(pensamentos ociosos, sempre à sexta, em sapo.pt)
A Esquina Do Rio
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
agosto 08, 2026
SOBRE ECLIPSES
agosto 07, 2026
O REI DA CAPOEIRA
O GALARÓ - Luís Neves mostrou finalmente o que é e como pensa na conferência de imprensa que deu na semana passada. Não vou falar sobre a capacidade mutante do tanque, nem da epopeia do atrelado com bidons. Foco-me apenas na tal conferência de imprensa, onde o mais grave foi a forma como Luís Neves se posicionou, tal galaró no poleiro. O que ouvi não foi um Ministro de um governo de uma democracia, mas sim um homem autoritário, auto-centrado, e perigosamente crente de que os fins justificam os meios, a mais perigosa das convicções, responsável por muitas desgraças ao longo da História. Luís Neves apresentou-se orgulhoso por não cumprir os procedimentos, legais e éticos a que alguém na sua posição está obrigado e invocou desconhecimento de coisas que fazem parte do mínimo de observância da Lei. Há uma frase que marca o homem: “Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem”. Ou seja, é o próprio Luís Neves que define o bem, é o próprio que defende ser juiz em causa própria, é o próprio que afirma poder fazer o que considera certo, mesmo que não cumpra procedimentos básicos da gestão da coisa pública e desrespeite o Tribunal Constitucional na entrega de declarações obrigatórias. Uma pessoa assim não tem lugar no Governo de uma democracia. A principal razão pela qual Luís Neves não pode continuar Ministro é que não é bom sinal ter no Governo alguém que se considera superior à lei, que julga em causa própria e que defende que vale tudo para obter resultados. Os partidos da AD vão muito mal quando negam uma audição parlamentar, colocando-se do lado de quem claramente cometeu abusos de poder, acabando por lhes dar cobertura. Luís Neves mostrou na conferência de imprensa um pensamento próprio perigoso que levanta uma questão: queremos ter à frente das polícias um homem que acha que pode cortar as curvas no exercício da autoridade e que olha displicentemente para o cumprimento da Lei? Luís Neves é muito mais perigoso do que se pensa e está longe de ser o impoluto servidor público que alguns apregoam..
SEMANADA - Segundo a Marktest os portugueses fizeram mais de 10,6 milhões de downloads de podcasts em Junho; ainda segundo a Marktest as cinco estações de rádio mais ouvidas são, por esta ordem, Rádio Comercial, RFM, M80, Rádio Renascença e Antena Um; a TSF, no 8º lugar, continua à frente da Rádio Observador, que está no nono lugar.; a CMTV é o canal de cabo mais visto desde há 52 meses; segundo a Marktest no primeiro semestre deste ano dois em cada três minutos de emissão da RTP1, RTP2, SIC e TVI foram de programas produzidos em Portugal, que representaram 70% do tempo de exibição, num total de mais de 12 mil horas; no mesmo período a RTP2 foi o canal com a grelha mais diversa, com 51.3% de programas de produção nacional e 25.5% de outros países da União Europeia; na RTP1 a programação nacional teve um peso superior, de 82.7%, seguida da TVI, com 76.7% e da SIC, com 68.8%; a SIC foi o canal que exibiu mais programas produzidos no Brasil, que representaram 4% da sua grelha, 4 vezes acima da média total; no primeiro semestre deste ano o investimento publicitário em Portugal cresceu 8,7% para 309 milhões de euros; o maior crescimento verificou-se na rádio, com 19,3%, seguido do digital com 12,2%, da publicidade exterior com 8,7% e da televisão com 5,7%; a imprensa diminuiu 0,4% no mesmo período; 55% dos alunos do 9º ano tiveram negativa a matemática.
O ARCO DA VELHA - Nos primeiros seis meses do ano, foram detidas quase 1500 pessoas pelo crime de violência doméstica.
REGRESSAR AO MUSEU GULBENKIAN - Durante mais de meio século, guiado essencialmente pelo seu gosto pessoal, mas com aconselhamento dos maiores especialistas do seu tempo, Calouste Gulbenkian reuniu uma das mais importantes colecções de arte privadas do mundo, com cerca de seis mil obras. Esta colecção ficou em Portugal depois da sua morte em 1955, inserida na criação da Fundação Gulbenkian. Calouste Sarkis Gulbenkian um engenheiro de petróleos de origem Arménia que fez fortuna com o desenvolvimento da exploração petrolífera no Médio Oriente, vivia em Londres e veio para Lisboa em 1942 no contexto da II Guerra Mundial e aqui viveu até à sua morte. A Fundação Gulbenkian, que comemora este ano 70 anos de existência, apresenta no seu renovado Museu, que alberga a colecção do fundador, um conjunto de cerca de mil obras, distribuídas por um percurso que começa no Antigo Egito, passa pelo Mundo Islâmico, pela China e pelo Japão, e termina na Europa, com obras desde o século XII ao século XX, como este quadro de Édourd Manet, “As Bolas de Sabão”, de 1867, aqui reproduzido. A Arménia, terra natal de Gulbenkian, também está representada por pergaminhos iluminados dos séculos XVI e XVII e destaca-se também a produção joalheira e vidreira de René Lalique, de quem Calouste Gulbenkian foi amigo e admirador incondicional. A exposição montada para esta reabertura foi já concebida pelo novo Director do Museu, Xavier S. Salomon, que veio da Frick Collection em Nova Iorque. O Museu Gulbenkian está aberto todos os dias excepto terça entre as 10 e as 18, com fecho tardio ao sábado às 21h. Destaque também para a exposição patente no átrio da Biblioteca de Arte da Fundação, onde pode ser vista a exposição “Gulbenkian, 70 anos em cartaz” que apresenta sete dezenas de cartazes e diversos materiais gráficos relativos às actividades programadas ou apoiadas pela Fundação.
ROTEIRO - Na Sociedade Nacional de Belas Artes, até 30 de Agosto, “Alinhados pela Mesma Lã” apresenta trabalhos de seis artistas têxteis, que são o resultado de uma residência artística em Loulé em torno da lã de ovelha Churra algarvia. A exposição reúne trabalhos de Ana Soromenho (na imagem), Cláudia Moreira, Luísa Leão, Maria Terra, Rita Martins Pereira, Rita Teles Garcia e Susana Mendez. Destaque ainda para a Residência Criativa de Olaria Pintada, que este ano vai na sua quarta edição e que proporciona o encontro entre designers, ilustradores e as últimas olarias de Viana do Alentejo ainda em atividade. Desta colaboração resultam peças tradicionais em barro vermelho — como alguidares, jarros, bilhas de água e pratos, entre outras — reinterpretadas através de novas linguagens decorativas desenvolvidas pelos artistas em residência, num diálogo entre o design contemporâneo e o saber-fazer artesanal. Carolina Celas, Célia Esteves, Claudia Lancaster e Nicolau, os oleiros Feleciano Agostinho e Mira Agostinho, e as pintoras Rosa Baptista, Mariana Almeida e Elisabete Francisco, foram os participantes na edição deste ano, e os seus trabalhos podem ser vistos no Depozito, na Rua Nova do Desterro, 21, em Lisboa, até 30 de agosto.
EÇA COM QR CODE - A primeira edição de “Os Maias”, de Eça de Queiroz, foi publicada em 1888 e é um retrato cru de uma época, de uma classe, de um país e de uma cidade. Considerado o romance português mais importante do século XIX, “Os Maias” está cheio de referências culturais, políticas, gastronómicas e do quotidiano de Lisboa no final do século XIX. Uma nova edição da Quetzal é dedicada a todos a quem escapam muitas das referências da obra. Por exemplo: o que foi «a Belfastada»?, o que é um mantelete?, quem foi o marechal de Saldanha?, o que é um boudoir?, quem foi Byron?, o que são bambinelas?, por que são importantes «o Colares» e «o Bucelas»?, o que é uma escopeta?, o que é uma «Chartreuse»?, o que é um fumoir?, onde ficava o Aterro, em Lisboa?, a Finlândia já existia no tempo de Eça?, o que era um Chablis?, quem era Michelet?, quem era Gambetta?, quem era Renan?, o que era a talagarça?.. e a Beatriz de Dante? A resposta a estas e muitas outras perguntas suscitadas pela leitura da obra podem ser encontradas nesta nova edição de “Os Maias” que, página a página inclui códigos QR que explicam referências, lugares, datas e figuras históricas do romance que tem por subtítulo “episódios da Vida Romântica” A edição inclui ainda em extra texto um questionário com 100 perguntas sobre a obra e, claro, as respectivas respostas.
MESA DE CABECEIRA - Depois de ”Os Maias” sugiro a leitura de “Cartas de Paris”, o livro que reúne os textos escritos por Eça de Queiroz para o jornal brasileiro Gazeta de Notícias entre 1893 e 1897, período em que desempenhou funções como diplomata na capital francesa. Eça relata intrigas políticas, rivalidades intelectuais numa cidade que no virar do século era centro de vitalidade mas também de tensões entre países, movimentos políticos e centros artísticos (edição Livros do Brasil). Para os amantes de livros que queiram conhecer curiosidades escondidas pela literatura e percorrer várias centenas de anos de episódios literários em boa parte desconhecidos, recomendo “Biblioteca Secreta”, de Oliver Tearle. Através de romances, peças de teatro, relatos de viagem, livros científicos, obras de humor e almanaques, o autor mostra como os livros acompanharam – e muitas vezes influenciaram – a História do mundo ocidental. Um tesouro de exemplos literários curiosos para descobrir como a nossa história e os livros estão profundamente ligados. (Edição Gradiva).
NOVO CABO VERDE - O disco que tenho ouvido mais frequentemente nos últimos dias é “Poi Beat” , o álbum de estreia de Rislene. Nascida em França, com raízes em Cabo Verde, canta em crioulo com uma voz fresca, que por vezes é traquinas e noutras séria. Rislene, 25 anos, é uma cantora surpreendente que começou no rap e foi evoluindo até esta fusão de influências bem ilustrada nos 15 temas deste disco. Em “Poi Beat” convivem evocações de géneros de Cabo Verde como a morna, o ferrinho ou o batuque, com sonoridades urbanas contemporâneas da França onde cresceu. Neste disco, Rislene é acompanhada pela dupla Ariel e Migz, por Charlie Beats e também por DJ Dadda que produziu um dos temas. O álbum inclui ainda uma participação de Richie Campbell no tema “Ko Kai” e uma presença da nova música cabo-verdiana, através de Apollo G. A maior parte dos temas são muito pessoais, Várias músicas que estão lá contam a história de Rislene e de pessoas da sua família. Um dos temas, “Disisti”, é daquelas canções que marca. Edição Sony, disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “Sejamos claros: os esclarecimentos de Luís Neves foram ridículos. Onde estavam, afinal, os papéis novos que ele andou laboriosamente a reunir durante três semanas? Ninguém os viu” - João Miguel Tavares, no “Público”.
BACK TO BASICS - “É preciso mandar todos os políticos trabalhar para as obras” - José Pulido Valente, arquitecto.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
agosto 01, 2026
ERA UMA VEZ UM RESTAURANTE
No sítio onde esta fotografia foi tirada havia um dos bons restaurantes de Lisboa nos anos 80, no 33 da Alexandre Herculano, bem perto da avenida da Liberdade. Chamava-se, apropriadamente, “33”. Ainda não se assistia à invasão da avenida, que é o cenário de hoje em dia. Fui lá muitas vezes, e gostava de ir: confortável, bom serviço, boa comida. Lembro-me perfeitamente: quando se passava a porta do restaurante e se entrava no hall, via-se logo um piano. O pianista nem sempre lá estava, ía fazendo intervalos, mas, ao jantar, quando sentia que alguém entrava, regressava ao seu posto e recomeçava a tocar. O seu repertório era composto sobretudo por temas clássicos do jazz, sempre os mesmos. Era um repertório que dominava com técnica, mas sem grande emoção. Compreende-se, todas as noites repetia a música e os gestos. Na realidade ninguém ía ao restaurante 33, na Alexandre Herculano, em Lisboa, para ouvir música. Mas as notas do piano eram boa companhia para o aperitivo de chegada e para o começo de conversa de quem vinha jantar. Quando o tempo estava bom podia jantar-se no jardim, que pegava com a sala, de decoração clássica. Lembro-me de alguns dos pratos: as lulas recheadas, o bacalhau à Santo Estevão, a empada de lebre. Era uma casa de receitas bem portuguesas, onde não faltava o frango de fricassé, à sobremesa o leite creme e um folhado de queijo de cabra à entrada. O restaurante fechou há uns anos, todo o prédio foi abaixo, resta esta parede e uma porta meio destruída. O edifício onde o “”33” estava, numa esquina, era bonito. O que irá ali nascer agora?
(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)
julho 31, 2026
SOBRE SORRISOS POSTIÇOS
SEMPRE A SORRIR - Há membros do Governo que que fazem lembrar o Joker, personagem de banda desenhada que tem sempre afixado um sorriso postiço. Montenegro tem o mesmo esgar afivelado em todas as ocasiões e, na recente crise, Fernando Alexandre e Luís Neves seguiram o exemplo inspirador do Primeiro Ministro e puseram a pateta máscara do riso sempre presente, por pior que fosse a situação. Pelo que vejo e leio os ministérios estão carregados de subalternos identificados como especialistas de comunicação. Não devem ser grandes especialistas para permitirem que Luís Montenegro maltrate os professores, que Fernando Alexandre invente histórias de agrafes ou que Luís Neves seja um daqueles casos em que as palavras se embrulham umas nas outras, sempre a sorrir. Em contrapartida, esses assessores devem saber imensas anedotas para porem os seus aconselhados a rir todo o tempo. Veja-se esta fotografia, da Lusa, na tomada de posse de Luís Neves, sorriso pronto e subserviente. Não nos esqueçamos de Luís Montenegro a culpar professores pelo atraso na avaliação dos exames, ou Fernando Alexandre a criticar os pais dos alunos por quererem que o calendário dos exames fosse cumprido ou, ainda, Luís Neves com faltas de memória em relação aos erros na declaração de interesses, à sua relação com o amigo empreiteiro e, sobretudo, ao descaminho do atrelado da droga. Parece que quem vai para o Governo se deslumbra com o facto de estar num palco cheio de microfones e resolve dizer a primeira coisa que vem à cabeça, sem pensar um segundo que seja, sempre a sorrir, querendo fazer dos outros parvos. Os casos de Fernando Alexandre e Luís Neves são no entanto diferentes: o primeiro errou e foi arrogante e teimoso; o segundo é mais grave - Luís Neves tem um problema de ética, primo do problema Spinumviva do Primeiro Ministro.
SEMANADA - Só um dos 17 contratos da Polícia Judiciária com o empresário amigo de Luís Neves foi a concurso; o Ministério da Administração Interna teve 12 ministros em 20 anos, o que o coloca no topo da lista de ministérios com maior número de titulares em duas décadas; os técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras em 2025; no PRR só 20% dos projectos apresentados mantêm a versão original, houve metas reduzidas, investimentos alterados e critérios de avaliação reformulados; o número de trabalhadores com mais de 65 anos duplicou numa década; o número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia; os empréstimos para habitação cresceram em Junho ao maior ritmo dos últimos 23 anos; Bragança e Coimbra são os concelhos que têm maior peso de alunos inscritos no ensino pós-secundário e superior, ambos acima dos 60%; o Porto de Lisboa acolheu 81.735 passageiros de cruzeiros em Junho, um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano passado; segundo a Marktest os portugueses ficarem mais de 10,6 milhões de downloads de podcasts em Junho; quase um quarto das crianças entre os cinco e os 14 anos têm excesso de peso e segundo o INE 41,7% dos menores entre os cinco e os 14 anos consomem fast food pelo menos uma vez por semana.
O ARCO DA VELHA - O Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial, vulgo Amalia, o programa português de IA anunciado com alarido pelo Governo, respondeu a perguntas da revista “Sábado” indicando que o actual Primeiro-Ministro é Pedro Nuno Santos, que Inês Sousa Real é Ministra do Ambiente, que Ana Gomes (que não é deputada) é a líder parlamentar do PS e desconhece que o Chega está representado na Assembleia da República. Se Musk sabe, vem cá ajudar…
ARTE NO MEIO DO ATLÂNTICO - Esta semana destaco a exposição que está nos Açores até 8 de Novembro, “Sete Retratos e Outras Obras em Forma de Enlace”, uma mostra concebida especificamente para o Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago, em S. Miguel e que evoca a grande ligação artística e pessoal entre Vieira da Silva e Arpad Szenes. “Sete Retratos e Outras Obras em Forma de Enlace” resulta de uma parceria entre o Arquipélago, a Fundação Arpad Szenes — Vieira da Silva e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e integra a programação complementar de Ponta Delgada 2026, capital portuguesa da Cultura. Através de um conjunto diversificado de suportes como a pintura, o desenho e a gravura, a exposição traça um arco temporal que se estende de 1931 a 1975. A seleção de obras revisita a trajetória de um casal cujo encontro, em 1930, deu início a mais de cinco décadas de vivência partilhada entre Paris, Lisboa e o período de exílio no Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial. A exposição, que tem entrada gratuita, integra obras de Arpad Szenes e Vieira da Silva, e conta a história de uma relação intensa e artisticamente importante, ao longo da qual temas como o amor, a felicidade, a guerra, o exílio, a saudade, a liberdade e a amizade percorrem e estruturam o espaço expositivo. As obras expostas fazem parte da colecção da Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva. Na imagem está a obra “Nova Friburgo”, de Arpad Szenes, datada de 1945.
ROTEIRO - O destaque desta semana vai para “9”, a primeira exposição individual de Laura Caetano, que está na Galeria Balcony até 18 de Setembro, e que apresenta obras de pintura sobre tela, papel e látex (na imagem). No texto que apresenta a exposição Francisca Portugal sublinha que Laura Caetano presta homenagem constante à pintura clássica e sublinha que embora a exposição convoque referências que remetem para a estrutura do retábulo e para a organização do imaginário religioso, não se dedica a nenhuma época específica do passado, pelo contrário, liberta-se de qualquer subjugação particular, temporal ou divina.” A Balcony fica na Rua Coronel Bento Roma 12 A. No Museu Bordalo Pinheiro a exposição “Cronologia de um Manguito”apresenta recriações do célebre gesto do Zé Povinho. Na Galeria Alda Galsterer (Rua Castilho 71 R/C esq.) pode ser vista até 3 de Outubro as exposições “Escape From Freedom” de Ana Velez e “O Belo e a Fera”, de Pedro Leitão. Na Galeria das Salgadeiras (Av dos Estados Unidos 53 D) Marta Ubach expõe até 5 de Setembro uma nova série de pinturas de paisagens sob o título “A Montanha”.
DEPOIS DA GUERRA - Kazuo Ishiguro, um japonês nascido em Nagasaki e que vive em Londres desde os seus cinco anos, escreveu “Os Despojos do Dia” em 1989, um livro que é simultaneamente um estudo psicológico e o retrato de uma ordem social e de um mundo em extinção no período posterior à Segunda Guerra Mundial. É a história de um mordomo, que após 30 anos de serviço a um lorde britânico, fica na dúvida sobre a verdadeira grandeza do seu patrão, Lorde Darlington. Stevens, o mordomo perfeito, acreditava que teria servido a Humanidade por ter servido um grande homem. Daí até ter dúvidas sobre a verdadeira grandeza de Lord Darlington e também sobre a natureza e o sentido da sua própria vida foi um ápice. A narrativa do livro arranca em Junho de 1956 e relata o que Stevens foi vendo e pensando ao longo de seis dias de viagem, na descoberta do mundo fora dos limites de Darlington Hall e que o levam a pensar sobre a personalidade, a classe e a cultura. Kazuo Ishiguro recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2017 e a sua obra está traduzida em mais de quarenta línguas. “Um dos livros sem os quais não se pode viver” - as palavras são do jornal britânico The Guardian, a propósito de “Os Despojos do Dia”. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, edição Gradiva.
MESA DE CABECEIRA -Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói foi um escritor russo, reconhecido como um dos maiores e mais influentes autores de todos os tempos, autor de obras como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Porém Lev Tolstoi foi mais do que um romancista, dedicando a parte final da sua vida ao ensaísmo filosófico. “O Que é a Arte?” faz parte dessas obras e é talvez o ponto mais alto da reflexão filosófica de Tolstói, tendo levado cerca de quinze anos a escrever. Tolstói sublinha que a arte é uma coisa séria, não é uma mera questão de beleza e ainda menos de divertimento ou de obtenção de prazer. A arte autêntica deve ser acessível a todos e define-se, segundo Tolstói, pela sua capacidade de comunicar sentimentos que contribuam para a união das pessoas e para o aperfeiçoamento moral de toda a comunidade. Publicado originalmente em 1890, o seu carácter provocador e as suas reflexões não perderam actualidade: afinal, o que pode ser considerado arte? - Edição Gradiva. O outro livro debruça-se sobre os desafios que se colocam hoje em dia no campo cultural, neste mundo onde a tecnologia avança cada vez mais depressa. “Entre a Arte e o Algoritmo” aborda o impacto que a IA pode ter na criação artística e reproduz uma série de conversas de Paula Cristina Cunha, administradora da Sociedade Portuguesa de Autores, com nomes como André Letria, Gonçalo M. Tavares, Helena Amaral, José Jorge Letria, Milhanas, Pedro Abrunhosa, Rita Redshoes, Rui Filipe Reis, Sam the Kid, The Legendary Tigerman e Tozé Brito, onde estes criadores dizem o que pensam sobre a utilização e limites da Inteligência Artificial na criatividade artística. As conversas nasceram no podcast “Entre a Arte e o Algoritmo: do Medo à Descoberta”, que Paula Cristina Cunha gravou na SPA no final de 2025. Edição Gradiva.
UMA VOZ DIFERENTE - Norma Winstone, uma cantora e letrista britânica, não é dos nomes mais conhecidos do jazz vocal em Portugal. É pena porque, como afirmou Manfred Eicher, o homem que criou a editora ECM, “ela ouve as canções de forma diferente e devolve-as de uma forma tranquila que é muito a sua marca”. É o que se passa por exemplo nas versões de “I Loves You Porgy”, de Gershwin, ou de “Wait til You See Him”, de Rodgers and Hart. Estas versões estão numa nova edição que reproduz uma gravação em que Winstone é acompanhada pela orquestra da estação de rádio NDR de Hannover e que estava perdida nos seus arquivos. “A Timeless Place”, de Norma Winstone, inclui 12 temas e está disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “Se o Presidente da República continuar distante e inerte perante este espetáculo (o caso Luís Neves), o seu primeiro mandato ficará marcado não pelas crises que enfrentou, mas pela crise que decidiu não enfrentar” - João Pereira Coutinho
BACK TO BASICS - “As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas” - Otto von Bismarck
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
julho 25, 2026
AS RUÍNAS QUE NOS CERCAM
(pensamentos ociosos, sempre à sexta em sapo.pt)
julho 24, 2026
A CULPA É SEMPRE DAS VÍTIMAS, NUNCA DE QUEM MANDA
UMA TERRA DESOLADA - Passei a última semana como se estivesse num sonho mau: vivia numa terra desolada onde quem devia dar o exemplo não o fazia, onde a mentira era o idioma de quem governava e onde a responsabilidade era uma palavra desconhecida. Ouvi membros do Governo culparem as vítimas, seus concidadãos, por erros que eles próprios cometeram. Assisti à arrogância de quem não quer perder os seus poderzinhos. Vejo os principais indicadores sobre o país, a nível político, social e económico a degradarem-se. Sei que não é de agora, que o mal vem de várias governações, de quem pensa mais em si próprio do que nos outros, de quem, ao longo das duas últimas décadas, pensou mais em servir-se do que em servir. Nem os que antes estiveram no poder, nem os que agora lá estão, têm coragem de assumir os erros e tentar encontrar a origem dos problemas para depois encontrarem soluções. Usam remendos, tapam o sol com a peneira e não conseguem sair da encruzilhada onde se colocaram. E, no entanto, o que mais revolta é que este país podia ser bem melhor. Cito estas palavras de Carlos Rodrigues no “Correio da Manhã”: “O Estado precisa de um reformador - não de grandes medidas pomposas e inúteis. (...) Esta é a proposta política que falta em Portugal. Não de uma tonta digitalização dos serviços. Uma mudança de mentalidade. Menos inteligência artificial e mais inteligência humana”.
SEMANADA - Os roubos feitos por carteiristas em Lisboa tiveram um aumento de 10% até junho, em relação ao mesmo período do ano passado; segundo a Marktest existem em Portugal 3,7 milhões de assinantes de plataformas de streaming para televisão; os maiores compradores de casas na Avenida da Liberdade, onde o metro quadrado vale 18 mil euros, são chineses; o preço mediano das casas em Portugal atingiu 2.337 euros por metro quadrado no primeiro trimestre, com menos transações mas valores de venda cada vez mais elevados; entre os 24 municípios com mais de 100 mil habitantes, 13 tiveram subidas acima da média, destacando-se Guimarães com 41,9% e Vila Franca de Xira com 32,2% de aumento; um relatório recente da Comissão Europeia indica que a taxa de IVA de 23% em Portugal é a segunda mais alta da União Europeia, apenas ultrapassada pela Hungria com 27%; o número de visitantes estrangeiros de museus portugueses subiu de 3,2 milhões em 2012 para 9,4 milhões em 2024; no ano passado, o valor global dos levantamentos efetuados nos terminais de caixa automática da rede Multibanco diminuiu 4,6%, para 28,7 mil milhões de euros; das 18.758 camas previstas para alojamento de alunos do ensino superior apenas 5014 estão efectivamente prontas e 60% dos projectos continuam por concluir; Portugal é dos países da OCDE onde a satisfação é menor em relação aos serviços de educação pública.
O ARCO DA VELHA - As perdas de água nas redes de abastecimento de todo o país equivalem a 185 piscinas olímpicas por dia.
A BELEZA DA IMPERFEIÇÃO - No Museu de Serralves está exposta até meados de Janeiro, na Ala Álvaro Siza, a exposição “Alice Neel: Beautifully Imperfect”, que traz pela primeira vez em Portugal o trabalho um dos mais importantes nomes da pintura americana do século XX, mostrando os retratos profundamente humanos da artista. A exposição apresenta 90 obras, a que se soma vasta documentação do arquivo da artista. “Alice Neel: Beautifully Imperfect” está organizada em torno das grandes preocupações de Neel, cujo talento artístico singular só foi reconhecido tarde na sua vida: a intimidade, o corpo feminino, a maternidade, o envelhecimento e a vida das comunidades marginalizadas, entre as quais ativistas queer, imigrantes e os seus vizinhos do Harlem espanhol. A exposição tem curadoria de Inês Grosso e reúne empréstimos de instituições como a National Portrait Gallery, em Washington D.C., ou o Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, oferecendo um panorama da carreira de Neel, desde as suas primeiras experiências expressionistas até aos retratos do seu período de maturidade. A curadora teve ainda a ideia de pedir a uma série de artistas portugueses que escrevessem uma carta dedicada a Alice Neel e que estão junto do auto retrato de Alice Neel que abre a exposição. A exposição inclui uma extensa secção dedicada à documentação, reunindo cartas, fotografias, recortes de imprensa e materiais de arquivo raramente apresentados ao público e que permitem enquadrar a produção artística de Neel no seu contexto social, político, familiar e emocional.
ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição de trabalhos feitos já neste século por criadores portugueses de marionetas (na fotografia). A exposição pode ser vista até 27 de Setembro no Museu da Marioneta, em Lisboa, e assinala os 25 anos de existência daquele equipamento cultural. A exposição reúne o trabalho de um conjunto de artistas que tem marcado a arte da marioneta em Portugal, muitos dos quais contam com cerca de 25 anos de percurso dedicado à construção e manipulação destas figuras. Mais sugestões: “Domingos Dias Martins, Fotógrafo de gentes e de pedra do Gerês transmontano”, no Centro Cultural de Cascais; no Centro de Arte Manuel de Brito (Campo Grande 113) está patente uma exposição de homenagem à pintora Menez, para assinalar o centenário do seu nascimento e que inclui meia centena de obras da colecção Manuel de Brito; em Coimbra, no Museu Municipal, está até 30 de Agosto a exposição “Contraponto “ reúne obras de artistas representados pela Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, de Lisboa, com curadoria de João Silvério.
POLICIAL À MODA DE ITÁLIA - Um misterioso desaparecimento ocorrido num luxuoso local da Riviera italiana é o tema de “Portofino Blues”, do romancista Valerio Aiolli. Vamos a factos: na segunda-feira, 8 de janeiro de 2001, por volta das 19 horas, a Condessa Francesca Vacca Agusta, figura de longa data da alta sociedade italiana e internacional, desapareceu no jardim da sua luxuosa Villa Altachiara, em Portofino. Nessa noite, iniciou-se uma investigação que ocupou jornais e programas televisivos. Apenas cerca de vinte dias depois o seu corpo foi encontrado no mar, a poucos metros de uma baía na Riviera Francesa. Valerio Aiolli escreveu este romance como se estivesse a reconstruir como um puzzle esta história intrincada e nunca totalmente explicada de amor e desilusão, drogas e heranças milionárias, alternando os pontos de vista das personagens principais envolvidas, as declarações que fizeram e os artigos que cobriram a história. “Portofino Blues” apanha não só a história da condessa, cuja ascensão para a fama através do casamento culmina numa vida de excessos e na sua morte misteriosa, mas também a história industrial, política e social de Itália. Um belo policial para levar de férias. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Começo por um livro onde se aprendem curiosidades da História e da Geografia de modo divertido. Por exemplo: sabe que existe um país que, na verdade, é um rio? Qual a fronteira mais alta do mundo? Que países desapareceram? Que continentes foram perdidos ao longo dos séculos? “Os Países Que Quase Existiram” é uma obra de Gil Mendes da Costa que se propõe enumerar factos e curiosidades, incluindo sobre a História e a Geografia de Portugal. Gil Mendes da Costa, é conhecido por General Knowledge no Youtube, onde tem quase 1 milhão de seguidores. No final o livro tem umas palavras cruzadas que testam a atenção do leitor e um questionário de cultura geral bem divertido. Edição Contraponto. O outro livro é a história de como Cleópatra subiu ao trono no Antigo Egipto aos 18 anos e se transformou numa das figuras mais célebres da Antiguidade. “Cleópatra”, de Christian-Georges Schwentzel, é um percurso sobre a história da última rainha do Egipto (69-30 a. C.) e do próprio Antigo Egipto. O livro aborda Cleópatra como uma astuta estratega política, que fez reformas económicas audaciosas. E, claro, relata como a lenda de Cleópatra evoluiu ao longo dos séculos, desde os autores latinos que moldaram a figura da sedutora fatal até às reinterpretações culturais de Hollywood ou do mundo árabe. Edição Guerra & Paz.
RARIDADES DE MILES DAVIS - 1956 foi um ano decisivo para Miles Davis, na altura com 30 anos. A colectânea “Miles 56’: The Prestige Recordings”, percorre as sessões de estúdio que deram origem a quatro dos mais importantes discos da história do jazz: “Cookin' “ “Relaxin' “, “Workin' “ e “Steamin' “. Nestas gravações surge o lendário First Great Quintet, onde Miles Davis tocou com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. Nalgumas gravações desta colectânea tocam também nomes como Sonny Rollins, Tommy Flanagan e Art Taylor, todos representantes de uma geração de inovadores num momento especial do seu desenvolvimento musical. A colectânea inclui interpretações de standards como “My Funny Valentine”, temas de Miles como “Four” e “Half Nelson” ou “Oleo”, de Sonny Rollins. Todas estas gravações, feitas em maratonas no célebre estúdio de Rudy Van Galder, destinavam-se a cumprir o contrato com a Prestige, antes de iniciar a sua relação com outra editora discográfica, a Columbia. De notar ainda gravações em que Sonny Rollins tocou, nomeadamente “Vierd Blues”, “No Line” e uma versão arrebatadora de um original de Dave Brubeck, “In Your Own Sweet Way”. A colectânea inclui 29 temas, quase três horas de grande música. Disponível nas plataformas de streaming e numa edição especial com textos inéditos que ajudam a enquadrar o contexto histórico destas gravações.
ALMANAQUE - Encerrado para obras de renovação há um ano e meio, o Museu Gulbenkian já reabriu, coincidindo com o 70.º aniversário da Fundação Gulbenkian. Construído em 1969, o Museu foi alvo de uma renovação importante que permite acolher melhor a colecção de Calouste Gulbenkian, cerca de seis mil obras que vão desde o antigo Egipto ao século XX. A exposição montada para esta reabertura tem cerca de mil obras e foi já concebida pelo novo Director do Museu, Xavier S. Salomon, que veio da Frick Collection em Nova Iorque. O Museu Gulbenkian está aberto todos os dias excepto terça entre as 10 e as 18, com fecho tardio ao sábado às 21h.
DIXIT - “Proponho a digitalização do ministro Fernando Alexandre. Espalma-se o ministro num scanner, e digitaliza-se. Envia-se para professores e eles corrigem. Pode ser que o resultado seja superior à versão analógica, que não se deixa emendar”- Ricardo Araújo Pereira, no Expresso.
BACK TO BASICS - "A coisa mais valiosa que um homem tem é a sua capacidade de insatisfação" - Ortega Y Gasset.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
julho 18, 2026
OS PENSAMENTOS OCIOSOS E O FUTEBOL NAS AMÉRICAS
CONQUISTAR TERRITÓRIO
É um bocadinho irónico que o campeonato do Mundo de futebol tenha este ano como um dos seus palcos principais os Estados Unidos. Só que o jogo que nos Estados Unidos se chama futebol não tem nada a ver com o jogo que tornou Ronaldo numa estrela. Aquilo a que nós chamamos futebol, nos Estados Unidos leva o nome de soccer. O futebol americano é outra coisa, uma mistura de râguebi e futebol tradicional, que foi inventado em universidades americanas no final do século XIX. O jogo em si é bem diferente quer do râguebi, quer do futebol: a partida tem quatro partes de 15 minutos cada uma, num total de 60 minutos de jogo, cada equipa tem onze jogadores - tantos como no nosso futebol e menos que no râguebi. As regras criam numerosas faltas que, fazendo parar o relógio, alimentam o tempo que a coisa demora a resolver-se. Os intervalos e as pausas são fundamentais para passar publicidade nas transmissões televisivas, cada vez mais é um desporto pensado para televisão. Os equipamentos são garridos, as camisolas têm espaço para ombreiras e protecções e joga-se de capacete. Trump, aborrecido com a confusão dos nomes, já fez saber à National Football League que tem que se arranjar um nome novo para o jogo e que futebol só há um - e é o do campeonato do mundo. Por cá também existe futebol americano, e para além da Feira de Azeitão onde havia este equipamento à venda no meio de velharias diversas, há uma Liga Portuguesa de Futebol Americano que nesta época tem sete equipas inscritas: os Maia Mutts, os Braga Warriors, os Renegades de Salgueiros, os Crusaders de Cascais e os Bulldogs, Devils e Navigators de Lisboa. Nos Estados Unidos a National Football League teve este ano como campeão os Seattle Seahawks. Já agora, o futebol americano é um jogo caracterizado pela conquista de território. De que estavam à espera?
(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)