julho 11, 2026

A ROUPA DA NATUREZA


Por vezes perco-me a olhar para o detalhe das cascas das árvores, para as suas ranhuras, os sulcos profundos que esboçam formas. Gosto de pensar que podem ser encaradas como puzzles orgânicos, em que os fragmentos se ajustam, ou como peças de um lego da natureza que nos desafia a imaginação e molda a paisagem. Sem árvores o horizonte seria um deserto. As árvores vestem a natureza, dão-lhe cor e volume, mudam ao longo das estações do ano e ficam no mesmo sítio mas vão-se transformando permanentemente. São seres vivos que nos ajudam, a nós, a viver. Há cascas que nos entram pela casa dentro: sob a forma da cortiça tirada dos sobreiros, ou a canela, que é a casca das caneleiras, ou ainda as de outras espécies cuja casca pode ser aproveitada para fazer remédios naturais, chás e até pomadas.

Ao ver o emaranhado desenhado nas cascas, fico a matutar se será que se pensa nisto cada vez que nos encostamos a uma árvore, quando nestes dias de calor nos acolhemos debaixo da sombra da sua copa. A casca é a roupa das árvores, a forma de tapar o seu tronco, é uma capa onde coexistem tecido vivo e matéria morta. E é uma capa que funciona como um escudo contra as temperaturas e as agressões. Sem essa capa as árvores perderiam mais água e não teriam alimentação suficiente. Imaginam o que sofrem as árvores num incêndio? De um  momento para o outro são atingidas sem poderem escapar e nesses fogos é muitas vezes a casca, que é queimada, mas que protege os troncos,  chamuscados por fora mas que, com sorte, às primeiras chuvas do outono, voltam a arrebitar. São belas, as cascas.


(pensamentos ociosos, semanalmente, às sextas, em sapo.pt)