abril 24, 2026

FICAR CALADO NÃO É SOLUÇÃO

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A POLÍTICA DO LUME BRANDO - Quando se coloca uma panela cheia de água com um sapo lá dentro, em lume brando, o animal não dá pelo aumento da temperatura até ser demasiado tarde. É exactamente o que está a acontecer um pouco por todo o mundo em termos políticos. Aproveitando a democracia liberal, desenvolveu-se e cresceu uma geração de políticos iliberais que todos os dias dão mostras de fazer uma revisão da história e querer tomar o poder para subverterem e limitarem a democracia que os acolheu. A história é conhecida. Depois da derrota do nazismo o pastor luterano alemão Martin Niemöller fez uma série de palestras nas quais confessou publicamente a sua inação e indiferença perante o destino de muitas das vítimas dos nazis. Nessas palestras explicou que, nos primeiros anos do regime de Hitler, permaneceu em silêncio enquanto os nazis perseguiam outros alemães, muitos deles membros de movimentos políticos de esquerda, a cuja ideologia Niemöller se opunha - até que ele próprio foi preso e detido em campos de concentração onde esteve entre 1937 e 1945. Uma das suas palestras mais conhecidas é esta: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Em seguida, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender." As palavras de Niemöller merecem ser lembradas porque chamam a atenção para a necessidade de resistir, denunciar, não pactuar com quem quer perseguir etnias, impor a sua verdade acima das outras, condicionar o pensamento e perseguir e insultar quem a eles se opõe. É certo que o dramaturgo britânico George Bernard Shaw alertou para os perigos de lutas com javardos:  “nunca lutes com um porco, ficas todo sujo e o porco gosta”. Mas mais vale ficar sujo numa luta do que ficar calado e encolher os ombros face ao que se passa à nossa volta. E termino com palavras de Bob Dylan: “Para mim um herói é alguém que compreende o grau de responsabilidade que acompanha a sua própria liberdade.” 


 


SEMANADA - A linha nacional de prevenção de suicídios já atendeu mais de 14 mil chamadas desde que começou a funcionar, em 10 de Setembro, de 2025, a maior parte delas feitas por jovens entre os 18 e 29 anos e mulheres; No primeiro trimestre deste ano estavam a funcionar 482 salas de cinema em Portugal, uma redução de perto de uma centena face a 2025; na época 24-25 os clubes de futebol gastaram 17,4 milhões de euros na segurança dos jogos nos seus estádios; o valor da água que é anualmente desperdiçada em Portugal devido a rupturas, fugas ou avarias é de cerca de 158 milhões de euros por ano; segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária 137 pessoas morreram entre 1 de janeiro e 9 de abril, mais 36% do que no período homólogo de 2025;  no mesmo período ocorreram 42 212 sinistros, mais 14,4% do que no ano passado; no final de 2025 havia 731 pessoas presas por crimes rodoviários;  as viaturas de emergência médica estiveram paradas mais de dez mil horas por falta de médicos, um aumento de 32% em relação ao ano anterior; só 17% das instituições superiores que usam IA no ensino definiram regras claras sobre a sua utilização em contexto escolar.


 


O ARCO DA VELHA - A estátua da escritora e deputada do PSD  Natália Correia, na Graça, em Lisboa, foi vandalizada com cruzes suásticas pintadas sobre a cara da poeta.


 


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FOTOGRAFIAS E HISTÓRIAS  - João Miguel Barros, advogado, fotógrafo, fundador da galeria Ochre, editor, organizador de exposições e divulgador da fotografia japonesa e chinesa em Portugal, e da portuguesa em Macau e na China, apresenta na galeria Lumina, “À Distância de Um Braço”, um conjunto de trabalhos organizado em curtas narrativas fotográficas e que percorrem várias áreas e épocas da sua fotografia. No texto que escrevi para esta exposição sublinho que “o trabalho fotográfico de João Miguel Barros não é fruto do improviso, nem obra do momento. Surge na sequência de um cuidado processo de estudo e compreensão dos temas, lugares e circunstâncias que quer fotografar, depois de ter escolhido o assunto. João Miguel Barros não encena as fotografias, mas prepara o seu olhar, documentando-se sobre o que deseja ver e como o quer mostrar, quer recolhendo informação, quer quase pré-visualizando o que depois vai fotografar. Na realidade ele não faz fotografias isoladas, conta histórias através da fotografia”. E, mais adiante:”desde as imagens mais cruas às mais introspectivas, há um ponto comum que é um mesmo olhar, uma mesma forma de mostrar, evidente na escolha dos enquadramentos, no preto e branco intenso e, no caso desta exposição, no cuidado colocado na apresentação e colocação das fotografias”. De facto a montagem é invulgar, cenografada, não se limitando a colocar imagens na parede mas fazendo da parede parte da exposição. Em simultâneo a Lumina apresenta “Arquitectura de Uma Flor”, esculturas de Paulo Canilhas. ( Aberto de quarta a sábado, das 15 às 19. Rua Actor Vale 53A)


 


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ROTEIRO - Sob o tema “Segurar, dar, receber (To hold, to give, to receive)”, a bienal Anozero de 2026, decorre em Coimbra até 5 de Julho, sempre com entrada gratuita, em vários espaços como o Edifício Chiado, a Sala da Cidade, o Convento São Francisco e o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que volta a assumir-se como o seu núcleo central. Estão patentes obras de artistas como Nan Goldin, Mário Macilau (na imagem uma fotografia de sua autoria), Chantal Akerman, Lina Bo Bardi, Rui Chafes,  Shilpa Gupta e João Salema, entre outros. A escolha das exposições foi feita pelos curadores Hans Ibelings e John Zeppetelli e pelo curador assistente Daniel Madeira. Em Lisboa, no Arquivo Fotográfico Municipal, três novas exposições até 19 de Setembro: uma delas assinala o centenário de Gérard Castello Lopes e mostra trabalhos seus feitos entre 1956 e 2005, representativos das diversas etapas do seu percurso artístico;  outra exposição no mesmo local  apresenta 50 provas de época de fotografias de Lisboa por George Dassaud feitas em 1985, 1993 e 2002, sob o título “de Lisboa para ti”; finalmente, também no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), é apresentada uma nova exposição de Rita Barros, “Hyperosmic”, com uma série fotográfica inédita e um livro de artista sobre como os estímulos ambientais interferem na memória, no corpo e na relação com o espaço.


 


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UMA HISTÓRIA DE VIDA - “Pão de Anjos” é o novo livro de Patti Smith, originalmente editado em 2025 sob o título “Bread  Of Angels”,  apresentado como uma viagem pelas suas memórias. Não é a primeira vez que Patti Smith revisita o seu passado:  “Just Kids”, de 2010, igualmente editado em Portugal sob o título “Apenas Miúdos”, estava centrado sobretudo na relação que a cantora teve com Robert Mapplethorpe e o seu círculo de amizades e cumplicidades de então. Mas neste “Pão de Anjos” Patti Smith vai até às memórias com a sua família na infância e juventude e sobretudo na sua vida com Freddy “Sonic” Smith, o lendário guitarrista dos MC5, uma banda histórica de Detroit, morto precocemente aos 46 anos, com quem se casou e teve dois filhos. O livro, muito intimista, é marcado pelas mortes dos mais próximos:«Todos estão mortos, tudo foi esquecido, ecoa uma voz. Inventario os que ainda me acompanham». Mas lança uma luz sobre a sua adolescência, quando descobriu a poesia de Rimbaud e, mais tarde, a obra de Bob Dylan. “Pão de Anjos” (que tem uma magnífica tradução de João Pedro Vala) acompanha o percurso musical e artístico de Patti Smith, evocando as suas canções, os concertos que lhe deixaram uma marca e a mais recente fase da sua carreira, com novas digressões, lugares que vai descobrindo e releituras que realiza, como a de James Joyce. O livro está cheio de fotografias, intercaladas no texto - a fotografia tem aliás marcado a sua vida, através das polaroids que foi fazendo desde 1996 e que são como que um diário. Há uma frase, já no final do livro, que sintetiza a Patti Smith de hoje e a forma como ela vê o mundo: “Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial”. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - O novo livro de Rui Couceiro, “A Mais Bela Maldição, Histórias de Gente Apaixonada por Livros” é um mapa de personagens fascinantes, desde um livreiro da medina de Rabat, a um ex-recluso norte-americano que criou mais de quinhentas bibliotecas em prisões, um pastor alemão que salvou de uma lixeira na antiga RDA cerca de 80 mil livros e guardou-os na paróquia que dirigia, passando pela italiana que abriu uma livraria numa aldeia de 180 habitantes que entretanto se tornou num pólo de atracção ou o advogado brasileiro que construiu o seu próprio museu pessoano. São duzentas páginas de dez histórias fascinantes que fazem crescer ainda mais o amor pelos livros, pela mão da Porto Editora. E por falar nisso outra obra que vem a calhar, foi agora oportunamente editada pela Guerra & Paz: “Elogio da Leitura”, um texto escrito por Marcel Proust como prefácio à sua própria tradução de um livro de John Ruskin,  “Sesame and Lilies”, em 1906. Na realidade este é um ensaio sobre o valor da leitura e o papel transformador que os livros podem ter e é considerado um dos mais belos textos de Proust e descreve as alegrias e desafios que a literatura oferece, assim como o poder que um livro tem de moldar a nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo.


 


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DISCO DA SEMANA -Natascia Gazzana no violino e Raffaela Gazzana no piano têm construído uma sólida reputação como intérpretes, através do seu Duo Gazzana. Depois de terem trabalhado obras de Robert Schumann, Edvard Grieg e Tõnu Kõrvits, as duas irmãs italianas dedicaram-se agora à música de Sergei Prokofiev, Arvo Pärt e Alfred Schnittke, criando um espaço musical e uma sonoridade invulgar através das interpretações que fazem. De Prokofiev escolheram a Sonata no.1, op.80 e as Five Melodies op.35a; de Arvo Part”Spiegel im Spiegel” e de Schnittke a peça “Gratulationsrondo “. Edição ECM.


DIXIT - “A questão de defrontar directamente os adversários só tem sentido quando se está numa fase de crescimento de partidos e movimentos hostis à democracia e não quando já tomaram o poder. Nessa altura a resposta a dar é de outra natureza.” - José Pacheco Pereira , no Público 


BACK TO BASICS -   “A liberdade é algo de valor inestimável” - Cícero 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS