maio 30, 2026

AS MÃOS DA MÚSICA

 

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Desde cedo ocupo uma parte dos meus dias a ouvir música e, ao longo dos anos, fui variando de géneros musicais. Nos anos 60 ouvia a pop francesa da época, depois a pop britânica e, mais tarde, a música da costa oeste dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo ia descobrindo o jazz na rádio pela mão dos “cinco minutos” do Zé Duarte, e em casa ouvia o que o meu Pai punha a tocar, quase sempre música clássica, com uma predominância pelo piano, um gosto que ele me deixou de herança. Desde cedo fiquei fascinado por dois instrumentos bem diferentes: a guitarra eléctrica e o piano. Tanto vibrava com um solo de Jimi Hendrix como com o jazz que brotava do piano de Bill Evans ou de Alfred Brendel, um favorito lá de casa. Ainda hoje, ao fim do dia ponho quase sempre música a tocar, faz-me bem ter esse momento de isolamento do resto do mundo. A música é um encanto estranho, uma aventura humana. Bem sei que a música nasce no cérebro, mas são as mãos que a transportam para a podermos ouvir. Na realidade as mãos têm um papel decisivo na música, na expressão que é conseguida, no ritmo que é marcado, na sonoridade final. Sem mãos que acariciem o teclado o piano não vive. São as mãos do pianista que despertam as teclas e lhes dão vida. Sempre achei que o movimento das mãos dos pianistas é como um bailado, para o qual gosto de olhar. Tanto pensei nelas que, no início deste ano, resolvi fotografar as mãos de um pianista, amigo e cúmplice, o Nuno Vieira de Almeida, enquanto ele estudava para um recital. Andei à sua volta, à procura do movimento das mãos. Fixei-o em sete imagens que estão expostas até 20 de Junho na Galeria Diferença, em Lisboa. Esta é uma delas. A exposição chama-se “Um Piano”.



maio 29, 2026

MUDAM-SE OS TEMPOS....

 

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MUNDO NOVO - Não é novidade para ninguém que os hábitos de consumo de televisão estão a mudar de forma cada vez mais acelerada. Hoje em dia a competição do aparelho tradicional de televisão está espalhada por todo o lado - computadores, smartphones, tablets, até algumas consolas de jogos. A velha imagem de uma sala com uma televisão à volta da qual toda a família se reunia à noite deixou de existir. Agora, numa família, muitas vezes cada membro tem o seu próprio ecrã. É frequente que uma pessoa esteja até a seguir dois ecrãs em simultâneo, por exemplo o da televisão e o de um tablet. Tudo isto tem efeitos devastadores nas audiências dos canais tradicionais. Os valores médios do share de audiências deste ano, até agora, dão uma ideia da situação: os quatro canais de sinal aberto (RTP1, RTP2, SIC e TVI), em conjunto, cativaram 39,4% da audiência. Os outros 60% estão divididos entre o conjunto dos canais de cabo (cerca de 39%) e as plataformas de streaming (cerca de 21%). Nestas há um protagonista que ganha cada vez maior presença, e não é a Netflix. Trata-se do You Tube, por vezes considerado uma rede social, mas que na verdade é um grande ecrã de múltiplos conteúdos, desde filmes clássicos e documentários, passando por canais de orgãos de comunicação, alguns portugueses. Em Portugal o YouTube tem 7,49 milhões de utilizadores regulares, posicionando-se como um dos principais meios de consumo de vídeo, muitas vezes superando a TV convencional . Com estes 7,49 milhões de utilizadores, o YouTube supera o Facebook, que tem 6,20 milhões, e a plataforma é vista por muitos como a "nova televisão", com os utilizadores a passarem muito tempo a assistir a vídeos de tecnologia, automóveis,  jogos e entretenimento. Em termos globais o YouTube conta com cerca de 60 canais com mais de um milhão de subscritores e mais de 700 canais com mais de 100 mil. A tendência não é só portuguesa - por exemplo em França um estudo recente indica que metade da população residente em França liga-se ao YouTube pelo menos uma vez por semana. 

 

SEMANADA - Nos primeiros três meses do ano as autoridades policiais fizeram quase 800 detenções por violência doméstica; a PSP apreendeu 99 armas, entre janeiro e março, em contexto de violência doméstica e destas, 38 eram de fogo e 30 eram armas brancas; no ano passado mais de 1200 doentes com pulseira amarela abandonaram os serviços de urgência dos hospitais devido ao tempo de espera para o atendimento; em Portugal há quase 270 mil trabalhadores com pelo menos dois empregos em simultâneo; três em cada dez comboios portugueses registam atrasos nos horários; em Portugal quase 70% das pessoas não utilizam transportes públicos; em 2025 Portugal cresceu no consumo de vinho, atingindo cerca de 560 milhões de litros; quase quatro meses depois das tempestades na região Centro ainda há 26 estradas cortadas, há ainda 7500 clientes sem serviços fixos de telecomunicações; a poucas semanas do verão perto de um terço do território do continente (30,6%) está classificado nas categorias de áreas de alta e muito alta perigosidade de incêndio rural, na zona Centro a percentagem sobre para 50,5% do território e no Norte é de 50,2%; uma sondagem recente indica que 66% dos portugueses não estão satisfeitos com a acção do Governo.

 

O ARCO DA VELHA - O Presidente da Assembleia da República tem 31 cargos que pediu para serem ocultados no seu registo de interesses na Entidade para a Transparência, grande parte deles no exercício de funções em órgãos sociais de empresas.

 

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UMA PINTURA DIFERENTE  - Manuel João Vieira é um homem de vários instrumentos: canta, toca, fundou os Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, vestiu várias vezes as roupagens de Candidato Vieira (como nas recentes presidenciais) e é um artista plástico com muitos anos de trabalho no desenho, pintura e escultura. Desenvolveu uma carreira própria multifacetada desde os anos 80, tendo sido um dos fundadores do Movimento Homeostético, em 1983, com Ivo, Xana, Fernando Brito, Pedro Proença e Pedro Portugal. Agora, até 7 de Setembro,  tem uma exposição retrospectiva no MAAT, intitulada “A Ilha Púrpura: notas e paisagens”. João Pinharanda, que foi o curador desta exposição, faz notar que “a pintura é uma das áreas onde a sua presença alcança maior significado”. “As suas telas - salienta - surgem povoadas de figuras, símbolos e soluções de composição que usam termos da cultura greco-romana e citam os últimos séculos de história da pintura ocidental”. Pinharanda sublinha ainda que a  pintura de Manuel João Vieira  é “provocadora na técnica e no colorido” e a sua obra atrai “pela densa figuração e pelas composições inesperadas, muitas vezes humorística e paródica” e frequentemente irónica e melancólica. As suas pinturas, muitas vezes de grande dimensão, são habitadas por seres bizarros e coloridos inesperados muitas vezes evocando a água “como elemento unificador através de navios, marinheiros, sereias, riachos, lagos e mares”. Com várias dezenas de obras, esta visão de conjunto da obra de Manuel João Vieira permite também compreender melhor a sua forma de estar na vida, sempre como um performer, seja nas artes plásticas, na música ou até na política.

 

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ROTEIRO - Na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva abriu mais uma exposição da série que tem juntado obras  de Szenes e Vieira que fazem parte do acervo do Museu, aqui acompanhadas por Lourdes Castro, em diálogo com artistas contemporâneos, como Carlos Noronha Feio, João Paulo Feliciano, Mariana Caló e Francisco Queimadela e Sara & André. Na imagem está “Le Bosquet”, um óleo datado de 1956 de Arpad Szenes. Bem diferente é a exposição que abriu na semana passada no MUDE e que até 30 de Agosto permite ver a colecção de autocolantes políticos e sindicais da Ephemera, desde 1974 até aos dias de hoje. São centenas de peças que mostram, emblematicamente as lutas, os protestos, os slogans e as campanhas eleitorais ao longo destes anos. E por fim, declarando desde já que vou falar em causa própria, tenho uma exposição de fotografia que fiz, sob o título “Um Piano”, que retrata o fundamental papel das mãos na criação da música. Na Galeria Diferença até 20 de Junho, onde também poderão ver uma exposição de pintura e cerâmica, “Resiliente Transitions” de Franka Struys e Vânia Gonçalves, com curadoria de Frederica Elena (Rua de São Filipe Néri 42).

 

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BANDA SONORA - Quando Miles Davis, com 31 anos e após um período de inatividade provocado por uma cirurgia, chegou a Paris, em finais de 1957, o então jovem realizador Louis Malle convidou-o a fazer a banda sonora para a sua primeira longa-metragem, “Ascenseur pour l’Échafaud”, um policial à volta de um assassínio cometido por um casal de amantes que matou o marido da mulher, interpretada por Jeanne Moreau, que aparece na capa do disco. Nos dias 4 e 5 de Dezembro Miles Davis e quatro músicos que reuniu para os concertos parisienses, gravaram os 27 temas do disco, na maior parte dos casos de improviso, enquanto olhavam para a projecção do filme. Miles, no trompete, foi acompanhado por Barney Wilen no saxofone tenor, René Urtreger no piano, Pierre Michelot no contrabaixo e Kenny Clarke na bateria. Agora, 70 anos depois e para assinalar o centenário de Miles Davis, a banda sonora do filme foi remasterizada e editada de novo, em LP e CD, como novos textos e fotografias nos formatos físicos. Ao longo de mais de uma hora podemos ouvir a música que Miles faz para acompanhar as cenas do filme, das mais calmas às mais agitadas, num exercício de improviso que só um talento como o seu conseguiria. Disponível nas plataformas de streaming.

 

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MEMÓRIAS - “Trabalho de Casa” é um dos mais divertidos e viciantes livros que me passou pelas mãos este ano. É um álbum de memórias do seu autor, Geoff Dyer, sobre a forma como passou os anos 60 e 70, a sua vida numa família da classe trabalhadora da Inglaterra dos anos 60, o que descobriu e viveu enquanto estudava em Oxford. Por aqui passam a cultura pop que desabrochava, a forma como lhe nasceu a paixão pela literatura e a época de mudanças sociais, e políticas que marcou a sua geração, os confrontos e as relações fugazes nos corredores da universidade, os concertos rock. Geoff Dyer é autor de vários romances e  considerado um dos mais originais escritores de não-ficção contemporâneos, escrevendo sobre jazz, fotografia, cinema, literatura ou viagem. Este “Trabalhos de Casa foi escrito entre 2023 e 2025,  é uma bem humorada crónica desses tempos e não resisto a citar o que, já no final um dos personagens diz ao autor, falando sobre outra pessoa: “ele era tão forreta! Não te dava um abcesso nem que tivesse a boca cheia deles”. Muito boa tradução de Bruno Vieira Amaral e Susana Almeida, edição Quetzal.

 

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MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago dois livros bem actuais e que nos podem ajudar a compreender melhor o mundo em que vivemos. O primeiro é “História da China Antiga e Imperial”, de Damien Chaussende, onde o autor traça, em oito capítulos ordenados cronologicamente, a longa história da China, desde o nascimento da escrita por volta de 1200 a. C. até à queda do império sino‑manchu dos Qing em 1912, ajudando a compreender uma cultura rica e exuberante, destacando numerosas curiosidades e figuras históricas, assim como as grandes obras que constituem a bagagem cultural comum da China dos dias de hoje. Uma edição Guerra & Paz. O outro livro é ”História Concisa dos EUA”, de Don Watson, e percorre o percurso do país desde a declaração de independência ao MAGA, relatando 250 anos de convulsões, conquistas e recuos. Nesta época em que os dois países travam uma disputa cada vez mais acesa pela liderança mundial estes dois livros ajudam-nos a perceber o que são e como evoluíram. Edição Casa das Letras

 

ALMANAQUE - Este é o fim de semana da ARCO. Até Domingo, na Cordoaria, 470 artistas, 83 galerias de 17 países participam na grande feira de arte de Lisboa. Uma oportunidade imperdível de tomar o pulso à arte contemporânea e à actividade de artistas, galeristas e colecionadores.

 

DIXIT - A verdade é que este governo minoritário, sem vontade de aliança ou coligação, se condena a si próprio na sofreguidão de chegar à maioria absoluta. Não através de negociações às claras com partidos e parceiros. Mas sim, por intermédio de crises sucessivas que pretendem demonstrar que são as oposições as responsáveis pela incompetência do Governo” - António Barreto, no Público.

 

BACK TO BASICS - A maior parte das pessoas que pede uma crítica sobre o seu trabalho está à espera de elogios - W. Somerset Vaughan



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




maio 23, 2026

UMA JANELA DE MUSEU

Gosto muito de percorrer um museu, descobrir-lhe os recantos, guardar na memória as salas e as obras que elas acolhem. A alguns regresso volta e meia, para matar saudades do que lá vi e para fazer novas descobertas. Mas nem sempre fui assim: em miúdo resistia-lhes, com o tempo fui-lhes ganhando o gosto, da mesma maneira que fui descobrindo, ao longo da vida, novos sabores e novas sensações. Hoje visito-os mais devagar, aos novos e aos que já conheço. Nestes, que me são familiares, vou à procura de uma sala onde espero rever uma obra que me encantou. e depois fico a olhá-la. Se houver um desses bancos de museu a meio da sala sento-me lá um bocado a deixar-me invadir pela imagem do que fui ver. Outra coisa que gosto de fazer é olhar para outros visitantes do museu e ficar a espreitar a maneira como eles percorrem o espaço - onde param, onde aceleram o passo, medir a distância a que olham para as obras expostas. E gosto de ir descobrindo pormenores dos edifícios que acolhem os museus, os recantos, as escadarias, a maneira como as luzes estão colocadas e, claro as suas lojas e o que lá está exposto, desde postais a blocos, cartazes, lápis ou canetas, catálogos e livros. Não saio de um museu sem visitar a loja respectiva. e muitas vezes procuro janelas de onde possa ver o que está do lado de fora do edifício. Num museu as janelas podem ser raras porque são concorrentes das obras expostas. dei com esta janela no novo Muzeu, de Braga, Estava numa sala quando a vislumbrei lá ao fundo. Fui vê-la mais de perto, descobrir o que tinha para me mostrar. E foi assim que fiquei a ver Braga pela janela de um museu.

 

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maio 22, 2026

UM ESTADO INEFICAZ E ABUSADOR

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O PESADELO DO ESTADO - O deputado Carlos Guimarães Pinto tem levantado várias vezes uma questão a que ninguém no Governo responde: porque é que o Estado pede recorrentemente aos cidadãos informação sobre esses mesmos cidadãos, quando o próprio Estado a possui? Há dias percebi a extensão do pesadelo. Recebi no dia 14 de Maio uma carta registada do Instituto da Conservação da Natureza, datada originalmente de 19 de Março. A carta pretende a minha autorização para a ocupação de uma parcela de um terreno que herdei, e está há muito devidamente registado em meu nome, para a instalação de uma faixa de gestão de combustível que possa auxiliar, se necessário, no combate a incêndios florestais. A carta vem acompanhada de indicações sobre a propriedade, respectivos dados cadastrais e um mapa que explica a faixa  que vai ocupar, sensivelmente um terço do terreno em causa. Propõe uma indemnização pelo estabelecimento dessa faixa, num programa financiado pelo PRR, que já se sabe, está atrasado e perto do final do prazo de execução. Lendo o legalês da carta percebe-se que o Secretário de Estado da Conservação da Natureza despachou a declaração de utilidade pública dessa faixa de terreno a 30 de Dezembro do ano passado. Quase três meses depois escreveram a carta que me chegou quase cinco meses após o referido despacho. Assim não admira que se esgotem os prazos e o PRR esteja atrasado. Enquanto os serviços tiveram quase cinco meses para me fazer chegar a informação, dão-me quinze dias para aceitar ou contestar e para, e esta é a parte engraçada, nesse prazo enviar o meu nome completo, o número do Cartão de Cidadão, anexar com carácter obrigatório e urgente a Caderneta Predial do terreno em causa emitida pelas Finanças e a Certidão Permanente Predial emitida pelo Instituto dos Registos e Notariado. Nos dois casos são indicadas as respectivas matrizes e descritivos que o Estado, e em especial o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, bem conhece, já que os identifica com rigor, com mapa e tudo. Eu lá me oriento no mundo digital do Estado, mas as pessoas que vivem no interior, com mais idade, como vão fazer isto? E já nem menciono o facto de a Certidão Permanente Predial ter custos, receita que obviamente se destina à máquina do Estado. Para colocar a cereja em cima do bolo, a carta deste tão funcional organismo do Estado foi enviada para uma morada que já nem é a minha há mais de um ano, alteração que na altura foi devidamente comunicada e registada. Portanto o Estado tem os prazos que entende, demora o tempo que quer, manda uma carta com exigências para uma morada errada, dá-me um prazo apertado para responder, obriga-me a despesa e a gastar tempo, e mete umas ameaças veladas no meio do legalês. Muita razão tem o deputado Carlos Guimarães Pinto. O Estado abusa, é prepotente,  e desrespeita os cidadãos e quer que sejam eles a fazer o que o Estado não faz.

 

SEMANADA - Um estudo recente indica que faltam 14.000 enfermeiros no SNS; em 2025 Portugal recusou a entrada no país a 2135 pessoas, todas em aeroportos; em dez anos os alunos com necessidades específicas aumentaram 29% e são agora quase 100 mil; no primeiro trimestre deste ano nasceram 21.101 bebés, mais 3,2% do que no mesmo período do ano passado, e foi atingido também o valor mais alto nos últimos 14 anos; segundo o INE há, em Portugal, quase 1,9 milhões de pessoas empregadas com ensino superior, mais de um terço (35%) de todo o emprego no país; é também o maior segmento, ultrapassando os 1,79 mil milhões que têm ensino secundário ou pós-secundário (formação profissional especializada) e os 1,6 mil milhões que não têm mais do que o terceiro ciclo; as famílias portuguesas gastam mais do dobro da média da União Europeia com o ensino superior dos filhos; menos de 5% dos contratados por grandes empresas têm mais de 50 anos; profissionais acima dos 55 anos representam actualmente 28,8% dos desempregados há mais de um ano; os portugueses gastam 600 mil euros por dia nas injecções de emagrecimento, em 2025 foram vendidos mais de um milhão de embalagens e este ano a média é de 2300 embalagens por dia; mais de 200 narcolanchas foram apreendidas em seis anos pelas autoridades portuguesas; as queixas por fraude digital cresceram 45% em 2025; José Sócrates exige 205 mil euros de indemnização por lentidão da justiça; Portugal é o país da UE com maior número de famílias com um filho único.

 

O ARCO DA VELHA - Há cinco anos foi denunciado o desaparecimento de mais de 200 armas do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária e ao fim deste tempo continua sem se saber onde anda esse armamento e quem o desviou.

 

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O APOCALIPSE  - Para assinalar os 20 anos da sua existência, a editora Guerra & Paz fez uma edição completamente nova de “O Apocalipse” de Albrecht Dürer, em que as gravuras foram comentadas por Agustina-Bessa Luís. A primeira edição do texto de Agustina, ainda da Guimarães Editores, era de 1986 e encontra-se há muito esgotada. Esta é uma edição especial, de capa dura e grande formato, com 128 páginas, onde pela primeira vez em Portugal as gravuras foram impressas a cores. São acompanhadas pelo texto que Agustina escreveu sobre o “Apocalipse cum figuris” de Dürer, um conjunto de imagens em que pulsa o assombro e a angústia, perante o turbilhão dos conflitos e quando o temor da invasão otomana da Europa e da consequente devastação e catástrofe eram medos primordiais. Trata-se de uma obra que volta a ganhar actualidade nestes tempos conturbados. Mónica Baldaque, filha da escritora, sublinha que o texto “se divide em quinze capítulos, e cada gravura é comentada por Agustina, contextualizando a época e os seus intervenientes, revelando um conhecimento profundo da História e da Alma. É impressionante o número de grandes textos lidos e anotados por Agustina, em que estuda as épocas que em todos os aspectos influem para o aparecimento desta linguagem de fábula.” . Edição Guerra & Paz

 

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 DO CORPO À PAISAGEM - Na Galeria Municipal de Matosinhos Cristina Ataíde apresenta até 12 de Julho uma grande exposição retrospectiva do seu trabalho, com 58 obras de pintura, desenho e escultura feitas entre 1994 e 2026 (na imagem) sob o título “Corpos Paisagem, variações em vermelho”. Com curadoria de Miguel von Hafe Pérez a exposição desenrola-se ao longo das três grandes salas da Galeria e distingue-se pela cor vermelha que marca a maior parte da obra da artista nos vários materiais que utiliza. Em toda  a exposição há uma acentuada relação entre o apelo à salvaguarda da natureza e a permanente mutação da paisagem e dos corpos. O curador sublinha que “ao longo da sua carreira, Cristina Ataíde construíu uma linguagem própria que articula escultura, desenho, instalação e acção”. E prossegue: “A matéria – seja pedra, madeira, tecido ou pigmento – nunca surge como elemento neutro; pelo contrário, é portadora de memória, de tempo e de uma relação íntima com o corpo que a manipula. Neste sentido, o corpo não é representação, mas vivência projetada no espaço, deixando vestígios, marcas e tensões que configuram uma paisagem subjetiva: o corpo enquanto território sensível e a paisagem enquanto extensão desse mesmo corpo. Na obra de Ataíde, não existe uma separação clara entre interior e exterior, entre sujeito e mundo. Cada peça parece operar como um limiar, um lugar de passagem onde a experiência física se transforma em linguagem plástica.”

 

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ROTEIRO - “Uma exposição clássica, de fotografia quase de viagem e de paisagem” - assim define Nuno Cera a sua nova mostra, “Anatomia do deserto”, (na imagem), que mostra dez fotografias no norte do Chile e na travessia dos Andes até à Argentina, apresentada na Galeria Miguel Nabinho até 27 de Junho (Rua Tenente Ferreira Durão 18, Lisboa). No Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian a artista italiana Rosa Barba apresenta “Desenhar Vocabulários”, uma instalação composta por 25 obras, algumas delas inéditas que ocupa a Nave do CAM. Em paralelo, no Mezanino, são mostradas obras da Coleção do CAM, escolhidas pela artista, de alguma forma relacionadas com o seu processo criativo. No espaço do Bairro Alto Hotel, no Chiado, em Lisboa (Rua do Alecrim 109), a galeria portuense Nuno Centeno apresenta “Névoa Vermelha da Noite”, uma exposição de trabalhos de Maria Capelo. A Pequena Galeria (Avenida 24 de Julho 4) apresenta até 14 de Junho a exposição de fotografia Adaequatio, de Vasco Grilo. Na Galeria Sá da Costa ( Rua Serpa Pinto 19) Catarina Gentil e Paulo Brighenti apresentam até 14 de Junho a exposição  “Peso dos Olhos, Peso dos Ossos". Na Casa da Imprensa (Rua da Horta Seca 20), o fotojornalista Marques Valentim apresenta até 26 de Junho “Memórias de Uma Revolução”, um conjunto de imagens inéditas captadas entre 11 de Março e 25 de Novembro de 1975.

 

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FLAMENCO - O guitarrista e compositor Yerái Cortés, um dos mais importantes músicos de flamenco actuais, nascido em Alicante em 1995,  tem novo disco, “Popular”. Em 13 faixas, Cortés mostra uma abordagem moderna ao flamenco, pontualmente influenciada pelo jazz. No disco, Cortés que escreveu música e palavras de todos os temas, optou por entregar o canto a um um coro composto por oito bailarinas e palmeadoras, criando o som de um coro colectivo que simula o ambiente festivo de uma festa popular e que Cortés inclui nas suas actuações ao vivo. O disco, que tem muito de autobiográfico é uma evocação de amores perdidos e é apresentado pelo músico como “uma carta para o coração de Tania”, aqui referindo-se a outra grande voz do novo flamenco, La Tania, com quem manteve uma relação. O disco está disponível nas plataformas de streaming.



ALMANAQUE - A XXIX Edição do festival PHotoESPAÑA2026 decorre até 13 de Setembro, tem por tema “Volver a imaginar” e está dedicada à criatividade fotográfica, à experimentação e à exploração dos limites da imagem. O programa das numerosas exposições em diversos espaços de Madrid pode ser facilmente consultado online em www.phae.es

 

DIXIT - “Trata-se, isso sim, no contexto de um sistema político e de um Parlamento estruturalmente fragmentados, de apelar a um espírito mínimo de compromisso que nos salve de uma paralisia doentia (…) Trata-se, no fundo, de pedir a PSD e PS que não nos tratem como garotos e que sejam capazes de olhar para além da pequena chicana partidária.” - Pedro Norton, no Público.

 

BACK TO BASICS - "O problema de Portugal não é a falta de dinheiro, é a falta de vergonha” - Medina Carreira

 

A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS



maio 16, 2026

O MOMENTO ANTES DA PARTIDA

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Gosto de comboios. Arrisco até dizer que gosto de todos os comboios - os de brincar, os a sério, os rápidos, até dos lentos. Tenho pena de não andar mais de comboio mas já se sabe que o panorama ferroviário do país não ajuda. Por exemplo: desde cedo habituei-me a andar de comboio na linha da Beira Baixa, foi a minha aprendizagem, a descoberta dos cruzamentos do Entroncamento, a segunda etapa da viagem, a procura da plataforma onde estaria o comboio que me levaria ao meu destino. Até essa linha da Beira Baixa está fechada desde as tempestades de fevereiro e não se sabe ainda quando abrirá. Não é a única, as obras na ferrovia prolongam-se sempre por mais tempo do que se imaginava, são as novas obras de Santa Engrácia. O incumprimento de prazos é uma doença crónica do Estado português e ainda não houve Governo que tivesse o dom de melhorar o panorama. Mas quando se entra num comboio para uma viagem longa tudo se esquece: gosto de olhar pela janela e ver a paisagem passar, quando chove ver as gotas de água a escorrer, gosto até dos solavancos, e, sobretudo, gosto de misturar olhar pela janela e ir lendo o jornal ou um livro. E gosto das estações, desde as centrais nas grandes cidades, até aos pequenos apeadeiros onde os comboios só param de vez em quando. Gosto de as ver ao anoitecer, de sentir as luzes que iluminam as pessoas que estão à espera nas plataformas. E gosto de ver as linhas desenhadas pelo carris, essa esquadria que modela o horizonte e nos abre o caminho, como nesta fotografia, aquele instante antes do comboio chegar.



maio 15, 2026

OS NÚMEROS DOS JORNAIS E SUGESTÕES DIVERSAS

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A IMPRENSA ENCOLHIDA - A propósito do Dia Mundial da Imprensa, que se assinalou a 3 de Maio, foi divulgado que Portugal ocupa agora a 10ª posição no índice da liberdade de imprensa, quando no ano passado ocupava o 8º lugar, um mau sinal para o país. Mas há outros sinais preocupantes. Segundo o INE e a Marktest em 2024 existiam em Portugal 860 publicações periódicas. Verifica-se assim que o número de publicações tem vindo a diminuir, sendo hoje menos de metade do registado em 2004, quando se contabilizavam 2064 publicações. Isto significa que, em 20 anos, o país perdeu 1204 títulos. Em 183 dos 308 concelhos do país é editada pelo menos uma publicação periódica e em 62 destes existem 3 ou mais. Nos restantes 125 concelhos não existe nenhuma. O mesmo estudo indica que  Lisboa é o concelho onde é editado o maior número de publicações (228), representando 26.5% do total do país. Porto, Oeiras, Coimbra e Sintra completam a lista dos cinco concelhos com maior número de publicações periódicas em 2024, com um total de 379 títulos, 44% do total. Outro sinal preocupante:  face ao observado há 20 anos, em 68 concelhos passou a não existir nenhuma publicação  e em Amadora, Funchal, Chaves, Gondomar, Almada, Seia, Faro, Arcos de Valdevez, Olhão, Pombal e Vila Nova de Cerveira esse número baixou mais de 80%.  Em termos absolutos, foi em Lisboa que mais diminuíu o número de publicações (menos 459), a que se seguiram os concelhos de Oeiras e Porto (ambos com menos 58 publicações), Funchal (menos 36) e Amadora (menos 29). Olhemos agora ainda mais para trás: é muito interessante comparar o que era o universo mediático português em 1974 e o que se passa hoje em dia. Em 1974 existiam, só em Lisboa e no Porto, mais de uma dezena de jornais diários generalistas, hoje existem apenas quatro, um deles exclusivamente online. Os números são duros.

SEMANADA - Cem dias depois da tempestade Kristin ainda há estradas cortadas, pinhais cheios de árvores caídas no chão, comunicações sem funcionar; um terço das detenções por abuso sexual tem origem, em denúncias das escolas; em quatro anos foram afastados 129 agentes e militares da GNR e desde que Luís Neves entrou no Ministério da Administração Interna já foram afastados e expulsos 44 elementos das forças  de segurança; nos últimos cinco anos nasceram em Portugal 200 crianças com mães que tinham mais de 50 anos;  há oito mil professores que estão a dar aulas em escolas a mais de 50 quilómetros de casa, percorrendo diariamente pelo menos 100 quilómetros para poderem ensinar; no ano passado os profissionais do Serviço Nacional de Saúde (SNS) comunicaram 3429 episódios de violência de que foram vítimas, mais 33 por cento do que em 2024; no ano passado Portugal recusou mais de mil pedidos de asilo, os pedidos pendentes duplicaram e chegam quase aos 8800; há mais de 95 mil pedidos de junta médica em lista de espera há mais de um ano; há cerca de 40 mil jacarandás em Lisboa e estão a começar a florir.

 

O ARCO DA VELHA - A despesa fiscal com os residentes não habituais quase triplicou em cinco anos, atingindo 1,7 mil milhões de euros em 2024 segundo a Inspecção-Geral de Finanças, que alerta para fragilidades no controlo deste tipo de benefícios fiscais e para a ausência de uma avaliação sobre os seus efeitos económicos e orçamentais.

 

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A BIENAL -  A abertura da Bienal de Veneza na semana passada gerou mais notícias sobre protestos políticos diversos do que sobre a arte apresentada, o que é o retrato perfeito da feira de activismos em que a edição deste ano da Bienal se transformou. Nos pavilhões nacionais havia de tudo, desde a mulher austríaca nua, montada numa moto de água, que dava voltas circulares dentro de um grande tanque, até muitas instalações e performances, frequentemente baseadas na utilização de vídeo e de efeitos sonoros. Dirão que é sinal dos tempos e da presença da tecnologia no nosso quotidiano, mas é também sinal de um deslumbramento, frequentemente inconsequente, convenientemente ornamentado com roupagens ideológicas de ocasião. Alexandre Estrela, com “RedSkyFalls” é a representação oficial portuguesa, apresentada como um cruzamento entre a investigação científica e artística tendo como pano de fundo a neurociência. Regressando ao tema geoestratégico, se falarmos de exposições políticas vale a pena visitar “Still Joy” no Palazzo Contarini Polignac, onde um grupo de artistas ucraniamos mostra, em diversos suportes, a imagem da resistência do país à invasão russa, de forma muitas vezes impressionante. Mas a Bienal é também pretexto para em alguns locais da cidade outros artistas apresentarem de forma independente obras que não estão a concurso mas onde muitas vezes se encontra o que de melhor se pode ver. Vou passar de lado os clássicos incontornáveis que estão na Academia ou na Scuola Grande di San Rocco, e que ali coexistem com obras de Marina Abramovic e Jan Fabre. Mas chamo a atenção a quem se deslocar a Veneza para as fotografias a preto e branco da Itália dos anos 90 pela indiana Dayanita Singh, no Archivio di Stato di Venezia e sobretudo para a magnífica exposição de pintura “The Promise Of Change” do artista queniano Michael Armitage, uma produção da Colecção Pinault no Palazzo Grassi. A força da pintura revela-se também numa importante presença independente portuguesa, a exposição XIV STEPS de Pedro Cabrita Reis que percorre em dípticos de grandes dimensões as 14 estações da Via Sacra, bem expostas no Magazzini del Sale da Academia de Belas Artes de Veneza (na imagem), visitada na inauguração pelo Cardeal Tolentino Mendonça que escreveu um dos textos do catálogo. 

