fevereiro 14, 2026

O SOM DA ÁGUA

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Acordo há dias sem fim com o som da chuva, da água a correr. É como se vivesse dentro de uma fonte. O correr da água, que pode ser um som tranquilizante, tem-se transformado num quase martírio. Olho para os vidros das janelas e lá estão as gotas de água a escorrer, sempre a escorrer. Saio à rua e chapinho nas poças de água que se formam por todo o lado, Não estamos habituados a tanta água e isso é tão verdade que a  Embaixada do Japão endereçou aos portugueses uma simpática mensagem com recomendações e cuidados a ter nestas situações e, em particular, nas inundações. É uma atitude de uma enorme delicadeza e de uma prova de amizade entre os nossos países, que esta chuva proporcionou. Tudo está alagado, o tempo está húmido, o sol anda escondido. Vou à rua comprar o jornal e vejo como os passeios de Lisboa são ainda mais perigosos quando estão tão molhados - parecem escorregas. Ao longo do estreito passeio por onde vou vejo as poças formadas nos buracos do alcatrão. Há carros que abrandam para não molhar os peões, mas há outros que parecem fazer de propósito para levantar uma cortina de água. Mesmo nestas alturas difíceis para todos há quem não pense nos outros. A raça humana é tramada, até nesta altura se nota.  Nas ruas os buracos aumentam todos os dias, como se o alcatrão fosse solúvel em água.  Regresso a casa, a ver se consigo evitar que o jornal fique empapado da chuva - quando isso acontece fica mais dificil fazer as palavras cruzadas porque não se consegue escrever no papel molhado. Sento-me a olhar para a janela que acolhe as gotas de água. Já chega de chuva por agora, Será que, quando esta chuva passar e o sol voltar a ver-se, vou voltar a ter o prazer de me sentar à beira do chafariz a gozar a frescura do som da água a correr?