
NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA - Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara de Coimbra, tinha construído um perfil político simpático, mostrou competência em diversos assuntos e aparentemente não se esquivava a um debate - veja-se o bate-boca com um Ministro depois das tempestades do início deste ano. Na semana passada deitou tudo a perder quando proclamou publicamente que retirava a confiança a um jornalista da Lusa que havia feito uma notícia desfavorável para a Câmara a que ela preside. O comportamento de Abrunhosa reflecte aquilo a que infelizmente se tem assistido, cada vez com maior frequência, por parte de responsáveis políticos na sua relação com os media. A autarca incomodou-se com o facto de uma notícia ter sido divulgada sem a posição da Câmara - mas esqueceu-se que, interrogados pelo jornalista, os serviços da autarquia não responderam durante uma série de dias e foram dizendo que mais à frente responderiam, não o tendo feito em tempo útil. O jornalista publicou a notícia e informou que a autarquia, contactada, não tinha respondido, o que é verdade. Na realidade Ana Abrunhosa entende que pode controlar o timing de publicação da notícia e que, no seu entender, as notícias deviam esperar pelo seu aval. Cada vez mais frequentemente muitos políticos, a começar pelos membros do Governo e em particular o Primeiro Ministro, mas também líderes da oposição, querem usar os jornalistas como meros amplificadores das suas palavras. A proliferação de conferências de imprensa e declarações sem direito a perguntas tem vindo a acentuar-se, e é uma prova do receio de que questões incómodas possam estragar a declaração cuidadosamente preparada para transmitir uma impressão positiva. E Leitão Amaro até se propõe, disfarçadamente, rastrear a actividade de jornalistas incómodos para o Governo. O comportamento de Ana Abrunhosa é semelhante: gostaria de não ter perguntas incómodas a que responder. Abrunhosa, ex-Ministra de Costa e eleita pelo PS em Coimbra, tem esta atitude bizarra de “retirar a confiança” a um jornalista da Lusa precisamente quando o futuro da governação da Agência de Notícias é tema de divergência entre o PSD e o PS. Os socialistas temem uma instrumentalização do noticiário da agência pelo Governo, mas uma sua destacada militante pretende fazer isso mesmo na sua esfera local, pretendendo ser ela a ditar a forma de proceder dos jornalistas. Informar, por muito que custe, é relatar o que se passa, quer o que se passa bem, quer o que se passa mal. Há quem não goste disto, talvez qualquer dia fiquem a falar sozinhos para cadeiras vazias - e é bem feito!
SEMANADA - Em 2025 as fraudes com criptomoedas atingiram quase 15 milhões de euros; 17% dos jovens entre 15 e 34 anos desempenham funções fora da sua área de formação, a segunda maior percentagem na UE; os crimes de natureza sexual contra menores subiram 85% entre 2022 e 2025; um quinto dos arguidos por violação tem menos de 20 anos; entre 27 de Março e 6 de Abril, no período da Páscoa, foram registadas pela PSP 430 ocorrências de violência doméstica e detidos 19 suspeitos da prática desse crime; no ano passado os portugueses apostaram 3.143 milhões de euros em jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma média de 8,6 milhões por dia; a “raspadinha” já representa 60% das vendas brutas de jogo da Santa Casa; os dados divulgados no Portal da Transparência do SNS mostram que no final de janeiro havia 10 746 324 inscritos nos cuidados de saúde primários, mais 231 404 que em janeiro de 2025; no ano passado quase metade da população residente em Portugal com 16 ou mais anos afirmou ter uma doença crónica ou problema de saúde prolongado, o que coloca Portugal, neste índice, como o terceiro pior entre os 27 países da União Europeia; a urgência do Hospital Amadora Sintra perdeu metade dos médicos desde o ano passado;
O ARCO DA VELHA - O fisco pretende que as indemnizações às vítimas de abusos sexuais praticados por membros da Igreja Católica estejam sujeitas a IRS.

ARTES & MODAS - Até 21 de Junho, na Galeria principal do Museu Calouste Gulbenkian, criações de moda de grandes estilistas estão em confronto com obras da Colecção Gulbenkian. Ao longo da exposição, uma selecção de obras de arte, do Antigo Egito ao século XX, surge lado a lado com peças assinadas por Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Hubert de Givenchy, Azzedine Alaïa e, no panorama nacional, por criadores como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar. Assim se cruzam a pintura clássica com o design contemporâneo e o vestuário, permitindo encontrar paralelos e evoluções. A exposição “Arte & Moda” tem curadoria de Eloy Martínez de la Pera Celada e integra as comemorações do 70.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian. Na imagem, uma fotografia de Jon Cazenave, mostra uma Cómoda da autoria de Jean Deforges, do século XVIII, em carvalho e ébano, laca japonesa, bronze e mármore junto a um vestido de Nuno Baltazar, em tule e malha de fibra artificial e lantejoulas, da colecção do Museu do Traje, de Lisboa.

ROTEIRO - No Museu do Caramulo pode ser vista a exposição “White Box #1: Intervalos”, que assinala a conclusão da primeira de três residências artísticas que compõem o ciclo White Box, um programa de criação contemporânea que se estenderá até 2028. Com curadoria de José Maçãs de Carvalho, artista e director do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, a exposição reúne obras originais de Daniela Krtsch (na imagem), João Fonte Santa, Fabrizio Matos e Catarina Leitão. Os artistas trabalharam localmente na Serra do Caramulo, junto das colecções do museu com o objectivo de criar obras que estabelecem novas leituras sobre o acervo existente na instituição. No Porto, no Centro Português de Fotografia, podem ser vistas três exposições: uma antologia da fotógrafa norte-americana Vivian Maier, uma retrospectiva do trabalho de Louise Samson sobre a presença cigana em Portugal, entre 1983 e 2023 e “África Vista Por Duas Gerações”, de Ernst Schade e Carol Alexander Schade. Em Lisboa, na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Bárbara Faden apresenta desenhos e pinturas sob o título “Solta Azul, Céu da Boca”. No Linhó, perto de Sintra, a Albuquerque Foundation apresenta, além da sua colecção permanente, “Nature Boy”, que reúne pinturas e cerâmicas de Phoebe Collings‑James.

MEMÓRIAS LISBOETAS - Depois de ter recordado a Lisboa dos anos 60, 70 e 80, Joana Stichini Vilela mergulhou agora na Lisboa dos anos 90, mais uma vez em colaboração com Pedro Fernandes. Como em edições anteriores, Joana Stichini Vilela faz a investigação e escreve e Pedro Fernandes cria o grafismo e combina as imagens que acompanham o texto. Cada livro é um trabalho a quatro mãos que consegue transformar um puzzle de informação dispersa num objecto de leitura com pés e cabeça. "LX 90- A Lisboa Em Que Tudo É Posível" começa com o lançamento do diário “Público” e termina com os receios do Bug do Milénio, o caos anunciado na transição do século XX para o XXI. Pelo meio ficam a morte de Amália Rodrigues, o caso da Universidade Moderna, a Expo 98, o Lux Frágil, a feijoada de inauguração da Ponte Vasco da Gama, os Governos de Cavaco e de Guterres, o bloqueio da Ponte 25 de Abril, a Lisboa Capital Cultural, em 94, a música dos Excesso e o explodir de Pedro Abrunhosa, os telefones Nokia, o Centro Comercial Colombo, o CCB e a presidência portuguesa da União Europeia, o nascimento da televisão privada, a campanha de solidariedade com Timor e o barco Lusitânia Expresso, a chegada da McDonald’s, a estreia de “Passa Por Mim no Rossio” no Teatro Nacional, os primeiros filmes de Pedro Costa e de Teresa Villaverde, o Alcântara-Mar e o Johnny Guitar, a revista Kapa e os Rolling Stones em Alvalade. 280 páginas de memórias bem lembradas em texto, grafismo e imagem. Edição D. Quixote.

MESA DE CABECEIRA -A recente missão da Artemis I à volta da Lua é um bom pretexto para ler “A Teoria de Tudo”, de Stephen Hawking, uma viagem pelo universo e pelos limites do conhecimento humano. Hawking, o físico que desvendou os segredos dos buracos negros e da origem do universo, tem a capacidade rara de transformar conceitos complexos em descobertas acessíveis. O livro começa pela história das teorias do universo de Aristóteles, que afirmou que a Terra era redonda, e prossegue até à descoberta de Hubble de que o universo se encontra em expansão. Como começou tudo? - esta é a pergunta a que Hawking tenta responder nesta obra, uma edição Gradiva. Outro autor, Tristan Gooley, apelidado de Sherlock Holmes da natureza, escreveu o magnífico “Como Ler Uma Árvore”. Segundo o autor, cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa árvore e a paisagem em que nos encontramos. “Como Ler Uma Árvore” revela os princípios simples que explicam as formas e os padrões que podemos encontrar nas árvores e o seu significado. Tristan Gooley dedicou a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza e, depois de aprender a ver as pistas que a natureza lhe dá, nunca mais vai olhar para uma árvore da mesma maneira. Uma edição Pergaminho.

TRIO INVULGAR - O primeiro disco do trio composto por Craig Taborn no piano, Tomeka Reid, Tomeka Reid no violoncelo e Ches Smith na percussão e bateria chama-se “Dream Archives” e percorre numerosos ambientes sonoros que vão desde ritmos de dança a melodias suaves, numa mistura arriscada de jazz contemporâneo, música de câmara e electrónica, num trabalho de arranjos invulgar. Com quatro originais compostos por Taborn e versões de “Mumbo Jumbo” de Paul Motian e de “When Kabuya Dances”, de Geri Allen, esta última a merecer destaque especial. A forma como o violoncelo é tocado, para formar a secção rítmica com a percussão, é invulgar e merece uma audição atenta. Edição ECM disponível em streaming.
ALMANAQUE - Na Fundação Louis Vuitton, em Paris, poderá ver até 16 de Agosto uma grande exposição dedicada à obra de Alexander Calder, o autor quer de esculturas monumentais, quer de pequenas peças abstractas que exploram possibilidades de movimento. Com cerca de 300 obras, “Calder, Rêver en Equilibre” é a maior exposição do seu legado.
DIXIT - “Esta guerra está a ser travada dentro do ambiente mediático mais tóxico de que há memória e que ninguém consegue, ou deseja, travar” - Clara Ferreira Alves, no Expresso
BACK TO BASICS - “Nunca anunciei o inferno, apenas falei verdade e acharam que eu estava a falar do inferno” - Harry S. Truman
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS








































