
POLÍTICA & CULTURA - Recentes decisões da Câmara Municipal de Lisboa na área cultural agitaram as águas devido à não recondução de diretores de um museu e de um teatro, ambos sob a tutela da EGEAC, empresa municipal que está na dependência directa de Carlos Moedas. O modo como as coisas foram feitas, de forma atabalhoada, reconheça-se, ainda por cima pouco explicada, abriu campo à demagogia. Rapidamente surgiram vozes a dizer que o sucedido evidenciava perseguições políticas, que seriam apanágio de políticas culturais de direita. Num post do Facebook, o crítico de arte Alexandre Pomar coloca uma questão pertinente: esta seria uma oportunidade a não perder para discutir “se a cultura é de/da esquerda e se pode ser da/de direita”. Creio, também, que um debate sobre este tema seria muito útil. Tradicionalmente, em Portugal, a esquerda apresenta-se como campeã da cultura e, não poucas vezes, pretende ser a sua única representante, rejeitando qualquer papel à direita nesta área. Este é um equívoco que ignora e pretende escamotear que ao longo dos anos figuras, de um lado e outro do espectro político, e não apenas de um só, tiveram relevância em matéria cultural. Os mesmos que agora são rápidos a apontar pretensas limitações da liberdade e da democracia, são os mesmos que nada dizem sobre o comportamento de pessoas que se dizem de esquerda, e que acham justificável a invasão da Ucrânia ou mostram simpatia por organizações terroristas. Por acaso são frequentemente os mesmos que, na área das artes e cultura, toleram a censura praticada por uma esquerda persecutória e intrinsecamente reaccionária, que vive no dogma do que considera politicamente correcto e que segue uma cartilha woke, pretendendo impôr as suas posições sem cuidar das opiniões dos outros. São os que querem estabelecer o que pode ser feito e merece apoio, e o que é condenado e merece o silêncio ou, pior, exclusão. A vida nunca é a preto e branco e a noção de que a cultura é apenas de esquerda é, no fundo, um posicionamento anti-democrático. Existem ideias feitas, muitas delas importadas, mal assimiladas, mal avaliadas e mal praticadas, sobre o modo de gestão e o método de escolha dos responsáveis pelos equipamentos culturais e até sobre o enquadramento da sua acção na área da programação. Seria interessante analisar os resultados obtidos pelos responsáveis de museus, teatros e outros equipamentos, locais ou nacionais, na captação de novos públicos, na diversidade ideológica de artistas e curadores convidados, conhecer o número de espectadores e seu perfil e avaliar o custo por espectador das produções que apresentam. Estes responsáveis fazem contratos e escolhas usando dinheiros públicos, têm responsabilidade objectiva na sua utilização e é desejável que tenham noção rigorosa dos resultados que obtêm na programação escolhida, na avaliação do equilíbrio entre a apresentação de criações inovadoras e a captação de públicos. Quem decide programações não está acima de escrutínio e esse escrutínio não deve ser apenas a verificação do cumprimento de um projecto, mas também o resultado dessas escolhas no cumprimento do papel social que os equipamentos e fundos públicos devem garantir. Nesta matéria não podem existir dogmas nem preconceitos, por muito que isso custe a muita gente. Os lugares não são eternos, a criatividade e o talento não são exclusivo de qualquer lado do espectro político: nem a boçalidade é exclusiva da direita, nem a qualidade e a inteligência são exclusivo da esquerda. Os artistas têm toda a legitimidade e até a responsabilidade para, nas suas obras, defender causas e assumir posições políticas e ideológicas, reflexo incontornável do mundo ao seu redor. Mas os responsáveis e programadores dos equipamentos não têm qualquer legitimidade para fazer escolhas em função das suas simpatias e posições ideológicas e políticas, mascarando-as como opções estéticas. Nem os políticos devem ser programadores, nem os programadores devem ser porta-estandartes das suas convicções políticas pessoais no desempenho dos cargos que ocupam.
SEMANADA - Entre 2018 e 2022 29,3% do registo de patentes em Portugal foi feito por mulheres, enquanto a média europeia é de 13,8%; aos 18 anos 97% dos jovens utilizam redes sociais, 37% utilizam-nas as em média, durante quatro horas ou mais por dia, enquanto 15% as frequentam por períodos iguais ou superiores a seis horas; segundo o Banco de Portugal a dívida pública portuguesa registou em janeiro um salto superior a 6 mil milhões de euros, voltando a ultrapassar os 280 mil milhões; o número de utentes sem médico de família atribuído voltou a ultrapassar a fasquia dos 1,6 milhões em janeiro; a percentagem de bebés nascidos filhos de mães estrangeiras disparou nos últimos 10 anos, passando de 8,6% em 2015 para 26,2% em 2024; há cerca de 32 mil partilhas de bens em litígio nos tribunais e notários: depois das tempestade a procura por novos seguros teve aumentos de 20 a 35%; Portugal é o segundo exportador mundial de cannabis medicinal; em 54 municípios a taxa de esforço nos encargos com a habitação é superior a 50%; um terço dos alunos do ensino secundário recorre a explicações que têm um custo estimado de cerca de 120 euros por mês; na freguesia de Leiria mais afectada pelas tempestades apenas duas pessoas, entre as 400 que se candidatram, receberam já apoio.
O ARCO DA VELHA - Um mês depois das tempestades, ainda há 34 estradas cortadas, e na ferrovia falta recuperar a circulação em 192 kms na Linha do Oeste e na Linha da Beira Baixa.

O PLANETA CAOS - É impossível ficar indiferente ao novo trabalho de Luís Campos, que podia ter por título “O Mundo Em Que Vivemos e o Mal Que Lhe Fazemos”. Numa anterior exposição (“Fading”, 2023) Luís Campos abordava a extinção dos animais e a degradação dos ecossistemas. Agora, quase três anos depois, na mesma Galeria, a Carlos Carvalho Arte Contemporânea, Luís Campos (na imagem) apresenta um vídeo e uma nova série de 15 fotografias que classifica como “uma meditação sobre a frágil permanência da vida e a condição efémera do homem no planeta que o sustenta”. As fotografias desta série “Endscapes”, num preto e branco intenso, foram feitas entre 2011 e 2025 e parte das imagens haviam sido mostradas no Porto, na galeria Fernando Santos. Aqui são acompanhadas por um vídeo, de dez minutos, feito com recurso a Inteligência Artificial, a partir de instruções escritas pelo autor, indicações que formaram imagens que se apresentam numa sucessão de catástrofes e destruições que formam um cenário apocalíptico. No texto de apresentação da exposição Luís Campos cita Robert Sawn, o primeiro homem a alcançar ambos os pólos: “A maior ameaça ao nosso planeta é a crença de que alguém o poderá salvar”.

ROTEIRO - Começo pela exposição “Uma Nova História”, de Luísa Ferreira, na Galeria Sá da Costa (na imagem). A autora revisita, com o auxílio de David Willis, a sua produção dos anos 80 e 90 com fotografias modificadas através de diversas técnicas como pintura, recorte e colagem, mostrando uma produção bem diferente daquela que Luísa Ferreira foi publicando ao longo dos anos. Na Quadrum Mané Pacheco apresenta “Brama”, uma exposição de formas e esculturas algures entre a fantasia e a geometria, frequentemente sugerindo corpos impossíveis de identificar. Na Biblioteca de Marvila (Rua António Gedeão), até 20 de Abril, pode ser vista a exposição “Augusto Cabrita: O Olhar Encantado” que mostra fotografias inéditas realizadas por Augusto Cabrita na rodagem, em 1965, do filme “As Ilhas Encantadas”, de Carlos Vilardebó, com Amália Rodrigues.

DESCOBERTA PASCAL - “Jesus e o Império Romano - Como Roma determinou a vida e a morte de Cristo” é uma boa leitura para esta época pascal e o seu autor é James Lacey, um professor de Estratégia. O livro parte desta tese: no final de 31 D.C., depois de os senadores romanos assassinarem Lúcio Sejano, o confidente mais próximo do imperador romano Tibério, o Império mudou para sempre. O autor defende que se Sejano não tivesse sido assassinado, Jesus nunca teria sido crucificado. O livro mostra o mundo romano em que Jesus viveu, James Lacey contradiz crenças históricas de longa data, propõe uma outra visão do Novo Testamento e explica como os eventos em Roma impulsionaram os eventos na Judeia. O autor relata um mundo vibrante e rico, no momento em que ainda estão a ser feitos os primeiros contactos com a realidade do poder romano e descreve como Herodes prosperou apaziguando algumas das pessoas mais perigosas da história: Pompeu, Júlio César, Marco António, Cleópatra e Augusto. Edição Bertrand.

OUTROS FADOS - O novo disco de Ricardo Ribeiro, “A Alma Só Está Bem Onde Não Cabe” vai muito para além do fado, seu território de origem, e explora influências de outras músicas de outros países. Dos onze temas, três têm letra e música de Ricardo Ribeiro e os outros têm assinatura de nomes como Garota Não, Amélia Muge, Agir, mas também de nomes como Dorival Caymmi ou Mayte Martin, esta em “Por La Chica Del Mar”, o tema que encerra o disco e reforça a inspiração ibérica de Ricardo Ribeiro. A produção e arranjos foram maioritariamente de Bernardo Saldanha (que no disco toca guitarras) e Manuel Oliveira (no piano), nomeadamente o tema de abertura, “51”, uma extraordinária canção da Garota Não. Outro tema notável é “Amanhã”, da autoria de Ricardo Ribeiro e onde ele próprio toca guitarra. O trabalho dos arranjos e dos músicos é exemplar, criando espaço para a voz de Ricardo Ribeiro se afirmar sem hesitações. Além dos dois nomes já citados participam Ângelo Ferreira na guitarra portuguesa, Rodrigo Correia no contra-baixo e Alexandre Frazão na bateria, além de Ana Moura que participa num dueto com Ricardo Ribeiro em “Maré, um tema composto e produzido por Agir. Disponível nas plataformas de streaming.
ALMANAQUE - O MACAM, Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, assinala um ano de vida nos dias 21 e 22, com entrada gratuita num horário alargado das 10 às 20h00 e um programa diversificado. Há novas obras na exposição permanente e um dos destaques deste aniversário são os painéis de Almada Negreiros para a Alfaiataria Cunha. O Museu foi visitado por cerca de 80.000 pessoas neste primeiro ano.
DIXIT - “O actual impasse político com três partidos com a mesma força não se ultrapassa com boa vontade, mas com a derrota de um deles” - André Abrantes do Amaral, no Observador
BACK TO BASICS - “Não compreendo como há gente com medo de ideias novas; eu tenho é medo de ideias velhas” - John Cage
A ESQUINA DO RIO É PUBLICADA SEMANALMENTE, ÀS SEXTAS, NO SUPLEMENTO WEEKEND DO JORNAL DE NEGÓCIOS









































