
MEMÓRIA POLÍTICA - Para se ser político é preciso uma grande dose de lata, uma selectiva ausência de memória e uma capacidade constante de contornar a verdade. Os políticos com sucesso gostam de fazer de conta que não têm responsabilidades nas coisas negativas que acontecem e só se recordam das coisas positivas. A pantominice é um atributo da maior parte dos políticos no activo e é isso que faz com que uma actividade nobre, que devia ser em prol de todos, seja vista com desprezo por muita gente. Vem esta conversa a propósito de uma recente declaração de António Costa, na qualidade de presidente do Conselho Europeu. O ex- Primeiro Ministro português considerou inaceitável que em países como Portugal os jovens tenham de gastar 100% do salário durante 20 ou 30 anos para conseguir comprar uma casa. Mais: sublinhou que o preço das casas está “no centro da desilusão das pessoas com as instituições democráticas” e considerou que o acesso à habitação acessível é “vital para a coesão social e justiça”. António Costa foi presidente da Câmara de Lisboa durante cerca de oito anos e outros tantos como Primeiro Ministro. Agora vão lá ver o que ele fez em mais de década e meia com responsabilidades directas, em ambos os cargos, na política de habitação. Promoveu uma política local ou nacional sustentada de construção de habitação pública a custos controlados? Ninguém se lembra de tal, mas recordo-me que, enquanto autarca, facilitou a explosão do arrendamento local e de vistos duvidosos, que foram causas da especulação imobiliária que foi crescendo. A falta de memória é muito oportuna para a desresponsabilização quanto ao passado. Felizmente, nem tudo funciona como em Portugal. Daniel Sazonov, presidente da Câmara de Helsínquia, deu recentemente uma entrevista à revista “Monocle” que é um bom guia para autarcas. Diz ele que governar uma cidade não resolve todos os problemas das pessoas mas pode dar uma grande ajuda, promovendo o crescimento económico, o emprego e a vitalidade urbana. Sublinha a importância de equilibrar o crescimento das cidades com o combate à desigualdade, reconhece que o custo da habitação é um dos maiores problemas das cidades e destaca que Helsínquia conseguiu escapar a uma crise de habitação. Para isso a cidade está a construir sete mil casas por ano a custos controlados. A maior parte dos habitantes da cidade tem entre 15 e 44 anos e o objectivo de Sazonov é conseguir combinar o desenvolvimento urbanístico com a preservação da natureza e a defesa dos munícipes, apostando forte na educação dos mais novos e nos cuidados de saúde. Até agora tem conseguido. Aqui está um caso que muitos autarcas portugueses deviam estudar.
SEMANADA - Um relatório recente indica que em Portugal 3036 crianças ou jovens foram identificados como sem-abrigo em 2024 a viverem em condições de insalubridade; segundo o Banco de Portugal os empréstimos para a compra de casa totalizaram 113,6 mil milhões de euros no final de março; há cinco portugueses na lista “30 Under 30 – Europa” de 2026 da revista Forbes, que distingue os jovens mais notáveis da Europa menos de 30 anos; o número de trabalhadores com dois ou mais empregos em Portugal tem vindo a crescer e atingiu em 2025 o seu recorde com mais de 267 mil pessoas; segundo a Pordata quase 40% dos trabalhadores portugueses com menos de 30 anos têm contratos temporários, colocando o país como o quarto com maior precariedade jovem na União Europeia; a poucos meses do fim do Plano de Recuperação e Resiliência, cerca de um terço dos investimentos analisados está em situação preocupante ou crítica; apenas 20% dos investimentos do PRR estão concluídos e a maior parte do que falta e está em irremediável atraso são projectos do sector público; apenas 20% das 18000 camas anunciadas para alojamento de estudantes estão concluídas a quatro meses do fim do prazo de execução; dois terços das grandes medidas do novo PTRR, anunciadas com pompa e circunstância por Luís Montenegro como novidade, já estavam previstas no Orçamento do Estado há seis meses.
O ARCO DA VELHA - A única escuta telefónica em que António Costa, então ainda primeiro-ministro, falou com o seu amigo Diogo Lacerda Machado sobre o projeto do centro de dados em Sines demorou dois anos a ser encontrada pela investigação da ‘Operação Influencer’.

OS TRABALHOS DE CROFT - “Reflexos, Enclaves, Desvios” é o título da exposição que faz o balanço da produção artística de José Pedro Croft ao longo das duas últimas décadas e que mostra 170 obras. São pinturas, gravuras e desenhos colocados em torno de um conjunto de esculturas, uma mostra que ocupa o eixo principal do espaço expositivo no piso zero do Museu de Arte Contemporânea no CCB. Até 13 de Setembro os visitantes podem ver esta exposição que se desenvolve entre dois núcleos de trabalho interligados: o fazer gráfico e os elementos arquitectónicos onde ferro e vidro têm o papel principal, provocando o confronto entre o plano e a tridimensionalidade. Luiz Camillo Osorio, curador da exposição, sublinha: “A produção de José Pedro Croft ao longo das últimas décadas evidencia uma apropriação constante de gestos e elementos plásticos reposicionados por um mundo em rápida transformação com o qual mantém uma relação de tensão e conflito. É no interior dos conflitos com o tempo presente que a arte potencializa o seu compromisso com a liberdade e com o exercício experimental de ver o que não se sabe reconhecer.”
ROTEIRO - Uma das melhores exposições que têm sido apresentadas na Galeria Ratton é “Figuras da Natureza”, que põe em confronto trabalhos recentes em pintura sobre papel e azulejo de Ilda David, com painéis de azulejo de Lourdes Castro (na imagem). A exposição fica patente até 31 de Julho. Entretanto não perca até 16 de Maio, na Sociedade Nacional de Belas Artes uma exposição única dedicada à obra e vida de Lourdes Castro, intitulada “Existe Luz na Sombra”, que apresenta obras e um vasto acervo documental proveniente maioritariamente do acervo particular da artista, mas também de colecções institucionais e privadas. Na Galeria 111, até 12 de Junho, nova exposição de Adriana Molder, “Raios”, com vários trabalhos a tinta da china sobre papel esquisso. (Rua Dr. João Soares 5B). Na Galeria das Salgadeiras até 20 de Junho podem ser vistos novos trabalhos de pintura de Rita Gaspar Vieira sob o título “Tabique”. (Rua Coronel Bento Roma 12, em Alvalade).

O OLHAR DE CAMILO SOBRE O PAÍS - Entre 1875 e 1877 Camilo Castelo Branco escreveu oito novelas que têm por pano de fundo o Minho. “Gracejos Que Matam”, “O Comendador”, “O Cego de Landim”, “A Morgada de Romariz”, “O Filho Natural”, “Maria Moisés”, “O Degredado” e “A Viúva do Enforcado” são os oito textos que agora foram reunidos em “Novelas do Minho”, a mais recente edição da nova colecção “Biblioteca de Alexandria”, da Quetzal. Camilo homenageia o Minho, enquanto zomba de episódios e figuras da região. No prefácio que escreveu para esta edição Francisco José Viegas sublinha: “Camilo não é só o derradeiro romântico e o arquiteto de desenlaces comoventes para os espíritos da época; mais do que um ironista sublime, ele conhece bem os sinónimos de sarcasmo, que vão da leve ironia aos abismos da injúria….Tudo ri, nestas Novelas. Camilo sabia porquê; o país, que ele amava nas suas sublimes imperfeições, dava-lhe vontade de rir.» E, afirma ainda: «Depois de um fragmento de bucolismo e literatura turística, Camilo não resiste a aniquilar o sentimentalismo. É o meu herói. Hoje, atiraria pedras aos literatos – e sem receio de ferir susceptibilidades». Estas oito novelas são marcos importantes da obra de Camilo e lê-las hoje em dia é um prazer e uma lufada de ar fresco.

MESA DE CABECEIRA - Esta semana trago dois livros especiais que poderão ajudar a perceber melhor o Oriente e a China em particular. O primeiro é “A Magia da China: Lendas e Contos de Fadas”, histórias que envolvem deuses, dragões, demónios e heróis. As lendas e contos de fada da China são ricos em mitologia, história e valores culturais, são muito mais do que histórias antigas, são a expressão de valores, crenças e ensinamentos que moldam a sociedade chinesa há mais de cinco mil anos. São 17 histórias que nos trazem uma mistura de fantasia e realidade. Outra obra notável pela pureza de pensamento e de linguagem é “Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po” que permite uma visão profunda sobre as riquezas do pensamento oriental e é uma obra fundamental do budismo Tch’an (zen). Como a maioria dos mestres, Huang-Po passava os seus conhecimentos por meio de parábolas em sermões, anedotas e diálogos proferidos ante multidões. Esta obra é uma compilação feita pelo seu discípulo P’ei Hsiu, um influente estadista da época, que permite ao leitor ocidental compreender o zen a partir da fonte original. Ensinamentos Zen do Mestre Huang-Po divulga a mensagem do mestre sobre a doutrina da Mente Única, a qual nos diz que todos os seres vivos e Buda nada mais são do que a mesma e única mente, sem necessidade de se recorrer a métodos complexos para se atingir o estado de Buda. Os dois livros são editados pela Guerra & Paz.

ALMANAQUE - O Centro Cultural de Cascais tem tido uma actividade relevante na área da fotografia, com alguns nomes internacionais, mas também, como acontece agora, com a recuperação de trabalhos de fotógrafos portugueses pouco conhecidos. Abriu esta semana e está patente até 26 de Agosto a exposição “Domingos Dias Martins: Fotógrafo de Gentes e Pedras do Gerês Transmontano”, comissariada por João Miguel Barros, que destaca a sensibilidade intuitiva do autor, combinando a frontalidade do retrato com a observação do quotidiano rural “de forma quase ingénua”. As fotografias, como as desta imagem, foram feitas entre os anos 40 e 50 do século passado e existe um livro que acompanha a exposição, editado pela Ochre.
DIXIT - “Amigos e colegas, com carreiras de sucesso, olham para a política como se ela fosse uma sala mal arejada. (...)A política é para quem não sabe fazer mais nada, dizem eles, o que significa que a democracia corre um risco: ser uma ‘cacocracia’, termo grego com ecos pouco edificantes na nossa língua, traduzido como o governo dos piores.” - João Pereira Coutinho, no “Correio da Manhã”.
BACK TO BASICS - “Nenhum político deve esperar que lhe agradeçam ou sequer lhe reconheçam o que faz; no fim de contas era ele quem devia agradecer pela ocasião que lhe ofereceram os outros homens de pôr em jogo as suas qualidades e de eliminar, se puder, os seus defeitos.” - Agostinho da Silva
"A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS FEIRAS, NO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS"