SEMPRE A SORRIR - Há membros do Governo que que fazem lembrar o Joker, personagem de banda desenhada que tem sempre afixado um sorriso postiço. Montenegro tem o mesmo esgar afivelado em todas as ocasiões e, na recente crise, Fernando Alexandre e Luís Neves seguiram o exemplo inspirador do Primeiro Ministro e puseram a pateta máscara do riso sempre presente, por pior que fosse a situação. Pelo que vejo e leio os ministérios estão carregados de subalternos identificados como especialistas de comunicação. Não devem ser grandes especialistas para permitirem que Luís Montenegro maltrate os professores, que Fernando Alexandre invente histórias de agrafes ou que Luís Neves seja um daqueles casos em que as palavras se embrulham umas nas outras, sempre a sorrir. Em contrapartida, esses assessores devem saber imensas anedotas para porem os seus aconselhados a rir todo o tempo. Veja-se esta fotografia, da Lusa, na tomada de posse de Luís Neves, sorriso pronto e subserviente. Não nos esqueçamos de Luís Montenegro a culpar professores pelo atraso na avaliação dos exames, ou Fernando Alexandre a criticar os pais dos alunos por quererem que o calendário dos exames fosse cumprido ou, ainda, Luís Neves com faltas de memória em relação aos erros na declaração de interesses, à sua relação com o amigo empreiteiro e, sobretudo, ao descaminho do atrelado da droga. Parece que quem vai para o Governo se deslumbra com o facto de estar num palco cheio de microfones e resolve dizer a primeira coisa que vem à cabeça, sem pensar um segundo que seja, sempre a sorrir, querendo fazer dos outros parvos. Os casos de Fernando Alexandre e Luís Neves são no entanto diferentes: o primeiro errou e foi arrogante e teimoso; o segundo é mais grave - Luís Neves tem um problema de ética, primo do problema Spinumviva do Primeiro Ministro.
SEMANADA - Só um dos 17 contratos da Polícia Judiciária com o empresário amigo de Luís Neves foi a concurso; o Ministério da Administração Interna teve 12 ministros em 20 anos, o que o coloca no topo da lista de ministérios com maior número de titulares em duas décadas; os técnicos do INEM fizeram 365 mil horas extras em 2025; no PRR só 20% dos projectos apresentados mantêm a versão original, houve metas reduzidas, investimentos alterados e critérios de avaliação reformulados; o número de trabalhadores com mais de 65 anos duplicou numa década; o número de moradores da avenida da Liberdade passou de escassa meia centena de pessoas há 15 anos para cerca de um milhar hoje em dia; os empréstimos para habitação cresceram em Junho ao maior ritmo dos últimos 23 anos; Bragança e Coimbra são os concelhos que têm maior peso de alunos inscritos no ensino pós-secundário e superior, ambos acima dos 60%; o Porto de Lisboa acolheu 81.735 passageiros de cruzeiros em Junho, um aumento de 53% em relação ao mesmo período do ano passado; segundo a Marktest os portugueses ficarem mais de 10,6 milhões de downloads de podcasts em Junho; quase um quarto das crianças entre os cinco e os 14 anos têm excesso de peso e segundo o INE 41,7% dos menores entre os cinco e os 14 anos consomem fast food pelo menos uma vez por semana.
O ARCO DA VELHA - O Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial, vulgo Amalia, o programa português de IA anunciado com alarido pelo Governo, respondeu a perguntas da revista “Sábado” indicando que o actual Primeiro-Ministro é Pedro Nuno Santos, que Inês Sousa Real é Ministra do Ambiente, que Ana Gomes (que não é deputada) é a líder parlamentar do PS e desconhece que o Chega está representado na Assembleia da República. Se Musk sabe, vem cá ajudar…
ARTE NO MEIO DO ATLÂNTICO - Esta semana destaco a exposição que está nos Açores até 8 de Novembro, “Sete Retratos e Outras Obras em Forma de Enlace”, uma mostra concebida especificamente para o Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago, em S. Miguel e que evoca a grande ligação artística e pessoal entre Vieira da Silva e Arpad Szenes. “Sete Retratos e Outras Obras em Forma de Enlace” resulta de uma parceria entre o Arquipélago, a Fundação Arpad Szenes — Vieira da Silva e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e integra a programação complementar de Ponta Delgada 2026, capital portuguesa da Cultura. Através de um conjunto diversificado de suportes como a pintura, o desenho e a gravura, a exposição traça um arco temporal que se estende de 1931 a 1975. A seleção de obras revisita a trajetória de um casal cujo encontro, em 1930, deu início a mais de cinco décadas de vivência partilhada entre Paris, Lisboa e o período de exílio no Rio de Janeiro durante a Segunda Guerra Mundial. A exposição, que tem entrada gratuita, integra obras de Arpad Szenes e Vieira da Silva, e conta a história de uma relação intensa e artisticamente importante, ao longo da qual temas como o amor, a felicidade, a guerra, o exílio, a saudade, a liberdade e a amizade percorrem e estruturam o espaço expositivo. As obras expostas fazem parte da colecção da Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva. Na imagem está a obra “Nova Friburgo”, de Arpad Szenes, datada de 1945.
ROTEIRO - O destaque desta semana vai para “9”, a primeira exposição individual de Laura Caetano, que está na Galeria Balcony até 18 de Setembro, e que apresenta obras de pintura sobre tela, papel e látex (na imagem). No texto que apresenta a exposição Francisca Portugal sublinha que Laura Caetano presta homenagem constante à pintura clássica e sublinha que embora a exposição convoque referências que remetem para a estrutura do retábulo e para a organização do imaginário religioso, não se dedica a nenhuma época específica do passado, pelo contrário, liberta-se de qualquer subjugação particular, temporal ou divina.” A Balcony fica na Rua Coronel Bento Roma 12 A. No Museu Bordalo Pinheiro a exposição “Cronologia de um Manguito”apresenta recriações do célebre gesto do Zé Povinho. Na Galeria Alda Galsterer (Rua Castilho 71 R/C esq.) pode ser vista até 3 de Outubro as exposições “Escape From Freedom” de Ana Velez e “O Belo e a Fera”, de Pedro Leitão. Na Galeria das Salgadeiras (Av dos Estados Unidos 53 D) Marta Ubach expõe até 5 de Setembro uma nova série de pinturas de paisagens sob o título “A Montanha”.
DEPOIS DA GUERRA - Kazuo Ishiguro, um japonês nascido em Nagasaki e que vive em Londres desde os seus cinco anos, escreveu “Os Despojos do Dia” em 1989, um livro que é simultaneamente um estudo psicológico e o retrato de uma ordem social e de um mundo em extinção no período posterior à Segunda Guerra Mundial. É a história de um mordomo, que após 30 anos de serviço a um lorde britânico, fica na dúvida sobre a verdadeira grandeza do seu patrão, Lorde Darlington. Stevens, o mordomo perfeito, acreditava que teria servido a Humanidade por ter servido um grande homem. Daí até ter dúvidas sobre a verdadeira grandeza de Lord Darlington e também sobre a natureza e o sentido da sua própria vida foi um ápice. A narrativa do livro arranca em Junho de 1956 e relata o que Stevens foi vendo e pensando ao longo de seis dias de viagem, na descoberta do mundo fora dos limites de Darlington Hall e que o levam a pensar sobre a personalidade, a classe e a cultura. Kazuo Ishiguro recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 2017 e a sua obra está traduzida em mais de quarenta línguas. “Um dos livros sem os quais não se pode viver” - as palavras são do jornal britânico The Guardian, a propósito de “Os Despojos do Dia”. Tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, edição Gradiva.
MESA DE CABECEIRA -Lev Nikoláievitch Tolstói, também conhecido em português como Liev, Leão, Leo ou Leon Tolstói foi um escritor russo, reconhecido como um dos maiores e mais influentes autores de todos os tempos, autor de obras como “Guerra e Paz” e “Anna Karenina”. Porém Lev Tolstoi foi mais do que um romancista, dedicando a parte final da sua vida ao ensaísmo filosófico. “O Que é a Arte?” faz parte dessas obras e é talvez o ponto mais alto da reflexão filosófica de Tolstói, tendo levado cerca de quinze anos a escrever. Tolstói sublinha que a arte é uma coisa séria, não é uma mera questão de beleza e ainda menos de divertimento ou de obtenção de prazer. A arte autêntica deve ser acessível a todos e define-se, segundo Tolstói, pela sua capacidade de comunicar sentimentos que contribuam para a união das pessoas e para o aperfeiçoamento moral de toda a comunidade. Publicado originalmente em 1890, o seu carácter provocador e as suas reflexões não perderam actualidade: afinal, o que pode ser considerado arte? - Edição Gradiva. O outro livro debruça-se sobre os desafios que se colocam hoje em dia no campo cultural, neste mundo onde a tecnologia avança cada vez mais depressa. “Entre a Arte e o Algoritmo” aborda o impacto que a IA pode ter na criação artística e reproduz uma série de conversas de Paula Cristina Cunha, administradora da Sociedade Portuguesa de Autores, com nomes como André Letria, Gonçalo M. Tavares, Helena Amaral, José Jorge Letria, Milhanas, Pedro Abrunhosa, Rita Redshoes, Rui Filipe Reis, Sam the Kid, The Legendary Tigerman e Tozé Brito, onde estes criadores dizem o que pensam sobre a utilização e limites da Inteligência Artificial na criatividade artística. As conversas nasceram no podcast “Entre a Arte e o Algoritmo: do Medo à Descoberta”, que Paula Cristina Cunha gravou na SPA no final de 2025. Edição Gradiva.
UMA VOZ DIFERENTE - Norma Winstone, uma cantora e letrista britânica, não é dos nomes mais conhecidos do jazz vocal em Portugal. É pena porque, como afirmou Manfred Eicher, o homem que criou a editora ECM, “ela ouve as canções de forma diferente e devolve-as de uma forma tranquila que é muito a sua marca”. É o que se passa por exemplo nas versões de “I Loves You Porgy”, de Gershwin, ou de “Wait til You See Him”, de Rodgers and Hart. Estas versões estão numa nova edição que reproduz uma gravação em que Winstone é acompanhada pela orquestra da estação de rádio NDR de Hannover e que estava perdida nos seus arquivos. “A Timeless Place”, de Norma Winstone, inclui 12 temas e está disponível nas plataformas de streaming.
DIXIT - “Se o Presidente da República continuar distante e inerte perante este espetáculo (o caso Luís Neves), o seu primeiro mandato ficará marcado não pelas crises que enfrentou, mas pela crise que decidiu não enfrentar” - João Pereira Coutinho
BACK TO BASICS - “As leis são como as salsichas, é melhor não querermos saber como são feitas” - Otto von Bismarck
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS