março 09, 2012

SOBRE A MEDIÇÃO DE AUDIÊNCIAS - Resumo dos factos

TELEVISÃO –.Os estudos de audiência de televisão não são nenhuma ciência cabalística. Há regras, como noutros estudos de mercado, há processos e há princípios de estatística que devem ser observados. Durante anos uma empresa portuguesa, a Marktest, desenvolveu sistemas e softwares, que aliás chegou a exportar. Claro que esta é uma actividade onde qualquer erro é amplificado e os canais que se consideram injustiçados movem legitimamente as suas influências. A televisão é o único meio de comunicação em que, no espaço de 24 horas, existem dados, que se pretendem seguros, do que foi o comportamento dos telespectadores. Isto é de uma importância extraordinária porque a publicidade em televisão – de uma forma geral e numa explicação rápida -  tem um preço, variável, que é estabelecido em função da audiência obtida. Portanto o estudo de audiências tem implicações nas receitas publicitárias dos canais e é fundamental para que os programadores façam os ajustes de grelha e de conteúdos que lhes possibilitem fidelizar ou captar mais audiências. Com a proliferação dos distribuidores de cabo e satélite, a medição complicou-se, já que o número de canais aumentou e a tecnologia impunha novos sistemas técnicos de medição. Foi por isso que no ano passado um organismo tripartido, privado, a CAEM (Comissão de Análise dos Estudos de Mercado) iniciou um processo de abertura de um concurso para garantir, em teoria a partir de 1 de Janeiro deste ano, um novo sistema. A CAEM junta a APAN, a associação de anunciantes, as estações e distribuidores de televisão (RTP, SIC, TVI, ZON e MEO) e a APAME, a Associação das Agências de Meios. Da consulta acima referida, num processo algo conturbado, saíu vencedora a GFK, uma multinacional de estudos de mercado, e em segundo lugar ficou classificada a incumbente, Marktest. Num contrato que terá cinco anos de duração, a GFK apresentou o melhor preço e teve pior classificação técnica, além de se propor utilizar um hardware ainda não testado em mercados competitivos e complexos de televisão como o nosso. Infelizmente foi a questão preço que prevaleceu (embora a diferença fosse pequena) – e isso aconteceu, na altura, por forte pressão dos anunciantes – que fecharam os olhos ao peso dos critérios técnicos. O resultado está à vista: a GFK não conseguiu arrancar com o processo a 1 de Janeiro, os próprios testes arrancaram tarde (apenas a meio de Fevereiro) e mesmo assim com fortes reservas dos especialistas das estações e das agências representados no órgão técnico da CAEM. Finalmente o novo painel foi forçado a arrancar a 1 de Março, já que o painel anterior não podia prolongar por mais tempo a medição de audiências sem custos adicionais. O resultado já se sabe – confusão nos valores apontados, períodos significativos com zero de audiência registados, consumos anormalmente altos de televisão (um número improvável de espectadores a verem mais de 12 horas de TV por dia), um número anormalmente alto de espectadores sem consumo identificado, falhas técnicas não explicadas. Infelizmente os primeiros dados apontam para um painel com graves falhas a nível da implementação e da recolha de dados. Hoje a situação está bem pior do que há um ano. Ninguém pode estar satisfeito com este resultado.


 


SEMANADA – O número de idosos sozinhos em Portugal aumentou 47% face a 2011; as obras da Parque Escolar tiveram uma derrapagem de custos de 447% ; no Parlamento Europeu Vital Moreira ameaçou expulsar de um workshop quem aplaudia críticas a um relatório que pretende impor limitações à internet e que ele próprio defendia; mais de 16 mil alunos endividaram-se para pagar os estudos e o crédito disponível para estudantes caíu para metade este ano.


 


ARCO DA VELHA – Entre gemidos e simulações de orgasmos, nove eurodeputadas, entre elas a socialista Ana Gomes, representaram no Parlamento Europeu a peça «Os Monólogos da Vagina» , da norte-americana Eve Ensler. A autora, presente na representação, afirmou: «a vagina está no Parlamento».


 


PALAVREADO – «Deixe-me dizer-lhe, já agora, que nunca pensei ganhar o concurso» - António Salvador, presidente da GFK Portugal, sobre o facto de a sua empresa ter sido a escolhida para elaborar o novo estudo de audiências de televisão. 


 


AGENDA – Esta semana nem sei bem para onde me hei-de virar. Na Moda-Lisboa (que vai até Domingo à noite) tenho pena que não alguns criadores estejam ausentes, mas tenho sempre curiosidade em ver o que Dino Alves (hoje) e Filipe Faísca (domingo) têm para apresentar; para a semana, na quarta-feira, é inaugurada no Museu Berardo a exposição BES Photo 2012, desta vez com trabalhos de Cia das Fotos, Duarte Amaral Netto, Mauro Pinto e Rosângela Rennó;  Jorge Silva Melo encena «Danton», que estreia dia 15 no Teatro Nacional D. Maria II; gostei de visitar a Carpe Diem (Rua do Século 79) e sobretudo os trabalhos de Pedro Calapez, da série «Gymnasium», pelo ambiente criado e pelos materiais e técnicas utilizadas;  no Museu da Cidade e em várias galerias (Graça Brandão, Antiks Design) estão obras da Bienal de São Tomé e Principe , sob o título genérico «Africando»; e a exposição «Mini Market», do ilustrador Xavier de Almeida (um dos mais interessantes deste rectângulo à beira mar plantado), que está na Who Galeria, Rua Luz Soriano 71.


 


OUVIR – Um dos discos portugueses mais estimulantes que ouvi nos últimos tempos é dos Jigsaw, chama-se «Drunken Sailors & Happy Pirates» e é o seu terceiro álbum de originais. Os Jigsaw existem desde meados da década passada, vêm de Coimbra – um viveiro musical à época – e sentem-se neles as influências dos blues e às vezes folk, mas também, descaradamente aliás, as de Leonard Cohen ou de Nick Cave – e digo isto num sentido positivo. A revista francesa Les Inrockuptibles considerou-os uma das bandas a seguir em 2012. João Rui, Susana Ribeiro e Jorri são os três músicos que integram os Jigsaw e que são também responsáveis pela composição das suas canções – ambientes musicais envolventes, letras com sentido, arranjos fortes. Destaco no novo álbum os temas «The Strangest Friend», «Lovely Vessel», «Even You», «I have Been Away For So Long», «The Last Waltz», «Devil On My Trail», e «Drunken Sailors & Happy Pirates», o tema título. A banda tem considerável actividade por essa Europa – digamos que é um bom exemplo de exportação do nosso talento. Neste momento está em plena digressão ibérica com concerto agendado para o próximo dia 23 no auditório Carlos Paredes, em Lisboa.


 


LER – A revista «Intelligent Life» faz parte do grupo «The Economist» e já teve uma edição portuguesa. Em papel é uma revista interessante mas a sua versão de iPad é um bom exemplo de como transportar um conceito editorial tradicional para a nova paisagem digital. Enquanto a edição em papel é vendida nas bancas, a edição para iPad está disponível gratuitamente na App Store, graças a um patrocínio exclusivo do Crédit Suisse, que viabiliza esta forma de edição(aliás com uma publicidade bem imaginada). Na capa da mais recente edição está Cate Blanchett e o interior oferece um bom guia do que está a acontecer na música, no teatro e no cinema. A área da gastronomia e da crítica de restaurantes é muito divertida e há vários artigos que são verdadeiros guias de conselhos úteis. A rematar, um belo portfolio fotográfico de Yves Marchand e Romain Megffre. Por fim registo que há muitos conteúdos multimedia ao longo da edição iPad da «Intelligent Life».


 


PROVAR –  Hoje vou falar de um clássico lisboeta, nascido na zona da Lapa em 1995 e que há uns anos migrou para a Rua da Junqueira 120. Trata-se do S. Bernardo, uma casa que fez fama com pratos cozinhados para levar para casa – a salvação de todos os que não querem ou não pode dedicar-se à cozinha mas que gostam de receber amigos à mesa.  A lista comporta numerosas possibilidades, incluindo pratos vegetarianos e saladas (como a salada fria de pescada e camarão), e tradicionais como um afamado arroz de pato, o bacalhau com coentros ou empadas com recheios diversos, além de salgados, sobremesas, biscoitos variados. Há pratos congelados mas há também a possibilidade de fazer encomendas de pratos confeccionados na altura. A lista é enorme e merece ser consultada em www.saobernardo.pt . No mesmo local, por cima da loja, funciona ao almoço um restaurante com uma bela vista, onde os pratos tradicionais da casa vão rodando na forma de um buffet generoso, por 16 euros. A sala leva 46 pessoas e pode ser reservada para jantares ou ao fim de semana. O telefone é o 213 600 570.


 


BACK TO BASICS – Os factos são incontornáveis, as estatísticas são maleáveis – Mark Twain


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Março)

AUDIÊNCIAS ESTRANHAS

Os resultados dos primeiros dias da nova  medição de audiências confirmam os piores receios – o sistema está muito instável e mais de um décimo dos espectadores estão num limbo de canais não identificados que nas medições aparece sob a designação «Outros» e que atinge um valor anormalmente alto – 12,1%, quase tanto como a audiência da RTP, que foi, em média nesses quatro dias, de 13,9%.




A grande alteração verifica-se nos valores atribuídos à RTP, que na última semana de funcionamento do sistema de medição anterior tinha registado 19,9% de share e que nestes quatro dias registou os 13,9% já referidos.


Mas onde o grupo de «Outros» não identificado, também produz grandes variações é nos canais de cabo. De um dia para o outro a SIC Notícias deixou de liderar, e caíu da quarta posição que ocupava para a nona.  Em matéria de estudo de audiências este novo, da GFK, ainda tem um longo percurso para melhorar, e para provar que pode ser confiável – coisa que claramente ainda não é.


 


(Publicado do Correio da Manhã TV de 9 de Março)

março 06, 2012

A AVENIDA PODIA SER DIFERENTE

Há quase uma década o arquitecto norte-americano Frank Gehry foi convidado para fazer o projecto de transformação do Parque Mayer. Incluiria um Casino (que mais tarde foi parar à zona da Expo), salas de espectáculos, zonas de lazer, uma academia de formação de artes cénicas e também a reinstalação do Hot Clube.


 


Os desenhos do projecto, que eu conheci, tinham a marca inconfundível do célebre arquitecto norte-americano. Eram arrojados, integravam-se no local, respeitavam a envolvente do Jardim Botânico. Ofereciam soluções para as várias funcionalidades que se pretendiam. Os novos edifícios seriam certamente um pólo de atracção. O movimento que toda esta zona geraria – Casino, Teatros, auditóriois, restaurantes, teria tido um enorme impacto, positivo, na Avenida.


 


Lembrei-me disto quando há dias um amigo meu, que não vive em Portugal há muito, comentou como a cidade está mortiça à noite e como a Avenida da Liberdade, mesmo sendo a principal artéria da cidade, praticamente morre depois das 21h00. Falei-lhe neste projecto, abotado por razões mesquinhas e políticas. Hoje em dia é evidente que seria bem melhor ter o Parque Mayer já recuperado (nesta década que entretanto decorreu o projecto teria ficado pronto) e avenida dinamizada, viva e pulsante.


 


Puxei um bocadinho pela memória e lembrei-me de alguns factos curiosos: em primeiro lugar, o projecto era auto-sustentável e estava coberto pelas receitas das contrapartidas do próprio Casino; em segundo lugar existia um genuíno entusiasmo de diversas entidades ligadas à produção de epsectáculos; e em terceiro lugar recordei-me que tudo foi abortado por um veto presidencial directo ao diploma que viabilizava a montagem de toda a operação. Esse veto, lembrei o meu amigo nessa conversa, veio do Presidente de então – Jorge Sampaio. Mais um dos seus feitos que fica para a História.


 


(Publicado no diário Metro de 6 de Março)

março 02, 2012

Sobre as audiências, o estado de Lisboa e notas soltas

AUDIÊNCIAS – Quando estiverem a ler este jornal já serão conhecidos os novos dados de audiência dos canais televisivos, os primeiros saídos do novo sistema de audimetria, que tanta polémica causou e cujo desfecho final é parecido com uma história de espionagem e contra-espionangem onde não se sabe bem quem de facto venceu. Os resultados, com muita probabilidade, irão mostrar uma realidade de audiência diferente da que conhecemos até aqui. Tudo indica que, nos canais de sinal aberto, SIC e TVI reforçarão os seus resultados, assim como os canais de cabo, e a RTP dará um tombo. A nível comercial isto terá consequências – maiores ratings, maiores custos para os anunciantes, a menos que as televisões privadas baixem ainda mais os preços, aumentando os descontos; mas a nível político estes resultados terão também consequências. A RTP surgirá como o elo mais fraco da cadeia, perdendo peso no mercado – o que volta a colocar na ordem do dia a definição dos critérios da sua privatização e da necessidade de haver transparência nestes processos. E, claro, a eventualidade de maiores descontos colocará ainda mais em risco outros sectores dos media, nomeadamente a imprensa. Os próximos tempos serão agitados no sector dos media e da publicidade. O investimento publicitário caíu mais de 10 por cento no ano passado e na conjuntura actual é quase inevitável que a queda continue. Os anunciantes precisam de garantir capacidade de comunicação com os consumidores que querem atingir com a sua publicidade. Mas para que essa comunicação seja possível e tenha dimensão é necessário que os meios de comunicação tenham qualidade, mantenham e reforcem audiências e assegurem os contactos pretendidos. Tudo isto é impossível se as receitas – de publicidade e vendas – estiverem abaixo do preço de custo dos conteúdos. Parece evidente, mas há por aí quem prefira esquecer-se deste assunto.


 


LISBOA – Há mais de quatro anos que António Costa está na Câmara Municipal de Lisboa e há mais de quatro anos que o túnel do Marquês de Pombal está por concluir. Este atraso é um retrato perfeito do imobilismo em que vive a cidade. Um relatório recente da Brooking Institution (uma organização não governamental norte-americana) coloca Lisboa num pouco honroso segundo lugar das cidades com pior dinâmica económica e laboral, entre 200 metrópoles mundiais; o primeiro lugar foi para … Atenas e em terceiro lugar ficou Dublin. No caso de Lisboa o estudo sublinha o contributo desproporcional da área metropolitana da capital para o PIB português, o que torna a cidade muito dependente das condições macroeconómicas do país Pelo quarto ano seguido, salienta o referido estudo, o produto da cidade caiu cerca de 2,8% e o emprego desceu 2,1% (números de 2011). Para o ano há eleições autárquicas. É bom que estes números e estes indicadores vão sendo estudados. Costa tem piorado a qualidade de vida na cidade, tem piorado a qualidade de vida dos habitantes de Lisboa que cá pagam os seus impostos.


 


SEMANADA – Transporte escolar de 300 mil alunos em risco por falta de pagamento das autarquias às empresas de transporte; a proposta de novo código regulamentar do município do Porto, de Rui Rio, tem 200 páginas; um padre de Viana do Castelo andou a recolher empréstimos e doações junto de paroquianos, acenando com um «Diploma de Benemérito» a quem entregasse valores superiores a 50.000 euros; Portugal deverá chagar ao fim do ano com uma taxa de desemprego de 14,5% e cerca de 800.000 pessoas sem trabalho; a utilização de  internet por pessoas acima dos 65 anos duplicou desde 2008;


 


ARCO DA VELHA – A dívida total dos municípios portugueses é de cerca de dez mil milhões de euros, cerca de cinco por cento do PIB.


 


PALAVREADO - «Ó Senhor Reitor não mostre mais nada do que aí tem! Já chega…» - José Sócrates para Luis Arouca, ex-reitor da Universidade Independente, num telefonema reproduzido pelo “Correio da Manhã”, onde ambos combinavam como proceder sobre as investigações jornalísticas em torno da licenciatura do ex-Primeiro Ministro.


 


PERGUNTANDO – Quando é que Cavaco Silva marca nova data para visitar a António Arroio?


 


VER  – Por iniciativa do fotojornalista Luis Vasconcelos nasceu em Mora, com um empenhado apoio da Câmara Municipal local, a Estação Imagem, uma entidade dedicada à fotografia, que promove exposições, edições, bolsas de criação, tudo sob um lema, que é uma frase de Diane Arbus: «Creio que as pessoas nunca veriam certas coisas se eu as não tivesse fotografado.». Durante um ano o fotojornalista João Pina, um dos melhores da actual geração, andou pelo alentejo a recolher imagens que juntou na exposição «O PREC já não mora aqui». Estre trabalho, possível graças à  Bolsa 2010 da Estação Imagem/Mora, foi premiado pela SPA como o melhor trabalho de fotografia e pode ser visto até 11 de Março na Igreja de S. Vicente, em Évora. Mas pode também ser visto – e vale mesmo a pena conhecê-lo – em www.estacao-imagem.com/prec.html. E se forem ao site, naveguem um pouco por lá para descobrirem o que mais se pode ver nesta bela iniciativa.


 


OUVIR – Lulu Gaisnbourg, 25 anos, dedicou o seu primeiro disco a homenagear o seu pai, Serge Gainsbourg. Lulu, que vive em Nova York, pegou em temas como «L´Eau à La Bouche», «Bonnie And Clyde», «Requien Pour Un Con», «Balade de Melody Nelson», «La javanaise» ou «La Noyée», entre outras, e rodeou-se de um grupo de convidados que vão de Rufus Wainright a Scarlett Johansson, passando por Marianne Faithfulll, Vanessa Paradis, Johnny Depp, Shane McGowan, Richard Bona ou Iggy Pop, entre vários outros. As canções são algumas das melhores feitas pelo pai Gainsbourg, os arranjos são jazzy ( e Lulu revela-se um pianista acima da média). Entre os convidados Rufus Wainright e Marianne Faithfull destacam-se claramente. O dueto de Vanessa paradis com Johnny Deppo também tem piada, assim como o que Lulu faz com Scarlett Johansson. «From Gainsbourg To Lulu», CD Fontana /Universal


 


LER – Por pouco que um cão não foi considerado o melhor actor de cinema na edição dos Oscar deste ano; em alternativa estava também um cavalo. Esta dualidade animal mostra o vazio para o qual caminha o cinema e os seus prémios mais prestigiados. Não certamente por acaso, na época do digital e dos efeitos sonoros, o filme mais premiado é filmado a preto e branco e não tem diálogos, evocando os filmes mudos. Tenho um medo terrível, em tudo, das teorias do regresso às origens como potenciais salvadoras da falta de imaginação – ou de inovação, como lhe quiserem chamar. Para escapar a este triste cenário cinematográfico sugiro que devorem a edição de Março da revista «Vanity Fair», a célebre edição «Hollywood» , que já vai no seu 18º aniversário. Vale a pena recordar as capas das edições anteriores que aqui são mostradas, vale a pena saber qual é o filme mais importante dos últimos 30 anos na opinião da revista ( e é uma surpresa), vale a pena ver as novas estrelas em ascensão (entre as quais a fantástica Rooney Mara, do filme «The Girlk With The Dragon Tattoo»), mas também a entrevista actual com Sophia Loren, outra com Cindy Sherman a propósito da sua retrospectiva no MOMA, e uma bem ilustrada digressão pela carreira e vida de Brigitte Bardot. Uma edição absolutamente imperdível.


 


PROVAR – Na zona da nova movida do Cais do Sodré, na Rua Nova do Carvalho 41, a rua do alcatrão pintado, uma antiga casa de material de pesca foi transformada num bar que só serve conservas. Chama-se «Sol e Pesca» e dispõe de uma bela escolha de alguns dos melhores produtos da indústria conserveira portuguesa – basta escolher, pedir o pão da casa e decidir o que quer beber e tem um petisco simples mas delicioso. Eu, que sou um fã das boas conservas portuguesas, fico contente com esta nova tendência. Se quiser pode replicar a coisa em casa – basta ir à Conserveira de Lisboa, no nº34 da Rua dos Bacalhoeiros, ou à Mercearia Criativa e passear os olhos pelas prateleiras. As marcas Minerva, Santa Catarina, Tricana e Prata do Mar, são garantidas para quem se quiser iniciar nos petiscos conserveiros. Para além de acompanharem bem um bom pão, muitas são excelentes em saladas.


 


BACK TO BASICS – «Um bom jornal, na minha opinião, é aquele que consegue dar a imagem de uma nação a comunicar consigo mesma» - Arthur Miller.


 


(publicado no Jornal de Negócios de 2 de Março)

fevereiro 28, 2012

ESTADO DA NAÇÃO

Hoje vou dedicar esta crónica a títulos de primeira página de jornais. Acho que ajuda a dar um retrato do país. Mostra como os jornais são importantes para relatar o que se passa – para perceber as manobras de contra informação e para ir mostrando os podres vários que grassam neste rectângulo à beira-mar plantado. Habituem-se a passar numa banca de jornais e a ler as capas dos jornais. Vão ver que têm uma ideia diferente daquela que sai dos telejornais.


 


O Expresso deste sábado fazia-se porta-voz de uma informação muito conveniente para Belém: «Polícia travou visita de cavaco (à António Arroio) por temer agressão». Este teria sido o tal impedimento de última hora. Com esta bela manchete a decisão de evitar a manifestação deixou de ser do Presidente e passou para a Polícia. Dá jeito, não é?


 


O «Correio da Manhã» de ontem afirmava que a «GNR empresta milhões a militares falidos» e dizia que o serviços sociais da corporação prevêem conceder 12 milhões de empréstimos este ano, cerca de um milhão por mês. Dá que pensar. No mesmo jornal transcreve-se uma conversa telefónica do ex-Primeiro Ministro com o Reitor da Universidade onde fez um curso, dizendo que «Sócrates nem sabe que fez um trabalho final». Ainda no mesmo jornal há outro título que salta à vista: «Triplicam acusações pelo crime de corrupção».


 


O «Diário Económico» chamava a atenção para o facto de, agora os «Contribuintes que pagam IVA (serem) obrigados a ter email nos CTT». Quer dizer, o Estado resolve onde podemos ter morada electrónica e onde não podemos – obrigando-nos a ter mais uma caixa para visitar onde, aposto, as más notícias serão dominantes.


 


No «Diário de Notícias» o «Procurador Geral da República admite que não consegue cumprir a lei de combate ao crime». No sábado, o título do mesmo jornal era «Só um em cada 40 jovens ganha mais de 900 euros».


 


Querem melhor retrato de um país do que aquele que é deixado por estes títulos?


 


(Publicado no diário Metro de 28 de Fevereiro)

UM DEBATE SOBRE A CULTURA, UMA LEI ENGANOSA

CULTURA - «Em tempos de crise, qual o papel da arte e da cultura? – este é o debate proposto pelo ministro Dinamarquês da Cultura, uma iniciativa no âmbito da Presidência da Comunidade Europeia, que a Dinamarca agora exerce. Uffe Elbaek, o Ministro dinamarquês, convidou um grupo de 12 personalidades, provenientes de diversas áreas académicas e profissionais, mas com uma ligação clara a diversas áreas da criatividade, seja na actividade artística ou na cultura. O desafio que foi colocado a este grupo vai ser escrever um manifesto, a divulgar em Junho, sobre como o sector cultural e criativo pode ser fulcral na criação de energia em época de crise. O grupo é constituído por um arquitecto espanhol, um coreógrafo sueco, um especialista em design industrial britânico, um artista dinamarquês, um gestor cultural belga, um representante das Nações Unidas, um historiador libanês que já dirigiu actividades da fundação Ford, um director do Museu Britânico, um fotógrafo nepalês, um ex-governante e jornalista esloveno da  área cultural, e um produtor audiovisual independente dinamarquês. Nenhum dos nomes é de alguém terrivelmente conhecido. Mas todos são activos nas suas actividades profissionais, têm responsabilidade em instituições e empresas, O ecletismo da escolha e o facto de ter cidadãos de países não europeus (como o Líbano ou o Nepal) é bom um sinal de abertura a outras culturas. Esta ideia é uma boa ideia.


 


LEI - Está em discussão no Parlamento uma proposta de Lei, cujo primeiro subscritor é a deputada socialista Gabriela Canavilhas, que prevê que qualquer consumidor tenha de pagar um valor adicional sempre que adquirir um equipamento que contenha dispositivos de  memória digital que permitam armazenar conteúdos. Mesmo aqueles que utilizam os equipamentos para guardar conteúdos próprios, ou para adquirir conteúdos com um preço que inclui já o direito de autor, terão de pagar a referida taxa. Quanto maior a capacidade de memória do dispositivo, maior será a taxa – uma taxa aplicada ao gigabite de memória. Começo por esclarecer que sou a favor da defesa dos direitos de autor, da defesa dos direitos de propriedade intelectual e industrial. Mas acho que a proposta de lei da autoria da deputada socialista Gabriela Canavilhas é manifestamente fruto de falta de informação e desajustamento no tempo. Muito do que hoje em dia compro – livros, revistas, discos, é adquirido em suporte digital, para aparelhos como o iphone, o iPad ou o Kindle, que permitem armazenar e utilizar essas compras em qualquer altura em qualquer lugar. O que Canavilhas pretende é taxar ao gigabite os mecanismos de armazenamento digital – ora isto só pode ser fruto de uma enorme ignorância e de manifesta má fé. Ao estarem tão distantes da realidade e dos autores e criadores que só existem em universo digital, e que são cada vez mais, as entidades que apoiam este projecto estão de facto a prestar um mau serviço à defesa dos direitos de autor. Um dia destes, quando as memórias dos aparelhos forem ultrapassadas pela «nuvem», que vão taxar? O acesso à internet? A utilização dos aparelhos? Voltamos ao tempo do imposto sobre os isqueiros? Nada diz faz sentindo, e é confrangedor como esta ex-Ministra da Cultura socialista está desfasada da realidade:  recordo apenas que as mais recentes obras de David Hockney foram trabalhadas em iPads e que o artista português Jorge Colombo usa o iPhone para desenhar. Canavilhas quer taxar instrumentos de trabalho de artistas?


 


CARNAVAL - Talvez por ser Carnaval, António José Seguro resolveu dar um ar da sua graça. Com a clarividência que lhe conhecemos considerou que «os portugueses já estão habituados a que o primeiro-ministro chegue tarde a decisões óbvias». A frase é cómica – porque se aplica que nem uma luva à actividade de José Sócrates nos últimos anos em que governou. O problema é que Seguro se queria referir a Passos Coelho, depois de uma patética reunião entre o PS e a troika onde foi evidente o difícil equilibrismo dos socialistas entre os compromissos assumidos e a oposição que gostariam de conseguir fazer. Mas também é muito engraçado que a frase de Seguro tenha sido proferida na mesma semana em que Mário Soares resolveu colocar em acta que teve um papel, decisivo segundo afirma, na decisão de pedir ajuda externa, tantas vezes adiada por Sócrates. Não consigo deixar de achar isto tudo muito curioso: vai-se a ver e afinal foi Soares quem abriu as portas à troika e enfiou a realidade na cabeça de Sócrates. Será que Seguro ainda vai dizer que Soares chegou tarde à fala com Sócrates?


 


SEMANADA –Quadros da Refer arguidos no Face Oculta ganham 3000 euros por mês e não trabalham; no Algarve há cem hectares que não se sabe a que concelho pertencem; edifício que se destinava à PSP de Cascais e cuja construção foi entregue a um amigo de Sócrates nunca foi acabado e provavelmente será demolido depois de já ter consumido dois milhões de euros do erário público; o Teatro de S. Luiz tem despesas superiores a 2,2 milhões de euros e receitas de 176 mil euros; o Teatro Maria Matos tem despesas de 1,8 milhões de euros e receitas de 153 mil euros.


 


ARCO DA VELHA – O Parlamento fez um elaborado estudo onde conseguiu concluir que pôr os deputados a beber água da torneira seria mais caro que beberem água engarrafada. Aos poucos lá se vai percebendo como chegámos ao ponto em que estamos.


 


DESCOBRIR  – Na zona de Lisboa há um jornal local que se destaca pela proximidade aos seus leitores. Trata-se do «Notícias do Parque», destinado à zona da Parque das Nações, e que já vai no seu décimo aniversário, com uma tiragem de dez mil exemplares em papel e um número crescente de visitas em www.noticiasdoparque.com . Um estudo recente afirma que 80% da população do Parque das Nações contacta regularmente com o título – que agora lançou uma campanha de incentivo ao comércio local. Um estudo recente destaca a importância do noticiário local na afirmação e fidelização da imprensa junto dos leitores.


 


OUVIR – Quando era adolescente o tenor Roberto Alagna costumava cantar boleros, rancheros e tangos em clubes parisienses. Mario Lanza era o seu ídolo e Alagna gostava daquelas canções que apelavam á dança e ao corpo. Com o andar dos anos, este filho de pais sicilianos, nascido em Paris, transformou-se num tenor aclamado e muitas vezes polémico. «Pasion», o CD agora editado, reúne o repertório popular que Alagna interpretava nas noites da sua juventude, com clássicos como «Piensa em Mi», «Quizás, Quizás, Quizás», «La Cumparsita», «Besame Mucho» ou «Paloma Negra», entre outros. No clássico «Historia De Un Amor», Alagna canta em dueto com a cantora americana de ascendência mexicana Lila Downs. Os arranjos destas canções populares, de Yvan Cassar,  respeitam os originais e o próprio Alagna interpreta estes temas sem tiques operáticos, mantendo-se fiel  ao espírito original destas canções. CD Deutsche Grammophon, na FNAC.


 


LER – Neste momento em que continua a discutir-se o futuro da RTP e em que se encontra em debate a nova lei do Cinema, Artur Castro Neves, um dos homens que mais estuda e acompanha o sector, publicou, na Afrontamento. um livro exemplar: «Políticas Públicas e Regulação no sector audiovisual e multimédia». Trata-se de um levantamento exaustivo de situações existentes, mas sobretudo de um enunciado de propostas concretas, estratégicas, para que a língua portuguesa exista no audiovisual e no novo mundo digital. O livro, que há-de provocar polémica, não se fica pela análise da situação – como é próprio do seu autor, sugere acções e políticas. Bem fariam os decisores se lessem este trabalho com atenção. É bem mais útil e enriquecedor que um recente relatório de má memória.


 


PROVAR – A Praça de S. Paulo, em Lisboa, bem próximo da nova movida lisboeta do Cais de Sodré, tem desde há um ano um simpático restaurante dedicado à nobre arte do petiscar – a Taberna Tosca. Aqui vai-se picar e a escolha é farta – desde anchovas a um presunto de porto preto transcendente, passando por umas honestíssimas pataniscas de bacalhau ou uns bem temperados cogumelos salteados. Boa escolha de vinhos a copo, incluindo espumantes nacionais. Serviço simpático, decoração confortável, um belo sítio para ir petiscar com os amigos ao fim da tarde ou à noite. Ao almoço há umas propostas de refeições rápidas que têm feito sucesso. Praça de S.Paulo 21, telefone 218 034 563.


 


BACK TO BASICS - «Se a arte é suposta alimentar as raízes da nossa cultura, então a sociedade deve proporcionar aos artistas a liberdade para criarem de acordo com a sua visão» - John F. Kennedy




 


 (Publicado no Jornal de Negócios de 24 de Fevereiro)

fevereiro 17, 2012

Uma revisão que temos de fazer ao país

HISTÓRIA - Está por fazer a história da Europa desde a reunificação da Alemanha. Está por fazer a história do que aconteceu desde a criação do euro. Está por fazer a história de todos os acordos de circunstância, dos sucessivos tratados que foram adiando os grandes problemas. Está por fazer o enquadramento do que nos trouxe a todos aqui. Está por fazer a história das razões dos enormes aumentos das dívidas públicas. Está por fazer a história dos crescentes défices externos. Em Portugal está por fazer a história das informações erradas, das análises  marteladas, das contas aldrabadas. Nunca conseguiremos transformar o futuro sem perceber o passado. O equilíbrio malabarista da política cavou ao longo de décadas a nossa ruína. Se tudo isto não for estudado e corrigido os sacrifícios actuais serão em vão. A Europa Unida arrisca-se a ser apenas um episódio passageiro de uma desunião histórica marcada por guerras.


 


DESFASAMENTO – O primeiro grande acto público do novo secretário-geral da CGTP foi a manifestação do passado sábado. Como não podia deixar de ser, já que esta era a sua primeira manifestação no novo cargo dirigente, considerou que tinha sido a maior de todas nas últimas décadas – tinha que entrar a ganhar, e derrotar o seu antecessor. Exagerar faz parte dos métodos de afirmação dos novos dirigentes, na velha escola do PCP, de que Santos é membro do Comité Central. Reivindicou 300.000 participantes numa praça onde nem 100.000 cabem. Arménio Santos, o homem que fez o milagre da multiplicação dos manifestantes, esqueceu-se que as tácticas dantes usadas pelo PCP, de exagerar o número de participantes em acções que apoia, hoje têm contraprova fácil. Uma fotografia aérea da Praça do Comércio tirada na altura do discurso do dirigente sindical, mostra uma praça metade deserta, onde com sorte talvez estivessem 50.000 pessoas. Arménio Santos estreou-se com uma grande mentira. Percebe-se porque é que o PCP substituiu Carvalho da Silva por ele. Rodrigo Moita de Deus fez a observação definitiva sobre os efeitos da polémica numérica da CGTP : «Desde os tempos do Marquês de Pombal que o Terreiro do Paço não era medido com tantos esquadros e compassos.»


 


SEMANADA – No Porto já há lista de espera de munícipes para a atribuição de hortas na cidade;  um estudo recente revela um país activo sob os lençóis mas preguiçoso na altura de resolver a disfunção eréctil; em Almada um homem de 72 anos recebeu do Hospital uma conta por uma consulta de interrupção de gravidez; nos últimos dez anos a nossa economia cresceu a um ritmo médio de 0,31%; Portugal ainda tem 60% dos fundos do QREN por aplicar; pensionistas com 600 euros vão começar a pagar IRS; função pública e políticos poderão receber prendas até 150 euros; a quanto está o quilo do robalo?


 


ARCO DA VELHA – O motorista de Mário Mendes, ex-secretário do Sistema de Segurança, que teve um acidente na Avenida da Liberdade quando tentava compensar o atraso deste na chegada a uma cerimónia oficial, foi condenado a 21 meses de pena suspensa .


 


PALAVREADO - «O Sporting contrata Sá Pinto para treinador. O Porto recupera Paulinho Santos para adjunto.Espero que o Benfica já esteja em conversações com o Mike Tyson.» - Alexandre Borges, no blogue 31 da Armada


 


LER – “The Zen Of Steve Jobs” é uma novela gráfica ou, mais prosaicamente, um livro aos quadradinhos. Trata-se de uma edição de 60 páginas, baseada em textos de Caleb Melby e em desenhos de Jess3. O livro tenta reconstituir a vida de Steve Jobs naquele período, em meados dos anos 80, quando saíu da Apple e antes de fundar a Next, na altura em que se aproximou do monge budista Kobun Chino Otogawa. A história é ficcionada, claro, mas é baseada em relatos de Jobs e de Kobun sobre esses tempos, assim como de outros discípulos do monge que foram contemporâneos desse período. O ponto curioso é a relação que estabelece, e que parece corresponder à realidade, sobre a forma como alguns princípios budistas foram decisivos para a forma como Steve Jobs transformou a Apple quando regressou à companhia, nomeadamente nos conceitos e no design. Se a história contada por Melby funciona, isso deve-se em muito à forma como os desenhos de Jess3 a enquadram, com influência evidente da manga japonesa. É uma meia hora de leitura muito bem passada. A única forma de lhe chegarem é através da Amazon.


 


OUVIR – Um dos problemas de continuar a ter a mania de ouvir as novidades da música popular com os meus  57 anos é que a memória está cheia de referências de discos e intérpretes antigos. É impossível, num disco novo, evitar comparações. Lana Del Rey é um daqueles produtos pop fabricados de que a indústria discográfica tanto gosta, e que às vezes funcionam na perfeição. A rapariga é vistosa, faz uma bela capa, parece simples e natural, usa uma camisa abotoada até ao pescoço e o seu cabelo, de reflexos ruivos, é suave e sedutoramente ondulado como as meninas bonitas do início dos anos 60. Podia ser a “girl next door”, insinuante q.b. . Acresce que tem uma voz marcante – mas de boas vozes está o inferno cheio. Lana Del Rey tem presença, voz, canções e tem muita, mas mesmo muita produção. O seu disco de estreia, «Born To Die» é um caso de sucesso instantâneo. Quando se ouve com atenção há momentos em que surgem na memória nomes como Kate Bush (nalgumas entoações) ou os Verve (nalguns arranjos). O disco parece um catálogo de boas referências. É bem comportado melodicamente, é sonoramente confortável . Ao fim de três ou quatro audições está gasto e revela-se algo enjoativo. Às vezes os discos com produção e truques a mais são assim. Costuma dizer-se que depois de um grande disco de estreia o maior problema é fazer o segundo álbum. Neste caso, e porque reconheço que algum talento Lana Del Rey tem, espero que o segundo disco seja melhor e mais sincero que o primeiro.


 


VER – É muito curioso observar como várias gerações de olhares reflectem de forma diversa mas às vezes convergente a imagem de Portugal. É isso que se consegue quando se visita a exposição sobre o trabalho fotográfico de Orlando Ribeiro, que decorre no átrio da Reitoria da Universidade Clássica de Lisboa, na Alameda da Cidade Universitária, ao Campo Grande. Esta exposição faz parte das comemorações do centenário do nascimento do professor Orlando Ribeiro, um pioneiro no estudo do território português, que fez largo recurso à fotografia no seu trabalho, produzindo algumas imagens de referência de Portugal em meados do século passado, sobretudo na década de 40. Algumas dessas imagens mais significativas estão aqui, numa curiosa montagem que proporciona o diálogo e confronto das fotografias originais de Orlando Ribeiro com outras de Gerard Castello Lopes, Luis Campos, Inês Gonçalves, Nuno Calvet, Albano da Silva Pereira, Fernando Lemos, Ana Janeiro e Eduardo Gageiro, entre outros.


 


PROVAR – Nos locais mais triviais têm-se por vezes boas surpresas. «O Pizeiro» é um restaurante italiano, situado no Pátio Bagatela. De grandes dimensões, este restaurante está pensado para acolher grupos, o que acontece com frequência. A ementa é a tradiiconal, a pizza é afamada – mas não foi a pizza que provei numa visita recente. A escolha recaiu numa cotoletta de vitela à milanesa, de facto um fino panado, muito bem temperado e confeccionado, acompanhado, a pedido expresso por um esparguete com alho, azeite e piri piri, feito na hora e ao ponto. Uma combinação simples e tradicional que resultou em pleno. A rematar foi provado um queijo gorgonzola que estava absolutamente excepcional. O vinho da casa é honesto e acompanhou bem, tudo a um preço muito razoável.


 


BACK TO BASICS – O burocrata perfeito é alguém que consegue nunca tomar decisões e escapar a todas as responsabilidades – Brooks Atkinson


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Fevereiro)

GANHAR NA SECRETARIA - SOBRE AS AUDIÊNCIAS DE TV

A correcta medição das audiências de televisão tem o objectivo de permitir aos programadores dos canais avaliar se estão a conseguir alcançar os seus objectivos, em termo dos públicos – quer numa avaliação numérica, quer numa avaliação qualitativa; estes resultados de audiência têm por sua vez uma repercussão directa na venda da publicidade – já que os anunciantes, em termos gerais, pagam conforme os resultados de audiência conseguidos.


 


A medição de audiências não é um bruxedo nem uma actividade misteriosa. É uma metodologia científica, baseada em amostras da população que vê regularmente TV, por forma a que a amostra corresponda em distribuição geográfica, idade, sexo e actividade ao que é a população portuguesa.


 


Um bom estudo é baseado num painel tecnicamente intocável e reconhecido por todas as partes - senão arriscamo-nos a ter uma situação em que as vitórias no campeonato de audiências são obtidas na secretaria e não, na realidade, no confronto com os públicos. E ninguém devia desejar subverter a realidade.


 


(Publicado no Correio TV)

fevereiro 14, 2012

O TAMANHO É IMPORTANTE?

A Praça do Comércio, vulgo Terreiro do Paço, tem, faixas de circulação incluídas, 175 metros por 200 metros, ou seja, uma área total de 35.000 m2. Isto inclui a zona central da estátua e todo o espaço disponível. Se considerarmos que a área média ocupada por uma pessoa em pé é de 0,40m2, na referida área total caberão cerca de 87.500 pessoas.


 


Não estou a contar com a área destinada a palcos, sistemas de apoio ou zonas de circulação. Vamos admitir que tendo em conta a zona da estátua e a zona de um palco e instalações de apoio, a praça completamente “à cunha”, levará cerca de 80.000 pessoas.


 


O novo secretário-geral da CGTP, no final da manifestação do passado sábado, anunciou, orgulhoso, que tinha juntado a maior manifestação das últimas décadas, levando ao Terreiro do paço 300.000 pessoas, mais do triplo do que seria possível acolher naquele espaço.


 


Não consigo descortinar como isto é possível – tanto mais que a Praça, estando cheia, não estava propriamente à cunha. Portanto não é preciso ser um génio da matemática para se perceber que Arménio Carlos mentiu objectivamente – já que também não me pareceu que os manifestantes estivessem às camadas sobrepostas, uns em cima dos outros.


 


É uma evidência que esteve muita gente, é uma evidência que existe um grande descontentamento pela austeridade. Mas é também uma evidência que esta mentira numérica revela muito sobre o carácter do novo líder da CGTP. Para ele, como se viu, o tamanho conta – e vale tudo para conseguir ostentar o tamanho que lhe parece conveniente.


 


Infelizmente, já se sabe, quem mente sobre o tamanho, mais tarde ou mais cedo acaba a ser gozado. Já agora: fazer estratégias baseadas em números que são falsos nunca deu bom resultado.


 


(Publicado no diário Metro de 14 de Fevereiro)




 

fevereiro 10, 2012

SUGESTÕES & CONSTATAÇAÔES

ARCO DA VELHA - Agentes da PSP de Lisboa estão a ser investigados suspeitos de terem criado empresas para lavarem dinheiro associado ao tráfico de droga.


 


SEMANADA - Famílias que deixaram de pagar crédito da casa dispararam 450% em 2011; 117 autarcas em fim de mandato não excluem candidatar-se a outra câmara para continuarem na actividade de presidente da câmara; passaram 20 anos sobre o Tratado de Maastricht, que criou o euro; a Europa está a ver-se grega para manter o euro; o Primeiro Ministro anunciou que não haveria tolerância de ponto no Carnaval e foi rapidamente contrariado por Rui Rio, António Costa e Alberto João Jardim, entre outros; Pedro Passos Coelho defendeu que «devemos persistir, ser exigentes, não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos, que sofrem tanto para aprender».


 


VER – Duas sugestões absolutamente gratuitas para estes tempos de crise: no espaço BES Arte & Finança, no Marquês do Pombal, a exposição “Políptico”, que faz uma evocação fotográfica dos painéis de São Vicente. Destaque para os retratos de Pierre Gonnord, para as paisagens deformadas de Cristina Lucas, para a visão de José Maçãs de Carvalho e para a série “A Conspiração das Pintoras Portuguesas”, de Carmel Garcia; a segunda exposição; a segunda exposição está na nova galeria Bloco 103, na Rua Rodrigo da Fonseca 103 B, frente ao Hotel Ritz e que apresenta trabalhos de Rosa Reis (sobre o edifício da Fundação Champalimaud) e de Susana Paiva que procura instantes decisivos a partir de paisagens urbanas, com uma notável utilização da luz e da cor.


LER – Deixei de ver a edição em papel da “Wired” e passei a comprar e a ler a edição para iPad. Ouso dizer que com as remodelação efectuada em Janeiro, a “Wired” deu um salto em frente e posicionou-se como uma referência absoluta nas novas formas de edição electrónica. Já não faz sentido, no caso da “Wired”, ler a edição em papel – os conteúdos criados para a edição em iPad são tão bons que já seria impensável ignorá-los. E tudo isto mais barato, menos de metade do preço que custa a edição em papel em Portugal.

OUVIR – E então que tal é «Old Ideas», o novo álbum de Leonard Cohen? – Pois não é tão bom como o pintam, mas merece ser ouvido e guardado, o que é mais do que se pode dizer da maior parte da produção discográfica contemporânea. Como Miguel Esteves Cardoso bem observou há uma canção genial, “Different Sides”, por sinal a última do CD, e meia dúzia de boas canções – sendo que como o disco tem dez temas há três que não são de todo interessantes: “Show Me The Place”, “Banjo” e “Come Healing”. A produção tenta engenhosamente tornear a idade da voz de Cohen com recurso, às vezes em excesso, a coros femininos. Mas vale a pena reter a maioria das canções, os poemas e a inteligência deste disco. Cohen tem 77 anos e manter esta dose de diversidade criativa é obra.


 


PROVAR – No início da existência do restaurante «Pedro e o Lobo» fiquei com muito má impressão do atendimento e da forma como os clientes era persuadidos a sentirem-se indesejáveis. Durante anos não voltei a pôr lá os pés até que voz amiga me disse que as coisas tinham mudado. Pois então é verdade – o serviço é agora simpático e na refeição tudo corre bem (a página do restaurante no Facebook até salienta que clientes sem reserva são bem-vindos). Com propostas diferentes ao almoço e ao jantar nos dias da semana, a equipa da cozinha cumpre com distinção. Os mais afoitos podem seguir um menu degustação, mas as propostas da carta à noite são bem conseguidas – desde uma pescada glacê a um rabo de boi. Como o dia dos namorados está à porta vale a pena dizer que a sala é adequada para encontros românticos. Garrafeira simpática, vinhos a copo bem escolhidos. Rua do Salitre 169, telefone 211 933 719.


 


BACK TO BASICS - «Os dias prósperos não vêm por acaso. Nascem de muita fadiga e muitos intervalos de desalento» - Camilo Castelo Branco


 


(Publicado no Jornal de Negócios do dia 10 de Fevereiro)

OS PROBLEMAS DA NOVA LEI DO CINEMA

Está em discussão pública um novo projecto de Lei do Cinema e Audiovisual. O texto retoma algumas das linhas da legislação feita quando José Amaral Lopes era Secretário de Estado da Cultura e que depois foi bastante alterado por Mário Vieira de Carvalho, quando foi secretário de estado sendo ministra Isabel Pires de Lima, no início do consulado Sócrates.


 


No essencial as ideias base que norteiam o actual projecto remontam a 2003, praticamente há uma década. Por isso mesmo quando se lê esta proposta fica-se com a sensação de se estar perante um projecto muito datado no tempo, bastante desactualizado em relação às alterações entretanto ocorridas no sector no audiovisual – isto no que diz respeito à produção -  porque na recolha de taxas e financiamentos a coisa é bastante contemporânea, seguindo o princípio do liberalismo do regime e que é de ir buscar dinheiro a todo o lado.


 


Como tem sido hábito nos últimos anos a televisão é a principal (e quase única) financiadora das receitas que o ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) depois irá distribuir. As receitas são colectadas à televisão sob a forma de uma taxa sobre a publicidade emitida e de novas taxas sobre os canais e operadores de cabo. Existirá também uma taxa sobre as salas de cinema, mas que será residual. E como se propõe o Estado redistribuir este dinheiro assim angariado? Dando 80% do montante atribuído a financiamentos ao Cinema e 20% à produção para televisão e multimédia.


 


É exactamente esta repartição que não faz sentido. Porquê? Porque qualquer levantamento do sector mostrará que hoje em dia, em todo o mundo, a área estratégica para o desenvolvimento de uma indústria de produção audiovisual é a televisão e não o cinema. É na televisão que se investe mais em produção, é na televisão que se emprega mais gente, que se inova e experimenta, que mais se formam  novos actores e técnicos, que se garante o crescimento de um pólo importante das indústrias criativas. É a produzir para a televisão que se podem desenvolver áreas como o guionismo, a pós-produção, a cenografia ou figurinos, e produzir obras em sectores como documentários e ficção, com garantia de que os trabalhos sejam de facto exibidos e sujeitos ao teste da apreciação dos públicos. Na realidade é o cinema que hoje em dia pode beneficiar do desenvolvimento de um núcleo forte de produção para televisão e não o contrário, como aliás algumas recentes longas-metragens portuguesas comprovam.


 


Um recente debate promovido pela revista “New Yorker” , e disponível on line, demonstra que a televisão está a ocupar o lugar que já foi do cinema em matéria de inovação e estabelecimento de novos padrões na narrativa. Tenho a opinião que o investimento deve compensar prioritariamente o desenvolvimento da origem do dinheiro e não penalizá-la. Assim sendo, deveria, no mínimo, fazer-se uma repartição equitativa das receitas recolhidas, ou seja, atribuir financiamentos iguais à produção audiovisual e à produção de cinema. A minha tentação seria até dizer que áreas como telefilmes, séries, documentários, programas infantis e registo audiovisual de obras cénicas deveria ter direito à maior parte dos financiamentos recolhido nas televisões, sob quaisquer formas, e que fossem reintroduzidos no circuito através de produtores independentes. Os defensores da concessão de privilégios de financiamento ao cinema estão a querer a manutenção de uma situação que se arrasta há décadas e que produziu filmes de autor (de poucos autores, aliás) mas que nunca conseguiu desenvolver uma indústria nem afirmar uma efectiva presença internacional em termos de exibição fora de festivais.


 


Querer olhar para o Cinema, hoje em dia, como há quatro décadas atrás, é fechar os olhos à profunda alteração da paisagem audiovisual em todo o mundo, é querer negar as evidências e, pior, é querer evitar o desenvolvimento de uma coisa que é crucial para a manutenção da língua falada, que é uma produção audiovisual dinâmica e abundante que possa ser exibida e distribuída em multi-plataformas. A manutenção da nossa língua, do português, passa mais pela existência dessa produção audiovisual do que por qualquer acordo ortográfico. Por isso este projecto de Lei do Cinema é conservador, no sentido imobilista e de bloqueio da paisagem audiovisual portuguesa.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Fevereiro)

fevereiro 07, 2012

CORRIDA AUTÁRQUICA

Para o ano as autarquias irão a votos, lá para o fim do ano. Mas mesmo a esta distância é engraçado ver como já existem movimentações diversas.


 


Parte destas movimentações nasce da necessidade de substituir presidentes de Câmara que estão no fim do seu terceiro mandato e outras partem das oposições que querem desafiar nos votos quem detém o poder.


 


No caso dos autarcas que não poderão renovar mandato está a criar-se um curioso fenómeno, de substituições antecipadas, para de certa forma designar o sucessor e permitir que ele tenha um tempo de treino e aquecimento antes das eleições, para que os eleitores já possam conhecer o seu estilo e forma de actuar.


 


Mas noutros casos desenha-se um vazio de poder, com muita gente a assobiar para o lado a pensar que para o fim do ano o actual presidente já não estará lá. É a prática bem portuguesa de não fazer ondas até se perceber de que lado vai soprar o vento. Em termos práticos muitas autarquias vão viver uma situação de semi-paralisia durante meses.


 


Nas principais cidades as disputas eleitorais vão ser duras: Lisboa e Porto vão estar no centro das atenções – mas na realidade mais de metade dos presidentes de câmara (161 dos 308) vai ter que ser substituída por atingirem o número máximo dos mandatos.


Numa eleição de proximidade, em que a figura do candidato é muito importante, como acontece nas autarquias, esta situação vai inevitavelmente produzir mudanças no mapa político.


 


Muita gente já não votava num partido, mas numa pessoa. Se a pessoa sai, em que sentido se mantém o voto? – no sucessor designado pelo partido, ou noutro candidato que mereça mais confiança pessoal?


 

fevereiro 03, 2012

Fazer para só alguns verem

COMUNICAR CULTURA - A presidência da União Europeia cabe agora à Dinamarca. É muito interessante seguir o esforço de divulgação da cultura e da criatividade dinamarqueses, com um programa de 150 eventos, centrados em torno do cinema e do património mas com uma forte componente de ligação industrial em torno do design. É muito interessante ver como a Dinamarca aproveita uma circunstância política, a presidência da União Europeia, para fazer uma demonstração de pujança criativa. Mais interessante ainda é a forma como a promoção de toda esta actividade está a ser feita. De facto, o sentido do programa criado é chamar a atenção do exterior sobre a cultura Dinamarquesa e não um mero acto interno de celebração. Eu acho que é assim que as coisas devem ser: comunicar, trazer mais gente. Quem acompanha os preparativos de Londres para os Olímpicos, vê a preocupação em fornecer motivos de interesse para além dos Jogos a quem queira visitar a cidade este ano. Vem tudo isto a propósito da forma como em Portugal uma série de acontecimentos são executados. Tomemos o caso de Guimarães Capital da Cultura. Tem uma programação interessante, mas tem uma divulgação completamente virada para dentro – em vez de aproveitar a circunstância de ser a Capital Europeia da Cultura e procurar divulgar internacionalmente a imagem de uma cidade, de uma região e de um país, fecha-se no conforto de satisfazer os públicos locais. É importante, certamente, mas não é tudo. Esta falta de aposta na divulgação internacional é um já antigo pecado das instituições portuguesas ligadas à Cultura. Numa época de informação instantânea e global, é confrangedor como se dá tão pouca importância a este aspecto fundamental. Sem uma política de comunicação e divulgação eficaz muito do esforço financeiro realizado não tem sentido, não é reprodutivo nem para a cidade, nem para a região, nem para o país. Fazia sentido que, apesar das contingências que todos conhecemos, se guardasse uma parte dos orçamentos para a divulgação - senão estamos sempre a trabalhar em círculo fechado para os mesmos públicos, e esto é um dos grandes desperdícios do investimento do Estado nesta área, seja em iniciativas pontuais seja em instituições oficiais.


 


APAGÃO – Até ao fim do mês de Fevereiro grande parte da população portuguesa ficará sem o tradicional sinal hertziano de televisão – é o apagão que traz a Televisão Digital Terrestre, que em Portugal é um saco de promessas inteiramente vazio. No final deste processo vai ser interessante analisar o aumento de clientes nos fornecedores de televisão por assinatura, nomeadamente o MEO e a ZON. Em muitas regiões estão a registar-se novas adesões a estes operadores a um ritmo invulgar – o que se explica por ofertas promocionais de baixo custo e que, essas sim, proporcionam uma diversidade e variedade que a TDT devia oferecer e não oferece. Recordo que hoje em dia, na oferta básica do Cabo, existem, para além das televisões generalistas (RTP1, RTP2, SIC e TVI) mais oito canais nacionais de acesso geral e gratuito  (SIC Notícias, SIC Mulher, SIC Radical, RTP N, RTP África, RTP Memória, TVI 24 e Económico TV), para além de uma série de outros canais programados para Portugal, desde o Panda ao Hollywood, passando pela MTV, os canais Fox, o AXN, o National Geographic, o História o Biography, etc. E já nem falo de canais com preço extra, como os da Sport TV. Acontece que estimativas modestas apontam para um aumento considerável do número de espectadores que, no final deste processo (vamos dizer no final do primeiro semestre, quando as coisas estabilizarem), deverão estar entre os 65 a 75% do total do universo de telespectadores. Ora isto quer dizer que centenas de milhar de pessoas passam rapidamente de uma escolha entre quatro canais para uma escolha para pelo menos meia centena de programas diferentes, apenas por decidirem aderir à TV por subscrição em vez de usarem a TDT. O efeito prático disto é que inevitavelmente as audiências dos quatro canais generalistas vão cair mais depressa do que se pensava – e o país vai andar a duas velocidades dramaticamente diferentes. Eu aposto que quando o processo estiver estabilizado e o novo sistema de medição de audiências estiver a funcionar (se conseguir funcionar, mas isso é outra história…) teremos, no universo dos utilizadores de TV por subscrição, o canal líder nos 20% de audiência e a RTP por volta dos 15%. É um mundo novo, que há-de ter consequências…


 


SEMANADA – Com uma assustadora frequência  um político profissional arranja maneira de nos fazer desconfiar mais ainda da política – desta vez foi José Lello, o deputado e ex-governante que admitiu candidamente ignorar que devia declarar todas as suas posses (nomeadamente um deposito de mais de meio milhão de euros) e não apenas algumas; é muito significativo que a justiça tenha sido o sector em que o Governo pediu à troika um adiamento do prazo para a implementação das medidas da reforma; é o mesmo sector em que uma lamentável cerimónia de abertura do ano judicial foi o retrato perfeito de um sistema que não funciona e está mais entretido com guerrinhas internas do que em garantir um serviço público eficaz; a Câmara Municipal de Lisboa quer construir um estacionamento de três andares junto do Largo do Corpo Santo, ao Cais do Sodré, com um custo previsto de 4,5 milhões de euros.


 


ARCO DA VELHA – O Presidente do Supremo Tribunal de Justiça avisou que os cortes orçamentais podem conduzir a um novo PREC. Não se sabe se antes desta afirmação combinou alguma coisa com Otelo Saraiva de Carvalho.


 


PALAVRAS - «Planificar, separar o essencial do acessório e racionar. Três coisas que não podemos evitar fazer no Serviço Nacional de Saúde para o conseguirmos manter» - Manuel Sobrinho Simões, numa entrevista ao “Público”.



LER – Na edição de Fevereiro da Vanity Fair a capa é uma fotografia, feita por Annie Leibowitz, de um trio de arromba: George Clooney, Matt Damon e Daniel Craig. Lá dentro, retratos de cada um, ao lado das respectivas respostas ao questionário de Proust. Outros pontos altos desta edição: um excelente artigo sobre os últimos tempos da vida do pintor Lucian Freud nos últimos tempos, uma investigação sobre a vida de Rebekah Brooks, a ex directora do “News Of The World” e braço direito de Rupert Murdoch e uma curiosa análise do perfil político do candidato Mitt Romney e da sua relação com o Partido Republicano.


 


VER- Em «J.Edgar», o filme que retrata a vida do homem que durante dezenas de anos comandou o FBI, Clint Eastwood, que produziu e realizou o filme, vai ainda mais longe na sua observação da história recente dos Estados Unidos. O tema é o jogo de mentiras entre os políticos e a sociedade, a troca de favores entre poderes e aquela enraizada atitude de não olhar a meios para atingir determinados fins. É um olhar frio, cortante, que sem chavões diz mais do que vários documentários propagandísticos que estiveram em moda nos últimos anos. Leonardo di Caprio tem um desempenho extraordinário no papel de J. Edgar Hoover – longe vai o tempo do “Titanic”. O filme é um exemplo do que é o cinema no seu melhor e mais simples: um argumento solidamente escrito, interpretações e direcção de actores irrepreensíveis,  uma história bem contada.


 


PROVAR – Só para dizer que já há lampreia. E da boa.


 


OUVIR- O pianista Hank Jones tinha 91 anos quando, em 2010, efectuou a sua última gravação, com o contrabaixista Charlie Haden. «Come Sunday», o CD que resultou desta sessão de gravação, é uma colecção de espirituais, todos eles clássicos. Já em 1995 este duo se tinha juntado para fazer «Steal Away», também marcado pelos hinos gospel. É curioso notar que o passado de Haden inclui colaborações com nomes como Ornette Coleman, muitas em terrenos experimentais – mas nestas gravações com Hank Jones existe um sentimento de emoção e reverência que marca a interpretação destas faixas de uma forma tão simples e elegante que permite redescobri-las, nomeadamente em temas como “Give Me That Old Time Religion” , “Going Home” , “God Rest Ye Merry Gentlemen” e “It Came Upon a Midnight Clear” mostram todo o talento destes músicos. (CD Emarcy/Universal).


 


 


BACK TO BASICS – É melhor falhar na originalidade do que ter êxito na imitação – Herman Melville.


 

janeiro 31, 2012

MANOBRA DE DIVERSÃO

A manobra das fontes cavaquistas apareceu como? Quem ficou a ganhar com as notícias? - essa é a melhor forma de procurar a sua autoria. Deixou de se falar da insensibilidade social de Cavaco, não foi?- Aqui fica o meu artigo no Metro de hoje.


 


Os meus estimados leitores terão talvez reparado que em dois dias seguidos, no Sábado e depois no Domingo, dois jornais faziam manchete de notícias que anunciavam divergências entre Cavaco Silva e o Governo, a propósito de políticas sociais. No Sábado o “Expresso” titulava «Cavaco Contra Estado Mínimo de Passos Coelho». E no Domingo o “Público” escrevia «Cavaquistas querem que Vitor Gaspar saia».


 


O “Expresso” dizia que existe uma divisão profunda entre São Bento e Belém, em temas como cortes na despesa sobretudo em áreas como a Função Pública e a Saúde. O “Público” anunciava que cavaquistas consideram o Ministro das Finanças, Vitor Gaspar, como um ultraliberal que estaria a destruir o modelo económico e social construído desde 1974.


 


Se lerem com atenção as notícias publicadas pelos dois jornais repararão que elas reproduzem rumores e não têm uma única citação nova, identificada, que corrobore os respectivos títulos.


 


Durante a semana passada Cavaco Silva foi criticado pela forma como falou dos seus rendimentos e despesas pessoais, transmitindo a imagem de um homem insensível às dificuldades de muitas pessoas no actual clima de austeridade. O seu comportamento levantou um coro de protestos.


Os seus conselheiros acharam que era preciso “tirar as castanhas do lume”.


 


Ora, que fazer quando alguém se colocou na berlinda? A resposta é velha como o mundo – atira-se outro para o mesmo lugar, para se deixar de falar de nós e criar um ruído maior do que aquele que nos atinge.


 


Esta manobra de diversão, com rumores e sem fontes, reverteu o argumento da insensibilidade social para cima do Governo, colocando Cavaco como o paladino das boas causas. Mas só acredita nisto quem quer, é claro. 


 


 


(Publicado no diário Metro de 31 de Janeiro)

janeiro 27, 2012

A relação da surdez com a especialidade

SURDEZ – Uma característica do nosso sistema partidário é a surdez selectiva. Passo a explicar – quando o PS está no poder os seus deputados fazem ouvidos de mercador a tudo quanto são dislates governativos ou de empresas públicas nas mais diversas áreas. Uma vez no Governo o PS tem tendência a deixar que todas as asneiras sejam tapadas pelo grande sol que nos ilumina. Claro que quando o PS passa à oposição todos os movimentos governamentais são suspeitos e as trivialidades anteriores passam a perigosos actos de censura actuais. Claro que o inverso também se aplica ao PSD. Infelizmente os dois maiores partidos não gostam de reconhecer erros nem de reflectir sobre eles e esse é um dos grandes problemas do nosso sistema político. Vivemos na permanente luta entre o mal e o bem, que vão variando conforme os resultados eleitorais – o mal de ontem é o bem de hoje e por aí adiante. O sistema é esquizofrénico e o resultado está dramaticamente à vista. Mesmo em áreas como a Cultura, que devia ser exemplar, o estrago é total - basta ler as extraordinárias intervenções actuais da senhora deputada Inês de Medeiros para me preocupar sobre o que ela andou a conter, provavelmente à custa de calmantes, durante os anos em que o PS desgovernou a pasta da Cultura, num metódico trabalho de criação do caos. Cá para mim alguém deve ter explicado à ex-ministra Isabel Pires de Lima que o caos podia potenciar a criatividade – e vai daí ela atirou-se afincadamente à “caotização” da Cultura, bem seguida aliás pelos seus sucessores na era socrática. O que eu acho curioso é que nessa época a deputada Medeiros tenha andado tão caladinha e agora esteja tão linguareira.


 


ESPECIALIDADE - A revista do “Expresso” publicou na semana passada um trabalho sobre a vida de José Sócrates em Paris. O que retive na memória foi saber que, enquanto aluno numa universidade parisiense, beneficiava de um estatuto especial que lhe permite algumas práticas pouco usuais em matéria de escolha das disciplinas, frequência das aulas e realização de exames. Depois, voz amiga recordou-me: nada de novo com esse regime especial em Paris – por cá, enquanto na Universidade também viveu de regimes especiais desses. Em resumo, trata-se de um aluno especial, com hábitos especiais.


 


CONTAS – Depois das afirmações de Cavaco Silva da semana passada percebe-se bem melhor o estado a que o país chegou. O Presidente da República disse que estaria a ter despesas pessoais superiores aos seus rendimentos e, claro, manifestou-se preocupado. É claro que é extraordinário que um reputado economista decida ele próprio gastar acima do rendimento – mas a afirmação deixa-nos perceber o que tem sido o comportamento dos políticos que nos têm governado: gastar acima das posses, fechar os olhos a este simples facto – o dinheiro não chega para as despesas. Insensibilidades políticas à parte o polémico desabafo do Presidente serviu para ilustrar o que é um comportamento recorrente, uma coisa tão interiorizada que ele próprio achou normal dizê-lo.


 


SEMANADA – Crise força 3300 alunos a desistirem do ensino superior; a reforma da administração local está á espera de decisões do PS; o mercado de trabalho mundial não apresentará sinas de melhoria até 2016; o consumo de combustível caiu 7% no terceiro trimestre; o número de desempregados que não recebe subsídio de desemprego é de 288 mil; O DIAP de Coimbra teve de abrir um inquérito sobre o furto de 77 cêntimos de feijão-verde, num supermercado Lidl. Uma procuradora-adjunta arquivou o caso por se tratar de bagatela, mas o supermercado reclamou, exige julgamento e, agora, o caso ocupa uma procuradora da República; Desligamento do sinal analógico de televisão do emissor da Fóia deixou cerca de 400 pessoas, na sua maioria idosos, sem acesso aos quatro canais de televisão.


 


ARCO DA VELHA –O departamento do Ministério Público, que tem a cargo a criminalidade económico-financeira e ainda os casos mais graves e complexos, trabalhou em 2010 em mais de 700 investigações mas só 20 resultaram na acusação dos arguidos, isto é 2,7%. O DCIAP queixa-se de falta de meios para investigar.


 


VER – Um blog relativamente recente, Acordo Fotográfico, dedica-se a coleccionar imagens de pessoas que gostam de ler livro, no pleno exercício do seu prazer, acompanhado às vezes de uma breve descrição do que estão a ler e porquê. Todoas as fotografias são feitas em locais públicos – na rua, em hardins, em meios de transporte e mostram como um livro é um dos melhores entretenimnentos portáteis. Pode espreitar aqui: acordofotografico.blogspot.com .


 


LER – A edição de Fevereiro da revista “Monocle” é dedicada ao poder da atitude na negociação: sorrir, ser honesto, ser verdadeiro, ser amigável e ser gentil são as recomendações da «Monocle» que elege a palavra “charm- encanto” como a chave para os novos tempos. Outros temas em destaque são a cidade chinesa de Harbin, no norte da China, que está a ter um enorme desenvolvimento, a riqueza petrolífera do Gana e a transformação que a cidade brasileira de Santos está a viver.  A presença portuguesa cabe a Rui Rio que numa curta entrevista explica a importância da reabilitação da baixa do Porto. E uma das escolhas do mês para a “Monocle” é o restaurante «Book», do grupo Lágrimas, concebido pelo arquitecto Pedro Trindade. A grande entrevista vai para a mayor de Houston, que na cidade do estado do petróleo, o Texas, apostou nas energias renováveis e nas minorias. Annise Parker, uma lésbica assumida há mais de duas décadas, tem uma agenda de mudança e tolerância inesperada para uma cidade como Houston e a sua actuação está a ser estudada por todos os que seguem a forma como as cidades podem ser governadas. Para seguir o tema de capa, do “charm-encanto”, a Monocle escolhe os dez locais mais encantadores – de um comboio a um edifício de escritórios, passando por ruas, cidades, hotéis, restaurantes e cafés. A cidade escolhida foi Hamburgo, o Hotel foi o Fasano, em São Paulo, e o restaurante a Osteria della Viletta, numa pequena cidade perto de Milão. Finalmente o suplemento do mês é um excelente guia de viagem ao Japão, que se recomenda a todos os que planeiem uma viagem a oriente. Diz quem conhece o Japão que este é dos melhores guias práticos que se podem encontrar. Só por curiosidade, esta é a edição 50 da «Monocle», cada vez mais indispensável.


 


OUVIR – Esta semana é impossível não pensar em pegar num disco de Etta James e deixarmo-nos contagiar pela força da sua voz. “Peaches”, como ela era conhecida, dedicou a sua carreira a cantar blues e jazz, e depois gospel,  desde o seu primeiro álbum, de 1961, «At Last», ainda considerado um dos seus grandes discos – e que no ano passado teve uma belíssima edição com remasterização digital. A década de 60 foi a da sua afirmação, com outros discos notáveis como «The Queen Of Soul», «Call My Name» ou um registo gravado ao vivo, incontornável, «Etta James Rocks The House». Destaque ainda para «Mistery Lady: The Songs Of Billie Holiday» e para o seu derradeiro disco, de Novembro do ano passado, «The Dreamer». Todos os registos estão disponíveis na Amazon e muitos no iTunes. Se quiserem uma boa compilação das suas grandes interpretações, escolham «The Essential Etta James», uma bela compilação de 2010 que tem sido a minha companhia nestes dias.


 


PROVAR – Sabem o que são alcagoitas? Não se assustem – alcagoita é o termo popular e bem português para amendoim, mas também uma marca bem posta à genuína manteiga de amendoim produzida em Portugal, no caso no Algarve, por António Rosa, a partir de amendoins de cultura biológica. A iguaria faz um belo lanche, pode ser barrada num bolo do caco ilhéu e é um bom desafio como condimento de alguns molhos. A manteiga de amendoim Alcagoita pode ser comprada em Lisboa na já incontornável Mercearia Criativa, Avenida Guerra Junqueiro 4ª – sim, a mesma que tem aquela tarte de amêndoa….


 


BACK TO BASICS – De uma escorregadela na rua recupera-se com facilidade; mas uma escorregadela na língua dificilmente é esquecida – Benjamin Franklin 

janeiro 25, 2012

Coincidências e Estranhezas

COINCIDÊNCIAS - Eu não quero lançar suspeitas vãs, mas acho uma extraordinária coincidência que logo a seguir a um convívio, em jeito de almoço, ocorrido em Lisboa, entre José Sócrates e alguns dos seus fiéis, um grupo de deputados do PS, considerados muito próximos do ex-Primeiro Ministro, tenha avançado com um pedido de fiscalização sucessiva do Orçamento, por iniciativa individual e à revelia do grupo parlamentar socialista. Mais curioso ainda é que, até ao momento em que escrevo, a Direcção desse grupo parlamentar continue silenciosa sobre o tema, que aliás em termos práticos ilustra a vontade de sectores do PS romperem com o acordo que subscreveram com a troika – retomando assim o que era o desejo profundo imposto por Sócrates na sua obstinação de não reconhecer a realidade. Esta iniciativa de alguns deputados, que se esconde debaixo de uma candura do direito constitucional, é, no fundo, apenas uma manobra de baixa política. De uma assentada cria-se um bloco interno, organizado, a demarcar-se de todas as medidas de austeridade, sem, evidentemente, propor nenhuma alternativa. Ali estão os suspeitos do costume – Vitalino Canas, Alberto Costa, Fernando Serrasqueiro, o sempre fiel José Lello e o iluminadíssimo Sérgio Sousa Pinto, entre outros. Tudo isto acontece ao mesmo tempo que Teixeira dos Santos, de regresso à Universidade, admite, contrariando o pensamento de Sócrates, que a ajuda externa devia ter sido pedida logo em 2010 e reconhece que não existe alternativa ao que está a ser feito. Ouvimos isto e ficamos a ver os pândegos do costume, que levaram o país ao estado onde está, a dizerem alto e bom som que querem que as coisas piorem ainda mais e que nada se faça para resolver os problemas que existem – esse é o sentido único da iniciativa dos apaniguados socráticos. De Seguro e Zorrinho não se sabe o que pensam nem o que dizem. Estão encolhidos a um canto a ver se passam na chuva sem se molharem.


 


ESTRANHO - A RTP nomeou um Director-Geral, Luis Marinho. Conheço o nomeado há muitos anos, trabalhei com ele em várias ocasiões e tenho muito boa impressão dele, além de uma relação cordial. Por isso mesmo nada do que a seguir escrevo significa qualquer dúvida em relação à pessoa. Acontece, no entanto, que esta nomeação está ferida de um pequeno problema – o cargo de director-geral da RTP não está previsto no quadro legal da empresa (desde a Lei da Televisão – na parte que incide sobre a televisão pública - até aos contratos de concessão) e isso não é por acaso. Na última revisão da Lei o assunto foi debatido e a opção dos legisladores foi no sentido de não criar esse cargo, para evitar um conflito de interesses entre as áreas da informação e da programação e para manter a autonomia dos respectivos directores, como a Lei estabelece. Acontece que o novo Conselho de Administração da RTP, que continua a fazer mudanças estruturais mesmo sem saber o que se vai passar a médio prazo, optou por criar uma situação em que irá ter um Director Geral, que obviamente reporta ao Conselho de Administração e recebe as suas orientações, e que terá por missão dirigir o trabalho das diversas direcções de conteúdos da RTP. E é aqui que está o problema – os directores das áreas de conteúdos, seja na informação ou na programação, são supostos terem independência em matéria editorial em relação à Administração e não receberem instruções nessas áreas – é isso que está na Lei. Eu duvido que o Director Geral vá apenas controlar orçamentos, meios de produção e emissão. E não consigo perceber como a ERC concorda com uma nomeação neste enquadramento e nestas condições. Como bem disse Eduardo Cintra Torres numa recente audição parlamentar, a ERC «funciona em roda livre e tem sido muito negativa, no modelo actual, para o serviço público de televisão».


 


GASTRONOMIA – Em honra ao ministro Santos Pereira esta semana não falo de petiscos. Fico-me pelos seus pastéis de nata e pelo frango no churrasco – que de um dia para o outro se tornaram na chave para o desenvolvimento da economia portuguesa. É pena que o Santos Pereira ainda não tivesse saído da casca quando no ano passado houve a votação das maravilhas da gastronomia portuguesa – outros resultados teriam certamente surgido. Mas adiante: o cómico caso dos pastéis de nata a servirem de sobremesa ao frango só revela que este ministro é mais rápido a lançar uma piada do que a anunciar medidas concretas. Se num qualquer cidadão isto se aceita, num Ministro da Economia já não. Dizem-me que o homem aterrou num Ministério onde, em vez de uma equipa, lhe puseram ao colo um saco de gatos. Tudo isto pode ser verdade, mas não explica a tentação de Santos Pereira pela metáfora. Esta semana – dizem-me que apesar dele – foi fechado o acordo de concertação social. É melhor notícia que o sururu pasteleiro.


 


SEMANADA – Num julgamento de uma caso de violação a juíza-desembargadora Eduarda Lobo, saíu-se com esta pérola na sentença:  "agarrar a cabeça (ou os cabelos) de uma mulher, obrigando-a a fazer sexo oral, e empurrá-la contra um sofá para realizar a cópula não constituíram actos susceptíveis de serem enquadrados como violentos"; o Provedor de Justiça questionou a EMEL sobre a legalidade de algumas taxas que aplica; Pastelaria Nobreza de Braga já exporta dois milhões de pasteis de nata ultra congelados por ano.


 


ARCO DA VELHA – Seguro dos bombeiros não cobre queimaduras.


 


PALAVREADO – «Nunca ocorre ao Dr. Soares: os políticos de agora são uma desgraça porque têm de lidar com as desgraças que os grandes europeístas do passado nos legaram» - João Pereira Coutinho, no “Correio da manhã”


 


VER – Laurie Anderson diz que caminhamos para um mundo em que a visita aos museus e o consumo de várias formas de arte vai depender apenas do próprio indivíduo e da forma como ele consegue utilizar a tecnologia ao seu alcance. Os bons sites de museus já possibilitam uma experiência que vai para além da informação de agenda. Proponho que visitem o site www.guggenheim.org e que explorem o seu potencial – nomeadamente clicando na parte referente à exposição de Maurizio Castellan que ocupa a rotunda do célebre edifício do museu. Poderão ver um vídeo que mostra o making off de uma fantástica exposição que interpreta de forma muito pessoal as últimas décadas.


 


LER - A edição de Janeiro da revista britânica "Wallpaper" tem como tema destacado os alunos recém formados nas principais universidades mundiais e que já estão a deixar a sua marca de criatividade em áreas como o design, a arquitectura, a moda, o grafismo, a fotografia e turismo, por exemplo. São dezenas de pessoas que já concretizaram uma ideia, algumas que já a aplicaram em produção industrial, outras que decidiram mudar de vida e fazer aquilo que gostam - desde um art director que resolveu fazer uma padaria muito especial até um agente de músicos que largou os palcos e se concentrou num pequeno hotel. Outros pontos em destaque na revista são um belíssimo dossier sobre algumas das melhores e mais confortáveis cadeiras que se podem encontrar no mercado, uma reportagem sobre os bastidores criativos de Nova York, um especial sobre a moda austríaca e um guia dos novos talentos em duas cidades espanholas - Valencia e Barcelona.


 


OUVIR – Anders Holst é um sueco, cantor de jazz, que vive em Nova York desde há algum tempo, ocupação difícil para um estrangeiro na cidade do «Blue Note» neste tempo em que toda a gente acha que o jazz vocal e o soft jazz são meio caminho andado para o reconhecimento. Há uma explicação para isto : o grupo etário que gosta do género ainda compra mais discos do que faz downloads. A situação levou a que o outrora quase deserto território do jazz vocal se tenha transformado num local apinhado, as mais das vezes com muito pouco talento pelo meio. Acontece que não é o caso de Holst, que há dois anos não lançava um disco novo. Este CD que editou já no final de 2011, «Soho Suite», tem sido apontado como o seu melhor trabalho de sempre. Todas as composições são da sua autoria ou co-autoria, à excepção de uma, os arranjos conseguem evitar as complicações que grande parte dos discos de jazz vocal tem nos últimos tempos e o resultado é um bom trabalho, bem tocado (na maioria por músicos suecos), muito bem cantado. (CD UOM/Amazon)


 


BACK TO BASICS – A insanidade, em indivíduos, é relativamente rara; mas é a regra em grupos, partidos, nações e épocas – Friedrich Nietzche 


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 20 de Janeiro)

AS DIFICULDADES DO SR. SILVA

Eu imagino que a vida de Presidente da República deva ser dura. Ainda mais dura quando às funções oficiais se junta o treino de equilibrismo.


 


Também sei que é tão mal paga que o actual ocupante do Palácio de Belém optou por não receber como Presidente da República porque a sua reforma era melhorzinha que a remuneração presidencial.


 


Mas como há uns dias atrás o Presidente da República se veio queixar da sua reforma e disse que não devia dar para as suas despesas fixas, imagino que o ordenado de Presidente da República seja mesmo uma coisa modesta – tanto mais que o único número de que Cavaco Silva falou foi 1300 euros.


 


Eu às vezes interrogo-me sobre a percepção que alguns políticos têm do ridículo de afirmações que fazem. Se tivessem os pés na terra poderiam evitar dizer tantas asneiras e meterem-se em alhadas sucessivas.


 


Saberá o Presidente da República qual o salário médio dos portugueses? Terá ideia de quanto desconta para a previdência social um jovem acabado de licenciar e a fazer um estágio a recibos verdes pelos mínimos? E terá coragem de dizer a este jovem para continuar a descontar em nome de uma reforma que em boa verdade não sabe se alguma vez vai receber?


 


As afirmações do Presidente Cavaco Silva são uma séria machadada na já desgastada imagem dos políticos portugueses. Por estas e por outras é que apenas 56% dos portugueses acredita que a democracia é o melhor sistema político. Nós, por cá, não temos elites políticas. Temos apenas ocupantes temporários de instituições, demasiado ocupados a gerirem os seus poderes e a recompensarem os seus apoios. As dificuldades de que o Sr. Silva se queixa são o retrato dos dirigentes que temos.


 


(Publicado no diário Metro de 24 de Janeiro)

janeiro 17, 2012

EMEL ALVO DO PROVEDOR DE JUSTIÇA

O Provedor de Justiça, Alfredo José de Sousa, dirigiu uma recomendação à Câmara Municipal de Lisboa, pondo em causa as taxas praticadas pela EMEL para a atribuição de um segundo e terceiro dístico por habitação. Actualmente a EMEL cobra o valor anual de 12 euros pelo primeiro dístico de uma habitação, 30 pelo segundo e 120 pelo terceiro e é esta disparidade de valores que é posta em causa. Segundo o Provedor de Justiça, que agiu após queixas de munícipes, dos regulamentos municipais de estacionamento não consta «justificação alguma para o valor desta taxa ou sequer para o seu agravamento», o que está em contravenção com o Regime Geral das Taxas das Autarquias Locais.


 


«A Câmara de Lisboa pode ver-se confrontada com um pedido de declaração de nulidade dos Regulamentos Municipais de Estacionamento nas Coroas Tarifadas, e dos Regulamentos Municipais das Zonas de Acesso Automóvel condicionado» - afirma o Provedor.


Na sua recomendação Alfredo José de Sousa afirma ainda ter reservas pelo facto de as taxas não terem em conta a extensão dos agregados familiares.


 


Esta posição do Provedor de Justiça chama mais uma vez a atenção para o enquadramento em que a EMEL se move – pelos vistos mais uma vez abusivo.


 


Ao longo dos anos o comportamento da EMEL tem sido um somatório de prepotências, algumas ilegalidades e enorme desprezo pelos munícipes – que são tratados como criminosos logo à partida. Nem sequer o argumento de que a EMEL disciplinaria o estacionamento é efectivo – a EMEL não ajuda a resolver o maior problema que é a dupla fila de estacionamento mas é muito rápida a actuar quando há um pequeno atraso ou falta um bilhete de parquímetro. Eu, por mim, desejo o dia em que a EMEL seja extinta.


 


(Publicado na edição de hoje do diário Metro)

janeiro 13, 2012

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INSEGURANÇA – Esta insegurança de que aqui falo hoje não tem a ver com a onda de assaltos, ou carjacking, ou roubos de caixas multibancos. Tem a ver com a onda de insegurança provocada por uma política de comunicação que, em vez de gerir expectativas e procurar criar um sentimento positivo, cria angústias e atira as pessoas ainda mais para baixo do que já estão. O início da semana foi marcado por afirmações de que estariam para chegar mais medias de austeridade, que o Orçamento de Estado, cuja execução começou há menos de meio mês, já tem potenciais desvios que não teriam sido calculados e que, assim sendo, havia que procurar mais receitas para tapar esses desvios. Para a praça passou a ideia de que Vitor Gaspar afinal não era perfeito e que também se enganava a fazer as contas. Com o seu ar de sempre o próprio veio dizer que as causas indicadas não provocarão medidas adicionais de austeridade, mas disse-o de uma maneira que deixou um portão escancarado para que surjam outras quaisquer medidas de austeridade. A palavra austeridade está no ponto em que provoca medo. Todos os dias desta semana surgiram notícias de redução de postos de trabalho em empresas privadas de razoável dimensão; outras preparam-se para fazer cortes salariais. E no Estado, quando se começa a cortar a sério? O maior problema de comunicação deste Governo é que as suas únicas estratégias conhecidas baseiam-se em austeridade e mais impostos. Para além da dívida, não se vê uma estratégia, um objectivo, um plano e a forma de o executar. Se existe, não é comunicado.


 


ISCO – Qualquer pescador sabe que sem isco a pesca é curta e o peixe que se apanha não é do melhor. O quadro fiscal português, em matéria de captação de investimento externo, é um anzol enferrujado e sem isco. Nas últimas semanas percebeu-se, até em empresas portuguesas, como o quadro fiscal é tão confuso e mutante, que quem pode vai daqui para fora. Mas os problemas não se esgotam no quadro fiscal – os atrasos na justiça e a burocracia também demovem os mais audazes. Volta e meia, para alguns projectos pontuais considerados estratégicos, lá aparecem uns incentivos especiais. Isto não chega – não se vai conseguir captar investimento reprodutivo, criar emprego e desenvolver a economia com um anzol neste estado catastrófico. Cada vez que um investidor estrangeiro olha com atenção para Portugal devem-lhe vir à mente estas palavras de uma canção dos Rádio Macau : “Eu não sei, se hei-de fugir / Ou morder o anzol / Não há nada de novo aqui/ Debaixo do sol”. 


 

PROBLEMAS – Quem aterrasse em Portugal na última semana acharia que o maior problema de Portugal está na Maçonaria. Como todos sabemos, mesmo havendo comportamentos estranhos em algumas figuras ligadas à Maçonaria, não é esse o nosso maior problema. Claro que o secretismo que continua a ser cultivado à volta da organização não ajuda a melhorar as coisas. Já muita gente escreveu sobre a origem da Maçonaria – mas actualmente o problema reside na sua falta de capacidade de adaptação a uma sociedade aberta e transparente, onde o escrutínio de pessoas e actos se tornou corriqueiro. Um comunicado publicado nestes dias nos jornais pela Maçonaria é um exemplo acabado do desajustamento em relação ao tempo – a generalidade das pessoas simpatiza com os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Mas de há três séculos para cá estes ideais tornaram-se pensamento corrente nas sociedades contemporâneas – já não é uma elite que os promove, é antes a sociedade que, em nome desses princípios, gostaria que não houvesse favorecimentos de qualquer espécie. Os sectores mais retrógrados e conservadores da Maçonaria dizem que estão a ser vítima de uma perseguição igual à do tempo de Salazar. Ninguém consegue levar isto a sério. Nada disto surgiria se algumas pessoas não tivessem tido comportamentos públicos difíceis de aceitar, independentemente de credos, simpatias ou devoções. Se a própria Maçonaria tivesse tido mais cuidado com aqueles que utilizam o seu nome, se tivesse sabido adequar-se aos tempos, se se mostrasse mais desinteressada dos poderes passageiros, talvez estivesse a ser elogiada em vez de acusada. Os problemas só se tornam públicos numa organização quando ela não é capaz de os resolver internamente. Por razões familiares e de educação habituei-me a ver os maçons como um exemplo de honestidade e integridade. Mas a imagem que nos últimos tempos tem passado não é bem essa – e o problema reside aí, não no regresso ao passado.


 


SEMANADA – Crédito à habitação caiu para menos de metade em 2011; venda de música caiu 38% no 1º semestre de 2011; Daniel Ortega tomou posse como Presidente da Nicarágua com o venezuelano Hugo Chavez e o iraniano Mahmoud Ahmadinejad a apoiá-lo; A PSP admitiu não ter carro para patrulhar centro histórico do Porto; Soares quer país a bater o pé à troika; ritmo de destruição de emprego vai duplicar em 2012.


 


ARCO DA VELHA – Os funcionários do Banco de Portugal vão manter em 2012 os subsídios que outros trabalhadores do Estado vão perder.


 


PALAVREADO – «Vamos todos pagar implantes mamários» – título no Jornal de Notícias de dia 10.


 


VER – Ora aqui está uma semana cheia de ideias visuais. Começo por elogiar a mais recente edição da revista Egoísta, sob o tema “Viagem” onde a fotografia ocupa um lugar preponderante (declaração de interesse: publicam um portfolio de instagrams minhas). Graficamente este número da “Egoísta” esta um achado – ainda bem que por cá se fazem revistas assim. A seguir, ainda na fotografia, elogio a ideia da renovada grelha da TVI24 em fazer um programa semanal, de 15 minutos, que tem a fotografia como tema. A responsabilidade é de Luiz Carvalho, o programa chama-se «Fotografia Total» e vai para o ar ao Domingo, às 11h45. E finalmente deixo aqui já o aviso que na próxima semana, a partir de dia 19, vai estar patente na Sociedade Portuguesa de Autores uma exposição dedicada á obra de João Ribeiro, um dos mais importantes fotojornalistas portugueses da última metade do século XX.


 


OUVIR – Nunca é fácil escrever sobre um disco póstumo – é um objecto que fica a meio caminho entre o testamento e o abutre, incómodo em ambas as situações. Hesitei um bom bocado antes de escrever sobre «Hidden Treasures», de Amy Winehouse, mas a única conclusão possível, depois de ter ouvido o CD várias vezes, é que ele é uma prova do grande talento que Amy Winehouse tinha, da sua enorme capacidade de interpretar canções – suas, mas também clássicos que ela aqui recria, como «Our Day Will Come», «Will You Still Love Me Tomorrow», «Valerie», «The Girl From Ipanema», ou «Body And Soul» (este um dueto com Tony Bennett) e «A Song For You». Mas para além destas versões há vários temas da própria Amy Winehouse, e tenho que referir aqui «Like Smoke», uma prova do seu enorme talento também de compositora. É engraçado notar que um disco póstumo assim, que mistura novas versões de temas originais da autora, com temas inéditos e versões de temas de outros autores acaba por ser a prova do talento multifacetado de Amy Winehouse. E, nessa medida, por ser uma homenagem que ela bem merece.


 


PROVAR – Se quiserem um petisco para uma das tardes de fim de semana procurem a conserva de escabeche de frango com essência de figo, preparada no Porto e vendida em Lisboa na Mercearia Criativa (Av Guerra Junqueiro 4A) experimentem-na com um bom pão, como o de Castro Verde que também lá se vende. E no fim rematem com a Tarte (de amêndoa).


 


BACK TO BASICS – Uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo – Lao Tse.


 


(Publicado no Jornal de Negócios de dia 13 de Janeiro)

Uma Cidade Abandonada

Não é embirração minha, mas acho que Lisboa está cada vez pior, cada vez mais mal governada, cada vez mais abandonada. Daquilo que leio nos jornais, na Câmara Municipal vai uma confusão, com os vereadores da maioria cada vez mais afastados. Na realidade a actual maioria só existe pela necessidade de manter o poder e sem nenhum espírito de dever ou de serviço para com os munícipes.


 


Hoje já é claro que não há um projecto comum, que a agenda de Helena Roseta é uma, a de José Sá Fernandes é outra, a de Nunes da Silva é outra ainda, a de Manuel Salgado é variável e a de António Costa é um mistério. Olha-se para o executivo e não se vê actividade palpável, daquela que se sente nas ruas, no conforto dos cidadãos. Torna-se cada vez mais evidente que António Costa está sentado na Câmara com o olhar apontado ao Largo do Rato. O problema é que somos nós a pagar este exílio partidário.


 


Uma situação destas tem consequências terríveis em Lisboa, que está cada vez mais desconfortável, frequentemente suja, inóspita para os seus habitantes. António Costa está desde 2007 na Câmara Municipal de Lisboa, há quatro anos, portanto – o tempo de um mandato inteiro. Nas eleições prometeu mundos e fundos mas nem sequer o equilíbrio das contas, que garantia ir conseguir em dois anos, conseguiu nestes quatro que já leva.


 


À sombra de António Costa, a cidade definha, deixou-se instrumentalizar pelo Governo anterior em projectos absurdos, e deixou de ter objectivos. Lisboa não apostou na reabilitação urbana, nem no combate à desertificação ou no desenvolvimento económico. É uma cidade parada, estagnada, que continua a perder habitantes e qualidade de vida.


 


(Publicado no diário Metro de 10 de Janeiro)