 

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ROTEIRO - Em Coimbra, no Centro de Artes Visuais estão duas novas exposições, “Man Machine” de Miguel Palma (na imagem) e “Direito à Plasticidade” de Marta Soares, ambas com curadoria de Miguel von Hafe Pérez e que podem ser vistas até 5 de Julho. Na Galeria Salgadeiras, em Lisboa, Rita Gaspar Vieira apresenta até 20 de Junho uma série de novas pinturas na exposição “Tabique”. No Instituto Cervantes, em Lisboa a fotógrafa espanhola Beatriz Ruibal apresenta até 18 de Julho “Inventário- Os Objectos Olham para Nós”, 25 fotografias realizadas entre 2020 e 2023 baseando-se numa investigação nas vidas de escritores e escritoras de língua espanhola, a maioria já falecida, para reconstruir biografias diferentes das usuais, oferecendo uma nova perspetiva sobre a relação entre os objetos e as histórias pessoais de vários criadores e criadoras. Na Culturgest João Penalva assinala até 12 de Julho os seus 50 anos de trabalho com a exposição “Personagens e Intérpretes”. que reúne uma dezena das suas peças mais importantes, com curadoria de Bruno Marchand. 

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O QUE FICA DA VIDA - Escrever obituários exige investigação, uma dose de distanciamento e até por vezes algum humor. Um bom obituário não é uma biografia mas permite conhecer o pensamento e a obra do falecido, saber o que dele pensam os próximos e os menos próximos, e compreender a vida que levou. Uma das páginas de obituários mais célebres da imprensa portuguesa é a do semanário “Expresso” que já teve vários autores e actualmente está entregue a Carla Quevedo, que resolveu dar aos seus escritos semanais o título “Vidas Perfeitas”. Agora juntou mais de 110 desses obituários num livro a que também adequadamente deu o mesmo título, “Vidas Perfeitas”, o que permite voltar a descobrir estas vidas de uma forma diferente do que na rapidez das páginas de um jornal. No fundo este livro é uma enciclopédia de vidas. Aqui se cruzam nomes portugueses e estrangeiros, como as das  cantoras Astrud Gilberto e Françoise Hardy, da actriz Jane Birkin, da galerista e mecenas Maria da Graça Carmona e Costa, do cineasta António-Pedro Vasconcelos, dos estilistas Manuel Alves e Giorgio Armani, dos escritores Martin Amis e Mario Vargas Llosa, dos fotógrafos Sebastião Salgado e Eduardo Gageiro, do mafioso Matteo Messina Denaro ou do mercenário Yevgeny Prigozhin. Miguel Esteves Cardoso, que escreveu o prefácio do livro, termina o seu texto com uma pergunta:”para que é que a vida serve? para ler livros como “A Vida Perfeita” é a resposta”. Edição Quetzal.

 

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MESA DE CABECEIRA - Os diplomatas têm sempre muitas histórias que vão vivendo ao longo dos anos e que, muitas vezes, ficam perdidas nas suas memórias pessoais . Quando têm um agudo sentido de observação, uma estimável dose de humor e resolvem contar algumas dessas histórias, de forma discreta mas precisa, o resultado só pode ser delicioso. O embaixador José Bouza Serrano junta esses atributos, de observação, humor e bom português, e o resultado é o livro  “Esta Coisa da Vida Não É Nada Fácil - memórias inconvenientes de um diplomata de carreira”. Ao longo de cerca de 200 páginas, Bouza Serrano percorre memórias de 22 episódios um pouco por todo o mundo, da Irlanda a Beirute, passando pela Noruega. As histórias são bem acompanhadas por desenhos também cheios de humor de Amaro Della Quercia, numa edição Oficina do Livro. O outro livro da semana é muito adequado aos dias que correm, “História Concisa da União Europeia”, por Kiran Klais Patel, o responsável pela cátedra de História Moderna da Universidade Ludwig-Maximilians de Munique. Nesta obra, originalmente publicada na Alemanha em 2022, o autor percorre as décadas de construção da União Europeia, nas suas diversas fases, de 1950 a 1969, depois de 1969 a 1992 e finalmente de 1992 a 2009. O autor fez para a edição portuguesa um prefácio onde aborda o processo de entrada de Portugal na União Europeia. Edição Casa das Letras.

 

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JAZZ TRIO - O baterista Peter Erskine, o pianista Alan Pasqua e o baixista Scott Colley puseram de pé o magnífico álbum “Peregrine” que percorre onze faixas, algumas compostas por Pasqua e Erskine e versões  de “Bop Be” de Keith Jarrett, “God Only Knows” dos Beach Boys, “Poetry Man” de  Phoebe Snow (com a participação de Kate Lamont na voz, Bob Sheppard no saxofone e Brian Kilgore na percussão) e “Wichita Lineman” de Jimmy Webb. Erskine descreve este seu trabalho como “o álbum que sempre desejei fazer”. Disponível nas plataformas de streaming.

 

DIXIT - “Uma reforma equilibrada exige convergência nos vários domínios. Como está a ser feita, é muito duvidoso que a reforma laboral traga grandes benefícios ao país” - Luís Aguiar Conraria, no Expresso.

 

BACK TO BASICS - “O jazz estimula-nos o pensamento, o reggae faz o nosso corpo mexer, mas os blues são o que nos devolve a alma” - Taj Mahal, um dos grandes músicos de blues, ainda activo aos 84 anos.

 

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maio 08, 2026

AS ALGAS DE VENEZA

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Nunca se perde tempo a olhar para a água porque ela nos surpreende constantemente porque esconde sempre uma caixinha de surpresas. Por menor que seja o movimento da sua superfície, a água muda sempre o que mostra. Por vezes penso que parece um caleidoscópio que não pára de rodar e de mudar permanente as imagens que, como em todos os caleidoscópios, se formam ao acaso. Dentro de água aparece um pouco de tudo, o que para lá atiramos e o que lá surge naturalmente. A água tanto pode ser um caminho que transporta o que recebe,  como um depósito que guarda o que acolhe. Experimentem olhar com atenção, imaginar formas, percorrer as margens que moldam os limites da água. É nas margens que vemos estas formas que se desenham e espalham como se fossem uma cabeleira ao vento, flutuando na água, o contraste das cores a marcar a paisagem. São algas, flutuam ao mesmo tempo que se agarram às pedras, não têm raízes nem caules e proliferam até mesmo em águas poluídas. Sem elas a água era mais pobre, elas são um sinal de vida. Estas algas que aqui estão vivem nos canais de Veneza, alimentadas pela salinidade da laguna, são comuns junto às margens e nas estacas de madeira que abundam e que sustentam a cidade. Fazem parte da paisagem, são as plantas dos canais que são as ruas de Veneza.



PANTOMINICE POLÍTICA

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MEMÓRIA POLÍTICA - Para se ser político é preciso uma grande dose de lata, uma selectiva ausência de memória e uma capacidade constante de contornar a verdade. Os políticos com sucesso gostam de fazer de conta que não têm responsabilidades nas coisas negativas que acontecem e só se recordam das coisas positivas. A pantominice é um atributo da maior parte dos políticos no activo e é isso que faz com que uma actividade nobre, que devia ser em prol de todos, seja vista com desprezo por muita gente. Vem esta conversa a propósito de uma recente declaração de António Costa, na qualidade de presidente do Conselho Europeu. O ex- Primeiro Ministro português considerou inaceitável que em países como Portugal os jovens tenham de gastar 100% do salário durante 20 ou 30 anos para conseguir comprar uma casa. Mais: sublinhou que o preço das casas está “no centro da desilusão das pessoas com as instituições democráticas” e considerou que o acesso à habitação acessível é “vital para a coesão social e justiça”. António Costa foi presidente da Câmara de Lisboa durante cerca de oito anos e outros tantos como Primeiro Ministro. Agora vão lá ver o que ele fez em mais de década e meia com responsabilidades directas, em ambos os cargos, na política de habitação. Promoveu uma política local ou nacional sustentada de construção de habitação pública a custos controlados? Ninguém se lembra de tal, mas recordo-me que, enquanto autarca, facilitou a explosão do arrendamento local e de vistos duvidosos, que foram causas da especulação imobiliária que foi crescendo. A falta de memória é muito oportuna para a desresponsabilização quanto ao  passado. Felizmente, nem tudo funciona como em Portugal. Daniel Sazonov, presidente da Câmara de Helsínquia, deu recentemente uma entrevista à revista “Monocle” que é um bom guia para autarcas. Diz ele que governar uma cidade não resolve todos os problemas das pessoas mas pode dar uma grande ajuda, promovendo o crescimento económico, o emprego e a vitalidade urbana. Sublinha a importância de equilibrar o crescimento das cidades com o combate à desigualdade, reconhece que o custo da habitação é um dos maiores problemas das cidades e destaca que Helsínquia conseguiu escapar a uma crise de habitação. Para isso a cidade está a construir sete mil casas por ano a custos controlados. A maior parte dos habitantes da cidade tem entre 15 e 44 anos e o objectivo de Sazonov  é conseguir combinar o desenvolvimento urbanístico com a preservação da natureza e a defesa dos munícipes, apostando forte na educação dos mais novos e nos cuidados de saúde. Até agora tem conseguido. Aqui está um caso que muitos autarcas portugueses deviam estudar.


 


SEMANADA - Um relatório recente indica que em Portugal 3036 crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo em 2024  a viverem em condições de insalubridade; segundo o Banco de Portugal os empréstimos para a compra de casa totalizaram 113,6 mil milhões de euros no final de março; há cinco portugueses na lista “30 Under 30 – Europa” de 2026 da revista Forbes, que distingue os jovens mais notáveis da Europa menos de 30 anos; o número de trabalhadores com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com mais de 267 mil pessoas; segundo a Pordata quase 40% dos trabalhadores portugueses com menos de 30 anos têm contratos temporários, colocando o país como o quarto com maior precariedade jovem na União Europeia; a poucos meses do fim do Plano de Recuperação e Resiliência, cerca de um terço dos investimentos analisados está em situação preocupante ou crítica; apenas 20% dos investimentos do PRR estão concluídos e a maior parte do que falta e está em irremediável atraso são projectos do sector público; apenas 20% das 18000 camas anunciadas para alojamento de estudantes estão concluídas a quatro meses do fim do prazo de execução; dois terços das grandes medidas do novo PTRR, anunciadas com pompa e circunstância por Luís Montenegro como novidade, já estavam previstas no Orçamento do Estado há seis meses.


 


O ARCO DA VELHA -  A única escuta telefónica em que António Costa, então ainda primeiro-ministro,  falou com o seu amigo Diogo Lacerda Machado sobre o projeto do centro de dados em Sines demorou dois anos a ser encontrada pela investigação da ‘Operação Influencer’.


 


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OS TRABALHOS DE CROFT - “Reflexos, Enclaves, Desvios” é o título da exposição que faz o balanço da produção artística de José Pedro Croft ao longo das duas últimas décadas e que mostra 170 obras. São pinturas, gravuras e desenhos colocados em torno de um conjunto de esculturas, uma mostra que ocupa o eixo principal do espaço expositivo no piso zero do Museu de Arte Contemporânea no CCB. Até 13 de Setembro os visitantes podem ver esta exposição que se desenvolve entre dois núcleos de trabalho interligados: o fazer gráfico e os elementos arquitectónicos onde ferro e vidro têm o papel principal, provocando o confronto entre o plano e a tridimensionalidade. Luiz Camillo Osorio, curador da exposição, sublinha: “A produção de José Pedro Croft ao longo das últimas décadas evidencia uma apropriação constante de gestos e elementos plásticos reposicionados por um mundo em rápida transformação com o qual mantém uma relação de tensão e conflito. É no interior dos conflitos com o tempo presente que a arte potencializa o seu compromisso com a liberdade e com o exercício experimental de ver o que não se sabe reconhecer.”


 


ROTEIRO - Uma das melhores exposições que têm sido apresentadas na Galeria Ratton é “Figuras da Natureza”,  que põe em confronto trabalhos recentes em pintura  sobre papel e azulejo de Ilda David, com painéis de azulejo de Lourdes Castro (na imagem). A exposição fica patente até 31 de Julho. Entretanto não perca até 16 de Maio, na Sociedade Nacional de Belas Artes uma exposição única dedicada à obra e vida de Lourdes Castro, intitulada “Existe Luz na Sombra”, que apresenta obras e um vasto acervo documental proveniente maioritariamente do acervo particular da artista, mas também de colecções institucionais e privadas. Na Galeria 111, até 12 de Junho,  nova exposição de Adriana Molder, “Raios”, com vários trabalhos a tinta da china sobre papel esquisso. (Rua Dr. João Soares 5B). Na Galeria das Salgadeiras até 20 de Junho podem ser vistos novos trabalhos de pintura de Rita Gaspar Vieira sob o título “Tabique”. (Rua Coronel Bento Roma 12, em Alvalade).  


 


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O OLHAR DE CAMILO SOBRE O PAÍS - Entre 1875 e 1877 Camilo Castelo Branco escreveu oito novelas que têm por pano de fundo o Minho. “Gracejos Que Matam”, “O Comendador”, “O Cego de Landim”, “A Morgada de Romariz”, “O Filho Natural”, “Maria Moisés”, “O Degredado” e “A Viúva do Enforcado” são os oito textos que agora foram reunidos em “Novelas do Minho”, a mais recente edição da nova colecção “Biblioteca de Alexandria”, da Quetzal. Camilo homenageia o Minho, enquanto zomba de episódios e figuras da região. No prefácio que escreveu para esta edição Francisco José Viegas sublinha: “Camilo não é só o derradeiro romântico e o arquiteto de desenlaces comoventes para os espíritos da época; mais do que um ironista sublime, ele conhece bem os sinónimos de sarcasmo, que vão da leve ironia aos abismos da injúria….Tudo ri, nestas Novelas. Camilo sabia porquê; o país, que ele amava nas suas sublimes imperfeições, dava-lhe vontade de rir.» E, afirma ainda: «Depois de um fragmento de bucolismo e literatura turística, Camilo não resiste a aniquilar o sentimentalismo. É o meu herói. Hoje, atiraria pedras aos literatos – e sem receio de ferir susceptibilidades». Estas oito novelas são marcos importantes da obra de Camilo e lê-las hoje em dia é um prazer e uma lufada de ar fresco.


 


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MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago dois livros especiais que poderão ajudar a perceber melhor o Oriente e a China em particular. O primeiro é “A Magia da China: Lendas e Contos de Fadas”, histórias que envolvem deuses, dragões, demónios e heróis. As lendas e contos de fada da China são ricos em mitologia, história e valores culturais, são muito mais do que histórias antigas, são a expressão de valores, crenças e ensinamentos que moldam a sociedade chinesa há mais de cinco mil anos. São 17 histórias que nos trazem uma mistura de fantasia e realidade. Outra obra notável pela pureza de pensamento e de linguagem é  Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po” que permite uma visão profunda sobre as riquezas do pensamento oriental e é uma obra fundamental do budismo Tch’an (zen). Como a maioria dos mestres, Huang-Po passava os seus conhecimentos por meio de parábolas em sermões, anedotas e diálogos proferidos ante multidões. Esta obra é uma compilação feita pelo seu discípulo P’ei Hsiu, um influente estadista da época, que permite ao leitor ocidental compreender o zen a partir da fonte original. Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po divulga a mensagem do mestre sobre a doutrina da Mente Única, a qual nos diz que todos os seres vivos e Buda nada mais são do que a mesma e única mente, sem necessidade de se recorrer a métodos complexos para se atingir o estado de Buda. Os dois livros são editados pela Guerra & Paz.


 


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ALMANAQUE - O Centro Cultural de Cascais tem tido uma actividade relevante na área da fotografia, com alguns nomes internacionais, mas também, como acontece agora, com a recuperação de trabalhos de fotógrafos portugueses pouco conhecidos. Abriu esta semana e está patente até 26 de Agosto a exposição “Domingos Dias Martins: Fotógrafo de Gentes e Pedras do Gerês Transmontano”, comissariada por João Miguel Barros, que destaca a sensibilidade intuitiva do autor, combinando a frontalidade do retrato com a observação do quotidiano rural  “de forma quase ingénua”. As fotografias, como as desta imagem, foram feitas entre os anos 40 e 50 do século passado e existe um livro que acompanha a exposição, editado pela Ochre.


 


DIXIT -  “Amigos e colegas, com carreiras de sucesso, olham para a política como se ela fosse uma sala mal arejada. (...)A política é para quem não sabe fazer mais nada, dizem eles, o que significa que a democracia corre um risco: ser uma ‘cacocracia’, termo grego com ecos pouco edificantes na nossa língua, traduzido como o governo dos piores.” - João Pereira Coutinho, no “Correio da Manhã”.


 


BACK TO BASICS - “Nenhum político deve esperar que lhe agradeçam ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas era ele quem devia agradecer pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos.” - Agostinho da Silva



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maio 01, 2026

O PIANO

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Como se sente um  piano assim, sozinho, num palco? É sempre bonito, já se sabe que o piano é um dos mais belos instrumentos musicais, ainda por cima com uma sonoridade fantástica. São 88 teclas. Por mais bonito que seja, o piano precisa do aconchego das mãos do pianista para poder viver, precisa de ser tocado para existir. Sem mãos a percorrer as suas teclas é como se estivesse adormecido num sono profundo, sem sinais vitais. Em cima de um palco, o piano tem uma presença incontornável. Dá nas vistas quer esteja sozinho, quer acompanhado pelas estantes e lugares dos músicos de uma orquestra. Numa casa o piano é um sinal de que ali vive alguém que gosta de música. Não é um bibelot, nunca está ali por acaso. É uma afirmação, uma declaração. Quem toca piano sabe que ele precisa de ser acarinhado com frequência, até para que as mãos de quem o toca não fiquem enferrujadas e se percam no meio das teclas brancas e pretas.Uma coisa fascinante nos instrumentos musicais é a sua capacidade de adaptação a vários géneros, da música erudita à música pop, passando pelo jazz. Isso acontece com instrumentos de cordas, com instrumentos de sopro e também com o piano, que na realidade é uma espécie de todo o terreno para percorrer todos os caminhos da música. Fico tão deliciado a ouvir  as Gymnopédies de Erik Satie, como Blueberry Hill de Fats Domino ou Waltz For Debby de Bill Evans. A música nunca é a mesma, o piano é o seu perfeito elo de ligação.


(os pensamentos ociosos são publicados em sapo.pt)




abril 30, 2026

COMO CONTORNAR A CENSURA

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INFORMAÇÃO E PROPAGANDA - Em Lisboa, num dos pavilhões da Mitra, está patente a exposição “Armas de Papel”, dedicada à imprensa e publicações clandestinas do período entre 1926 e 1974, ou seja todo o tempo que durou a ditadura do Estado Novo. Algumas pessoas poderão querer reduzir os materiais expostos a exemplos de propaganda oposicionista e partidária e até poderão argumentar que não havia falta de jornais legais nessa época: em Abril de 1974 existiam mais de uma dezena de jornais diários em Lisboa e no Porto, outros tantos periódicos por todo o país (entre eles o mais antigo jornal português, fundado em 1835, o Açoriano Oriental, um dos dez mais antigos do mundo). E havia uma dezena de estações de rádio, entre as do Estado, da Igreja e as próximas do regime, mas apenas um canal de televisão, também do Estado. O problema é que mesmo os jornais diários e publicações semanais mais ligados à ala liberal do regime no tempo do Marcelismo (como o Expresso)  ou à oposição (como o República), só eram publicados depois de serem visados pela censura e com os cortes que o lápis azul dos censores impunha. Isto aplicava-se também aos noticiários da rádio e da televisão, às canções que podiam passar ou aos filmes exibidos. Ou seja, apenas circulava a informação que o regime considerava inofensiva, o que desde logo eliminava notícias sobre greves, protestos, presos políticos, manifestações, protestos estudantis, a guerra colonial ou até catástrofes como as cheias de 1967. A censura não se limitava a cortar texto, afiava a sua tesoura em cima de fotografias que de algum modo pudessem pôr em causa o regime - como aconteceu nas campanhas eleitorais de Norton de Matos, Humberto Delgado e, depois, nas campanhas eleitorais de 1969 e 1972 ou no funeral do estudante Ribeiro dos Santos, assassinado pela PIDE em Outubro de 1972 dentro de instalações universitárias. A imprensa e as publicações clandestinas tinham um papel importante: não se limitavam a divulgar ideologia ou manifestos políticos, eram a forma de dar nota do que se passava no país e não era mostrado, davam sinal da existência de oposição, relatavam, sobretudo nas publicações feitas na emigração, a realidade sobre a guerra colonial. Muitas vezes eram feitas de forma rudimentar - e esta exposição “Armas de Papel”, promovida pelo Arquivo Ephemera, mostra exemplos de aparelhos utilizados para imprimir jornais e panfletos, relata formas de distribuição usadas e dá uma boa ideia sobre a maneira como em circunstâncias difíceis, e muitas vezes arriscadas, se mostrava o que o regime queria esconder. Até 30 de Junho, na Mitra, de sexta a domingo entre as 10 e as 18.


 


SEMANADA - Entre 2021 e 2025, morreram 328 doentes enquanto aguardavam por cirurgia cardíaca; no final do primeiro trimestre mais de 2800 pessoas estavam internadas nos hospitais sem razão clínica, ocupando quase 14% do total de camas; estes internamentos indevidos custam mais de 350 milhões de euros por ano ao SNS; em 10 anos, a venda de antidepressivos e antipsicóticos cresceu respectivamente 82% e 72%; em 2025 foram dispensadas por dia, em Portugal continental, cerca de 80 mil embalagens de psicofármacos, totalizando quase 29,4 milhões, o valor mais elevado da última década, com encargos do SNS a rondar os 152 milhões de euros; há acusações de violência doméstica paradas há mais de um ano nos tribunais sem serem investigadas e julgadas; segundo a Comissão Europeia os portugueses afirmam poupar mensalmente 9,5 horas a executar tarefas profissionais graças à utilização de ferramentas de IA e a média da UE é de 7,4 horas; a Entidade para a Transparência só fiscalizou 10% das declarações de políticos entregues até 2026, apenas 883 das 8620 declarações de rendimentos, património e incompatibilidades recebidas entre 2024 e 2025; o Ministério Público só conseguiu analisar 1,6% das comunicações sobre suspeitas de branqueamento de capitais que recebeu.


 


O ARCO DA VELHA - Cerca de 20 mil clientes ainda estão sem serviços fixos de comunicações, três meses após a depressão ‘Kristin’ ter atingido o País, revelou a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) à Lusa. 


 


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UM CRIME NO FIORDE - Os policiais da islandesa Yrsa Sigurdardóttir são tão apaixonantes quanto retorcidos e este seu novo livro, “Não Podes Fugir, Não Podes Esconder-te” é dos mais intrincados mistérios que tenho lido desta autora. A história arrepia desde o início: numa fria noite de inverno, num remoto e isolado fiorde islandês, um vizinho vai a casa de uma família que não é vista há uma semana. Ninguém atende quando ele bate à porta. Quando consegue entrar à força pela porta das traseiras depara-se com uma cena macabra - toda a gente morta de forma particularmente violenta. À medida que a investigação avança descobrem-se segredos cada vez mais perturbadores sobre a família que tinha acabado de se fixar naquele lugar isolado depois de vender a sua empresa de IA por milhões de dólares. Sigurðardóttir alterna capítulos entre o presente e acontecimentos do passado, descreve personagens sinistras, alimenta suspeitas, relata incidentes perturbadores. A busca pelo assassino é longa, as pistas apontam em várias direcções. Pelo meio há uma fortuna desaparecida, a suspeita de que foi transformada em criptomoedas e a descoberta do autor dos crimes acaba por acontecer no meio de um novelo de pistas cruzadas. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - Tristan Gooley é um explorador que participa em expedições por todo o mundo e dedica a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza. Em  “Como Ler Uma Árvore”, o autor explica que  cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa planta e a paisagem onde vive. A BBC chamou a Tristan Gooley “ o Sherlock Holmes da natureza” e este seu livro permite entrar na arte de interpretar os sinais da natureza. (Edição Pergaminho). Outro livro revelador sobre o mundo que nos rodeia é “A Árvore da Vida”, de Max Telford. O autor leva os leitores por uma viagem de quatro mil milhões de anos pela evolução do nosso planeta e conta a história da gigantesca árvore genealógica que regista as relações entre todos os seres vivos: dos humanos, dos peixes e das borboletas até aos carvalhos, aos cogumelos e às bactérias. Ajuda a compreender como surgiu a diversidade da vida na Terra, desde os primeiros esboços de Darwin até aos diagramas gerados por computador que os cientistas constroem na atualidade. (Edição Temas & Debates).


 


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SAXOFONE - O trio de saxofone tenor, baixo e bateria é uma das formações clássicas do jazz, explorada por nomes como Sonny Rollins ou Joe Henderson. Em 2018 Walter Smith III, um saxofonista norte-americano, lançou o primeiro volume de “Twio”. Surge agora o segundo volume e ao lado de Smith estão o baixista Joe Sanders e o baterista Kendrick Scott, com participações nalgumas faixas do baixista Ron Carter e do saxofonista Branford Marsalis. O álbum tem dez temas, e, como o próprio Walter Smith III afirma, escolheu standards pouco conhecidos, preferindo a aventura da descoberta à rotina de revisitar evidências. Destaque para”My Ideal”, uma versão instrumental de uma balada cantada por Chet Baker, para o solo de Ron Carter em “Casual-Lee” , a interpretação de Smith no tema “Isfahan” de Billy Strayhorn and Duke Ellington  ou ainda a forma como os saxofones de Smith e Marsalis se cruzam num tema composto por este último, “Swingin’At The Haven”. O resultado é um álbum apaixonante, uma harmonia perfeita dos músicos e um swing contagiante. Edição Blue Note disponível em streaming.


 


IMG_0681.jpegO MUZEU DE BRAGA - Desde a semana passada a cidade de Barga, que já tem uma actividade cultural intensa, passou a ter um espaço dedicado à arte contemporânea, cujo custo, de 40 milhões de euros, foi inteiramente assumido pela DST, uma das grandes empresas da cidade, dirigida por José Teixeira. Ao longo de 40 anos reuniu uma colecção com 1500 obras de arte de 250 artistas nacionais e estrangeiros. O novo equipamento chama-se Muzeu e está instalado no centro da cidade, num antigo Tribunal, recuperado com um projecto do arquitecto José Carvalho de Araújo. Uma das atracções do Muzeu é uma sala dedicada a Anselm Kiefer e, na fotografia desta página está “Sol Invictus”, uma evocação de Van Gogh, frequente no trabalho de Kiefer. Esta sala mostra  outras quatro pinturas, duas esculturas e uma fotografia do artista, que até aqui estava ausente com esta dimensão de colecções portuguesas. Nos portugueses há uma nova série de 18 obras de Pedro Cabrita Reis, “After Velásquez & Maybee Bacon”, além de obras de José Pedro Croft, Rui Chafes, Paula Rego, Alberto Carneiro, Lourdes Castro, Miguel Palma, René Bertholo, Ângelo de Sousa, Álvaro Lapa, Helena Almeida, Ângela Ferreira e Sandra Baía. Nos internacionais, além de Kiefer, há trabalhos de Julian Opie, Nan Goldin, Candida Höfer, Andre Butzer, Jason Martin, Miguel Rio Branco, Richard Long ou Alex Katz, entre outros. Esta exposição inaugural do Muzeu, concebida pela sua directora, Helena Mendes Pereira, ocupa quatro pisos expositivos, soma mais de cem obras de 96 artistas — 40 portugueses e 56 internacionais — e ficará patente até 23 de outubro de 2027. 


 


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O PORTUGAL DE TODD WEBB - Um dos grandes fotógrafos norte-americanos, Todd Webb (1905-2000), visitou Portugal em três ocasiões entre 1972 e 1982. Recentemente, o Todd Webb Archive doou o espólio português do fotógrafo à Fundação Gulbenkian, que agora mostra essas imagens na Galeria do Piso Inferior da Fundação até 27 de Julho. A exposição – a primeira de Webb  em Portugal, inclui a totalidade das suas fotografias portuguesas, acompanhada de dois pequenos núcleos dos seus trabalhos sobre Nova Iorque e a África subsaariana. As sessenta e uma provas fotográficas doadas, cobrem Portugal de Sul a Norte. Jorge Calado, que fez a  curadoria da exposição e que ao longo dos anos foi acompanhando o trabalho de Webb. Calado foi ainda decisivo na doação das fotografias portuguesas de Webb à Gulbenkian e no catálogo da exposição sublinha: “Webb era um fotógrafo humanista, implicado na humanidade de tudo o que observava”, destacando a atracção do fotógrafo pela arquitectura, traduzida pela “sua quase obsessão com ruas estreitas e afuniladas e com arcos, arcadas e portas” que fotografou em Portugal. 


 


DIXIT - “A Democracia deixa viver os amigos de Ventura e do Chega. Não é certo que os amigos de Ventura deixassem viver as esquerdas e os democratas” - António Barreto, no Público.


 


BACK TO BASICS - “É fácil ser-se corajoso mantendo uma distância segura” - Ésopo.


 


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abril 25, 2026

SOBRE AS CORES COMO FORMA DE EXPRESSÃO 

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Quando dizemos que todas as terras, países e continentes são diferentes não falamos apenas das paisagens, das pessoas que os habitam, das árvores, plantas e animais que fazem parte da natureza em cada local. Uma das coisas que muda de forma evidente está bem à vista de todos: as cores são diferentes, a sua intensidade e brilho são diferentes, o modo como se conjugam nas mais comuns coisas do dia a dia mudam de sítio para sítio. Eu gosto de ver as mudanças de cor, de como se passa de uma terra cinzenta para uma explosão de tonalidades. Fico a pensar se estas explosões de cor não serão manchas de compensação pela monotonia das vidas, pelas paisagens desertas, pelos tons uniformes dos edifícios. Estas cores intensas serão talvez o escape da vida sempre igual, mas tornam se elas próprias monótonas. Podem surpreender o visitante ocasional mas são o cenário constante de quem vive rodeado por elas. Será que quem as vive diariamente nota a diferença de civilizações que as cores explosivas testemunham? Darão aos jogos geométricos desenhados pelas cores a mesma atenção que os forasteiros lhes consagram? Nunca saberei responder a estas questões mas sou capaz de observar que a intensidade das cores é acompanhada muitas vezes nestas terras do norte de África pela intensidade e volume das vozes. Aqui parece que se grita como forma de vida. O excesso faz parte da vida e aqui ele tem vários expoentes. Quem terá mais razão- os cinzentos e silenciosos ou os policromáticos ruidosos?


 


Os pensamentos são publicados semanalmente em sapo.pt)




abril 24, 2026

FICAR CALADO NÃO É SOLUÇÃO

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A POLÍTICA DO LUME BRANDO - Quando se coloca uma panela cheia de água com um sapo lá dentro, em lume brando, o animal não dá pelo aumento da temperatura até ser demasiado tarde. É exactamente o que está a acontecer um pouco por todo o mundo em termos políticos. Aproveitando a democracia liberal, desenvolveu-se e cresceu uma geração de políticos iliberais que todos os dias dão mostras de fazer uma revisão da história e querer tomar o poder para subverterem e limitarem a democracia que os acolheu. A história é conhecida. Depois da derrota do nazismo o pastor luterano alemão Martin Niemöller fez uma série de palestras nas quais confessou publicamente a sua inação e indiferença perante o destino de muitas das vítimas dos nazis. Nessas palestras explicou que, nos primeiros anos do regime de Hitler, permaneceu em silêncio enquanto os nazis perseguiam outros alemães, muitos deles membros de movimentos políticos de esquerda, a cuja ideologia Niemöller se opunha - até que ele próprio foi preso e detido em campos de concentração onde esteve entre 1937 e 1945. Uma das suas palestras mais conhecidas é esta: “Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista. Em seguida, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista. Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu. Foi então que eles vieram buscar-me, e já não havia mais ninguém para me defender." As palavras de Niemöller merecem ser lembradas porque chamam a atenção para a necessidade de resistir, denunciar, não pactuar com quem quer perseguir etnias, impor a sua verdade acima das outras, condicionar o pensamento e perseguir e insultar quem a eles se opõe. É certo que o dramaturgo britânico George Bernard Shaw alertou para os perigos de lutas com javardos:  “nunca lutes com um porco, ficas todo sujo e o porco gosta”. Mas mais vale ficar sujo numa luta do que ficar calado e encolher os ombros face ao que se passa à nossa volta. E termino com palavras de Bob Dylan: “Para mim um herói é alguém que compreende o grau de responsabilidade que acompanha a sua própria liberdade.” 


 


SEMANADA - A linha nacional de prevenção de suicídios já atendeu mais de 14 mil chamadas desde que começou a funcionar, em 10 de Setembro, de 2025, a maior parte delas feitas por jovens entre os 18 e 29 anos e mulheres; No primeiro trimestre deste ano estavam a funcionar 482 salas de cinema em Portugal, uma redução de perto de uma centena face a 2025; na época 24-25 os clubes de futebol gastaram 17,4 milhões de euros na segurança dos jogos nos seus estádios; o valor da água que é anualmente desperdiçada em Portugal devido a rupturas, fugas ou avarias é de cerca de 158 milhões de euros por ano; segundo a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária 137 pessoas morreram entre 1 de janeiro e 9 de abril, mais 36% do que no período homólogo de 2025;  no mesmo período ocorreram 42 212 sinistros, mais 14,4% do que no ano passado; no final de 2025 havia 731 pessoas presas por crimes rodoviários;  as viaturas de emergência médica estiveram paradas mais de dez mil horas por falta de médicos, um aumento de 32% em relação ao ano anterior; só 17% das instituições superiores que usam IA no ensino definiram regras claras sobre a sua utilização em contexto escolar.


 


O ARCO DA VELHA - A estátua da escritora e deputada do PSD  Natália Correia, na Graça, em Lisboa, foi vandalizada com cruzes suásticas pintadas sobre a cara da poeta.


 


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FOTOGRAFIAS E HISTÓRIAS  - João Miguel Barros, advogado, fotógrafo, fundador da galeria Ochre, editor, organizador de exposições e divulgador da fotografia japonesa e chinesa em Portugal, e da portuguesa em Macau e na China, apresenta na galeria Lumina, “À Distância de Um Braço”, um conjunto de trabalhos organizado em curtas narrativas fotográficas e que percorrem várias áreas e épocas da sua fotografia. No texto que escrevi para esta exposição sublinho que “o trabalho fotográfico de João Miguel Barros não é fruto do improviso, nem obra do momento. Surge na sequência de um cuidado processo de estudo e compreensão dos temas, lugares e circunstâncias que quer fotografar, depois de ter escolhido o assunto. João Miguel Barros não encena as fotografias, mas prepara o seu olhar, documentando-se sobre o que deseja ver e como o quer mostrar, quer recolhendo informação, quer quase pré-visualizando o que depois vai fotografar. Na realidade ele não faz fotografias isoladas, conta histórias através da fotografia”. E, mais adiante:”desde as imagens mais cruas às mais introspectivas, há um ponto comum que é um mesmo olhar, uma mesma forma de mostrar, evidente na escolha dos enquadramentos, no preto e branco intenso e, no caso desta exposição, no cuidado colocado na apresentação e colocação das fotografias”. De facto a montagem é invulgar, cenografada, não se limitando a colocar imagens na parede mas fazendo da parede parte da exposição. Em simultâneo a Lumina apresenta “Arquitectura de Uma Flor”, esculturas de Paulo Canilhas. ( Aberto de quarta a sábado, das 15 às 19. Rua Actor Vale 53A)


 


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ROTEIRO - Sob o tema “Segurar, dar, receber (To hold, to give, to receive)”, a bienal Anozero de 2026, decorre em Coimbra até 5 de Julho, sempre com entrada gratuita, em vários espaços como o Edifício Chiado, a Sala da Cidade, o Convento São Francisco e o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova que volta a assumir-se como o seu núcleo central. Estão patentes obras de artistas como Nan Goldin, Mário Macilau (na imagem uma fotografia de sua autoria), Chantal Akerman, Lina Bo Bardi, Rui Chafes,  Shilpa Gupta e João Salema, entre outros. A escolha das exposições foi feita pelos curadores Hans Ibelings e John Zeppetelli e pelo curador assistente Daniel Madeira. Em Lisboa, no Arquivo Fotográfico Municipal, três novas exposições até 19 de Setembro: uma delas assinala o centenário de Gérard Castello Lopes e mostra trabalhos seus feitos entre 1956 e 2005, representativos das diversas etapas do seu percurso artístico;  outra exposição no mesmo local  apresenta 50 provas de época de fotografias de Lisboa por George Dassaud feitas em 1985, 1993 e 2002, sob o título “de Lisboa para ti”; finalmente, também no Arquivo Fotográfico (Rua da Palma 246), é apresentada uma nova exposição de Rita Barros, “Hyperosmic”, com uma série fotográfica inédita e um livro de artista sobre como os estímulos ambientais interferem na memória, no corpo e na relação com o espaço.


 


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UMA HISTÓRIA DE VIDA - “Pão de Anjos” é o novo livro de Patti Smith, originalmente editado em 2025 sob o título “Bread  Of Angels”,  apresentado como uma viagem pelas suas memórias. Não é a primeira vez que Patti Smith revisita o seu passado:  “Just Kids”, de 2010, igualmente editado em Portugal sob o título “Apenas Miúdos”, estava centrado sobretudo na relação que a cantora teve com Robert Mapplethorpe e o seu círculo de amizades e cumplicidades de então. Mas neste “Pão de Anjos” Patti Smith vai até às memórias com a sua família na infância e juventude e sobretudo na sua vida com Freddy “Sonic” Smith, o lendário guitarrista dos MC5, uma banda histórica de Detroit, morto precocemente aos 46 anos, com quem se casou e teve dois filhos. O livro, muito intimista, é marcado pelas mortes dos mais próximos:«Todos estão mortos, tudo foi esquecido, ecoa uma voz. Inventario os que ainda me acompanham». Mas lança uma luz sobre a sua adolescência, quando descobriu a poesia de Rimbaud e, mais tarde, a obra de Bob Dylan. “Pão de Anjos” (que tem uma magnífica tradução de João Pedro Vala) acompanha o percurso musical e artístico de Patti Smith, evocando as suas canções, os concertos que lhe deixaram uma marca e a mais recente fase da sua carreira, com novas digressões, lugares que vai descobrindo e releituras que realiza, como a de James Joyce. O livro está cheio de fotografias, intercaladas no texto - a fotografia tem aliás marcado a sua vida, através das polaroids que foi fazendo desde 1996 e que são como que um diário. Há uma frase, já no final do livro, que sintetiza a Patti Smith de hoje e a forma como ela vê o mundo: “Tudo em nosso redor são destroços e, contudo, avançamos pé ante pé para não pisarmos uma silhueta minguante, a nossa pele primordial”. Edição Quetzal.


 


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MESA DE CABECEIRA - O novo livro de Rui Couceiro, “A Mais Bela Maldição, Histórias de Gente Apaixonada por Livros” é um mapa de personagens fascinantes, desde um livreiro da medina de Rabat, a um ex-recluso norte-americano que criou mais de quinhentas bibliotecas em prisões, um pastor alemão que salvou de uma lixeira na antiga RDA cerca de 80 mil livros e guardou-os na paróquia que dirigia, passando pela italiana que abriu uma livraria numa aldeia de 180 habitantes que entretanto se tornou num pólo de atracção ou o advogado brasileiro que construiu o seu próprio museu pessoano. São duzentas páginas de dez histórias fascinantes que fazem crescer ainda mais o amor pelos livros, pela mão da Porto Editora. E por falar nisso outra obra que vem a calhar, foi agora oportunamente editada pela Guerra & Paz: “Elogio da Leitura”, um texto escrito por Marcel Proust como prefácio à sua própria tradução de um livro de John Ruskin,  “Sesame and Lilies”, em 1906. Na realidade este é um ensaio sobre o valor da leitura e o papel transformador que os livros podem ter e é considerado um dos mais belos textos de Proust e descreve as alegrias e desafios que a literatura oferece, assim como o poder que um livro tem de moldar a nossa visão de nós mesmos, dos outros e do mundo.


 


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DISCO DA SEMANA -Natascia Gazzana no violino e Raffaela Gazzana no piano têm construído uma sólida reputação como intérpretes, através do seu Duo Gazzana. Depois de terem trabalhado obras de Robert Schumann, Edvard Grieg e Tõnu Kõrvits, as duas irmãs italianas dedicaram-se agora à música de Sergei Prokofiev, Arvo Pärt e Alfred Schnittke, criando um espaço musical e uma sonoridade invulgar através das interpretações que fazem. De Prokofiev escolheram a Sonata no.1, op.80 e as Five Melodies op.35a; de Arvo Part”Spiegel im Spiegel” e de Schnittke a peça “Gratulationsrondo “. Edição ECM.


DIXIT - “A questão de defrontar directamente os adversários só tem sentido quando se está numa fase de crescimento de partidos e movimentos hostis à democracia e não quando já tomaram o poder. Nessa altura a resposta a dar é de outra natureza.” - José Pacheco Pereira , no Público 


BACK TO BASICS -   “A liberdade é algo de valor inestimável” - Cícero 


 


A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS




abril 18, 2026

OS CONTENTORES

 


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Ali ao fundo, depois dos mastros dos veleiros, os contentores dominam o horizonte. Imagino que tenha sido num passeio por uma paisagem destas que os Xutos & Pontapés tenham criado um dos seus hinos, “Contentores”, uma canção do disco “Circo de Feras”, de 1987. A canção começa assim, deixando entendido que nos contentores em causa a carga não é a habitual: “A carga pronta metida nos contentores/Adeus oh meus amores que me vou/P'ra outro mundo”. E logo a seguir a explicação da viagem, o porquê da decisão: “É uma escolha que se faz


O passado foi lá atrás”. Ou seja, uma canção de mudar de vida. Os portos são sempre pontos de passagem, locais de embarque e desembarque, não há como enganar. Quando se sai de um porto que acontece? “Mudarão todas as cores/Rugem baixinho os motores/E numa força invencível/Deixo a cidade natal”. A canção dos Xutos ganhou força por causa do ritmo da música, mas também pela intensidade das  palavras, por esta força invencível que nos leva a querer partir e  mudar o mundo, ou, também, mudar de mundo. Talvez por isso tornou-se o hino de uma geração, uma declaração de princípios. A canção não é sobre o facto de os contentores marítimos serem fundamentais para o comércio global, movimentando cerca de 80-90% das mercadorias mundiais. A canção é sobre largarmos bagagem, sairmos do conforto e procurarmos a mudança, arriscar viver outra vida. Fico a olhar para a imagem do porto, os contentores lá ao fundo, e a ouvir a canção. E, como tantas vezes acontece com as grandes canções, esta é também o retrato de um tempo.


(Pensamentos Ociosos em sapo.pt)


 

abril 17, 2026

QUANDO O PODER TEM A TENTAÇÃO DE ESCONDER

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NO MELHOR PANO CAI A NÓDOA - Ana Abrunhosa, Presidente da Câmara de Coimbra, tinha construído um perfil político simpático, mostrou competência em diversos assuntos e aparentemente não se esquivava a um debate - veja-se o bate-boca com um Ministro depois das tempestades do início deste ano. Na semana passada deitou tudo a perder quando proclamou publicamente que retirava a confiança a um jornalista da Lusa que havia feito uma notícia desfavorável para a Câmara a que ela preside.  O comportamento de Abrunhosa reflecte aquilo a que infelizmente se tem assistido, cada vez com maior frequência, por parte de responsáveis políticos na sua relação com os media. A autarca incomodou-se com o facto de uma notícia ter sido divulgada sem a posição da Câmara - mas esqueceu-se que, interrogados pelo jornalista, os serviços da autarquia não responderam durante uma série de dias e foram dizendo que mais à frente responderiam, não o tendo feito em tempo útil. O jornalista publicou a notícia e informou que a autarquia, contactada, não tinha respondido, o que é verdade. Na realidade Ana Abrunhosa entende que pode controlar o timing de publicação da notícia e que, no seu entender, as notícias deviam esperar pelo seu aval. Cada vez mais frequentemente muitos políticos, a começar pelos membros do Governo e em particular o Primeiro Ministro, mas também líderes da oposição, querem usar os jornalistas como meros amplificadores das suas palavras. A proliferação de conferências de imprensa e declarações sem direito a perguntas tem vindo a acentuar-se, e é uma prova do receio de que questões incómodas possam estragar a declaração cuidadosamente preparada para transmitir uma impressão positiva. E Leitão Amaro até se propõe, disfarçadamente, rastrear a actividade de jornalistas incómodos para o Governo. O comportamento de Ana Abrunhosa é semelhante: gostaria de não ter perguntas incómodas a que responder. Abrunhosa, ex-Ministra de Costa e eleita pelo PS em Coimbra, tem esta atitude bizarra de “retirar a confiança” a um jornalista da Lusa precisamente quando o futuro da governação da Agência de Notícias é tema de divergência entre o PSD e o PS. Os socialistas temem uma instrumentalização do noticiário da agência pelo Governo, mas uma sua destacada militante pretende fazer isso mesmo na sua esfera local, pretendendo ser ela a ditar a forma de proceder dos jornalistas. Informar, por muito que custe, é relatar o que se passa, quer o que se passa bem, quer o que se passa mal. Há quem não goste disto, talvez qualquer dia fiquem a falar sozinhos para cadeiras vazias -  e é bem feito!


SEMANADA - Em 2025 as fraudes com criptomoedas atingiram quase 15 milhões de euros; 17% dos jovens entre 15 e 34 anos desempenham funções fora da sua área de formação, a segunda maior percentagem na UE; os crimes de natureza sexual contra menores subiram 85% entre 2022 e 2025; um quinto dos arguidos por violação tem menos de 20 anos; entre 27 de Março e 6 de Abril, no período da Páscoa, foram registadas pela PSP 430 ocorrências de violência doméstica e detidos 19 suspeitos da prática desse crime; no ano passado os portugueses apostaram 3.143 milhões de euros em jogos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, uma média de 8,6 milhões por dia; a “raspadinha” já representa 60% das vendas brutas de jogo da Santa Casa; os dados divulgados no Portal da Transparência do SNS mostram que no final de janeiro havia 10 746 324 inscritos nos cuidados de saúde primários, mais 231 404 que em janeiro de 2025; no ano passado quase metade da população residente em Portugal com 16 ou mais anos afirmou ter uma doença crónica ou problema de saúde prolongado, o que coloca Portugal, neste índice, como o terceiro pior entre os 27 países da União Europeia; a urgência do Hospital Amadora Sintra perdeu metade dos médicos desde o ano passado;


O ARCO DA VELHA - O fisco pretende que as indemnizações às vítimas de abusos sexuais praticados por membros da Igreja Católica estejam sujeitas a IRS.


 


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ARTES & MODAS - Até 21 de Junho, na Galeria principal do Museu Calouste Gulbenkian, criações de moda de grandes estilistas estão em confronto com obras da Colecção Gulbenkian. Ao longo da exposição, uma selecção de obras de arte, do Antigo Egito ao século XX, surge lado a lado com peças assinadas por Dior, Balenciaga, Yves Saint Laurent, Versace, Jean Paul Gaultier, Vivienne Westwood, Alexander McQueen, Hubert de Givenchy, Azzedine Alaïa e, no panorama nacional, por criadores como Alves/Gonçalves, José António Tenente, Maria Gambina, Nuno Gama ou Nuno Baltazar. Assim se cruzam a pintura clássica com o design contemporâneo e o vestuário, permitindo encontrar paralelos e evoluções. A exposição Arte & Moda tem curadoria de Eloy Martínez de la Pera Celada e integra as comemorações do 70.º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian. Na imagem, uma fotografia de Jon Cazenave, mostra uma Cómoda da autoria de Jean Deforges, do século XVIII, em carvalho e ébano, laca japonesa, bronze e mármore junto a um vestido de Nuno Baltazar, em tule e malha de fibra artificial e lantejoulas, da colecção do Museu do Traje, de Lisboa.


 


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ROTEIRO - No Museu do Caramulo pode ser vista a exposição “White Box #1: Intervalos”, que assinala a  conclusão da primeira de três residências artísticas que compõem o ciclo White Box, um programa de criação contemporânea que se estenderá até 2028. Com curadoria de José Maçãs de Carvalho, artista e director do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, a exposição reúne obras originais de Daniela Krtsch (na imagem), João Fonte Santa, Fabrizio Matos e Catarina Leitão. Os artistas trabalharam localmente na Serra do Caramulo, junto das  colecções do museu com o objectivo de criar obras que estabelecem novas leituras sobre o acervo existente na instituição. No Porto, no Centro Português de Fotografia, podem ser vistas três exposições: uma antologia da fotógrafa norte-americana Vivian Maier, uma retrospectiva do trabalho de Louise Samson sobre a presença cigana em Portugal, entre 1983 e 2023 e “África Vista Por Duas Gerações”, de Ernst Schade e Carol Alexander Schade. Em Lisboa, na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Bárbara Faden apresenta desenhos e pinturas sob o título “Solta Azul, Céu da Boca”. No Linhó, perto de Sintra, a Albuquerque Foundation apresenta, além da sua colecção permanente,  “Nature Boy”, que reúne pinturas e cerâmicas de Phoebe Collings‑James.


 


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MEMÓRIAS LISBOETAS  - Depois de ter recordado a Lisboa dos anos 60, 70 e 80, Joana Stichini Vilela mergulhou agora na Lisboa dos anos 90, mais uma vez em colaboração com Pedro Fernandes. Como em edições anteriores, Joana Stichini Vilela faz a investigação e escreve e Pedro Fernandes cria o grafismo e combina as imagens que acompanham o texto. Cada livro é um trabalho a quatro mãos que consegue transformar um puzzle de informação dispersa num objecto de leitura com pés e cabeça.  "LX 90- A Lisboa Em Que Tudo É Posível" começa com o lançamento do diário “Público” e termina com os receios do Bug do Milénio, o caos anunciado na transição do século XX para o XXI. Pelo meio ficam a morte de Amália Rodrigues, o caso da Universidade Moderna, a Expo 98, o Lux Frágil, a feijoada de inauguração da Ponte Vasco da Gama, os Governos de Cavaco e de Guterres, o bloqueio da Ponte 25 de Abril, a Lisboa Capital Cultural, em 94, a música dos Excesso e o explodir de Pedro Abrunhosa, os telefones Nokia, o Centro Comercial Colombo, o CCB e a presidência portuguesa da União Europeia, o nascimento da televisão privada, a campanha de solidariedade com Timor e o barco Lusitânia Expresso, a chegada da McDonald’s, a estreia de “Passa Por Mim no Rossio” no Teatro Nacional, os primeiros filmes de Pedro Costa e de Teresa Villaverde, o Alcântara-Mar e o Johnny Guitar, a revista Kapa e os Rolling Stones em Alvalade. 280 páginas de memórias bem lembradas em texto, grafismo e imagem. Edição D. Quixote.


 


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MESA DE CABECEIRA -A recente missão da Artemis I  à volta da Lua é um bom pretexto para ler “A Teoria de Tudo”, de Stephen Hawking, uma viagem pelo universo e pelos limites do conhecimento humano. Hawking, o  físico que desvendou os segredos dos buracos negros e da origem do universo,  tem a capacidade rara de transformar conceitos complexos em descobertas acessíveis. O livro começa pela história das teorias do universo de Aristóteles, que afirmou que a Terra era redonda, e prossegue até à descoberta de Hubble de que o universo se encontra em expansão. Como começou tudo? - esta é a pergunta a que Hawking tenta responder nesta obra, uma edição Gradiva. Outro autor, Tristan Gooley, apelidado de Sherlock Holmes da natureza, escreveu o magnífico “Como Ler Uma Árvore”. Segundo o autor, cada árvore que encontramos está repleta de sinais que revelam segredos sobre a vida dessa árvore e a paisagem em que nos encontramos. “Como Ler Uma Árvore” revela os princípios simples que explicam as formas e os padrões que podemos encontrar nas árvores e o seu significado. Tristan Gooley dedicou a sua vida a ensinar como decifrar os sinais da natureza e, depois de aprender a ver as pistas que a natureza lhe dá, nunca mais vai olhar para uma árvore da mesma maneira. Uma  edição Pergaminho.


 


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TRIO INVULGAR - O primeiro disco do trio composto por Craig Taborn no piano, Tomeka Reid, Tomeka Reid no violoncelo e Ches Smith na percussão e bateria chama-se “Dream Archives” e percorre numerosos ambientes sonoros que vão desde ritmos de dança a melodias suaves, numa mistura arriscada de jazz contemporâneo, música de câmara e electrónica, num trabalho de arranjos invulgar. Com quatro originais compostos por Taborn e versões de “Mumbo Jumbo” de Paul Motian e de “When Kabuya Dances”, de Geri Allen, esta última a merecer destaque especial. A forma como o violoncelo é tocado, para formar a secção rítmica com a percussão, é invulgar e merece uma audição atenta. Edição ECM disponível em streaming.


ALMANAQUE - Na Fundação Louis Vuitton, em Paris, poderá ver até 16 de Agosto uma grande exposição dedicada à obra de Alexander Calder, o autor quer de esculturas monumentais, quer de pequenas peças abstractas que exploram  possibilidades de movimento. Com cerca de 300 obras, “Calder, Rêver en Equilibre” é a maior exposição do seu legado.


DIXIT - “Esta guerra está a ser travada dentro do ambiente mediático mais tóxico de que há memória e que ninguém consegue, ou deseja, travar” - Clara Ferreira Alves, no Expresso


BACK TO BASICS -  “Nunca anunciei o inferno, apenas falei verdade e acharam que eu estava a falar do inferno” - Harry S. Truman



A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE  NEGÓCIOS