A Esquina Do Rio
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
outubro 31, 2026
O REGRESSO DAS NOITES LONGAS
outubro 30, 2026
O XERIFE ALDRABÃO
O ABUSADOR - Luis Neves construíu a sua carreira sob o lema não olhar a meios para atingir os fins. Foi assim que repetidamente fez interpretações muito pessoais de leis e regulamentos para conseguir rapidez na execução, foi assim que, até em termos pessoais, ignorou o que a lei dizia quando fazia obras numa propriedade sua, e foi assim que tomou decisões graves sobre material apreendido pela Polícia Judiciária que então dirigia, com um histórico de contorcionismo do estabelecido na lei. O bom senso não é certamente uma das suas virtudes, o abuso de poder é uma das suas características, a deturpação da verdade é frequente em parte do seu discurso. Não é tranquilizador ter à frente dos corpos policiais um homem com estas características e os recentes acontecimentos relacionados com os protestos desencadeados pela crise da habitação vêm comprovar isso mesmo. Logo no início dos protestos, na madrugada de 15 de Outubro, quando uma carga policial provocou mais de 30 feridos, o Director Nacional da PSP e o ministro defenderam que a polícia tinha actuado bem, de forma adequada e proporcional, mesmo com imagens que mostravam polícias a pontapear um manifestante já caído depois de ter levado bastonadas. No fim de semana passado o pior voltou a acontecer, com uma carga policial a provocar trinta e três feridos, com Luís Neves a dizer hipocritamente que apenas foi usada a “força física para fazer cumprir a lei e o Estado de Direito”. Talvez tivesse sido útil que ele próprio fosse sujeito a esse tratamento quando, com as suas acções, como o desencaminhamento do célebre atrelado com barris de amoníaco, pôs em causa o cumprimento da lei e o Estado de Direito. A violência das actuações policiais tem sido claramente incentivada pela cobertura que o ministro lhes tem dado. Estas acções são questionadas por constitucionalistas que colocam em dúvida se a polícia pode interromper os protestos que se prolongam depois da meia noite e meia - a legislação invocada pelas autoridades sobre o limite horário da manifestação foi feita pelo governo de Vasco Gonçalves, antes da aprovação da Constituição. Certo é que ao longo dos anos se têm verificado vários protestos e vigílias com tendas montadas no espaço público e que foram sempre toleradas, em qualquer horário, algumas durante dias a fio, sem intervenção das autoridades. Resumo do sucedido: temos um Ministro da Administração Interna que quando lhe dá jeito a si mesmo despreza e contorna a lei, mas que é muito zeloso a exigir que os outros a cumpram, mesmo quando não é claro que haja transgressões; e temos um primeiro-ministro silenciosamente cúmplice perante o que se passa, o que volta a trazer à baila a possibilidade de esse silêncio, em relação a Luis Neves, ser insuflado por alguma coisa que ele saiba sobre Montenegro. Escrevo estas páginas segunda-feira. Será que o silêncio e os abusos continuaram pela semana fora?
SEMANADA - No segundo trimestre deste ano os preços das casas aumentaram mais de 20% em quase metade do país; entre os 33 Estados da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), Portugal é o país onde há mais dificuldade em comprar casa; A dificuldade em ser proprietário de uma casa, em Portugal, está 36% acima da média da OCDE e 50% acima da média da zona euro; na última década, os preços das casas aumentaram 164%; actualmente 46% dos jovens portugueses entre os 18 e os 34 anos que trabalham a tempo inteiro continuam a viver com os pais; o Índice Internacional de Competitividade Fiscal 2026 da Tax Foundation coloca portugal no 33º lugar entre 38 países da OCDE, ou seja é o sexto sistema fiscal menos competitivo; entre 2010 e 2025, Portugal emitiu, por habitante, apenas 55% das licenças de construção de nova habitação registadas na média europeia; o crédito à habitação das famílias portuguesas até ao final de Agosto totaliza €119.100.000.000 mais 11,2% que no período homólogo; Em sete anos, o preço mediano de venda da habitação em Portugal mais do que duplicou, passando dos 1098 euros por metro quadrado no 2.º trimestre de 2019 para 2445 euros/m2 no final de junho deste ano, uma taxa de variação de 122% neste período; em 101 dos 308 municípios portugueses pelo menos 10% dos residentes são estrangeiros; em Lisboa 25,64% dos residentes são estrangeiros e no Porto são mais de 22%; em Odemira a maior parte da população residente, 52,6%, são estrangeiros; a taxa mais baixa de estrangeiros residentes é a de Resende, no distrito de Viseu, com 1,31%; como lembrou a jornalista Bárbara Reis, em 100 anos Lisboa só fez 96 obras de habitação pública.
O ARCO DA VELHA - Todas as sete dezenas de queixas de vítimas de abusos sexuais de padres sobre crianças foram arquivadas pelo Ministério Público.
O ANO DO CAVALO - A galeria Ochre Space, que se tem especializado em mostrar fotografia de autores chineses e japoneses, centrou a sua actividade ao longo deste ano a evocar o ano do Cavalo na astrologia chinesa. Para encerrar este ciclo o responsável pelo espaço, João Miguel Barros, escolheu o trabalho “Appearance and Abstraction”, do chinês Li Gang, que nos últimos dez anos se tem dedicado a fotografar cavalos. O fotógrafo aproxima-se tanto dos animais que quase os faz desaparecer, mostrando apenas detalhes e contornos dos seus corpos. Ao longo deste tempo Li Gang fez quatro livros sempre sobre esta mesma temática e a exposição é baseada no mais recente desses livros. João Miguel Barros explica que para esta série, o artista estudou a fundo a dimensão abstracta da pintura tradicional chinesa e a arte abstracta moderna do Ocidente. E sublinha que “a fotografia abstracta não é o mesmo que a arte abstracta, mas há entre ambas uma afinidade estrutural no plano espiritual, e isso deu a Li Gang uma nova maneira de ver. Naquilo que fotografa, busca as possibilidades de composição dos elementos visuais básicos e um equilíbrio subtil entre ordem e liberdade; entre o ocultamento e a descoberta”. A exposição pode ser vista até 14 de Novembro, de quinta a sábado entre as 15 e as 18h30. A Ochre fica na Rua Bica Do Marquês 31, à Ajuda.
A DESCOBERTA DA VIDA - “Uma Casa no Fim do Mundo”, um romance de Michael Cunningham conta a história de dois amigos: Jonathan, solitário, inseguro e introspectivo e Bobby, sombrio e silencioso. Depois da adolescência numa tranquila cidade do interior, a relação entre ambos encontra em Nova Iorque um novo espaço de crescimento com a cumplicidade de Clare que com eles partilha a casa, uma mulher mais velha e mais experiente. Jonathan, Bobby e Clare procuram construir um novo tipo de família, testando os limites da amizade e do amor. Michael Cunningham descreve a fragilidade e tensão das relações afectivas que assim se estabelecem. Os diálogos entre Clare, Bobby e Jonathan são imperdíveis, sobretudo a descoberta do corpo de uma mulher que Clare proporciona a Bobby. Tudo nasce no espaço de um corredor, numa casa partilhada entre uma mulher divorciada e farta da vida que tem levado, e dois rapazes mais novos que têm uma relação. Como ela diz a certa altura, a velha Clare vai ensinar uma dúzia de truques. Como em outras obras, Michael Cunningham escreve sobre o amor e a fragilidade da condição humana. Edição Gradiva.
MÚSICA ANTIGA - O disco “A Bússola Branca” regista o conjunto de sonatas de Carlos Seixas, a figura maior da música portuguesa para teclas do século XVIII, agora editadas pela primeira vez. A gravação destas sonatas baseia-se na interpretação da cravista francesa Béatrice Martin, que as tocou num instrumento do tempo de Carlos Seixas, o cravo construído em Lisboa por Joaquim José Antunes em 1758 e classificado como Tesouro Nacional. O projeto reúne oito sonatas de Carlos Seixas e uma obra contemporânea de António Pinho Vargas, num diálogo entre o período barroco e a criação musical contemporânea. Este trabalho recupera uma parte do património musical português que permanecia fora do registo discográfico, e fá-lo com um dos poucos cravos portugueses da época que ainda se conservam, hoje em exposição no renovado Museu Nacional da Música, em Mafra. Disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “A habitação é um dos melhores exemplos do cruel falhanço dos serviços públicos portugueses no século XXI”- António Barreto, no Público
BACK TO BASICS - A Imaginação é a única arma eficaz na guerra contra a realidade” - Jules de Gaultier
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
outubro 24, 2026
AS JANELAS BORDADAS
Nas grandes cidades já se vêem poucas janelas assim, com cortinados de bordados laboriosamente feitos com linha branca. Nalgumas vilas do interior, e numas muito poucas janelas de rés de chão de zonas antigas das cidades maiores, às vezes ainda se encontram estes cortinados. Nasceram assim arrendados para que entrasse alguma luz enquanto impediam os curiosos de espreitar para dentro de casa. Os bordados eram o retrato de uma época, feitos nos tempos livres, muitas vezes à noite, depois do jantar, numa época em que ainda não havia televisão e os trabalhos manuais eram uma forma de passar o tempo. As pessoas com mãos mais hábeis bordavam enquanto falavam, mantinham um diálogo de agulha na mão, contando os pontos mentalmente enquanto a conversa andava noutras paragens. Havia revistas com modelos de bordados, havia lojas que vendiam os seus fios, havia até concursos de bordados. Não se pense que os bordados ficavam só na janela, eles podiam invadir as casas por todo o lado, principalmente em cima de mesas ou nos braços dos sofás e, quando a televisão começou a ser o centro das atenções domésticas, um bordado por cima do grande móvel de madeira que suportava um ainda pequeno ecrã era muito habitual. Hoje em dia quase desapareceram, das janelas e das casas. Poucas pessoas sabem já bordar, foi um saber que se foi perdendo. O rito do bordado à noite perdeu-se entre telenovelas e reality shows. E, nestes dias que correm, a agulha e a linha foram substituídas pelo telemóvel e redes sociais. Despiram-se as janelas.
(PENSAMENTOS OCIOSOS, SEMPRE EM SAPO.PT)
outubro 23, 2026
A MÂO LEVE DO ESTADO QUE ENTRA NOS BOLSOS
SEMANADA - O PIB português apenas cresceu 41,6% em três décadas o que classifica a economia portuguesa como uma das mais lentas do mundo no século XXI; quase metade das vagas com incentivos para a colocação de médicos em zonas carenciadas ficou por preencher; Portugal é o país do mundo mais exposto ao capital chinês; a margem de refinação obtida pela GALP no terceiro trimestre deste ano foi de mais 101% que no trimestre anterior e mais 256% que no mesmo período do ano passado; durante 2025 o consumo médio de petróleo de cada português, nas suas várias formas e aplicações, foi de 3,3 litros; um trabalhador que ganhe o salário médio líquido, 1348 euros, e que faça 25 kms por dia em viatura própria para ir trabalhar, gasta o que ganha em dois dias só para pagar o combustível que consome mensalmente em deslocações para o emprego; a TAP já custou 3,255 mil milhões de euros ao erário público, está avaliada em cerca de dois mil milhões e será vendida por pouco mais de mil milhões; entre Janeiro e Agosto foram iniciadas 862 investigações de abuso sexual de crianças e 887 de pornografia de menores; segundo a PJ em média são abertos oito inquéritos por dia com crimes sexuais contra crianças e adolescentes; pelo terceiro ano consecutivo, o Instagram é a rede social mais utilizada pelos portugueses com 32.2% de utilizadores, o WhatsApp ocupa a segunda posição, com 25.6%, enquanto o Facebook, que até 2023 liderava a utilização, surge em terceiro, com 21.7%.
O ARCO DA VELHA - O valor médio gasto por dia pelos portugueses, nos primeiros oito meses do ano, em medicamentos para emagrecer, foi de cerca de 795 mil euros e em 2025, a média foi de 380 mil euros.
DIXIT - “A vitória nas eleições é de quem tiver um programa de habitação” - Ana Sá Lopes, no “Público”.
BACK TO BASICS - “Não me agrada pensar se prefiro ir para o céu ou o inferno, porque tenho amigos em ambos os sítios” - Mark Twain
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
outubro 17, 2026
OUTRAS VISTAS
Esta semana dei comigo num autocarro a ir pela auto-estrada fora, rumo ao norte. Sem ter que conduzir, restava-me olhar para o que se passava à volta. Percebi que num autocarro se olha por cima das barreiras laterais da estrada, que temos outras vistas, que há casas que nunca tínhamos sequer imaginado, campos cultivados, animais a pastar. E assim fui vendo o que nunca tinha visto, nesta mesma estrada por onde tantas vezes já passei a guiar. É bem certo que quando não vamos a conduzir a atenção à paisagem é diferente. Em vez de olhar para o carro da frente e para os retrovisores, podia olhar para os lados. É todo um mundo novo que se abre. Quem conduz, não vê; quem é conduzido, espreita - eis a conclusão a que cheguei. A certa altura dei por mim a recordar-me do tempo em que andava no Liceu e ainda havia em Lisboa autocarros de dois andares. Eu gostava de subir a escada e ir lá para cima - havia menos gente, mais espaço, e descobria-se outra cidade. Hoje já não há autocarros desses para os residentes, só há para os turistas, com esplanadas em cima ou vidros panorâmicos. Na altura fazia de turista na minha terra, via a avenida da República e o Saldanha de cima. Depois passei a andar de metro e passei a ver só pessoas sempre apressadas. No andar de cima do autocarro via a cidade a cores; no metropolitano, via as profundezas da cidade a preto e branco. Esta viagem de autocarro pela estrada fora devolveu-me o prazer de ver por onde a estrada passa. (pensamentos ociosos, sempre em sapo.pt)
outubro 16, 2026
A MANIA DAS COMPRAS
SEMANADA - As verbas para o ensino desceram de 6,7% do PIB em 2010 para 4,4% em 2022 e esta redução coincidiu com o regredir dos resultados de Portugal no estudo PISA; a falta de vagas para alunos nas escolas gera 46% das reclamações contra o Ministério da Educação e mais de metade dos casos reportados no Portal da Queixa envolve crianças do pré-escolar e do 1º ciclo; desde que o ano letivo se iniciou, em setembro, o número de aposentações disparou e as escolas perderam 1542 professores, que adicionam aos 1721 que tinham saído nos primeiros oito meses de 2026; em 2025, o índice de preços da habitação registou uma subida anual de 17,6%; no segundo trimestre de 2026 foram transaccionadas em Portugal 40.1412 habitações, menos 6,4% do que no mesmo período de 2025; quase um em cada cinco dos portugueses entre 25 e 34 anos teve uma consulta na área da saúde mental no ano passado; a carga fiscal portuguesa, sobre combustíveis, em valor e em paridades de poder de compra, é a quarta mais elevada da UE na gasolina 95 e a sétima no gasóleo; um estudo divulgado na semana passada indica que das 12 campanhas publicitárias analisadas em Portugal em torno do Mundial 2026 a mais eficaz foi a da McDonald’s, seguida pelas do Continente e do BPI; os seguros de saúde já cobrem 4,5 milhões de pessoas em Portugal; o volume de negócio dos hospitais privados subiu 44% em quatro anos; em apenas oito meses, a população prisional aumentou em 652 detidos, enquanto o corpo da guarda prisional perdeu 73 profissionais; a PSP e a GNR registaram 35 assaltos a residências por dia em 2025; a GNR registou, a nível nacional, um total de 964 desaparecimentos; quem ganha o salário médio será menos beneficiado com as alterações ao IRS.
O ARCO DA VELHA - O consumo de combustíveis em Portugal está a crescer acima da média europeia.
O TRIUNFO DA PINTURA - Juan Araujo é um artista venezuelano que tem vivido em Lisboa, com uma extensa carreira internacional e presença em algumas colecções públicas importantes, como a Tate de Londres, o MOMA de Nova Iorque ou o Centro Galego de Arte Contemporânea. “El Pez Que Fuma” é o título da sua exposição patente na galeria Cristina Guerra Contemporary Art até 14 de Novembro. São trabalhos essencialmente de pintura, a óleo, de pequenas dimensões, registos detalhados “imagens de mundos perdidos, cidades mortas, ruínas, pedras que opõem ao tempo a sua própria plasticidade, a sua aptidão para se fragmentarem, sobreviverem e significarem a obsolescência das coisas”, como escreveu Leopoldo Iribarren na folha de sala desta exposição, sublinhando ainda que “quem, como Juan Araujo, aspira a produzir uma poética da ruína não pode senão escavar na sua própria memória.” Nas paredes surgem imagens de vulcões, de destruição, mas também de um famoso toureiro venezuelano conhecido como Diamente Negro. Várias obras integram séries, como acontece na evocação de Pompeia ou na referência à intrusão dos Estados Unidos na Venezuela e no ataque a navios venezuelanos no ano passado. O traço é magnífico, o detalhe dos pequenos quadros a óleo é o testemunho do triunfo da pintura. Na inauguração algumas das obras já estavam reservadas por colecionadores. (Cristina Guerra Contemporary Art, Rua de Santo António à Estrela 33) .
ROTEIRO - Na Galeria Lumina a fotógrafa Luísa Ferreira mostra um lado menos conhecido do trabalho documental e de fotojornalismo que tem feito ao longo dos anos. Mas, em paralelo, durante quase três décadas e meia Luísa Ferreira desenvolveu um trabalho persistente com base em Polaroids em cujo processo de revelação interveio (na imagem). O resultado está agora à vista em “Metamorfoses”, a surpreendente exposição que está patente na Lumina Galeria até 7 de Novembro, mostrando outro lado do trabalho da artista, sem recurso a facilitismos e com o mesmo rigor que caracteriza o seu trabalho documental. (Rua Actor Vale 53 a - no sábado pelas 18h30 decorre uma conversa sobre o processo criativo do trabalho exposto). Em Lisboa o "Imago Photo Festival" já começou , com exposições em vários locais como a Mitra, o Museu da Água, o Instituto Cervantes, a Sociedade Nacional de Belas Artes , a Galeria Sá da Costa ou a Galeria de Santa Maria Maior. Ao todo são nove locais onde podem ser vistas obras de, Joan Fontcuberta, Viktoria Sorochinski, Marc Schroeder ou José Luis Neto, entre cerca de três dezenas de autores. O Imago Photo Festival deste ano tem por tema “Repensar a Fotografia” e a programação pode ser vista em imagolisboa.pt .
ESCALDANTE - O tema da IA está ao rubro e este livro vem a propósito. “Se Alguém a Criar, Morremos Todos”, de Eliezer Yudkowsky e Nate Soares, é uma obra dedicada aos riscos associados ao desenvolvimento de uma superinteligência artificial. Os autores defendem que uma inteligência artificial capaz de ultrapassar as capacidades humanas poderá desenvolver objetivos incompatíveis com os interesses da Humanidade. e consideram que o risco de extinção associado à inteligência artificial deve ser tratado como uma questão de escala global, colocando-o ao lado de ameaças como as pandemias e a guerra nuclear. A investigação que desenvolveram indica que IAs suficientemente avançadas irão desenvolver metas próprias, que as colocarão em conflito connosco. Os autores são fundadores e responsáveis do MIRI - Machine Intelligence Research Institute e têm larga experiência nesta área. Edição Dom Quixote.
COLTRANE REVISITADO - Em 1963, por insistência da sua editora de então, a Impulse, que queria que o músico seguisse um caminho menos experimental, John Coltrane convidou o cantor Johnny Hartman a gravar um disco que ficou célebre e se tornou numa lenda das gravações de jazz. Foi a única vez em que o saxofonista gravou com um vocalista e o resultado foi um disco soberbo que tinha por título o nome de ambos. Agora Branford Marsalis, no centenário de Coltrane, revisitou a aventura de 1963 e convidou Dianne Reeves a juntar a voz ao saxofone, no album “Dedicated To You”recriando os seis temas que tinham sido gravados por Coltrane e Hartman, “They Say It’s Wonderful”, “Dedicated To You”, “My One And Only Love”, “Lush Life”, “You Are Too Beautiful” e “Autumn Serenade”. A estes temas Marsalis juntou peças instrumentais compostas por Coltrane na mesma época, com destaque para “Big Nick”, aqui interpretadas pelo seu quarteto e ainda três faixas extra. Edição Blue Note, disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “Na sua mensagem de Natal de 2025, Luís Montenegro exortou-nos a ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo. O Primeiro-Ministro considera que faz falta ao país. Se calhar tem razão e é isso que vai fazer avançar a economia portuguesa. Mas não toda. Apenas a indústria do papel. Sobretudo o sector dos lenços de papel. Dez milhões de Cristianos Ronaldos vão precisar de muitas caixas de kleenex para assoarem todo o ranho produzido nas suas birras.” - José Diogo Quintela, no Observador.
BACK TO BASICS - “Não há nada tão inútil como fazer de forma eficiente aquilo que não precisava de ser feito” - Peter Drucker.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS
outubro 10, 2026
ENERGIAS
A 10 de Junho de 1891 nasceu em Lisboa a sociedade Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, conhecida por CRGE, resultante da fusão da Companhia Lisbonense de iluminação e da Companhia de Gás de Lisboa. Passado um século o gás foi para um lado e a electricidade para outro. E assim as duas fontes de energia permaneceram separadas, mas não por muito tempo. Quem tinha ficado a mandar no gás e na electricidade, com empresas diferentes, decidiu voltar a juntar tudo e hoje o fornecimento de gás e de electricidade está de novo, em muitos casos, numa mesma empresa. Mas as memórias não se perdem e ainda é possível encontrar em alguns prédios lisboetas placas como estas, histórico símbolo de uma época em que a iluminação e a força motriz se combinavam sob a égide da palavra “INVIOLÁVEL”. Gosto destas marcas da memória que se encontram, assim por acaso, quando se visita um amigo, num prédio de meados do século passado. Aposto que no futuro não haverá registos destes, com placas tão bonitas com os nomes dos fornecedores - às vezes nem sabemos quem nos fornece o quê. Por falar nisso esta semana percebi que o Governo português anda conduzido por combustível americano. Passo a explicar: há dias li que a maior parte da frota automóvel do Estado tem motores diesel. Ora a maioria do gasóleo que se vende em Portugal é importado dos Estados Unidos, já que a Europa não tem suficiente capacidade de refinação e por aqui , neste cantinho, muito menos - que a refinação foi chão que já deu uvas. Se a lógica não é uma batata, é caso para dizer que os movimentos de muitos ministros e organismos do Estado só acontecem graças aos americanos. Estranho mundo este.
















