agosto 22, 2025

SOBRE A FALTA DE NOÇÃO

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VAMOS EMBORA - Na semana passada, na pior altura dos incêndios, o primeiro-ministro foi repetidamente fotografado na praia, com o seu permanente sorriso de anúncio dentífrico e mais tarde, talvez no pior dia dos fogos, surgiu radiante na Festa do Pontal, um evento tradicional do PSD que mistura comício com cantorias. Qualquer pessoa tem direito a ter férias e a promover festas, mas um primeiro-ministro tem deveres especiais - retomando uma velha frase, “à mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta". Montenegro parece não se preocupar com isso, mas no entanto foi  ele próprio, em 2022 e 2023, a criticar a atitude do então governo de António Costa face aos incêndios que assolavam o país. Mais: pouco tempo depois de iniciar funções como líder do PSD e da oposição, em 2022, Luís Montenegro foi a Pedrógão recordar a tragédia que ali ocorrera em 2017 e criticou a falta de preparação do Governo de António Costa para enfrentar os  incêndios. Agora, que é primeiro-ministro, preferiu o silêncio que antes denunciava. Ninguém quer que os membros do governo andem de mangueira na mão a apagar fogos e menos ainda que estejam no meio da floresta a atrapalhar os bombeiros. Mas espera-se que definam políticas de prevenção, que controlem a sua execução, que tenham meios prontos a funcionar em vez de aviões Canadair imobilizados por grosseiro descuido, que articulem atempadamente os mecanismos de emergência com outros países, que se mostrem atentos. Montenegro não governa o país há três meses, é primeiro-ministro desde Abril de 2024, não pode proclamar ignorância das situações. O seu Governo teve mais de um ano para tomar medidas e não o fez.  De um primeiro ministro espera-se que nestas circunstâncias mantenha um módico de contenção festiva e que fale de políticas para os incêndios, que certamente já terá estudado atendendo ao que defendeu enquanto líder da oposição. Não resisto a citar o que Henrique Gouveia e Melo disse sobre estes dias: “um verdadeiro líder , mesmo sem poder fazer mais, está na frente com o seu povo, mostrando que não se esconde das responsabilidades que pediu para assumir” . E, num artigo no “Correio da Manhã”, Pedro Santana Lopes, reivindicando maior presença das autarquias no sistema de prevenção e combate dos incêndios,  escreveu: Ninguém como os responsáveis das Câmaras e das Freguesias conhece o respetivo território e tem os meios de interagir com os privados que não limpam as suas propriedades. A incompetência política leva a que quem ascende ao Poder, em cada momento, julgue que basta mudar os dirigentes da Proteção Civil e outros responsáveis para as coisas correrem bem. Ainda não se percebeu? É a organização e o sistema que não servem. Acordem.” Era sobre isto, sobre as mudanças necessárias na prevenção e combate aos fogos,  que eu gostava de ouvir o Governo falar. Montenegro, como se viu no comício do Pontal, numa das piores noites dos incêndios, culpa quem o critica e não consegue olhar, e muito menos assumir o que faz,  um padrão de comportamento que já vem do caso Spinunviva. Em vez de se queixar de jornalistas e analistas, talvez não fosse pior que pensasse que, sob a sua liderança no PSD, o Chega passou de 12 deputados para 50 dois anos depois de Montenegro se proclamar líder da oposição e para 60 deputados passado mais um ano. Em vez de olhar para os outros, Montenegro e o seu núcleo de yesmen, todos muito rodados na politiquice interna do aparelho do PSD, mas com pouco serviço prestado ao país, deviam perceber que na realidade não estão a dar conta do recado. A Ministra da Administração Interna resumiu a posição do Governo sobre os incêndios: “vamos embora”, disse ela.


 


SEMANADA - Este ano já foram detidas 90 pessoas pelo crime de fogo florestal; os incêndios já consumiram, até domingo passado,  155.000 hectares, 18 vezes mais do que a área ardida em igual período do ano passado, perto de atingir a área ardida no trágico ano de 2017, quando as chamas queimaram 164 249 hectares; até  ao fim de semana deflagraram 6296 fogos;  cereja no topo do bolo: o objectivo de atingir um milhão de hectares de floresta limpa em 2024 ficou a menos de metade, apenas 400 mil hectares; o comandante Jorge Mendes, do Observatório de Bombeiros Portugueses, afirmou que “temos andado a correr atrás do prejuízo e tem havido falhas de coordenação no posicionamento dos meios no terreno”; ​​ Tiago Oliveira, presidente da Agência Integrada para a Gestão de Fogos Rurais , tinha alertado no início do verão ser fundamental “para que se evitasse que o fogo ande à solta”, pré-posicionar os operacionais e os meios nos locais previamente identificados e sublinhava ainda ser essencial “dirigir a vigilância e dissuasão para os locais de maior risco e lá colocar os meios e recursos do dispositivo”; o engenheiro florestal Cardoso Pereira afirmou que apesar de este ano haver  “ melhor planeamento e melhor articulação entre entidades, grande parte do planeado não foi transferido para o terreno”; em plena situação de alerta por causa dos incêndios dois homens detidos por atearem fogo em Vinhais vão aguardar julgamento em liberdade por decisão do tribunal judicial de Bragança; os suspeitos tinham sido apanhados em flagrante, a atearem um incêndio com um isqueiro na localidade de Quirás, concelho de Vinhais e foram detidos pela GNR para depois o juiz os soltar; duas dezenas de bombeiros morreram em serviço nos últimos cinco anos.


