No sítio onde esta fotografia foi tirada havia um dos bons restaurantes de Lisboa nos anos 80, no 33 da Alexandre Herculano, bem perto da avenida da Liberdade. Chamava-se, apropriadamente, “33”. Ainda não se assistia à invasão da avenida, que é o cenário de hoje em dia. Fui lá muitas vezes, e gostava de ir: confortável, bom serviço, boa comida. Lembro-me perfeitamente: quando se passava a porta do restaurante e se entrava no hall, via-se logo um piano. O pianista nem sempre lá estava, ía fazendo intervalos, mas, ao jantar, quando sentia que alguém entrava, regressava ao seu posto e recomeçava a tocar. O seu repertório era composto sobretudo por temas clássicos do jazz, sempre os mesmos. Era um repertório que dominava com técnica, mas sem grande emoção. Compreende-se, todas as noites repetia a música e os gestos. Na realidade ninguém ía ao restaurante 33, na Alexandre Herculano, em Lisboa, para ouvir música. Mas as notas do piano eram boa companhia para o aperitivo de chegada e para o começo de conversa de quem vinha jantar. Quando o tempo estava bom podia jantar-se no jardim, que pegava com a sala, de decoração clássica. Lembro-me de alguns dos pratos: as lulas recheadas, o bacalhau à Santo Estevão, a empada de lebre. Era uma casa de receitas bem portuguesas, onde não faltava o frango de fricassé, à sobremesa o leite creme e um folhado de queijo de cabra à entrada. O restaurante fechou há uns anos, todo o prédio foi abaixo, resta esta parede e uma porta meio destruída. O edifício onde o “”33” estava, numa esquina, era bonito. O que irá ali nascer agora?
(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)