
E A CULTURA? - Que vai ser da Cultura no próximo Governo? Depois do quase interregno no desenvolvimento da política cultural durante a legislatura anterior é oportuno perguntar qual a estratégia que o Governo vai desenvolver na área cultural. É escusado irem procurar no programa do PS porque o que lá está é um rol de generalidades, com boa dose de banalidades. Reconheça-se, em abono da verdade, que neste processo de desertificação de ideias em matéria de política cultural o PS não está sozinho. A maioria dos partidos seguiu a sua bitola. Mas o que interessa agora é saber se o PS vai aproveitar, nesta como noutras áreas, a sua maioria absoluta para fazer reformas estruturais. Esta semana foi divulgado um importante estudo, promovido pela Gulbenkian, sobre as práticas culturais dos portugueses e o seu resultado dá muito que pensar a quem fôr ocupar a pasta da Cultura. Mas há coisas básicas: não vou mais longe do que reivindicar uma maior autonomia de gestão orçamental das instituições que conseguem captar financiamentos privados, a par com a atribuição de um financiamento público suficiente para travar a degradação do funcionamento dos museus nacionais e a conservação do património. Já agora, se não for demais, a anulação do acordo ortográfico seria também bem-vinda, assim como acções de promoção do livro e da leitura. E apesar de umas modestas recentes alterações, é imperioso conseguir flexibilizar e facilitar mais a Lei do Mecenato para que o financiamento privado à cultura possa ser estimulado e compensado, para além do que agora existe - seguindo o que de melhor e mais eficaz se faz noutros países. E, já que estamos nesta área, seria muito interessante rever o enquadramento fiscal das compras de obras de arte por empresas e cidadãos, por forma a incentivar o mercado. Uma política cultural diferente não é apenas um esperado aumento da dotação do Orçamento de Estado ao sector, é também a criação de mecanismos que recompensem os privados pelo que decidirem investir nesta área. Neste fim de semana foram muitas as notícias sobre o início da temporada cruzada Portugal-França. Mas será curioso ver, daqui a uns meses, quanto é que o Governo português atribuiu de facto à iniciativa - dizem-me que muito pouco, mas vamos esperar para ver. Uma das obras mais salientes, a reinterpretação da obra clássica “As Três Graças”, por Pedro Cabrita Reis, exposta nos jardins do Louvre, (na imagem) só foi possível, segundo declarações do autor numa entrevista, graças ao financiamento de entidades privadas - no caso três empresas francesas que actuam em Portugal - Altice, Engie e Vinci, e de outros apoios como o da corticeira Amorim e da Fundação Gulbenkian. Confesso que neste cenário custa um pouco ver figuras do Governo a pendurarem-se na obra como se tivessem feito alguma coisa por ela. Como diz um amigo meu, é o país que temos.
SEMANADA - Grande parte das verbas previstas para as autarquias no processo de descentralização iniciado há cinco anos ainda não saíu do Estado central; foram anulados cerca de 80% dos votos de emigrantes do círculo da Europa nas eleições legislativas de 30 de Janeiro; entre os 230 deputados eleitos há apenas nove com 30 anos ou menos; até agora, nos executivos de António Costa um terço dos lugares foram ocupados por mulheres; cerca de 13 mil funcionários do estado pediram a reforma em 2021, sobretudo nas áreas da educação e saúde mas, apesar disso, o número total de funcionários públicos aumentou 3% para o total de 733 495 pessoas ou, se quisermos, perto de 20% dos votos expressos nas recentes eleições; nos últimos três anos, os portugueses terão consumido menos 25,6 toneladas de sal e menos 6256 toneladas de açúcar; segundo o estudo TGI da Marktest perto de um em cada três portugueses compra chocolates ou bombons em caixas; o impacto no défice do combate à pandemia foi maior em 2021 do que em 2020; as empresas portuguesas de ourivesaria e joalharia enviaram, no ano passado, 4,5 milhões de peças para os serviços de contrastaria, mais um milhão de peças do que em 2020, o que representa um crescimento de 28,6%; o preço das botijas de gás aumentou cinco vezes mais que a inflação; António Costa lamentou os erros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do seu amigo Santos Silva, no processo eleitoral junto dos emigrantes portugueses na Europa e que levou agora à anulação de cerca de 80% dos seus votos; um estudo promovido pela Gulbenkian indica que 61% dos portugueses não leram um só livro no último ano.
O ARCO DA VELHA - O Ministro do Ambiente declarou de “imprescindível utilidade pública” uma central solar a construir no concelho de Gavião que implica o abate de mais de mil sobreiros.

PRAZERES VISUAIS - João Maria Gusmão apresenta na Galeria Cristina Guerra “Lusque-Fusque Arrebol”, uma exposição individual (na imagem) que reúne, numa grande instalação, esculturas em bronze, fotografias e lanternas mágicas produzidas no último ano. Durante anos, entre 2001 e 2018, Gusmão trabalhou em parceria com Pedro Paiva e fez numerosas exposições em vários países, além de uma retrospectiva recente em Serralves. Desde 2020 tem vindo a desenvolver e apresentar várias exposições e projectos curatoriais e editoriais em colaboração com outros artistas como Alexandre Estrela, Mattia Denisse, Gonçalo Pena e Mauro Restife. “Lusque-Fusque Arrebol” pode ser visto até 9 de Abril na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33). Outros destaques: na Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101-3º) Carla Rebelo apresenta até 18 de Março “Geologia de Um Lugar”; na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º), Joana Escoval apresenta até dia 12 de Março “Wind Dreams”; na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Rui Castanho mostra até 12 de Março “Once Upon A Time”, até 12 de Março; na Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva ( Praça das Amoreiras 56), Carlos Nogueira apresenta “Sombras de Vento, Entre Águas” ; e no Porto, a Galeria Nuno Centeno (Rua da Alegria 598), apresenta novos trabalhos de Secundino Hernández, Gretta Sarfaty e Gabriel Lima. Entretanto nos próximos dias todos os caminhos vão dar a Madrid, para a feira de arte contemporânea ARCO, de 23 a 27 de Fevereiro.

A FOGUEIRA DA JUSTIÇA - Em meados de 1895 o escritor Oscar Wilde foi preso e condenado a dois anos de prisão pela prática de sodomia, considerada um crime na Londres vitoriana. No tribunal onde o processo decorreu o escritor defendeu a sua obra maior, “O Retrato de Dorian Gray”, retratada no julgamento como imoral e ofensiva, pelo seu teor alegadamente homossexual. Na sua defesa Oscar Wilde afirmou que um livro será sempre um bom livro «se estiver bem escrito, se provocar uma sensação de beleza, a mais pura sensação de que um ser humano é capaz. Se estiver mal escrito, a sensação é de repulsa”. “A Intransigente Defesa da Arte” é o livro que faz a transcrição quase integral do julgamento, que se presumia perdido nos arquivos da lei. No livro, recuamos a 1895 e assistimos ao julgamento mais sensacional do século XIX. Da sórdida exposição, na Londres vitoriana, da homossexualidade de Oscar Wilde, nasce um articulado e brilhante discurso da vida real do escritor: uma veemente e majestosa defesa da absoluta liberdade da criação artística. Termino com estas palavras de Oscar Wilde no tribunal: “O prazer de alguém criar uma obra de arte é um prazer puramente individual, e é para alimentar esse prazer que alguém cria. O artista trabalha olhando para o seu objecto. Nada mais lhe interessa. O que as pessoas possam dizer é algo que não lhe diz respeito”. Esta é a primeira publicação em Portugal deste texto, numa tradução de André Morgado, com a chancela da Guerra & Paz.

INESPERADOS CONVIDADOS - Após uma década de silêncio o ex-líder dos Pearl Jam, Eddie Vedder regressa com um disco a solo, “Earthling”. A surpresa está na lista de convidados: Elton John, Ringo Starr e Elton John. Com treze canções e quase uma hora de duração, o álbum arranca com um quase hino, “Invincible”, mas as três canções que recolhem maior número de audições no Spotify são “Long Way”, “Brother The Cloud” e “The Haves”. O arranque do disco é festivo, Vedder solta-se de uma forma inesperada e a sua voz molda-se às melodias de uma forma quase pop, enquanto a produção usa coros, percussão bem marcada (o baterista é Chad Smith, ex-Red Hot Chili Peppers) e guitarra eléctrica também ex-Chili Peppers é Josh Klinghoffer. Eles são essenciais para marcar a imagem sonora do disco. Aqui há 30 anos, no início dos Pearl Jam, ninguém se arriscaria a apostar que três década depois Vedder cantaria ao lado dos nomes que agora incluíu como convidados. Ringo faz o seu usual trabalho de bateria em “Mrs. Mills,” uma homenagem à pianista Gladys Mills, enquanto “Try” abre o som à harmónica de Stevie Wonder. E Elton John canta em dueto com Vedder em “Picture”. Numa das canções, “Try”, Vedder resume esta sua aventura: “Good men don’t have to pretend!”. Chega-se ao fim e a coisa foi divertida - mas não mais que isso.
PEIXE FRITO - Esta não é só a época da lampreia, já aqui abordada há umas semanas. É também a época de um magnífico peixe de rio que dá pelo nome de sável e que é uma das delícias destes meses de Fevereiro e Março. Cortado em postas muito finas e muito bem frito, depois de devidamente temperado, é um petisco fantástico. Uma fritura feita como deve ser vem enxuta para a mesa e foi feita a uma temperatura suficiente para neutralizar as numerosas e finas espinhas do peixe - que assim nem se sentem. O acompanhamento conveniente para esta maravilha é uma açorda tradicional, que poderá e deverá levar ovas do mesmo peixe. A tradição indica que os maiores especialistas deste prato estão no Ribatejo, o sável fresco pescado no rio e levado logo para o restaurante. Mas há sítios em Lisboa onde a sua tradição é respeitada, como o Pap’Açorda, onde a chef Manuela Brandão desde há muitos anos pratica o sável com saber e proveito dos comensais. Aconselha-se um branco a acompanhar, cítrico, fresco, envolvente.
DIXIT - “Os ciberataques são, infelizmente, o futuro que nos espera” - Marques Mendes.
BACK TO BASICS - “Devemos insistir em ser nós próprios e não em imitar os outros. Cada homem é um ser único” - Ralph Waldo Emerson