
Antes de passarmos as noites a ver televisão, ou a adormecer frente a ela, que fazíamos? Muitos passeavam pela rua, observavam o que se passava à sua volta, eventualmente davam uma espreitadela algures. Foi o que me aconteceu, estas janelas iluminadas, convenientemente tapadas, por onde passei uma noite destas, despertaram a minha curiosidade. Que se passará ali? Espreitar faz parte da natureza humana. Quando olhamos para um quadro ou uma fotografia, espreitamos a imagem que está à nossa frente, ou imaginamos o que ela sugere? Quando vemos a cortina que tapa a janela da casa do vizinho, pensamos no padrão do tecido ou naquilo que ele tapa? Na realidade, a rua pode ser melhor que um filme. Por falar nisso, foi no ano do meu nascimento, 1954, que Alfred Hitchcock realizou o filme “A Janela Indiscreta”, protagonizado por James Stewart, que desempenhava o papel de um homem temporariamente imobilizado numa cadeira de rodas e que passa o seu tempo, a partir da sua própria janela, a espreitar a casa dos vizinhos, acabando por descobrir um crime. Hitchcock combinou o voyeurismo com a curiosidade e encontrou em James Stewart o actor ideal para dar corpo ao impulso humano de observar a vida alheia sem ser visto. O filme desenrola-se não só em torno daquilo que Stewart espreita, mas também daquilo que ele não vê, mas imagina. Em cada janela do prédio em frente Hitchcock oferece a James Stewart imagens de solidão, de rotina ou de tensão conjugal e deixa tudo o resto à sua imaginação,. Sinto o mesmo muitas vezes quando olho para uma janela alheia. Quem nunca tiver pecado, que atire a primeira pedra…