abril 18, 2026

OS CONTENTORES

 


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Ali ao fundo, depois dos mastros dos veleiros, os contentores dominam o horizonte. Imagino que tenha sido num passeio por uma paisagem destas que os Xutos & Pontapés tenham criado um dos seus hinos, “Contentores”, uma canção do disco “Circo de Feras”, de 1987. A canção começa assim, deixando entendido que nos contentores em causa a carga não é a habitual: “A carga pronta metida nos contentores/Adeus oh meus amores que me vou/P'ra outro mundo”. E logo a seguir a explicação da viagem, o porquê da decisão: “É uma escolha que se faz


O passado foi lá atrás”. Ou seja, uma canção de mudar de vida. Os portos são sempre pontos de passagem, locais de embarque e desembarque, não há como enganar. Quando se sai de um porto que acontece? “Mudarão todas as cores/Rugem baixinho os motores/E numa força invencível/Deixo a cidade natal”. A canção dos Xutos ganhou força por causa do ritmo da música, mas também pela intensidade das  palavras, por esta força invencível que nos leva a querer partir e  mudar o mundo, ou, também, mudar de mundo. Talvez por isso tornou-se o hino de uma geração, uma declaração de princípios. A canção não é sobre o facto de os contentores marítimos serem fundamentais para o comércio global, movimentando cerca de 80-90% das mercadorias mundiais. A canção é sobre largarmos bagagem, sairmos do conforto e procurarmos a mudança, arriscar viver outra vida. Fico a olhar para a imagem do porto, os contentores lá ao fundo, e a ouvir a canção. E, como tantas vezes acontece com as grandes canções, esta é também o retrato de um tempo.


(Pensamentos Ociosos em sapo.pt)