setembro 12, 2025

E DEPOIS DAS TRAGÉDIAS?

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ENTREGUES AOS BICHOS - Primeiro foram os fogos, agora a tragédia do elevador da Glória. Passámos Agosto a protestar contra a forma como decorreu o combate aos incêndios, por todo o lado surgiram denúncias de falta de articulação entre as várias entidades envolvidas. O assunto é sério: em Portugal não há registo de uma época de incêndios que tenha deixado uma área ardida tão grande como a de este ano. Mais de 250 mil hectares, uma emissão de 3,5 milhões de toneladas de carbono, ou seja 22% do total anual das emissões nacionais. Sabe-se que o Estado só executou 44% das verbas do PRR para a floresta e toda a gente se esquece que o interior, onde ocorreram os grandes fogos, proporciona ao litoral, o necessário equilíbrio  ambiental e biodiversidade. A zona da Serra da Estrela, que foi uma das mais fustigadas este ano, fornece 80% da água que Lisboa consome. O interior não interessa para nada aos poderes nacionais. Estou para ver, daqui a um ano, o que se concretizou de tudo o que se disse a propósito do que está por fazer na política florestal e no combate aos incêndios . Claro que as altas individualidades foram aos funerais das vítimas, lamentaram os feridos e começaram logo a ficar silenciosas, a adubar o esquecimento. Na semana passada, um acidente terrível no coração de Lisboa,  num equipamento sobreutilizado, muito para além daquilo para que foi projectado, numa zona de concentração turística, ceifou a vida de 16 pessoas e deixou ainda mais feridas e em estado grave. Lá foram as entidades oficiais, tais gatos pingados, às cerimónias de homenagem às vítimas. Quem manda, veio dizer que não é tempo de averiguar responsabilidades políticas sobre o acontecido. Do lado dos poderes argumentam com a proximidade das eleições para reclamar silêncio, num dos mais absurdos discursos anti-democráticos de que há memória. A verdade é que os mais altos responsáveis do país eximem-se a assumir responsabilidades em todas as situações graves, enquanto usam expressões de uma pesarosa hipocrisia. Não querem saber do facto de os cidadãos pretenderem saber o que na realidade aconteceu. A culpa não pode ficar solteira. Têm de ser encontrados e denunciados os responsáveis, que é coisa bem diferente de encontrar bodes expiatórios, uma especialidade nacional. Não há santos nesta matéria - desde governos a autarcas anteriores aos que hoje estão no poder também têm de ser chamados à pedra. A tendência nacional para esquecer os problemas em escassa meia dúzia de meses é uma das causas maiores da descrença no regime. Promover o esquecimento só interessa aos culpados. Estamos entregues aos bichos, essa é que é essa. 


 


SEMANADA - Entre janeiro e junho de 2025, houve uma média mensal de 130 despejos, número que supera os números de todo o ano de 2024 e 2023, sendo que incumprimento do pagamento da renda é a principal causa; os pagamentos em atraso do SNS a fornecedores aumentaram dez vezes entre Janeiro e Maio; em 2024 o INEM funcionou com menos 709 trabalhadores face aos previstos e quase 21 mil doentes graves não tiveram o nível de socorro exigido; as queixas de utentes do SNS sobre as urgências hospitalares no primeiro semestre do ano  aumentaram 90% face aos mesmo período do ano passado;  Portugal está entre os países que têm  uma maior percentagem de população com 80 anos ou mais (7%) e os que têm uma menor representação das faixas etárias com menos de 15 anos (abaixo dos 13%) e tem a segunda idade média mais elevada, 41,7 anos, da União Europeia; 38% dos portugueses não têm o ensino secundário; alunos do 4º ano têm melhor desempenho a inglês que a português; nos últimos 25 anos a CP reduziu em 40% o número de comboios em circulação na linha de Cascais, apesar de a população servida por essa linha ter aumentado 16% desde 2001; a modernização da linha ferroviária do norte foi iniciada há 29 anos mas o último troço de 19 kms só ficará concluído em 2030, 33 anos depois do início dos trabalhos; um estudo da Universidade Nova indica  que nos próximos 25 anos se vão reformar 4000 professores por ano;  José Mourinho já acumulou 108 milhões de euros em indemnizações por despedimento ao longo da sua carreira de treinador; no último ano lectivo a PSP encontrou 52 armas em escolas.


 


O ARCO DA VELHA - Os guardas no Estabelecimento Prisional do Linhó estão em greve total há nove meses e não se vislumbra o seu fim.


 


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UM MISTÉRIO FILOSÓFICO - Espinosa, o filósofo, tinha o seu primeiro nome disponível em várias versões: Baruch, que quer dizer abençoado em hebraico; Bento, em português; e Benedictus em latim. O avô e o pai, judeus convertidos à força à religião cristã, fugiram de Portugal e dos massacres da Inquisição e refugiaram-se na sinagoga portuguesa de Amsterdão. E foi nessa cidade que Espinosa nasceu, tendo morrido aos 44 anos, em 1677. A obra que fez ao longo da sua curta vida foi polémica mas hoje em dia ele é considerado um dos primeiros pensadores do iluminismo e um dos grandes racionalistas da filosofia do século XVII, o que lhe trouxe uma boa quantidade de inimigos, quer na religião católica quer no judaísmo. O polimento de vidro óptico para fabricar lentes era a actividade que o sustentava e lhe dava meios para o seu trabalho filosófico enquanto livre pensador e terão sido as poeiras de vidro que lhe  causaram problemas respiratórios, que podem ter sido  a causa da sua morte. Mas há uma outra história: acamado, doente, Bento de Espinosa terá recebido no dia 21 de fevereiro de 1677 uma misteriosa visita e três horas depois foi encontrado sozinho e sem vida. O dinheiro destinado ao médico desapareceu, assim como uma faca com cabo de prata e suspeita-se que manuscritos inéditos que estavam na sua secretária também desapareceram com a sua morte. É este o ponto de partida para “Quem Matou Espinosa”, obra a que já chamaram “thriller” filosófico. O autor do livro, Jean-François Bensahel, um matemático e empresário francês, leitor voraz de filosofia, reconstitui a vida e a obra de Espinosa e percorre esse tempo e os inimigos que podiam beneficiar com a morte do filósofo. É um misto de policial com um romance de investigação filosófica, com tradução de Antonio Sabler e edição Quetzal.


 


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TUDO A PRETO -   Tomaz Hipólito e a sua Azan Art dirigiram um convite a 50 artistas contemporâneos, de várias gerações e nacionalidades, desafiando-os a explorar o poder, o simbolismo e as subtilezas de uma única cor: o preto. O resultado é a exposição “Random Black” na Galeria de Santa Maria Maior (Rua da Madalena 147) onde  estarão até 4 de Outubro as respostas dos artistas a este desafio monocromático. “O preto é o vazio, a origem, o fim, o desconhecido, o elegante, o político, o radical, o poético, queremos ver até onde pode ir a cor preta” - sublinha a Azan na apresentação da exposição. Tomaz Hipólito, ele próprio um dos participantes, desafiou nomes como  Alexandre Baptista, Anja Vermeir, Carlos No, Catarina Pinto Leite, Cristina Ataíde, Filipe Alarcão, Jeff Perkins, Jorge Queiroz, Miguel Navas (na imagem), Miguel Palma, Pedro Cabrita Reis, Rita Gaspar Vieira , Rui Horta Pereira e Vasco Futscher Pereira entre outros. A imagem do cartaz da exposição é de uma pedra negra vulcânica dos Açores, a obsidiana, que assim representa o conjunto dos 50 trabalhos apresentados. 


 


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ROTEIRO - Em Évora, no Palácio dos Duques de Cadaval, está até 26 de Outubro uma nova exposição de fotografia de Guillaume Bonn, um fotógrafo documental, escritor, cineasta e editor de imagens, nascido em Madagáscar e que apresenta sob o título “Mosquito Coast” uma série de fotografias que exploram a essência da identidade arquitetónica da África Oriental (na imagem). Em Lisboa, no Museu da Farmácia (Rua Marechal Saldanha 1) estão expostos trabalhos de uma dezena de Urban Sketchers em torno de museus nacionais, sob o título “Sei de um rio, Sei de um museu”. Fernanda Lamelas, Filipe Leal Faria, João Catarino, José Louro, Luís Frasco, Marcelo de Deus, Marta Castro, Pedro Cabral, Rosário Félix e Teresa Ruivo representam locais como a Casa das Histórias Paulo Rego, em Cascais, a Casa do Careto, em Podence, ou o Núcleo Islâmico do Museu Municipal de Tavira. Na Fábrica da Moagem, ao Beato, Frederico Ferreira, que assina como FRED, apresenta a exposição “Once Upon A Time”, um trabalho que encara conflito e  destruição como catalisadores do acto criativo. Na Galeria Zé dos Bois (rua da Barroca 59) há cinco exposições para ver até 20 de Setembro:”Pizza Space-Time” de João Marçal, “Baahahal” de Pizz Buin, “Pedreiras/Quarries” de Ellie Ga e Karin Monteiro, “Fricção Científica”  de Beatriz Capitulé e “Ao longe endireita”, de Luís RochaNa Galeria de exposições temporárias de S. Roque, com entrada pela Igreja,  prossegue até final do mês a exposição “Casar”, com fotografias e outros materiais do Arquivo Ephemera.


 


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MINGUS INÉDITO - Em final de 1977 o estado de saúde do contrabaixista Charles Mingus agravou-se subitamente e ele teve de cancelar as digressões que tinha programado. Em Março desse ano tinha gravado os seus derradeiros álbuns de originais, “Three or Four Shades of Blues” e “Cumbia & Jazz Fusion”  e foi com custo que partiu em digressão pela América do Sul. No início de Junho tocou em Buenos Aires e o álbum “Mingus In Argentina”, agora editado depois de restauradas as gravações dos dois concertos que tocou nessa cidade, é o último testemunho da forma como estava em palco. Ao seu lado estavam dois fiéis companheiros - o trompetista Jack Walrath e o baterista Dannie Richmond, a que se juntavam o pianista Bob Neloms e o saxofonista Ricky Ford, então com 23 anos. Este é o único registo desta formação e um dos derradeiros concertos de Charles Mingus. “Mingus In Argentina” tem quase duas horas de duração ao longo de 13 temas, maioritariamente composições do próprio Mingus. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Este início de outono está bem recheado de exposições para quem for a Paris: 90 trabalhos do pintor britânico John Singer Sargeant durante os anos em que viveu em Paris no final do século XIX, muitas das quais hoje em dia integram a colecção do Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque que co-produziu a exposição patente no Musée d’Orsay. E na Fundação Louis Vuitton está uma grande exposição do alemão Gerhard Richter.


 


DIXIT - “Montenegro e Carlos Moedas não podem esperar bocas amordaçadas após a queda do elevador lisboeta” - João Miguel Tavares, no Público


 


BACK TO BASICS -  “Um homem verdadeiro encara os acidentes com dignidade” - Aristóteles 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS