
O REGRESSO DO IMPÉRIO DO MAL - A invasão da Ucrânia pela Rússia começou há quase um mês, a 24 de Fevereiro. Este acto de guerra ordenado por Putin é violento e destruidor. Não poupa alvos civis e é uma agressão a um país independente que havia decidido separar-se da esfera de influência russa. Muita gente pode estar farta de ver notícias sobre o conflito, mas isto não é só uma guerra entre estados vizinhos. A invasão da Ucrânia pela Rússia é uma declaração de guerra aos regimes da Europa Ocidental. Como bem disse António Barreto, “a agressão à Ucrânia é violenta e destruidora. Mas também está a refundar uma nação e a acordar um continente solidário. E a exibir os charlatães do pensamento”. Por cá têm aparecido bastantes desses charlatães - nas universidades, na política e até nas Forças Armadas. Estes idiotas úteis, como já lhes chamaram, fazem recordar aqueles que, ainda durante a guerra fria, organizavam movimentos e comités pela paz, patrocinados por Moscovo, enquanto fechavam os olhos ao facto de a URSS se armar até aos dentes, mesmo com armas nucleares, perante o seu silêncio e até apoio. Volto a citar António Barreto: “Garantir que a invasão da Ucrânia pelos russos não é mais que uma guerra entre os EUA ou a NATO e a Rússia, provocada pelos primeiros, é do domínio da fantasia fantástica”. A revista The Economist desta semana resume o que se passa no seu título de capa: “A Estalinização da Rússia”. O sonho de Putin é reconstituir a glória do Império Russo e para isso começou a maior guerra que a Europa conhece desde 1945. Tal como Estaline as suas armas são a violência, a mentira e a paranóia.
SEMANADA - Durante a pandemia a taxa de infecção dos enfermeiros foi o dobro da dos médicos; no fim de Fevereiro mais de 60% de Portugal estava em seca extrema; 59% das ofertas de emprego só pagam o salário mínimo; o aumento de preço dos alimentos pode alcançar 30% a curto prazo; apenas nove países da Europa gastam mais que 2% do PIB em Defesa e 18, entre os quais Portugal, ficam francamente abaixo; um em cada três carros vendidos em Portugal é um veículo importado em segunda mão; as quedas são a primeira causa de morte acidental em Portugal e no ano passado deram origem a 45 mil idas às urgências hospitalares; segundo a Anacom 93 em cada 100 lares portugueses tem TV por subscrição através de um dos operadores de telecomunicações; ainda segundo a Anacom 88 em cada 100 lares têm acesso à banda larga fixa e, destes, 6% através de fibra óptica; as eleições legislativas e respectiva campanha eleitoral motivaram 5600 queixas e pedidos de informação à Comissão Nacional de Eleições, dez vezes mais que em 2015; nos últimos 20 dias Portugal recebeu cerca de dez mil refugiados, tantos como no total dos últimos sete anos; o PCP e o PEV votaram contra uma moção apresentada na Assembleia Municipal de Lisboa que pedia a libertação imediata de Ivan Fedorov, presidente da Câmara Municipal de Melitopol, na Ucrânia, detido pelas tropas russas no ataque à cidade; Elon Musk desafiou Putin para uma luta corpo a corpo.
O ARCO DA VELHA - Esta semana foi conhecido o caso de uma professora que reside em Felgueiras e foi colocada a dar aulas em Ovar, fazendo cerca de 170 quilómetros por dia. Gasta 120 euros de combustível por semana mais 55 euros em portagens, totalizando 700 euros mensais, o que significa 70% do seu salário.

UMA GRANDE COLECÇÃO - O MAAT apresenta até final de Agosto uma exposição baseada na colecção pessoal de Antoine de Galbert. O coleccionador francês, herdeiro do grupo Carrefour, começou por abrir uma galeria de arte contemporânea em Grenoble em 1987. O seu interesse pela arte aprofundou-se a partir dessa altura e posteriormente criou a Fundação Antoine de Galbert que tem por principal objectivo apoiar a criação artística, estimular a aprendizagem da história da arte e promover a formação de futuros artistas. “Traverser La Nuit”, assim se chama a exposição baseada na colecção de Antoine de Galbert, integra obras de pintura, escultura e fotografia de quase uma centena de artistas. É uma rara oportunidade de ver obras de nomes como Marina Abramovíc, Lucio Fontana, Joan Fontcuberta, Gilbert & George, André Kertész, Man Ray, Hervé Di Rosa, Didier Faustino, Jorge Molder, W. Eugene Smith, Claudio Abate e Patti Smith, entre outros. Na imagem está “Sans Titre (Le Terril)”, uma obra de Stéphane Thidet que integra a colecção. Outras sugestões: em Ponta Delgada, na Galeria Fonseca Macedo, José Loureiro apresenta “Inglês Técnico Para Defuntos”, um conjunto de nove pinturas que o artista apresenta assim: “Enquanto não se mandar traduzir tudo para inglês técnico, subsistirão sempre dúvidas sobre o que fará um bacalhau no meio de uma pintura.” No Funchal, no MUDAS - Museu de Arte Contemporânea da Madeira, Cláudio Garrudo apresenta “Trinus”, um trabalho fotográfico sobre o mar visto a partir de um navio.. E em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, Isabel Pavão apresenta até 16 de Abril um conjunto de pinturas sob o título “Porto/Paris/Nova Iorque”.

AS AULAS DE VARGAS LLOSA - O processo criativo, nas mais diversas áreas, é das coisas que mais me fascina. O acaso joga pouco nesta matéria: há trabalho, método e, claro, imaginação. Em 2015, na Universidade norte-americana de Princeton, Mario Vargas Llosa deu um curso de Literatura e Política juntamente com Rubén Gallo. Vargas Llosa parte da perspectiva de autor e fala de como nascem os seus romances. Rubén Gallo analisa as obras e dessas aulas resultaram, animados debates com um grupo de alunos. “Conversas em Princeton,” organizado e prefaciado por Rubén Gallo, e agora editado em Portugal, é um relato dos melhores momentos desse curso. O livro oferece também digressões por outros subtemas como teorias do romance ou a ameaça do terrorismo no século XXI – numa conversa em que participou o jornalista Philippe Lançon, sobrevivente do ataque ao Charlie Hebdo. Um dos textos mais interessantes é “Jornalismo e Literatura” - já que na obra de Mario Vargas Llosa há personagens que trabalham em jornais, rádios e outros meios. Llosa, que começou por ser jornalista, e ainda hoje escreve colunas para jornais e revistas, sublinha aquilo de que muitos se esquecem: “a utilização que o jornalista faz da linguagem e a que é feita pelo escritor são completamente diferentes”. E, no texto final que surge no livro («História e Literatura»), Mario Vargas Llosa afirma: «Estou convencido de que o espírito crítico, indispensável para o funcionamento da democracia, se forma e enriquece mais graças à literatura do que a qualquer outra disciplina».

OS BLUES - Um dos discos da minha vida é “Blues From Laurel Canyon”, uma edição de 1968 assinada por John Mayall And The Bluesbreakers, um álbum a que volto com regularidade. John Mayall, um inglês por cuja banda passaram alguns dos melhores guitarristas, como Eric Clapton, editou o seu primeiro disco em 1965 e desde então já soma 69 álbuns, entre originais em estúdio e gravações ao vivo. Agora, aos 88 anos, surpreende com um trabalho que é um regresso à pureza dos blues, “The Sun Is Shining Down”. Como é hábito fez-se rodear de nomes de peso como os guitarristas Mike Campbell, Marcus King, Buddy Miller, e Melvin Taylor, o violinista Scarlet Rivera e Jake Shimabukuro, um célebre intérprete havaiano de ukulele. O lote é completado pelo sólido acompanhamento de Greg Rzab no baixo, Jay Davenport na bateria e Carolyn Wonderland na guitarra. Logo no tema inicial, dos dez que compõem o álbum, John Mayall e Melvin Taylor entendem-se de forma perfeita em “Hungry And Ready”. A voz de Mayall continua forte e expressiva, assim como a forma como toca harmónica, uma das suas imagens de marca. Em “Can’t Take No More” o diálogo é com Marcus King e em “I’m As Good As Gone” Mayall e Buddy Miller dão uma lição de blues, continuada aliás em “Got To Find a A Better Way”,numa ligação perfeita com o violino de Scarlet Rivera, um dos músicos que acompanhou Bob Dylan no Rolling Thunder Review. Em “The Sun Is Shining” Mayall prescinde dos seus convidados e mostra como continua a ser uma referência incontornável dos blues, oferecendo um solo de harmónica brilhante. Este não é um disco saudosista, é apenas uma lição de música, aplicada aos blues.
O REGRESSO DO PICA-PAU - O Pinóquio é um dos clássicos lisboetas em matéria de restauração, na secção cervejarias. Situado numa esquina dos Restauradores, nos últimos anos mudou de poiso enquanto o prédio onde nasceu era recuperado. O prédio é hoje em dia um Hotel (com uma entrada pirosa por sinal) mas o Pinóquio continua no mesmo sítio, de cara lavada, sala aumentada, esplanada ampliada, arranjada e aquecida. Os painéis de azulejo verdes, entre os quais os da enorme lagosta ao fundo da sala, continuam a ser a imagem de marca da casa. O Pinóquio reabriu há cerca de um mês, no mesmo lugar onde nasceu há 40 anos. Isto significa o regresso do melhor pica-pau de Lisboa aos Restauradores. O Pinóquio é conhecido pela qualidade dos seus mariscos, nomeadamente pelas gambas da costa, cozidas na altura, salpicadas de sal grosso ou ainda pelas amêijoas à Bolhão Pato. Da sua lista fazem ainda parte pratos recomendáveis como a paella e o arroz de marisco - mas é no pica-pau de lombo que a minha atenção recai sempre. Acontece que este pica-pau é feito a partir de carne de lombo de primeira qualidade, em bocados grandes, temperado com esmero e chega à mesa numa frigideira, com uma folha de louro a nadar em algum molho da fritura. Eu peço-o mal passado para fazer realçar o sabor da carne, tenra, de bom corte. A acompanhar vêm umas batatas fritas às rodelas, finas, feitas na hora. E guardo sempre algum do pão torrado que vem para a mesa para limpar a frigideira como remate. A bebida que escolho é a imperial, bem tirada, em copos refrescados, perfeita. Mas, quem quiser vinho, saiba que o da casa é da Quinta do Monte d’Oiro, que cumpre com honradez. Se gostar de doces, recomendo a torta de laranja. É aconselhável reservar pelo telefone 213 465 106.
DIXIT - “Os generais e intelectuais filhos de Putin tentam sacudir a responsabilidade da invasão dos militaristas russos para as vítimas da agressão. Lembram o violador que acusa a vítima de andar de mini-saia. “ - José Milhazes
BACK TO BASICS - “O drama, ou seja, a apresentação de vários pontos de vista numa peça, foi substituído pela proclamação de verdades. E isso aborrece-me. Não gosto de ver verdades. Gosto de ver pessoas com opiniões diferentes e desejos diferentes” - Jorge Silva Melo

































