os projetos de Gehry apresentados na exposição estão a Gehry Residence em Santa Monica;  a Loyola Law School de  Los Angeles; o Vitra Design Museum na Alemanha a Lewis Residence no Ohio o Guggenheim Museum de Bilbao, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles o ArtCenter College of Design em  Pasadena, o Parque Mayer em Lisboa, o DZ Bank em Berlim, as adegas Marqués de Riscal em Espanha, a Fondation Louis Vuitton em Paris; e a Beekman Tower / 8 Spruce, em Nova Iorque. Esta exposição “O Século de Gehry” é organizada pela Fundação de Serralves e comissariada pelo seu Diretor de Arquitetura, António Choupina, em conjunto com a Gehry Partners e  pode ser vista até 26 de dezembro deste ano. Uma nota final para destacar a inclusão na exposição da colaboração entre o arquiteto Frank Gehry e a marca portuguesa de tapeçarias Ferreira de Sá, que traduziu os traços do arquiteto em tapeçarias feitas à mão, uma colaboração que se iniciou em 2012, quando o arquiteto português Álvaro Siza apresentou a marca portuguesa  de Espinho a Frank Gehry.




ROTEIRO - “Mongolian Horse in North Wind” é o título da exposição de  Wang Zhengping, um dos mais importantes fotógrafos chineses contemporâneos, que inaugura dia 16 na Galeria Ochre Space, em Lisboa, com a presença do artista.

Nascido e criado na Mongólia Interior, Wang Zhengping dedica-se há mais de quinze anos a fotografar o cavalo mongol e as vastas paisagens da estepe que moldaram a sua vida (na imagem). Esta é a primeira vez que o trabalho deste fotógrafo é apresentado em Portugal e a Ochre Space tem programas mais três exposições que a galeria apresentará ao longo do Ano Chinês do Cavalo, celebrando a riqueza e diversidade da fotografia contemporânea chinesa e japonesa, de nomes como A.Hin, Hosoe Eikoh e Li Gang. A exposição decorre até  4 de Julho, na Ochre Space,de quarta a sábado, entre as 15H e as 18H30, na Rua Bica do Marquês, 31-A, à Ajuda.




UM QUARTETO - O saxofonista Joe Lovano  juntou-se a Julian Lage na guitarra, Asante Santi Debriano no baixo e Will Calhoun na bateria. O nome do disco é “Paramount Quartet” e além de cinco temas de Joe Lovano, inclui versões de originais de Charlie Haden (“First Song”, que abre o álbum), e de Wayne Shorter ( “Lady Day”, uma homenagem a Billie Holiday). Deve realçar-se o diálogo entre o saxofone e a guitarra que desempenham o papel principal em várias faixas, bem apoiados no excelente trabalho da secção rítmica. O disco foi gravado em estúdio a cerca de um ano e editado agora pela ECM, com produção de Manfred Eicher. Disponível em streaming.

ALMANAQUE - No Museu Bordalo (Campo Grande 382) decorre neste fim de semana de 20 e 21 mais uma edição da “Paródia no Bordalo”, que apresenta uma série de actividades, desde uma feira do livro, a oficinas artísticas, visitas guiadas à óptima exposição permanente, filmes e conversas a propósito. Entrada livre.


DIXIT - “Como está, este Estado pode ser retocado, mas não reformado. A fragmentação política reforçou o imobilismo, não o contrário. Há muitos Estados dentro deste Estado.” - Luís Marques, no Expresso.


BACK TO BASICS - “A Arte não é apenas beleza. A Arte é uma pergunta. É reflexão. É o contraste. É uma revolução. É uma tensão entre o que sabemos e o que intuímos.(…) Precisamos de continuar a procurar a beleza. Mas também a verdade.”- António Banderas , para o Papa Leão XIV.



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS