Hoje vou dedicar esta crónica a títulos de primeira página de jornais. Acho que ajuda a dar um retrato do país. Mostra como os jornais são importantes para relatar o que se passa – para perceber as manobras de contra informação e para ir mostrando os podres vários que grassam neste rectângulo à beira-mar plantado. Habituem-se a passar numa banca de jornais e a ler as capas dos jornais. Vão ver que têm uma ideia diferente daquela que sai dos telejornais.
O Expresso deste sábado fazia-se porta-voz de uma informação muito conveniente para Belém: «Polícia travou visita de cavaco (à António Arroio) por temer agressão». Este teria sido o tal impedimento de última hora. Com esta bela manchete a decisão de evitar a manifestação deixou de ser do Presidente e passou para a Polícia. Dá jeito, não é?
O «Correio da Manhã» de ontem afirmava que a «GNR empresta milhões a militares falidos» e dizia que o serviços sociais da corporação prevêem conceder 12 milhões de empréstimos este ano, cerca de um milhão por mês. Dá que pensar. No mesmo jornal transcreve-se uma conversa telefónica do ex-Primeiro Ministro com o Reitor da Universidade onde fez um curso, dizendo que «Sócrates nem sabe que fez um trabalho final». Ainda no mesmo jornal há outro título que salta à vista: «Triplicam acusações pelo crime de corrupção».
O «Diário Económico» chamava a atenção para o facto de, agora os «Contribuintes que pagam IVA (serem) obrigados a ter email nos CTT». Quer dizer, o Estado resolve onde podemos ter morada electrónica e onde não podemos – obrigando-nos a ter mais uma caixa para visitar onde, aposto, as más notícias serão dominantes.
No «Diário de Notícias» o «Procurador Geral da República admite que não consegue cumprir a lei de combate ao crime». No sábado, o título do mesmo jornal era «Só um em cada 40 jovens ganha mais de 900 euros».
Querem melhor retrato de um país do que aquele que é deixado por estes títulos?
(Publicado no diário Metro de 28 de Fevereiro)