março 28, 2026

NATUREZA MAIS NATURAL NÃO HÁ 

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Já conhecia casas com vista para o mar  e casas de banho com belas vistas. Mas nunca tinha visto uma coisa assim: no meio do nada, na foz do Tejo, uma sanita tão bem colocada ao ar livre, tampa levantada encostada ao autoclismo,  um ramo de árvore a penetrar no seu interior. Quem fez isto tem uma clara intuição visual e arrisco pensar que foi alguém conhecedor da obra do surrealista Marcel Duchamp, autor do célebre urinol que ganhou honras de museu. Façamos um pouco de história: em 1917 Marcel Duchamp pegou num urinol de porcelana branca, invertido, a que chamou Fonte. Em vez de assinar a obra com o seu nome, assinou como R. Mutt. Enviada a obra para a exposição da Sociedade de Artistas Independentes em Nova Iorque, foi rejeitada por ser considerada uma piada de mau gosto e uma indecência. A ideia de Duchamp foi elevar um objeto industrial comum ao estatuto de obra de arte, com base no argumento de que a arte é definida pelo conceito dado pelo artista e pelo contexto da sua apresentação. Ao ser exposta num museu, levada por um artista, a peça ganharia o estatuto de arte. Não conseguiu convencer o júri e o original desapareceu, mas deu polémica e tornou-se uma lenda. Depois de muitas solicitações Duchamp autorizou, entre 1950 e 1964, a produção de 16 réplicas, todas expostas em museus, hoje em dia avaliadas em milhões. Voltemos à beira do Tejo, do lado da Cova do Vapor, onde encontrei esta peça. Confesso que acho particularmente interessante a conjugação do objecto com o ramo de árvore. Será uma alegoria à destruição da natureza e à forma como o homem a trata? Lição do dia: mesmo o mais banal dos objectos pode dar que pensar e proporcionar múltiplas interpretações.