(pensamentos ociosos, sempre à sexta em sapo.pt)
A Esquina Do Rio
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
julho 25, 2026
AS RUÍNAS QUE NOS CERCAM
julho 24, 2026
A CULPA É SEMPRE DAS VÍTIMAS, NUNCA DE QUEM MANDA
UMA TERRA DESOLADA - Passei a última semana como se estivesse num sonho mau: vivia numa terra desolada onde quem devia dar o exemplo não o fazia, onde a mentira era o idioma de quem governava e onde a responsabilidade era uma palavra desconhecida. Ouvi membros do Governo culparem as vítimas, seus concidadãos, por erros que eles próprios cometeram. Assisti à arrogância de quem não quer perder os seus poderzinhos. Vejo os principais indicadores sobre o país, a nível político, social e económico a degradarem-se. Sei que não é de agora, que o mal vem de várias governações, de quem pensa mais em si próprio do que nos outros, de quem, ao longo das duas últimas décadas, pensou mais em servir-se do que em servir. Nem os que antes estiveram no poder, nem os que agora lá estão, têm coragem de assumir os erros e tentar encontrar a origem dos problemas para depois encontrarem soluções. Usam remendos, tapam o sol com a peneira e não conseguem sair da encruzilhada onde se colocaram. E, no entanto, o que mais revolta é que este país podia ser bem melhor. Cito estas palavras de Carlos Rodrigues no “Correio da Manhã”: “O Estado precisa de um reformador - não de grandes medidas pomposas e inúteis. (...) Esta é a proposta política que falta em Portugal. Não de uma tonta digitalização dos serviços. Uma mudança de mentalidade. Menos inteligência artificial e mais inteligência humana”.
SEMANADA - Os roubos feitos por carteiristas em Lisboa tiveram um aumento de 10% até junho, em relação ao mesmo período do ano passado; segundo a Marktest existem em Portugal 3,7 milhões de assinantes de plataformas de streaming para televisão; os maiores compradores de casas na Avenida da Liberdade, onde o metro quadrado vale 18 mil euros, são chineses; o preço mediano das casas em Portugal atingiu 2.337 euros por metro quadrado no primeiro trimestre, com menos transações mas valores de venda cada vez mais elevados; entre os 24 municípios com mais de 100 mil habitantes, 13 tiveram subidas acima da média, destacando-se Guimarães com 41,9% e Vila Franca de Xira com 32,2% de aumento; um relatório recente da Comissão Europeia indica que a taxa de IVA de 23% em Portugal é a segunda mais alta da União Europeia, apenas ultrapassada pela Hungria com 27%; o número de visitantes estrangeiros de museus portugueses subiu de 3,2 milhões em 2012 para 9,4 milhões em 2024; no ano passado, o valor global dos levantamentos efetuados nos terminais de caixa automática da rede Multibanco diminuiu 4,6%, para 28,7 mil milhões de euros; das 18.758 camas previstas para alojamento de alunos do ensino superior apenas 5014 estão efectivamente prontas e 60% dos projectos continuam por concluir; Portugal é dos países da OCDE onde a satisfação é menor em relação aos serviços de educação pública.
O ARCO DA VELHA - As perdas de água nas redes de abastecimento de todo o país equivalem a 185 piscinas olímpicas por dia.
A BELEZA DA IMPERFEIÇÃO - No Museu de Serralves está exposta até meados de Janeiro, na Ala Álvaro Siza, a exposição “Alice Neel: Beautifully Imperfect”, que traz pela primeira vez em Portugal o trabalho um dos mais importantes nomes da pintura americana do século XX, mostrando os retratos profundamente humanos da artista. A exposição apresenta 90 obras, a que se soma vasta documentação do arquivo da artista. “Alice Neel: Beautifully Imperfect” está organizada em torno das grandes preocupações de Neel, cujo talento artístico singular só foi reconhecido tarde na sua vida: a intimidade, o corpo feminino, a maternidade, o envelhecimento e a vida das comunidades marginalizadas, entre as quais ativistas queer, imigrantes e os seus vizinhos do Harlem espanhol. A exposição tem curadoria de Inês Grosso e reúne empréstimos de instituições como a National Portrait Gallery, em Washington D.C., ou o Whitney Museum of American Art, em Nova Iorque, oferecendo um panorama da carreira de Neel, desde as suas primeiras experiências expressionistas até aos retratos do seu período de maturidade. A curadora teve ainda a ideia de pedir a uma série de artistas portugueses que escrevessem uma carta dedicada a Alice Neel e que estão junto do auto retrato de Alice Neel que abre a exposição. A exposição inclui uma extensa secção dedicada à documentação, reunindo cartas, fotografias, recortes de imprensa e materiais de arquivo raramente apresentados ao público e que permitem enquadrar a produção artística de Neel no seu contexto social, político, familiar e emocional.
ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição de trabalhos feitos já neste século por criadores portugueses de marionetas (na fotografia). A exposição pode ser vista até 27 de Setembro no Museu da Marioneta, em Lisboa, e assinala os 25 anos de existência daquele equipamento cultural. A exposição reúne o trabalho de um conjunto de artistas que tem marcado a arte da marioneta em Portugal, muitos dos quais contam com cerca de 25 anos de percurso dedicado à construção e manipulação destas figuras. Mais sugestões: “Domingos Dias Martins, Fotógrafo de gentes e de pedra do Gerês transmontano”, no Centro Cultural de Cascais; no Centro de Arte Manuel de Brito (Campo Grande 113) está patente uma exposição de homenagem à pintora Menez, para assinalar o centenário do seu nascimento e que inclui meia centena de obras da colecção Manuel de Brito; em Coimbra, no Museu Municipal, está até 30 de Agosto a exposição “Contraponto “ reúne obras de artistas representados pela Galeria Cristina Guerra Contemporary Art, de Lisboa, com curadoria de João Silvério.
POLICIAL À MODA DE ITÁLIA - Um misterioso desaparecimento ocorrido num luxuoso local da Riviera italiana é o tema de “Portofino Blues”, do romancista Valerio Aiolli. Vamos a factos: na segunda-feira, 8 de janeiro de 2001, por volta das 19 horas, a Condessa Francesca Vacca Agusta, figura de longa data da alta sociedade italiana e internacional, desapareceu no jardim da sua luxuosa Villa Altachiara, em Portofino. Nessa noite, iniciou-se uma investigação que ocupou jornais e programas televisivos. Apenas cerca de vinte dias depois o seu corpo foi encontrado no mar, a poucos metros de uma baía na Riviera Francesa. Valerio Aiolli escreveu este romance como se estivesse a reconstruir como um puzzle esta história intrincada e nunca totalmente explicada de amor e desilusão, drogas e heranças milionárias, alternando os pontos de vista das personagens principais envolvidas, as declarações que fizeram e os artigos que cobriram a história. “Portofino Blues” apanha não só a história da condessa, cuja ascensão para a fama através do casamento culmina numa vida de excessos e na sua morte misteriosa, mas também a história industrial, política e social de Itália. Um belo policial para levar de férias. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Começo por um livro onde se aprendem curiosidades da História e da Geografia de modo divertido. Por exemplo: sabe que existe um país que, na verdade, é um rio? Qual a fronteira mais alta do mundo? Que países desapareceram? Que continentes foram perdidos ao longo dos séculos? “Os Países Que Quase Existiram” é uma obra de Gil Mendes da Costa que se propõe enumerar factos e curiosidades, incluindo sobre a História e a Geografia de Portugal. Gil Mendes da Costa, é conhecido por General Knowledge no Youtube, onde tem quase 1 milhão de seguidores. No final o livro tem umas palavras cruzadas que testam a atenção do leitor e um questionário de cultura geral bem divertido. Edição Contraponto. O outro livro é a história de como Cleópatra subiu ao trono no Antigo Egipto aos 18 anos e se transformou numa das figuras mais célebres da Antiguidade. “Cleópatra”, de Christian-Georges Schwentzel, é um percurso sobre a história da última rainha do Egipto (69-30 a. C.) e do próprio Antigo Egipto. O livro aborda Cleópatra como uma astuta estratega política, que fez reformas económicas audaciosas. E, claro, relata como a lenda de Cleópatra evoluiu ao longo dos séculos, desde os autores latinos que moldaram a figura da sedutora fatal até às reinterpretações culturais de Hollywood ou do mundo árabe. Edição Guerra & Paz.
RARIDADES DE MILES DAVIS - 1956 foi um ano decisivo para Miles Davis, na altura com 30 anos. A colectânea “Miles 56’: The Prestige Recordings”, percorre as sessões de estúdio que deram origem a quatro dos mais importantes discos da história do jazz: “Cookin' “ “Relaxin' “, “Workin' “ e “Steamin' “. Nestas gravações surge o lendário First Great Quintet, onde Miles Davis tocou com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones. Nalgumas gravações desta colectânea tocam também nomes como Sonny Rollins, Tommy Flanagan e Art Taylor, todos representantes de uma geração de inovadores num momento especial do seu desenvolvimento musical. A colectânea inclui interpretações de standards como “My Funny Valentine”, temas de Miles como “Four” e “Half Nelson” ou “Oleo”, de Sonny Rollins. Todas estas gravações, feitas em maratonas no célebre estúdio de Rudy Van Galder, destinavam-se a cumprir o contrato com a Prestige, antes de iniciar a sua relação com outra editora discográfica, a Columbia. De notar ainda gravações em que Sonny Rollins tocou, nomeadamente “Vierd Blues”, “No Line” e uma versão arrebatadora de um original de Dave Brubeck, “In Your Own Sweet Way”. A colectânea inclui 29 temas, quase três horas de grande música. Disponível nas plataformas de streaming e numa edição especial com textos inéditos que ajudam a enquadrar o contexto histórico destas gravações.
ALMANAQUE - Encerrado para obras de renovação há um ano e meio, o Museu Gulbenkian já reabriu, coincidindo com o 70.º aniversário da Fundação Gulbenkian. Construído em 1969, o Museu foi alvo de uma renovação importante que permite acolher melhor a colecção de Calouste Gulbenkian, cerca de seis mil obras que vão desde o antigo Egipto ao século XX. A exposição montada para esta reabertura tem cerca de mil obras e foi já concebida pelo novo Director do Museu, Xavier S. Salomon, que veio da Frick Collection em Nova Iorque. O Museu Gulbenkian está aberto todos os dias excepto terça entre as 10 e as 18, com fecho tardio ao sábado às 21h.
DIXIT - “Proponho a digitalização do ministro Fernando Alexandre. Espalma-se o ministro num scanner, e digitaliza-se. Envia-se para professores e eles corrigem. Pode ser que o resultado seja superior à versão analógica, que não se deixa emendar”- Ricardo Araújo Pereira, no Expresso.
BACK TO BASICS - "A coisa mais valiosa que um homem tem é a sua capacidade de insatisfação" - Ortega Y Gasset.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
julho 18, 2026
OS PENSAMENTOS OCIOSOS E O FUTEBOL NAS AMÉRICAS
CONQUISTAR TERRITÓRIO
É um bocadinho irónico que o campeonato do Mundo de futebol tenha este ano como um dos seus palcos principais os Estados Unidos. Só que o jogo que nos Estados Unidos se chama futebol não tem nada a ver com o jogo que tornou Ronaldo numa estrela. Aquilo a que nós chamamos futebol, nos Estados Unidos leva o nome de soccer. O futebol americano é outra coisa, uma mistura de râguebi e futebol tradicional, que foi inventado em universidades americanas no final do século XIX. O jogo em si é bem diferente quer do râguebi, quer do futebol: a partida tem quatro partes de 15 minutos cada uma, num total de 60 minutos de jogo, cada equipa tem onze jogadores - tantos como no nosso futebol e menos que no râguebi. As regras criam numerosas faltas que, fazendo parar o relógio, alimentam o tempo que a coisa demora a resolver-se. Os intervalos e as pausas são fundamentais para passar publicidade nas transmissões televisivas, cada vez mais é um desporto pensado para televisão. Os equipamentos são garridos, as camisolas têm espaço para ombreiras e protecções e joga-se de capacete. Trump, aborrecido com a confusão dos nomes, já fez saber à National Football League que tem que se arranjar um nome novo para o jogo e que futebol só há um - e é o do campeonato do mundo. Por cá também existe futebol americano, e para além da Feira de Azeitão onde havia este equipamento à venda no meio de velharias diversas, há uma Liga Portuguesa de Futebol Americano que nesta época tem sete equipas inscritas: os Maia Mutts, os Braga Warriors, os Renegades de Salgueiros, os Crusaders de Cascais e os Bulldogs, Devils e Navigators de Lisboa. Nos Estados Unidos a National Football League teve este ano como campeão os Seattle Seahawks. Já agora, o futebol americano é um jogo caracterizado pela conquista de território. De que estavam à espera?
(os pensamentos ociosos estão semanalmente em sapo.pt)
julho 17, 2026
O ESTADO DA NAÇÃO
GOLPE DE ESTADO - O estado da nação está longe de ser bom. Já se sabia dos problemas da saúde, justiça e educação ao fim dos oito anos de Governo do PS mas a verdade é que, apesar das promessas, os dois anos de governo de Montenegro tornaram nalguns sectores as coisas ainda piores, com destaque para a saúde e a educação. Agudizou-se também o caos do funcionamento de serviços públicos essenciais e coisas tão comezinhas como agendar a marcação de um pedido de Cartão de Cidadão ou de um passaporte tornaram-se difíceis, assim como obter uma série de certidões necessárias a alimentar o dia-a-dia da burocracia estatal. O país estagnou. Quem diz que o Governo não funciona tem razão. Mas quem não acrescenta que o não funcionamento não é de agora e vem dos anos de governação do PS comete o pior dos erros da política: o clubismo fanático. Infelizmente PS e PSD disputam entre si o troféu de quem se importa menos com os cidadãos e, no entanto, estes dois partidos deviam ter a consciência de quanto são necessários à vida democrática e corrigirem-se. Têm defeitos, como tudo na vida, mas não podem querer apresentar-se, em sistema de rotação, como inocentes do que fazem e fizeram. Ao fim de apenas dois anos Luís Montenegro está como Costa estava no fim do seu ciclo de poder: dá sinais de estar farto: como fez notar Francisco Mendes da Silva num artigo recente, Luís Montenegro “montou uma ponte aérea transatlântica para assistir a três dos cinco jogos da selecção portuguesa no mundial com pouquíssimos dias de intervalo”. Ou seja, preferiu ir à bola a Dallas do que lançar os trabalhos das jornadas parlamentares do seu partido ou encarar os problemas dos exames e dos fogos. Olha-se para o Governo e o que se vê é uma lista de desaparecidos em combate. Reconheço que há excepções: Pinto Luz e Graça Carvalho dão o corpo às balas, enquanto Fernando Alexandre, Ana Paula Martins, Maria do Rosário Palma Ramalho e Luís Neves fornecem munições a quem dispara sobre o Governo, bem assessorados por Leitão Amaro e Hugo Soares. Quem está de fora e olha para a forma como as coisas não funcionam acha que pode ter acontecido um golpe de estado. Só que, tudo indica, o golpe é fomentado pelo próprio Primeiro-Ministro e por quem lhe está mais próximo. Sócrates e Costa causaram fortes danos de reputação ao PS. Luís Montenegro vai pelo mesmo caminho no PSD.
SEMANADA - Segundo a Pordata quatro em cada dez pessoas em idade activa não têm o ensino secundário; os crimes contra idosos aumentaram 30% nos últimos seis anos; as detenções feitas pela PSP nas fronteiras aéreas aumentaram quase 30% no primeiro semestre deste ano para 245 pessoas e foi recusada a entrada no país a 1309, um aumento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado; a Polícia Judiciária regista uma média de dois casos de extorsão sexual por dia; em oito anos, a despesa directa dos portugueses com hospitais privados subiu 59%, para os 1087 milhões de euros, o que significa quase três milhões de euros por dia; no fim de semana de calor extremo a CP suprimiu 12 comboios Intercidades e entre 4 e 6 de Julho, suprimiu mais 30 comboios, na maioria dos casos devido à falência dos sistemas de ar condicionado nas carruagens; durante estes dias houve também dezenas de incidências que afectaram a oferta regular da empresa e que se traduziram em atrasos consideráveis em 88 comboios; em Odemira mais de metade da população, 52,1%, tem nacionalidade estrangeira, em Vila do Bispo e Aljezur o peso dos estrangeiros também ultrapassa os 40% e em Albufeira, Lagos, Loulé, Tavira e Ferreira do Alentejo excede os 30%; Sines e Grândola registaram as maiores subidas de rendas nos últimos cinco anos e nesses dois concelhos os preços do arrendamento mais que duplicaram.
O ARCO DA VELHA - Nos últimos cinco anos mais de 200 arguidos foram libertados por excesso de prisão preventiva, entre os quais seis traficantes já condenados que aguardavam decisão de recursos pendentes.
FOTOGRAFIA - Há muita fotografia para ver. Começo por “Espectro”, a exposição patente no Museu Ibérico de Arquitectura e Arte, em Abrantes, até Janeiro do próximo ano e que reúne um significativo grupo de fotógrafos de várias gerações, tendências e formas de praticar a fotografia. Ali estão expostos trabalhos de António Pedro Ferreira, Cláudia Clemente, Gérard Castello-Lopes, João Cabral, João Miguel Barros, Margarida Rodrigues, Nuno Félix da Costa , Pauliana Valente Pimentel e Raquel Porto, além de Luiz Carvalho, que coordenou esta mostra (na imagem a fotografia “Estátua da Não Liberdade”, de Cláudia Clemente). Mais sugestões: até 23 de Agosto ainda pode ver “Domingos Dias Martins, Fotógrafo de gentes e de pedra do Gerês transmontano”, no Centro Cultural de Cascais; na Galeria de Exposições do Espaço Turismo nas Caldas da Rainha, Luís Pavão apresenta a sua série de fotografias “Pela Fresca Sombra das Árvores de Lisboa”, inserida no Festival Internacional de Fotografia que ali decorre e onde também poderá ver “The Fight For Us”, uma mostra de trabalhos de fotógrafos ucranianos sobre a invasão do seu país pela Rússia. Em Mação, no Centro Cultural Elvino Pereira, António Ventura e Duarte Belo apresentam um conjunto de fotografias intitulado “Paisagem do Médio Tejo”.
O REGRESSO DE UM CLÁSSICO - “Morte em Veneza” tem para mim duas versões: a do romance original, de 1912, de Thomas Mann e a do filme do mesmo nome, de Luchino Visconti, de 1971. Primeiro descobri o filme , que me levou a querer ler o livro - que tem agora nova edição, com tradução de Sara Seruya. Thomas Mann, que ganhou o Prémio Nobel em 1929, dizia que este seu romance
trata da «paixão como desequilíbrio e degradação». A história é arrebatadora: Gustav von Aschenbach, escritor erudito e respeitável, viaja para Veneza à procura de uma trégua da angústia criativa que o aflige. E no átrio do seu hotel, no Lido, observa pela primeira vez Tadzio, um rapaz excepcionalmente belo que ali está hospedado com a família. O escritor fica obcecado pelo rapaz, dominado pela ânsia e o desejo, entrando numa espiral que o faz alhear-se de tudo e que acaba por o levar à morte numa cidade onde entretanto grassa uma epidemia de cólera. No filme Visconti foi buscar Dirk Bogarde para o papel de Gustav von Aschenbach e Björn Andrésen para o papel de Tadzio, dando corpo a um dos pares mais fascinantes do cinema de então, num elenco que contava também com Mark Burns, Marisa Berenson e Silvana Mangano e uma banda sonora dominada pela terceira e quinta sinfonia de Mahler. Edição Bertrand.
MESA DE CABECEIRA - Se gostam de histórias de espionagem têm este Verão dois belos livros para levar para férias. O primeiro, editado pela Bertrand, é “O Espião no Arquivo”, de Gordon Corera, a história de como Vasili Mitrokhin - um arquivista introvertido que não amava mais nada para além dos arquivos empoeirados - após anos como bibliotecário do KGB, ao conhecer como o regime na realidade funcionava, se transformou num dissidente e depois num espião. Durante décadas o bibliotecário discretamente foi desviando segredos para o MI6 britânico e fez tudo de forma tão discreta que mesmo depois da sua fuga, auxiliado pelos britânicos, ninguém se apercebeu de imediato de que o bibliotecário se tinha ido embora. O outro livro, editado pela D. Quixote, é “Agente Zig Zag”, a obra que em 2007 tornou Ben MacIntyre um autor famoso. O livro conta a história do lendário agente duplo da Segunda Guerra Mundial. Numa noite de dezembro de 1942, um pára-quedista nazi aterrou num campo em Cambridgeshire com a missão de sabotar o esforço de guerra britânico. chamava-se Eddie Chapman, mas em breve tornar-se-ia o Agente Zigzag do MI5, elegante e charmoso, corajoso e imprevisível. Ben Macintyre entrelaça diários, cartas, fotografias, memórias e arquivos ultrassecretos do MI5 para criar um relato emocionante sobre o agente duplo mais sensacional da Grã-Bretanha.
O ROCK TEM IDADE? - O artigo do jornal espanhol “El Pais” sobre o novo disco dos Rolling Stones, “Foreign Tongues”, sintetiza na perfeição o álbum: estão velhos mas não estão acabados. Com Mick Jagger e Keith Richards à beira de completarem 83 anos e Ron Wood com 79, o disco tem uma energia surpreendente e algumas curiosidades incontornáveis. A primeira é a presença de Paul McCartney numa das faixas, a segunda vez que um ex-Beatle partilha o estúdio com os Rolling Stones, neste caso num tema inédito “Covered in You”. Já no anterior album, “Hackney Diamonds”, de 2023, Paul McCartney havia tocado baixo no tema “Bite My Head Off”. Além de McCartney este “Foreign Tongues” tem uma lista de convidados que inclui Steve Winwood, Robert Smith (vocalista dos The Cure) Chad Smith (baterista dos Red Hot Chili Peppers), além de Darryl Jones, Matt Clifford e Steve Jordan que há muito trabalham com a banda. Outra curiosidade: o tema “Hit Me In The Head” usa uma das derradeiras sessões de estúdio de Charlie Watts, o baterista original dos Stones, que morreu em 2021. Composto por 14 temas, o novo álbum dos The Rolling Stones inclui 12 temas originais, uma versão de “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse, e uma outra de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, tema que encerra o disco. A capa do álbum é uma pintura do artista norte-americano Nathaniel Mary Quinn e a direção de arte e do novo álbum é da responsabilidade do ‘designer’ português Bráulio Amado, em parceria com o inglês Mat Maitland. O disco, intenso, pontuado pelas guitarras de Richards e Wood, mostra como os blues tiveram desde sempre influência nos Stones e é uma espécie de manifesto pela música rock, sem efeitos de IA, despida de efeitos especiais, pura e dura. Como cantava Neil Young, “Rock ‘n’ Roll will never die”. “Foreign Tongues” está disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - O problema de Portugal são os portugueses. Em tempos, aconselhava-se o povo a não adoecer no Verão para ‘poupar’ o SNS (...) Hoje, os portugueses continuam a não estar à altura de quem os governa. Nos exames nacionais, há famílias que se fiaram no calendário do Ministério da Educação – e desataram a marcar férias no chamado ‘período de férias’ (...) Já em Almada, não há água porque os portugueses a consomem. (...) No fundo, Portugal podia ser extraordinário. Mas com um povo que adoece, vai de férias e persiste em hidratar-se, só por caridade se aceita governá-lo” - João Pereira Coutinho no "Correio da Manhã".
BACK TO BASICS - “O segredo da vida é substituir uma preocupação por outra” - Charlie Brown, por Charles Schultz.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
julho 11, 2026
A ROUPA DA NATUREZA
Por vezes perco-me a olhar para o detalhe das cascas das árvores, para as suas ranhuras, os sulcos profundos que esboçam formas. Gosto de pensar que podem ser encaradas como puzzles orgânicos, em que os fragmentos se ajustam, ou como peças de um lego da natureza que nos desafia a imaginação e molda a paisagem. Sem árvores o horizonte seria um deserto. As árvores vestem a natureza, dão-lhe cor e volume, mudam ao longo das estações do ano e ficam no mesmo sítio mas vão-se transformando permanentemente. São seres vivos que nos ajudam, a nós, a viver. Há cascas que nos entram pela casa dentro: sob a forma da cortiça tirada dos sobreiros, ou a canela, que é a casca das caneleiras, ou ainda as de outras espécies cuja casca pode ser aproveitada para fazer remédios naturais, chás e até pomadas.
Ao ver o emaranhado desenhado nas cascas, fico a matutar se será que se pensa nisto cada vez que nos encostamos a uma árvore, quando nestes dias de calor nos acolhemos debaixo da sombra da sua copa. A casca é a roupa das árvores, a forma de tapar o seu tronco, é uma capa onde coexistem tecido vivo e matéria morta. E é uma capa que funciona como um escudo contra as temperaturas e as agressões. Sem essa capa as árvores perderiam mais água e não teriam alimentação suficiente. Imaginam o que sofrem as árvores num incêndio? De um momento para o outro são atingidas sem poderem escapar e nesses fogos é muitas vezes a casca, que é queimada, mas que protege os troncos, chamuscados por fora mas que, com sorte, às primeiras chuvas do outono, voltam a arrebitar. São belas, as cascas.
julho 10, 2026
SEGREDOS DE ESTADO
OS EXAMES E A LEI DA ROLHA - O Ministério da Educação, Ciência e Inovação, tutelado por Fernando Alexandre, não respondeu atempadamente a perguntas colocadas pela imprensa sobre as entidades envolvidas no processo de digitalização, as dificuldades técnicas reportadas por professores e só depois de muita pressão identificou os criadores da plataforma que está a ser usada para classificar os exames do secundário. Fernando Alexandre tem-se portado mal neste processo - não percebeu que existiam problemas técnicos, não quis assumir a necessidade de fazer alterações no calendário da classificação face aos problemas surgidos e por fim - e isto está a tornar-se um rotina neste Governo - não responde a perguntas concretas de jornalistas sobre os problemas surgidos, preferindo esconder os nomes dos responsáveis do ministério e das empresas fornecedoras. Sabe-se que nos últimos três anos a digitalização dos exames custou mais de sete milhões de euros e neste momento parece evidente que não houve da parte do Ministério de Fernando Alexandre a implementação de mecanismos de controlo de qualidade e a realização de testes sobre a eficácia de toda a plataforma antes de ela ser posta em utilização real. O caso de Fernando Alexandre não é único - muitas vezes cria-se a sensação de que o Estado adjudica serviços complexos, sobretudo na área tecnológica, sem garantir que existe competência técnica e um histórico de experiência que permita evitar problemas na implementação dos sistemas adjudicados. Que isto se passe num Ministério que tem nas suas competências a Inovação torna a coisa ainda mais anacrónica. Para além deste problema, muitas plataformas existentes a diversos níveis do Estado, têm uma utilização complexa e não são, para usar uma terminologia inglesa, “user friendly” - parece uma anedota mas recentemente, para conseguir cumprir os passos que uma plataforma digital do Estado me exigia, tive que recorrer a um manual de instruções em vídeo disponível no YouTube, e feito por um brasileiro, que finalmente me explicou aquilo que um serviço oficial não foi capaz de fazer. Mas verdadeiramente o mais assustador é o manto de silêncio com que o Estado se protege. Cito uma nota recente de Eduardo Cintra Torres no “Correio da Manhã” : A ERC deliberou duas vezes em duas semanas contra o jornal digital Página Um, estabelecendo que para esse jornal aceder a informação estatal, que deve ser pública, tem de explicar porquê e o que quer investigar. Com esta Lei da Rolha o Ministro Fernando Alexandre pode dormir descansado, bem embalado pela ERC.
SEMANADA - Portugal já paga cerca de 200 milhões de euros por ano a Bruxelas por não reciclar embalagens de plástico em número suficiente; um em cada quatro alunos inscritos num curso Técnico Superior Profissional abandonou o ensino superior um ano após ter entrado; a Administração Pública portuguesa terminou 2025 com um número recorde de cargos dirigentes e o Estado contabilizava no final do ano 16.115 dirigentes, sendo o aumento particularmente expressivo na administração regional e local; a Autoridade Tributária recebeu 5.710 denúncias e participações de fraude fiscal em 2025, nesse mesmo ano fez 641.678 pedidos de penhora por dívidas fiscais e pediu o levantamento do sigilo bancário mais de 800 vezes; os gastos nos hospitais do SNS com medicamentos oncológicos mais que triplicaram nos últimos dez anos; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a aumentar no ano passado, para 1,56 milhões de pessoas no final de dezembro passado, cerca de mais 41 mil do que um ano antes; 5% das despesas das famílias portuguesas são na área da saúde; as contribuições de estrangeiros para a segurança social tiveram em Abril uma subida de 10,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, atingindo 365,4 milhões de euros.
O ARCO DA VELHA - Em vésperas do jogo com a Espanha, Hugo Soares anunciou que Luís Montenegro era ”uma espécie de amuleto da sorte” da seleção nacional…
OLHOS NA AMÉRICA - A partir da colecção de Julião Sarmento, as curadoras Isabel Carlos e Rita McBride puseram de pé a exposição “Era Uma Vez na América” que apresenta um conjunto impressionante de obras de vários artistas que mostram o seu olhar sobre os Estados Unidos e onde se aborda o impacto da mitologia e da cultura dos EUA na criação contemporânea do pós-guerra. Nesta exposição figuram trabalhos de Bruce Nauman, Christopher Williams, Cristina Iglesias, Dan Graham, Ed Ruscha, Glen Rubsamen, James Casebere, James Turrell, João Louro, João Paulo Feliciano, John Baldessari, Jorge Molder (na imagem) , Juan Muñoz, Lawrence Weiner, Louise Lawler, Matt Mullican, Nan Goldin, Richard Artschwager, Richard Nonas, Richard Serra, Rita McBride, Robert Gober e Robert Morris. A exposição pode ser vista no Pavilhão Julião Sarmento, de terça a domingo das 11 às 19h00, na Avenida da Índia 172.
PODER E SEDUÇÃO - Pamela Churchill Harriman moveu-se na segunda metade do século XX num círculo onde política, economia, cultura e moda se entrelaçavam. Conviveu com algumas das pessoas mais notáveis da época, a começar pelo seu sogro, Winston Churchill, mas também com os Kennedy, Bill Clinton, Nelson Mandela, Frank Sinatra, Gloria Steinem ou Christian Dior. Inglesa, viveu muitos anos em Paris e depois apaixonou-se pelos Estados Unidos e em particular pelo vigor e energia de Nova Iorque e as intrigas políticas de Washington no pós-guerra. Sedutora, as suas aventuras amorosas e escapadas eróticas tornaram-se lendárias. Movia-se com habilidade e tinha muitos amigos em Hollywood, entre os quais Oleg Cassini, o estilista de Jacqueline Kennedy, que conheceu bem Pamela e faz dela este retrato: “Os homens envolvidos na política interessavam-lhe, mas como forma de acumular poder”. E foi isso o que fez ao longo da vida. “A Fazedora de Reis” é o título da sua biografia escrita por uma jornalista britânica, Sonia Purnell. Foi considerada uma das mulheres mais influentes do século XX e o seu elogio fúnebre foi proferido por Bill Clinton em 1997, num dos mais imponentes funerais a que Washington tinha assistido em muitos anos. Edição D. Quixote.
MESA DE CABECEIRA - Separados por quase cinco séculos o britânico Robert Burton, nascido em 1577, e o australiano Gerald Murnane, nascido em 1939, têm vários pontos comuns: tiveram uma vida sedentária, não viajavam, dedicaram-se com afinco à escrita e a aumentar o seu próprio conhecimento e o dos outros. Comecemos por Robert Burton e a sua “Anatomia da Melancolia”, editada na nova colecção da Quetzal, Biblioteca de Alexandria, numa tradução de Salvato Teles de Menezes. A edição é um resumo da obra que o autor nunca terminou e que já ultrapassava as 1500 páginas quando morreu. Marcada pela ironia, filosofia, pela poesia e sobretudo pela leitura de todos os livros da biblioteca de Oxford, onde trabalhava, a obra foi concebida como um ensaio que explica e acompanha as emoções e pensamentos humanos. “Territórios de Fronteira”, de Gerald Murnane, é também uma edição da Quetzal e é o último livro de ficção do autor, que se mantém fiel aos temas que percorrem toda a sua obra, e conta a história de um homem que muda de uma grande metrópole para uma pequena cidade remota onde pretende passar os seus últimos anos e revisitar uma vida de observações e de leituras.
ALMANAQUE - Anton Corbijn fotografou ao longo de meio século nomes célebres da música, como Joy Division, U2, Tom Waits, Rolling Stones, mas também de nomes do cinema como Martin Scorsese ou Clint Eastwood e artistas plásticos como Ai Weiwei ou Gerhard Richter. O museu Fotografiska Berlin apresenta até 20 de Setembro uma retrospectiva do seu trabalho na exposição “Corbijn, Anton” que agrupa 150 das suas obras. No Spotify há uma playlist que Corbijn fez com uma centena das suas canções preferidas.
DIXIT - Um país que se desenvolve retém talento. Portugal exportou talento. Um país que se desenvolve aumenta produtividade. Portugal importou mão de obra para sustentar setores de baixos salários. Um país que se desenvolve cria salários altos. Portugal continuou dependente de atividades de baixo valor acrescentado. (…) E depois chamou a isso crescimento” - Pedro Santa Clara.
BACK TO BASICS - “O meu objectivo nunca foi registar os meus sonhos e sim conseguir concretizá-los”- Man Ray
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
julho 04, 2026
CHAPÉUS HÁ MUITOS
(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMANALMENTE EM SAPO.PT)