
Nunca se perde tempo a olhar para a água porque ela nos surpreende constantemente porque esconde sempre uma caixinha de surpresas. Por menor que seja o movimento da sua superfície, a água muda sempre o que mostra. Por vezes penso que parece um caleidoscópio que não pára de rodar e de mudar permanente as imagens que, como em todos os caleidoscópios, se formam ao acaso. Dentro de água aparece um pouco de tudo, o que para lá atiramos e o que lá surge naturalmente. A água tanto pode ser um caminho que transporta o que recebe, como um depósito que guarda o que acolhe. Experimentem olhar com atenção, imaginar formas, percorrer as margens que moldam os limites da água. É nas margens que vemos estas formas que se desenham e espalham como se fossem uma cabeleira ao vento, flutuando na água, o contraste das cores a marcar a paisagem. São algas, flutuam ao mesmo tempo que se agarram às pedras, não têm raízes nem caules e proliferam até mesmo em águas poluídas. Sem elas a água era mais pobre, elas são um sinal de vida. Estas algas que aqui estão vivem nos canais de Veneza, alimentadas pela salinidade da laguna, são comuns junto às margens e nas estacas de madeira que abundam e que sustentam a cidade. Fazem parte da paisagem, são as plantas dos canais que são as ruas de Veneza.