abril 17, 2026

QUANDO O PODER TEM A TENTAÇÃO DE ESCONDER

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NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA - Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara de Coimbra, tinha construído um perfil político simpático, mostrou competência em diversos assuntos e aparentemente não se esquivava a um debate - veja-se o bate-boca com um Ministro depois das tempestades do início deste ano. Na semana passada deitou tudo a perder quando proclamou publicamente que retirava a confiança a um jornalista da Lusa que havia feito uma notícia desfavorável para a Câmara a que ela preside.  O comportamento de Abrunhosa reflecte aquilo a que infelizmente se tem assistido, cada vez com maior frequência, por parte de responsáveis políticos na sua relação com os media. A autarca incomodou-se com o facto de uma notícia ter sido divulgada sem a posição da Câmara - mas esqueceu-se que, interrogados pelo jornalista, os serviços da autarquia não responderam durante uma série de dias e foram dizendo que mais à frente responderiam, não o tendo feito em tempo útil. O jornalista publicou a notícia e informou que a autarquia, contactada, não tinha respondido, o que é verdade. Na realidade Ana Abrunhosa entende que pode controlar o timing de publicação da notícia e que, no seu entender, as notícias deviam esperar pelo seu aval. Cada vez mais frequentemente muitos políticos, a começar pelos membros do Governo e em particular o Primeiro Ministro, mas também líderes da oposição, querem usar os jornalistas como meros amplificadores das suas palavras. A proliferação de conferências de imprensa e declarações sem direito a perguntas tem vindo a acentuar-se, e é uma prova do receio de que questões incómodas possam estragar a declaração cuidadosamente preparada para transmitir uma impressão positiva. E Leitão Amaro até se propõe, disfarçadamente, rastrear a actividade de jornalistas incómodos para o Governo. O comportamento de Ana Abrunhosa é semelhante: gostaria de não ter perguntas incómodas a que responder. Abrunhosa, ex-Ministra de Costa e eleita pelo PS em Coimbra, tem esta atitude bizarra de “retirar a confiança” a um jornalista da Lusa precisamente quando o futuro da governação da Agência de Notícias é tema de divergência entre o PSD e o PS. Os socialistas temem uma instrumentalização do noticiário da agência pelo Governo, mas uma sua destacada militante pretende fazer isso mesmo na sua esfera local, pretendendo ser ela a ditar a forma de proceder dos jornalistas. Informar, por muito que custe, é relatar o que se passa, quer o que se passa bem, quer o que se passa mal. Há quem não goste disto, talvez qualquer dia fiquem a falar sozinhos para cadeiras vazias -  e é bem feito!


SEMANADA - Em 2025 as fraudes com criptomoedas atingiram quase 15 milhões de euros; 17% dos jovens entre 15 e 34 anos desempenham funções fora da sua área de formação, a segunda maior percentagem na UE; os crimes de natureza sexual contra menores subiram 85% entre 2022 e 2025; um quinto dos arguidos por violação tem menos de 20 anos; entre 27 de Março e 6 de Abril, no período da Páscoa, foram registadas pela PSP 430 ocorrências de violência doméstica e detidos 19 suspeitos da prática desse crime; no ano passado os portugueses apostaram 3.143 milhões de euros em jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma média de 8,6 milhões por dia; a “raspadinha” já representa 60% das vendas brutas de jogo da Santa Casa; os dados divulgados no Portal da Transparência do SNS mostram que no final de janeiro havia 10 746 324 inscritos nos cuidados de saúde primários, mais 231 404 que em janeiro de 2025; no ano passado quase metade da população residente em Portugal com 16 ou mais anos afirmou ter uma doença crónica ou problema de saúde prolongado, o que coloca Portugal, neste índice, como o terceiro pior entre os 27 países da União Europeia; a urgência do Hospital Amadora Sintra perdeu metade dos médicos desde o ano passado;


O ARCO DA VELHA - O fisco pretende que as indemnizações às vítimas de abusos sexuais praticados por membros da Igreja Católica estejam sujeitas a IRS.


 


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ARTES & MODAS - Até 21 de Junho, na Galeria principal do Museu Calouste Gulbenkian, criações de moda de grandes estilistas estão em confronto com obras da Colecção Gulbenkian. Ao longo da exposição, uma selecção de obras de arte, do Antigo Egito ao século XX, surge lado a lado com peças assinadas por Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Hubert de Givenchy, Azzedine Alaïa e, no panorama nacional, por criadores como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar. Assim se cruzam a pintura clássica com o design contemporâneo e o vestuário, permitindo encontrar paralelos e evoluções. A exposição Arte & Moda tem curadoria de Eloy Martínez de la Pera Celada e integra as comemorações do 70.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian. Na imagem, uma fotografia de Jon Cazenave, mostra uma Cómoda da autoria de Jean Deforges, do século XVIII, em carvalho e ébano, laca japonesa, bronze e mármore junto a um vestido de Nuno Baltazar, em tule e malha de fibra artificial e lantejoulas, da colecção do Museu do Traje, de Lisboa.


 


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ROTEIRO - No Museu do Caramulo pode ser vista a exposição “White Box #1: Intervalos”, que assinala a  conclusão da primeira de três residências artísticas que compõem o ciclo White Box, um programa de criação contemporânea que se estenderá até 2028. Com curadoria de José Maçãs de Carvalho, artista e director do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, a exposição reúne obras originais de Daniela Krtsch (na imagem), João Fonte Santa, Fabrizio Matos e Catarina Leitão. Os artistas trabalharam localmente na Serra do Caramulo, junto das  colecções do museu com o objectivo de criar obras que estabelecem novas leituras sobre o acervo existente na instituição. No Porto, no Centro Português de Fotografia, podem ser vistas três exposições: uma antologia da fotógrafa norte-americana Vivian Maier, uma retrospectiva do trabalho de Louise Samson sobre a presença cigana em Portugal, entre 1983 e 2023 e “África Vista Por Duas Gerações”, de Ernst Schade e Carol Alexander Schade. Em Lisboa, na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Bárbara Faden apresenta desenhos e pinturas sob o título “Solta Azul, Céu da Boca”. No Linhó, perto de Sintra, a Albuquerque Foundation apresenta, além da sua colecção permanente,  “Nature Boy”, que reúne pinturas e cerâmicas de Phoebe Collings‑James.


 


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MEMÓRIAS LISBOETAS  - Depois de ter recordado a Lisboa dos anos 60, 70 e 80, Joana Stichini Vilela mergulhou agora na Lisboa dos anos 90, mais uma vez em colaboração com Pedro Fernandes. Como em edições anteriores, Joana Stichini Vilela faz a investigação e escreve e Pedro Fernandes cria o grafismo e combina as imagens que acompanham o texto. Cada livro é um trabalho a quatro mãos que consegue transformar um puzzle de informação dispersa num objecto de leitura com pés e cabeça.  "LX 90- A Lisboa Em Que Tudo É Posível" começa com o lançamento do diário “Público” e termina com os receios do Bug do Milénio, o caos anunciado na transição do século XX para o XXI. Pelo meio ficam a morte de Amália Rodrigues, o caso da Universidade Moderna, a Expo 98, o Lux Frágil, a feijoada de inauguração da Ponte Vasco da Gama, os Governos de Cavaco e de Guterres, o bloqueio da Ponte 25 de Abril, a Lisboa Capital Cultural, em 94, a música dos Excesso e o explodir de Pedro Abrunhosa, os telefones Nokia, o Centro Comercial Colombo, o CCB e a presidência portuguesa da União Europeia, o nascimento da televisão privada, a campanha de solidariedade com Timor e o barco Lusitânia Expresso, a chegada da McDonald’s, a estreia de “Passa Por Mim no Rossio” no Teatro Nacional, os primeiros filmes de Pedro Costa e de Teresa Villaverde, o Alcântara-Mar e o Johnny Guitar, a revista Kapa e os Rolling Stones em Alvalade. 280 páginas de memórias bem lembradas em texto, grafismo e imagem. Edição D. Quixote.


 


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MESA DE CABECEIRA -A recente missão da Artemis I  à volta da Lua é um bom pretexto para ler “A Teoria de Tudo”, de Stephen Hawking, uma viagem pelo universo e pelos limites do conhecimento humano. Hawking, o  físico que desvendou os segredos dos buracos negros e da origem do universo,  tem a capacidade rara de transformar conceitos complexos em descobertas acessíveis. O livro começa pela história das teorias do universo de Aristóteles, que afirmou que a Terra era redonda, e prossegue até à descoberta de Hubble de que o universo se encontra em expansão. Como começou tudo? - esta é a pergunta a que Hawking tenta responder nesta obra, uma edição Gradiva. Outro autor, Tristan Gooley, apelidado de Sherlock Holmes da natureza, escreveu o magnífico “Como Ler Uma Árvore”. Segundo o autor, cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa árvore e a paisagem em que nos encontramos. “Como Ler Uma Árvore” revela os princípios simples que explicam as formas e os padrões que podemos encontrar nas árvores e o seu significado. Tristan Gooley dedicou a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza e, depois de aprender a ver as pistas que a natureza lhe dá, nunca mais vai olhar para uma árvore da mesma maneira. Uma  edição Pergaminho.


 


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TRIO INVULGAR - O primeiro disco do trio composto por Craig Taborn no piano, Tomeka Reid, Tomeka Reid no violoncelo e Ches Smith na percussão e bateria chama-se “Dream Archives” e percorre numerosos ambientes sonoros que vão desde ritmos de dança a melodias suaves, numa mistura arriscada de jazz contemporâneo, música de câmara e electrónica, num trabalho de arranjos invulgar. Com quatro originais compostos por Taborn e versões de “Mumbo Jumbo” de Paul Motian e de “When Kabuya Dances”, de Geri Allen, esta última a merecer destaque especial. A forma como o violoncelo é tocado, para formar a secção rítmica com a percussão, é invulgar e merece uma audição atenta. Edição ECM disponível em streaming.


ALMANAQUE - Na Fundação Louis Vuitton, em Paris, poderá ver até 16 de Agosto uma grande exposição dedicada à obra de Alexander Calder, o autor quer de esculturas monumentais, quer de pequenas peças abstractas que exploram  possibilidades de movimento. Com cerca de 300 obras, “Calder, Rêver en Equilibre” é a maior exposição do seu legado.


DIXIT - “Esta guerra está a ser travada dentro do ambiente mediático mais tóxico de que há memória e que ninguém consegue, ou deseja, travar” - Clara Ferreira Alves, no Expresso


BACK TO BASICS -  “Nunca anunciei o inferno, apenas falei verdade e acharam que eu estava a falar do inferno” - Harry S. Truman



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




abril 11, 2026

O ENCANTO DO ESMALTE

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Confesso-me devoto de utensílios de cozinha. Percorro deliciado lojas com esse material e nas feiras demoro-me nas bancas que os apresentam como velharias. Muitos estão em óptimo estado e só me apetece levá-los para casa. Vejam este conjunto de três peças de esmalte, uma concha de sopa, um escorredor e um coador, cores vivas, branco e encarnado, feitos de um material fantástico, entretanto caído em desuso, que é o esmalte. Foram encontrados numa feira de velharias.Nas lojas de utensílios novos não se vêem cores assim - abunda o metal nu, o plástico cinzento, coisas que tiram brilho às cozinhas. A verdade verdadinha é que prefiro uma colher de pau a uma colher de plástico. As colheres de pau não se destinam apenas a mexer o cozinhado, na verdade são objectos multifunções, servem para as mais variadas coisas, basta deixar correr a imaginação. Na cozinha defendo-as e, pensem o que quiserem, mas prefiro trabalhar um ovo mexido com uma colher de pau do que com uma espátula de plástico. Nos mercados tradicionais ainda é possível encontrar esmaltes, colheres de pau, almofarizes de madeira, assadeiras de barro e um sem número de outros utensílios pré-bimby e micro-ondas. Coisas verdadeiras para fazer cozinhados autênticos. Alguma razão há-de haver para a caríssima panela Le Creuset ser ferro coberto a esmalte. Alguma razão deve haver para as frigideiras de ferro e esmalte serem um dos melhores utensílios para fazer cozinhados que precisam de ir ao forno depois de estarem ao lume. Tenho utensílios de cozinha que têm dezenas de anos e não me consigo separar deles, por mais gastos e usados que estejam. Não consigo entender como alguém trocou estas peças de esmalte por bugiganga plástica.


(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)




abril 10, 2026

PONTO DE SITUAÇÃO EM AUDIÊNCIAS E PUBLICIDADE

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AUDIÊNCIAS E PUBLICIDADE - Com o primeiro trimestre do ano concluído, como vão as audiências de televisão? A TVI liderou no mês de Janeiro, a SIC liderou no mês de Fevereiro e os dois canais estiveram praticamente empatados em Março. A RTP1 ficou em terceiro lugar com 11,2% de share de audiências, que compara com 14,3% da TVI e SIC. Nas 13 semanas deste trimestre a SIC liderou em oito e a TVI em cinco. Os programas mais vistos do ano até agora foram as transmissões de jogos da Taça de Portugal pela RTP1, seguidos por “Secret Story”, a final do Euro de Futsal entre Portugal e a Espanha, “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” e “O Preço Certo”. A noite eleitoral da primeira volta das presidenciais ficou num modesto 23º lugar da lista dos 50 mais vistos dos canais generalistas. Na lista dos 50 programas mais vistos do cabo há uma curiosidade: 49 foram transmitidos pela CMTV e um pela CNN. Se olharmos para os canais de cabo, a liderança é do CMTV, seguido pela CNN, SIC Notícias, NOW e Globo empatados, e só depois a RTP Notícias. De audiências estamos conversados. E, de mercado publicitário, essa consequência directa das audiências, como vão  as coisas? Falando apenas de televisão, em 2025 voltou a registar-se uma ligeira queda do volume de investimento dos anunciantes. Os canais generalistas (RTP1, SIC e TVI) captaram quase 33 % do total do investimento dos anunciantes e os canais de cabo cerca de 13%. Em termos de comparação, o digital significou cerca de 31% e foi o segundo meio mais procurado. A seguir vieram o outdoor com quase 16%, rádio com mais de 5% e a imprensa, que em tempos era o segundo meio mais procurado pelos anunciantes, com apenas 1,4% do total. Em 2025 o investimento publicitário do mercado português cresceu 4%. Vamos ver como evolui este ano com a instabilidade internacional - mas no final de Fevereiro, antes de começar a guerra no Irão, os anunciantes já tinham colocado mais 10% do investimento que colocaram no mesmo período do ano passado.


 


SEMANADA - Na semana antes da Páscoa a ASAE desmantelou dois matadouros clandestinos com ligações a estabelecimentos de restauração e de comércio de carnes e apreendeu 2,200 quilos de carcaças de animais, maioritariamente ovinos e caprinos;  Portugal vai ter um corte de 12% no próximo orçamento da União Europeia; 70% dos dividendos entregues por empresas cotadas na Bolsa nacional vão para fora de Portugal; a linha de prevenção do suicídio teve 12 mil chamadas em seis meses; em 2025 passaram na ponte 25 de Abril mais de 54 milhões de veículos, o valor mais alto da última década; segundo a comissão europeia a habitação está sobrevalorizada em  35% em Portgal; os crimes graves desceram nas três maiores cidades do país mas cresceram no interior, em 11 dos 18 distritos; os cigarros mal apagados estiveram na origem de quase um quinto da área ardida em Portugal em 2025, o valor mais elevado dos últimos 15 anos, tendo dado origem a 281 incêndios florestais, que destruíram mais de 47 mil hectares de floresta e zonas rurais; nas cadeias portuguesas, em dezembro de 2025, havia 2374 reclusos de 86 nacionalidades diferentes; na Operação Páscoa foram registados  cerca de 2.300 acidentes, dos quais resultaram 18 vítimas mortais e perto de 800 feridos; a PSP e a GNR detectaram mais de 630 condutores com excesso de alcool, 294 com falta de carta de condução e 1480 em excesso de velocidade; as vendas de carros eletrificados em Portugal dispararam 27,5% em março e 35% no primeiro trimestre, num contexto em que os preços dos combustíveis estão em alta devido à guerra no Irão.


 


O ARCO DA VELHA - Em dois anos 81% dos cibercrimes reportados acabaram arquivados devido à inexistência de recursos técnicos e humanos para a sua investigação.


 


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UM OLHAR TRABALHADO   - “Fernando Lemos: a Luz do Olhar” é o título de uma exposição que evoca o centenário de Fernando Lemos e que está patente até 8 de Novembro em Évora, no Centro de Arte e  Cultura da Fundação Eugénio de Almeida (Largo do Conde de Vila Flor). Esta exposição apresenta exclusivamente fotografias da coleção da Fundação Cupertino de Miranda, realizadas entre 1949 e 1952, um período decisivo e fundador da obra artística de Fernando Lemos,  e que constitui um dos núcleos mais  importantes da fotografia portuguesa do Século XX.  Este núcleo fotográfico desenvolveu-se paralelamente à intensa participação de Fernando Lemos no movimento surrealista português, nomeadamente no período que antecedeu a exposição de 1952, com Vespeira e Azevedo na Casa Jalco, e a sua partida para o Brasil, em 1953. Fernando Lemos foi uma figura incontornável da Arte Portuguesa do século XX, viveu entre 1926 e 2019, ano em que morreu em São Paulo. As fotografias de Fernando Lemos fogem à lógica do registo de momentos e são fruto de”encenações do inconsciente e do desejo, lugares onde a luz e a sombra se tornam instrumentos de pensamento.”, Estas imagens, sublinha-se no texto que acompanha a exposição, comissariada por Marlene Oliveira,  “resultam de um equilíbrio subtil entre o impulso e o controlo, entre o inconsciente e a consciência crítica.”


 


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ROTEIRO - Inês Moura (Prémio BES Revelação 2009), combina a fotografia, o desenho, a escrita, a colagem ou a escultura nos seus trabalhos. Nesta exposição “Carvão”, parte de um pequeno resíduo carbonizado de madeira (na imagem) para mostrar o que pode extrair em forma de imagem - sobretudo com recurso a fotografia e desenho. A ligação à natureza é um dado constante da sua obra e volta a ser o ponto central desta nova exposição que fica na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71) até final de Maio, juntamente com uma instalação “Começo, meio e começo”, de Ânia Pais, que de alguma forma se cruza com o trabalho de Inês Moura. No Museu Nacional de Arte Contemporânea pode ser visitada até 26 de Abril “Oferta”, a primeira exposição individual de Jaime Welsh num museu. A partir da arquitetura monumental do Estado Novo, marcada por uma forte carga política e por uma linguagem formal rigorosa, Welsh abordou com as suas fotografias encenadas e construídas, três edifícios centrais do modernismo em Portugal: o Banco Nacional Ultramarino, a Reitoria da Universidade de Lisboa e a Biblioteca Nacional de Portugal. 


 


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UMA LIÇÃO SOBRE A ARTE - “Toda A  Beleza do Mundo” é dos mais  fascinantes livros que recentemente me passaram pelas mãos. O autor, Patrick Bringley, trabalhou na área de eventos da revista “The New Yorker” e quando o irmão mais velho morreu, aos 26 anos, decidiu largar tudo e começar uma nova vida. Essa vida foi a de vigilante no Museu Metropolitano de Arte de Nova Iorque , onde esteve durante dez anos. Foi para lá propositadamente porque queria estar rodeado de coisas bonitas. Muito bem escrito, o livro tem sido um sucesso editorial em todo o mundo e o Sunday Times considerou-o ”o livro de arte mais notável do ano” quando foi editado, em 2023. Bringley leva-nos por todos os recantos dos museus, apresenta-nos algumas das maiores obras de arte do mundo, relata conversas com visitantes, lembra perguntas que lhe faziam. Já no fim do livro, ele deixa este recado aos visitantes: “se possível venha de manhã, quando o museu está mais calmo e, no início, não diga nada a ninguém, nem mesmo a um vigilante. Olhe para as obras de arte com os olhos abertos, pacientes e receptivos, e dê tempo a si próprio para descobrir os seus pormenores, bem como a sua presença global, a sua totalidade. Poderá não ter palavras para descrever as suas sensações, mas tente reparar nelas na mesma. Esperemos que, no silêncio e na quietude, experimente algo de invulgar ou inesperado. Aprenda tudo o que conseguir sobre o criador, a cultura e o significado pretendido de um objecto - normalmente um processo que nos torna mais humildes”. Edição Minotauro.


 


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MESA DE CABECEIRA - Patrícia Reis pôs-se à conversa com o arquitecto Álvaro Siza Vieira e o resultado é  o livro “A Última Lição de Álvaro Siza Vieira”. Este trabalho é o resultado de várias conversas onde Siza fala das suas origens, de como se apaixonou pela arquitectura, a sua  paixão pelo desenho e a escultura,  o gosto que tem em ensinar, a vida familiar, o impacto da tecnologia na sua profissão, a religião e a política. Pelo meio fala do seu plano de reconstrução do Chiado depois do Incêndio e também do trabalho que fez para a Expo 98 e do Pavilhão de Portugal e confessa que não se revê no que a Reitoria da Universidade de Lisboa fez ao edifício. É uma bela conversa, na colecção “A Última Lição”, da editora Contraponto. A vida de Marie Curie é o tema de um outro livro, escrito por Dava Sobel, uma jornalista que se especializou em temas científicos. “Os Elementos de Marie Curie” foi considerado um dos melhores livros de ciência do ano pelo jornal britânico The Guardian em 2024 e permite traçar um bom retrato de Marie Curie, a única laureada com o Prémio Nobel em duas áreas científicas distintas: Física, em 1903, com o seu marido, Pierre, e Química, sozinha, em 1911. De professora na Sorbonne, a operadora de Raios X na linha da frente da Primeira Guerra Mundial, amiga de Albert Einstein, Marie Curie inspirou gerações de jovens mulheres em todo o mundo a dedicarem as suas vidas à ciência. Edição Temas  & Debates.


 


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OUVIR - O compositor e baixista Miroslav Vitous, um dos fundadores dos Weather Report em 1970, afastou-se quando a banda abandonou o conceito inicial. Passou a tocar ao lado de nomes como Miles Davis, Chick Corea,  Jan Garbarek ou Jack de Johnette, entre outros.  Aos 78 anos o seu novo disco, “Mountain Call” é o reflexo de uma vida passada a encontrar pontos de contacto entre o jazz e a música clássica. No disco Vitous faz duetos improvisados com Jack  DeJohnette (que morreu em Outubro passado),  Esperanza Spalding, o saxofonista Bob Mintzer e o clarinetista francês Michel Portal, que morreu em Fevereiro . Edição ECM, disponível em streaming.






ALMANAQUE - “In Plain View” é o título de uma exposição de fotografias de Martin Parr, que inaugura a nova galeria e livraria da agência Magnum em Paris, no número 2 do Impasse Delaunay. Esta exposição de Martin Parr, um dos grandes fotógrafos da Magnum que morreu em Dezembro passado, pode ser vista até 6 de Junho.


 


DIXIT - “Se o PSD ceder (na revisão constitucional) no que seria a sua maior derrota, o recado fica dado aos eleitores: é melhor votar directamente no Chega e não por procuração no PSD - António Barreto, Público


 


BACK TO BASICS -  “A ignorância é a maior arma contra  a lógica” - Laurence J. Peter.



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abril 03, 2026

SINAIS PASCAIS

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Como é que se percebe que estamos à beira da Páscoa? Vários sinais contemporâneos bem evidentes: diminui o trânsito por causa das férias escolares; o cabrito  vai-se tornando um bem escasso em talhos e supermercados; multiplicam-se os formatos de folares de Páscoa; dá-se o milagre dos ovos, que em vez de saírem das galinhas andam em escaparates das mais diversas formas e feitios, sempre de chocolate; e finalmente proliferam os coelhos, por vezes espécie rara de encontrar, e que nesta altura do ano são de toda a forma, cor e feitio e também de chocolate, um produto em alta nesta época. Pergunto ao Chat CPT a razão de ser de tanta fartura e a resposta é célere: “ Os ovos e coelhos de chocolate na Páscoa simbolizam a vida, fertilidade e renascimento, fundindo tradições pagãs de primavera com a celebração cristã da ressurreição de Jesus. O coelho representa a fertilidade, enquanto o ovo representa o início da vida e a nova vida da ressurreição, com o chocolate tornando-se popular no séc. XIX.” Constato que, como acontece frequentemente, as tradições pagãs andam de braço dado com as católicas. E também observo como as festas religiosas estão, tão frequentemente ligadas à comida. Vejamos: no Natal sai o bacalhau e o perú, por vezes o leitão; na Páscoa é o cabrito, tudo acompanhado por sobremesas das respectivas épocas. É um pouco paradoxal que quer o nascimento de Jesus, quer a sua morte, sejam momentos, na religião católica, tão intimamente associados a comida e a excessos gastronómicos. A seguir virão inevitavelmente dietas, o purgatório dos comilões. Boas Páscoas.




abril 02, 2026

OS NÚMEROS DO AUDIOVISUAL EUROPEU

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EUROPA TV - Segundo o  relatório mais recente do Observatório Europeu do Audiovisual, o sector audiovisual europeu gerou cerca de 124 mil milhões de euros em 2024. Os gastos dos consumidores, incluindo assinaturas de plataformas de streaming, serviços de pay-TV, bilhetes de cinema e home video significaram cerca de metade deste valor, ou seja 72 mil milhões de euros. Apesar destes números e do crescimento do sector, a Europa representa apenas 12% das receitas das maiores produtoras internacionais. O volume de produção na Europa atingiu nesse ano um novo recorde, com 2523 filmes de ficção e documentários produzidos em 36 mercados, verificando-se um aumento dos orçamentos de produção na maior parte dos países. Analisando o comportamento dos públicos, verifica-se que a maioria das audiências europeias prefere séries a filmes - o relatório indica  que 78% preferem séries, o que compara com 22% que preferem filmes. Estes números confirmam como as séries são o pilar básico das receitas do streaming. Um dado a reter é que as plataformas de streaming estão cada vez mais a investir em conteúdos europeus. O investimento em produções europeias subiu de 8% em 2020 para 24% em 2024, o que se deve quer aos incentivos oficiais, quer ao interesse por histórias locais. Já este ano Alemanha criou novas regulamentações que obrigam a que as plataformas internacionais de streaming, mas também os operadores alemães, dediquem um mínimo de 8% das receitas obtidas na Alemanha a investimentos em produções locais e aqueles que investirem 12% das receitas ou mais terão incentivos e poderão beneficiar de medidas especiais de apoio. A Alemanha juntou-se assim a pelo menos 12 outros países europeus, que obrigam as plataformas de streaming a investir em produções locais. Já agora, segundo dados de inícios de 2026, mais de metade dos portugueses (cerca de 53,3% ) já utilizam plataformas de streaming, O consumo de vídeo on demand tornou-se o principal meio audiovisual em Portugal, superando a televisão tradicional, e as plataformas com mais utilizadores são Netflix, Disney+ e HBO.


 


SEMANADA - O preço da habitação em Portugal em 2025 aumentou 17,6%, o crescimento mais acentuado desde que há registo; na Grande Lisboa os salários aumentaram 47% numa década e o preço das casas mais que triplicou; a venda de casas no centro do país duplicou desde 2009; só estão aprovados 10% dos pedidos para recuperar casas afectadas pela tempestade Kristin; o preço médio da venda de habitação na Grande Lisboa teve um aumento de 136% em relaçao a 2009; durante 2025 o valor médio diário em jogos e apostas online em portugal foi de 63 milhões de euros; a venda de ouro em barras cresceu cerca de 50% desde o início do ano e as mais procuradas são as de 10 gramas, com um valor de cerca de 1400 euros; o nível de vida em Portugal caíu face à Europa e o PIB per capita em paridades de poder de compra recuou para 81% da média da União Europeia; na semana passada o preço do cabaz alimentar, constituído por 63 produtos essenciais monitorizados pela Deco, chegou aos 254,40 euros, um novo máximo histórico; Portugal vai ter um corte de 12% no próximo orçamento da União Europeia.


 


O ARCO DA VELHA - Com o segundo período escolar a terminar, o Ministério da Educação ainda não tem dados sobre o número de alunos sem aulas.


 


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UM MISTÉRIO ORIENTAL - Fiquei fascinado com “O Caso da Estação de Kamata”, um romance policial do japonês Seicho Matsumoto, publicado originalmente nos anos 60 e agora editado entre nós. A história desenvolve-se em torno do inspector Imanishi e do seu ajudante Yoshimura na investigação de um homicídio misterioso em Tóquio, ocorrido numa estação de comboio. O livro é uma viagem às tradições e à vida quotidiana no Japão daquela época e somos levados a conhecer hábitos, a acompanhar a cuidada e quase cerimoniosa forma de relacionamento entre as pessoas, a nível familiar e profissional. Matsumoto relata minuciosamente o método de investigação do inspector Imanishi e leva-nos a acompanhar o seu raciocínio, os avanços e recuos da investigação. Ao mesmo tempo proporciona-nos a descoberta de costumes regionais, já que a investigação se desenrola em vários locais. Assim descobrimos os dialectos,  os artesanatos, os costumes, numa sociedade em rápida transformação. A investigação tem como pano de fundo a transformação da sociedade japonesa no pós-guerra, a reconstrução de cidades devastadas e  o surgimento de novas tendências culturais e artísticas, em contraste com antigas actividades tradicionais e artesanais. Nem sequer falta um pouco de intriga política para apimentar o caso. A investigação dá muitas voltas e tem um final inesperado e surpreendente, depois de meses de pistas falsas e interrogatórios infrutíferos. Seicho Matsumoto é também autor de um outro policial, ”Tóquio Express”, igualmente arrebatador, e também já editado entre nós pela Editorial Presença.


 


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MESA DE CABECEIRA - “O Espectáculo do Poder” foi o título de uma belíssima exposição realizada no Padrão dos Descobrimentos em 2023, que documentava as exposições políticas realizadas pelo governo português entre 1934 e 1940, incluindo os pavilhões nacionais apresentados nos certames internacionais como o de Paris em 1937 e  de Nova Iorque, em 1939. E, claro, também a Exposição do Mundo Português em 1940. Comissariada por Annarita Gori, esta exposição do Padrão dos Descobrimentos deu origem a um livro, editado em finais de 2025, onde se reúne extensa documentação e muitas fotografias. O livro testemunha o esforço de propaganda do Estado Novo, que procurava dar uma imagem moderna de um país tradicional que vivia sob um regime onde liberdade de expressão e vida democrática eram inexistentes. Este livro está muito bem organizado e merece ser conhecido nestes conturbados tempos onde a amnésia bate forte nos políticos de serviço. Está disponível no Padrão dos Descobrimentos e nas livrarias municipais. Outro livro que encaixa bem no tempo presente é “A Mente Criminosa - As origens da violência, do engano e do crime”, de Paulo Finuras, sociólogo, doutorado em Ciência Política. O autor aborda temas como a natureza do crime, a arquitectura da agressão e violência, o crime sexual, o roubo e a fraude e analisa a ecologia social do crime, a evolução das instituições e como tentam controlar e prevenir o crime. Edição Sílabo.


 


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CORES FORTES, IMAGENS MARCANTES - Na galeria Cristina Guerra Contemporary Art a artista alemã Tatjana Doll apresenta “Come In”, uma exposição com 12 pinturas, a maior parte de grandes dimensões, mostrando representações de objectos reais, como automóveis neste caso, que convivem com a evocação de selos postais ou banda desenhada. A exposição organiza-se a partir de uma viatura de socorro médico acidentada, ponto de partida para uma explosão de cores, próxima por vezes da pop art e com evocações de Roy Lichtenstein. Ulrich Loock, autor da folha de sala da exposição, sublinha que “as fontes de Doll estendem-se, por isso, do pessoal ao público, articulam alta e baixa cultura, alternam entre a esfera da necessidade banal e a do luxo, até que as próprias distinções se esbatem. Ao pintar a partir de imagens preexistentes, a "ordem das coisas" instituída perde a sua força vinculativa; as separações categóricas deixam de ser nítidas.”  Esta é a terceira exposição de Tatjana Doll na Galeria Cristina Guerra e pode ser vista até 16 de Maio. (Rua de Santo António à Estrela 33).


 


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ROTEIRO - Daniel Blaufuks tem uma nova exposição na Galeria Vera Cortês, “(Ainda) À Espera de Godot”, que junta fotografias de várias dimensões, a cor e a preto e branco (na imagem). O cuidado colocado na luz que escolhe para fotografar transforma o que podiam ser imagens banais, levando-as a uma outra dimensão. Como tem sido frequente na obra de Blaufuks, as suas séries fotográficas surgem como diários do que vê à sua volta, um olhar sobre o quotidiano e a intimidade dos locais que mostra. Na Sociedade Nacional de Belas Artes está patente até 16 de Maio uma exposição sobre a obra de Lourdes Castro, que reúne um conjunto significativo de obras e documentos que permitem revisitar o percurso singular da artista, que viveu entre 1930 e 2022. A exposição mostra um vasto acervo documental proveniente maioritariamente do acervo particular da artista, que ajuda a localizar a sua obra marcada pela investigação em torno da sombra, da luz, da memória e da natureza. E na Galeria Ratton  (Rua da Academia das Ciências 2) Pedro Proença mostra os painéis de azulejo que fez para o futuro Hotel Trafaria.


 


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ROCK & JAZZ - Flea tem tido uma vida dupla nos últimos dois anos. De noite tocava baixo com os Red Hot Chilli Peppers, de que foi fundador,  nas suas digressões. E durante o dia estudava e praticava trompete, redescobrindo um instrumento que foi o primeiro que aprendeu a tocar, em miúdo, e o seu primeiro amor, que foi o jazz. O resultado desta aventura com trompete é “Honora”, um álbum, maioritariamente instrumental, com dez temas, das quais seis compostas por Flea e interpretações de “Thinkin’Bout You” de Frank Ocean e Shea Taylor, “Maggot Brain” de George Clinton e Eddie Hazel, “Wichita Lineman” de Jimmy Webb e “Willow Weep for Me” de Ann Ronell. No disco Flea toca trompete e baixo e é acompanhado pelo saxofonista Josh Johnson, o guitarrista Jeff Parker, a baixista Anna Butterss e o baterista Deantoni Parks. Participam também,  com atuações vocais especiais,  Thom Yorke em “Traffic Lights” e Nick Cave em “Wichita Lineman”, que destaco por ser uma interpretação extraordinária e pelo diálogo entre o trompete de Flea e a voz de Cave.  John Lurie, que também participa na aventura, sintetiza a coisa: “isto não é rock, não é jazz, é música”. Edição Nonesuch, disponível nas plataformas de streaming.



ALMANAQUE -  Em Madrid, na Fundação Canal, está patente a exposição  “Arte urbano. De los orígenes a Banksy”, que narra a evolução da arte urbana desde o seu nascimento nos anos 60 até à actualidade. São apresentadas seis dezenas de obras de nomes como Jean-Michel Basquiat, Keith Haring, Crash, Seen, Blek le Rat ou Vhils, passando pelos espanhóis SUSO33, El Xupet Negre e PichiAvo,



DIXIT -  “Estamos perante um início, um vulto de crise das instituições. A causa está no Parlamento, que não cumpre os seus deveres. A responsabilidade está nos partidos, que não desempenham com lealdade as suas funções”. - António Barreto, no Público.


 


BACK TO BASICS - A imaginação é a única grande arma na guerra contra a realidade - Jules de Gaultier.





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março 28, 2026

NATUREZA MAIS NATURAL NÃO HÁ 

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Já conhecia casas com vista para o mar  e casas de banho com belas vistas. Mas nunca tinha visto uma coisa assim: no meio do nada, na foz do Tejo, uma sanita tão bem colocada ao ar livre, tampa levantada encostada ao autoclismo,  um ramo de árvore a penetrar no seu interior. Quem fez isto tem uma clara intuição visual e arrisco pensar que foi alguém conhecedor da obra do surrealista Marcel Duchamp, autor do célebre urinol que ganhou honras de museu. Façamos um pouco de história: em 1917 Marcel Duchamp pegou num urinol de porcelana branca, invertido, a que chamou Fonte. Em vez de assinar a obra com o seu nome, assinou como R. Mutt. Enviada a obra para a exposição da Sociedade de Artistas Independentes em Nova Iorque, foi rejeitada por ser considerada uma piada de mau gosto e uma indecência. A ideia de Duchamp foi elevar um objeto industrial comum ao estatuto de obra de arte, com base no argumento de que a arte é definida pelo conceito dado pelo artista e pelo contexto da sua apresentação. Ao ser exposta num museu, levada por um artista, a peça ganharia o estatuto de arte. Não conseguiu convencer o júri e o original desapareceu, mas deu polémica e tornou-se uma lenda. Depois de muitas solicitações Duchamp autorizou, entre 1950 e 1964, a produção de 16 réplicas, todas expostas em museus, hoje em dia avaliadas em milhões. Voltemos à beira do Tejo, do lado da Cova do Vapor, onde encontrei esta peça. Confesso que acho particularmente interessante a conjugação do objecto com o ramo de árvore. Será uma alegoria à destruição da natureza e à forma como o homem a trata? Lição do dia: mesmo o mais banal dos objectos pode dar que pensar e proporcionar múltiplas interpretações.




março 27, 2026

VER O MUNDIAL NA TV VAI MUDAR ESTE ANO

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FUTEBOL E TELEVISÃO- Na semana passada a TVI revelou que a FIFA está a pedir 430 mil euros pela transmissão televisiva de cada jogo do Mundial 2026, mais do dobro do valor pago por aquele canal para transmitir os jogos do Mundial de 2022. Este ano o Mundial acontece no continente americano com 104 jogos entre as 48 selecções de futebol presentes, que decorrerão no Canadá, Estados Unidos e México. Globalmente, a FIFA prevê angariar 3,4 mil milhões de euros com os direitos de transmissão do Mundial. Mas este ano há novos players interessados, para além dos canais tradicionais: algumas das plataformas de streaming  começaram a apostar cada vez mais em transmissões directas de eventos desportivos e o Mundial de futebol é muito apetecível. O interesse pelos direitos de transmissão de jogos de futebol e de outras modalidades desportivas nasce porque estes conteúdos são chamarizes de audiências e há plataformas de streaming que os querem a quase qualquer preço para cativar novos assinantes. Reparem: no ano passado a transmissão de jogos de futebol nos diversos canais generalistas portugueses ocupou os 24 primeiros lugares dos programas mais vistos, de todos os géneros, em todos os canais. Este fenómeno repete-se um pouco por todo o Mundo. É por isso que as plataformas de streaming querem estas transmissões e, como têm outros recursos financeiros que os canais generalistas já não possuem, provocam um inevitável  aumento dos preços. Com valores como os referidos inicialmente é cada vez mais complicado para os canais generalistas, gratuitos, garantir a amortização do investimento através da publicidade. Este ano já se sabe que a SportTV disponibilizará aos seus assinantes os 104 jogos do torneio, mas a  grande novidade é que o canal digital LiveModeTV, que transmite no Youtube, já anunciou que fará a transmissão, sem custos para os espectadores,  dos encontros da selecção nacional e de outros jogos. Esta é mais uma machadada na influência dos canais generalistas, que vêem as suas audiências cada vez mais ameaçadas. Ao fim de semana o número de telespectadores que prefere os canais de cabo e as plataformas de streaming anda frequentemente acima dos 60%, o que deixa para os canais generalistas menos de 40% do total de espectadores. Na televisão tudo está a mudar e cada vez mais depressa. 


 


SEMANADA - O número de testamentos cresceu 50% na última década; a percentagem de bebés nascidos filhos de mães estrangeiras disparou nos últimos 10 anos, passando de 8,6% em 2015 para 26,2% em 2024; desde 2018 mais de mil mulheres optaram por ter os filhos em casa, mas um em cada cinco destes partos acaba no Hospital devido a complicações; as maternidades privadas realizaram 16.317 partos em 2025, o número mais elevado de sempre; 37% dos jovens portugueses de 18 anos utilizam as redes sociais, em média, durante quatro horas ou mais por dia, enquanto 15%  as frequentam por períodos iguais ou superiores a seis horas; aos 18 anos, 97% dos jovens utilizam as redes sociais, com 42% a fazerem-no 2 a 3 horas por dia; o parque de viaturas do Estado tem mais de 23 mil veículos, dos quais apenas 1,4% são eléctricos; 40% dos proprietários de terrenos rurais não os limpam; o número de despejos aumentou mais de 40% no ano passado; o território costeiro perdido em Portugal entre 1958 e 2021 devido à erosão marinha, representa 13,5 km2, o equivalente a  1.350 campos de futebol; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a ultrapassar a fasquia dos 1,6 milhões em janeiro. 


 


O ARCO DA VELHA - Em Portugal  26,5% da água que entra nas redes de abastecimento público é desperdiçada e dada como perdida.


 


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PAISAGENS - A nova exposição de Patrícia Garrido, “Pinturas Sem Título” apresenta um conjunto de nove óleos de grandes dimensões, 40 óleos em papel de pequenas dimensões e uma dezena de obras da mesma série, noutros formatos. Estes novos trabalhos evocam “belas paisagens”, como escreveu a crítica de arte Luísa Soares de Oliveira e representam a confirmação do regresso de Garrido à pintura, percurso que retomou na exposição anterior na mesma galeria, depois de uma série de trabalhos focados em escultura, que apresentou em diversos locais nos últimos anos. Nesses trabalhos de escultura  Patrícia Garrido evocou as suas memórias pessoais e as casas onde viveu, a partir do reaproveitamento de materiais. Após esse ciclo (na Giefarte, na Appleton, na SNBA e na Galeria Miguel Nabinho), Patrícia Garrido retomou o desenho e a pintura, primeiro na Galeria Diferença e depois também na MIguel Nabinho, com a série “Família Feliz” onde se adivinhava já o percurso que agora se consolidou nestas “Pinturas Sem Título”. Os quadros desta nova série são dominados pela sobreposição de formas, explosões de cor que acabam por dominar o horizonte, deliberadamente alterando a visão da natureza e subvertendo a paisagem. Na Galeria Miguel Nabinho, Rua Tenente Ferreira Durão 18 , até 9 de Maio.


 


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ROTEIRO - No Centro Internacional das Artes José de Guimarães, em Guimarães, Jorge Molder apresenta a primeira parte de  “Come di”,  exposição que é anunciada como uma retrospectiva sistemática da sua obra, focada no período entre 1991 e 2003, quando o artista passou a usar o seu corpo e sobretudo o rosto em séries fotográficas, encenando diversas personagens (na imagem uma fotografia da série “Insomnia, de 1992). Esta é uma das três exposições que marcam o primeiro ciclo desenhado pelo novo curador do Centro, Miguel Wandschneider. Além dos trabalhos de Jorge Molder até 6 de Setembro poderão ser vistas duas outras exposições, uma do escocês Aidan Duffy e  outra com obras de Artes Tradicionais Africanas na Coleção José de Guimarães. Em Algés, no Palácio Anjos, a exposição “Graça Morais – Uma Antologia” reúne mais de 170 obras de desenho e pintura. A mostra, que pode ser vista até 16 de Agosto, percorre o percurso da artista desde a década de 1970 até ao presente. Em destaque está o projecto para um  painel de azulejo de 6 por 20 metros em homenagem aos presos políticos do Forte de Caxias, uma encomenda da Câmara Municipal de Oeiras.  Na Galeria Francisco Fino podem ser vistas obras do acervo de Helena Almeida.


 


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SOBRE O PENSAMENTO CULTURAL - “O Poder da Cultura, Questões Permanentes”, é o novo livro de António Pinto Ribeiro, que reúne um conjunto de textos escritos ao longo de 30 anos sobre temas muito diversos. Os cerca de 60 textos agrupados nesta edição foram escritos entre 1966 e 2003 e abordam temas como o populismo e a cultura, o conflito entre património cultural e a arte contemporânea, a relação entre a arte e a democracia, mas também reflexões sobre a vida dos artistas e o papel dos produtores, investidores e colecionadores. O multiculturalismo e o cosmopolitismo, o papel das cidades, das galerias, das livrarias, dos centros culturais, da rádio, dos jornais diários e a importância de olhar à nossa volta e viver os locais, por mais triviais que pareçam, são também temas abordados. Apaixonado pelas artes cénicas e em particular pela dança,  há um ensaio fascinante sobre as artes do corpo, intitulado “Por Exemplo A Cadeira”. O livro termina com um guia das livrarias preferidas do autor em cidades como Montpellier, Nova Iorque, Londres, Maputo, Barcelona, Rio de Janeiro, São Paulo, Veneza, Mindelo, Paris, Milão ou Bruxelas, entre outras. António Pinto Ribeiro tem formação em Filosofia e Estudos da Cultura e  combina a sua atividade de professor com a de investigador e programador cultural, tendo trabalhado em várias instituições culturais portuguesas, como a Culturgest, a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e a Fundação Calouste Gulbenkian. Edição Temas & Debates.


 


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MESA DE CABECEIRA - Michael Mortis defende em “Tribal” que a espécie humana  é a única que vive em tribos: grupos unidos por culturas distintas que podem crescer e atingir uma dimensão muito superior à dos clãs e bandos. Nos tempos que correm é uma ideia que nos ajuda a perceber o que se passa no Mundo. Segundo Morris “países, Igrejas, partidos políticos e empresas são tribos, e os instintos tribais explicam a nossa lealdade para com eles e as formas ocultas como afetam os nossos pensamentos, ações e identidades.” (Edição Temas & Debates). Outro livro que vale a pena descobrir é “Espinosa - o Messias da Liberdade””, de Ian Buruma. Espinosa foi um filósofo holandês de origem portuguesa e este  livro debruça-se sobre a sua vida e também sobre os seus combates espirituais, sobre liberdade, autenticidade, vida plena e os caminhos da razão. Ian Buruma sublinha a importância do tempo e do lugar que moldaram Espinosa, e argumenta que a  sua defesa da liberdade universal é tão importante para o nosso tempo como foi para o dele. (Edição Quetzal)


 


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AS CORDAS DO JAZZ - O guitarrista de jazz Bill Frisell, que em breve completa 75 anos, editou um novo disco, “My Dreams”, que inclui 12 temas, oito dos quais gravados ao vivo. No disco é acompanhado por cinco músicos que com ele têm trabalhado nos últimos anos: uma secção de cordas constituída por Jenny Scheinmann no violino, Eyvind Kang na viola e Hank Roberts no violoncelo, aos quais se juntam Thomas Morgan no baixo e Rudy Royston na bateria. Os temas do disco foram gravados em diversos espectáculos nos Estados Unidos ao longo de 2025, mas os músicos não sabiam que essas gravações seriam a base de um álbum. Mais tarde Frisell, com o produtor Lee Townsend e o engenheiro de som Adam Muñoz, pegaram nas gravações e trabalharam-nas até chegarem à forma final que têm no disco, algumas bem diferentes do que foi tocado nos espectáculos. Edição Blue Note disponível em streaming.





ALMANAQUE - “Matisse  1941-1954” mostra cerca de 300 obras do pintor feitas nos últimos 13 anos da sua vida, depois de uma cirurgia que deixou marcas. Este é o período que apanha a guerra e a ocupação da França pelos nazis e, depois a fase final do seu trabalho numa explosão de cor. Em Paris, no Grand Palais , até 26 de Junho.


 


DIXIT - “A ideia de que o império russo poderá um dia ser democrático e pacífico é uma ilusão. Imaginar os regimes islâmicos como entidades democráticas e respeitadoras dos direitos humanos é miopia. Considerar que o império chinês é democrático é estrabismo mental.” - António Barreto, no Público


 


BACK TO BASICS -  “A Liberdade, quando se perde, está perdida para sempre” - John Adams


 


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março 22, 2026

SOBRE CULTURA E POLÍTICA

Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. Os casos são distintos e o modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita.  Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só,  tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão.  A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam. 

março 21, 2026

RAINDROPS KEEP FALLING ON MY HEAD

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A primavera não tem dia certo para começar a mostrar-se e muito menos é garantido que a 21 de Março o sol brilhe nos céus e as ruas se encham de flores. Na realidade a primavera tem frequentemente um arranque preguiçoso, talvez por ainda ter as articulações enferrujadas das chuvas e do frio de inverno, demora tempo a instalar-se. Reparem: poucos dias depois do início da primavera começa o mês de Abril e não há-de ser por acaso que um ditado popular português proclama que  "em Abril, águas mil". Assim sendo nunca percebi a ideia de louvar o Abril em Portugal numa canção que correu mundo e tem mais de 200 versões em vários géneros musicais. Originalmente a canção era uma composição do final dos anos 30, de Raul Ferrão, com letra de José Galhardo e chamava-se “Coimbra”. Foi Amália Rodrigues que a popularizou ao interpretá-la no seu primeiro filme, “Capas Negras”, de 1947. “Coimbra” tornou-se uma das canções favoritas de Amália que a integrou no repertório dos seus concertos nos anos 50 para os espectáculos do "Plano Marshall", o plano de apoio dos EUA à Europa do pós-guerra, em que colaboraram os mais importantes artistas de cada país. Num desses concertos, em Dublin, estava a cantora francesa Yvette Giraud que pediu a Amália autorização para fazer uma versão, com nova letra, de Jacques Larue, que se chamou “Avril Au Portugal”. Mais tarde a própria Amália cantou-a em francês e também em inglês na curta metragem “April In Portugal” de Euan Lloyd, filmada em 1955 nas ruas de Alfama. Estava eu a pensar nisto tudo quando por estes dias lá apareceu a chuvinha, à boleia de mais uma malfeitoria atmosférica , que desta vez dá pelo nome de Therèse e promete ir deixando deixar gotas nas janelas. E, ao olhar para estas chuvinhas depois do encharcado Inverno que tivemos, só me lembro de uma outra canção  “Raindrops Keep Fallin’ On my Head”, um original de Burt Bacharach para o filme “Butch Cassidy and the Sundance Kid”. Ou seja, o tempo está uma coboiada.




março 20, 2026

QUAL A CÔR DO TALENTO?

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POLÍTICA & CULTURA - Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. O modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita.  Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só,  tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão.  A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam. 



SEMANADA - Entre 2018 e 2022 29,3% do registo de patentes em Portugal foi feito por mulheres, enquanto  a média europeia é de 13,8%; aos 18 anos 97% dos jovens utilizam redes sociais, 37% utilizam-nas as em média, durante quatro horas ou mais por dia, enquanto 15% as frequentam por períodos iguais ou superiores a seis horas;  segundo o Banco de Portugal  a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a ultrapassar a fasquia dos 1,6 milhões em janeiro; a percentagem de bebés nascidos filhos de mães estrangeiras disparou nos últimos 10 anos, passando de 8,6% em 2015 para 26,2% em 2024;  há cerca de 32 mil partilhas de bens em litígio nos tribunais e notários: depois das tempestade a procura por novos seguros teve aumentos de 20 a 35%; Portugal é o segundo exportador mundial de cannabis medicinal; em 54 municípios a taxa de esforço nos encargos com a habitação é superior a 50%; um terço dos alunos do ensino secundário recorre a explicações que têm um custo estimado de cerca de 120 euros por mês; na freguesia de Leiria mais afectada pelas tempestades apenas duas pessoas, entre as 400 que se candidatram, receberam já apoio.


 


O ARCO DA VELHA - Um mês depois das tempestades, ainda há 34 estradas cortadas, e na ferrovia falta recuperar a circulação em 192 kms na Linha do Oeste e na Linha da Beira Baixa. 


 


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O PLANETA CAOS - É impossível ficar indiferente ao novo trabalho de Luís Campos, que podia ter por título “O Mundo Em Que Vivemos e o Mal Que Lhe Fazemos”. Numa anterior exposição (“Fading”, 2023) Luís Campos abordava a extinção dos animais e a degradação dos ecossistemas. Agora, quase três anos depois, na mesma Galeria, a Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Luís Campos (na imagem) apresenta um vídeo e uma nova série de 15 fotografias que classifica como “uma meditação sobre a frágil permanência da vida e a condição efémera do homem no planeta que o sustenta”. As fotografias desta série “Endscapes”, num preto e branco intenso, foram feitas entre 2011 e 2025 e parte das imagens haviam sido mostradas no Porto, na galeria Fernando Santos. Aqui são acompanhadas por um vídeo, de dez minutos, feito com recurso a Inteligência Artificial, a partir de instruções escritas pelo autor, indicações que formaram imagens que se apresentam numa sucessão de catástrofes e destruições que formam um cenário apocalíptico. No texto de apresentação da exposição Luís Campos cita Robert Sawn, o primeiro homem a alcançar ambos os pólos: “A maior ameaça ao nosso planeta é a crença de que alguém o poderá salvar”.


 


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ROTEIRO - Começo pela exposição “Uma Nova História”, de Luísa Ferreira, na Galeria Sá da Costa (na imagem). A autora revisita, com o auxílio de David Willis, a sua produção dos anos 80 e 90 com fotografias modificadas através de diversas técnicas como pintura, recorte e  colagem, mostrando uma produção bem diferente daquela que Luísa Ferreira foi publicando ao longo dos anos. Na Quadrum Mané Pacheco apresenta “Brama”, uma exposição de formas e esculturas algures entre a fantasia e a geometria, frequentemente sugerindo corpos impossíveis de identificar. Na Biblioteca de Marvila (Rua António Gedeão), até 20 de Abril, pode ser vista a exposição “Augusto Cabrita: O Olhar Encantado” que mostra fotografias inéditas realizadas por Augusto Cabrita na rodagem, em 1965, do filme “As Ilhas Encantadas”, de Carlos Vilardebó, com Amália Rodrigues. 


 


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DESCOBERTA PASCAL - “Jesus e o Império Romano - Como Roma determinou a vida e a morte de Cristo” é uma boa leitura para esta época pascal e o seu autor é James Lacey,  um professor de Estratégia. O livro parte desta tese: no final de 31 D.C., depois de os senadores romanos assassinarem Lúcio Sejano, o confidente mais próximo do imperador romano Tibério, o Império mudou para sempre. O autor defende que se Sejano não tivesse sido assassinado, Jesus nunca teria sido crucificado. O livro mostra o mundo romano em que Jesus viveu, James  Lacey contradiz crenças históricas de longa data, propõe uma outra visão do Novo Testamento e explica como os eventos em Roma impulsionaram os eventos na Judeia. O autor relata um mundo vibrante e rico, no momento em que ainda estão a ser feitos os primeiros contactos com a realidade do poder romano e descreve como Herodes prosperou apaziguando algumas das pessoas mais perigosas da história: Pompeu, Júlio César, Marco António, Cleópatra e Augusto. Edição Bertrand.


 


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OUTROS FADOS - O novo disco de Ricardo Ribeiro, “A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe” vai muito para além do fado, seu território de origem, e explora influências de outras músicas de outros países. Dos onze temas, três têm letra e música de Ricardo Ribeiro e os outros têm assinatura de nomes como Garota Não, Amélia Muge, Agir, mas também de nomes como Dorival Caymmi ou Mayte Martin, esta em “Por La Chica Del Mar”, o tema que encerra o disco e reforça a inspiração ibérica de Ricardo Ribeiro. A produção e arranjos foram maioritariamente de Bernardo Saldanha (que no disco toca guitarras) e Manuel Oliveira (no piano), nomeadamente o tema de abertura, “51”, uma extraordinária canção da Garota Não. Outro tema notável é “Amanhã”, da autoria de Ricardo Ribeiro e onde ele próprio toca guitarra. O trabalho dos arranjos e dos músicos é exemplar, criando espaço para a voz de Ricardo Ribeiro se afirmar sem hesitações. Além dos dois nomes já citados participam Ângelo Ferreira na guitarra portuguesa, Rodrigo Correia no contra-baixo e Alexandre Frazão na bateria, além de Ana Moura que participa num dueto com Ricardo Ribeiro em “Maré, um tema composto e produzido por Agir. Disponível nas plataformas de streaming.


 


ALMANAQUE - O MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, assinala um ano de vida nos dias 21 e 22, com entrada gratuita num horário alargado das 10 às 20h00 e um programa diversificado. Há novas obras na exposição permanente e um dos destaques deste aniversário são os painéis de Almada Negreiros para  a Alfaiataria Cunha. O Museu foi visitado por cerca de 80.000 pessoas neste primeiro ano.


 


DIXIT - “O actual impasse político com três partidos com a mesma força não se ultrapassa com boa vontade, mas com a derrota de um deles” - André Abrantes do Amaral, no Observador


 


BACK TO BASICS -  “Não compreendo como há gente com medo de ideias novas; eu tenho é medo de ideias velhas” - John Cage


 


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março 14, 2026

QUE SE PASSA POR DETRÁS DAQUELAS JANELAS?

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Antes de passarmos as noites a ver televisão, ou a adormecer frente a ela, que fazíamos? Muitos passeavam pela rua, observavam o que se passava à sua volta, eventualmente davam uma espreitadela algures. Foi o que me aconteceu, estas janelas iluminadas, convenientemente tapadas, por onde passei uma noite destas, despertaram a minha curiosidade. Que se passará ali?  Espreitar faz parte da natureza humana. Quando olhamos para um quadro ou uma fotografia, espreitamos a imagem que está à nossa frente, ou imaginamos o que ela sugere? Quando vemos a cortina que tapa a janela da casa do vizinho, pensamos no padrão do tecido ou naquilo que ele tapa? Na realidade, a  rua pode ser melhor que um filme. Por falar nisso, foi no ano do meu nascimento, 1954, que Alfred Hitchcock realizou o filme “A Janela Indiscreta”, protagonizado por James Stewart, que desempenhava o papel de um homem temporariamente imobilizado numa cadeira de rodas e que passa o seu tempo, a partir da sua própria janela, a espreitar a casa dos vizinhos, acabando por descobrir um crime. Hitchcock combinou o voyeurismo com a curiosidade e encontrou em James Stewart o actor ideal para dar corpo ao impulso humano de observar a vida alheia sem ser visto. O filme desenrola-se não só em torno daquilo que Stewart espreita, mas também daquilo que ele não vê, mas imagina. Em cada janela do prédio em frente Hitchcock oferece a James Stewart imagens de solidão, de rotina ou de tensão conjugal e deixa tudo o resto à sua imaginação,. Sinto o mesmo muitas vezes quando olho para uma janela alheia. Quem  nunca tiver pecado, que atire a primeira pedra…




março 13, 2026

QUE PODE O PRESIDENTE FAZER NA CULTURA?

 


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SOBRE A CULTURA EM BELÉM - Marcelo Rebelo de Sousa foi o primeiro Presidente da República civil que, não oriundo de um partido de esquerda, marcou os dez anos dos seus dois mandatos  com uma atenção especial à cultura, sector em que usou de forma hábil a sua magistratura de influência. Promoveu nos jardins de Belém a Festa do Livro, no Dia Mundial do Teatro enalteceu as artes de palco e defendeu para elas um “financiamento claro e justo”, sublinhando que o teatro “é um sítio de inquietação, de prazer e de espírito comunitário”. Manteve uma relação constante com a Academia Portuguesa de Cinema, fazendo em Belém recepções anuais para os vencedores dos prémios SOPHIA. Promoveu conferências, realizou em Belém ciclos de conversas com criadores das mais diversas áreas, fez do palácio presidencial um local de acolhimento de artistas, das suas ideias e das suas obras. Mais: trouxe  alunos de escolas e deu-lhes oportunidade para falarem cara a cara com escritores, atores, artistas e, claro, o próprio Presidente, sempre parte desses diálogos. Muitas vezes foi, sem protocolos, assistir a concertos como aconteceu recentemente com o dos Capitão Fausto no Pavilhão Atlântico. Visitou sozinho, sem avisar, exposições (como no ano passado em “Atelier” de Pedro Cabrita Reis, na Mitra onde apareceu num fim de semana sem ninguém o esperar). Condecorou muitos nomes das mais diversas áreas da cultura e do espectáculo e o seu último destes gestos foi para com António Lobo Antunes: em 2022 já lhe tinha atribuído a Grã-Cruz da Ordem de Camões e no funeral, depositou junto do escritor o grande colar da mesma ordem, símbolo máximo da literatura portuguesa. Nos últimos dias do seu mandato soube-se que tinha escolhido Vhils, aliás Alexandre Farto, para lhe fazer o retrato oficial, naquilo que considerou “a ideia mais louca em 10 anos de mandato”. Com Marcelo, a Presidência foi um porto seguro para a cultura portuguesa. Agora, em Belém, já está o novo Presidente, António José Seguro, que continuará a viver nas Caldas da Rainha, berço do Zé Povinho. Os meus votos vão para que o novo Presidente mantenha os bons hábitos que Belém ganhou e que aproveite o sentido crítico de Bordalo Pinheiro a olhar para o país. E que não se esqueça que a política cultural, tão sujeita a malfeitorias, também precisa do escrutínio, atenção e magistratura de influência do Presidente da República.



SEMANADA -  Segundo a Deco Proteste, o bacalhau teve um aumento de 63% em quatro anos e o preço por quilo passou nesse espaço de tempo de 10,60 para os 17,28 euros; ainda segundo a Deco Proteste o custo do cabaz alimentar, com 63 produtos considerados essenciais,  já aumentou desde o início do ano 9,64 euros e face a março do ano passado, subiu 13,76 euros; na região da Bairrada são assados 3000 leitões por dia, o que significa cerca de 1,3 milhões por ano, num negócio que movimenta anualmente em toda a região cerca de 260 milhões de euros; o valor das exportações portuguesas de frutas, legumes e flores em 2025 foi de 2,6 milhões de euros, um novo recorde; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; os 37 novos gestores públicos das cinco Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional vão custar, durante o mandato de quatro anos, quase 17 milhões de euros em salários e despesas de representação; entre 22 e 24 mais de cinco mil doentes referenciados para cuidados paliativos não encontraram vaga no SNS; a livraria Lello, no Porto, recebe diariamente 3500 visitantes; nos últimos dois anos mais de 40 mil casas já licenciadas ficaram por construir; nos últimos dez anos a PSP registou mais de 2600 desaparecimentos de idosos, dos quais 140 continuam por encontrar; só no último ano registaram-se 241 casos, cerca de 20 desaparecimentos por mês; no ano passado registaram-se 531 acidentes com trotinetes, que provocaram, além de mais de quatro centenas de feridos ligeiros, 20 feridos graves e um morto.


 


O ARCO DA VELHA -  Seis meses após a tragédia do elevador da Glória ainda não se sabe exactamente o que correu mal, a Carris continua a fazer um inquérito interno e o relatório de peritos continua sem estar concluído.


 


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DEPOIS DE PARA SEMPRE - O Pavilhão Julião Sarmento, na Avenida da Índia, acolhe a colecção pessoal de Julião Sarmento (1948-2021), tem uma programação multidisciplinar em que se cruzam linguagens das artes plásticas, do cinema ou da performance, entre outras, desenhada pela directora, Isabel Carlos, e guiada pelas palavras de Sarmento: “Uma obra de arte deve sobretudo interrogar mais do que fazer afirmações.” Vale a pena conhecer este Pavilhão onde, além da exposição inaugural, “TAKE 1”,  que apresenta uma seleção de obras da coleção de Julião Sarmento e tem como referência a acção cinematográfica, foi inaugurada na semana passada “Depois de Para Sempre”, que reúne 33 obras e coloca em diálogo Fernando Calhau (1948-2002) e Rui Chafes, dois dos artistas mais representados nessa colecção. O título é tirado  de um trabalho de Rui Chafes, a exposição ficará patente até 14 de Junho e  foca-se sobretudo nas obras de Calhau (na imagem), acompanhando o seu percurso artístico, desde o início num registo pop e figurativo, até ao conceptualismo e ao minimalismo que se tornaram a sua marca. 


 


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ROTEIRO - Um dos destaques desta semana vai para  a exposição “Turn Around: um, olhar sobre a colecção de Arte da Fundação EDP”, que está no MAAT até final de Janeiro do próximo ano. A colecção tem 2500 obras de 340 artistas e esta exposição decorre em dois momentos complementares - o primeiro já pode ser visitado e o segundo abre ao público a 29 de abril. Em conjunto, são uma das maiores apresentações públicas da Coleção de Arte da Fundação EDP até à data, apresentando 100 obras. A curadoria é de João Pinharanda, Margarida Chantre e Sérgio Mah. O outro é para a exposição “Olá Vasco Granja”, que está na Sociedade Nacional de Belas Artes até 4 de Abril, numa parceria com o MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa (na imagem). Vasco Granja foi o grande divulgador do cinema de animação em Portugal e marcou gerações através do seu programa na RTP. Mais do que apresentar “desenhos animados”, foi um pedagogo divulgando as vanguardas canadianas, a produção da Europa de Leste e os clássicos norte-americanos. A exposição reúne um conjunto significativo do seu espólio pessoal, resultado de amizades e encontros com nomes maiores da animação. No Mercado da Ribeira, Fernando Negreira apresenta uma série de fotografias, impressas em telões pendurados do tecto, sob o título “Dois Temas, Um Olhar”, com fotografias dos mercados e profissões de Lisboa nos anos 70 e 80, numa iniciativa do colectivo CC11.


 


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UM CLÁSSICO NA MESA DE CABECEIRA - Começou agora a ser editada pela Quetzal uma nova colecção intitulada A Biblioteca de Alexandria, que evoca a grande biblioteca fundada no século III a.c. com o objectivo de preservar o conhecimento, o saber e a literatura. O primeiro livro desta nova colecção é um clássico:  “A Vida de Lazarillo de Tormes e Suas Fortunas e Adversidades”, originalmente publicado no ano de 1554, por autor anónimo, numa tradução de Margarida Amado Acosta. Esta obra  é considerada como o primeiro romance moderno em língua espanhola e conta uma história de engenho, fome e sobrevivência. O protagonista é Lázaro, um menino pobre que, levado pela necessidade, serve vários senhores e aprende a sobreviver numa sociedade dura e hipócrita. Com humor e ironia o livro é uma crítica aos valores da sua época e um retrato da alma humana. Ao longo de mais de quatro séculos, este romance fascinou leitores e escritores e terá inspirado obras como o “Dom Quixote”, de Cervantes. O narrador é um malandro e tudo é gente comum, pobre ou remediada, falsa e vingativa, mentirosa e com maus instintos. O livro conta como  Lazarillo entrou na marginalidade desde cedo, para sobreviver à  miséria numa Espanha degradada do ponto de vista económico, social e moral. O segundo livro desta colecção é outro clássico: “Robinson Crusoé”, de Daniel Defoe, originalmente publicado em Inglaterra em 1719. Edições Quetzal.


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JAZZ COM VIOLONCELO  - Não é muito frequente ser uma violoncelista a liderar um quarteto de jazz. Mas é isso que acontece com Tomeka Reid, que acabou de lançar o seu quarto disco, acompanhada pela guitarrista Mary Halvorson, o baixista Jason Roebke e o baterista Tomas FujiWara. “​​Tomeka Reid: Dance! Skip! Hop!” inclui cinco temas inéditos e o Guardian não hesitou em classificá-lo como um candidato sério a disco de jazz deste ano. São quase 50 minutos de música que percorre vários géneros, desde sonoridades do be-bop logo na faixa título, ao swing bem ritmado, passando ao jazz latino ou apontamentos do hip hop. Desde o início percebe-se o papel do violoncelo na gravação, que ganha relevo nos diálogos entre a guitarra e o violoncelo como em “A(ways)” ,  “OoLong!” ou “Under the Aurora Sky”. A última faixa “Silver Spring Fig Tree”, deixa no ar uma melodia que se envolve com o trabalho marcante do baterista. Disponível nas plataformas de streaming.


 


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AGENDA DE INAUGURAÇÕES - Não há mãos a medir, o fim de semana está cheio de inaugurações de exposições. Na Galeria Carlos Carvalho (Rua Joly Braga Santos Lote F),  Luís Campos apresenta a partir das 17h00 a sua nova exposição de fotografia, “Endscape” que retrata paisagens desabitadas em que a natureza viva se tornou vestígio (na imagem). No sábado recomenda-se uma ida pelas 17h00 à Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101), onde será feita uma visita guiada à exposição 0.2=40, com Manuel Sampayo, Álvaro Rosendo e Beatriz Lamego. A exposição evoca o 40º aniversário da Monumental e homenageia os fundadores do projecto. Na Galeria Diferença (Rua de S. Filipe Nery 42, ao Rato) Carolina Lino apresenta no espaço Triângulo  trabalhos em fotografia sob o título “Rosto Mão Coração” e Nim Teresa Castanheira apresenta no espaço quadrado “Matrizes” , trabalhos em gravura e técnica mista.



DIXIT - “ O ambiente de crise reside na falta de maioria parlamentar e na aparência de eleições permanentes. Traduz-se na impressão de que a democracia é inútil. Mora nos agentes políticos, nos três principais partidos e nos seus dirigentes, nos deputados e nos governantes.” - António Barreto


 


BACK TO BASICS -  É através dos outros que vou alcançar a minha felicidade. Não posso fazê-lo sózinho” - Nuno Morais Sarmento.


 


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março 07, 2026

A FEIRA DAS RECORDAÇÕES

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Vou a andar e vejo estas bonecas no meio do chão. Estão assim, meio recostadas em degraus, cada uma de sua maneira, Explico já como elas me apareceram:  estou a passear numa praça que acolhe uma feira de velharias, todos os meses, no segundo domingo de cada mês. Passo por lá de vez em quando, passeando-me entre as bancadas dos feirantes, mesmo sabendo que o mais certo é não ter grandes surpresas no que posso encontrar. É um universo onde rádios antigos, que o mais certo é não funcionarem, coexistem com louças desemparelhadas, peças de mobílias sem época determinada ou relógios que têm o tempo parado. É um mundo de objectos que já tiveram uma vida e que, de repente, foram rejeitados, esquecidos, deixaram de fazer sentido para quem os teve. Dizem que são feiras de velharias, mas para mim são feiras de recordações, restos de momentos de vidas que ficaram para trás. Nas bancas dos vendedores estão testemunhos de vidas que nunca se cruzaram e que agora estão lado a lado à procura de alguém que lhes queira pegar. Vêm de casas diferentes, ninguém sabe de onde e ainda menos como ali chegaram. O mais certo é serem o resultado de casas que se esvaziam porque a lei da vida lhes ditou um fim e quem ficou desfez-se delas. Olho à volta e penso naquilo que guardamos e  nas coisas de que nos desfazemos e que depois acabam assim, longe da vida que tiveram. Vejam bem estas bonecas, de pano, de cores ainda vivas. Seriam da mesma criança? Quem brincava com elas? Que histórias e fantasias protagonizaram? Que segredos guardam? Fico a pensar nisto tudo enquanto vou deixando a feira - mas olho para trás para as espreitar uma última vez e parece que o boneco do barrete verde ficou a sorrir.






março 06, 2026

O NOVO AUDIOVISUAL

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CINEMA PARAÍSO - Aconteceu aos filmes o que já tinha acontecido à imprensa. Da mesma forma que o digital foi canibalizando o papel, o streaming está a dar cabo dos ecrãs de cinema clássicos. Segundo a Marktest mais de 4,6 milhões de portugueses utilizam plataformas de streaming e 41,7% dos subscritores usam-nas todos ou quase todos os dias. 43,1% são assinantes e os restantes são consumidores dentro do mesmo agregado ou pacote. É praticamente meio país a ver streaming. Qual é o outro lado desta realidade?  Segundo os dados mais recentes do Instituto do Cinema e Audiovisual Portugal contava em Janeiro com 450 salas de cinema, menos 112 face a 2025. Há agora cinco capitais de distrito sem exibição comercial regular de cinema: Beja, Bragança, Guarda, Portalegre e Viana do Castelo. Dados recentes indicam que os serviços de streaming mais vistos em Portugal são a Netflix com 23% do mercado, a Prime Video com 22%, a Diney + com 18%, a Max com 13%, a SKY Showtime com 8%, a Apple com 7% e a Filmin com 2%. O YouTube, a mais poderosa plataforma audiovisual, do universo Google, tem já mais de 7,5 milhões de utilizadores em Portugal. Estes números mostram como mudou de forma drástica o consumo do audiovisual, impulsionado pela tecnologia. Os aparelhos de televisão de grande dimensão surgem a preços mais acessíveis, o aumento da penetração da fibra óptica cobre já 95% dos alojamentos e estabelecimentos comerciais, permitindo uma melhor experiência quer nos canais de cabo, quer no streaming. A verdade é que o streaming digital está a provocar o encerramento de salas de cinema e não se vê como alterar a situação. Até a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood anunciou que vai deixar de fazer visionamentos para os filmes nomeados para os Óscares em salas de cinema, remetendo os seus membros para o visionamento em streaming.  “Cinema Paraíso”, o filme que contava o encanto de descobrir as imagens em movimento numa sala escura, está a ficar uma memória cada vez mais distante.


 


SEMANADA - As tempestades de fevereiro danificaram 237 mil casas, metade das quais sem seguro; a “Kristin” provocou estragos em mais de 60% das casas de Leiria e Marinha Grande; o número de pedidos de apoio para reconstruir casas devido ao mau tempo já é de 20 mil, com um custo de 100 milhões de euros; a “Kristin” também provocou danos no Estabelecimento Prisional de Lisboa onde chove dentro de celas, a maioria das quais “estão podres”, segundo a Ordem dos Advogados; mais de metade dos trabalhadores da agricultura já são estrangeiros; há 400 mil brasileiros a descontar para a segurança social, seguidos de 85 mil indianos, 67 mil angolanos, 59 mil cabo-verdianos e 51.000 do Bangladesh; há 516 mil pedidos de nacionalidade pendentes; 73,5% das chamadas efetuadas para o 112 em 2025 foram consideradas indevidas; em fevereiro a taxa de inflação aumentou para 2,1%  pressionada pelo preço dos alimentos que voltou a subir em relação ao mês anterior; as doenças do aparelho respiratório e o cancro foram responsáveis por metade dos 120.000 óbitos verificados em 2024; mais de 19 mil pessoas fizeram cirurgias da obesidade no SNS nos últimos cinco anos.



O ARCO DA VELHA -  Mais de um terço dos 278 municípios do Continente têm os planos de emergência desactualizados, há mais de 100 Planos Municipais de Emergência de Proteção Civil que já deviam ter sido revistos e alguns nem constam do  Sistema de Informação de Planeamento de Emergência da Protecção Civil.


 


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O DESENHO E A NATUREZA - Na Galeria Appleton Cristina Ataíde apresenta até 2 de Abril "Espaço Intermédio", um conjunto de 17 novos trabalhos, oito dos quais são desenhos de grandes dimensões sobre papel, com recurso a pigmento, carvão, guache e borracha e os outros nove são esculturas em madeira. Estas esculturas foram feitas, a partir de fragmentos de árvores derrubadas pela intempérie na Tapada da Ajuda, onde a artista  tem atelier. Os desenhos estão junto às paredes e as peças de madeira, trabalhadas pela artista, mantendo marcas da erosão natural, estão no centro da sala, no chão. A intervenção de Cristina Ataíde nos segmentos dos cedros criou formas elípticas, que se ligam aos desenhos da parede. No texto que escreveu para esta exposição, Sérgio Fazenda Rodrigues sublinha o aproveitamento das árvores caídas, com os orifícios criados por organismos que consumiram a madeira e  “sulcos que não foram desenhados pela artista, mas sim pela vontade do tempo”. E observa: “a superfície (da madeira) é progressivamente lixada, salientando o desenho dos veios, dos anéis de crescimento e das particularidades do seu desenvolvimento” e o resultado final são obras que “actuam como mapas que cartografam o crescimento da espécie, mas também o seu perecimento interior”. (Rua Acácio Paiva 27)


 


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ROTEIRO - No Espaço Projecto do Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian Bruno Zhu criou uma instalação, intitulada “Belas Artes”, através de um cenário propositadamente labiríntico onde apresenta até 27 de Julho obras da colecção do CAM de nomes como Almada Negreiros (na imagem),  Sérgio Pombo, Eduardo Luiz, António Pedro, Vítor Fortes, Emília Nadal, além de um conjunto de bustos em bronze e gesso de Yvone Mortier, José Dias Coelho, Júlio Vaz, Gil Teixeira Lopes e Francisco Franco. Segundo a Fundação, a instalação é uma reflexão do artista “sobre colecionismo, formas de expor e o papel dos museus enquanto agentes de produção de valor artístico”. A fundação indica ainda que Bruno Zhu tem uma obra “influenciada pelo design de moda, pela edição e pela cenografia”, sublinhando que ela “confronta discursos de poder inerentes à prática museológica, através da sua marcante abordagem conceptual”. Em Lisboa, na Galeria Monitor (rua da Páscoa 91), Helena Lapas apresenta novos trabalhos que, partindo da sua experiência em tapeçarias mostram formas escultóricas em técnica mista. E a Galeria Jahn und Jahn, (Rua de São Bernardo 15) apresenta  até 14 de Março “Notas de Rodapé”, uma exposição colectiva com curadoria de Luiza Teixeira de Freitas com obras de  António Júlio Duarte , Carlos Noronha Feio, Catarina Dias, Jorge Queiroz, Julius Heinemann, Navid Nuur, Raphaela Melsohn e Sara Bichão


 


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UMA HISTÓRIA DO CRIME - "Vou fazer-lhe uma proposta que ele não pode recusar" é uma das frases mais célebres da história do cinema, dita por Don Vito Corleone (interpretado por Marlon Brando) no filme “O Padrinho”, de 1992. A Máfia é sempre um tema delicado, quer seja em investigações jornalísticas, em livros ou no cinema e televisão. Vem isto a propósito de um livro acabado de editar,  “Máfia, Uma História Global”, de Ryan Ginjeras. O autor enquadra o crescimento e proliferação das grandes organizações criminosas  e investigou ao longo de dez anos organizações como La Cosa Nostra italiana, o Cartel de Medellín colombiano, as Cinco Famílias de Nova Iorque, a Yakuza japonesa ou a Vory russa. Ryan Ginjeiras mostra como estas organizações marginais acompanham as sofisticações tecnológicas e como criaram sobreposições entre crime organizado, corporações empresariais e lideranças políticas, mostrando a enorme influência nas sociedade actuais da sua actividade criminosa. O livro faz-nos conhecer melhor o papel de figuras como Al Capone, Pablo Escobar, El Chapo, Du Yuesheng ou Dawood Ibrahim. Ryan Gingeras é professor no Departamento de Segurança Nacional da Universidade Naval da Califórnia e são dele estas palavras, já no fim do livro: “Trazer as máfias à luz pode ser doloroso, porém num tempo em que mais pessoas são levadas a acreditar na existência de estados-sombra e outras conspirações, o bem que isso poderia fazer seria em si uma recompensa”.   Edição Casa das Letras


 


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MESA DE CABECEIRA - Hoje proponho dois livros que nos permitem perceber melhor a História recente nestes conturbados tempos.  O primeiro é “Vizinhos Distantes - uma breve história das relações entre a China e a Rússia", de Soren Urbansky e Martin Wagner, uma edição da Temas & Debates. Os autores apresentam-nos os quatrocentos anos de história destes dois vizinhos: dos primeiros contactos oficiais em 1618, passando pelos desentendimentos entre Krutchev e Mao, até à reacção da China quando a Rússia operou a sua invasão à Ucrânia, em 2022. O outro livro é “Portugal e o Ocidente”, de Tom Gallagher, um historiador britânico especializado em Europa Moderna e que já havia escrito em 1983 “Portugal - A Twentieth Century  Interpretation”. Este novo livro analisa o papel de Portugal durante o período que vai de 1890 até 1975, quando os conflitos ideológicos e os realinhamentos geopolíticos reformularam a ordem global. É uma obra que vai provocar polémica nomeadamente sobre como Portugal encarou a questão colonial, antes e depois do 25 de Abril, “o golpe de Estado de 1974, que acabou com o regime autoritário e deu origem a uma retirada caótica de África, reduzindo a influência de Portugal a nível internacional.” Edição D. Quixote


 


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AO SOM DO ACORDEÃO - Quando Gabriel Gomes aparecia em palco com o seu acordeão, com a Sétima Legião, muita gente ficava espantada com a inclusão de um instrumento tão popular e tradicional numa banda de referência da música portuguesa dos anos 80. E a verdade é que a sonoridade do acordeão se tornou uma das imagens de marca do grupo. Mais tarde Gabriela Gomes tocou também com Madredeus, Os Poetas, Fandango e em concertos ao lado de nomes como Tim, Jorge Palma e Rodrigo Leão. Só agora Gabriel Gomes decidiu gravar um álbum a solo, “Uma História Assim”, produzido por ele próprio, em parceria com Rodrigo Leão e João Eleutério. É um trabalho exclusivamente instrumental, quase integralmente gravado a solo, com a excepção do tema título, onde Rodrigo Leão toca piano. Ao todo são 10 composições originais para acordeão do próprio Gabriel Gomes. Destaco “O Roubo”, “Uma História Assim”, “Retorno”, “Rumo” e o tema final, “Chorinho”. O trabalho de Gabriel Gomes mostra a riqueza do acordeão e sua vida além de banda sonora de festas populares.  (Disponível nas plataformas de streaming).


 


ALMANAQUE - O Nederlands Fotomuseum, em Roterdão abriu a 7 de fevereiro e acolhe uma das maiores colecções de fotografia de todo o mundo, desde retratos e imagens de alguns dos grandes nomes da fotografia a fotos históricas de autores anónimos.


 


DIXIT - “Esta é a altura de estar silencioso e de deixar a quem vai entrar o papel decisivo” - Marcelo Rebelo de Sousa.


 


BACK TO BASICS -   “Viver é decidir constantemente o que vamos ser” - Ortega Y Gasset.



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