agosto 01, 2026

ERA UMA VEZ UM RESTAURANTE

No sítio onde esta fotografia foi tirada havia um dos bons restaurantes de Lisboa nos anos 80, no 33 da Alexandre Herculano, bem perto da avenida da Liberdade. Chamava-se, apropriadamente, “33”. Ainda não se assistia à invasão da avenida, que é o cenário de hoje em dia. Fui lá muitas vezes, e gostava de ir: confortável, bom serviço, boa comida. Lembro-me perfeitamente: quando se passava a porta do restaurante e se entrava no hall, via-se logo um piano. O pianista nem sempre lá estava, ía fazendo intervalos, mas, ao jantar, quando sentia que alguém entrava, regressava ao seu posto e recomeçava a tocar. O seu repertório era composto sobretudo por temas clássicos do jazz, sempre os mesmos. Era um repertório que dominava com técnica, mas sem grande emoção. Compreende-se, todas as noites repetia a música e os gestos. Na realidade ninguém ía ao restaurante 33, na Alexandre Herculano, em Lisboa, para ouvir música. Mas as notas do piano eram boa companhia para o aperitivo de chegada e para o começo de conversa de quem vinha jantar. Quando o tempo estava bom podia jantar-se no jardim, que pegava com a sala, de decoração clássica. Lembro-me de alguns dos pratos: as lulas recheadas, o bacalhau à Santo Estevão, a empada de lebre. Era uma casa de receitas bem portuguesas, onde não faltava o frango de fricassé, à sobremesa o leite creme e um folhado de queijo de cabra à entrada. O restaurante fechou há uns anos, todo o prédio foi abaixo, resta esta parede e uma porta meio destruída. O edifício onde o “”33” estava, numa esquina,  era bonito. O que  irá ali nascer agora?

(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)