UMA TERRA DESOLADA - Passei a última semana como se estivesse num sonho mau: vivia numa terra desolada onde quem devia dar o exemplo não o fazia, onde a mentira era o idioma de quem governava e onde a responsabilidade era uma palavra desconhecida. Ouvi membros do Governo culparem as vítimas, seus concidadãos, por erros que eles próprios cometeram. Assisti à arrogância de quem não quer perder os seus poderzinhos. Vejo os principais indicadores sobre o país, a nível político, social e económico a degradarem-se. Sei que não é de agora, que o mal vem de várias governações, de quem pensa mais em si próprio do que nos outros, de quem, ao longo das duas últimas décadas, pensou mais em servir-se do que em servir. Nem os que antes estiveram no poder, nem os que agora lá estão, têm coragem de assumir os erros e tentar encontrar a origem dos problemas para depois encontrarem soluções. Usam remendos, tapam o sol com a peneira e não conseguem sair da encruzilhada onde se colocaram. E, no entanto, o que mais revolta é que este país podia ser bem melhor. Cito estas palavras de Carlos Rodrigues no “Correio da Manhã”: “O Estado precisa de um reformador - não de grandes medidas pomposas e inúteis. (...) Esta é a proposta política que falta em Portugal. Não de uma tonta digitalização dos serviços. Uma mudança de mentalidade. Menos inteligência artificial e mais inteligência humana”.
SEMANADA - Os roubos feitos por carteiristas em Lisboa tiveram um aumento de 10% até junho, em relação ao mesmo período do ano passado; segundo a Marktest existem em Portugal 3,7 milhões de assinantes de plataformas de streaming para televisão; os maiores compradores de casas na Avenida da Liberdade, onde o metro quadrado vale 18 mil euros, são chineses; o preço mediano das casas em Portugal atingiu 2.337 euros por metro quadrado no primeiro trimestre, com menos transações mas valores de venda cada vez mais elevados; entre os 24 municípios com mais de 100 mil habitantes, 13 tiveram subidas acima da média, destacando-se Guimarães com 41,9% e Vila Franca de Xira com 32,2% de aumento; um relatório recente da Comissão Europeia indica que a taxa de IVA de 23% em Portugal é a segunda mais alta da União Europeia, apenas ultrapassada pela Hungria com 27%; o número de visitantes estrangeiros de museus portugueses subiu de 3,2 milhões em 2012 para 9,4 milhões em 2024; no ano passado, o valor global dos levantamentos efetuados nos terminais de caixa automática da rede Multibanco diminuiu 4,6%, para 28,7 mil milhões de euros; das 18.758 camas previstas para alojamento de alunos do ensino superior apenas 5014 estão efectivamente prontas e 60% dos projectos continuam por concluir; Portugal é dos países da OCDE onde a satisfação é menor em relação aos serviços de educação pública.
O ARCO DA VELHA - As perdas de água nas redes de abastecimento de todo o país equivalem a 185 piscinas olímpicas por dia.
A BELEZA DA IMPERFEIÇÃO - No Museu de Serralves está exposta até meados de Janeiro, na Ala Álvaro Siza, a exposição “Alice Neel: Beautifully Imperfect”, que traz pela primeira vez em Portugal o trabalho um dos mais importantes nomes da pintura americana do século XX, mostrando os retratos profundamente humanos da artista. A exposição apresenta 90 obras, a que se soma vasta documentação do arquivo da artista. “Alice Neel: Beautifully Imperfect” está organizada em torno das grandes preocupações de Neel, cujo talento artístico singular só foi reconhecido tarde na sua vida: a intimidade, o corpo feminino, a maternidade, o envelhecimento e a vida das comunidades marginalizadas, entre as quais ativistas queer, imigrantes e os seus vizinhos do Harlem espanhol. A exposição tem curadoria de Inês Grosso e reúne empréstimos de instituições como a National Portrait Gallery, em Washington D.C., ou o Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, oferecendo um panorama da carreira de Neel, desde as suas primeiras experiências expressionistas até aos retratos do seu período de maturidade. A curadora teve ainda a ideia de pedir a uma série de artistas portugueses que escrevessem uma carta dedicada a Alice Neel e que estão junto do auto retrato de Alice Neel que abre a exposição. A exposição inclui uma extensa secção dedicada à documentação, reunindo cartas, fotografias, recortes de imprensa e materiais de arquivo raramente apresentados ao público e que permitem enquadrar a produção artística de Neel no seu contexto social, político, familiar e emocional.
ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição de trabalhos feitos já neste século por criadores portugueses de marionetas (na fotografia). A exposição pode ser vista até 27 de Setembro no Museu da Marioneta, em Lisboa, e assinala os 25 anos de existência daquele equipamento cultural. A exposição reúne o trabalho de um conjunto de artistas que tem marcado a arte da marioneta em Portugal, muitos dos quais contam com cerca de 25 anos de percurso dedicado à construção e manipulação destas figuras. Mais sugestões: “Domingos Dias Martins, Fotógrafo de gentes e de pedra do Gerês transmontano”, no Centro Cultural de Cascais; no Centro de Arte Manuel de Brito (Campo Grande 113) está patente uma exposição de homenagem à pintora Menez, para assinalar o centenário do seu nascimento e que inclui meia centena de obras da colecção Manuel de Brito; em Coimbra, no Museu Municipal, está até 30 de Agosto a exposição “Contraponto “ reúne obras de artistas representados pela Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, de Lisboa, com curadoria de João Silvério.
