junho 20, 2026

AS CORTINAS E OS SINAIS DOS TEMPOS


Existem várias teorias sobre a utilidade das cortinas. Para algumas pessoas são apenas uma peça decorativa, para outras uma forma de controlar a luz, para outras ainda a melhor forma de evitar olhares indiscretos. Nalguns casos, e dependendo dos materiais, podem ser um isolante acústico ou térmico. Podem ser pesadas e opacas, leves e translúcidas.  O grau de liberdade das cortinas é grande. Tão grande que há outras cortinas, como as que aqui estão, que se usam no exterior e que servem para evitar a entrada num espaço de visitantes indesejados, como moscas ou até pássaros. Há uns anos era frequente vermos essas cortinas, feitas por fiadas de metal ou de fitas plásticas, que se afastavam para o lado com facilidade, para as pessoas passarem e a bicharada não entrar. Com o andar dos tempos foram-se perdendo, agora  quase já não se vêem nas grandes cidades, só se encontram ainda nas vilas e aldeias do interior. E, claro, há montes delas em sites, do Temu à Amazon, em materiais que vão do alumínio ao bambu e em diversas cores. Eu acho graça a estas cortinas verticais, que funcionam graças à gravidade, que as mantém esticadas. Gosto do movimento de as abrir com a mão, de as sentir a enrolarem-se à volta do corpo, fechando-se de novo logo a seguir. São cortinas sábias, impedem os indesejáveis bicharocos de as atravessar, mas permitem que o ar circule.Talvez por isso foram desaparecendo nestes tempos do ar condicionado, quando as portas ficam fechadas para não deixar sair o fresco. Sinais dos tempos…

(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)


junho 19, 2026

AS PORTAS ESCANCARADAS DE MONTENEGRO


DALTONISMO GALOPANTE - Tenho constatado que o Primeiro-Ministro e o seu círculo mais próximo foram acometidos de um surto galopante de daltonismo. Trocam as cores todas, e das ideias já nem falo. As linhas vermelhas esbateram-se tanto que agora, são meras recordações no horizonte. O Chega tomou conta do asilo com rapidez, aproveitando as portas escancaradas que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro lhes abrem. Estes três nomes são os porteiros de serviço, às ordens de Ventura. Montenegro fala, Soares manda e Amaro incentiva. Este trio criou pacientemente uma nova geringonça. Mas há uma diferença fundamental: enquanto Costa criou a geringonça para, pelo caminho, esvaziar os partidos à sua esquerda, Montenegro está a encher quem está à sua direita. É certo que o PS fez tudo para alimentar o Chega, na esperança de apoucar o PSD e Montenegro está a engordar Ventura ainda mais. O fim desta dieta adivinha-se: o Chega continuará a engordar e o PSD a emagrecer. Se repararmos bem o impulso definitivo para o PSD aprovar as medidas mais radicais que preconiza, na RSU ou nas leis da imigração, vem sempre do Chega, que consegue sempre um  ir além do que o Governo anunciava que iria dar. Montenegro, que fala, fala e diz pouco, afirma que este Governo é o mais reformista quando na realidade, é cheguista.  O que o seu Governo consegue concretizar precisa da benção de Ventura. Basta ver o que se passa com a legislação laboral e a forma como o líder do Chega aproveita para fazer campanha sobre a descida da idade da reforma e o aumento do número de dias de férias anuais. Ou seja: já está em campanha para nas próximas legislativas ser ele a substituir Montenegro. Em vésperas do congresso o PSD alinhou na geringonça do Chega.


SEMANADA - Partidos e movimentos políticos representados na Assembleia da República devem 1,4 milhões em coimas, mas as autoridades não revelam quem foi multado nem o valor de cada um em dívida; nos últimos dez anos disparou a presença de alunos estrangeiros nas escolas públicas, que agora são 15% do total de matriculados, com o Brasil em primeiro lugar com 47% do total; um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa indica que dois terços dos portugueses consideram que a imigração tem efeitos positivos na economia; 4300 condutores portugueses ficaram sem carta de condução nos últimos dez anos devido ao sistema da carta por pontos; na noite de Santo António, a  GNR deteve nas vias rápidas de acesso a Lisboa, em 4 horas, 66 condutores embriagados; 91 em cada 100 famílias residentes em Portugal tem TV cabo e o número total de assinantes residenciais é de 4,1 milhões; na Damaia foram detidos dois homens que estavam a desmontar e roubar portas de prédios; 16.6% é a taxa de risco de pobreza em Portugal após transferências de apoios sociais; em 2024 dois milhões de pessoas estavam em risco de pobreza ou exclusão social; o preço da sardinha na lota é o dobro do verificado em 2025; o sistema de videovigilância e de deteção automática de incêndios rurais só cobre metade do território continental.



ARCO DA VELHA - Um agente da PSP de Angra do Heroísmo foi filmado por um traficante que era o seu fornecedor a inalar cocaína.



