setembro 06, 2025

RITUAIS

IMG_8412.jpeg


Um desejo não consumado é das piores coisas que pode acontecer. Chegar ao areal e dar logo de caras com uma embalagem vazia de bolas de berlim sem ter vendedor à vista é uma forma de tortura direccionada aos sentidos. Longe vai o tempo da bola de berlim embalada em papel pardo. Agora, estas embalagens formulam pergunta e resposta na mesma frase, alinhando pontos de interrogação com pontos de exclamação e inquirindo o destinatário sobre as suas preferências: bola mais seca, ou mais húmida, ou, para desfazer equívocos maldosos, sem creme ou com creme? Vá lá que na embalagem ainda não aparece a possibilidade de chocolate, caso em que certamente a pergunta passaria a ser com ou sem pistachio e, com um bocado de cosmopolitismo modernaço, passaria a interrogar se o pretendido seria à moda do dubai ou simplesmente tuga?. Eu gosto de coisas simples, basta-me o toque aveludado da massa frita polvilhada de açúcar, dispenso cremes adicionais. Há uma volúpia especial em sair da água do mar, mesmo que fria, e ouvir ali perto o pregão do vendedor de bolinhas. O prazer aumenta quando a bola chega às nossas mãos e, cara virada ao sol (nos dias em que ele desponta) chegamos à boca a essa fonte de pecados - calóricos bem entendido - e a mordiscamos e vamos saboreando. Uma das melhores razões para ir pelo menos uma vez por ano à praia é cair na tentação da bola de berlim à saída do banho. Praia sem bola de berlim é como açorda sem coentros. Fica a faltar a explosão do prazer.