
Confesso-me devoto de utensílios de cozinha. Percorro deliciado lojas com esse material e nas feiras demoro-me nas bancas que os apresentam como velharias. Muitos estão em óptimo estado e só me apetece levá-los para casa. Vejam este conjunto de três peças de esmalte, uma concha de sopa, um escorredor e um coador, cores vivas, branco e encarnado, feitos de um material fantástico, entretanto caído em desuso, que é o esmalte. Foram encontrados numa feira de velharias.Nas lojas de utensílios novos não se vêem cores assim - abunda o metal nu, o plástico cinzento, coisas que tiram brilho às cozinhas. A verdade verdadinha é que prefiro uma colher de pau a uma colher de plástico. As colheres de pau não se destinam apenas a mexer o cozinhado, na verdade são objectos multifunções, servem para as mais variadas coisas, basta deixar correr a imaginação. Na cozinha defendo-as e, pensem o que quiserem, mas prefiro trabalhar um ovo mexido com uma colher de pau do que com uma espátula de plástico. Nos mercados tradicionais ainda é possível encontrar esmaltes, colheres de pau, almofarizes de madeira, assadeiras de barro e um sem número de outros utensílios pré-bimby e micro-ondas. Coisas verdadeiras para fazer cozinhados autênticos. Alguma razão há-de haver para a caríssima panela Le Creuset ser ferro coberto a esmalte. Alguma razão deve haver para as frigideiras de ferro e esmalte serem um dos melhores utensílios para fazer cozinhados que precisam de ir ao forno depois de estarem ao lume. Tenho utensílios de cozinha que têm dezenas de anos e não me consigo separar deles, por mais gastos e usados que estejam. Não consigo entender como alguém trocou estas peças de esmalte por bugiganga plástica.
(pensamentos ociosos, semanalmente em sapo.pt)