RELAÇÕES VIOLENTAS - “The Comfort of Strangers” é a segunda novela de Ian McEwan, editada em 1981. Em português recebeu o título “Estranha Sedução” e teve a sua primeira edição em 1991. A Gradiva lançou agora a quinta edição desta obra, que já deu um filme. O livro passa-se numa cidade que nunca é nomeada, mas sugerida, e tudo indica que seja Veneza, que foi aliás o cenário do filme. Tudo gira em torno de dois casais, Mary e Colin, que estão de visita à cidade e Robert e Caroline, que ali vivem numa relação complexa, violenta e cheia de obsessões. A escrita de Ian McEwan é fascinante, explora as relações humanas através da intimidade de um casal que expõe fragilidades, num ambiente de crescente erotismo, um romance intenso, cheio de suspense  e violência psicológica numa sucessão de jogos de poder, por vezes cruéis,  que criam dependências. Ian McEwan escreveu dois livros de contos e 17 romances, escreveu também o libreto de uma ópera e diversos argumentos originais para cinema. Edição Gradiva.





MESA DE CABECEIRA - Jorge Luis Borges morreu há 40 anos e este “O Livro dos Prólogos” é um legado que  nos deixou sobre livros e autores que amava.  Ao longo da sua vida, Borges foi um apaixonado promotor dos escritores de que gostava, muitas vezes desconhecidos dos seus compatriotas, e usou os seus prólogos não só como um texto de introdução a um livro, mas também como uma forma brilhante de crítica, contextualizando o autor e a sua obra. Nas 300 páginas desta selecção do que é a literatura segundo Borges, estão autores como William Shakespeare, Cervantes, Kafka, Herman Melville, Francisco de Quevedo, Lewis Carroll, Emerson, Ray Bradbury, Adolfo Bioy Casares, Paul Valéry, Walt Whitman, Henry James, Edward Gibbon, Thomas Carlyle ou Marcel Schwob.   Nalguns casos estes prólogos assumiram a forma mais adequada ao tema: a biografia sintética, por exemplo, onde se concentra uma obra inteira e paira uma deliciosa ironia. Edição Quetzal. “Reflexões sobre a Dor”, de Umberto Eco, tem por base um texto da lição que Eco proferiu em 2014 na cerimónia de  entrega dos diplomas da Academia das Ciências de Medicina Paliativa da Universidade de Bolonha. A dor é um termo que, no campo da medicina, é geralmente identificado como sofrimento físico, mas o seu verdadeiro significado deve ser alargado ao sofrimento emocional, espiritual, social, afectivo - esta é a base deste texto de Umberto Eco, que analisou a dor num contexto semiológico, histórico e filosófico, contextualizando a discussão em diversas situações, nas quais a palavra dor se pode libertar dos vínculos estereotipados de derivação clínica. Edição Gradiva.




O PODER DA ARQUITECTURA  - Frank Gehry, que morreu no ano passado, foi um dos mais importantes arquitectos das últimas décadas, responsável por numerosos projectos que deixaram marca nas cidades onde foram construídos, como foi o caso de Bilbao onde projetou a extensão na cidade espanhola do Museu Guggenheim. Agora podem ser vistos na Ala Siza da Fundação de Serralves 19 dos seus projectos, entre os quais, e que me lembre pela primeira vez desde há duas décadas, a sua proposta para o Parque Mayer em Lisboa, um projecto encomendado por Pedro Santana Lopes quando foi Presidente da Câmara e descontinuado por António Costa logo que chegou à autarquia. Esse projecto em exposição em Serralves (a imagem aqui mostrada é dos arquivos
Frank O. Gehry & Gehry Partners) foi desenvolvido em 2003 e 2004 e a sua construção seria financiada pelas contrapartidas do Casino de Lisboa que, depois do abandono do projecto de Gehry, foi para a Expo. Lisboa ficou sem uma obra de arquitectura de referência que poderia ter transformado aquela zona da cidade, então praticamente em ruínas. Quem visitar Serralves poderá imaginar o efeito que a proposta de Gehry teria e compará-la com aquilo que agora é. Mas adiante, o que interessa é visitar esta exposição e compreender como a arquitectura pode deixar uma marca. Entre os projetos de Gehry apresentados na exposição estão a Gehry Residence em Santa Monica;  a Loyola Law School de  Los Angeles; o Vitra Design Museum na Alemanha a Lewis Residence no Ohio o Guggenheim Museum de Bilbao, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles o ArtCenter College of Design em  Pasadena, o Parque Mayer em Lisboa, o DZ Bank em Berlim, as adegas Marqués de Riscal em Espanha, a Fondation Louis Vuitton em Paris; e a Beekman Tower / 8 Spruce, em Nova Iorque. Esta exposição “O Século de Gehry” é organizada pela Fundação de Serralves e comissariada pelo seu Diretor de Arquitetura, António Choupina, em conjunto com a Gehry Partners e  pode ser vista até 26 de dezembro deste ano. Uma nota final para destacar a inclusão na exposição da colaboração entre o arquiteto Frank Gehry e a marca portuguesa de tapeçarias Ferreira de Sá, que traduziu os traços do arquiteto em tapeçarias feitas à mão, uma colaboração que se iniciou em 2012, quando o arquiteto português Álvaro Siza apresentou a marca portuguesa  de Espinho a Frank Gehry.




ROTEIRO - “Mongolian Horse in North Wind” é o título da exposição de  Wang Zhengping, um dos mais importantes fotógrafos chineses contemporâneos, que inaugura dia 16 na Galeria Ochre Space, em Lisboa, com a presença do artista.

Nascido e criado na Mongólia Interior, Wang Zhengping dedica-se há mais de quinze anos a fotografar o cavalo mongol e as vastas paisagens da estepe que moldaram a sua vida (na imagem). Esta é a primeira vez que o trabalho deste fotógrafo é apresentado em Portugal e a Ochre Space tem programas mais três exposições que a galeria apresentará ao longo do Ano Chinês do Cavalo, celebrando a riqueza e diversidade da fotografia contemporânea chinesa e japonesa, de nomes como A.Hin, Hosoe Eikoh e Li Gang. A exposição decorre até  4 de Julho, na Ochre Space,de quarta a sábado, entre as 15H e as 18H30, na Rua Bica do Marquês, 31-A, à Ajuda.




UM QUARTETO - O saxofonista Joe Lovano  juntou-se a Julian Lage na guitarra, Asante Santi Debriano no baixo e Will Calhoun na bateria. O nome do disco é “Paramount Quartet” e além de cinco temas de Joe Lovano, inclui versões de originais de Charlie Haden (“First Song”, que abre o álbum), e de Wayne Shorter ( “Lady Day”, uma homenagem a Billie Holiday). Deve realçar-se o diálogo entre o saxofone e a guitarra que desempenham o papel principal em várias faixas, bem apoiados no excelente trabalho da secção rítmica. O disco foi gravado em estúdio a cerca de um ano e editado agora pela ECM, com produção de Manfred Eicher. Disponível em streaming.

ALMANAQUE - No Museu Bordalo (Campo Grande 382) decorre neste fim de semana de 20 e 21 mais uma edição da “Paródia no Bordalo”, que apresenta uma série de actividades, desde uma feira do livro, a oficinas artísticas, visitas guiadas à óptima exposição permanente, filmes e conversas a propósito. Entrada livre.


DIXIT - “Como está, este Estado pode ser retocado, mas não reformado. A fragmentação política reforçou o imobilismo, não o contrário. Há muitos Estados dentro deste Estado.” - Luís Marques, no Expresso.


BACK TO BASICS - “A Arte não é apenas beleza. A Arte é uma pergunta. É reflexão. É o contraste. É uma revolução. É uma tensão entre o que sabemos e o que intuímos.(…) Precisamos de continuar a procurar a beleza. Mas também a verdade.”- António Banderas , para o Papa Leão XIV.



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS






junho 13, 2026

QUAL FUTURO?

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Este país não é para novos, no interior ainda menos. Estou a escrever de numa aldeia bonita, com História. A paisagem, a descer para o Tejo, é soberba, o último pedaço de Alentejo, antes da Beira Baixa. A aldeia chama-se Amieira do Tejo. Como muitas outras aldeias do interior esta existe há centenas de anos, desde o século XII para ser mais exacto . Hoje, esta e outras aldeias estão quase desertas, um contraste com o que se passava há pouco mais de meio século. Amieira do Tejo, concelho de Nisa, de onde é a minha família, tem um castelo construído no século XIV pelo pai de D.Nuno Álvares Pereira, uma fortificação  de defesa que servia para proteger a linha do Tejo. Mais tarde, no início do século XVIII, Amieira era uma vila próspera e desenvolvida, onde viviam cerca de setecentas pessoas. Em meados do século XX mantinha quase 800 habitantes, tinha uma actividade agrícola intensa, dois lagares de azeite, muita cortiça, meia dúzia de estabelecimentos comerciais,  escola primária, hospital, médico  e padre residentes. Nas décadas de 60 e 70 do século passado chegaram os eucaliptos e foram-se as oliveiras e os sobreiros, a aldeia esvaziou-se, gente a ir trabalhar para Lisboa, outros partiram para França ou  Alemanha.  No final dos anos 70 a aldeia já só tinha cerca de 500 habitantes e hoje em dia tem pouco mais de 200. Nos últimos anos acentuou-se o declínio demográfico, muitas das casas estão degradadas, muitas à venda, mas poucas são recuperadas - encontrar quem faça obras não é fácil.  Passeio pelas ruas e vejo várias casas com correntes fechadas a cadeado, janelas partidas, algumas com os telhados caídos. Quase desapareceram crianças, a média de idades dos que cá vivem é alta, mas recentemente chegou gente de fora com filhos pequenos, a tentar fazer aqui vida. As crianças têm de fazer quase vinte quilómetros para irem à escola. Os mais velhos têm mais sorte: na aldeia há um centro de dia e um lar de idosos. Este país não é para novos, e é uma pena. Mudar isto era a mais necessária das muitas reformas de que Portugal prercisa.



junho 12, 2026

OUTROS OLHARES

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VISTOS COM OLHOS DE FORA - É muito curioso ver como os estrangeiros que vivem em Portugal olham para nós e para o que se passa no país. Duas publicações feitas por estrangeiros que nos permiotem ver isto são “Lisboète Magazine”, que se apresenta como a revista dos francófonos em Portugal,  e  “The Portugal News”, sucessor do histórico “Anglo Portuguese News” que se publicou entre 1937 e 2004, dedicado à comunidade inglesa. Hoje em dia o Portugal News é mais abrangente no público alvo e distribui diariamente uma newsletter. Outra newsletter diária, e na minha opinião a que é maios informativa, é  “The Lisbon Letter”, um exemplo de bom jornalismo. Os temas de edições recentes desta newsletter vão da greve geral, às dificuldades no aeroporto de Lisboa, passando pelas dificuldades de funcionamento da AIMA, o risco dos incêndios florestais ou o elevado número de mortes nas estradas portuguesas. Cada edição da newsletter tem sugestões de locais a visitar, de livrarias a restaurantes e ainda um mini guia de coisas a fazer, do desporto à caltura, passando por sugestões de passeios. A “Lisboète Magazine” tem também informações genéricas, mas apresenta recomendações sobre cuidados a ter em matéria fiscal em Portugal e conselhos úteis para lidar com a burocracia portuguesa. Estas três publicações estão disponíveis on line (basta googlar os respectivos títulos). Não dispenso esta Lisbon letter todas as amnhãs, ajuda-me a ver  o que às vezes me escapa nos jornais portugueses. E é muito bem feita tecnicamente.

 

SEMANADA - Entre 2021 e 2024 foram sinalizadas 690 vítimas de tráfico humano em Portugal, entre elas 39 crianças; desde o início do ano já morreram 210 pessoas nas estradas portuguesas, mais 54 que em igual período de 2025; uma sondagem publicada pelo Expresso indica que 16% dos portugueses preferem não falar de política para evitar conflitos e um em cada quatro portugueses detesta pessoas com ideias políticas opostas às suas; o Porto é a cidade com oferta mais densa de alojamento local; Lisboa ocupa a pior posição entre 37 capitais europeias em termos de custo de vida para uma pessoa que vive sózinha; a GNR registou, até 30 de maio, 2921 incêndios florestais, enquanto no mesmo período de 2025 foram registados 795 e fez 109 detenções; este ano já arderam 10 501 hectares, comparativamente com 3673 no período homólogo do ano passado; segundo a Inspecção-Geral de Finanças, mais   de metade das 42 empresas que integram o SNS têm falhas no plano de prevenção de riscos contra a corrupção; nunca houve tantos reclusos nas cadeias nacionais com curso superior como atualmente - no final de 2025, dos 13 136 reclusos no sistema prisional português, 470 tinham formação superior, quatro vezes mais do que no início do século (eram 104 em 2000). 

 

ARCO DA VELHA - Um passageiro, que estaria atrasado para um voo, entrou a correr na pista do Aeroporto da Madeira numa derradeira tentativa de apanhar o avião antes de ele levantar.

 

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FOTOGRAFIA - Américo Marques é um arquitecto português que nas últimas décadas reuniu uma colecção de obras de arte com cerca de mil peças, das quais um terço são fotografias. Trata-se de uma das mais importantes colecções de fotografia existentes em Portugal e o MACAM (Museu de Arte Contemporeânea Armando Martins, na Junqueira) apresenta até 26 de Outubro a primeira parte da exposição “Espaços Outros” com obras dessa colecção. As obras expostas permitem traçar um percurso pela fotografia contemporânea desde finais dos anos 1950 até à atualidade. A segunda parte desta exposição será apresentada depois, em Novembro deste ano. A curadoria é da directora do MACAM, Adelaide Ginga, que sublinha que a colecção “articula paisagem, figura humana e arquitetura, revelando a fotografia como um lugar privilegiado de observação, construção crítica e elaboração conceptual do visível. “ Entre os artistas representados encontram-se Andreas Gursky, Andres Serrano, Bernd Becher & Hilla Becher, Candida Höfer, Cindy Sherman, Edgar Martins, Eija-Liisa Ahtila, Helena Almeida, Helmut Newton, João Penalva, Jorge Molder, Martin Parr, Nan Goldin, Richard Prince, Thomas Ruff e Wolfgang Tillmans, entre muitos outros. E, também, João Tabarra, autor de “A Viagem”, uma fotografia de 2001, aqui reproduzida.

 

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ROTEIRO - Esta semana o destaque vai para a exposição  “Retirar A Gravidade à Queda”, de Carolina Serrano na Galeria Balcony  até 4 de Julho (Rua Coronel Bento Roma 12A). São onze obras, construídas a partir de jogos de espelhos que mostram e sugerem outras imagens, levando o espectador a procurar resolver o mistério que se desenrola ao longo do percurso (pormenor de um a peça na imagem). É uma das mais interessantes exposições apresentadas pela Balcony nos últimos meses. A artista escreve na folha de sala que esta exposição é “um convite para tornarmo-nos nós próprios a interrogação, um convite para duvidar”. Outra exposição que merece atenção é “O Esquena Narrativo”, de Ana Vieira, uma importante artidsta plástica portuguesa que morreu em 2016, e que está patente na Galeria Vera Cortês, até 5 de Setembro. A galeria assinala assim ter passado a gerir o espólio de Ana Vieira e esta exposição, com curadoria de Antónia Gaeta, mostra uma selecção de trabalhos da artista que permite ver como encarou a tensão entre evocações do interior e do exterior e tensões entre a representação e a realidade. No torreão nascente da Cordoaria Nacional as Galerias Municipais de Lisboa apresentam até 30 de Agosto a exposição “Timescape” que reúne meia centena de obras recentes de pintura e desenho, de Jorge Martins, com curadoria de Óscar Faria. 

 

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CRÓNICA DA DESILUSÃO - As notícias que leio sobre Cuba mostram um país a desfazer-se. Os hotéis, outrora cheios de turistas, fecham uns atrás dos outros. A vida quotidiana é uma aventura cada vez maior, produtos básicos tornam-se uma raridade.  Nessa ilha, em colapso crescente, há ainda quem consiga erscrever livros fantásticos no meio de todo o caos. Leonardo Padura, escritor e jornalista, é uma das maiores figuras da literatura cubana. As suas obras mostram uma sociedade onde todas as tensões se agudizam, a corrupção alastra e a sobrevivência depende das remessas de algum familiar no estrangeiro. “Morrer na Praia”, o seu mais recente livro, de 2025, passa-se já depois da pandemia, começou a ser escrito em 2023, e foi agora editado em Portugal. É mais uma história com fundo familiar e enredo policial. O título evoca o desespero de uma geração que deu tudo pela revolução e que agora se defronta com a sensação de que afinal o esforço de pouco valeu e que os sonhos acabam por morrer na praia, nas praias que tornaram Cuba um destino turístico desejado e que agora de pouco valem, num cenário em que a escassez de quase tudo é a constante e a emigração o destino que resta. A história é simples: Rodolfo, funcionário público, reforma-se, debate-se com a incerteza de como irá viver, com menos dinheiro e sem acesso ao que, mesmo assim, conseguia arranjar no seu emprego. Foi soldado em Angola, funcionário na contabilidade de um município, onde assistiu às corruptelas quotidianas. Ao fim de uma vida de trabalho não tem nada, a não ser a amizade de uma vizinha com quem teve um quase caso ainda no liceu e que depois se casou com o seu irmão, que está preso. Na sua vida paira a sombra da morte do pai, assassinado pelo irmão, de seu nome Geni, detido por esse crime há muitos anos. E é nesse dia, em que a reforma se torna realidade, que sabe que Geni vai ser solto por estar gravemente doente, e irá viver com ele. Mais não conto, mas o livro é apaixonante, um relato cru das relações humanas. Porto Editora, tradução de Helena Pitta.

 

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MESA DE CABECEIRA - Este livro é um risco, porque partilha emoções e quotidianos de um casal: Inês Meneses, jornalista, radialista, tornou-se conhecida sobretudo pelas suas entrevistas e Tozé Brito, músico, compositor, produtor, é dos nomes maiores da música portuguesa, dezenas de grandes canções saíram das suas mãos. A ideia é atrevida: ao longo de vários meses, ao final de cada dia, o casal partilhou reflexões e confidências através da escrita. Não estabeleceram limites e trocaram ideias sobre o que faziam, da rádio, da música, claro, mas também do que vão descobrindo um dos outro do que pensam do que se passa à sua volta. Para pôr as coisas simples: escrevem-se, como antigamente, partilhando o que fazem. O resultado é “Ao Fim dos Dia, Memórias e confissões de um casal”, assinado a quatro mãos, e editado pela Quetzal. O outro livro é de Filipa Martins, “No Meu Fim Está o Começo”. Esta é uma viagem dura pela vida de uma enfermeira, Isabel, que acompanha o declínio mental da mãe e percorre em simultâneo a sua própria vida, a infância num bairro periférico, um pai ausente, a necessidade que a leva a ccomeçar a trabalhar bem cedo,  a formação no hospital , um casamento falhado. A vida de Isabel é cuidar: os doentes no hospital e a mãe em casa, entre a profissão e os seus afectos, com as memórias cruzadas do país, o que foi da mãe e o que é o da sua geração.É talvez o melhor livro de Filipa Martins. Edição Quetzal.

 

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JAZZ CLÁSSICO  - O disco desta semana é o resultado de uma incursão de músicos de jazz portugueses por algumas obras de Mozart. Mário Laginha e Daniel Bernardes no piano chamaram para perto de si Bernardo Moreira no contrabaixo e Joel Silva na bateria, recriaram dez peças do compositor. O resultado é Mozart Transfigurado e nasceu de uma encomenda do Festival Around Classic para a criação de um concerto de jazz a partir da música do compositor vienense. O resultado é um belo disco que retoma da melhor foma  a tradição do encontro do jazz com a música cássica. O disco “Mozart Transfigurado” foi editado pela  Artway Next e está disponível em streaming.

 

ALMANAQUE - A  encíclica do Papa Leão XIV, “Magnifica Humanitas”, foca-se na salvaguarda da dignidade e dos direitos da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. Não rejeita a tecnologia, mas defende que o ser humano deve ser sempre o centro do progresso. Ao mesmo tempo faz um forte apelo à Paz, manifestando-se contra a normalização da guerra a que assistimos presentemente. O texto integral está disponível on line no site da Santa Sé.

 

DIXIT - “Em Portugal não se consegue ter uma verdadeira conversa nacional sobre tema nenhum” - Sérgio Sousa Pinto.

 

BACK TO BASICS - “O mal não deve ser imputado apenas àqueles que o praticam, mas também àqueles que poderiam tê-lo evitado e não o fizeram”  - Tucídedes

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








junho 06, 2026

A FILOSOFIA INESPERADA

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Quase todos os fins de semana faço compras no mesmo supermercado e é lá que compro também o jornal diário. Tenho ainda essa mania de gostar de ver as coisas em papel mesmo quando já vi quase tudo nas edições online. Regressemos ao supermercado. Muitas vezes quem está na caixa é um rapaz com quem, ao longo dos anos, fui metendo conversa - a culpa é dele aliás porque, sempre bem disposto e simpático, reparou que eu, além dos frescos e mercearias, levava sempre o jornal - e me elogiou por isso. A partir daí, já lá vão uns anos, trocamos dois dedos de conversa sobre a actualidade. Ele muitas vezes já espreitou a capa na banca onde estão os jornais e faz um comentário interessado, ou, por vezes, pergunta a minha opinião sobre um qualquer assunto que está nas notícias. Aos poucos, conversa traz conversa, soube que ele estudava na área do design. Trabalha uns tantos dias no supermercado e, em simultâneo,  frequenta as aulas, por sinal ainda um bocado longe de casa. É um rapaz interessado pelas coisas, o país e o mundo,  como não se encontra com facilidade hoje em dia. Gosta de ler, gosta de estar a par das notícias. No domingo passado lá ia eu para pagar, com o jornal no meio do resto das compras. Foi o dia em que Edgar Morin estava na capa, a notícia da sua morte a ocupar quase toda a página. E vai daí, diz ele: “gostei muito de estudar Morin, em filosofia”. E antes que eu dissesse alguma coisa, continuou:”viveu felizmente muitos anos, sempre a pensar bem, deixou-nos muitas lições”. Concordei com ele, claro, e fiquei a apreciar o momento, esta súbita troca de palavras no sítio mais inesperado. Como estava escrito na capa do jornal, Morin foi “o filósofo que nos ensinou a viver na incerteza” e teria ficado bem contente por saber que foi o tópico de uma conversa na fila de pagamento de um supermercado da periferia de Lisboa. Ainda fiquei a apreciar mais o meu habitual interlocutor das compras de fim de semana.



junho 05, 2026

OS AEROPORTOS DA UNIÃO...

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O CAOS NAS VIAGENS  - Desde há meses que se registam grandes atrasos no processo de entrada em Portugal de cidadãos provenientes de países fora da Comunidade Europeia. Na origem dos atrasos está um novo sistema, europeu, de controlo biométrico dos visitantes extra comunitários, implementado em Abril passado. As demoras no aeroporto de Lisboa, e também nos do Porto e Faro, são tão grandes que o novo controlo já foi suspenso uma vez, o que poderá suceder de novo. Na semana passada as principais companhias aéreas vieram alertar para a necessidade de reavaliar o funcionamento de todo o sistema, que provoca atrasos, perda de ligações aéreas e grandes constrangimentos. Nada disto nos deve espantar. Num país onde o Estado tem problemas crónicos no funcionamento de serviços públicos básicos, da justiça à saúde, passando pela educação ou a protecção civil, a novidade seria que um novo sistema, com alguma complexidade, funcionasse bem. O improviso e a falta de planificação reinam como é habitual e só passados todos estes meses alguns responsáveis perceberam que eram necessárias mais máquinas e mais funcionários junto a elas. Mas o problema, desta vez, não é só português, o caos instalou-se em vários aeroportos europeus. Na origem está um sistema, pensado, desenhado e adjudicado por Bruxelas que claramente se revela desadequado - de tal forma que as autoridades europeias temiam os atrasos e longas filas que agora ocorrem. Este é apenas o mais recente exemplo de uma imposição central da UE que foi mal pensada, mal planeada e pessimamente executada. Não é a primeira vez que decisões deste género, que significam investimentos enormes, se revelam um grande e suspeito problema. Quem, na União Europeia, criou, desenhou e adjudicou este complexo sistema e a sua implementação, quem adjudicou milhões de euros de máquinas e sistemas que funcionam mal deve ser inquirido. A corrupção, de mãos dadas com a burocracia, é a causa dos problemas que um pouco por toda a Europa percorrem o sistema político de todos os países. Em muitas situações, Bruxelas tem as mãos sujas e persiste em não querer lavá-las. E nada disto tira responsabilidades às autoridades portuguesas que, como é costume, só acordaram para o problema quando ele lhes rebentou  na cara. 

 

SEMANADA - Num estudo que abarcou 127 cidades europeias, Lisboa surgiu como aquela onde o aluguer de um  T1 é o mais caro, representando 99,15% do salário médio;  até final de 2027 Lisboa vai ter 39 novos hotéis com 2900 quartos, um acréscimo de 10% relativamente à oferta agora existente; uma reportagem do “Expresso” indica que há um número crescente de emigrantes, nomeadamente brasileiros, que estão a sair de Portugal, de regresso ao Brasil ou com destino a Espanha devido às condições de trabalho, custo de habitação e  os atrasos na regularização da sua situação;  foi neste contexto, de enormes atrasos de regularização de processos, que o sindicato dos Técnicos de Migração, da  AIMA, convocou uma greve para 1,2,3 e 5 de Junho (aproveitando o feriado de Corpo de Deus de dia 4) e garantindo assim uma semana inteira fora dos seus postos de trabalho; segundo o Conselho das Finanças Públicas a contribuição dos trabalhadores estrangeiros para a Segurança Social, já subtraída das prestações sociais que recebem, foi de 16,3 mil milhões de euros entre  2025 e 2025;  60% dos alunos do ensino básico e secundário dizem que não dormem o suficiente ou não acordam repousados; as novas regras de acesso ao ensino superior restringem entrada de estudantes com deficiência; em 1975, as crianças até aos 12 anos eram 22% da população, mas hoje são 9,8%: Portugal é o quarto país da União Europeia com menos crianças; segundo a Pordata as crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas por semana em creches e escolas na Europa.

 

O ARCO DA VELHA - O director do serviço de Gestão de Recursos Humanos da Unidade Local de Saúde Lisboa Ocidental, André Coelho Dias, foi acusado de ter prendido uma trabalhadora a uma cadeira com fita cola para a obrigar a terminar um trabalho que lhe havia pedido.

 

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HISTÓRIAS CANTADAS - Kurt Vile, compositor e músico norte-americano já leva três décadas de carreira e dez álbuns de originais, incluindo  o seu novo trabalho “Philadelphia’s Been Good To Me”. Aos 46 anos este compositor reforça a sua observação do mundo, evita rupturas musicais e faz o que melhor sabe: canções serenas, pequenas histórias, frequentemente confessionais, cantadas com  sensibilidade.  São 12 canções com pérolas como “Piano For Sarah”, “99th Song”, “You Don’t Know Because It’s My Life”, “Everytime I Look At You” ou o tema título “Philly’s Been Good To Me”. Disponível nas plataformas de streaming.

 

IMG_1233.jpegDIAS INSPIRADORES - No grande salão da Sociedade Nacional de Belas Artes, Inez Teixeira apresenta até 11 de Julho a exposição “Quarenta Dias Sem Deus”. São dezenas de desenhos e pinturas, de vários formatos, maioritariamente inéditas, produzidas entre 2018 e 2026.  A exposição, apoiada pela Fundação Carmona e Costa, foi concebida especificamente para este espaço, com curadoria de Nuno Faria e um projecto expositivo concebido pelo atelier de arquitectura Promontório. Na SNBA está  um conjunto alargado de obras, de desenho e pintura, divididas em quatro séries, maioritariamente inéditas, produzidas entre 2018 e 2026. A artista, sublinha um texto do curador, propõe com estas obras “uma meditação sobre o tempo, a fragilidade e o desaparecimento, mas também sobre a possibilidade de reflorescimento e recomeço”. O título da exposição, de inspiração bíblica, evoca o jejum e a purificação como caminhos para uma nova etapa. Nuno Faria sublinha que as quatro séries apresentadas,”relacionam-se por confluência e por contraste - contraste de escala e de materiais, confluência de temas, de espírito e de ânimo”. Esta é seguramente a mais importante exposição de Inez Teixeira e revela o seu crescimento enquanto artista. Os desenhos a carvão logo à entrada são uma das peças mais fortes da exposição, assim como as grandes pinturas que ocupam toda uma parede. (SNBA - Rua Barata Salgueiro 36).

 

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ROTEIRO - O destaque desta semana vai para a exposição “Dawn”, de João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira, na Galeria Cristina Guerra, que prossegue o trabalho desta dupla de artistas em torno da defesa da identidade, o combate ao preconceito e a provocação como forma de afirmação política. Alexandre Vale e Nuno Alexandre Ferreira observam o mundo à sua volta e propõem preservar a memória de espaços, momentos, rituais que fazem parte do seu quotidiano social e pessoal. Através de uma instalação que evoca os percursos da noite, percorrendo uma sucessão de quatro peças que interpretam os espaços que acolhem e facilitam proximidades, este é um trabalho onde público e privado se misturam e o prazer viaja por entre o anonimato. Na inauguração os espaços foram habitados numa performance (na foto). Até 4 de Julho, Rua de Santo António à Estrela 33. Na Galeria Monumental, Álvaro Rosendo revisita em fotografia os 40 anos daquele espaço que ajudou a fundar e lançou uma edição numerada de 20 exemplares de um pequeno catálogo que serve de testemunho da exposição “Monumental Zero, 1985-1987” (Campo dos Mártires da Pátria 101). No Porto a Galeria Quadrado Azul (Rua Miguel Bombarda 553) reabriu com a exposição “A Viatura Sem Condutor”, de Bernardo Ferrão. E em Lisboa, a Galeria Francisco Fino acolhe até 26 de Setembro a sua primeira exposição de Alfredo Jaar, “One Million Points Of Light”, com curadoria de Mauriuzio Bortolotti (Rua Capitão Leitão)

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O FASCÍNIO DO ORIENTE - Em 74 páginas com magníficas ilustrações, “O Dragão Chinês: Uma Enciclopédia” é um álbum cuidadosamente editado e que nos permite perceber a importância do dragão, símbolo da nação, a cultura chinesa que se desenvolve em torno do Dragão e os valores e a visão ancestrais do povo chinês. O livro começa por mostrar a origem do dragão, incluindo as suas espécies, linhagens e animais míticos relacionados, sem esquecer as lendas com mais de oito mil anos. Esta singular enciclopédia mostra o sistema de conhecimentos chineses sobre o dragão, que abrange a literatura, a história, a arquitectura, a arte, os festivais, o zodíaco ou o património cultural. O álbum  percorre as criaturas mitológicas chinesas, as diferenças entre dragões do Oriente e dragões do Ocidente, o zodíaco chinês e a muralha dos nove dragões na cidade proibida de Pequim.

 

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MESA DE CABECEIRA - “O Silêncio dos Livros”, um curto ensaio de George Steiner, há muito esgotado, foi agora reeditado com um prefácio de Onésimo Teotónio Almeida, cujo título diz tudo:”O Livro de Cada Dia nos Dai Hoje”. Steiner, um importante crítico literário, que leccionou  literatura comparada nas universidades de Genebra e Oxford, sublinha neste ensaio a permanência sempre ameaçada e a fragilidade da escrita. A sua abordagem entusiástica da leitura corre em paralelo com uma crítica radical das novas formas de ilusão, de intolerância e de barbárie produzidas no seio da sociedade contemporânea. O livro inclui ainda um outro ensaio, de Michel Crépu, “Esse Vício ainda Impune”. Edição Gradiva. Outro livro para quem gosta de pensar sobre o que lê, é Manifesto pela Leitura” , uma defesa intransigente da importância de livros e leituras, da espanhola Irene Vallejo. Os livros, defende, “são refúgios da memória, espelhos onde nos olhamos para podermos ser mais parecidos com aquilo que desejamos ser (...) Os livros recordam-nos, serenos e sempre prontos a desdobrar-se diante dos nossos olhos, que a saúde das palavras está enraizada nas editoras, nas livrarias, nos círculos de leitura partilhada, nas bibliotecas, nas escolas. É aí que imaginamos o futuro que nos une”. Edição Bertrand.

 

ALMANAQUE - Um dos mais encantadores museus de Londres é o Wallace Collection, localizado no centro da cidade, em Manchester Square, na Hartford House, uma antiga residência familiar. Tem uma enorme colecção de pintura, cerâmica e objectos do século 18 e 19 e acolhe exposições temporárias. A actual é uma retrospectiva sobre a pintura de Winston Churchill, que pode ser vista até 29 de Novembro.

 

DIXIT - Ano após ano, governo após governo, vemos que a cultura fica sempre de lado e só é importante na altura em que os senhores candidatos precisam de pessoas com alguma visibilidade para que sejam melhor ouvidos” - Marina Mota


BACK TO BASICS - “O pessimismo é um problema maior do que as alterações climáticas(...) o optimismo é um dever moral” - Ian McEwan

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS








maio 30, 2026

AS MÃOS DA MÚSICA

 

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Desde cedo ocupo uma parte dos meus dias a ouvir música e, ao longo dos anos, fui variando de géneros musicais. Nos anos 60 ouvia a pop francesa da época, depois a pop britânica e, mais tarde, a música da costa oeste dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo ia descobrindo o jazz na rádio pela mão dos “cinco minutos” do Zé Duarte, e em casa ouvia o que o meu Pai punha a tocar, quase sempre música clássica, com uma predominância pelo piano, um gosto que ele me deixou de herança. Desde cedo fiquei fascinado por dois instrumentos bem diferentes: a guitarra eléctrica e o piano. Tanto vibrava com um solo de Jimi Hendrix como com o jazz que brotava do piano de Bill Evans ou de Alfred Brendel, um favorito lá de casa. Ainda hoje, ao fim do dia ponho quase sempre música a tocar, faz-me bem ter esse momento de isolamento do resto do mundo. A música é um encanto estranho, uma aventura humana. Bem sei que a música nasce no cérebro, mas são as mãos que a transportam para a podermos ouvir. Na realidade as mãos têm um papel decisivo na música, na expressão que é conseguida, no ritmo que é marcado, na sonoridade final. Sem mãos que acariciem o teclado o piano não vive. São as mãos do pianista que despertam as teclas e lhes dão vida. Sempre achei que o movimento das mãos dos pianistas é como um bailado, para o qual gosto de olhar. Tanto pensei nelas que, no início deste ano, resolvi fotografar as mãos de um pianista, amigo e cúmplice, o Nuno Vieira de Almeida, enquanto ele estudava para um recital. Andei à sua volta, à procura do movimento das mãos. Fixei-o em sete imagens que estão expostas até 20 de Junho na Galeria Diferença, em Lisboa. Esta é uma delas. A exposição chama-se “Um Piano”.