
VENDAVAL - No fim da noite de domingo, com os resultados apurados, só me lembrava de uma canção popularizada por Tony de Matos. Chama-se “Vendaval” e pela melodia fora vão-se ouvindo estas palavras: “o vendaval passou…navego agora em mar de calmaria… para onde vou? - não sei!”. A vitória de António José Seguro foi arrasadora: 3,4 milhões de votos. Mas para além dos números este resultado significou a clara rejeição de André Ventura por uma larga maioria do eleitorado, inclusivamente da maioria dos que tradicionalmente votam à direita do PS, e, também, evidencia a repulsa por soluções de ruptura. A resposta pedida na canção está dada: o eleitorado prefere soluções consensuais, estabilidade e moderação, mas que também quer alguém que ponha o Estado ao serviço dos cidadãos e não de quem ocupa S. Bento. Os eleitores que votaram Seguro quiseram deixar um recado: Portugal tem muitos problemas, trabalhem em conjunto, deitem abaixo as barreiras partidárias e resolvam-nos. Ora isto volta a colocar na ordem do dia a questão do alargamento do centro político, algo que é o contrário do que Ventura, Montenegro ou Pedro Nuno Santos pretendem. Destas eleições o partido que sai mais ameaçado é o PSD, que tem vindo a perder identidade e que vê muita da sua base de apoio a dar atenção ao Chega, que continua a crescer. Daqui para a frente, ou o PSD e o PS se entendem para fazer reformas nas áreas mais críticas, incluindo o combate à corrupção e a justiça e conseguem criar uma nova era política, ou Montenegro continua no seu jogo táctico de agradar a gregos e troianos e acabará devorado por André Ventura. Quanto a Seguro, que resistiu aos cantos de sereia que o queriam levar a radicalizar o discurso, se fizer o que prometeu como colaborar para resolver problemas, não ter amarras partidárias, usar comedidamente a palavra e manter-se fiel à Constituição, pode vir a ser uma boa surpresa. Como escreveu Francisco José Viegas no “Correio da Manhã”, ele pode ser o primeiro presidente fora da velha oligarquia. Não é coisa pouca.
SEMANADA - Os portugueses gastaram 22 milhões de euros no site de conteúdos eróticos OnlyFans em 2025; o Hospital Amadora-Sintra identificou mais de 500 mulheres vitimas de mutilação genital feminina nos últimos dez anos; neste início de ano já há hospitais do SNS sem dinheiro para comprar medicamentos; no OE deste ano o Governo reduziu em 53,7 milhões de euros o orçamento direto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil; desde o início do ano já morreram 60 pessoas em acidentes rodoviários; no espaço de um ano a Marktest contabilizou 153 milhões de downloads, uma média de 2,9 milhões de downloads por semana; os podcasts mais procurados foram, por esta ordem, “Extremamente Desagradável” da Renascença Multimedia, “O Homem Que Mordeu o Cão” da Baur Media e “Mixórdia Temática” da Rádio Comercial; o Observador registou a maior quota de downloads de podcasts, seguido pela Renascença, Rádio Comercial, SIC Notícias e Expresso; ainda segundo a Marktest 3,5 milhões de pessoas, cerca de 41% dos portugueses ouvem rádio pela internet e este valor é o dobro do verificado há uma década; Portugal apresenta uma das mais baixas coberturas de seguros contra eventos climáticos extremos na Europa, com apenas cerca de 3% das perdas entre 1980 e 2024 seguradas.
O ARCO DA VELHA - Um juiz dos Açores, já aposentado, foi condenado a cinco anos de prisão, mas com pena suspensa, por ter pago a três rapazes menores para ter sexo com eles.

FOTOGRAFIAS PORTUGUESAS - O que se passa quando se olha para as mesmas coisas com décadas de diferença? A resposta está em “A Prova do Tempo”, uma exposição de fotografias de Inês Gonçalves e Ana Paganini, na galeria Lumina. Os temas fotografados são os mesmos: o universo das touradas e das procissões e manifestações públicas da fé. Inês Gonçalves fotografou nos anos 90 os bastidores das touradas para a revista Kapa e procissões nos Açores, estas no âmbito de um projecto pessoal, e a maioria das fotografias expostas desta série são inéditas. Ana Paganini olhou para os mesmos dois universos de 2018 para cá. As duas fotógrafas tinham sensivelmente a mesma idade quando fizeram estes projectos - na casa dos 30 anos. São olhares diferentes, não só porque mostram épocas diferentes, mas também porque têm abordagens diversas. “A Prova do Tempo” é um nome particularmente adequado - as fotografias de Inês Gonçalves testemunham uma época e resistiram bem às quase três décadas que levam; e as fotografias de Ana Paganini levam-nos a compreender o que mudou para permitir a permanência das tradições. As duas fotógrafas acabam assim por, em tempos diferentes, estabelecer um diálogo entre o que observaram e retiveram. Em cada exposição a Lumina, dirigida por Bruno Portela, guarda uma das suas paredes para apresentar uma outra obra no campo das artes visuais, uma área que tem curadoria de Rute Reimão - neste caso a escolha recaíu numa instalação de Sebastião Castelo Lopes, “O som de fazer o último poema”. A Lumina fica na Rua Actor Vale 53, junto à Fonte Luminosa.

ROTEIRO - A galeria This Is Not A White Cube (Rua da Emenda 72, ao Chiado), apresenta a exposição de fotografia “Bloom”, de Dagmar van Weeghel, baseada na evocação da presença histórica de mulheres africanas, através do recurso actual a técnicas fotográficas do século XIX. A artista estabelece um diálogo entre retratos contemporâneos e imagens oitocentistas, numa relação entre o passado e o presente. Na Fundação Albuquerque, em Sintra, a artista britânica Phoebe Collings-James apresenta um conjunto de cerâmicas contemporâneas a que deu o título “Nature Boy”, em que algumas peças foram já produzidas em Portugal no âmbito de uma residência promovida pela Fundação. É a primeira vez que a Colecção Albuquerque, centrada na cerâmica chinesa, acolhe uma ceramista contemporânea. A Galeria Diferença (Rua de São Filipe Nery 42) apresenta duas novas exposições: “Detritos Cósmicos” de Nuno Cera e “Terra Firme” de Matilde Sambo. Na Galeria Ilha (Praça das Flores 48A), pode ser vista uma exposição de pintura, desenho e fotografia do norte-americano John Kacere (1920-1999) intitulada “American Beauty”.

O PAPEL DA MEMÓRIA - O que se escreve quando já se sabe que o fim é inevitável e não estará longe? “Partida”, de Julian Barnes, é uma das respostas possíveis a essa pergunta. Com uma brilhante tradução de Salvato Teles de Menezes “Partida” foi anunciado pelo autor como a sua derradeira obra e combina ficção com realidade, sobretudo quando Barnes fala de episódios da sua vida. Ele aliás diz a certa altura “and you can google that, if you wish”. O livro é uma reflexão sobre a vida do autor, sobre a sua relação com amigos próximos, sobre a memória e o que ela guarda: o amor, as cumplicidades, a amizade, o comportamento dos seres humanos; e também sobre o que se seguirá: a velhice e, inevitavelmente, a morte. É uma escrita envolvente, que amarra, irónica por vezes, crua por natureza, que se desenvolve como uma conversa que se vai tendo. É um livro de despedida, um adeus aos seus fiéis leitores, agora que o escritor fez 80 anos. “Partida”, escreve Barnes, é «a minha partida oficial, a minha última conversa convosco». Julian Barnes escreveu mais de duas dezenas de livros, ganhou o Man Booker por “O Sentido do Fim” e a sua obra mais conhecida é “O Papagaio de Flaubert”. Edição Quetzal.

MESA DE CABECEIRA - “A Mitologia Grega de A a Z”, do filósofo Luc Ferry, conta as origens do Olimpo, dos seus heróis lendários e todas as suas histórias. Aqui se recordam as aventuras de Ulisses, Zeus, Atena, Jasão, Hércules ou Afrodite e podemos compreender, de forma acessível, o legado da mitologia grega, que continua a habitar a linguagem de hoje e a servir de matéria prima para escritores e artistas das mais variadas áreas. Os mitos relatados por Luc Ferry permitem percorrer lições de vida e de sabedoria que perduraram ao longo dos séculos (Edição Guerra & Paz). Outro livro que percorre, embora de forma bastante diferente este universo mitológico é “A Odisseia de Homero”, mas sob a forma de uma novela gráfica, uma gigantesca obra de desenho e imaginação criada por Gareth Hinds ao longo de 250 páginas numa fascinante banda desenhada que reconstitui as aventuras de Ulisses. A “Odisseia” é um dos poemas épicos fundadores da literatura ocidental, atribuído ao poeta grego Homero, na época do século VIII antes de Cristo. O poema narra a longa e perigosa viagem de dez anos do herói Odisseu (Ulisses) para regressar a Ítaca após a Guerra de Tróia, enfrentando monstros, deuses e feiticeiras. Esta novela gráfica traz esta obra clássica a uma nova dimensão, visual, proporcionando a sua descoberta por novos públicos.

A BOSSA RARA - Nara Leão morreu cedo, aos 47 anos. Foi ela uma das grandes vozes da Bossa Nova, esse expoente da música popular brasileira, servida por talentos da escrita, da música e da voz como nenhum outro género depois. “A bossa rara de Nara” é o título de um álbum, agora publicado, com oito temas, gravações salvadas de um estúdio onde ela por vezes trabalhava. As gravações originais têm só a sua voz e o seu violão e foram encontradas pelo produtor Raymundo Bittencourt numa fita provavelmente gravada nos anos 80, quando ela trabalhava já com Roberto Menescal. Raymundo e Roberto juntaram-se na recuperação dessas gravações e conseguiram salvar a voz em boas condições em oito temas. Menescal juntou a sua voz, agora, como fazia frequentemente nos espectáculos com Nara. O produtor retirou o violão original das gravações e juntou o seu próprio e trouxe para estúdio Diógenes de Sousa no baixo, João Cortez na bateria e Leandro Freixo na flauta e teclados. Eis os oito temas do disco, todos eles clássicos da bossa nova: “Chega de saudade”, “Fotografia”, “Manhã de Carnaval” “Tristeza de nós dois”, “O barquinho”, “Você e eu”, “Diz que fui por aí” e “Wave”. Nara tinha uma capacidade de interpretação única, a sua voz namorava as palavras. Ouçam, está em streaming e é do melhor que tenho ouvido nos últimos tempos.
DIXIT - “Seguro fez uma campanha semelhante à que o publicitário Jacques Séguéla dirigiu em 1981, levando Mitterrand à Presidência sob o lema: “A força tranquila”. Da mesma forma, o “expulso” do PS português contrapôs a calma e a palavra escassa ao palavreado quase histérico de Ventura “ - Eduardo Cintra Torres, no Correio da Manhã.
BACK TO BASICS - O homem sábio, quando descansa em segurança, fica atento aos perigos que podem surgir - Confúcio.
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS