
COMUNICAÇÃO - O Governo de Luís Montenegro despacha actividade quase ao ritmo com que Trump assina ordens executivas e na última semana têm surgido notícias que vão da educação à reforma do Estado, passando pela revisão da legislação laboral. Mas começa a saltar à vista que existe um problema de comunicação na atividade do Governo: as medidas são anunciadas mas frequentemente são mal explicadas - o caso da legislação laboral é talvez o mais gritante exemplo disso mesmo nas medidas recentes, mas a extinção da FCT também. É certo que alguns dos ministros envolvidos nestas medidas têm pouco jeito para comunicar, mas os seus assessores podiam aconselhá-los melhor. Não chega dizer que se vai fazer em termos gerais, é fundamental explicar e justificar o que se anuncia. A não ser assim cria-se especulação e dá-se azo à desinformação, que é o que acontece com os casos da revisão do período de aleitamento na lei laboral, a revisão da legislação sobre emigração, as alterações fiscais ou a extinção da FCT ou as alterações na disciplina de cidadania. Já nem falo do caso da saúde onde o que é anunciado esbarra frequentemente com o desmentido que os factos mostram - um confronto entre a propaganda mal feita e a realidade. Por vezes os governantes envolvidos têm uma posição arrogante tipo “quero posso e mando”, noutros casos são apenas desprovidos de senso comum e falam para o país como se estivessem a falar para accionistas na assembleia geral de uma empresa. Na realidade são os cidadãos a pagar o funcionamento do Governo e do país e merecem ser bem informados sobre o que perdem e ganham em cada mudança. E claramente não é isso que está a acontecer - o Governo privilegia o foguetório em vez da serena comunicação. Assim não vai por bom caminho. Quando o Presidente da República afirma, sobre o reagrupamento familiar dos emigrantes que a lei “será julgada pela História” está tudo dito. Como Miguel Monjardino afirmou numa entrevista à revista “Ler”, os governantes contemporâneos, “são líderes que se mantêm no poder através de ‘presidências cinematográficas’: o Governo não interessa, o que interessa é ter um episódio novo todos os dias”.
SEMANADA - A área ardida até meio de Julho triplicou face ao ano passado;só na última semana a área ardida este ano mais que duplicou; nos últimos 12 anos o número de reclusos nas cadeias portuguesas presos por atearem fogos aumentou de 21 para 65; entre 2021 e 2024 houve 72 ordens de encerramento de creches por falta de condições ou de licenciamento; entre 2019 e 2024 foram sinalizadas em Portugal 2211 presumíveis vítimas de tráfico de seres humanos; o aumento do preço da habitação em Portugal no primeiro trimestre de 2025 foi de 18,7%; o número de despejos nos primeiros cinco meses deste ano aumentou 14% em relação ao mesmo período do ano passado; no mês de maio verificou-se um acréscimo de 5% das aterragens diárias de vôos comerciais nos aeroportos portugueses em comparação com o mesmo período do ano passado; entre 2015 e 2024 o número de dormidas em estabelecimentos de alojamentos turísticos aumentou 51%; a idade média do conselho estratégico do PS é de 67 anos; um em cada quatro médicos tem mais de 65 anos; o salário mínimo português, 870 euros, desceu um lugar na tabela europeia, para a 12ª posição, depois de a Grécia ter aumentado a sua retribuição mínima para 880 euros; este ano estão confirmados 383 festivais de verão em todo o território nacional, o maior número de sempre.
O ARCO DA VELHA - Apesar de ter gasto quase 90 milhões de euros nos últimos dois anos a queimar vinho que existia em excesso e que os produtores não conseguiam escoar, Portugal continua a importar vinhos a granel de Espanha.

HISTÓRIAS DO PODER - Para não estar a ler apenas romances policiais em férias, e depois de muito ter ouvido falar de Giuliano da Empoli, atirei-me ao seu mais recente livro, “A Hora dos Predadores”. O autor, de origem italiana e suíça, estudou direito e ciência política e tem ocupado cargos de conselheiro de membros de governos italianos, como o ex-primeiro-ministro Matteo Renzi, e fundou um think tank a que chamou “Volta”. Estar no círculo do governo permite-lhe assistir na primeira fila ao funcionamento das instituições e de dirigentes mundiais. Empoli tem estudado com particular cuidado a modificação operada na actuação política através das redes sociais e os efeitos da digitalização na comunicação - antes tinha escrito, precisamente sobre esse tema,”Os Engenheiros do Caos”. Neste “A Hora dos Predadores” Giuliano da Empoli relata as suas experiências em locais que vão da sede da ONU em Nova Iorque até uma reunião no hotel Ritz Carlton em Riade com Mohammed Bin Salman, o príncipe que governa a Arábia Saudita, passando por uma descrição hilariante de um jantar da Fundação Obama. São nacos de excelente prosa que nos ajudam a ver o mundo de outra forma e a compreender como as aparências iludem - e muito. É um livro de leitura rápida, 120 páginas, e quando acabei de o ler fiquei com a sensação que tinha lido a versão moderna de “O Príncipe”, de Maquiavel, centrada nas comparações dos líderes de vários países e organizações com César Bórgia, o príncipe italiano cuja vida e acções inspiraram Maquiavel. O livro é atual e alerta para a situação grave que a Europa atravessa. Cito um parágrafo, que retrata o presidente norte-americano: “No fundo, Trump é apenas e enésima ilustração de um dos princípios imutáveis da política, que qualquer um pode constatar: não há praticamente nenhuma relação entre o poderio intelectual e a inteligência política”. “A Hora dos Predadores", de Giuliano da Empoli, foi traduzido por Jorge Pereirinha Pires e editado pela Gradiva.

ALGARVE FOTO - Até 23 de Agosto, na 3.ª edição da Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro pode ver 13 exposições de fotografia e uma de cartoons na Fábrica da Cerveja, em pleno centro histórico de Faro, uma organização da CC11 com o apoio do município local, sempre com entrada livre até às 11 da noite de terça a sábado e no domingo de manhã. No piso térreo pode ver “A Fabulosa Máquina de Fazer Parar o Tempo”, um trabalho de João Paulo Barrinha, do Walking Camera Project em que o acto fotográfico é encarado como performance, recorrendo à fotografia à la minute. No piso 0.5 está o projecto vencedor da 1.ª edição do Prémio CC11 Fotografia, “Blessed Ground”, de Ricardo Lopes, um ensaio documental feito durante 2024, sobre o impacto da extracção industrial de ouro em comunidades rurais de Moçambique (na foto em cima). Na sala ao lado pode ver um mergulho nas tradições da destilação de aguardente de medronho, ainda bem vivas nas serras de Monchique e Espinhaço de Cão. "Alambiques & Alquimistas” de João Mariano. No piso 1, Marc Schroeder apresenta “Muito Frágil”, um regresso à fotografia de retrato feito em 2023 na zona da Alameda, em Lisboa, quando ia pedindo a estranhos para os retratar (na foto em baixo).

Na outra sala, “Margem Sul” , de Luís Ramos, mostra um território de contrastes, das migrações internas dos anos 60 aos recém-chegados nómadas digitais. No piso 1.5, “Joy Bangla” é projecto de 2024 de Filipe Bianchi, que dá a conhecer o quotidiano da comunidade bangladeshi do bairro do Intendente, em Lisboa. Ao lado Alberto Picco olha para a cidade de Setúbal e os seus vestígios industriais, transformando ruínas e estruturas abandonadas em símbolos de memória e identidade. A mistura de técnicas e suportes de “Crossing Boundaries” levanta questões sobre os eventuais limites da fotografia enquanto possível espelho do real, através da mistura de técnicas e suportes. No piso 2, cinco exposições: na primeira sala está uma retrospectiva,do percurso do fotojornalista Carlos Lopes (1949- 2021), a partir de uma selecção de Clara Azevedo e Daniel Rocha, “O’ Lopes”; a sala seguinte acolhe 31 fotografias do projecto “Cante”, de Ana Baião, o retrato de quem dá corpo e voz ao cante alentejano, feito ao longo de uma década, numa selecção dos curadores António Pedro Ferreira e João Mariano. No mesmo período de tempo (entre 2014 e 2024), mas numa geografia distinta, Joe Wood emigrou para a Lituânia e “Middle Ground” é uma viagem fotográfica pelo país, mostrando a sua transformação e identidade. “Change Of Season”, um projecto da Procurarte, mostra o trabalho de 13 fotógrafas que reflectem sobre os processos de transformação, identidade e mudança: Adriana João, Ana Alejos, Beatriz Banha, Beatriz Blasi, Carla Rebelo, Carolina Lino, Carolina Tardin, Catarina Cesário Jesus, Cristiana Ortiga, Eugénia Burnay, Joana Hintze, Rita Ruivo e Vera Cruz A fechar este piso, um salto no tempo. com “O Algarve de Asta e Luís de Almeida d’Eça”, um mergulho no passado, no arquivo fotográfico deste casal que se notabilizou na fotografia vocacionada para a promoção turística ao longo das décadas de 1960 a 1980. O piso 3 está inteiramente dedicado a “Da Ucrânia Com Amor” de Adriano Miranda, que reúne fotografias e crónicas publicadas no jornal Público que dão um testemunho directo da guerra. E no piso térreo pode ver “Senhor Lobo”, de André Carrilho, uma selecção de ilustrações criadas para a imprensa ao longo de 2024. Mais uma vez a Mostra de Fotografia e Autores – MFA Faro é uma oportunidade para ver o trabalho de fotojornalistas consagrados e de jovens fotógrafos.

ALMANAQUE - E que tal escolher Málaga como destino de uns dias de férias? Na cidade estão museus como o Thyssen Bornemisza, o Museu Picasso, o Centro Pompidou de Málaga, o Museu da Cidade, além de temáticos sobre automobilismo, vinho, videojogos ou História Militar, para só citar alguns. No Thyssen pode ver a exposição American People. American Documentary Photography (1930–1980), com trabalhos de Harry Callahan, Imogen Cunningham, Walker Evans, Louis Faurer , Robert Frank, Lee Friedlander, Anthony Hernández, Helen Levitt, Susan Meiselas, Tod Papageorge e Garry Winogrand /esta foto de Marylin). E no Pompidou pode ver uma exposição sobre a obra de Vassily Kandinsky, pioneiro da arte abstrata”. Málaga, a sexta maior cidade de Espanha, fundada pelos fenícios no século XII, localiza-se na Andaluzia, na costa sul do país, junto ao Mediterrâneo e lá está a praia da Malagueta. Além disso é um bom destino gastronómico.
DIXIT - ““Um painel situado algures entre os hóspedes de um lar e a respectiva família não augura estratégia nenhuma.” - Manuel Carvalho, no “Público”, sobre o Conselho Estratégico do PS.
BACK TO BASICS - “Já não sou suficientemente novo para achar que sei tudo” - Oscar Wilde
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS