
DER NUTZLOS - Até Domingo passado, na cabeça de muita gente, num mundo perfeito o PS ganharia as eleições sem maioria absoluta, o PSD teria um resultado próximo, o berbicacho estaria em conseguir gerir alianças à esquerda e à direita conforme os assuntos e conveniências, sob a arbitragem do Presidente da República. Só que não foi isto que aconteceu. Costa, que desde o início tornou claro que preferia ter condições para governar sozinho, fez uma viragem táctica a meio da campanha, quando surgiam sondagens que pareciam indiciar uma hipotética vitória do PSD, deixou de pedir a maioria absoluta e, na prática, passou a pedir o voto útil que lhe permitisse afastar o espectro da direita. O resultado já se sabe qual foi: o povo de esquerda uniu-se em torno de Costa, deu-lhe a maioria absoluta e tirou o tapete a todos. O resultado das eleições ditou uma crise no PSD, com Rui Rio a questionar a sua utilidade, tirou o CDS do leque parlamentar e reconfigurou o Parlamento de forma significativa, atirando Bloco e PCP para o fim do pelotão. Em Belém Marcelo Rebelo de Sousa assistirá, se alguma coisa não mudar, a quatro anos de desfile de António Costa no tapete voador do PRR. Quando o resultado foi conhecido, Rui Rio questionou qual seria a utilidade da sua pessoa no PSD. De facto ele não tem sido útil. É impossível esquecer como Rui Rio foi, ao longo dos anos, inútil na oposição, abrindo espaço para quem o soube fazer à sua direita, como foi incapaz de dizer o que faria no pós eleições, como não se bateu por uma aliança eleitoral com o CDS, o que, percebe-se agora, facilitou a Costa a aritmética da maioria absoluta. Assim sendo, na sua próxima conferência de imprensa talvez alguém possa dizer “Rio ist nutzlos”, o mesmo é dizer “Rio é inútil”.
SEMANADA - Em Lisboa, nas legislativas, o PS conquistou mais 30 mil votos no concelho do que tinha tido nas recentes autárquicas; a Iniciativa Liberal foi o terceiro partido mais votado no Porto e em Lisboa; se fizermos as contas ao número de votos expressos e deputados eleitos por cada partido vemos como o sistema eleitoral português, baseado na Lei de Hondt, distorce a proporcionalidade: o PS precisou de 18.927 votos por deputado, o PSD de 20.930, o Chega de 31.636, a Iniciativa Liberal de 33.053, a CDU de 38.668, o Bloco de Esquerda de 47.351, o Livre de 67.776, o PAN de 80.8109 e o CDS obteve 85.786 votos mas não teve nenhum deputado eleito; se o PSD tivesse aceite fazer uma coligação com o CDS, de acordo com os resultados obtidos nestas eleições por cada partido, essa coligação teria conseguido eleger mais quatro deputados que o total obtido pelo PSD, retirando assim a maioria absoluta ao PS; à esquerda só o PS ganhou votos e o apuramento das contas dá aos partidos da esquerda parlamentar menos 36 mil votos que em 2029; a abstenção baixou, mas foi a terceira mais elevada de sempre; o PS venceu em todos os distritos do país nas legislativas mas de entre as dez cidades mais populosas de Portugal apenas cinco são dirigidas por eleitos PS nas autárquicas e de entre as dez mais ricas apenas 4 têm presidentes de câmara do PS; quase um terço dos deputados eleitos são estreantes no parlamento; em 2021 a economia portuguesa cresceu mais que o previsto mas ficou ainda aquém da recuperação da zona euro.
O ARCO DA VELHA - Em 2021 a violência doméstica fez 23 mortes, das quais 16 foram mulheres, duas crianças e cinco homens.

POR DENTRO DAS MEMÓRIAS - “Loreto”, a exposição que a fotógrafa Luísa Ferreira inaugurou esta semana na Sociedade Nacional de Belas Artes, e que ali fica até 5 de Março, é um retrato da transformação da cidade de Lisboa nos últimos anos. Focada na zona onde Luísa Ferreira vive e trabalha, o Loreto, no coração da zona antiga da cidade, a exposição mostra como as transformações urbanas dos últimos anos afastaram pessoas das suas casas, dos locais onde viveram toda a vida (na imagem). Como diz a autora no texto que acompanha a exposição, as pessoas “foram empurradas para fora do seu ciclo de vida construído desde sempre, simplesmente perderam o direito à cidade”. João Silvério, no texto do catálogo, sublinha que este é um trabalho que cruza a ficção com o documentário, englobando fotografias, objectos de uso doméstico, notas visuais que mostram “os laços afetivos que se geram na experiência do lugar, na partilha da vizinhança e do tempo”. A exposição, agora em Lisboa, já passou pelo Festival de Fotografia do Barreiro e mostras internacionais de fotografia. Outras sugestões: na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, João Penalva apresenta até 19 de Março“Fernand Lantier e outros”; no Museu Nacional de Arte Antiga, até 10 de Abril, pode ser vista a coleção de Maria e João Cortez de Lobão, “O Belo, a Sedução e a Partilha”, que apresenta a obra “O Martírio de São João Damasceno”, Luigi Miradori, Il Genosevino (séc XVII).

O NASCER DE UMA PENSADORA - Ao longo da sua vida Susan Sontag foi elaborando um diário, que sempre manteve reservado. Apenas em “Histórias”, um conjunto de pequenos textos que cruzam a ficção com a sua própria biografia, Sontag deixou espreitar a sua intimidade. Depois da sua morte, em 2004, o filho, David Rieff, recuperou os diários e apontamentos de Sontag, feitos entre 1947 e 1963, e editou-os sob o título “Renascer”. Ensaísta, Sontag foi uma das mais importantes intelectuais norte-americanas da segunda metade do século XX e teve presença assídua em publicações como The New Yorker, The New York Review of Books, The New York Times e The Times Literary Supplement, entre muitas outras. Este “Renascer” teve edição original nos Estados Unidos em 1992 e uma primeira edição em Portugal em 2010. O livro regressa agora com uma segunda edição pela mão da Quetzal e tradução de Nuno Guerreiro. A primeira nota publicada, escrita em 1947, é uma espécie de declaração de princípios que considera deveriam nortear a sua vida - por exemplo, a afirmação de que a única diferença entre os humanos é a inteligência”. E em 1948 declara: “as ideias perturbam o equilíbrio da vida”. Mais tarde, em Maio de 1949, aos dezasseis anos, deixa a frase que inspira o título do livro:«Tudo começa a partir de agora – Renasci.» Na introdução David Rieff, sublinha: «O que sei é que, enquanto leitora e escritora, a minha mãe adorava diários e cartas – quanto mais íntimos, melhor. Assim, talvez Susan Sontag, a escritora, tivesse aprovado o que eu fiz. Seja como for, assim o espero», escreve, em justificação pela divulgação destes textos íntimos, que se iniciam com os anos da adolescência, em 1947, atravessam os anos da faculdade, as primeiras experiências na escrita, a sua formação sexual e emocional, e terminam em 1963, quando Susan Sontag era já plena participante e observadora da vida da cidade de Nova Iorque.

DANÇA IMPARÁVEL - A primeira grande surpresa portuguesa deste ano é o disco de estreia do Club Makumba, um projecto que vive de sonoridades multiculturais, com ventos do mediterrâneo e de África. O Club Makumba teve origem na parceria criada entre as guitarras de Tó Trips (Dead Combo e Lulu Blind) e a bateria e percussões de João Doce (Wraygunn), a que se juntam agora o saxofone de Gonçalo Prazeres e o contrabaixo e baixo de Gonçalo Leonardo. O álbum contém 11 temas contagiantes em que a sonoridade única da guitarra de Tó Trips marca de forma clara todo o ambiente do disco. Há coisas que vêm do trabalho “Guitarra Makaka” o segundo disco a solo que em 2015 fez parte das aventuras de Trips e em que já surgia a percussão pela mão de João Doce. O Club Makumba é um ambiente de festa, está feito como a banda sonora de um clube de dança exótico e arrebatador, um local onde apetece passar a noite. Gonçalo Prazeres (saxofone) e Gonçalo Leonardo (contrabaixo) que agora se juntaram à banda são músicos oriundos do jazz e que acompanharam a tour de Odeon Hotel, dos Dead Combo. Juntaram-se os quatro em estúdio, foram aproveitados temas do “Guitarra Makaka” em Novembro de 2019. A pandemia fez o adiamento, o disco saíu agora, a digressão pelo país arranca em Fevereiro e podem ouvi-los nas plataformas de streaming.
CAVALGADA ALTA - O restaurante Cavalariça nasceu na Comporta pela mão de Bruno Caseiro e Filipa Gonçalves. Em dezembro de 2020 veio para Lisboa parte da equipa do Cavalariça, com Bruno Antunes, o braço direito da dupla de fundadores, a comandar a operação na capital. O local escolhido, assumido como transitório até se encontrar outro mais central, fica na Rua da Boavista, onde já existira o restaurante Optimista, paredes meias com o espaço de galerias e ateliers Transboavista -VPF. A pandemia veio no entanto perturbar as operações e levou ao seu encerramento passado pouco tempo, tendo reaberto no Verão passado. O restaurante tem uma carta baseada em produtos sazonais, que ao almoço tem uma proposta de menu executivo, de 25 euros, sem bebidas, com couvert, entrada, prato principal e sobremesa. À noite, para além das opções da carta, há duas propostas de menu degustação, a que chamam Rédea Solta, uma de 5 e outra de 7 pratos. O nome de Rédea Solta vem do facto de a degustação depender do que o chefe encontrou no mercado e quis preparar. Os clientes apenas sabem o que é à medida que os pratos forem chegando à mesa. A visita foi à hora de almoço, o menu executivo como base. Destaque para a focaccia do couvert, muito boa a entrada escolhida, de cogumelos silvestres com ovo a baixa temperatura, espinafres e batatinhas, tudo sobre uma mousse também de cogumelos. O prato principal, frango do campo com couve coração assada, recheada com miúdos do frango, surpreendeu pela diversidade de sabores e o tempero acertado numa carne que nem sempre é fácil de manter apetitosa. Por fim a sobremesa foi marmelo cozido, acompanhado por uma espécie de granizado de romã e gelado de pão tostado - o ponto fraco foi o granizado, insípido. A lista de vinhos é curta e ostensivamente cara - algo que poderia ser revisto introduzindo maior escolha. Mesmo no menu executivo, duas pessoas que partilhem uma garrafa, não escapam a perto de meia centena de euros por cabeça. O Cavalariça fica na Rua da Boavista 86, telefone 213460629.
DIXIT - “Com ideias, sem protagonistas, sem populismo e com rigor, provámos que é possível tirar pessoas da apatia e crescer” - João Cotrim Figueiredo
BACK TO BASICS - “A melhor das vitórias é quando o opositor se rende antes de começarem as hostilidades.” - Sun Tzu