OS DISCURSOS POMPOSOS - Quando vejo alguns políticos a falar na televisão lembro-me sempre da Rainha Má, em “Branca de Neve e os Sete Anões”, a ver-se ao espelho e a perguntar: “Espelho, espelho meu, quem é mais bela do que eu?” Nove décadas depois de a Disney ter feito este filme, o pequeno ecrã está cheio de imitadores da Rainha Má. São raros os políticos que conseguem evitar desempenhar este papel e Luís Montenegro não é um deles, seguindo o exemplo de José Sócrates e António Costa. A imagem é tudo o que lhes interessa. A verdade dos factos ou a realidade dos números, são coisas de somenos importância. Vem isto a propósito da ilusão que Costa e depois Montangero, coadjuvados por Centeno e Miranda Sarmento, andaram a espalhar sobre a nossa convergência com a Europa. Bastou o INE fazer bem as contas a quantos vivemos neste rectângulo à beira mar plantado para as ilusões ruírem que nem um castelo de cartas ao ar livre em dia de ventania provocando um trambolhão do PIB. Depois deste romance aposto que vem aí outra novela, desta vez em torno do PRR. Por todo o lado surgem avisos que os prazos não vão ser cumpridos, que as obras não estão feitas. O que me espanta é que os membros do Governo, que têm numerosos assessores, não tenham percebido a verdade do que se passava. A dúvida que tenho é se os responsáveis do governo que deviam acompanhar estas áreas foram enganados, são incompetentes, ignorantes ou querem apenas atirar-nos areia para os olhos. Numa entrevista publicada esta semana o economista Alfredo Marques, que foi alto quadro da UE, afirma que muitas decisões dos políticos “são um misto de conveniência política, de interesses próprios e de ignorância”, sublinhando que “infelizmente a qualidade dos nossos decisores é muito fraca”. E, sublinha : “uma das dimensões da má governação é a falta de credibilidade dos nossos decisores políticos e a má qualidade das políticas públicas.” Ou seja: continuamos num beco sem saída à vista.
SEMANADA - Actualmente a esperança de vida à nascença em Portugal é de 81,8 anos, um aumento de 1,28 anos na última década; 58% das crianças até aos 3 anos estão em creches ou amas, muito acima da média europeia, que é de 40,5%;
há 27 concelhos em Portugal onde a população estrangeira já é mais de um quinto do total de residentes; a idade média da população aumentou e Porto Santo foi o município com maior aumento de residentes com mais de 65 anos seguindo-se Albufeira, Ribeira Grande, Santa Cruz e Vizela; Penamacor é o concelho com maior proporção de residentes com 85 ou mais anos, seguindo-se Pampilhosa da Serra e Oleiros; os novos dados do INE mostram que Portugal passa de 81% para 76,2% da riqueza média da UE por habitante e cai para a 22.ª posição do ranking; no ano passado foram vendidos em Portugal 3700 automóveis de marcas desportivas, um mercado liderado pela Porsche; a Comboios de Portugal mais que duplicou o lucro em 2025, um número que contrasta com os atrasos sistemáticos nalgumas linhas, como a de Sintra, a degradação de composições, os atrasos nas obras e o número de ligações anuladas durante as greves; em 2025, a obesidade atingia em Portugal 1,7 milhões de pessoas com 18 ou mais anos, e o excesso de peso atingia 3,8 milhões de residentes; em seis anos o Ministério Público deduziu quase 800 acusações por exploração ilegal de jogo; em seis meses as autoridades portuguesas apreenderam 41 toneladas de cocaína com valor de mercado superior a 1,5 mil milhões de euros.
O ARCO DA VELHA - 43 técnicos de saúde africanos não puderam participar numa formação em oncologia no IPO de Coimbra porque os consulados portugueses nos seus países não conseguiram processar os seus vistos em tempo útil.
UMA DESCOBERTA - O destaque da semana vai para a exposição “Dos Gestos e das Formas: Um Diálogo entre Coleções”, que concretiza um reencontro entre as coleções do Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) e do Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC). As duas colecções tiveram uma origem partilhada no antigo Museu Nacional de Belas-Artes, mas, por decreto, a coleção foi dividida em 1911, criando dois museus dedicados a tempos distintos da história da arte. Esta exposição evidencia essa história comum, através de uma escolha realizada conjuntamente pelas equipas de ambos os museus. Assim se cruzam obras de diferentes séculos, permitindo uma leitura ainda mais ampla pela integração de obras da Coleção Fundação Millennium BCP e da doação recente da colecção Alberto Caetano. Seria exaustivo citar artistas representados, mas vale a pena referir que ao longo da exposição, entre obras do Museu Nacional de Arte Antiga, estão outras obras de nomes como Portinari, Menez, Carlos Botelho, Júlio Pomar, Fernando Lanhas, Maria Beatriz (na imagem), E um dos quadros mais importantes de Columbano que está em restauro mas exposto. Com curadoria coletiva das equipas do MNAA e do MNAC, a exposição “Dos Gestos e das Formas” está patente no Museu Nacional de Arte Contemporânea, Rua Serpa Pinto 4, até 20 de Setembro.
ROTEIRO - Actualmente em Lisboa existem quatro galerias focadas em mostrar fotografia, uma realidade bem diferente do que acontecia há uns anos. São elas A Pequena Galeria, a Narrativa, a Ochre Space e a Lumina, que é a mais recente das quatro. Já na semana passada falei da exposição “Maputo Diary”, que está até 1 de Agosto na Narrativa (Rua Dr. Gama Barros 60), mas volto a destacar este trabalho. Maputo Diary, de Ditte Haarløv Johnsen, é uma das melhores exposições de fotografia dos últimos tempos em Lisboa, um conjunto de imagens fortes que permitem traçar um percurso que mistura o afectivo com o documental , numa montagem muito boa e invulgar. Outra exposição que destaco é “Ocean Spray”, de João Mariano, que está até 12 de Setembro na Lumina (Rua Actor Vale 53). O autor apresenta 17 obras realizadas no sudoeste de Portugal, com o pano de fundo do mar vicentino (na imagem). João Mariano tem desenvolvido um trabalho assinalável em fotografia e na edição de livros e esta é a primeira apresentação desta nova série “Ocean Spray”, que o autor classifica como um trabalho em curso. E na Ochre Space, até dia 4 pode ainda ser vista a exposição “Mongolian Horse In North Wind” do fotógrafo chinês Wang Zhengping (Rua da Bica do Marquês 31, à Ajuda). Finalmente A Pequena Galeria fica na Avenida 24 de Julho perto do Mercado da Ribeira e teve até há poucos dias uma exposição de Vasco Grilo.
QUEM ERA CERVANTES? - Aqui está uma biografia inesperada de Miguel de Cervantes que nos dá uma outra leitura da vida do autor de D. Quixote. Intitulada “Cervantes Íntimo - Amor e Sexo nos Séculos de Ouro”, de José Manuel Lucía Megías, professor da Universidade Complutense de Madrid e um dos mais respeitados estudiosos de Cervantes. O autor faz-nos descobrir a vida de Cervantes desde o seu papel na Batalha de Lepanto ou no seu cativeiro em Argel, até às muitas especulações sobre a sua vida romântica e sexual. O livro aborda os mitos em torno de Cervantes, os seus vícios públicos e privados, a forma como foi marginalizado e como era o sexo na sua época, desde o cavaleiro andante sodomita, as suas amantes, a dúvida sobre se era heterosexual, num retrato da complexa sexualidade de Cervantes. É um livro inesperado, mas divertido. Edição Quetzal.
MESA DE CABECEIRA - Duas abordagens bem diferentes para quem tem o desejo de escrever e ser publicado. Em “Escrever - Memórias: como a escrita moldou a minha vida”, Stephen King partilha histórias da sua vida enquanto escritor e oferece conselhos a todos quantos querem sentar-se em frente a uma folha branca e começar a escrever. «Se quer ser escritor, há duas coisas que tem de fazer acima de tudo: ler muito e escrever muito”, afirma o autor de livros como “The Shining” e “Misery”. King fala sobre o desenvolvimento do enredo e a criação de personagens e sublinha que não há diferença entre a história pessoal e a história profissional: “viver e escrever são uma e a mesma coisa.”. Edição Bertrand. O outro livro é “A Palavra Mágica”, de Isabel Allende. São dela estas palavras: «A literatura é mágica: montar uma história é um processo misterioso, orgânico, instintivo. Ao escrever, entro na dimensão dos sonhos, da intuição, das premonições; aí, devo render-me e deixar que as personagens façam o que têm de fazer e que a história se conte por si. Passo a maior parte do tempo sozinha e em silêncio, como um monge em clausura. Escrever é como meditar. Na solidão, recordo, ouço vozes, tenho visões. Quanto mais calada estou, mais ouço e mais vejo. No silêncio da escrita, às vezes, sou visitada por espíritos – ou serão musas? Sinto-o como um toque na nuca. Ao escrever, transformo-me em médium. Para mim, a escrita não é uma opção, é um vício.» Edição Porto Editora.
O GRANDE WAITS - “Where The Willow And the Dogwood Grow” é uma homenagem ao talento de Tom Waits e às grandes canções que fez, muitas delas em parceria com a sua mulher Kathleen Brennan. Esta compilação reúne quase duas dezenas de versões das suas canções, desde “The Jersey Girl” interpretada por Springsteen, que abre o álbum, até “Day After Tomorrow” por Joan Baez, passando por Johnny Cash com “Down There By The Train”, em cujos versos se encontra o título desta compilação. Aqui não há inéditos, mas apenas uma compilação bem organizada pela Ace Records que mostra a diversidade do panorama musical explorado por Waits na música popular, dos blues ao jazz, passando pelo vaudeville e o folk. Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson, Lucinda Williams Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond, Los Lobos, Bob Seger, Norah Jones e Ramones estão entre os intérpretes escolhidos para esta compilação, editada em CD e disponível em playlist nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Se ficar em Lisboa no fim de semana as galerias de arte da zona da Estrela e Rato promovem sábado dia 4, entre as 15 e as 19h, a quinta edição do Passeio da Estrela, com inaugurações, visitas guiadas, palestras, e outros eventos especiais, uma oportunidade para ver arte contemporânea. As galerias participantes são a 3+1 Arte Contemporânea, a Consonni Radziszewski, a Cristina Guerra Contemporary Art, a Encounter, a Jahn und Jahn, a Monitor Lisbon, a No-No, a Galeria Pedro Cera e a Galeria Miguel Nabinho.
DIXIT - “Abdicar do poder é a coisa mais difícil que há” - Henrique Raposo
BACK TO BASICS - “A política é a arte de se servirem das pessoas, fazendo crer que as estão a servir a elas” - Louis Dumur.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS













