
CINEMA PARAÍSO - Aconteceu aos filmes o que já tinha acontecido à imprensa. Da mesma forma que o digital foi canibalizando o papel, o streaming está a dar cabo dos ecrãs de cinema clássicos. Segundo a Marktest mais de 4,6 milhões de portugueses utilizam plataformas de streaming e 41,7% dos subscritores usam-nas todos ou quase todos os dias. 43,1% são assinantes e os restantes são consumidores dentro do mesmo agregado ou pacote. É praticamente meio país a ver streaming. Qual é o outro lado desta realidade? Segundo os dados mais recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual Portugal contava em Janeiro com 450 salas de cinema, menos 112 face a 2025. Há agora cinco capitais de distrito sem exibição comercial regular de cinema: Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Dados recentes indicam que os serviços de streaming mais vistos em Portugal são a Netflix com 23% do mercado, a Prime Video com 22%, a Diney + com 18%, a Max com 13%, a SKY Showtime com 8%, a Apple com 7% e a Filmin com 2%. O YouTube, a mais poderosa plataforma audiovisual, do universo Google, tem já mais de 7,5 milhões de utilizadores em Portugal. Estes números mostram como mudou de forma drástica o consumo do audiovisual, impulsionado pela tecnologia. Os aparelhos de televisão de grande dimensão surgem a preços mais acessíveis, o aumento da penetração da fibra óptica cobre já 95% dos alojamentos e estabelecimentos comerciais, permitindo uma melhor experiência quer nos canais de cabo, quer no streaming. A verdade é que o streaming digital está a provocar o encerramento de salas de cinema e não se vê como alterar a situação. Até a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou que vai deixar de fazer visionamentos para os filmes nomeados para os Óscares em salas de cinema, remetendo os seus membros para o visionamento em streaming. “Cinema Paraíso”, o filme que contava o encanto de descobrir as imagens em movimento numa sala escura, está a ficar uma memória cada vez mais distante.
SEMANADA - As tempestades de fevereiro danificaram 237 mil casas, metade das quais sem seguro; a “Kristin” provocou estragos em mais de 60% das casas de Leiria e Marinha Grande; o número de pedidos de apoio para reconstruir casas devido ao mau tempo já é de 20 mil, com um custo de 100 milhões de euros; a “Kristin” também provocou danos no Estabelecimento Prisional de Lisboa onde chove dentro de celas, a maioria das quais “estão podres”, segundo a Ordem dos Advogados; mais de metade dos trabalhadores da agricultura já são estrangeiros; há 400 mil brasileiros a descontar para a segurança social, seguidos de 85 mil indianos, 67 mil angolanos, 59 mil cabo-verdianos e 51.000 do Bangladesh; há 516 mil pedidos de nacionalidade pendentes; 73,5% das chamadas efetuadas para o 112 em 2025 foram consideradas indevidas; em fevereiro a taxa de inflação aumentou para 2,1% pressionada pelo preço dos alimentos que voltou a subir em relação ao mês anterior; as doenças do aparelho respiratório e o cancro foram responsáveis por metade dos 120.000 óbitos verificados em 2024; mais de 19 mil pessoas fizeram cirurgias da obesidade no SNS nos últimos cinco anos.
O ARCO DA VELHA - Mais de um terço dos 278 municípios do Continente têm os planos de emergência desactualizados, há mais de 100 Planos Municipais de Emergência de Proteção Civil que já deviam ter sido revistos e alguns nem constam do Sistema de Informação de Planeamento de Emergência da Protecção Civil.

O DESENHO E A NATUREZA - Na Galeria Appleton Cristina Ataíde apresenta até 2 de Abril "Espaço Intermédio", um conjunto de 17 novos trabalhos, oito dos quais são desenhos de grandes dimensões sobre papel, com recurso a pigmento, carvão, guache e borracha e os outros nove são esculturas em madeira. Estas esculturas foram feitas, a partir de fragmentos de árvores derrubadas pela intempérie na Tapada da Ajuda, onde a artista tem atelier. Os desenhos estão junto às paredes e as peças de madeira, trabalhadas pela artista, mantendo marcas da erosão natural, estão no centro da sala, no chão. A intervenção de Cristina Ataíde nos segmentos dos cedros criou formas elípticas, que se ligam aos desenhos da parede. No texto que escreveu para esta exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues sublinha o aproveitamento das árvores caídas, com os orifícios criados por organismos que consumiram a madeira e “sulcos que não foram desenhados pela artista, mas sim pela vontade do tempo”. E observa: “a superfície (da madeira) é progressivamente lixada, salientando o desenho dos veios, dos anéis de crescimento e das particularidades do seu desenvolvimento” e o resultado final são obras que “actuam como mapas que cartografam o crescimento da espécie, mas também o seu perecimento interior”. (Rua Acácio Paiva 27)

ROTEIRO - No Espaço Projecto do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian Bruno Zhu criou uma instalação, intitulada “Belas Artes”, através de um cenário propositadamente labiríntico onde apresenta até 27 de Julho obras da colecção do CAM de nomes como Almada Negreiros (na imagem), Sérgio Pombo, Eduardo Luiz, António Pedro, Vítor Fortes, Emília Nadal, além de um conjunto de bustos em bronze e gesso de Yvone Mortier, José Dias Coelho, Júlio Vaz, Gil Teixeira Lopes e Francisco Franco. Segundo a Fundação, a instalação é uma reflexão do artista “sobre colecionismo, formas de expor e o papel dos museus enquanto agentes de produção de valor artístico”. A fundação indica ainda que Bruno Zhu tem uma obra “influenciada pelo design de moda, pela edição e pela cenografia”, sublinhando que ela “confronta discursos de poder inerentes à prática museológica, através da sua marcante abordagem conceptual”. Em Lisboa, na Galeria Monitor (rua da Páscoa 91), Helena Lapas apresenta novos trabalhos que, partindo da sua experiência em tapeçarias mostram formas escultóricas em técnica mista. E a Galeria Jahn und Jahn, (Rua de São Bernardo 15) apresenta até 14 de Março “Notas de Rodapé”, uma exposição colectiva com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas com obras de António Júlio Duarte , Carlos Noronha Feio, Catarina Dias, Jorge Queiroz, Julius Heinemann, Navid Nuur, Raphaela Melsohn e Sara Bichão

UMA HISTÓRIA DO CRIME - "Vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar" é uma das frases mais célebres da história do cinema, dita por Don Vito Corleone (interpretado por Marlon Brando) no filme “O Padrinho”, de 1992. A Máfia é sempre um tema delicado, quer seja em investigações jornalísticas, em livros ou no cinema e televisão. Vem isto a propósito de um livro acabado de editar, “Máfia, Uma História Global”, de Ryan Ginjeras. O autor enquadra o crescimento e proliferação das grandes organizações criminosas e investigou ao longo de dez anos organizações como La Cosa Nostra italiana, o Cartel de Medellín colombiano, as Cinco Famílias de Nova Iorque, a Yakuza japonesa ou a Vory russa. Ryan Ginjeiras mostra como estas organizações marginais acompanham as sofisticações tecnológicas e como criaram sobreposições entre crime organizado, corporações empresariais e lideranças políticas, mostrando a enorme influência nas sociedade actuais da sua actividade criminosa. O livro faz-nos conhecer melhor o papel de figuras como Al Capone, Pablo Escobar, El Chapo, Du Yuesheng ou Dawood Ibrahim. Ryan Gingeras é professor no Departamento de Segurança Nacional da Universidade Naval da Califórnia e são dele estas palavras, já no fim do livro: “Trazer as máfias à luz pode ser doloroso, porém num tempo em que mais pessoas são levadas a acreditar na existência de estados-sombra e outras conspirações, o bem que isso poderia fazer seria em si uma recompensa”. Edição Casa das Letras

MESA DE CABECEIRA - Hoje proponho dois livros que nos permitem perceber melhor a História recente nestes conturbados tempos. O primeiro é “Vizinhos Distantes - uma breve história das relações entre a China e a Rússia", de Soren Urbansky e Martin Wagner, uma edição da Temas & Debates. Os autores apresentam-nos os quatrocentos anos de história destes dois vizinhos: dos primeiros contactos oficiais em 1618, passando pelos desentendimentos entre Krutchev e Mao, até à reacção da China quando a Rússia operou a sua invasão à Ucrânia, em 2022. O outro livro é “Portugal e o Ocidente”, de Tom Gallagher, um historiador britânico especializado em Europa Moderna e que já havia escrito em 1983 “Portugal - A Twentieth Century Interpretation”. Este novo livro analisa o papel de Portugal durante o período que vai de 1890 até 1975, quando os conflitos ideológicos e os realinhamentos geopolíticos reformularam a ordem global. É uma obra que vai provocar polémica nomeadamente sobre como Portugal encarou a questão colonial, antes e depois do 25 de Abril, “o golpe de Estado de 1974, que acabou com o regime autoritário e deu origem a uma retirada caótica de África, reduzindo a influência de Portugal a nível internacional.” Edição D. Quixote

AO SOM DO ACORDEÃO - Quando Gabriel Gomes aparecia em palco com o seu acordeão, com a Sétima Legião, muita gente ficava espantada com a inclusão de um instrumento tão popular e tradicional numa banda de referência da música portuguesa dos anos 80. E a verdade é que a sonoridade do acordeão se tornou uma das imagens de marca do grupo. Mais tarde Gabriela Gomes tocou também com Madredeus, Os Poetas, Fandango e em concertos ao lado de nomes como Tim, Jorge Palma e Rodrigo Leão. Só agora Gabriel Gomes decidiu gravar um álbum a solo, “Uma História Assim”, produzido por ele próprio, em parceria com Rodrigo Leão e João Eleutério. É um trabalho exclusivamente instrumental, quase integralmente gravado a solo, com a excepção do tema título, onde Rodrigo Leão toca piano. Ao todo são 10 composições originais para acordeão do próprio Gabriel Gomes. Destaco “O Roubo”, “Uma História Assim”, “Retorno”, “Rumo” e o tema final, “Chorinho”. O trabalho de Gabriel Gomes mostra a riqueza do acordeão e sua vida além de banda sonora de festas populares. (Disponível nas plataformas de streaming).
ALMANAQUE - O Nederlands Fotomuseum, em Roterdão abriu a 7 de fevereiro e acolhe uma das maiores colecções de fotografia de todo o mundo, desde retratos e imagens de alguns dos grandes nomes da fotografia a fotos históricas de autores anónimos.
DIXIT - “Esta é a altura de estar silencioso e de deixar a quem vai entrar o papel decisivo” - Marcelo Rebelo de Sousa.
BACK TO BASICS - “Viver é decidir constantemente o que vamos ser” - Ortega Y Gasset.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS