agosto 07, 2026

O REI DA CAPOEIRA


O GALARÓ - Luís Neves mostrou finalmente o que é e como pensa na conferência de imprensa que deu na semana passada. Não vou falar sobre a capacidade mutante do tanque, nem da epopeia do atrelado com bidons. Foco-me apenas na tal conferência de imprensa, onde o mais grave foi a forma como Luís Neves se posicionou, tal galaró no poleiro. O que ouvi não foi um Ministro de um governo de uma democracia, mas sim um homem autoritário, auto-centrado, e perigosamente crente de que os fins justificam os meios, a mais perigosa das convicções, responsável por muitas desgraças ao longo da História. Luís Neves apresentou-se orgulhoso por não cumprir os procedimentos, legais e éticos a que alguém na sua posição está obrigado e invocou desconhecimento de coisas que fazem parte do mínimo de observância da Lei. Há uma frase que marca o homem: “Nem sempre acertei, mas estive sempre do lado do bem”. Ou seja, é o próprio Luís Neves que define o bem, é o próprio que defende ser juiz em causa própria, é o próprio que afirma poder fazer o que considera certo, mesmo que não cumpra procedimentos básicos da gestão da coisa pública e desrespeite o Tribunal Constitucional na entrega de declarações obrigatórias. Uma pessoa assim não tem lugar no Governo de uma democracia. A principal razão pela qual Luís Neves não pode continuar Ministro é que não é bom sinal ter no Governo alguém que se considera superior à lei, que julga em causa própria e que defende que vale tudo para obter resultados. Os partidos da AD vão muito mal quando negam uma audição parlamentar, colocando-se do lado de quem claramente cometeu abusos de poder, acabando por lhes dar cobertura. Luís Neves mostrou na conferência de imprensa um pensamento próprio perigoso que levanta uma questão: queremos ter à frente das polícias um homem que acha que pode cortar as curvas no exercício da autoridade e que olha displicentemente para o cumprimento da Lei? Luís Neves é muito mais perigoso do que se pensa e está longe de ser o impoluto servidor público que alguns apregoam..


SEMANADA - Segundo a Marktest os portugueses  fizeram mais de 10,6 milhões de downloads de podcasts em Junho; ainda segundo a Marktest as cinco estações de rádio mais ouvidas são, por esta ordem, Rádio Comercial, RFM, M80, Rádio Renascença e Antena Um; a TSF, no 8º lugar, continua à frente da Rádio Observador, que está no nono lugar.; a CMTV é o canal de cabo mais visto desde há 52 meses; segundo a Marktest no primeiro semestre deste ano dois em cada três minutos de emissão da RTP1, RTP2, SIC e TVI foram de programas produzidos em Portugal, que representaram 70% do tempo de exibição, num total de mais de 12 mil horas; no mesmo período a RTP2 foi o canal com a grelha mais diversa, com 51.3% de programas de produção nacional e 25.5% de outros países da União Europeia; na RTP1 a programação nacional teve um peso superior, de 82.7%, seguida da TVI, com 76.7% e da SIC, com 68.8%; a SIC foi o canal que exibiu mais programas produzidos no Brasil, que representaram 4% da sua grelha, 4 vezes acima da média total; no primeiro semestre deste ano o investimento publicitário em Portugal cresceu 8,7% para 309 milhões de euros; o maior crescimento verificou-se na rádio, com 19,3%, seguido do digital com 12,2%, da publicidade exterior com 8,7% e  da televisão com 5,7%; a imprensa diminuiu 0,4% no mesmo período; 55% dos alunos do 9º ano tiveram negativa a matemática.



O ARCO DA VELHA -  Nos primeiros seis meses do ano, foram detidas quase 1500 pessoas pelo crime de violência doméstica.




REGRESSAR AO MUSEU GULBENKIAN  - Durante mais de meio século, guiado essencialmente pelo seu gosto pessoal, mas com aconselhamento dos maiores especialistas do seu tempo, Calouste Gulbenkian reuniu uma das mais importantes colecções de arte privadas do mundo, com cerca de seis mil obras. Esta colecção ficou em Portugal depois da sua morte em 1955, inserida na criação da Fundação Gulbenkian. Calouste Sarkis Gulbenkian  um engenheiro de petróleos de origem Arménia que fez fortuna com o desenvolvimento da exploração petrolífera no Médio Oriente, vivia em Londres e veio para Lisboa em 1942 no contexto da II Guerra Mundial e aqui viveu até à sua morte. A Fundação Gulbenkian, que comemora este ano 70 anos de existência, apresenta no seu renovado Museu, que alberga a colecção do fundador, um conjunto de cerca de mil obras, distribuídas por um percurso que começa no Antigo Egito, passa pelo Mundo Islâmico, pela China e pelo Japão, e termina na Europa, com obras desde o século XII ao século XX, como este quadro de Édourd Manet, “As Bolas de Sabão”, de 1867, aqui reproduzido. A Arménia, terra natal de Gulbenkian, também está representada por pergaminhos iluminados dos séculos XVI e XVII e destaca-se também  a produção joalheira e vidreira de René Lalique, de quem Calouste Gulbenkian foi amigo e admirador incondicional. A exposição montada para esta reabertura foi já concebida pelo novo Director do Museu, Xavier S. Salomon, que veio da Frick Collection em Nova Iorque. O Museu Gulbenkian está aberto todos os dias excepto terça entre as 10 e as 18, com fecho tardio ao sábado às 21h. Destaque também para a exposição patente no átrio da Biblioteca de Arte da Fundação, onde pode ser vista a exposição “Gulbenkian, 70 anos em cartaz” que apresenta sete dezenas de cartazes e diversos materiais gráficos relativos às actividades programadas ou apoiadas pela Fundação.



ROTEIRO -  Na Sociedade Nacional de Belas Artes, até 30 de Agosto, “Alinhados pela Mesma Lã” apresenta trabalhos de seis artistas têxteis, que são o resultado de uma residência artística em Loulé em torno da lã de ovelha Churra algarvia. A exposição reúne trabalhos de Ana Soromenho (na imagem), Cláudia Moreira, Luísa Leão, Maria Terra, Rita Martins Pereira, Rita Teles Garcia e Susana Mendez. Destaque ainda para a Residência Criativa de Olaria Pintada, que este ano vai na sua quarta edição e que proporciona  o encontro entre designers, ilustradores e as últimas olarias de Viana do Alentejo ainda em atividade. Desta colaboração resultam peças tradicionais em barro vermelho — como alguidares, jarros, bilhas de água e pratos, entre outras — reinterpretadas através de novas linguagens decorativas desenvolvidas pelos artistas em residência, num diálogo entre o design contemporâneo e o saber-fazer artesanal. Carolina Celas, Célia Esteves, Claudia Lancaster e Nicolau, os oleiros Feleciano Agostinho e Mira Agostinho, e as pintoras Rosa Baptista, Mariana Almeida e Elisabete Francisco, foram os participantes na edição deste ano, e os seus trabalhos podem ser vistos no Depozito, na Rua Nova do Desterro, 21, em Lisboa, até 30 de agosto. 



EÇA COM QR CODE - A primeira edição de “Os Maias”, de Eça de Queiroz, foi publicada em 1888 e é um retrato cru de uma época, de uma classe, de um país e de uma cidade. Considerado o romance português mais importante do século XIX, “Os Maias” está cheio de referências culturais, políticas, gastronómicas e do quotidiano de Lisboa no final do século XIX. Uma nova edição da Quetzal é dedicada a todos a quem escapam muitas das referências da obra. Por exemplo: o que foi «a Belfastada»?, o que é um mantelete?, quem foi o marechal de Saldanha?, o que é um boudoir?, quem foi Byron?, o que são bambinelas?, por que são importantes «o Colares» e «o Bucelas»?, o que é uma escopeta?, o que é uma «Chartreuse»?, o que é um fumoir?, onde ficava o Aterro, em Lisboa?,  a Finlândia já existia no tempo de Eça?, o que era um Chablis?, quem era Michelet?, quem era Gambetta?, quem era Renan?, o que era a talagarça?.. e a Beatriz de Dante? A resposta a estas e muitas outras perguntas suscitadas pela leitura da obra podem ser encontradas nesta nova edição de “Os Maias” que, página a página inclui códigos QR que explicam referências, lugares, datas e figuras históricas do romance que tem por subtítulo “episódios da Vida Romântica” A edição inclui ainda em extra texto um questionário com 100 perguntas sobre a obra e, claro, as respectivas respostas.




MESA DE CABECEIRA - Depois de ”Os Maias” sugiro a leitura de “Cartas de Paris”, o livro que reúne os textos escritos por Eça de Queiroz para o jornal brasileiro Gazeta de Notícias entre 1893 e 1897, período em que desempenhou funções como diplomata na capital francesa. Eça relata intrigas políticas, rivalidades intelectuais numa cidade que no virar do século era centro de vitalidade mas também de tensões entre países, movimentos políticos e centros artísticos (edição Livros do Brasil). Para os amantes de livros que queiram conhecer curiosidades escondidas pela literatura e percorrer várias centenas de anos de episódios literários em boa parte desconhecidos, recomendo “Biblioteca Secreta”, de Oliver Tearle. Através de romances, peças de teatro, relatos de viagem, livros científicos, obras de humor e almanaques, o autor mostra como os livros acompanharam – e muitas vezes influenciaram – a História do mundo ocidental. Um tesouro de exemplos literários curiosos para descobrir como a nossa história e os livros estão profundamente ligados. (Edição Gradiva).



NOVO CABO VERDE - O disco que tenho ouvido mais frequentemente nos últimos dias é “Poi Beat” , o álbum de estreia de Rislene. Nascida em França, com raízes em Cabo Verde, canta em crioulo com uma voz fresca, que por vezes é traquinas e noutras séria. Rislene, 25 anos,  é uma cantora surpreendente que começou no rap e foi evoluindo até esta fusão de influências bem ilustrada nos 15 temas deste disco. Em “Poi Beat” convivem evocações de géneros de Cabo Verde como a  morna, o ferrinho ou o batuque, com sonoridades urbanas contemporâneas da França onde cresceu. Neste disco, Rislene é acompanhada pela dupla  Ariel e Migz, por Charlie Beats e também por DJ Dadda que produziu um dos temas. O álbum inclui ainda uma participação de Richie Campbell no tema “Ko Kai” e uma presença da nova música cabo-verdiana, através de Apollo G. A maior parte dos temas são muito pessoais, Várias músicas que estão lá contam a história de Rislene e de pessoas da sua família. Um dos temas, “Disisti”, é daquelas canções que marca. Edição Sony, disponível nas plataformas de streaming.



DIXIT -  “Sejamos claros: os esclarecimentos de Luís Neves foram ridículos. Onde estavam, afinal, os papéis novos que ele andou laboriosamente a reunir durante três semanas? Ninguém os viu” - João Miguel Tavares, no “Público”.



BACK TO BASICS -  “É preciso mandar todos os políticos trabalhar para as obras”  - José Pulido Valente, arquitecto.



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS