março 22, 2026

SOBRE CULTURA E POLÍTICA

Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. Os casos são distintos e o modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita.  Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só,  tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão.  A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam.