fevereiro 11, 2022

OS NÚMEROS DO DESPERDÍCIO DO SISTEMA ELEITORAL

R0000480.jpg


OS VOTOS INÚTEIS - Há um estudo que indica que fazer reformas no sistema não dá votos a nenhum político. Mas a verdade é que manter o sistema eleitoral como está é uma estragação de votos. Ora vejam: nas recentes eleições legislativas mais uma vez foram diretos para o lixo cerca de 700 mil votos. Ou seja, quase 13% dos votos em território nacional (excluindo círculos da emigração) não foram convertidos em mandatos. Destes, cerca de 200 mil foram votos brancos, nulos ou para partidos que não alcançaram representação parlamentar. Mas depois ainda há mais de 400 mil que, apesar de terem uma cruz em partidos que vão estar representados na Assembleia da República, não tiveram qualquer contributo para essa eleição. Vejamos os números com maior atenção: para os dois maiores partidos, PS e PSD, bastaram cerca de 20.000 votos para eleger cada um dos seus deputados. O esforço foi muito superior nos partidos mais pequenos. O PAN, por exemplo, conquistou apenas um lugar no parlamento apesar de ter obtido 82 mil votos. Aliás, apenas pouco mais de 20 mil votos no PAN serviram para eleger a sua deputada única no círculo eleitoral de Lisboa, os restantes 60 mil votos foram dispersos pelo país e inconsequentes na eleição de qualquer deputado. Comparando com o partido mais votado, o PS teve 26 vezes mais votos (cerca de 2,2 milhões de eleitores) que o PAN, mas conquistou 117 vezes mais deputados. Já o CDS, apesar de ter conquistado 87 mil votos, mais do que o PAN e o Livre, e quatro vezes mais do que os votos correspondentes a cada deputado do PS e PSD, não teve nenhum deputado eleito e perdeu a representação  parlamentar. Outros dados mostram que, curiosamente, o sistema vigente é também uma forma de promover o centralismo: é melhor ter 2% de votos em Lisboa (cerca de 25 mil votos, que permite eleger um deputado) do que ter 100 mil votos espalhados por todo o país (não elegeria nenhum deputado). Repare-se num caso significativo: em Portalegre mais de metade dos votos não serviu para eleger nenhum deputado. Uma análise das eleições entre 1975 e 2019 revela que durante esse período uma média de 8,67% de votos válidos não foram convertidos em mandatos. Foram votos inúteis graças ao sistema que existe.


 


SEMANADA - Quase mil médicos de família vão atingir este ano a idade da reforma e o número de pessoas sem médico de família vai aumentar; as principais empresas de transporte recuperaram passageiros no ano passado, à excepção do Metropolitano de Lisboa e Transtejo; o Mosteiro dos Jerónimos, o da Batalha e o Convento de Cristo foram os três monumentos portugueses mais visitados em 2021; a taxa de inflação da zona euro tem um novo máximo de 5,1% e isto levanta uma questão: como será que a geração de gestores que nunca geriu sob inflação vai viver estes novos tempos?; o preço da gasolina em Portugal no final do ano passado era de 1,669 cent/l, a oitava mais cara da União Europeia; as famílias portuguesas gastaram mais de dez mil milhões de euros no supermercado em 2021; em 2021 os bancos fizeram empréstimos à habitação de mais de 15 mil milhões de euros, mais 34% que em 2020; segundo o Censos 21 existem em Portugal 3.573.416 edifícios, um aumento de 0,8% em relação ao recenseamento de 2011; o maior incremento no número de edifícios foi observado nos concelhos do Seixal (mais 2080), Barcelos (mais 1822) e Vila Nova de Famalicão (mais 1436); em termos relativos foi nos concelhos da Golegã, Madalena e Corvo que o número de edifícios mais aumentou entre Censos, respetivamente mais 12.6%, 12.4% e 7.7%; os concelhos do Porto, Lisboa e Funchal foram aqueles que mais parque edificado perderam: no Porto, foram contabilizados menos 5021 edifícios, em Lisboa menos 3273 e no Funchal menos 1226; 


 


O ARCO DA VELHA - Habitantes da Aldeia da Luz, em Mourão (Évora), ainda hoje pagam Imposto Municipal sobre Imóveis dos terrenos que possuíam e ficaram submersos na antiga povoação, 20 anos após o início do enchimento do Alqueva.


 


EA018B56-0897-433D-A8E6-0E5162109660.JPG


UMA CASA VISTA DE FORA - Patrícia Garrido trabalhou ao longo de vários meses numa escultura que desde a semana passada, e até final de Abril, ocupa quase todo o espaço da Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54). A obra, no fundo a evocação de uma casa dentro das quatro paredes da galeria, é feita a partir de pedaços de cantoneira, que se entrelaçam de forma a que ninguém pode entrar no seu espaço, podendo apenas espreitar a partir do exterior (na imagem). O título da peça, “Interior”, é no fundo a descrição de uma realidade que se observa mas onde ninguém pode entrar. Entretanto, em Elvas, no Museu de Arte Contemporânea, é apresentada até 3 de Julho a exposição “Caminhos Cruzados”, que agrupa 62 obras de José Pedro Croft que estão incluídas na colecção António Cachola. Num salto mais a norte, Pedro Calapez e André Gomes apresentam no Museu Nacional Soares dos Reis, até 8 de Maio, uma nova montagem da exposição “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, que havia sido apresentada no final do ano passado no Museu Colecção Berardo; na Galeria Insofar, até 30 de Abril, o artista angolano Cristiano Mangovo apresenta “Black Rock Senegal”. Se gostam de anúncios luminosos do século passado não percam a exposição Brilha Rio, no Parque de estacionamento do Prata Riverside Village em Marvila, com 70 peças - pode ser visitada ao fim de semana até início de Março.


 


image (2).png


O PIOR TEMPO DE ESPANHA -  Estudou geografia e história, tornou-se conhecida com uma novela erótica, “Las Edades de Lulu”, que ganhou o prémio “La sonrisa vertical” e inspirou um filme do realizador Bigas Luna. Almudena Grandes Hernández foi uma das grandes escritoras espanholas e morreu em 2021. A Mãe de Frankenstein , o seu derradeiro livro, publicado em 2020, é um romance histórico elaborado, a quinta parcela da série Episódios de uma guerra sem fim, e é por muitos considerada a novela mais intensa e emocional dessa série.Este título apresenta uma narrativa ambientada na Espanha do pós-guerra. Da mesma forma, o tema do livro aborda parte das consequências psiquiátricas causadas pela Guerra Civil e pelo regime de Franco. A acção começa em 1954, quando o psiquiatra Germán Velásquez regressa a Espanha para trabalhar no manicómio feminino de  Ciempozuelos, após 15 anos de exílio na Suíça onde foi acolhido pela família do doutor Goldstein. Naquela instituição psiquiátrica, Germán reencontra Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher inteligente e paranóica, tristemente célebre por matar a tiro a própria filha. Ali conhece também María Castejón, que cuida dela com enorme desvelo e gratidão. A amizade que acaba por nascer entre a jovem auxiliar e o doutor Velázquez leva o leitor a descobrir não apenas a sua origem humilde como neta do jardineiro da instituição, os anos de criada em Madrid e a infeliz história de amor que protagonizou, mas também o que levou Germán a abandonar a tranquilidade suíça e regressar a Espanha, país onde então os pecados se convertem em crimes, e o puritanismo – defendido pelo regime de Franco – encobre todo o tipo de abusos. Em A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes regressa ao período mais difícil da história de Espanha, destacando as feridas imensas que uma longa guerra provocou. 


 


image (1).png


MÚSICA MARÍTIMA -  Mário Barreiros, baterista, já participou como músico ou produtor em mais de três centenas de discos de vários géneros musicais, além de ter integrado grupos que fizeram história na pop portuguesa, como os Já Fumega. Mas o jazz é desde há muito o seu terreno de eleição e o seu novo trabalho é prova disso mesmo. Nas palavras de Mário Barreiros trata-se de um regresso ao jazz e à música improvisada e este “Dois Quartetos Sobre O Mar”  é definido por Barreiros como uma homenagem ao mar e às pessoas que meritoriamente cuidam dele”. O disco está dividido em duas partes, cada uma interpretada por um quarteto,  em que o único elemento comum é o próprio Mário Barreiros, na bateria. O primeiro desses quartetos, Pacífico, conta com Carlos Barretto (contrabaixo), Abe Rábade (piano) e Ricardo Toscano (saxofone alto); o segundo quarteto, Abissal, é composto por Demian Cabaud (contrabaixo), Miguel Meirinhos (piano) e José Pedro Coelho (saxofone), e desenrola-se ao longo de oito andamentos. Mário Barreiros diz que os primeiros quatro temas são “mais românticos” e os restantes quatro “mais profundos e reflexivos”. Em comum as duas partes do disco têm o esboçar de paisagens sonoras - o que reforça este disco como sendo um álbum conceptual ligado ao tema dos Oceanos. Este é um dos mais interessantes discos portugueses na área do jazz  e merece destaque a qualidade da prestação dos músicos e a cuidada produção. 


 


PETISCAR - Um dos meus petiscos favoritos é fazer uma massa com brócolos, anchovas e alcaparras. A coisa é simples: cortem um pé de brócolos de forma a aproveitar só as flores, que devem cozidas em água com sal, a ferver, por três minutos. Uma vez cozidas, retirem e reservem. Aproveitem a água usada nos brócolos para cozer a massa, que deve ficar menos um minuto que o indicado na embalagem. Eu gosto muito desta receita com esparguete de boa qualidade (o de molde de bronze da Milaneza é óptimo porque capta bem os sabores do molho onde é misturado). Uma vez cozida escorram a massa e reservem, mas guardem uma chávena de chá da água da cozedura. Ao lado, numa frigideira funda coloque duas colheres de sopa de azeite, uma lata pequena de filetes de anchova escorridos e duas colheres de sopa de alcaparras passadas por água corrente, adicionem um pouco de gengibre fresco picado, e duas malaguetas pequenas esmagadas. Salteiem tudo durante uns três minutos, mexendo para as anchovas ficarem aos pedaços. A seguir coloquem os brócolos e a chávena de água da cozedura da massa  na mesma frigideira, mexendo sempre para as flores dos brócolos se desfazerem. Continue o processo até metade da água evaporar - deve demorar entre 5 a 7 minutos. No final deite por cima a massa escorrida e misture tudo muito bem para ficar envolvida no molho. Polvilhe a gosto com queijo parmesão e misture tudo mais uma vez, transferindo para uma taça que levará para a mesa. Bom apetite.


 


DIXIT - “Uma Marinha focada na sua missão, pronta para servir Portugal, útil para a afirmação do valor do mar, significativa nas suas capacidades e tecnologicamente avançada”  - Henrique Gouveia e Melo, Chefe do Estado Maior da Armada


 


BACK TO BASICS - “Quando a maré baixa é que se descobre quem andava a nadar nu” - Warren Buffett