
A POLÍTICA DO PREJUDICIAL - Depois de numerosos protestos de vários quadrantes políticos o Governo veio anunciar “ajudas” para minorar o efeito do aumento do preço dos combustíveis. É uma medida que se encaixa naquilo que é a matriz das políticas de vários Governos que temos tido: tomar medidas de apoio, inventar formas de ajudar em vez de ter a coragem de fazer reformas e acabar com decisões políticas prejudiciais para todos. A questão da carga fiscal dos combustíveis é, a este título exemplar: uma taxa adicional criada como temporária em 2016 lá continua impante, como se as razões que levaram à sua criação - o baixo preço do petróleo - se mantivessem, o que já não acontece; e a pornográfica dupla tributação, aplicando o IVA por cima da taxa adicional e do imposto sobre produtos petrolíferos, também continua fazendo o seu caminho. Ao todo mais de metade do preço de venda ao público dos combustíveis é carga fiscal. Aquilo que o Governo esta semana anunciou não foram medidas para deixar de prejudicar a economia e as pessoas, foram apenas paliativos. O que se deseja é que o Estado não prejudique - o que volta sempre à mesma questão: rever a carga fiscal, os impostos, as taxinhas, tudo o que dificulta a vida das pessoas e das empresas, nomeadamente das pequenas e médias que constituem o grosso do tecido económico português. Retomo a ideia inicial: o que precisamos é de políticas que corrijam erros, não é de medidas que minorem a situação sem a resolverem.
SEMANADA - Uma em cada quatro mulheres até aos 19 anos admite ter sido vítima de violência por parte do parceiro; no ano passado foram recebidas 3320 denúncias de crimes de violência no namoro e um terço das vítimas - homens ou mulheres - tinham menos de 24 anos; há 2609 pessoas sob vigilância electrónica em Portugal devido a violência doméstica; as mulheres representam 13,2% dos efectivos das Forças Armadas; segundo o Censos 2021 por cada 100 mulheres existem 91 homens e, na maioria dos concelhos, 299 num total de 308, o sexo feminino é predominante; segundo o Eurobarómetro quase um terço das mulheres abdicou do trabalho pago por causa do peso das tarefas domésticas durante a pandemia; segundo o INE no último ano o transporte de passageiros registou um crescimento de 39,3% por via aérea, 11,5% por comboio e 2% por vias fluviais, mas uma descida de 2,8% por metropolitano; 77% dos portugueses tâm acesso a serviços de streaming e a Netflix lidera, seguida pela HBO e a Amazon Prime; a inflação atingiu um novo máximo de 5,8% na zona euro; o desemprego subiu para 6% em Janeiro; o Novo Banco, apesar dos lucros obtidos no último ano, pretende fazer um novo pedido de capital ao Fundo de Resolução da ordem dos 200 milhões de euros; o Presidente da República comparou a situação do Novo Banco ás obras de Santa Engrácia.
O ARCO DA VELHA - Uma equipa de voluntários que regularmente limpa o rio Zêzere diz que até já frigoríficos velhos descobriu entre o lixo que as pessoas atiram à água.

OS TRAÇOS NA ASSEMBLEIA - Esta semana foi inaugurada na Assembleia Legislativa da Madeira a exposição “Da raiz ao núcleo”, onde Teresa Gonçalves Lobo apresenta até 31 de Julho duas dezenas de obras, a maior parte delas inéditos, entre os quais desenhos feitos com restos de árvores carbonizadas que a artista recolheu nas serras da Madeira depois dos grandes incêndios que devastaram a ilha. A mostra (na imagem uma das peças) ocupa vários espaços do parlamento regional e pode ser visitada de segunda a sexta-feira entre as 9 e as 18 horas. Foi também editado um catálogo desta exposição “Da raiz ao núcleo” , com um ensaio de Bernardo Pinto de Almeida, onde sublinha que a obra de Teresa Gonçalves Lobo se caracteriza “por uma laboração feita sob a luz de uma disciplina lenta, e lentamente elaborada, com longos períodos de meditação e de silêncio no interior do estúdio, onde toda ela nasce, recolhida” e sublinha que toda a sua obra “nasce de uma experiência performativa, e que é precisamente isso que lhe dá a sua dimensão mais contemporânea. Com efeito, no seu caso o desenho nasce de uma acção do próprio corpo, e permanece como seu registo e acontecimento.” Outra sugestão: no Museu Berardo pode ver até 29 de Maio a exposição “O Esplendor”, que apresenta seis dezenas de obras de Gérard Fromanger, um dos mais importantes artistas franceses da segunda metade do século XX, cuja obra, muito associada à pop art, inclui nomeadamente pintura, colagens, escultura, fotografia e litografia. Gérard Fromanger foi um dos expoentes da figuração narrativa em França, que tomou a actualidade como tema da sua obra. Teve ligações aos movimentos sociais e políticos dos anos 60, e foi amigo de muitos artistas como Albert Giacometti ou Marcel Duchamp e chegou a trabalhar com Jean Luc Godard em 1968 em “Film-tract”, que é mostrado também na exposição que inclui ainda uma série de retratos de figuras proeminentes da França dessa década e da seguinte.

CONTOS EXTRAORDINÁRIOS - Sensini é um velho escritor sul-americano, exilado, que ensina a outro escritor, mais jovem, também expatriado, a fórmula para vencer prémios literários de pequenos concursos de província. Está dado o mote à coisa, logo no primeiro dos contos desta colectânea de narrativas curtas de Roberto Bolaño, onde se cruzam personagens como Arturo Belano, um jovem que faz gazeta às aulas para ir ao cinema e às livrarias, Rogelio Estrada, o filho de um comunista chileno que se liga à máfia russa em Moscovo, William Burns, um pacato cidadão americano, que se vê envolvido num assassínio, Joana Silvestre, uma antiga diva porno, que reencontra o seu antigo parceiro. Estes são alguns dos personagens dos catorze contos que integram esta colectânea de narrativas curtas de Roberto Bolaño. Um bom conto – segundo Ernest Hemingway – deve ser como um icebergue: o que se vê é sempre menos do que aquilo que se mantém oculto debaixo de água e que é o que dá densidade, mistério, força e significado ao que flutua à superfície. Roberto Bolaño nasceu em 1953 em Santiago do Chile e aos 15 anos mudou-se para a Cidade do México. Com amigos da mesma geração fundou um movimento, que apelidou de punk-surrealista, e que anunciava contra o establishment das letras latino-americanas. Morreu cedo, em Barcelona, aos 50 anos, em 2003. Susan Sontag dizia que ele era o mais admirado e influente romancista da sua geração e The Observer sintetizava-o assim: “Bolaño, o fora da lei da literatura latino-americna”.

O ENCANTO DA MÚSICA - Jorge Moniz estudou bateria na escola do Hot Club e piano no Conservatório. Mais tarde estudou musicologia, fez um trabalho sobre a música no cinema e ensina no Conservatório de Setúbal, na Universidade Lusíada e numa escola de jazz que fundou na sua terra natal, o Barreiro. Ao longo da sua carreira tocou em bandas rock nos anos 80 e 90, depois centrou-se no jazz e evoluíu musicalmente para o território da música ambiental, tornando-se um paciente construtor de melodias e harmonias. Paralelamente colabora com outros projectos, como o Quarteto de Beatriz Nunes, toca frequentemente com o cantor Paulo Ribeiro, tem trabalhado em bandas sonoras para teatro e cinema e tem uma investigação em curso sobre o cante alentejano no âmbito do seu trabalho enquanto musicólogo. O seu primeiro disco a solo data de 2010, “Deambulações”, a que se seguiu “Inquieta Luz” em 2014 e depois “Indra”, com Luís Barrigas e João Custódio. Agora surge “Cinematheque”, com 10 temas originais ao longo de quase uma hora. Aqui estão Jorge Moniz no piano, Rhodes e electrónica, Jorge Vinhas e Francisco Ramos no violino, Eurico Cardoso na viola, Ana Rita Pratas no clarinete e Inês Jacques na voz. O disco teve uma cuidadosa produção e arranjos, a cargo do próprio Jorge Moniz, e existe em edições muito cuidadas em vinil e CD, além de desde há poucos dias estar também disponível nas plataformas de streaming. A edição em vinil foi a primeira a ser editada, em finais do ano passado e o magnífico trabalho gráfico foi desenvolvido por Chris Bigg, o designer que criou a identidade visual da editora 4AD. O disco é surpreendente pela riqueza e densidade dos seus temas e desenvolve-se como uma banda sonora imaginada para um filme que ainda está por fazer. A música de Jorge Moniz anda nos primeiros lugares da minha playlist das últimas semanas. Se puderem ouçam temas como “Tralhoada”, “Cinematheque”, “Forest Suite”, “Dreams” ou “O Tejo” e perceberão porquê.
UMA BOA ADEGA - No âmbito da renovação das Avenidas Novas eis que uma cervejaria sem história, abatida pela pandemia, renasceu agora como “Adega do Costa”, uma aposta na tradição gastronómica portuguesa. A casa foi toda bem arranjada e, como o nome indica, criou-se uma adega que tem mais de duas centenas de propostas de vinhos de todo o país - brancos, tintos, rosés, espumantes e vinhos generosos. Alguns são raridades, outros oriundos de pequenas produções, escolhidas a dedo por Eurico Costa. Na cozinha está Angelina Costa, uma minhota de Ponte da Barca, com mão certeira para o tempero e para o controlo da qualidade do que sai do seu feudo. Nesta época do ano, como não podia deixar de ser, um dos petiscos é arroz de lampreia do rio Lima. Pode ser encomendado para o mínimo de quatro pessoas. A lista é extensa e inclui entradas como uma salada de polvo que não poupa no cefalópode, um notável paio de porco preto, ovos com farinheira e, sempre, azeitonas marinadas, acompanhadas de bom pão. Nos pratos do mar destaque para um bacalhau à braz guloso, uma cataplana de polvo e batata doce, arroz de lingueirão ou uma massada de tamboril ou de garoupa. Nas carnes o destaque vai para o cozido, com enchidos de boa qualidade, costeletas de borrego grelhadas com molho de menta e uma carvoada mista de vitela e porco preto. Nas sobremesas, para além de clássicos conventuais, há umas boas farófias, abacaxi com raspa de lima e gelados Artisani. Este é um restaurante muito decente, o serviço é atento e simpático, os vinhos aparecem a preços honbestos - incluindo boas sugestões de vinho a copo. E a conta, no final, não tem más surpresas. A Adega do Costa fica no nº34 da Avenida Marquês de Tomar e o telefone é o 212437707.
DIXIT - “Putin conseguiu aquilo que ninguém pensava possível: por todos, da Suécia à Suíça, numa aliança contra a invasão da Ucrânia"- José Pacheco Pereira
BACK TO BASICS - “Grandes resultados podem ser obtidos com forças pequenas” - Sun Tzu