POLICIAL À MODA DE ITÁLIA - Um misterioso desaparecimento ocorrido num luxuoso local da Riviera italiana é o tema de “Portofino Blues”, do romancista Valerio Aiolli. Vamos a factos: na segunda-feira, 8 de janeiro de 2001, por volta das 19 horas, a Condessa Francesca Vacca Agusta, figura de longa data da alta sociedade italiana e internacional, desapareceu no jardim da sua luxuosa Villa Altachiara, em Portofino. Nessa noite, iniciou-se uma investigação que ocupou jornais e programas televisivos. Apenas cerca de vinte dias depois o seu corpo foi encontrado no mar, a poucos metros de uma baía na Riviera Francesa. Valerio Aiolli escreveu este romance como se estivesse a reconstruir como um puzzle esta história intrincada e nunca totalmente explicada de amor e desilusão, drogas e heranças milionárias, alternando os pontos de vista das personagens principais envolvidas, as declarações que fizeram e os artigos que cobriram a história. “Portofino Blues” apanha não só a história da condessa, cuja ascensão para a fama através do casamento culmina numa vida de excessos e na sua morte misteriosa, mas também a história industrial, política e social de Itália. Um belo policial para levar de férias. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Começo por um livro onde se aprendem curiosidades da História e da Geografia de modo divertido. Por exemplo: sabe que existe um país que, na verdade, é um rio? Qual a fronteira mais alta do mundo? Que países desapareceram? Que continentes foram perdidos ao longo dos séculos? “Os Países Que Quase Existiram” é uma obra de Gil Mendes da Costa que se propõe enumerar factos e curiosidades, incluindo sobre a História e a Geografia de Portugal. Gil Mendes da Costa, é conhecido por General Knowledge no Youtube, onde tem quase 1 milhão de seguidores. No final o livro tem umas palavras cruzadas que testam a atenção do leitor e um questionário de cultura geral bem divertido. Edição Contraponto. O outro livro é a história de como Cleópatra subiu ao trono no Antigo Egipto aos 18 anos e se transformou numa das figuras mais célebres da Antiguidade. “Cleópatra”, de Christian-Georges Schwentzel, é um percurso sobre a história da última rainha do Egipto (69-30 a. C.) e do próprio Antigo Egipto. O livro aborda Cleópatra como uma astuta estratega política, que fez reformas económicas audaciosas. E, claro, relata como a lenda de Cleópatra evoluiu ao longo dos séculos, desde os autores latinos que moldaram a figura da sedutora fatal até às reinterpretações culturais de Hollywood ou do mundo árabe. Edição Guerra & Paz.
RARIDADES DE MILES DAVIS - 1956 foi um ano decisivo para Miles Davis, na altura com 30 anos. A colectânea “Miles 56’: The Prestige Recordings”, percorre as sessões de estúdio que deram origem a quatro dos mais importantes discos da história do jazz: “Cookin' “ “Relaxin' “, “Workin' “ e “Steamin' “. Nestas gravações surge o lendário First Great Quintet, onde Miles Davis tocou com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. Nalgumas gravações desta colectânea tocam também nomes como Sonny Rollins, Tommy Flanagan e Art Taylor, todos representantes de uma geração de inovadores num momento especial do seu desenvolvimento musical. A colectânea inclui interpretações de standards como “My Funny Valentine”, temas de Miles como “Four” e “Half Nelson” ou “Oleo”, de Sonny Rollins. Todas estas gravações, feitas em maratonas no célebre estúdio de Rudy Van Galder, destinavam-se a cumprir o contrato com a Prestige, antes de iniciar a sua relação com outra editora discográfica, a Columbia. De notar ainda gravações em que Sonny Rollins tocou, nomeadamente “Vierd Blues”, “No Line” e uma versão arrebatadora de um original de Dave Brubeck, “In Your Own Sweet Way”. A colectânea inclui 29 temas, quase três horas de grande música. Disponível nas plataformas de streaming e numa edição especial com textos inéditos que ajudam a enquadrar o contexto histórico destas gravações.
ALMANAQUE - Encerrado para obras de renovação há um ano e meio, o Museu Gulbenkian já reabriu, coincidindo com o 70.º aniversário da Fundação Gulbenkian. Construído em 1969, o Museu foi alvo de uma renovação importante que permite acolher melhor a colecção de Calouste Gulbenkian, cerca de seis mil obras que vão desde o antigo Egipto ao século XX. A exposição montada para esta reabertura tem cerca de mil obras e foi já concebida pelo novo Director do Museu, Xavier S. Salomon, que veio da Frick Collection em Nova Iorque. O Museu Gulbenkian está aberto todos os dias excepto terça entre as 10 e as 18, com fecho tardio ao sábado às 21h.
DIXIT - “Proponho a digitalização do ministro Fernando Alexandre. Espalma-se o ministro num scanner, e digitaliza-se. Envia-se para professores e eles corrigem. Pode ser que o resultado seja superior à versão analógica, que não se deixa emendar”- Ricardo Araújo Pereira, no Expresso.
BACK TO BASICS - "A coisa mais valiosa que um homem tem é a sua capacidade de insatisfação" - Ortega Y Gasset.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS