julho 17, 2026

O ESTADO DA NAÇÃO


GOLPE DE ESTADO - O estado da nação está longe de ser bom. Já se sabia dos problemas da saúde, justiça e educação ao fim dos oito anos de Governo do PS mas a verdade é que, apesar das promessas, os dois anos de governo de Montenegro tornaram nalguns sectores as coisas ainda piores, com destaque para a saúde e a educação. Agudizou-se também o caos do funcionamento de serviços públicos essenciais e coisas tão comezinhas como agendar a marcação de um pedido de Cartão de Cidadão ou de um passaporte tornaram-se difíceis, assim como obter uma série de certidões necessárias a alimentar o dia-a-dia da burocracia estatal. O país estagnou. Quem diz que o Governo não funciona tem razão. Mas quem não acrescenta que o não funcionamento não é de agora e vem dos anos de governação do PS comete o pior dos erros da política: o clubismo fanático. Infelizmente PS e PSD disputam entre si o troféu de quem se importa menos com os cidadãos e, no entanto, estes dois partidos deviam ter a consciência de quanto são necessários à vida democrática e corrigirem-se. Têm defeitos, como tudo na vida, mas não podem querer apresentar-se, em sistema de rotação, como inocentes do que fazem e fizeram. Ao fim de apenas dois anos Luís Montenegro está como Costa estava no fim do seu ciclo de poder: dá sinais de estar farto: como fez notar Francisco Mendes da Silva num artigo recente, Luís Montenegro “montou uma ponte aérea transatlântica para assistir a três dos cinco jogos da selecção portuguesa no mundial com pouquíssimos dias de intervalo”. Ou seja, preferiu ir à bola a Dallas do que lançar os trabalhos das jornadas parlamentares do seu partido ou encarar os problemas dos exames e dos fogos. Olha-se para o Governo e o que se vê é uma lista de desaparecidos em combate. Reconheço que há excepções: Pinto Luz e Graça Carvalho dão o corpo às balas, enquanto Fernando Alexandre, Ana Paula Martins, Maria do Rosário Palma Ramalho e Luís Neves fornecem munições a quem dispara sobre o Governo, bem assessorados por Leitão Amaro e Hugo Soares. Quem está de fora e olha para a forma como as coisas não funcionam acha que pode ter acontecido um golpe de estado. Só que, tudo indica, o golpe é fomentado pelo próprio Primeiro-Ministro e por quem lhe está mais próximo. Sócrates e Costa causaram fortes danos de reputação ao PS. Luís Montenegro vai pelo mesmo caminho no PSD.


SEMANADA - Segundo a Pordata quatro em cada dez pessoas em idade activa não têm o ensino secundário; os crimes contra idosos aumentaram 30% nos últimos seis anos; as detenções feitas pela PSP nas fronteiras aéreas aumentaram quase 30% no primeiro semestre deste ano para 245 pessoas e foi recusada a entrada no país a 1309, um aumento de 15% em relação ao mesmo período do ano passado; a Polícia Judiciária regista uma média de dois casos de extorsão sexual por dia; em oito anos, a despesa directa dos portugueses com hospitais privados subiu 59%, para os 1087 milhões de euros, o que significa quase três milhões de euros por dia; no fim de semana de calor extremo a CP  suprimiu 12 comboios Intercidades  e entre 4 e 6 de Julho, suprimiu mais 30 comboios, na maioria dos casos devido à falência dos sistemas de ar condicionado nas carruagens; durante estes dias houve também dezenas de incidências que afectaram a oferta regular da empresa e que se traduziram em atrasos consideráveis em 88 comboios; em Odemira mais de metade da população, 52,1%, tem nacionalidade estrangeira, em Vila do Bispo e Aljezur o peso dos estrangeiros também ultrapassa os 40% e em Albufeira, Lagos, Loulé, Tavira e Ferreira do Alentejo excede os 30%; Sines e Grândola registaram as maiores subidas de rendas nos últimos cinco anos e nesses dois concelhos os preços do arrendamento mais que duplicaram. 


O ARCO DA VELHA - Nos últimos cinco anos mais de 200 arguidos foram libertados por excesso de prisão preventiva, entre os quais seis traficantes já condenados que aguardavam decisão de recursos pendentes.




FOTOGRAFIA - Há muita fotografia para ver. Começo por “Espectro”, a exposição patente no Museu Ibérico de Arquitectura e Arte, em Abrantes, até Janeiro do próximo ano e que reúne um significativo grupo de fotógrafos de várias gerações, tendências e formas de praticar a fotografia. Ali estão expostos trabalhos de António Pedro Ferreira, Cláudia Clemente, Gérard Castello-Lopes, João Cabral, João Miguel Barros, Margarida Rodrigues, Nuno Félix da Costa , Pauliana Valente Pimentel e Raquel Porto, além de Luiz Carvalho, que coordenou esta mostra (na imagem a fotografia “Estátua da Não Liberdade”, de Cláudia Clemente). Mais sugestões: até 23 de Agosto ainda pode ver  “Domingos Dias Martins, Fotógrafo de gentes e de pedra do Gerês transmontano”, no Centro Cultural de Cascais; na Galeria de Exposições do Espaço Turismo nas Caldas da Rainha, Luís Pavão apresenta a sua série de fotografias “Pela Fresca Sombra das Árvores de Lisboa”, inserida no Festival Internacional de Fotografia que ali decorre e onde também poderá ver “The Fight For Us”, uma mostra de trabalhos de fotógrafos ucranianos sobre a invasão do seu país pela Rússia. Em Mação, no Centro Cultural Elvino Pereira, António Ventura e Duarte Belo apresentam um conjunto de fotografias intitulado “Paisagem do Médio Tejo”.





O REGRESSO DE UM CLÁSSICO - “Morte em Veneza” tem para mim duas versões: a do romance original, de 1912, de Thomas Mann e a do filme do mesmo nome, de Luchino Visconti, de 1971. Primeiro descobri o filme , que me levou a querer ler o livro - que tem agora nova edição, com tradução de Sara Seruya. Thomas Mann, que ganhou o Prémio Nobel em 1929, dizia que este seu romance 

trata da «paixão como desequilíbrio e degradação». A história é arrebatadora:  Gustav von Aschenbach, escritor erudito e respeitável, viaja para Veneza à procura de uma trégua da angústia criativa que o aflige. E no átrio do seu hotel, no Lido, observa pela primeira vez Tadzio, um rapaz excepcionalmente belo que ali está hospedado com a família. O escritor fica obcecado pelo rapaz, dominado pela ânsia e o desejo, entrando numa espiral que o faz alhear-se de tudo e que acaba por o levar à morte numa cidade onde entretanto grassa uma epidemia de cólera. No filme Visconti foi buscar Dirk Bogarde para o papel de Gustav von Aschenbach e Björn Andrésen para o papel de Tadzio, dando corpo a um dos pares mais fascinantes do cinema de então, num elenco que contava também com Mark Burns, Marisa Berenson e Silvana Mangano e uma banda sonora dominada pela terceira e quinta sinfonia de Mahler. Edição Bertrand.






MESA DE CABECEIRA - Se gostam de histórias de espionagem têm este Verão dois belos livros para levar para férias. O primeiro, editado pela Bertrand,  é “O Espião no Arquivo”, de Gordon Corera, a história de como Vasili Mitrokhin - um arquivista introvertido que não amava mais nada para além dos arquivos empoeirados - após anos como bibliotecário do KGB, ao conhecer como o regime na realidade funcionava, se transformou num dissidente e depois num espião. Durante décadas o bibliotecário discretamente foi desviando segredos para o MI6 britânico e fez tudo de forma tão discreta que mesmo depois da sua fuga, auxiliado pelos britânicos, ninguém se apercebeu de imediato de que o bibliotecário se tinha ido embora. O outro livro, editado pela D. Quixote,  é  “Agente Zig Zag”, a obra que em 2007 tornou Ben MacIntyre um autor famoso. O livro conta a história do lendário agente duplo da Segunda Guerra Mundial. Numa noite de dezembro de 1942, um pára-quedista nazi aterrou num campo em Cambridgeshire com a missão de sabotar o esforço de guerra britânico. chamava-se Eddie Chapman, mas em breve tornar-se-ia o Agente Zigzag do MI5,  elegante e charmoso, corajoso e imprevisível. Ben Macintyre entrelaça diários, cartas, fotografias, memórias e arquivos ultrassecretos do MI5 para criar um relato emocionante sobre o agente duplo mais sensacional da Grã-Bretanha.




O ROCK TEM IDADE? - O artigo do jornal espanhol “El Pais” sobre o novo disco dos Rolling Stones, “Foreign Tongues”, sintetiza na perfeição o álbum: estão velhos mas não estão acabados. Com Mick Jagger e Keith Richards à beira de completarem 83 anos e Ron Wood com 79, o disco tem uma energia surpreendente e algumas curiosidades incontornáveis. A primeira é a presença de Paul McCartney numa das faixas, a segunda vez que um ex-Beatle partilha o estúdio com os Rolling Stones, neste caso num tema inédito “Covered in You”. Já no anterior album, “Hackney Diamonds”, de 2023, Paul McCartney havia tocado baixo no tema “Bite My Head Off”. Além de McCartney este “Foreign Tongues” tem uma lista de convidados que inclui Steve Winwood, Robert Smith (vocalista dos The Cure) Chad Smith (baterista dos Red Hot Chili Peppers), além de Darryl Jones, Matt Clifford e Steve Jordan que há muito trabalham com a banda. Outra curiosidade: o tema “Hit Me In The Head”  usa uma das derradeiras sessões de estúdio de Charlie Watts, o baterista original dos Stones, que morreu em 2021. Composto por 14 temas, o novo álbum dos The Rolling Stones inclui 12 temas originais, uma versão de “You Know I’m No Good”, de Amy Winehouse, e uma outra de “Beautiful Delilah”, de Chuck Berry, tema que encerra o disco. A capa do álbum é uma pintura do artista norte-americano Nathaniel Mary Quinn e a direção de arte e do novo álbum é da responsabilidade do ‘designer’ português Bráulio Amado, em parceria com o inglês Mat Maitland. O disco, intenso, pontuado pelas guitarras de Richards e Wood, mostra como os blues tiveram desde sempre influência nos Stones e é uma espécie de manifesto pela música rock, sem efeitos de IA, despida de efeitos especiais, pura e dura. Como cantava Neil Young, “Rock ‘n’ Roll will never die”. “Foreign Tongues” está disponível nas plataformas de streaming.


DIXIT - O problema de Portugal são os portugueses. Em tempos, aconselhava-se o povo a não adoecer no Verão para ‘poupar’ o SNS (...) Hoje, os portugueses continuam a não estar à altura de quem os governa. Nos exames nacionais, há famílias que se fiaram no calendário do Ministério da Educação – e desataram a marcar férias no chamado ‘período de férias’ (...) Já em Almada, não há água porque os portugueses a consomem. (...) No fundo, Portugal podia ser extraordinário. Mas com um povo que adoece, vai de férias e persiste em hidratar-se, só por caridade se aceita governá-lo” - João Pereira Coutinho no "Correio da Manhã".

BACK TO BASICS - “O segredo da vida é substituir uma preocupação por outra” - Charlie Brown, por Charles Schultz.


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS