
TVDE’S DESCONTROLADOS - Na semana passada houve um dia, a meio da tarde, fora da chamada hora de ponta, em que tive que percorrer várias zonas do centro de Lisboa e não foi de automóvel. No meio do congestionamento de trânsito generalizado foi fácil fazer uma constatação: a maioria dos carros que estavam a circular eram TVDE’s, nalguns locais certamente mais de 80% do total. Lisboa está invadida por TVDE’s e ninguém sabe quantos circulam nas ruas da cidade. Mas claramente há demais. Aparentemente não existe regulação nesta matéria, ao contrário do que acontece com os táxis. Há um excesso de TVDE’s a circular que perturbam o trânsito, são directa e indiretamente poluentes e, além disso, em grande número de casos, são conduzidos de forma perigosa e ao arrepio do código da estrada. Há poucos dias a PSP efetuou em várias cidades uma operação a que chamou “Transporte Seguro”, focada na fiscalização de TVDE’s, e os resultados são preocupantes: 28 pessoas detidas, das quais 20 por condução em estado de embriaguez, cinco por falta de habilitação legal e três por outras situações de âmbito criminal. Foram registadas 290 infrações, destacando-se 126 por excesso de velocidade, 35 por falta de inspeção periódica obrigatória e 16 por falta de seguro de responsabilidade civil. Foram também detectados condutores não inscritos, ausência de contratos entre motoristas e operadores e certificados em falta. 15 viaturas foram apreendidas. A verdade é esta: no universo dos TVDE’s reina a rebaldaria. Tem de haver um sistema que limite o número de veículos em circulação, a concessão de licenças tem de ser revista, a habilitação dos condutores tem de ser mais rigorosa e exigente. Assim como está é que não pode continuar e já agora era bom que os candidatos autárquicos, sobretudo em Lisboa, dissessem o que pensam fazer para inverter esta situação. Quando se anda a pé no centro da cidade, o ar, muitas vezes, é irrespirável com a concentração de trânsito e motores a trabalhar, parados em intermináveis engarrafamentos onde os protagonistas principais são quase sempre os TVDE’s.
SEMANADA - O valor cobrado do IMT e IMI aumentou 91% numa década e o peso desses impostos ligados ao imobiliário na receita total dos municípios cresceu de 11% para 27% no mesmo período de tempo; em 2009, o número de transações de habitações usadas foi de 59 mil, contra 41 mil transações de novas habitações mas em 2024 a situação inverteu-se e foram transaccionadas 124 mil usadas e apenas 32 mil novas; no final do 2.º trimestre do ano existiam em Portugal 4,7 milhões de assinantes do serviço de TV por cabo, mais 40 mil do que no trimestre homólogo; em Portugal, de acordo com dados do barómetro Bstream da Marktest, o ano de 2024 terminou com mais de metade dos portugueses (52%) a utilizarem plataformas de streaming, um número recorde; em 2024 existiam 1.799.179 portugueses emigrados, o segundo valor mais alto desde 2015; Portugal é o segundo país mais desigual da OCDE; 11.680 crianças e jovens estavam em 2024 fora da família de origem em diversas instituições de acolhimento; no primeiro semestre do ano foram registados 711 casos de abuso sexual de crianças; segundo a Ordem dos Psicólogos metade da população portuguesa está insatisfeita com a sua vida sexual: a Polícia Judiciária deteve duas idosas, ambas de 81 anos, por suspeita de terem ateado pelo menos 11 fogos, em Paredes e Loulé; Miguel Pinto Luz, o ministro com a tutela dos transportes, reconheceu que passado um mês sobre o acidente o governo ainda está a averiguar quem é a entidade responsável pela fiscalização do elevador da Glória.
O ARCO DA VELHA - Um homem com doença hepática crónica, que entrou nas urgências do Barreiro, teve alta por abandono porque estava numa maca à espera de ser observado e ninguém deu por ele. Foi encontrado pela nora ao fim de sete horas e morreu 24 horas depois.

FOTOGRAFIA - A colecção Ph., uma iniciativa editorial da Imprensa Nacional dinamizada por Cláudio Garrudo, é uma coerente selecção de autores portugueses de fotografia que tem permitido agrupar e editar obras diversas, mas significativas e importantes no contexto da fotografia portuguesa. O seu novo volume é dedicado a Patrícia Almeida, uma fotógrafa prematuramente desaparecida em 2017, então com 47 anos de idade e 15 de actividade artística. Licenciada em História estudou Imagem e Comunicação em Londres e a sua obra focou-se sobretudo na fotografia documental, com particular atenção à vida urbana. Duas vezes finalista do prémio BES Photo, o seu livro “No Parking”, produzido em Tóquio no início deste século, valeu-lhe o prémio “European Photo Exhibition Award". Criou a editora Ghost dedicada a projectos de fotografia e integrava o colectivo POC, Piece Of Cake. No prefácio que José Bértolo escreveu para esta edição da Ph., é sublinhado que “o livro de fotografia “constitui talvez o maior acto de resistência contra a morte a que um fotógrafo pode aspirar”. Nesta edição são recolhidas fotografias dos quatro livros de Patrícia Almeida: “Locations”, “No Parking”, “Portobello”, “All Beauty Must Die” e “Ma Vie Va Changer” e através das imagens selecionadas desses quatro momentos bem distintos é possível compreender a evolução do olhar de Patrícia Almeida, a forma como observou o quotidiano urbano mas também a forma como olhou para si própria e fotografou os seus estados de espírito e, também, uma reflexão sobre o que acontecia à sua volta. Na imagem uma das duplas páginas da série “No Parking”. Edição Imprensa Nacional.

ESCULTURA - “Acredito em tudo/ I believe in everything”, a mostra de novos trabalhos de Rui Chafes na Galeria Filomena Soares, é uma exposição emocionante e provavelmente a melhor do ano até agora. As 19 peças, de grandes dimensões, em ferro trabalhado, suspensas do tecto, evocam tanto um bosque como uma formação militar com flâmulas ao vento, umas mais definidas, outras como que esfarrapadas (na imagem). Rui Chafes levou nove meses a fazer estas peças, um laborioso trabalho oficinal no seu atelier. As peças oscilam entre os dois metros e os dois metros e cinquenta de altura. Algumas parecem lanças, outras árvores despidas no outono. Quando se olha o conjunto tem-se uma sensação de que algo pode acontecer e não sabemos o que será. Provavelmente a intenção de Rui Chafes quando começou esta série não previa a leitura política que agora é inevitável quando se olha com atenção para o conjunto das 19 esculturas e para cada uma delas em particular. Há também, como acontece muitas vezes com obras de Rui Chafes, um apelo romântico que impulsiona a imaginação de quem olha - e é precisamente daí que nasce a emoção que este conjunto de esculturas suscita. Até 15 de Novembro na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, Lisboa.

ROTEIRO - Volta e meia o átrio do Hotel Tivoli Avenida é tomado por um artista plástico que ali deixa, por algum tempo, a sua marca. Desta vez a escolha do Hotel e da curadoria destas iniciativas, a cargo de O Apartamento, recaíu em Jorge Feijão. O artista criou uma instalação a quase toda a altura do átrio, inspirada na pintura renascentista, que evoca a figura do Arcanjo Miguel (na foto). Ao longo de um ano Jorge Feijão trabalhou nas muitas dezenas de minuciosos desenhos e pinturas que, em conjunto, formam a figura do Arcanjo Miguel, junto a um dos três painéis de madeira, com recortes geométricos, do átrio do hotel. O título da exposição é “o Sonho de Gyorgy” , uma referência à obra do compositor Gyorgy Ligeti. Outras exposições que vale a pena visitar em galerias lisboetas: Na Galeria Vera Cortês, Rua João Saraiva 18, João Louro apresenta “The Origin Of Predatory Animals”, inspirada pelos escritos de Charles Darwin sobre a origem das espécies. Na Galeria das Salgadeiras, Rui Soares Costa apresenta esculturas, pintura e fotografia numa exposição com o título "More than human"( Av. Estados Unidos da América 53 D). Na Galeria Monitor Lisboa (Rua da Páscoa 91), Diogo Pinto apresenta uma nova série de pinturas com o título “Agência”, que evoca a Expo 98 e essa época, incluindo um quadro que simula a figura de Cavaco Silva. E na Galeria Graça Brandão (Rua dos Caetanos 26), pode ser vista uma exposição de fotografias de Maria José Palla, recentemente falecida, e uma outra de escultura, de Francisco Figueiredo Lopes. E na Balcony Nuno Nunes Ferreira apresenta “Prima Ester”, que a partir de recortes de jornal e baús revisita o que foi a chegada dos retornados a Portugal em 1975 (Rua Coronel Bento Roma 12A)
GUITARRADA - Wolfgang Muthspiel é um guitarrista de jazz austríaco e o seu trio incorpora os norte-americanos Scott Colley no baixo e Brian Blade na bateria. O terceiro álbum deste trio, agora editado, inclui uma dezena de temas gravados ao vivo em Tokyo no final de 2004. O título do álbum é aliás “Tokyo” e tem por base as gravações dos concertos que o trio fez nessa cidade japonesa e de uma sessão de estúdio, com produção de Manfred Eicher, o fundador da ECM. Logo a começar está uma versão de um original de Keith Jarrett, “Lisbon Stomp”, do álbum “Life Between the Exit Signs”, de 1968. Nos originais de Muthspiel neste disco destacam-se baladas como “Pradela” e “Traversia”, uma homenagem a Kurt Weil, “Weill You Wait” e um tema bem swingante, “Roll”. Existe ainda uma outra versão, “Abacus”, de Paul Motian, uma jóia que é a derradeira faixa deste álbum onde a sonoridade da guitarra de Muthspiel está sempre presente. Edição ECM, disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - Um dos mais importantes artistas norte americanos, Kerry James Marshall, tem a sua maior retrospectiva de sempre na Europa na Royal Academy Of Arts, de Londres. Intitulada "The Histories”, a exposição apresenta 70 trabalhos e fica patente até 18 de Janeiro, devendo depois ser apresentada em Paris e Zurique. Kerry James Marshall inspira-se na história da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, aproxima-se graficamente da banda desenhada e da ficção científica, além das suas próprias memórias. O seu trabalho tanto interpreta o passado, como o dia-a-dia actual e deixa no ar a ideia de um futuro mais optimista que a actualidade.
DIXIT - “O que sei é que não fazer nada não trava coisa nenhuma” - José Pacheco Pereira sobre o crescimento do Chega.
BACK TO BASICS - "Aqueles que sonham durante o dia são conhecedores de muitas coisas que escapam aos que apenas sonham durante a noite" - Edgar Allan Poe
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS






































