março 28, 2026

NATUREZA MAIS NATURAL NÃO HÁ 

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Já conhecia casas com vista para o mar  e casas de banho com belas vistas. Mas nunca tinha visto uma coisa assim: no meio do nada, na foz do Tejo, uma sanita tão bem colocada ao ar livre, tampa levantada encostada ao autoclismo,  um ramo de árvore a penetrar no seu interior. Quem fez isto tem uma clara intuição visual e arrisco pensar que foi alguém conhecedor da obra do surrealista Marcel Duchamp, autor do célebre urinol que ganhou honras de museu. Façamos um pouco de história: em 1917 Marcel Duchamp pegou num urinol de porcelana branca, invertido, a que chamou Fonte. Em vez de assinar a obra com o seu nome, assinou como R. Mutt. Enviada a obra para a exposição da Sociedade de Artistas Independentes em Nova Iorque, foi rejeitada por ser considerada uma piada de mau gosto e uma indecência. A ideia de Duchamp foi elevar um objeto industrial comum ao estatuto de obra de arte, com base no argumento de que a arte é definida pelo conceito dado pelo artista e pelo contexto da sua apresentação. Ao ser exposta num museu, levada por um artista, a peça ganharia o estatuto de arte. Não conseguiu convencer o júri e o original desapareceu, mas deu polémica e tornou-se uma lenda. Depois de muitas solicitações Duchamp autorizou, entre 1950 e 1964, a produção de 16 réplicas, todas expostas em museus, hoje em dia avaliadas em milhões. Voltemos à beira do Tejo, do lado da Cova do Vapor, onde encontrei esta peça. Confesso que acho particularmente interessante a conjugação do objecto com o ramo de árvore. Será uma alegoria à destruição da natureza e à forma como o homem a trata? Lição do dia: mesmo o mais banal dos objectos pode dar que pensar e proporcionar múltiplas interpretações.




março 27, 2026

VER O MUNDIAL NA TV VAI MUDAR ESTE ANO

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FUTEBOL E TELEVISÃO- Na semana passada a TVI revelou que a FIFA está a pedir 430 mil euros pela transmissão televisiva de cada jogo do Mundial 2026, mais do dobro do valor pago por aquele canal para transmitir os jogos do Mundial de 2022. Este ano o Mundial acontece no continente americano com 104 jogos entre as 48 selecções de futebol presentes, que decorrerão no Canadá, Estados Unidos e México. Globalmente, a FIFA prevê angariar 3,4 mil milhões de euros com os direitos de transmissão do Mundial. Mas este ano há novos players interessados, para além dos canais tradicionais: algumas das plataformas de streaming  começaram a apostar cada vez mais em transmissões directas de eventos desportivos e o Mundial de futebol é muito apetecível. O interesse pelos direitos de transmissão de jogos de futebol e de outras modalidades desportivas nasce porque estes conteúdos são chamarizes de audiências e há plataformas de streaming que os querem a quase qualquer preço para cativar novos assinantes. Reparem: no ano passado a transmissão de jogos de futebol nos diversos canais generalistas portugueses ocupou os 24 primeiros lugares dos programas mais vistos, de todos os géneros, em todos os canais. Este fenómeno repete-se um pouco por todo o Mundo. É por isso que as plataformas de streaming querem estas transmissões e, como têm outros recursos financeiros que os canais generalistas já não possuem, provocam um inevitável  aumento dos preços. Com valores como os referidos inicialmente é cada vez mais complicado para os canais generalistas, gratuitos, garantir a amortização do investimento através da publicidade. Este ano já se sabe que a SportTV disponibilizará aos seus assinantes os 104 jogos do torneio, mas a  grande novidade é que o canal digital LiveModeTV, que transmite no Youtube, já anunciou que fará a transmissão, sem custos para os espectadores,  dos encontros da selecção nacional e de outros jogos. Esta é mais uma machadada na influência dos canais generalistas, que vêem as suas audiências cada vez mais ameaçadas. Ao fim de semana o número de telespectadores que prefere os canais de cabo e as plataformas de streaming anda frequentemente acima dos 60%, o que deixa para os canais generalistas menos de 40% do total de espectadores. Na televisão tudo está a mudar e cada vez mais depressa. 


 


SEMANADA - O número de testamentos cresceu 50% na última década; a percentagem de bebés nascidos filhos de mães estrangeiras disparou nos últimos 10 anos, passando de 8,6% em 2015 para 26,2% em 2024; desde 2018 mais de mil mulheres optaram por ter os filhos em casa, mas um em cada cinco destes partos acaba no Hospital devido a complicações; as maternidades privadas realizaram 16.317 partos em 2025, o número mais elevado de sempre; 37% dos jovens portugueses de 18 anos utilizam as redes sociais, em média, durante quatro horas ou mais por dia, enquanto 15%  as frequentam por períodos iguais ou superiores a seis horas; aos 18 anos, 97% dos jovens utilizam as redes sociais, com 42% a fazerem-no 2 a 3 horas por dia; o parque de viaturas do Estado tem mais de 23 mil veículos, dos quais apenas 1,4% são eléctricos; 40% dos proprietários de terrenos rurais não os limpam; o número de despejos aumentou mais de 40% no ano passado; o território costeiro perdido em Portugal entre 1958 e 2021 devido à erosão marinha, representa 13,5 km2, o equivalente a  1.350 campos de futebol; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a ultrapassar a fasquia dos 1,6 milhões em janeiro. 


 


O ARCO DA VELHA - Em Portugal  26,5% da água que entra nas redes de abastecimento público é desperdiçada e dada como perdida.


 


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PAISAGENS - A nova exposição de Patrícia Garrido, “Pinturas Sem Título” apresenta um conjunto de nove óleos de grandes dimensões, 40 óleos em papel de pequenas dimensões e uma dezena de obras da mesma série, noutros formatos. Estes novos trabalhos evocam “belas paisagens”, como escreveu a crítica de arte Luísa Soares de Oliveira e representam a confirmação do regresso de Garrido à pintura, percurso que retomou na exposição anterior na mesma galeria, depois de uma série de trabalhos focados em escultura, que apresentou em diversos locais nos últimos anos. Nesses trabalhos de escultura  Patrícia Garrido evocou as suas memórias pessoais e as casas onde viveu, a partir do reaproveitamento de materiais. Após esse ciclo (na Giefarte, na Appleton, na SNBA e na Galeria Miguel Nabinho), Patrícia Garrido retomou o desenho e a pintura, primeiro na Galeria Diferença e depois também na MIguel Nabinho, com a série “Família Feliz” onde se adivinhava já o percurso que agora se consolidou nestas “Pinturas Sem Título”. Os quadros desta nova série são dominados pela sobreposição de formas, explosões de cor que acabam por dominar o horizonte, deliberadamente alterando a visão da natureza e subvertendo a paisagem. Na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão 18 , até 9 de Maio.


 


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ROTEIRO - No Centro Internacional das Artes José de Guimarães, em Guimarães, Jorge Molder apresenta a primeira parte de  “Come di”,  exposição que é anunciada como uma retrospectiva sistemática da sua obra, focada no período entre 1991 e 2003, quando o artista passou a usar o seu corpo e sobretudo o rosto em séries fotográficas, encenando diversas personagens (na imagem uma fotografia da série “Insomnia, de 1992). Esta é uma das três exposições que marcam o primeiro ciclo desenhado pelo novo curador do Centro, Miguel Wandschneider. Além dos trabalhos de Jorge Molder até 6 de Setembro poderão ser vistas duas outras exposições, uma do escocês Aidan Duffy e  outra com obras de Artes Tradicionais Africanas na Coleção José de Guimarães. Em Algés, no Palácio Anjos, a exposição “Graça Morais – Uma Antologia” reúne mais de 170 obras de desenho e pintura. A mostra, que pode ser vista até 16 de Agosto, percorre o percurso da artista desde a década de 1970 até ao presente. Em destaque está o projecto para um  painel de azulejo de 6 por 20 metros em homenagem aos presos políticos do Forte de Caxias, uma encomenda da Câmara Municipal de Oeiras.  Na Galeria Francisco Fino podem ser vistas obras do acervo de Helena Almeida.


 


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SOBRE O PENSAMENTO CULTURAL - “O Poder da Cultura, Questões Permanentes”, é o novo livro de António Pinto Ribeiro, que reúne um conjunto de textos escritos ao longo de 30 anos sobre temas muito diversos. Os cerca de 60 textos agrupados nesta edição foram escritos entre 1966 e 2003 e abordam temas como o populismo e a cultura, o conflito entre património cultural e a arte contemporânea, a relação entre a arte e a democracia, mas também reflexões sobre a vida dos artistas e o papel dos produtores, investidores e colecionadores. O multiculturalismo e o cosmopolitismo, o papel das cidades, das galerias, das livrarias, dos centros culturais, da rádio, dos jornais diários e a importância de olhar à nossa volta e viver os locais, por mais triviais que pareçam, são também temas abordados. Apaixonado pelas artes cénicas e em particular pela dança,  há um ensaio fascinante sobre as artes do corpo, intitulado “Por Exemplo A Cadeira”. O livro termina com um guia das livrarias preferidas do autor em cidades como Montpellier, Nova Iorque, Londres, Maputo, Barcelona, Rio de Janeiro, São Paulo, Veneza, Mindelo, Paris, Milão ou Bruxelas, entre outras. António Pinto Ribeiro tem formação em Filosofia e Estudos da Cultura e  combina a sua atividade de professor com a de investigador e programador cultural, tendo trabalhado em várias instituições culturais portuguesas, como a Culturgest, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e a Fundação Calouste Gulbenkian. Edição Temas & Debates.


 


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MESA DE CABECEIRA - Michael Mortis defende em “Tribal” que a espécie humana  é a única que vive em tribos: grupos unidos por culturas distintas que podem crescer e atingir uma dimensão muito superior à dos clãs e bandos. Nos tempos que correm é uma ideia que nos ajuda a perceber o que se passa no Mundo. Segundo Morris “países, Igrejas, partidos políticos e empresas são tribos, e os instintos tribais explicam a nossa lealdade para com eles e as formas ocultas como afetam os nossos pensamentos, ações e identidades.” (Edição Temas & Debates). Outro livro que vale a pena descobrir é “Espinosa - o Messias da Liberdade””, de Ian Buruma. Espinosa foi um filósofo holandês de origem portuguesa e este  livro debruça-se sobre a sua vida e também sobre os seus combates espirituais, sobre liberdade, autenticidade, vida plena e os caminhos da razão. Ian Buruma sublinha a importância do tempo e do lugar que moldaram Espinosa, e argumenta que a  sua defesa da liberdade universal é tão importante para o nosso tempo como foi para o dele. (Edição Quetzal)


 


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AS CORDAS DO JAZZ - O guitarrista de jazz Bill Frisell, que em breve completa 75 anos, editou um novo disco, “My Dreams”, que inclui 12 temas, oito dos quais gravados ao vivo. No disco é acompanhado por cinco músicos que com ele têm trabalhado nos últimos anos: uma secção de cordas constituída por Jenny Scheinmann no violino, Eyvind Kang na viola e Hank Roberts no violoncelo, aos quais se juntam Thomas Morgan no baixo e Rudy Royston na bateria. Os temas do disco foram gravados em diversos espectáculos nos Estados Unidos ao longo de 2025, mas os músicos não sabiam que essas gravações seriam a base de um álbum. Mais tarde Frisell, com o produtor Lee Townsend e o engenheiro de som Adam Muñoz, pegaram nas gravações e trabalharam-nas até chegarem à forma final que têm no disco, algumas bem diferentes do que foi tocado nos espectáculos. Edição Blue Note disponível em streaming.





ALMANAQUE - “Matisse  1941-1954” mostra cerca de 300 obras do pintor feitas nos últimos 13 anos da sua vida, depois de uma cirurgia que deixou marcas. Este é o período que apanha a guerra e a ocupação da França pelos nazis e, depois a fase final do seu trabalho numa explosão de cor. Em Paris, no Grand Palais , até 26 de Junho.


 


DIXIT - “A ideia de que o império russo poderá um dia ser democrático e pacífico é uma ilusão. Imaginar os regimes islâmicos como entidades democráticas e respeitadoras dos direitos humanos é miopia. Considerar que o império chinês é democrático é estrabismo mental.” - António Barreto, no Público


 


BACK TO BASICS -  “A Liberdade, quando se perde, está perdida para sempre” - John Adams


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS





março 22, 2026

SOBRE CULTURA E POLÍTICA

Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. Os casos são distintos e o modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita.  Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só,  tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão.  A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam. 

março 21, 2026

RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD

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A primavera não tem dia certo para começar a mostrar-se e muito menos é garantido que a 21 de Março o sol brilhe nos céus e as ruas se encham de flores. Na realidade a primavera tem frequentemente um arranque preguiçoso, talvez por ainda ter as articulações enferrujadas das chuvas e do frio de inverno, demora tempo a instalar-se. Reparem: poucos dias depois do início da primavera começa o mês de Abril e não há-de ser por acaso que um ditado popular português proclama que  "em Abril, águas mil". Assim sendo nunca percebi a ideia de louvar o Abril em Portugal numa canção que correu mundo e tem mais de 200 versões em vários géneros musicais. Originalmente a canção era uma composição do final dos anos 30, de Raul Ferrão, com letra de José Galhardo e chamava-se “Coimbra”. Foi Amália Rodrigues que a popularizou ao interpretá-la no seu primeiro filme, “Capas Negras”, de 1947. “Coimbra” tornou-se uma das canções favoritas de Amália que a integrou no repertório dos seus concertos nos anos 50 para os espectáculos do "Plano Marshall", o plano de apoio dos EUA à Europa do pós-guerra, em que colaboraram os mais importantes artistas de cada país. Num desses concertos, em Dublin, estava a cantora francesa Yvette Giraud que pediu a Amália autorização para fazer uma versão, com nova letra, de Jacques Larue, que se chamou “Avril Au Portugal”. Mais tarde a própria Amália cantou-a em francês e também em inglês na curta metragem “April In Portugal” de Euan Lloyd, filmada em 1955 nas ruas de Alfama. Estava eu a pensar nisto tudo quando por estes dias lá apareceu a chuvinha, à boleia de mais uma malfeitoria atmosférica , que desta vez dá pelo nome de Therèse e promete ir deixando deixar gotas nas janelas. E, ao olhar para estas chuvinhas depois do encharcado Inverno que tivemos, só me lembro de uma outra canção  “Raindrops Keep Fallin’ On my Head”, um original de Burt Bacharach para o filme “Butch Cassidy and the Sundance Kid”. Ou seja, o tempo está uma coboiada.




março 20, 2026

QUAL A CÔR DO TALENTO?

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POLÍTICA & CULTURA - Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. O modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita.  Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só,  tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão.  A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam. 



SEMANADA - Entre 2018 e 2022 29,3% do registo de patentes em Portugal foi feito por mulheres, enquanto  a média europeia é de 13,8%; aos 18 anos 97% dos jovens utilizam redes sociais, 37% utilizam-nas as em média, durante quatro horas ou mais por dia, enquanto 15% as frequentam por períodos iguais ou superiores a seis horas;  segundo o Banco de Portugal  a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a ultrapassar a fasquia dos 1,6 milhões em janeiro; a percentagem de bebés nascidos filhos de mães estrangeiras disparou nos últimos 10 anos, passando de 8,6% em 2015 para 26,2% em 2024;  há cerca de 32 mil partilhas de bens em litígio nos tribunais e notários: depois das tempestade a procura por novos seguros teve aumentos de 20 a 35%; Portugal é o segundo exportador mundial de cannabis medicinal; em 54 municípios a taxa de esforço nos encargos com a habitação é superior a 50%; um terço dos alunos do ensino secundário recorre a explicações que têm um custo estimado de cerca de 120 euros por mês; na freguesia de Leiria mais afectada pelas tempestades apenas duas pessoas, entre as 400 que se candidatram, receberam já apoio.


 


O ARCO DA VELHA - Um mês depois das tempestades, ainda há 34 estradas cortadas, e na ferrovia falta recuperar a circulação em 192 kms na Linha do Oeste e na Linha da Beira Baixa. 


 


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O PLANETA CAOS - É impossível ficar indiferente ao novo trabalho de Luís Campos, que podia ter por título “O Mundo Em Que Vivemos e o Mal Que Lhe Fazemos”. Numa anterior exposição (“Fading”, 2023) Luís Campos abordava a extinção dos animais e a degradação dos ecossistemas. Agora, quase três anos depois, na mesma Galeria, a Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Luís Campos (na imagem) apresenta um vídeo e uma nova série de 15 fotografias que classifica como “uma meditação sobre a frágil permanência da vida e a condição efémera do homem no planeta que o sustenta”. As fotografias desta série “Endscapes”, num preto e branco intenso, foram feitas entre 2011 e 2025 e parte das imagens haviam sido mostradas no Porto, na galeria Fernando Santos. Aqui são acompanhadas por um vídeo, de dez minutos, feito com recurso a Inteligência Artificial, a partir de instruções escritas pelo autor, indicações que formaram imagens que se apresentam numa sucessão de catástrofes e destruições que formam um cenário apocalíptico. No texto de apresentação da exposição Luís Campos cita Robert Sawn, o primeiro homem a alcançar ambos os pólos: “A maior ameaça ao nosso planeta é a crença de que alguém o poderá salvar”.


 


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ROTEIRO - Começo pela exposição “Uma Nova História”, de Luísa Ferreira, na Galeria Sá da Costa (na imagem). A autora revisita, com o auxílio de David Willis, a sua produção dos anos 80 e 90 com fotografias modificadas através de diversas técnicas como pintura, recorte e  colagem, mostrando uma produção bem diferente daquela que Luísa Ferreira foi publicando ao longo dos anos. Na Quadrum Mané Pacheco apresenta “Brama”, uma exposição de formas e esculturas algures entre a fantasia e a geometria, frequentemente sugerindo corpos impossíveis de identificar. Na Biblioteca de Marvila (Rua António Gedeão), até 20 de Abril, pode ser vista a exposição “Augusto Cabrita: O Olhar Encantado” que mostra fotografias inéditas realizadas por Augusto Cabrita na rodagem, em 1965, do filme “As Ilhas Encantadas”, de Carlos Vilardebó, com Amália Rodrigues. 


 


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DESCOBERTA PASCAL - “Jesus e o Império Romano - Como Roma determinou a vida e a morte de Cristo” é uma boa leitura para esta época pascal e o seu autor é James Lacey,  um professor de Estratégia. O livro parte desta tese: no final de 31 D.C., depois de os senadores romanos assassinarem Lúcio Sejano, o confidente mais próximo do imperador romano Tibério, o Império mudou para sempre. O autor defende que se Sejano não tivesse sido assassinado, Jesus nunca teria sido crucificado. O livro mostra o mundo romano em que Jesus viveu, James  Lacey contradiz crenças históricas de longa data, propõe uma outra visão do Novo Testamento e explica como os eventos em Roma impulsionaram os eventos na Judeia. O autor relata um mundo vibrante e rico, no momento em que ainda estão a ser feitos os primeiros contactos com a realidade do poder romano e descreve como Herodes prosperou apaziguando algumas das pessoas mais perigosas da história: Pompeu, Júlio César, Marco António, Cleópatra e Augusto. Edição Bertrand.


 


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OUTROS FADOS - O novo disco de Ricardo Ribeiro, “A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe” vai muito para além do fado, seu território de origem, e explora influências de outras músicas de outros países. Dos onze temas, três têm letra e música de Ricardo Ribeiro e os outros têm assinatura de nomes como Garota Não, Amélia Muge, Agir, mas também de nomes como Dorival Caymmi ou Mayte Martin, esta em “Por La Chica Del Mar”, o tema que encerra o disco e reforça a inspiração ibérica de Ricardo Ribeiro. A produção e arranjos foram maioritariamente de Bernardo Saldanha (que no disco toca guitarras) e Manuel Oliveira (no piano), nomeadamente o tema de abertura, “51”, uma extraordinária canção da Garota Não. Outro tema notável é “Amanhã”, da autoria de Ricardo Ribeiro e onde ele próprio toca guitarra. O trabalho dos arranjos e dos músicos é exemplar, criando espaço para a voz de Ricardo Ribeiro se afirmar sem hesitações. Além dos dois nomes já citados participam Ângelo Ferreira na guitarra portuguesa, Rodrigo Correia no contra-baixo e Alexandre Frazão na bateria, além de Ana Moura que participa num dueto com Ricardo Ribeiro em “Maré, um tema composto e produzido por Agir. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - O MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, assinala um ano de vida nos dias 21 e 22, com entrada gratuita num horário alargado das 10 às 20h00 e um programa diversificado. Há novas obras na exposição permanente e um dos destaques deste aniversário são os painéis de Almada Negreiros para  a Alfaiataria Cunha. O Museu foi visitado por cerca de 80.000 pessoas neste primeiro ano.


 


DIXIT - “O actual impasse político com três partidos com a mesma força não se ultrapassa com boa vontade, mas com a derrota de um deles” - André Abrantes do Amaral, no Observador


 


BACK TO BASICS -  “Não compreendo como há gente com medo de ideias novas; eu tenho é medo de ideias velhas” - John Cage


 


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março 14, 2026

QUE SE PASSA POR DETRÁS DAQUELAS JANELAS?

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Antes de passarmos as noites a ver televisão, ou a adormecer frente a ela, que fazíamos? Muitos passeavam pela rua, observavam o que se passava à sua volta, eventualmente davam uma espreitadela algures. Foi o que me aconteceu, estas janelas iluminadas, convenientemente tapadas, por onde passei uma noite destas, despertaram a minha curiosidade. Que se passará ali?  Espreitar faz parte da natureza humana. Quando olhamos para um quadro ou uma fotografia, espreitamos a imagem que está à nossa frente, ou imaginamos o que ela sugere? Quando vemos a cortina que tapa a janela da casa do vizinho, pensamos no padrão do tecido ou naquilo que ele tapa? Na realidade, a  rua pode ser melhor que um filme. Por falar nisso, foi no ano do meu nascimento, 1954, que Alfred Hitchcock realizou o filme “A Janela Indiscreta”, protagonizado por James Stewart, que desempenhava o papel de um homem temporariamente imobilizado numa cadeira de rodas e que passa o seu tempo, a partir da sua própria janela, a espreitar a casa dos vizinhos, acabando por descobrir um crime. Hitchcock combinou o voyeurismo com a curiosidade e encontrou em James Stewart o actor ideal para dar corpo ao impulso humano de observar a vida alheia sem ser visto. O filme desenrola-se não só em torno daquilo que Stewart espreita, mas também daquilo que ele não vê, mas imagina. Em cada janela do prédio em frente Hitchcock oferece a James Stewart imagens de solidão, de rotina ou de tensão conjugal e deixa tudo o resto à sua imaginação,. Sinto o mesmo muitas vezes quando olho para uma janela alheia. Quem  nunca tiver pecado, que atire a primeira pedra…




março 13, 2026

QUE PODE O PRESIDENTE FAZER NA CULTURA?

 


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SOBRE A CULTURA EM BELÉM - Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro Presidente da República civil que, não oriundo de um partido de esquerda, marcou os dez anos dos seus dois mandatos  com uma atenção especial à cultura, sector em que usou de forma hábil a sua magistratura de influência. Promoveu nos jardins de Belém a Festa do Livro, no Dia Mundial do Teatro enalteceu as artes de palco e defendeu para elas um “financiamento claro e justo”, sublinhando que o teatro “é um sítio de inquietação, de prazer e de espírito comunitário”. Manteve uma relação constante com a Academia Portuguesa de Cinema, fazendo em Belém recepções anuais para os vencedores dos prémios SOPHIA. Promoveu conferências, realizou em Belém ciclos de conversas com criadores das mais diversas áreas, fez do palácio presidencial um local de acolhimento de artistas, das suas ideias e das suas obras. Mais: trouxe  alunos de escolas e deu-lhes oportunidade para falarem cara a cara com escritores, atores, artistas e, claro, o próprio Presidente, sempre parte desses diálogos. Muitas vezes foi, sem protocolos, assistir a concertos como aconteceu recentemente com o dos Capitão Fausto no Pavilhão Atlântico. Visitou sozinho, sem avisar, exposições (como no ano passado em “Atelier” de Pedro Cabrita Reis, na Mitra onde apareceu num fim de semana sem ninguém o esperar). Condecorou muitos nomes das mais diversas áreas da cultura e do espectáculo e o seu último destes gestos foi para com António Lobo Antunes: em 2022 já lhe tinha atribuído a Grã-Cruz da Ordem de Camões e no funeral, depositou junto do escritor o grande colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa. Nos últimos dias do seu mandato soube-se que tinha escolhido Vhils, aliás Alexandre Farto, para lhe fazer o retrato oficial, naquilo que considerou “a ideia mais louca em 10 anos de mandato”. Com Marcelo, a Presidência foi um porto seguro para a cultura portuguesa. Agora, em Belém, já está o novo Presidente, António José Seguro, que continuará a viver nas Caldas da Rainha, berço do Zé Povinho. Os meus votos vão para que o novo Presidente mantenha os bons hábitos que Belém ganhou e que aproveite o sentido crítico de Bordalo Pinheiro a olhar para o país. E que não se esqueça que a política cultural, tão sujeita a malfeitorias, também precisa do escrutínio, atenção e magistratura de influência do Presidente da República.



SEMANADA -  Segundo a Deco Proteste, o bacalhau teve um aumento de 63% em quatro anos e o preço por quilo passou nesse espaço de tempo de 10,60 para os 17,28 euros; ainda segundo a Deco Proteste o custo do cabaz alimentar, com 63 produtos considerados essenciais,  já aumentou desde o início do ano 9,64 euros e face a março do ano passado, subiu 13,76 euros; na região da Bairrada são assados 3000 leitões por dia, o que significa cerca de 1,3 milhões por ano, num negócio que movimenta anualmente em toda a região cerca de 260 milhões de euros; o valor das exportações portuguesas de frutas, legumes e flores em 2025 foi de 2,6 milhões de euros, um novo recorde; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; os 37 novos gestores públicos das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional vão custar, durante o mandato de quatro anos, quase 17 milhões de euros em salários e despesas de representação; entre 22 e 24 mais de cinco mil doentes referenciados para cuidados paliativos não encontraram vaga no SNS; a livraria Lello, no Porto, recebe diariamente 3500 visitantes; nos últimos dois anos mais de 40 mil casas já licenciadas ficaram por construir; nos últimos dez anos a PSP registou mais de 2600 desaparecimentos de idosos, dos quais 140 continuam por encontrar; só no último ano registaram-se 241 casos, cerca de 20 desaparecimentos por mês; no ano passado registaram-se 531 acidentes com trotinetes, que provocaram, além de mais de quatro centenas de feridos ligeiros, 20 feridos graves e um morto.


 


O ARCO DA VELHA -  Seis meses após a tragédia do elevador da Glória ainda não se sabe exactamente o que correu mal, a Carris continua a fazer um inquérito interno e o relatório de peritos continua sem estar concluído.


 


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DEPOIS DE PARA SEMPRE - O Pavilhão Julião Sarmento, na Avenida da Índia, acolhe a colecção pessoal de Julião Sarmento (1948-2021), tem uma programação multidisciplinar em que se cruzam linguagens das artes plásticas, do cinema ou da performance, entre outras, desenhada pela directora, Isabel Carlos, e guiada pelas palavras de Sarmento: “Uma obra de arte deve sobretudo interrogar mais do que fazer afirmações.” Vale a pena conhecer este Pavilhão onde, além da exposição inaugural, “TAKE 1”,  que apresenta uma seleção de obras da coleção de Julião Sarmento e tem como referência a acção cinematográfica, foi inaugurada na semana passada “Depois de Para Sempre”, que reúne 33 obras e coloca em diálogo Fernando Calhau (1948-2002) e Rui Chafes, dois dos artistas mais representados nessa colecção. O título é tirado  de um trabalho de Rui Chafes, a exposição ficará patente até 14 de Junho e  foca-se sobretudo nas obras de Calhau (na imagem), acompanhando o seu percurso artístico, desde o início num registo pop e figurativo, até ao conceptualismo e ao minimalismo que se tornaram a sua marca. 


 


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ROTEIRO - Um dos destaques desta semana vai para  a exposição “Turn Around: um, olhar sobre a colecção de Arte da Fundação EDP”, que está no MAAT até final de Janeiro do próximo ano. A colecção tem 2500 obras de 340 artistas e esta exposição decorre em dois momentos complementares - o primeiro já pode ser visitado e o segundo abre ao público a 29 de abril. Em conjunto, são uma das maiores apresentações públicas da Coleção de Arte da Fundação EDP até à data, apresentando 100 obras. A curadoria é de João Pinharanda, Margarida Chantre e Sérgio Mah. O outro é para a exposição “Olá Vasco Granja”, que está na Sociedade Nacional de Belas Artes até 4 de Abril, numa parceria com o MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa (na imagem). Vasco Granja foi o grande divulgador do cinema de animação em Portugal e marcou gerações através do seu programa na RTP. Mais do que apresentar “desenhos animados”, foi um pedagogo divulgando as vanguardas canadianas, a produção da Europa de Leste e os clássicos norte-americanos. A exposição reúne um conjunto significativo do seu espólio pessoal, resultado de amizades e encontros com nomes maiores da animação. No Mercado da Ribeira, Fernando Negreira apresenta uma série de fotografias, impressas em telões pendurados do tecto, sob o título “Dois Temas, Um Olhar”, com fotografias dos mercados e profissões de Lisboa nos anos 70 e 80, numa iniciativa do colectivo CC11.


 


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UM CLÁSSICO NA MESA DE CABECEIRA - Começou agora a ser editada pela Quetzal uma nova colecção intitulada A Biblioteca de Alexandria, que evoca a grande biblioteca fundada no século III a.c. com o objectivo de preservar o conhecimento, o saber e a literatura. O primeiro livro desta nova colecção é um clássico:  “A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades”, originalmente publicado no ano de 1554, por autor anónimo, numa tradução de Margarida Amado Acosta. Esta obra  é considerada como o primeiro romance moderno em língua espanhola e conta uma história de engenho, fome e sobrevivência. O protagonista é Lázaro, um menino pobre que, levado pela necessidade, serve vários senhores e aprende a sobreviver numa sociedade dura e hipócrita. Com humor e ironia o livro é uma crítica aos valores da sua época e um retrato da alma humana. Ao longo de mais de quatro séculos, este romance fascinou leitores e escritores e terá inspirado obras como o “Dom Quixote”, de Cervantes. O narrador é um malandro e tudo é gente comum, pobre ou remediada, falsa e vingativa, mentirosa e com maus instintos. O livro conta como  Lazarillo entrou na marginalidade desde cedo, para sobreviver à  miséria numa Espanha degradada do ponto de vista económico, social e moral. O segundo livro desta colecção é outro clássico: “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, originalmente publicado em Inglaterra em 1719. Edições Quetzal.


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JAZZ COM VIOLONCELO  - Não é muito frequente ser uma violoncelista a liderar um quarteto de jazz. Mas é isso que acontece com Tomeka Reid, que acabou de lançar o seu quarto disco, acompanhada pela guitarrista Mary Halvorson, o baixista Jason Roebke e o baterista Tomas FujiWara. “​​Tomeka Reid: Dance! Skip! Hop!” inclui cinco temas inéditos e o Guardian não hesitou em classificá-lo como um candidato sério a disco de jazz deste ano. São quase 50 minutos de música que percorre vários géneros, desde sonoridades do be-bop logo na faixa título, ao swing bem ritmado, passando ao jazz latino ou apontamentos do hip hop. Desde o início percebe-se o papel do violoncelo na gravação, que ganha relevo nos diálogos entre a guitarra e o violoncelo como em “A(ways)” ,  “OoLong!” ou “Under the Aurora Sky”. A última faixa “Silver Spring Fig Tree”, deixa no ar uma melodia que se envolve com o trabalho marcante do baterista. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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AGENDA DE INAUGURAÇÕES - Não há mãos a medir, o fim de semana está cheio de inaugurações de exposições. Na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F),  Luís Campos apresenta a partir das 17h00 a sua nova exposição de fotografia, “Endscape” que retrata paisagens desabitadas em que a natureza viva se tornou vestígio (na imagem). No sábado recomenda-se uma ida pelas 17h00 à Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101), onde será feita uma visita guiada à exposição 0.2=40, com Manuel Sampayo, Álvaro Rosendo e Beatriz Lamego. A exposição evoca o 40º aniversário da Monumental e homenageia os fundadores do projecto. Na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato) Carolina Lino apresenta no espaço Triângulo  trabalhos em fotografia sob o título “Rosto Mão Coração” e Nim Teresa Castanheira apresenta no espaço quadrado “Matrizes” , trabalhos em gravura e técnica mista.



DIXIT - “ O ambiente de crise reside na falta de maioria parlamentar e na aparência de eleições permanentes. Traduz-se na impressão de que a democracia é inútil. Mora nos agentes políticos, nos três principais partidos e nos seus dirigentes, nos deputados e nos governantes.” - António Barreto


 


BACK TO BASICS -  É através dos outros que vou alcançar a minha felicidade. Não posso fazê-lo sózinho” - Nuno Morais Sarmento.


 


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março 07, 2026

A FEIRA DAS RECORDAÇÕES

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Vou a andar e vejo estas bonecas no meio do chão. Estão assim, meio recostadas em degraus, cada uma de sua maneira, Explico já como elas me apareceram:  estou a passear numa praça que acolhe uma feira de velharias, todos os meses, no segundo domingo de cada mês. Passo por lá de vez em quando, passeando-me entre as bancadas dos feirantes, mesmo sabendo que o mais certo é não ter grandes surpresas no que posso encontrar. É um universo onde rádios antigos, que o mais certo é não funcionarem, coexistem com louças desemparelhadas, peças de mobílias sem época determinada ou relógios que têm o tempo parado. É um mundo de objectos que já tiveram uma vida e que, de repente, foram rejeitados, esquecidos, deixaram de fazer sentido para quem os teve. Dizem que são feiras de velharias, mas para mim são feiras de recordações, restos de momentos de vidas que ficaram para trás. Nas bancas dos vendedores estão testemunhos de vidas que nunca se cruzaram e que agora estão lado a lado à procura de alguém que lhes queira pegar. Vêm de casas diferentes, ninguém sabe de onde e ainda menos como ali chegaram. O mais certo é serem o resultado de casas que se esvaziam porque a lei da vida lhes ditou um fim e quem ficou desfez-se delas. Olho à volta e penso naquilo que guardamos e  nas coisas de que nos desfazemos e que depois acabam assim, longe da vida que tiveram. Vejam bem estas bonecas, de pano, de cores ainda vivas. Seriam da mesma criança? Quem brincava com elas? Que histórias e fantasias protagonizaram? Que segredos guardam? Fico a pensar nisto tudo enquanto vou deixando a feira - mas olho para trás para as espreitar uma última vez e parece que o boneco do barrete verde ficou a sorrir.






março 06, 2026

O NOVO AUDIOVISUAL

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CINEMA PARAÍSO - Aconteceu aos filmes o que já tinha acontecido à imprensa. Da mesma forma que o digital foi canibalizando o papel, o streaming está a dar cabo dos ecrãs de cinema clássicos. Segundo a Marktest mais de 4,6 milhões de portugueses utilizam plataformas de streaming e 41,7% dos subscritores usam-nas todos ou quase todos os dias. 43,1% são assinantes e os restantes são consumidores dentro do mesmo agregado ou pacote. É praticamente meio país a ver streaming. Qual é o outro lado desta realidade?  Segundo os dados mais recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual Portugal contava em Janeiro com 450 salas de cinema, menos 112 face a 2025. Há agora cinco capitais de distrito sem exibição comercial regular de cinema: Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Dados recentes indicam que os serviços de streaming mais vistos em Portugal são a Netflix com 23% do mercado, a Prime Video com 22%, a Diney + com 18%, a Max com 13%, a SKY Showtime com 8%, a Apple com 7% e a Filmin com 2%. O YouTube, a mais poderosa plataforma audiovisual, do universo Google, tem já mais de 7,5 milhões de utilizadores em Portugal. Estes números mostram como mudou de forma drástica o consumo do audiovisual, impulsionado pela tecnologia. Os aparelhos de televisão de grande dimensão surgem a preços mais acessíveis, o aumento da penetração da fibra óptica cobre já 95% dos alojamentos e estabelecimentos comerciais, permitindo uma melhor experiência quer nos canais de cabo, quer no streaming. A verdade é que o streaming digital está a provocar o encerramento de salas de cinema e não se vê como alterar a situação. Até a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou que vai deixar de fazer visionamentos para os filmes nomeados para os Óscares em salas de cinema, remetendo os seus membros para o visionamento em streaming.  “Cinema Paraíso”, o filme que contava o encanto de descobrir as imagens em movimento numa sala escura, está a ficar uma memória cada vez mais distante.


 


SEMANADA - As tempestades de fevereiro danificaram 237 mil casas, metade das quais sem seguro; a “Kristin” provocou estragos em mais de 60% das casas de Leiria e Marinha Grande; o número de pedidos de apoio para reconstruir casas devido ao mau tempo já é de 20 mil, com um custo de 100 milhões de euros; a “Kristin” também provocou danos no Estabelecimento Prisional de Lisboa onde chove dentro de celas, a maioria das quais “estão podres”, segundo a Ordem dos Advogados; mais de metade dos trabalhadores da agricultura já são estrangeiros; há 400 mil brasileiros a descontar para a segurança social, seguidos de 85 mil indianos, 67 mil angolanos, 59 mil cabo-verdianos e 51.000 do Bangladesh; há 516 mil pedidos de nacionalidade pendentes; 73,5% das chamadas efetuadas para o 112 em 2025 foram consideradas indevidas; em fevereiro a taxa de inflação aumentou para 2,1%  pressionada pelo preço dos alimentos que voltou a subir em relação ao mês anterior; as doenças do aparelho respiratório e o cancro foram responsáveis por metade dos 120.000 óbitos verificados em 2024; mais de 19 mil pessoas fizeram cirurgias da obesidade no SNS nos últimos cinco anos.



O ARCO DA VELHA -  Mais de um terço dos 278 municípios do Continente têm os planos de emergência desactualizados, há mais de 100 Planos Municipais de Emergência de Proteção Civil que já deviam ter sido revistos e alguns nem constam do  Sistema de Informação de Planeamento de Emergência da Protecção Civil.


 


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O DESENHO E A NATUREZA - Na Galeria Appleton Cristina Ataíde apresenta até 2 de Abril "Espaço Intermédio", um conjunto de 17 novos trabalhos, oito dos quais são desenhos de grandes dimensões sobre papel, com recurso a pigmento, carvão, guache e borracha e os outros nove são esculturas em madeira. Estas esculturas foram feitas, a partir de fragmentos de árvores derrubadas pela intempérie na Tapada da Ajuda, onde a artista  tem atelier. Os desenhos estão junto às paredes e as peças de madeira, trabalhadas pela artista, mantendo marcas da erosão natural, estão no centro da sala, no chão. A intervenção de Cristina Ataíde nos segmentos dos cedros criou formas elípticas, que se ligam aos desenhos da parede. No texto que escreveu para esta exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues sublinha o aproveitamento das árvores caídas, com os orifícios criados por organismos que consumiram a madeira e  “sulcos que não foram desenhados pela artista, mas sim pela vontade do tempo”. E observa: “a superfície (da madeira) é progressivamente lixada, salientando o desenho dos veios, dos anéis de crescimento e das particularidades do seu desenvolvimento” e o resultado final são obras que “actuam como mapas que cartografam o crescimento da espécie, mas também o seu perecimento interior”. (Rua Acácio Paiva 27)


 


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ROTEIRO - No Espaço Projecto do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian Bruno Zhu criou uma instalação, intitulada “Belas Artes”, através de um cenário propositadamente labiríntico onde apresenta até 27 de Julho obras da colecção do CAM de nomes como Almada Negreiros (na imagem),  Sérgio Pombo, Eduardo Luiz, António Pedro, Vítor Fortes, Emília Nadal, além de um conjunto de bustos em bronze e gesso de Yvone Mortier, José Dias Coelho, Júlio Vaz, Gil Teixeira Lopes e Francisco Franco. Segundo a Fundação, a instalação é uma reflexão do artista “sobre colecionismo, formas de expor e o papel dos museus enquanto agentes de produção de valor artístico”. A fundação indica ainda que Bruno Zhu tem uma obra “influenciada pelo design de moda, pela edição e pela cenografia”, sublinhando que ela “confronta discursos de poder inerentes à prática museológica, através da sua marcante abordagem conceptual”. Em Lisboa, na Galeria Monitor (rua da Páscoa 91), Helena Lapas apresenta novos trabalhos que, partindo da sua experiência em tapeçarias mostram formas escultóricas em técnica mista. E a Galeria Jahn und Jahn, (Rua de São Bernardo 15) apresenta  até 14 de Março “Notas de Rodapé”, uma exposição colectiva com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas com obras de  António Júlio Duarte , Carlos Noronha Feio, Catarina Dias, Jorge Queiroz, Julius Heinemann, Navid Nuur, Raphaela Melsohn e Sara Bichão


 


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UMA HISTÓRIA DO CRIME - "Vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar" é uma das frases mais célebres da história do cinema, dita por Don Vito Corleone (interpretado por Marlon Brando) no filme “O Padrinho”, de 1992. A Máfia é sempre um tema delicado, quer seja em investigações jornalísticas, em livros ou no cinema e televisão. Vem isto a propósito de um livro acabado de editar,  “Máfia, Uma História Global”, de Ryan Ginjeras. O autor enquadra o crescimento e proliferação das grandes organizações criminosas  e investigou ao longo de dez anos organizações como La Cosa Nostra italiana, o Cartel de Medellín colombiano, as Cinco Famílias de Nova Iorque, a Yakuza japonesa ou a Vory russa. Ryan Ginjeiras mostra como estas organizações marginais acompanham as sofisticações tecnológicas e como criaram sobreposições entre crime organizado, corporações empresariais e lideranças políticas, mostrando a enorme influência nas sociedade actuais da sua actividade criminosa. O livro faz-nos conhecer melhor o papel de figuras como Al Capone, Pablo Escobar, El Chapo, Du Yuesheng ou Dawood Ibrahim. Ryan Gingeras é professor no Departamento de Segurança Nacional da Universidade Naval da Califórnia e são dele estas palavras, já no fim do livro: “Trazer as máfias à luz pode ser doloroso, porém num tempo em que mais pessoas são levadas a acreditar na existência de estados-sombra e outras conspirações, o bem que isso poderia fazer seria em si uma recompensa”.   Edição Casa das Letras


 


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MESA DE CABECEIRA - Hoje proponho dois livros que nos permitem perceber melhor a História recente nestes conturbados tempos.  O primeiro é “Vizinhos Distantes - uma breve história das relações entre a China e a Rússia", de Soren Urbansky e Martin Wagner, uma edição da Temas & Debates. Os autores apresentam-nos os quatrocentos anos de história destes dois vizinhos: dos primeiros contactos oficiais em 1618, passando pelos desentendimentos entre Krutchev e Mao, até à reacção da China quando a Rússia operou a sua invasão à Ucrânia, em 2022. O outro livro é “Portugal e o Ocidente”, de Tom Gallagher, um historiador britânico especializado em Europa Moderna e que já havia escrito em 1983 “Portugal - A Twentieth Century  Interpretation”. Este novo livro analisa o papel de Portugal durante o período que vai de 1890 até 1975, quando os conflitos ideológicos e os realinhamentos geopolíticos reformularam a ordem global. É uma obra que vai provocar polémica nomeadamente sobre como Portugal encarou a questão colonial, antes e depois do 25 de Abril, “o golpe de Estado de 1974, que acabou com o regime autoritário e deu origem a uma retirada caótica de África, reduzindo a influência de Portugal a nível internacional.” Edição D. Quixote


 


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AO SOM DO ACORDEÃO - Quando Gabriel Gomes aparecia em palco com o seu acordeão, com a Sétima Legião, muita gente ficava espantada com a inclusão de um instrumento tão popular e tradicional numa banda de referência da música portuguesa dos anos 80. E a verdade é que a sonoridade do acordeão se tornou uma das imagens de marca do grupo. Mais tarde Gabriela Gomes tocou também com Madredeus, Os Poetas, Fandango e em concertos ao lado de nomes como Tim, Jorge Palma e Rodrigo Leão. Só agora Gabriel Gomes decidiu gravar um álbum a solo, “Uma História Assim”, produzido por ele próprio, em parceria com Rodrigo Leão e João Eleutério. É um trabalho exclusivamente instrumental, quase integralmente gravado a solo, com a excepção do tema título, onde Rodrigo Leão toca piano. Ao todo são 10 composições originais para acordeão do próprio Gabriel Gomes. Destaco “O Roubo”, “Uma História Assim”, “Retorno”, “Rumo” e o tema final, “Chorinho”. O trabalho de Gabriel Gomes mostra a riqueza do acordeão e sua vida além de banda sonora de festas populares.  (Disponível nas plataformas de streaming).


 


ALMANAQUE - O Nederlands Fotomuseum, em Roterdão abriu a 7 de fevereiro e acolhe uma das maiores colecções de fotografia de todo o mundo, desde retratos e imagens de alguns dos grandes nomes da fotografia a fotos históricas de autores anónimos.


 


DIXIT - “Esta é a altura de estar silencioso e de deixar a quem vai entrar o papel decisivo” - Marcelo Rebelo de Sousa.


 


BACK TO BASICS -   “Viver é decidir constantemente o que vamos ser” - Ortega Y Gasset.



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fevereiro 28, 2026

UM TEMPERO PATRIÓTICO

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Já imaginaram o que seria da culinária nacional sem o alho? Imaginem umas amêijoas à Bulhão Pato sem alho. Ou um bife à portuguesa que não conte com ele. Ou a maravilhosa sopa de beldroegas, que na sua ausência fica deslavada. E já nem falo do bacalhau seu fidelíssimo companheiro por esse país fora, como Quim Barreiros não se cansa de proclamar - mostrando aliás de forma exemplar a musicalidade do alho. Maria de Lourdes Modesto, a grande senhora da gastronomia portuguesa, explicava de forma cristalina a importância do alho na cozinha do seu Alentejo natal e a sua receita de açorda é prova da importância que ela lhe atribuía. Mas, afinal o que é o alho? Segundo a Wikipedia, “o alho, de seu nome original Allium sativum, é um bolbo comestível da família Amaryllidaceae, amplamente usado na culinária mundial como tempero e conhecido pelas suas propriedades medicinais. Originário da Ásia Central, é valorizado pelo seu forte aroma, sabor intenso e composto activo alicina, que oferece benefícios antioxidantes e antibacterianos”. A sua utilização pode ser feita de muitas maneiras - esmagado, picado, laminado, moído em pó ou com os gomos inteiros a soltar aroma. Digo gomos, mas há quem lhes chame dentes - e há mesmo quem o morda por puro prazer gustativo. Claro que também há quem não suporte o seu aroma ou o seu odor e existe um certo consenso em evitar beijos aprofundados em que o sabor dominante seja o do alho. Guardemo-lo para outros temperos, eventualmente na companhia dos seus fiéis parceiros que o acompanham em tantas receitas  - os coentros e as folhas de louro. Miguel Esteves Cardoso, numa das suas incursões gastronómicas, defendia a qualidade do alho nacional e desancava os alhos importados, que chegam ressequidos e que são os que abundam nos supermercados. Já o alho nacional, viçoso, é figura sempre orgulhosamente presente nos melhores mercados deste país. O sensaborão alho importado é mais barato, mas este é daqueles casos em que vale a pena recordar o velho slogan: o que é nacional, é bom.





fevereiro 27, 2026

INDICADORES QUE DÃO QUE PENSAR

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O PAíS EM NÚMEROS - A Pordata, uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos, recolhe, analisa e divulga indicadores fundamentais sobre o que se passa no país, a nível das autarquias, do Governo ou de diversas instituições. É um inestimável serviço público que ajuda a perceber melhor a situação em que estamos. Por exemplo: em 1960 éramos 8,9 milhões e em 2024  atingimos os 10,7 milhões a viver em Portugal. Em 1981 o país tinha 2,5 milhões de jovens e agora tem só cerca de 1,4 milhões. Em 1960 existiam 437 salas de cinema que foram frequentadas por 26,5 milhões de espectadores, enquanto em 2024 o número caíu para 204 salas de cinema que acolheram cerca de 12 milhões de espectadores. Em sentido contrário, na assistência a espectáculos, houve uma enorme evolução: em 1960 foram 1,84 milhões de pessoas que assistiram a espectáculos ao vivo e em 2024 o número pulou astronomicamente para 85,5 milhões - e os muitos festivais que decorrem em todo o país são os grandes responsáveis por este aumento. Em 1960 havia 7 mil médicos, hoje há 64 mil, em 1960 havia 9,5 mil enfermeiros e hoje existem 85,5 mil. Em 1960 a taxa de mortalidade infantil era de 77,5% e hoje em dia é de 3% Em 1960 havia 2000 advogados, hoje há 39.000 mas o número de processos pendentes nos tribunais duplicou no mesmo período. Em 1960 os casamentos não católicos representavam 9,2% do total, hoje representam 80%. Em 1960 existiam 63 mil pensionistas da Caixa Geral de Aposentações, agora há 662 mil. Ainda segundo a Pordata, Portugal está longe de ser o país com a maior percentagem de estrangeiros na população residente: com 9,6%, Portugal encontra-se em 12.º lugar, longe do Luxemburgo, onde cerca de 47,3% dos residentes são estrangeiros, a taxa mais elevada a nível da UE. Mas Portugal é o segundo país mais envelhecido da UE, apenas ultrapassado pela Itália: há 53 jovens por cada 100 idosos. Portugal é também o país da UE onde a população ativa é menos escolarizada. Quatro em cada 10 pessoas não têm ensino secundário em Portugal, muito acima de países como a Polónia ou a Lituânia, onde apenas uma pessoa em cada 10 não concluíu esse grau de ensino.  Os números na sua crueza são um retrato do país que temos e do muito que ainda há a fazer.


 


SEMANADA - A carga fiscal dos residentes em Portugal voltou a agravar-se em 2025 e em média, cada português pagou 6728,73 euros em impostos no último ano, mais 352 euros do que em 2024 e mais 2310 euros face a 2016; as contribuições de emigrantes para a segurança social subiram 8,5 vezes em 11 anos; e no ano passado foram 4162 milhões; o ritmo de crescimento das receitas do turismo em 2025 foi o mais baixo desde a pandemia; um em cada dez novos alunos de licenciaturas interrompe os estudos ao fim de um ano e nos cursos técnicos essa percentagem sobe para 28%; desde o início de 2025 as autoridades registaram 19 denúncias de tentativa de violação por motoristas de TVDE’s; um estudo feito pela Universidade Católica do resultado das presidenciais indica que 65% dos votantes de Cotrim e 89% dos de Mendes votaram Seguro na segunda volta;  desde as mais recentes autárquicas, em 2025, o Chega já perdeu sete vereadores que se desvincularam do partido; o número de pessoas em tratamento devido a dependência de drogas e de álcool atingiu  o valor mais alto desde 2015; um estudo recente indica que 62% dos portugueses utilizam ferramentas de inteligência artificial e generativa, número que compara com a média europeia que é de 52%.


 


O ARCO DA VELHA - O Governo fez um ajuste directo para “aquisição de serviços de maquilhagem e cabeleireiro para os membros dos gabinetes ministeriais nas conferências de imprensa” que tem um custo anual de 11.520 euros, e que tem por objetivo  “garantir a qualidade da imagem” de ministros e secretários de Estado.


 


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NOVIDADES NO MAC - “May I Help You? Posso Ajudar?” é o título da nova exposição do MAC/CCB que apresenta obras de 90 artistas portugueses e estrangeiros da década de 70 em diante. As obras pertencem às coleções em depósito no MAC/CCB (Berardo, Coleção de Arte Contemporânea do Estado, Holma/ Ellipse e Teixeira de Freitas), contando também com novas encomendas a artistas portugueses e ainda empréstimos de diversas entidades. Um eixo emblemático é “March” uma obra da dupla britânica Gilbert & George carregada de ironia - um grande painel em que os artistas se representam como operários da arte contemporânea (na imagem). Com curadoria de Nuria Enguita e Marta Mestre, a  exposição está dividida em três eixos: Produções, Mudanças e Tramas. Na exposição são apresentadas obras de, entre outros, Gilbert & George, Ana Jotta, Gabriel Abrantes, Bruno Zhu, Donald Judd, Sol LeWitt, Bernd e Hilla Becher, Allan Sekula, Doris Salcedo, Franz West, Jeff Koons, João Marçal, Gabriel Orozco, Carla Filipe, Alberto Carneiro, Taysir Batniji, David Hammons, João Marçal, Matt Mullican, Júlia Ventura, Daniel Buren, Silvestre Pestana, Agnes Martin, Irma Blank, Claude Viallat, Sara Bichão, Wolfgang Tillmans, Louise Lawler ou Joseph Kosuth.


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A partir de agora o MAC/CCB fica com duas exposições permanentes, a Deriva Atlântica, mais focada na arte moderna e esta May I Help You? complementando a abordagem à arte contemporânea. No dia da inauguração a pouco informada Ministra, que estava presente, foi confontada pela presença em grande número dos visitantes do autocolante "Ellipse 100% em Belém", numa referência à decisão de levar essa colecção para um depósito em Alcabideche.


 


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ROTEIROEm Serralves a exposição “Afinidades Eletivas” apresenta até ao início do próximo ano 24 pinturas, desenhos, colagens, esculturas e obras têxteis de Juan Miró das décadas de 60 e 70 do século passado , em paralelo com 53 obras de artistas de várias nacionalidades como Helena Almeida, Michael Biberstein, Robert Morris (na imagem), Pedro Calapez, Luisa Cunha, António Júlio Duarte, Josep Guinovart, Ana Hatherly, Asger Jorn, Anselm Kiefer, Jannis Kounellis, Graça Pereira Coutinho, Júlio Pomar, Dieter Roth, Julião Sarmento, Thomas Schütte, António Sena, Ângelo de Sousa, ou Antoni Tàpies entre outros. A exposição é organizada pela Fundação de Serralves e tem a curadoria de Robert Lubar Messeri. E a feira de arte contemporânea ARCO Madrid decorre de 4 a 8 de Março com 206 galerias de 36 países que apresentam obras de cerca de 1300 artistas. Há 13 galerias portuguesas representadas.


 


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UM LIVRO IMPERDÍVEL- Se tem fascínio pelo Oriente, em particular pelo Japão, não pode perder “Diários de Viagem e alguns poemas em prosa”, de Matsuo Bashô, escritos no século XVII. Matsuo Bashô foi um samurai errante, um “rònin”, para usar o termo original, que após a morte do seu mestre decidiu dedicar o resto da vida à poesia. Vagueou e mendigou pelo japão do século XVII descrevendo as suas viagens em diários, onde os poemas apareciam ao lado da descrição da natureza, amigos ou episódios circunstanciais. Estes escritos foram agora traduzidos pela primeira vez para português, de forma integral pela mão de Jorge Sousa Braga. O livro inclui ainda, para além de uma seleção de poemas em prosa, os mapas marcando o percurso trilhado pelo grande mestre japonês. Poeta e viajante, Matsuo Bashô nasceu em 1644 e morreu a 28 de novembro de 1694 e é  considerado o poeta nacional do Japão. O livro inclui seis diários de viagem e três poemas em prosa, entre eles um delicioso “A Moradia Irreal”, escrito em 1690, em que o autor conta como, após ter viajado pelo norte do Japão, se afastou da cidade e agora contempla paisagens a partir de uma modesta cabana de colmo “Casa da montanha, descanso do viajante - chamem-lhe o que quiserem, não é lugar para armazenar muitas coisas. Um chapéu de casca de cipreste de Kiso, uma capa para a chuva de junco de Koshi - é tudo o que está pendurado por cima do meu travesseiro”. Delicioso. Edição Assirio& Alvim.


 


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MESA DE CABECEIRA - Em “Uma Breve História do Universo” a cientista, Sarah Alam Malik leva-nos conhecer as grandes descobertas sobre o mundo que nos rodeia, de Aristóteles a Isaac Newton, passando por Copérnico. Como a autora afirma, “somos contadores de histórias em busca da maior história de todas, ainda que nela figuremos numa mera nota de rodapé. A nossa exploração do universo não consiste apenas num empreedimento científico de vanguarda, mas também na aventura espiritual de uma espécie repleta de questões impossíveis”(edição Casa das Letras). Outro livro em destaque é “O Que É A Filosofia”, baseado numa série de palestras que José Ortega Y Gasset proferiu no final dos anos 20 do século passado e que foi pela primeira vez editado em livro em 1957, já depois da morte do autor. Considerado o maior filósofo espanhol do século XX, Ortega Y Gasset foi também jornalista, político e ensaísta. As 11 lições agrupadas nesta obra tratam da articulação da história com a filosofia, do pragmatismo, da relação entre ciência e filosofia, dos dados do universo e da ligação de tudo isto com a religião. (edição Bertrand).


 


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CANÇÕES DE PROTESTO - De repente, após anos de ausência de novo material, os U2 apresentam um EP com seis temas, muito marcados pela situação política global. Tal como Bruce Springsteen fez ao retomar recentemente a tradição das canções de protesto com o seu “Streets Of Minneapolis”, os U2 incluem em “Days Of Ashes” três temas que abordam mortes recentes, em conflitos e acções de protesto evocando as mortes da iraniana Sarina Esmailzadeh, do palestiniano Awad Hathaleen e da norte-americana Renee Nicole Good. “American Obituary”, a canção sobre os incidentes em Minneapolis, é dos temas mais duros e contundentes dos U2, onde a guitarra de Edge surge quase como uma arma de arremesso, com Bono a cantar “America will rise against the people of the lie … the power of the people is so much stronger than the people in power” . Noutro tema, “The Tears Of Things” Bono atira ao fundamentalismo religioso: “When people go around talking to God it always ends in tears.” O tema final , “Yours Eternally” conta com a colaboração de Ed Sheeran e Taras Topologia. Disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - O museu londrino Victoria & Albert adquiriu o primeiro vídeo carregado no YouTube, intitulado "Me at the zoo", publicado a 23 de abril de 2005 pelo cofundador do YouTube, Jawed Karim e esse vídeo está agora em exibição na galeria “Design 1900–Now”, apresentada juntamente com uma reconstrução gráfica de uma página de YouTube dessa época.


 


DIXIT - “Para milhões de pessoas, Zelensky é o que vêem de mais próximo da figura de um herói contemporâneo, num mundo à míngua de heróis.” - Teresa de Sousa, no Público, sobre os quatro anos da invasão da Ucrânia pela Rússia.



BACK TO BASICS -  “Toda a gente quer mudar o mundo, mas muito poucos pensam em mudar o seu próprio comportamento” - Lev Tolstoi


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fevereiro 21, 2026

E OS PAUZINHOS DO CARACOL?

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Estávamos nós num curto intervalo entre as chuvas  e ventanias da última semana quando, numa manhã não especialmente solarenga, ao chegar junto do carro, deparei no seu tejadilho com este caracol, de antenas de fora como se estivéssemos no verão. Esclareço desde já que não me tinha posto a cantar "caracol, caracol, põe os pauzinhos ao sol", essa melodia que mostra o desejo de ver este molusco gastrópode, primo das lesmas,  a sair da concha. Como poderão constatar  o exemplar em causa era um animal valente, destemido, com os corninhos bem para fora, embora não ao sol, que por sinal não se vislumbrava. Aprofundando  um pouco o meu conhecimento sobre esta espécie animal, percebi que  o sol forte pode ser prejudicial ao caracol, preferindo ele a humidade logo após a chuva. Portanto o meu estimado caracol passeava-se no tejadilho ainda com salpicos de chuva como se estivesse num spa. Está-se sempre a aprender, é o que é. Enchi-me de cuidados, retirei-o de onde estava e fui delicadamente pousá-lo na relva húmida ali bem perto. O tamanho era demasiado grande para o meu gosto gastronómico, mas esta singela descoberta fez-me evidentemente pensar num pratinho de caracóis bem acompanhado por uma imperial, esse sinal incontornável dos dias de um Verão, que ainda parece distante. Enquanto não vem esse tempo a alternativa é contentar-me com uns tremoços - e aproveito para denunciar o facto de que são cada vez mais raros os sítios onde os tremoços aparecem automaticamente ao lado da imperial. Sinal dos tempos, a compressão de custos chegou ao tremoço. A ver vamos a que preço estará o prato de caracóis este ano.




fevereiro 20, 2026

UM PAÍS DE PAPELÃO

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OS DADOS ESTÃO LANÇADOS - Existe um velho ditado português que descreve bem a situação que estamos a  viver: “depois de casa roubada, trancas à porta”. Aos poucos vão-se sabendo razões sobre o que aconteceu. Para além da imprevisibilidade dos elementos da natureza e a descoordenação na resposta, há questões que têm a ver com o desprezo pelo ordenamento do território e a falta de atenção que se tem  verificado: desde falta de vistoria e manutenção de infraestruturas em zonas problemáticas, até planos para novas obras estruturais que não têm em conta as condições do solo e dos locais, há de tudo e a síntese é esta: desleixo e incompetência do Estado. No rol de desgraças a que assistimos uma coisa salta à vista - foi a nível autárquico que se verificou maior empenho na resolução das situações mais graves e foi a nível do governo que se assistiu à maior desorganização. O Governo tem a responsabilidade de rever como, no futuro, deve ser coordenada a resposta a catástrofes e avaliar futuras obras públicas. Aquilo que sabemos fez-me lembrar como o saudoso arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles alertava contra o crescimento desordenado, os perigos da construção em linhas de água e os seus efeitos na impermeabilização dos terrenos. A força dos elementos desencadeou a situação, mas a mão do homem não é invisível nesta desgraça que nos leva a pensar se não temos andado a construir um país de papelão. Descobriram-se, entretanto, coisas extraordinárias como o facto de a futura linha de alta velocidade e a sua nova estação, em Coimbra, estarem localizadas em áreas que agora ficaram submersas. Só incompetência? Deixo duas citações a terminar. A primeira é de Carlos Fiolhais, cada vez mais lúcido: “É nossa obrigação aprender com a experiência acumulada em desastres naturais. Não apenas a curto prazo, capacitando a proteção civil para a defesa de pessoas em risco, mas também e sobretudo a médio e longo prazo, planeando o território de uma forma mais inteligente.” E a segunda é de Fernando Santos, ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, sobre a dificuldade em encontrar material para a reparação dos telhados destruídos:  “A União Europeia, em vez de ter andado a normalizar a maçã e a pêra de Alcobaça, tinha feito melhor se tivesse regulado calibres para produzir telhas” .


 


SEMANADA - Até ao final da semana passada já existiam 34 mil candidaturas ao apoio de 10 mil euros para a reconstrução de casas afectadas pelas tempestades; segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de 2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda suba mais; segundo o IPMA até final da semana passada apenas tinham existido seis dias sem registo de chuva durante os últimos dois meses; há mais de 120 edifícios históricos que sofreram estragos, entre eles o Convento de Cristo e mais de 250 bibliotecas públicas; Portugal é o segundo país europeu que mais consome medicamentos antidepressivos e o primeiro lugar é ocupado pela Islândia; entre janeiro e agosto de 2025, o país exportou cerca de 40 toneladas da planta ou de preparações e substâncias à base de canábis, quase mais do dobro de 2024, e o sector já emprega cerca de sete mil pessoas; nas prisões portuguesas estão mais de 13.000 detidos, dos quais 140 estão a cumprir mais de 25 anos de prisão; em 2023 os residentes em Portugal perderam 2,2 mil milhões de euros em jogos de azar, mais do dobro de há uma década; o plano Ferrovia 2020, apresentado pelo Governo então do PS há dez anos, e  que pretendia modernizar as linhas ferroviárias em quatro anos, tem uma taxa de execução de apenas 18%; os tribunais de primeira instância declararam a insolvência de 6368 pessoas, no ano passado, o que dá uma média superior a 17 por dia e, no mesmo período, entraram também em falência 2014 empresas (cinco diariamente), o que dá um total de 8386 insolvências em 2025.


 


O ARCO DA VELHA - Os 10 mil preservativos distribuídos gratuitamente aos atletas dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026, em Milão-Cortina, desapareceram em apenas três dias.


 


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OBRAS CRUZADAS - O Museu Arpad Szenes- Vieira da Silva apresenta até 10 de Maio a primeira das três exposições que realizará ao longo deste ano, com obras de Arpad e Vieira em paralelo com artistas de diferentes gerações: Sara & André, Vasco Futscher, Frida Baranek, Francisco Janes,  Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches são os convidados para este primeiro ciclo expositivo de 2026. No Museu a sala do piso de entrada foi renovada e  apresenta agora magníficos desenhos de Arpad e Vieira da Silva. Neste e noutros locais podem ser vistos mais desenhos como os que Arpad fez de Vieira da Silva, os impressionantes desenhos anatómicos que Vieira da Silva fez no início da sua carreira e pinturas sobre papel de ambos, da década de 30 do século passado. A escultura e cerâmica são os pontos comuns de quase todos os artistas convidados: Vasco Futscher apresenta “Broken Mile”, peças de cerâmica dispostas no chão, num exercício entre a produção industrial e o trabalho manual, trabalhos deliberadamente imperfeitos que contrastam com as obras de Vieira da Silva e Arpad - é neste espaço que estão, por exemplo, os rigorosos desenhos anatómicos. Mais à frente a brasileira Frida Baranek apresenta “Desafios”, trabalhos de escultura que utilizam vidro, madeira, ferro, acrílico, pedra, tubo e fio de aço, e que surgem como desafios ao equilíbrio. Teresa Segurado Pavão e Rui Sanches, também um casal de artistas, criaram um conjunto de obras surpreendentes. Esta é a primeira vez que trabalham  em conjunto, a partir das esculturas em madeira de Rui Sanches e das peças de cerâmica de Teresa Segurado Pavão (na imagem). Sara & André estão no antigo atelier de Vieira da Silva, ali bem perto, e Francisco Janes apresenta uma instalação de imagens e som no espaço do auditório do Museu.


 


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ROTEIRO - Na Galeria Balcony, Manuel Caldeira mostra novos trabalhos de escultura e desenho, intitulada “Egyptian Reggae”, inspirada na reinterpretação de artefactos do Egipto antigo relacionados com a observação do vôo das aves e que o autor apresenta como “arqueologia inventada” (na imagem). São 17 obras, quase todas feitas no último ano, incluindo um conjunto de quatro desenhos. (Rua Coronel Bento Roma 12A, até 21 de Março).  No MAAT há uma nova exposição, “Turn Around”, baseada na colecção da Fundação EDP que conta com duas mil e quinhentas obras de mais de trezentos e quarenta artistas. “Turn Around  - Um Olhar Sobre a Colecção de Arte da Fundação EDP” terá dois momentos este ano O primeiro, agora apresentado,  inclui obras de Gabriel Abrantes, Luisa Cunha, Ana Jotta, Joana Vasconcelos, José Pedro Croft, João Pedro Vale + Nuno Alexandre Ferreira e João Paulo Feliciano, entre outros. 


 


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FRAGMENTOS DE ESCRITA - “Cânone da Câmara Escura” é o novo livro do espanhol Enrique Vila-Matas. Este não é apenas um livro, é um conjunto de  fragmentos de outros livros, a partir de uma situação especial: o protagonista, Vidal Escabia, recebeu de herança por morte de pessoa muito próxima uma grande biblioteca, mas sob uma condição: que do total da biblioteca seleccionasse aqueles que considerasse os seus livros predilectos com a incumbência de sobre eles refletir e escrever e elaborar  o seu próprio Cânone literário. Escabia construíu um ritual, baseado em três movimentos: entrar no quarto escuro onde estava a biblioteca de obras escolhidas, escolher ao acaso um livro, ir ler e seleccionar um fragmento que lhe parecesse interessante e, depois, escrever o que entendesse sobre essa obra para futura inserção no arquivo do Cânone. Vidal Escabia, cumprindo as instruções de quem lhe deixou a biblioteca, seleccionou setenta e um livros. Escolheu fragmentos e intercalou o que anotava, com  relatos do seu quotidiano, dúvidas e reflexões sobre o que se passava à sua volta. Colocou interrogações sobre a presença de androides entre os humanos, chegando ao ponto, suprema ironia, de se questionar se ele próprio, ou quem o rodeava, poderia ser um desses androides. “Cânone de Câmara Escura” é uma obra sobre a paixão pela literatura, sobre o papel que ela tem na transmissão de ideias e sobre o sentido da própria escrita. É um livro dividido em 120 intrigantes fragmentos, que culminam nesta frase:”Até no ar percebo o Mal indefinido que está para chegar”. (Edição D. Quixote, tradução de J. Teixeira de Aguilar).


 


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MÚSICA PARA FILMES QUE NÃO EXISTEM - Bruno de Almeida, além de ser realizador de filmes e documentários, tem também uma carreira de músico, que nos últimos anos se tem consubstanciado na série “Cinema Imaginado”,  agora   no seu quarto volume. Nesta série de gravações Bruno de Almeida imaginou bandas sonoras para filmes que não existem, numa mistura de géneros musicais, combinando jazz e funk, por vezes com recurso a spoken word. Neste “Cinema Imaginado - Volume 4”, Bruno de Almeida esteve nos teclados e chamou para estúdio Ricardo Toscano, Mário Franco, Luís Figueiredo, Mário Delgado, Óscar Graça, José Salgueiro, Eduardo Cardinho, Miguel Bernat, André Sousa Machado, Iúri Oliveira, Graham Haynes, e uma secção de cordas composta por Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Joana Cipriano, Ana Cláudia Serrão e Nuno Abreu. O disco inclui dez temas, que vão de incursões no jazz improvisado até baladas ao piano. Todas as composições são de Bruno de Almeida, excepto o tema “Parallax View”, que foi construído em parceria com Graham Haynes e Mário Franco, co-produtores do disco. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - Em Londres, a National Portrait Gallery apresenta até 4 de Maio a exposição “Lucian Freud: Drawing Into Painting” com 175 desenhos feitos por Freud, muitas vezes para se evadir da pintura, outros para recordar momentos, como os três retratos, a desenho, que fez de Francis Bacon num fim de tarde em 1951.


 


DIXIT - “Aberto um novo ciclo político, como quererá Montenegro passar à História? Como o hábil equilibrista, herdeiro de uma nefasta escola tacticista que vem privilegiando a gestão do curto prazo na última década, que se tem limitado a ser até aqui? Ou como um reformador pragmático, capaz de fazer consensos ao centro e de travar o crescimento dos populismos pelo qual, isso sim, parece ansiar a maioria sociológica existente no país?” - Pedro Norton, no Público.


 


BACK TO BASICS -  “Quando alguém perde a capacidade de se rir de si próprio, é o momento em que os outros se começam a rir dele” - Thomas Szasz.





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fevereiro 14, 2026

O SOM DA ÁGUA

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Acordo há dias sem fim com o som da chuva, da água a correr. É como se vivesse dentro de uma fonte. O correr da água, que pode ser um som tranquilizante, tem-se transformado num quase martírio. Olho para os vidros das janelas e lá estão as gotas de água a escorrer, sempre a escorrer. Saio à rua e chapinho nas poças de água que se formam por todo o lado, Não estamos habituados a tanta água e isso é tão verdade que a  Embaixada do Japão endereçou aos portugueses uma simpática mensagem com recomendações e cuidados a ter nestas situações e, em particular, nas inundações. É uma atitude de uma enorme delicadeza e de uma prova de amizade entre os nossos países, que esta chuva proporcionou. Tudo está alagado, o tempo está húmido, o sol anda escondido. Vou à rua comprar o jornal e vejo como os passeios de Lisboa são ainda mais perigosos quando estão tão molhados - parecem escorregas. Ao longo do estreito passeio por onde vou vejo as poças formadas nos buracos do alcatrão. Há carros que abrandam para não molhar os peões, mas há outros que parecem fazer de propósito para levantar uma cortina de água. Mesmo nestas alturas difíceis para todos há quem não pense nos outros. A raça humana é tramada, até nesta altura se nota.  Nas ruas os buracos aumentam todos os dias, como se o alcatrão fosse solúvel em água.  Regresso a casa, a ver se consigo evitar que o jornal fique empapado da chuva - quando isso acontece fica mais dificil fazer as palavras cruzadas porque não se consegue escrever no papel molhado. Sento-me a olhar para a janela que acolhe as gotas de água. Já chega de chuva por agora, Será que, quando esta chuva passar e o sol voltar a ver-se, vou voltar a ter o prazer de me sentar à beira do chafariz a gozar a frescura do som da água a correr? 




fevereiro 13, 2026

A FORÇA TRANQUILA

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VENDAVAL - No fim da noite de domingo, com os resultados apurados, só me lembrava de uma canção popularizada por Tony de Matos. Chama-se “Vendaval” e pela melodia fora vão-se ouvindo estas palavras: “o vendaval passou…navego agora em mar de calmaria… para onde vou? - não sei!”. A vitória de António José Seguro foi arrasadora: 3,4 milhões de votos. Mas para além dos números este resultado significou a clara rejeição de André Ventura por uma larga maioria do eleitorado, inclusivamente da maioria dos que tradicionalmente votam à direita do PS, e, também, evidencia a repulsa por soluções de ruptura. A resposta pedida na canção está dada: o eleitorado prefere soluções consensuais, estabilidade e moderação, mas que também quer alguém que ponha o Estado ao serviço dos cidadãos e não de quem ocupa S. Bento. Os eleitores que votaram Seguro quiseram deixar um recado: Portugal tem muitos problemas, trabalhem em conjunto, deitem abaixo as barreiras partidárias e resolvam-nos. Ora isto volta a colocar na ordem do dia a questão do alargamento do centro político, algo que é o contrário do que Ventura, Montenegro ou Pedro Nuno Santos pretendem. Destas eleições o partido que sai mais ameaçado é o PSD, que tem vindo a perder identidade e que vê muita da sua base de apoio a dar atenção ao Chega, que continua a crescer. Daqui para a frente, ou o PSD e o PS se entendem para fazer reformas nas áreas mais críticas, incluindo o combate à corrupção e a justiça e conseguem criar uma nova era política, ou Montenegro continua no seu jogo táctico de agradar a gregos e troianos e acabará devorado por  André Ventura. Quanto a Seguro, que resistiu aos cantos de sereia que o queriam levar a radicalizar o discurso, se fizer o que prometeu como colaborar para resolver problemas, não ter amarras partidárias, usar comedidamente a palavra e manter-se fiel à Constituição, pode vir a ser uma boa surpresa. Como escreveu Francisco José Viegas no “Correio da Manhã”, ele pode ser o primeiro presidente fora da velha oligarquia. Não é coisa pouca.


 


SEMANADA - Os portugueses gastaram 22 milhões de euros no site de conteúdos eróticos OnlyFans em 2025; o Hospital Amadora-Sintra identificou mais de 500 mulheres vitimas de mutilação genital feminina nos últimos dez anos; neste início de ano já há hospitais do SNS sem dinheiro para comprar medicamentos; no OE deste ano o Governo reduziu em 53,7 milhões de euros o orçamento direto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; desde o início do ano já morreram 60 pessoas em acidentes rodoviários; no espaço de um ano a Marktest contabilizou 153 milhões de downloads, uma média de 2,9 milhões de downloads por semana; os podcasts mais procurados foram, por esta ordem, “Extremamente Desagradável” da Renascença Multimedia, “O Homem Que Mordeu o Cão” da Baur Media e “Mixórdia Temática” da Rádio Comercial; o Observador registou a maior quota de downloads de podcasts, seguido pela Renascença, Rádio Comercial, SIC Notícias e Expresso; ainda segundo a Marktest  3,5 milhões de pessoas, cerca de 41% dos portugueses ouvem rádio pela internet e este valor é o dobro do verificado há uma década; Portugal apresenta uma das mais baixas coberturas de seguros contra eventos climáticos extremos na Europa, com apenas cerca de 3% das perdas entre 1980 e 2024 seguradas.


 


O ARCO DA VELHA - Um juiz dos Açores, já aposentado, foi condenado a cinco anos de prisão, mas com pena suspensa, por ter pago a três rapazes menores para ter sexo com eles. 


 


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FOTOGRAFIAS PORTUGUESAS - O que se passa quando se olha para as mesmas coisas com décadas de diferença? A resposta está em  “A Prova do Tempo”, uma exposição de fotografias de Inês Gonçalves e Ana Paganini, na galeria Lumina. Os temas fotografados são os mesmos: o universo das touradas e das procissões e manifestações públicas da fé. Inês Gonçalves fotografou nos anos 90 os bastidores das touradas para a revista Kapa e procissões nos Açores, estas no âmbito de um projecto pessoal, e a maioria das fotografias expostas desta série são inéditas. Ana Paganini olhou para os mesmos dois universos de 2018 para cá. As duas fotógrafas tinham sensivelmente a mesma idade quando fizeram estes projectos - na casa dos 30 anos. São olhares diferentes, não só porque mostram épocas diferentes, mas também porque têm abordagens diversas. “A Prova do Tempo” é um nome  particularmente adequado - as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias  de Ana  Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Em cada exposição a Lumina, dirigida por Bruno Portela, guarda uma das suas paredes para apresentar uma outra obra no campo das artes visuais, uma área que tem curadoria de Rute Reimão - neste caso a escolha recaíu numa instalação de Sebastião Castelo Lopes, “O som de fazer o último poema”. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53, junto à Fonte Luminosa.


 


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ROTEIRO - A galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72, ao Chiado), apresenta a exposição de fotografia “Bloom”, de  Dagmar van Weeghel, baseada na evocação da  presença histórica de mulheres africanas, através do recurso actual a técnicas fotográficas do século XIX. A artista estabelece um diálogo entre retratos contemporâneos e imagens oitocentistas, numa relação  entre o passado e o presente. Na Fundação Albuquerque, em Sintra, a artista britânica Phoebe Collings-James apresenta um conjunto de cerâmicas contemporâneas a que deu o título “Nature Boy”, em que algumas peças foram já produzidas em Portugal no âmbito de uma residência promovida pela Fundação. É a primeira vez que a Colecção Albuquerque, centrada na cerâmica chinesa, acolhe uma ceramista contemporânea. A Galeria Diferença (Rua de São Filipe Nery 42) apresenta duas novas exposições: “Detritos Cósmicos” de Nuno Cera e “Terra Firme” de Matilde Sambo. Na Galeria Ilha (Praça das Flores 48A), pode ser vista uma exposição de pintura, desenho e fotografia do norte-americano John Kacere (1920-1999) intitulada “American Beauty”.


  


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O PAPEL DA MEMÓRIA - O que se escreve quando já se sabe que o fim é inevitável e não estará longe? “Partida”, de Julian Barnes, é uma das respostas possíveis a essa pergunta. Com uma brilhante tradução de Salvato Teles de Menezes “Partida” foi anunciado pelo autor como a sua derradeira obra e combina ficção com realidade, sobretudo quando Barnes fala de episódios da sua vida. Ele aliás diz a certa altura “and you can google that, if you wish”. O livro é uma reflexão sobre a vida do autor, sobre a sua relação com amigos próximos, sobre a memória e o que ela guarda: o amor, as cumplicidades, a amizade, o comportamento dos seres humanos; e também sobre o que se seguirá: a velhice e, inevitavelmente, a morte. É uma escrita envolvente, que amarra, irónica por vezes, crua por natureza, que se desenvolve como uma conversa que se vai tendo. É um livro de despedida, um adeus aos seus fiéis leitores, agora que o escritor fez 80 anos. “Partida”, escreve Barnes, é «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco». Julian Barnes escreveu mais de duas dezenas de livros, ganhou o Man Booker por “O Sentido do Fim” e a sua obra mais conhecida é “O Papagaio de Flaubert”. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - “A Mitologia Grega de A a Z”, do filósofo Luc Ferry, conta as origens do Olimpo, dos seus heróis lendários e todas as suas histórias. Aqui se recordam as aventuras de Ulisses, Zeus, Atena, Jasão, Hércules ou Afrodite e podemos compreender, de forma acessível, o legado da mitologia grega, que continua a habitar a linguagem de hoje e a servir de matéria prima para escritores e artistas das mais variadas áreas. Os mitos relatados por Luc Ferry permitem percorrer lições de vida e de sabedoria que perduraram ao longo dos séculos (Edição Guerra & Paz). Outro livro que percorre, embora de forma bastante diferente este universo mitológico é “A Odisseia de Homero”, mas sob a forma de uma novela gráfica, uma gigantesca obra de desenho e imaginação criada por Gareth Hinds ao longo de 250 páginas numa fascinante banda desenhada que reconstitui as aventuras de Ulisses. A “Odisseia” é um dos poemas épicos fundadores da literatura ocidental, atribuído ao poeta grego Homero, na época do século VIII antes de Cristo. O poema narra a longa e perigosa viagem de dez anos do herói Odisseu (Ulisses) para regressar a Ítaca após a Guerra de Tróia, enfrentando monstros, deuses e feiticeiras. Esta novela gráfica traz esta obra clássica a uma nova dimensão, visual, proporcionando a sua descoberta por novos públicos. 


 


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A BOSSA RARA - Nara Leão morreu cedo, aos 47 anos. Foi ela uma das grandes vozes da Bossa Nova, esse expoente da música popular brasileira, servida por talentos da escrita, da música e da voz como nenhum outro género depois. “A bossa rara de Nara” é o título de um álbum, agora publicado, com oito temas, gravações salvadas de um estúdio onde ela por vezes trabalhava. As gravações originais têm só a sua voz e o seu violão e foram encontradas pelo produtor Raymundo Bittencourt numa fita provavelmente gravada nos anos 80, quando ela trabalhava já com Roberto Menescal. Raymundo e Roberto juntaram-se na recuperação dessas gravações e conseguiram salvar a voz em boas condições em oito temas. Menescal juntou a sua voz, agora, como fazia frequentemente nos espectáculos com Nara. O produtor retirou o violão original das gravações e juntou o seu próprio e trouxe para estúdio Diógenes de Sousa no baixo, João Cortez na bateria e Leandro Freixo na flauta e teclados. Eis os oito temas do disco, todos eles clássicos da bossa nova: “Chega de saudade”, “Fotografia”, “Manhã de Carnaval” “Tristeza de nós dois”, “O barquinho”, “Você e eu”, “Diz que fui por aí” e “Wave”. Nara tinha uma capacidade de interpretação única, a sua voz namorava as palavras. Ouçam, está em streaming e é do melhor que tenho ouvido nos últimos tempos.


 


DIXIT - “Seguro fez uma campanha semelhante à que o publicitário Jacques Séguéla dirigiu em 1981, levando Mitterrand à Presidência sob o lema: “A força tranquila”. Da mesma forma, o “expulso” do PS português contrapôs a calma e a palavra escassa ao palavreado quase histérico de Ventura “  - Eduardo Cintra Torres, no Correio da Manhã.


 


BACK TO BASICS -  O homem sábio, quando descansa em segurança, fica atento aos perigos que podem surgir - Confúcio.


 


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