 


O ARCO DA VELHA - Este ano já ardeu 2,35% do território português e em média, nos últimos 18 anos, a percentagem foi de 1,05%, quase três vezes mais do que a da Grécia, que ocupa o segundo lugar e deixa a Portugal o título de campeão da União Europeia da percentagem de área ardida do seu território.


 


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LEITURA SILENCIOSA - A minha recomendação de leitura desta semana vai para o livro  “História do Silêncio”, do historiador francês Alain Corbin. conhecido pela forma como aborda temas menos convencionais (como a história dos ventos, da sombra ou do prazer e da paisagem). A obra é particularmente interessante nesta época em que o ruído invade todos os espaços - o autor mostra como depois da década de 1950 o silêncio perdeu o seu valor filosófico e a sua dimensão educativa e como a hipermediatização do século XXI torna difícil ouvir-nos a nós próprios e sentir o silêncio. Edição Quetzal.


 


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LISBOA EXPOSTA - Ao fundo do Campo Grande fica o Palácio Pimenta, que alberga o núcleo central, renovado, do Museu de Lisboa, que também integra outros espaços da cidade, nomeadamente o Teatro Romano, junto ao Castelo de S. Jorge e o Museu de Santo António, junto à Sé (ver nota no Roteiro nestas páginas). No núcleo do Palácio Pimenta  pode ser vista a exposição  “Crónicas de uma Lisboa desconhecida” que, através de uma centena de obras, mostra uma Lisboa ignorada. Algumas das peças expostas nunca foram mostradas e outras foram restauradas para serem exibidas e desvendarem uma Lisboa menos óbvia. A exposição parte da aventura aeronáutica de um italiano no final do século XVIII até às bombas dos primeiros anos da  República, passando pelos fados de Amália e a vida de uma poetisa e ativista dos direitos humanos, que no século XIX defendeu o fim da escravatura e a emancipação das mulheres. A fotografia de António Rafael, tirada em 1972, que integra a exposição e que aqui se reproduz, retrata a apanha da minhoca no Terreiro do Paço. Dá para perceber como a cidade mudou. Também no Palácio Pimenta pode ver a exposição “O Palácio da Cidade, de Keil do Amaral”, que mostra quatro propostas que ao longo de 27 anos o arquiteto idealizou para coroar o topo do Alto do Parque Eduardo VII e que nunca passaram da fase de projecto.


 


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ROTEIRO - Começo por uma doce exposição que está no Museu de Santo António, em Lisboa, junto à Sé. A exposição “Quando o Corpo se Faz Doce”, que pode ser vista até 7 de Setembro.  mostra exemplos da doçaria tradicional portuguesa que, modelados de forma sugestiva, a partir de açúcar, amêndoa e ovo, ganham contornos de partes do corpo ou de estados de alma, “fazendo a ponte entre vivências quotidianas carregadas de uma profunda religiosidade e a realidade terrena e material das sensações e da natureza do corpo humano” (na imagem) . Em matéria de fotografia este é o derradeiro fim de semana para poder ver duas exposições que mostram imagens de Portugal em 1974 e 1975. Na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa pode ainda ver “50 de 25” , que apresenta 50 fotografias de Luiz Carvalho que documentam essa época. E em Almada , junto à Lisnave, no Parque Empresarial da Mutela, pode ver a exposição organizada por Sérgio Tréfaut com o trabalho de três dezenas de fotojornalistas estrangeiros que acompanharam o que se passou em Portugal nesses anos. A exposição é de uma qualidade impressionante, a montagem e iluminação são boas, e este é um fundamental  testemunho da maneira de olhar para Portugal naquela altura por alguns dos grandes nomes da fotografia da época (Sebastião Salgado, Guy Le Querrec, Hervé Bureau ou Jean Claude Francolon, entre outros). 


 


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MÚSICAS DE VERÃO - Gosto de explorar as playlists do Spotify que alguns jornais compilam. Recentemente descobri no espanhol “El País”  a playlist “Un verano por la música”, uma recolha de temas de 1h e 43 minutos, desde “Summertime” na voz de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, até composições de  Berlioz, Bach, Tchaikovsky, Vivaldi, Beethoven, Schumann, Debussy, Handel ou Mahler. Pesquisem as playlists do El País no Spotify e podem viajar por esta tentadora selecção.



ALMANAQUE - Na quinta-feira 28 de Agosto , pelas 18h00, o Pavilhão Julião Sarmento organiza uma visita guiada dirigida por Isabel Carlos, a curadora da exposição  inaugural daquele espaço. Isabel Carlos, que é também a directora do Pavilhão Julião Sarmento, partilhará com o público a visão, as histórias e os contextos por detrás das obras expostas. A visita terá interpretação em língua gestual portuguesa e a participação nesta iniciativa requer inscrição prévia através do endereço de email bilheteira@pavilhaojuliaosarmento.pt .


 


DIXIT - “Já basta o que basta: um desleixo criminoso do Estado central e local no ordenamento do território. Que, até agora, nunca teve consequências políticas. (...) O país arde porque, no fundo, os portugueses não responsabilizam quem devem” - João Pereira Coutinho na Sábado.





BACK TO BASICS -  “Pouco se pode esperar de alguém que só se esforça quando tem a certeza de vir a ser recompensado”- Jose Ortega Y Gasset


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS