fevereiro 06, 2026

A TEMPESTADE E O ESTADO

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O DESGOVERNO - O tempo não está para graçolas mas há coisas que parecem saídas de outro mundo. A actuação do Governo face à catástrofe que se abateu na região Centro, e em particular em Leiria, dava um filme que podia ter por título “Desaparecido em Combate”. As primeiras reacções demoraram horas, a falta de coordenação dentro do Governo e entre poder central e poder local foi gritante, com numerosos presidentes de câmara a afirmarem, mais de 24 horas depois da passagem da Kristin, que não haviam sido contactados por ninguém da Administração Central. No filme, a Ministra da Administração Interna, acusada de não dar a cara no meio da situação caótica, teve uma frase que ficará para a história do guionismo nacional : “trabalho em contexto de invisibilidade”. Mais tarde prosseguiu dizendo “não sei o que falhou, o sistema é complexo”. Já o produtor do filme, o Ministro da Presidência, Leitão Amaro, resolveu fazer um vídeo promocional, exibido nas suas redes sociais, mostrando-o em mangas de camisa a roer as unhas, com uma banda sonora emocionante, imagens a côr alternadas com um dramático preto e branco, e uma montagem ritmada, como se de uma aventura se tratasse. O realizador, Luís Montenegro, preocupado em não tomar posição sobre as presidenciais, teve também uma frase extraordinária para desculpar a inacção: “não conseguimos estar em todo o lado ao mesmo tempo”. E o Ministro da Economia recomendou às pessoas que se desenrascassem com o dinheiro dos salários - mesmo sabendo que muitas empresas locais terão dificuldade em os pagar. Em geral os governantes confessaram-se em estado de aprendizagem colectiva, às nossas custas, claro. O físico Carlos Fiolhais sintetizou o que se passa: “Embora ferida, Leiria existe, mas o governo não. Leiria existe sem o governo. Num contexto de alterações climáticas, temos de estar preparados para novas catástrofes, em Leiria e noutros sítios. E era bom que o governo passasse a existir.” O Estado português que consome 45% do PIB, falha na resposta a mais uma catástrofe, evidencia falta de liderança e uma aflitiva desorganização. Nas zonas mais atingidas pela tempestade há milhão e meio de eleitores, milhares deles ainda sem electricidade nem internet, centenas com casas destruídas, milhares de postos de trabalho em risco devido à destruição das instalações de muitas empresas. Estes eleitores, que durante 48 horas se viram abandonados pelo Governo, terão ânimo e vontade de votar? Se muita gente já tinha dúvidas sobre o funcionamento do Estado, os acontecimentos dos últimos dias reforçaram o sentimento de falta de confiança nos políticos. O que se passou é um péssimo serviço à democracia que só ajuda os que a querem enfraquecer. 


 


SEMANADA - O salário mínimo português caíu em 2026 para 12º lugar entre os 22 países da União Europeia e está abaixo da média da zona euro que é de 1346 euros; em 2025 a economia portuguesa cresceu 1,9%, abaixo da meta do Governo; a receita fiscal em 2025 aumentou mais de 3000 milhões de euros e o investimento público nesse ano desceu outro tanto; a receita do IMT ultrapassou no ano passado os dois mil milhões de euros, o valor mais elevado de sempre e que representa um aumento de 271% face a 2015; as contribuições de estrangeiros para a  Segurança Social no ano passado voltaram a subir de 3,6 mil milhões para 4,1 mil milhões e nos sectores da agricultura, pescas e florestas mais de metade das receitas vieram de trabalhadores imigrantes; um estudo de Fernando Freire de Sousa, professor da Faculdade de Economia do Porto, que compara 27 países europeus, coloca Portugal na 25ª posição em potencial económico e estrutura económica, na 27ª posição em desempenho social e estrutura social; a segurança social tem 854 imóveis devolutos de um total de 2561 que gere e as rendas por cobrar ultrapassam os 33 milhões; a CP tem mais de 30% da frota de carruagens dos comboios intercidades imobilizada nas oficinas por falta de pessoal e peças; o aeroporto de Lisboa atingiu um novo recorde de passageiros no ano passado, com 36,1 milhões de passageiros; os cinemas portugueses registaram no ano passado 10,9 milhões de espectadores o pior número desde 1996, com excepção da época da pandemia;   desde o início de 2025 já encerraram mais de meia centena de salas de cinema em todo o país e há vários distritos sem exbição comercial de filmes.


 


O ARCO DA VELHA - Em 2025 aumentou a actividade dos amigos do alheio e as autoridades registaram 6153 roubos feitos por carteiristas, sobretudo a turistas. Um dos detidos em flagrante delito é um reincidente de 71 anos que tinha no quarto telemóveis, dinheiro e cartões bancários roubados.


 


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ESCULTURAS PROVOCANTES - “Inverno” é a nova exposição de André Romão, um escultor que estudou em Lisboa e Milão e que recebeu em 2007 o prémio EDP Novos Artistas e o BES Revelação em 2013. Romão, 42 anos, apresenta agora na Galeria Vera Cortês esta nova exposição com oito obras, uma parte feita a partir de materiais encontrados, mas retrabalhados pelo artista, a partir de  fragmentos de madeira, cerâmica, bronze e outros materiais. Na imagem está “Ferida Fóssil”, uma escultura produzida a partir de uma peça de cerâmica vidrada dos anos 60, francesa, e coral vermelho mediterrânico. O trabalho de André Romão cruza-se com a poesia e neste caso parte de uma poesia de Yeats. Uma das peças, um fragmento de madeira retrabalhado, incorpora folhas  de árvore de cânfora do jardim da artista Lourdes Castro, no Funchal. Estas obras de Romão misturam técnicas e materiais e constroem novas realidades, abrindo numerosas possibilidades de interpretação. A exposição fica patente até 14 de Março na Galeria Vera Cortês, Rua João Saraiva 16-1º. em Lisboa.


 


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ROTEIRO“No Words” é  a nova exposição de Isa Toledo na Galeria Miguel Nabinho (Rua Tenente Ferreira Durão 18)  e representa uma evolução assinalável no percurso criativo da artista, mostrando trabalhos que incorporam diversas técnicas e materiais com uma utilização constante de colagens. São 18 obras, todas da mesma dimensão (70x50). Na imagem Isa Toledo junto da obra “Carro da Ana”, na qual colocou aplicações de latão sobre flanela. Na Galeria Filomena Soares (Rua da Manutenção 80) é apresentada “Works In Dialogue”, uma exposição colectiva de artistas ligados à própria galeria. E na Sociedade Nacional de Belas-Artes (Rua Barata Salgueiro 36), pode ver até 28 de Fevereiro a exposição “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade”, que apresenta 94 obras originais, entre pinturas, desenhos e estudos, incluindo sete grandes telas realizadas nos últimos anos de vida do artista.


 


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UMA MEMÓRIA - O destaque de hoje é um livro de fotografia, construído a partir do arquivo fotográfico de Álvaro Rosendo e que mostra a sua visão do que se passou no mundo da música, jornais e outras artes, nesse período explosivo de criatividade entre 1982 e 1996. Observador privilegiado, Álvaro Rosendo, que nessa época passou nomeadamente pelas redacções do “Blitz” e “O Independente”, acompanhou por exemplo a primeira digressão dos Xutos & Pontapés, mas também de bandas de culto dessa época como Peste & Sida ou Croix Sainte. Integralmente fotografado a preto e branco, com uma intensidade que só a proximidade dos fotografados proporciona, o livro traz, em cerca de 250 páginas, memórias de nomes como Rui Reininho, Madredeus, Rádio Macau, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Pedro Cabrita Reis, Manuel João Vieira, Pedro Burmester, Maria João Pires, Carlos Paredes ou Inês de Medeiros, mas também de contemporâneos seus de fotografia, como Inês Gonçalves ou Daniel Blaufuks - e cito apenas alguns dos muitos fotografados. “Love Song” é um testemunho apaixonado de uma época, uma espécie de diário da aventura que foi percorrer esses anos.  Nesta empreitada Álvaro Rosendo teve a colaboração do radialista Henrique Amaro, ele próprio um dos protagonistas maiores, ainda hoje bem activo, e a concepção gráfica de Pedro Falcão. O livro está à venda exclusivamente através do site da editora, tintadachina.pt .


 


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MESA DE CABECEIRA - O título é certeiro:  “Impensável”. A neurocientista britânica Helen Thomson passou anos a viajar pelo mundo, investigando perturbações cerebrais raras. Neste livro conta as histórias de nove pessoas, desde o homem que pensa que é um tigre até ao médico que sente a dor dos outros apenas ao olhar para eles, passando pela mulher que ouve música que não existe.  A autora mostra como o cérebro pode moldar as nossas vidas de formas inesperadas e, em alguns casos, brilhantes e alarmantes. A edição é da Temas e Debates. Outro livro que vale a pena conhecer é “Relatividade”, de Albert Einstein. Escrito para leitores não especialistas, neste livro o físico apresenta as suas duas teorias da relatividade: a Teoria Especial, que trata da constância da velocidade da luz e da equivalência entre massa e energia; e a Teoria Geral, que explica de que modo a gravidade afeta a curvatura do espaço-tempo. Estas teorias revolucionaram a ciência e transformaram a forma como entendemos o universo, moldaram a física moderna e abriram caminho para a era espacial, a astrofísica e a tecnologia do nosso quotidiano. Edição Bertrand.


 


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SILÊNCIO -  “Stille” é o quarto álbum do músico de jazz dinamarquês Jesper Thorn, compositor e baixista. Stille, uma palavra dinamarquesa que tanto pode significar calma como silêncio, tem oito temas que, segundo o seu autor,  evocam a capacidade de a música ser um refúgio para parar e reflectir. Thorn é acompanhado por Marc Méan no piano, Andreas Bernitt no violino, Cecilie Strange no saxofone e Maj Berit Guassora no trompete. O grupo explora uma sonoridade muito própria do jazz nórdico, elaborando uma atmosfera musical que combina o lado intimista com o emocional. Edição ECM, disponível em streaming.


 


ALMANAQUE - Em Paris, no Jeu de Paume, um centro de arte focado na fotografia e no vídeo, está até 24 de Maio uma exposição dedicada à obra do fotógrafo inglês Martin Parr, recentemente falecido, e que exibe várias séries do seu trabalho realizadas a partir dos anos 70,  sob o título “Global Warning”.


 


DIXIT - “Em vez de proibimos a IA devíamos ter uma disciplina obrigatória e transversal a todos os cursos sobre o seu uso ético e responsável” - Luís Aguiar-Conraria, no Expresso


 


BACK TO BASICS -  "Exigência e intransigência são as primeiras palavras que me vêm à cabeça. E trabalho, muito trabalho, sempre e cada vez mais trabalho. O talento e a inspiração são coisas muito lindas, mas trabalhar, trabalhar, trabalhar" - João Canijo


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS