janeiro 22, 2011

(Publicado no Jornal de Negócios de 21 de Janeiro)

ELEIÇÕES – Não tenho memória de uma campanha eleitoral tão fraca e desinteressante. Dos discursos dos candidatos aos tempos de antena, tudo é bafiento, vazio, desinteressante. Existem mais ataques pessoais do que debate de questões importantes. Dificilmente se percebe qual a posição dos candidatos sobre o papel da Alemanha e França na crise europeia. Análises sobre as consequências da evolução tecnológica no mercado de trabalho não existem. Ligações com a realidade do mundo em que vivemos são quase nulas, para além dos habituais muros de lamentações. Manuel Alegre é um poço de contradições, Cavaco Silva deixou-se enredar num poço de negações, Fernando Nobre é incompreensível e os outros candidatos não têm existência real – um fora do aparelho que o alimentou, outro fora da fantasia que criou e o último fora do ridículo que cultiva.


Os cartazes são incipientes e, a propósito, sugiro que visitem o blogue www.imagensdecampanha.blogs.sapo.pt que fez um belo apanhado de cartazes eleitorais de presidenciais anteriores.


É muito curioso que em 2011 os tempos de antena televisivos sejam tão pobres, tecnicamente rudimentares, mal feitos até. Não é só uma questão orçamental  -certamente é também a prova de como os próprios candidatos consideram pouco úteis os tempos de antena e acabam por optar não os utilizar de facto, limitando-se a ocupar da forma mais básica o espaço que lhes foi dado. – até porque concentram esforços em criar todos os dias oportunidades de imagens para os noticiários das televisões, que é o veículo que privilegiam e verdadeiramente lhes interessa. Esta questão deve aliás fazer pensar na lógica de penalizar as estações privadas de televisão com um considerável espaço de tempo de emissão, em horário nobre, que na prática lhes retira audiência. Em muita coisa precisamos de mudar a Lei Eleitoral – para além do sistema político – e estas presidenciais estão a ser a prova disso. Muito provavelmente os resultados vão ajudar a comprovar isto mesmo, mostrando que é importante existir uma reflexão profunda sobre a forma como se faz política e como se devem dinamizar os processos eleitorais para assegurar maior participação. Tenho curiosidade em ver como vão ser as abstenções, os votos nulos e os votos brancos. Tenho curiosidade em ver como será o resultado de Alegre versus Nobre. E tenho curiosidade de ver quantos portugueses não votarão em nenhum dos candidatos, como eu – farto que estou de andar a escolher o mal menor.


 


 


ARÁBIAS – Esta semana fartei-me de pensar no livro «Os Charutos do Faraó», um dos clássicos das aventuras de Tintim. Foi nesse livro que apareceu um personagem chamado Oliveira de Figueira – e já que estamos em época de celebrar a Wikipedia é de lá que retiro este texto: «Ele é um comerciante oriundo de Lisboa, vendendo suas mercadorias em pleno desero do fictício país de Khemed. Dotado de uma grande facilidade para convencer, consegue vender a Tintim uma grande quantidade de objectos inúteis, assim como aos árabes que aparecem de todas as partes ao escutá-lo a falar. » Pois surgiu-me natural e óbvia a comparação entre Oliveira de Figueira e José Sócrates no seu périplo destes dias pelas Arábias. Sócrates apregoou tudo o que quis – das energias renováveis ao progresso tecnológico. Da venda da nossa dívida não falou em público, mas o Ministro dos Negócios Estrangeiros encarregou-se de dizer que também a dívida fazia parte do catálogo da venda ambulante. Na última semana antes das eleições Sócrates vestiu-se de personagem de banda desenhada e preferiu os ares das arábias aos jantares de carne assada do seu candidato. É uma curiosa coincidência.


 


 


ARCO DA VELHA – Se Alegre perder, o PS prepara-se para acusar o Bloco de Esquerda – lido nos jornais.


 


 


VER – «Encenações» é o título da exposição de 40 novas obras de Manuel Amado, que ficará na bela sala da Sociedade Nacional de Belas Artes até 15 de Março. O habitual traço minucioso do pintor contrasta com o universo que projecta personagens de fantasia,  criando por vezes como que  instantâneos de sonhos. Alguns dos quadros respiram num universo próximo da banda desenhada, proporcionando leituras diversas – na cor, no enquadramento, na narrativa visual. Há um lado contemplativo nesta série de novas obras, em que o autor posiciona as personagens que criou no exacto ponto em que ele próprio se colocou para visualizar (ou imaginar) as imagens pintadas. Rua Barata Salgueiro 36, das 14 às 20h00, fecha domingos e feriados.


 


 


LER – A revista «Monocle» reincidiu na edição de um jornal. É a segunda vez, a primeira foi no Verão e o jornal estreia em formato jornal da «Monocle» era dedicado ao sol e ao mediterrâneo. Esta segunda edição é dedicada à neve e à montanha. Mais uma vez surpreende a capacidade de adaptação do formato contido da «Monocle» ao tamanho de um jornal e a capacidade que a equipa da publicação tem em fabricar conteúdos temáticos de forma tão interessante. E é isso exactamente que é o mais interessante quando se folheiam estas 72 páginas , ao longo de artigos sobre os encantos da capital da Islândia, exemplos de boa arquitectura em retiros de montanha, devaneios gastronómicos adequados ao Inverno ou uma bela reportagem sobre Andorra, que por acaso é um dos destinos de neve preferidos pelos portugueses.


 


 


OUVIR – «Dig» é o nome de um álbum gravado em 1951 com Miles Davis (trompete) e Sonny Rollins (sax tenor), a liderarem um grupo que incluía também Art Blakey na bateria, Tommy Potter no baixco, Jackie McClean no sax alto (a sua primeira gravação para disco) e Walter Bishop no piano. A presente reedição, remasterizada, em CD, reproduz os sete temas do LP, quatro dos quais são originais de Miles Davis (como «dig», a faixa título» e outros três versões, entre as quais destaque para «It’s Only A Paper Moon». O que é mais curioso é que esta gravação é posterior a «birth Of The Cool», o histórico registo que projectou Miles Davis, e é bem diferente do ponto de vista da sonoridade. Miles Davis tinha 25 anos na altura e Sonny Rollins tinha acabado de fazer 21. É muito engraçado descobrir hoje como eles encaravam e faziam música na altura – há exactamente 60 anos. Disponível na FNAC.


 


 


PROVAR – Ao fundo do Campo Grande, paredes meias com o estádio universitário, depois de passada a Reitoria e seguindo em frente, fica o Hipódromo do Campo Grande. Lá dentro está um restaurante que vale a pena visitar. A sala é confortável, ampla, a misturar o clássico e o contemporâneo, com uma ampla janela sobre o relvado do hipódromo. A cozinha é claramente portuguesa, tradicional, com uma proposta variada de carnes onde se destacam de bifes e umas iscas que são de perdição, algumas tentadoras ofertas de bacalhau, peixes no carvão e uma dourada à Bulhão Pato que chamou a atenção. Boa carta de vinhos, preços ajuizados para a qualidade da matéria prima, da confecção e do serviço. E do local, também, que a sala merece elogios. Estacionamento fácil, encerra domingos ao jantar. Telefone 217 957 521.


 


 


BACK TO BASICS – Nunca se mente tanto como em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça - Bismarck

Não voto contrariado

(Publicado no diário METRO de 18 de Janeiro)


 


Domingo que vem há eleições e encaro seriamente a possibilidade de, pela primeira vez na vida, não ir votar em nenhum candidato. Gostava de poder e querer ir votar mas estou farto do mal menor. Não me apetece votar num candidato que passou um mandato a ver se não incomodava ninguém, para poder ser reeleito. Estou farto de superioridades morais apregoadas. Nenhum dos candidatos me motiva.


 


A campanha eleitoral é um exemplo do que não deve acontecer: insultos em vez de ideias, mentiras em vez de esclarecimento, promessas em vez de factos.  Irrita-me a política tratada como um jogo de futebol: o nosso sistema reduziu a actividade política e cívica a uma guerra clubística entre partidos e entre quem eles apoiam.


 


Cada cidadão tem o dever de participar – e votar é uma forma de participação. Mas os políticos, os candidatos, têm o dever de nos mobilizarem, têm o dever de, mais por actos do que por palavras,  nos convencerem. Mas da mesma forma que votar é uma forma de participação, não votar é uma forma de rejeição do sistema, dos seus intervenientes. Se não encontro candidato que me satisfaça, não sou obrigado a votar em ninguém.


 


A minha única dúvida está em saber exactamente como vou fazer isto – se me abstenho por ser incapaz de escolher um voto, ou se faço voto nulo e escrevo qualquer coisa. Uns amigos meus – aviso já que até são à esquerda – vão escrever « FMI»no boletim de voto. Eu talvez escreva «eleições antecipadas».  Tenho até ao fim de semana para decidir, mas uma coisa é certa: nenhum destes candidatos leva o meu voto e não me apetece encher-me de comprimidos contra a azia no Domingo à tarde.


 


Domingo à noite, quando os resultados forem conhecidos, vou contar a soma de abstenções, com votos nulos e votos em branco. E vou ver quantos votaram. Eu aposto que a maioria dos eleitores não vai querer participar nisto, não vai votar em nenhum dos candidatos – e se isso acontecer, ainda bem. Talvez se perceba que é preciso mudar alguma coisa.


 

(publicado no Jornal de Negócios de 14 de Janeiro)

SITUAÇÃO – Durante anos o Estado passou rasteiras à classe média, quer em matéria de impostos e taxas, directos e indirectos, quer através de milhentos ardis para lhe dificultar a vida. Com as novas medidas de austeridade a coisa refina-se: ainda mais impostos e taxas, penalizações nos custos de saúde, nas deduções dos recibos verdes, ameaças de maior desemprego, diminuição do poder de compra. Este aperto da classe média, que vive cada vez mais sufocada entre os empréstimos que a ilusão de progresso incentivou, e a dura realidade da diminuição efectiva dos seus rendimentos, só pode ter efeitos de bola de neve.


As grandes cadeias de supermercados vão facturar menos, os concessionários das auto-estradas vão receber menos portagens, todo um sistema de funcionamento da sociedade que está montado, em boa parte, para viver das receitas do estilo de vida da classe média, está agora em risco de entrar em colapso. Olho para o lado e vejo dezenas de amigos e conhecidos que já sabem, na sua própria família directa, o que é o desemprego; olho para pessoas com cinquenta e poucos anos que não conseguem encontrar trabalho para as qualificações e experiência que têm; olho para o outro lado e vejo jovens recém-licenciados que desesperam por conseguir aplicar aquilo que estudaram e que a proliferação de cursos ajudou a pensar que um diploma só por si seria uma chave para uma vida sem problemas. Estamos agora a enfrentar décadas de irracionalismo – na educação, mas também no consumo, no modo de vida, na falta de incentivo a poupanças, na construção de uma sociedade que beneficiava o facilitismo, a começar pelos políticos que laboriosamente dela se alimentaram.


 


 


MEMÓRIA - Manuel Alegre foi, durante um semestre,  secretário de Estado do I Governo Constitucional. Nessa qualidade encerrou as quatro publicações do grupo da Sociedade Nacional de Tipografia, entre as quais o diário «O Século», em Fevereiro de 1977, atirando para o desemprego 900 trabalhadores.  Talvez a história dos media portugueses fosse bem diferente se Alegre não tivesse assumido o papel de carrasco do maior grupo de imprensa que então existia e que integrava o diário «O Século» e as revistas semanais «Século Ilustrado», «Vida Mundial» e «Mulher- Modas e Bordados». Quando assinou a morte do grupo do «Século»,  Manuel Alegre fez promessas de uma reestruturação que nunca foi sequer iniciada. É este o candidato que se nomeia campeão da Liberdade.


 


PRESIDENCIAIS – Olhando para o que se passa só posso achar que a candidatura de Defensor de Moura é uma lebre propositadamente largada para servir de tambor a Manuel Alegre nos seus ataques a Cavaco. Nestas presidenciais não há ideias, nem linha política, apenas ataques e contra-ataques. É um jogo de futebol mal jogado, um péssimo espectáculo para os eleitores.  Não admira que comecem a aparecer frases como esta, de Pedro Rolo Duarte, no seu blogue: «É desolador querer votar e não ter em quem votar».


 


 


DESTAQUE – O cartonista Luis Afonso resumiu da melhor forma a situação que se vive em Portugal: «Ajuda financeira não sei, mas ajuda psicológica precisamos de certeza».


 


 


ARCO DA VELHA – «Senhor Professor, tomei dois supositórios para poder estar aqui hojea vê-lo» - declaração de uma apoiante de Cavaco Silva durante uma acção de campanha eleitoral no Fundão.


 


 


VER – Quem gosta de banda desenhada não pode perder a exposição que está no Museu Berardo desde o início desta semana, «Tinta dos Nervos» - e que precisamente se dedica à banda desenha contemporânea feita em Portugal, com um selecção cuidadosa de autores feita por Pedro Vieira de Moura. Aqui coexistem nomes menos conhecidos, com actividade quase só em fanzines, como autores mais conhecidos com obra editada e divulgada. E algumas surpresas, como bandas desenhadas feitas pelo pintor Eduardo Batarda ou do músico Carlos Zíngaro.


 


 


LER – Quando passeamos nas ruas de uma cidade e nas estradas que lhe dão acesso vemos continuamente manifestações de arte urbana – dos graffittis a instalações. A editora Taschen reuniu centenas de imagens destas num livro absolutamente fantástico - «Trespass, História da Arte Urbana Não Encomendada». O título em si vale a pena, porque de facto é de arte não encomendada que falamos, quando falamos destas formas de arte urbana contemporânea. É uma actividade que nasce do improviso, do desejo de auto-expressão, do impulso criativo do momento. No prefácio do livro Sara Schiller sublinha que esta é uma viagem «por testemunhos efémeros» que se tornam parte da paisagem e sublinha «o forte espírito de comunidade destes artistas», para depois fazer notar uma evidência que me tinha passado despercebida: «A internet, combinada com a máquina fotográfica digital ou mesmo os telemóveis actuais, permitiu partilhar imagens e torná-las conhecidas do outro lado do mundo»; ou seja, possibilita que se veja mesmo sem se ir ou estar, de forma praticamente instantânea. Quando se folheia o livro, ao longo das suas 320 páginas, percebe-se este espírito de partilha, e de descoberta. No posfácio, Anne Pasternak sublinha que esta é uma «arte não encomendada mas intervencionista, uma arte em que os artistas concretizam as suas ideias por conta própria; onde há parede ou asfalto há uma superfície que pode servir aos artistas intervencionistas, que estão por todo o lado».


 


 


OUVIR – A coisa mais verdadeira que li sobre este CD dos LCD Soundsystem, «This Is Happening», é que cada disco é o resultado da colecção de discos dos seus criadores. Ouvindo este álbum, geralmente considerado como um dos melhores do ano passado, é isso mesmo que transparece. Aqui as influências são de David Bowie, de Eno, de Robert Fripp, mas também de Iggy Pop ou dos Human League. O resultado final é uma conjugação de ritmos que não nos deixa ficar quietos, uma constante provocação dos sentidos e das memórias auditivas. Entretenimento inteligente.


 


 


PROVAR – Uma boa refeição faz-se de um somatório de componentes: conforto da sala, qualidade dos ingredientes, o saber do cozinheiro e, finalmente a simpatia e qualidade do serviço. Vai sendo cada vez mais raro encontrar tudo isto num mesmo espaço, sobretudo em Lisboa, onde às vezes a vaidade de alguns chefes se sobrepõe ao respeito pelos clientes. Felizmente não é o caso de Henrique Mouro, o chefe que está por trás do restaurante Assinatura – que fica perto do Rato, numa perpendicular à Rua Alexandre Herculano. Henrique Mouro ganhou fama no Club, em Vila Franca de Xira, e transportou o seu saber, sem pretenciosismos escusados, para Lisboa. A sala é de boa dimensão, bem iluminada, mesas e cadeiras confortáveis. O serviço é competente e não intrusivo mas é na criatividade colocada na forma de interpretar receitas tradicionais portuguesas que se encontra a chave do sucesso do restaurante. Ao almoço há menus executivos (com a vantagem de se poder escolher apenas um prato ou fazer várias combinações entre as propostas) e à noite, em querendo, há propostas de degustação. A lista de vinhos é boa e a preços moderados. Assinatura, Rua do vale de Pereiro 19ª, Telefone 213 867 696.


 


 


BACK TO BASICS - Uma mudança deixa sempre patamares para uma nova mudança , Nicolau Maquiavel.


 


 

janeiro 11, 2011

O tristíssimo Alegre

(Publicado no diário Metro de 11 de Janeiro)


 


O mesmo candidato que, nos seus cartazes eleitorais, promete garantir democracia e estado social é um político com mais de três décadas de parlamento, mas com quase nula experiência governativa ou de gestão concreta de assuntos do Estado.


 


Na realidade Manuel Alegre foi secretário de Estado do I Governo Constitucional por escassos seis meses e fica na história por ter sido o governante que encerrou as quatro publicações do grupo da Sociedade Nacional de Tipografia em Fevereiro de 1977, atirando para o desemprego 900 trabalhadores daquele que era, à época, o maior e mais prestigiado grupo de imprensa existente em Portugal.


 


Talvez a história dos media portugueses fosse bem diferente se Alegre não tivesse assumido o papel de carrasco de um grupo de imprensa nessa altura. Por isso as suas declarações sobre o seu apego à Democracia esbarram no incontornável facto de, enquanto governante, a ter diminuído ao limitar – e muito - a oferta de imprensa existente.


 


O grupo de imprensa que Manuel Alegre encerrou integrava o jornal diário «O Século» e as revistas semanais «Século Ilustrado», «Vida Mundial» e «Mulher- Modas e Bordados». Era, em termos de qualidade e diversidade de títulos, um grupo ímpar na imprensa portuguesa da época.


 


Manuel Alegre acabou com ele de um dia para o outro, basicamente porque a linha editorial do «Século» o incomodava – a ele e ao Partido Socialista.


 


Quando assinou a morte do grupo do Século, Manuel Alegre fez promessas de uma reestruturação que nunca foi sequer iniciada. Na realidade o que interessava era encerrar aquelas publicações, limitar as vozes discordantes do Governo do PS.


 


No site da candidatura ou nos documentos oficiais de Manuel Alegre não se vê uma referência a esta sua acção enquanto governante. Manuel Alegre é do género de preferir esconder o que não lhe interessa. Talvez por isso esqueceu que tinha sido convidado por uma agência publicitária a escrever para uma campanha do BPP – e depois, quando a coisa se soube, meteu os pés pelas mãos.


 


Na realidade, Manuel Alegre não é um político fiável. Prefere esconder os seus erros a assumi-los.

(Publicado no Jornel de Negócios de dia 7 de Janeiro de 2011)

DÉCADA – A primeira década do século XXI foi, no caso português, uma década de enorme desperdício – de tempo, de oportunidades, de recursos, de ideias e de decisões. Uma década marcada por uma larga maioria de anos de governação do PS, em que o país não avançou. Na primeira metade da década Jorge Sampaio manobrou a forma e o timing das suas decisões, de acordo com os interesses do seu partido, para partir tranquilo de Belém, depois de ter entregue o Governo a José Sócrates.


 


Na segunda metade da década, José Sócrates fez ouvidos de mercador a todos os que avisavam dos perigos e da gravidade da situação – mesmo de dentro do seu partido - e conduziu o país ao descalabro, perante a relativa complacência de Cavaco Silva. E foi, ainda, a década em que a utopia da Europa se começou a desmoronar, em que o predomínio franco-germânico se consolidou, e em que as políticas comuns foram esquecidas. Tudo o que foi base do funcionamento dos Estados da Comunidade nas últimas duas décadas está em processo de revisão. E o tão enaltecido Tratado de Lisboa já é, maioritariamente, letra morta. «Foi porreiro pá» - dizia José Sócrates a Durão Barroso na cerimónia final desse Tratado. Viu-se, não é?


 


DISTRACÇÃO – As comemorações do Centenário da República custaram milhões e mobilizaram pouca gente. Serviram para  glorificar mais uma ideologia do que um ideal. E, no fim, arriscam-se a ter sido a ante-câmara da eleição presidencial menos votada dos últimos 37 anos. Se a abstenção passar dos 50 por cento ficaremos pelo menos com uma certeza: teremos um Presidente – e um regime - que não representa eleitoralmente a maioria dos portugueses. No entretanto a campanha alimenta-se de chicanas políticas, entre um Manuel Alegre desesperado para quem vale tudo, e um Cavaco apostado em ser o maior obstáculo à sua própria reeleição.


 


CULTURA – A actuação de Gabriela Canavilhas no Ministério da Cultura é uma desilusão. Sem orçamento nem força política, limita-se a gerir o caos em que o seu Ministério se foi transformando, sugerindo medidas avulsas, a maior parte das vezes irreflectidas, como é a questão da fusão dos Teatros Nacionais na polémica Opart ou as várias demissões que já provocou. São actuações como estas que levam a pensar se não fará sentido deixar de existir Ministério da Cultura, neste momento apenas um centro de custos, ainda por cima com despesas de funcionamento consideráveis para os resultados produzidos.


 


Não seria de estudar outro modelo? Aqui está um caminho que vale a pena debater, sobretudo na situação actual: qual o papel do Estado na Cultura? Como e onde se devem investir recursos públicos nesta área? E que pode o Estado fazer para incentivar o desenvolvimento da actividade privada  – pelo menos em boa parte das actividades relacionadas com a criação artística? A oposição teria aqui muita matéria para agitar as águas e quebrar preconceitos se se dedicasse ao tema com seriedades e sem demagogias.


 


PERGUNTA – Que diz António Costa aos aumentos decretados pelo Ministério da Administração Interna nos desbloqueamentos de veículos, reboques e estacionamentos em parques da polícia? São aumentos entre os 50% e os 100%, que tornam a vida ainda mais difícil aos lisboetas, sempre perseguidos pelos esbirros da EMEL. Lembrei-me, a propósito, do novo slogan que os trabalhistas britânicos criaram para denunciar os aumentos de impostos: «wrong tax, wrong time». Pense nisto, Dr. António Costa.


 


LISBOA – Os jornais relataram esta semana um caso que é um exemplo do desgoverno e inacção existentes na Câmara Municipal de Lisboa. O Centro de Dia, construído de raiz pela autarquia da capital em Campo de Ourique, ficou pronto em 2008 e custou perto de 900.000 euros. Desde então está vazio, a degradar-se, e nestes últimos dias foi vandalizado. As culpas deste estado de coisas vão passando de mão em mão sem ninguém assumir responsabilidade – a Junta de Freguesia diz que não é com ela, a Câmara diz que é com a Misericórdia, a Misericórdia diz que não tem a ver com o assunto e o vereador do pelouro de Acção Social, Manuel Brito, diz desconhecer o caso e fez esta declaração extraordinária: «Ainda tenho o pelouro da Acção Social, mas, na prática, deste há muitos meses que ele está nas mãos do senhor Presidente». Nem vale a pena comentar…


 


ARCO DA VELHA – Ricardo Rodrigues, aquele deputado ilusionista que fez desaparecer gravadores durante entrevistas incómodas, quando estava a ser inquirido sobre aspectos pouco claros da sua actuação enquanto advogado, foi o melhor que o PS se lembrou de arranjar para presidir à nova Comissão de Inquérito sobre Camarate. O mais espantoso de tudo é que, sobre o furto dos gravadores aos jornalistas, o Parlamento nada disse na altura. Vai-se a ver e, agora, o ilusionista recebe, em vez de admoestação, uma recompensa. Como é que se há-de acreditar no Parlamento?


 


DESCOBRIR  –  A revista «Computer Arts» tem uma edição internacional que se tornou um objecto de culto no meio do design digital. Desde há dois meses existe também uma edição portuguesa, muito bem feita por sinal. Para além de conteúdos comuns com a edição internacional, apresenta portfolios e entrevistas com criadores portugueses como André Beato, Luis C. Araújo,  Luis Bacharel ou Vasco Vicente, entre outros. A entrevista do mês é com André Carrilho, o caricaturista português que mais se internacionalizou. Da publicidade à banda desenhada, passando por jogos, novo software e conselhos práticos de negócio, a Computer Arts aborda várias áreas. Destaque, nas duas edições já em banca, para a rubrica estúdio do mês, em Janeiro dedicada á equipa da Dub Video Connection.


 


FOLHEAR – Magnífica a edição de Janeiro da «Wallpaper». Sob o título «What Happens Next» a revista leva-nos a descobrir as novas tendências da arquitectura, fotografia, design e moda – mas também da gastronomia. Esta edição inclui ainda os nomeados para os Design Awards e uma lista de novos empresários que dão nas vistas em todo o mundo – entre os quais está Catarina Portas com os seus quiosques e as lojas a Vida Portuguesa. A outra presença portuguesa na revista é uma belíssima página de publicidade á Renova - «The Sexiest Paper On Earth»ssinatura da empresa é magnífica - «Renova, the black toilet paper company». Aqui está um belo exemplo de uma empresa portuguesa que está a trabalhar bem a sua marca além fronteiras.


 


OUVIR – «My Beautiful Dark Twisted Fantasy» é um dos discos que mais apareceu nas escolhas dos melhores do ano em 2010. O seu autor é Kanye West, um rapper com um invulgar talento para fazer grandes canções – de tal forma que este seu álbum parece mais um «best of» que um disco de originais. Embora se decrete com regularidade a morte do hip-hop, a verdade é que Kanye West escreve de forma interessante, é diferente da maioria dos outros artistas, indiscutivelmente criativo, tem um ego do tamanho do universo e é consideravelmente louco. Mas no fim o resultado musical é magnífico. E magnético. Apetece repetir audição após audição.


 


PROVAR – Antes que o Sushi Café abra portas na Barata Salgueiro, continua a valer a pena experimentar os seus pratos nas Amoreiras. É um dos restaurantes de sushi com melhor relação de qualidade-preço e, também, um dos mais populares. Quem não gosta de sushi tem outras especialidades da cozinha japonesa onde pode fazer belas descobertas – desde massas a carnes. É um dos melhores restaurantes existentes nos centros comerciais de Lisboa. Telefone 213840299


 


BACK TO BASICS Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito (Albert Einstein)

dezembro 30, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Dezembro)

2011 - Desta vez, quando começo a desejar bom ano aos meus amigos, sinto-me um pouco cínico. Já sabemos que o ano que entra não vai ser bom. Vamos ter maiores dificuldades, os preços aumentam, os impostos aumentam, provavelmente o desemprego aumentará, há uma elevadíssima probabilidade de não passarmos do fim de Março sem o FMI nos bater à porta. O mais engraçado de tudo isto é que a entrada do FMI pode ser, paradoxalmente, o seguro de vida de José Sócrates. Com o FMI em acção diminui-se a possibilidade de se radicalizar a crise política – a começar pelo Presidente da República que for eleito e que pensará ainda mais, antes de qualquer tentação de dissolver a Assembleia da República. Se o FMI entrar em cena muito provavelmente fica afastado o cenário de eleições antecipadas no próximo ano e aumentam as possibilidades de Sócrates chegar ao final desta legislatura. Por este andar, José Sócrates ainda vai acender uma vela a Dominique Strauss-Kahn, o Director Exxecutivo do FMI.


 


2010 - Este ano serviu para mostrar que em Portugal subsistem dois grandes problemas estruturais – uma Justiça que não funciona e que se degrada cada vez mais, e uma corrupção que grassa de forma endémica e tem tentáculos em todo o lado, alimentando partidos, instituições, figuras públicas. De certa forma os agentes da justiça estão hoje tão desacreditados como os políticos. Para o mundo exterior fazem parte do mesmo círculo de sobreviventes que faz tudo para iludir a verdade e manter o poder. O alastrar da corrupção tem a ver com a degradação da justiça, com o sentimento de impunidade que se tornou uma característica da sociedade portuguesa, com a aplicação de dois pesos e duas medidas no dia-a-dia nos mais diversos sectores. A ineficácia da justiça corrói o país e este é um daqueles sectores onde as reformas não têm existido e, ao invés, tudo se tem degradado ainda mais.


 


PERGUNTA – Com o switch off analógico e a implementação da Televisão Digital Terrestre já definido para o primeiro semestre de 2012, quando é que a Anacom esclarece a forma e calendário de escolha dos operadores de canais TDT?


 


ARCO DA VELHA – António Guterres, em entrevista à Única: «Olho para trás com enorme tranquilidade». É preciso ter lata.


 


VER – Nesta semana fui ver «Inside Job - A Verdade da Crise», um documentário de origem norte-americana que faz uma análise factual da crise de subprime de 2008  e que lançou o sistema financeiro mundial no abismo. O realizador é Charles Ferguson e o narrador é Matt Damon. Através de uma investigação cheia de dados e de entrevistas com algumas figuras chave da política, da finança, de universidades, instituições internacionais e da informação, o filme segue o crescimento da influência de uma indústria cujas principais figuras procuraram – e conseguiram – menorizar os organismos nacionais de regulação, manipular e influenciar agências de rating e que permanecem em postos chave do Governo e de organismos oficiais nos Estados Unidos. O filme baseia-se no contraste de depoimentos, no uso de contraditório e é um belo exemplo de cinema documental – tecnicamente escorreito, com todos os intervenientes convenientemente identificados, com uma  banda sonora dinâmica. Não deixa de ser curioso que as entrevistas a responsáveis do FMI pareçam as mais lúcidas na análise do que aconteceu, chamando a atenção para numerosos alertas feitos ao longo do tempo e que não foram escutados. A História não se repete – mas foi isso mesmo que aconteceu em Portugal – avisos repetidos, vindos de todo o lado, olimpicamente ignorados por quem tinha o poder de intervir e mudar as coisas.  Nos Estados Unidos, desde que foi lançado, em meados de Outubro, o filme já fez mais de três milhões de dólares de bilheteira, um número invulgar para a exibição de um documentário. Em Portugal, em cerca de um mês, já ultrapassou os 16.000 espectadores. Quando se sai do cinema, depois de ver este «Inside Job», percebe-se que os implicados nesta história estão por todo o lado – a começar pela Administração Obama – e preparam-se para fazer outra das suas habilidades logo que possam. A título de curiosidade . um dos responsáveis das agências de rating que na véspera da explosão davam boa nota ao Lehman Brothers, diz alto e bem som, numa Comissão do Senado, que se limita a dar a sua opinião e que os ratings nada mais são que uma opinião. Uma poderosa opinião, pelos vistos.


 


LER – Aqui há uns anos, um dos grandes enigmas para os apreciadores de histórias de espiões, era saber como é que escritores como John Le Carré sobreviveriam ao fim da Guerra Fria, à queda do muro de Berlim e à desarticulação da URSS. Pois a verdade é que lá têm sobrevivido, e como se mostra no novo livro de Le Carré, «Um traidor dos nossos», continua a existir forma de construir um enigma e uma história em torno de um casal inglês de classe média e de um Russo de contornos duvidosos. O encontro entre os dois homens, o inglês e o russo, dá-se num court de ténis e é esse o cenário para a definição de personagens e o ponta pé de saída de toda a história. Empolgante, com belos episódios, «Um Traidor dos Nossos» é um regresso de John Le Carré a alguns dos seus melhores momentos, evocando situações do passado, numa mistura bem doseada com o presente, algures entre a nostalgia pelo tempo das longas partidas de ténis nas férias e a realidade do presente, marcada pelo instantâneo dos actos e das notícias.


 


OUVIR – O melhor disco português de 2010 teve a sua edição original em 1970. Chama-se «Com Que Voz» e é considerado, a par de «Busto», a melhor gravação da fadista. David Ferreira, que conhece como poucos a obra de Amália, pegou no disco original e nos arquivos da Valentim de Carvalho e criou uma nova edição. Rodeou-se de pessoas conhecedoras. A nova edição tem dois discos – o álbum original, remasterizado (e ainda mais surpreendente) e um segundo disco, intitulado «A Procura», que revela 19 gravações feitas na época e que eram desconhecidas ou pouco conhecidas, entre as quais alguns inéditos, como por exemplo uma gravação alternativa de «Com Que Voz». Frederico Santiago, que fez a procura nos arquivos e depois dirigiu a recuperação das gravações, fez um trabalho extraordinário. Da edição faz ainda parte um livro, de 88 páginas, no formato do CD, e que agrupa textos de vários autores, contando diversos episódios que marcaram uma época e as pessoas que na altura trabalhavam mais de perto com Amália Rodrigues. É preciso sentir e viver uma dedicação especial para fazer um objecto assim – com respeito pela tradição e com a curiosidade da descoberta; com evocação da memória e a revelação do que estava escondido. David Ferreira é dos grandes editores portugueses e não havia melhor pessoa para ter dirigido este trabalho e nos ter feito redescobrir, ao fim de 40 anos, a grandeza, criatividade e originalidade de Amália Rodrigues.


 


BACK TO BASICS – «Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução » - Eça de Queiroz


 

dezembro 24, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 23 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Os debates televisivos entre os vários candidatos presidenciais estão a ser o «flop» do ano. Discursos redondos, manifesta falta de ideias, mero aproveitamento de oportunidade propagandística, há de tudo um pouco. O outro lado da evidente falta de interesse tem a ver com uma questão de fundo: os cidadãos afastam-se da política e  a culpa não é certamente deles, mas sim dos políticos que prometem uma coisa e fazem outra, eleição após eleição.


No caso concreto do Presidente da República a situação é agravada pelo descrédito em que a função tem caído – os estranhos e oscilantes mandatos de Jorge Sampaio ajudaram a denegrir a função,  e este mandato de Cavaco Silva, que correu entre a crise e o silêncio, foi tudo menos empolgante. Não deixa de ser irónico que no centenário da República a eleição para Presidente esteja a ser tão apagada e tão pouco mobilizadora.


Alguma coisa está mal, profundamente mal, em todos este sistema cada vez mais desfasado da realidade. Depois, claro, há oportunismos políticos que agravam tudo isto: como se pode acreditar num candidato, como Manuel Alegre, que está atado nas críticas ao Governo pelo facto de ser o candidato oficial do PS, e que não diz uma palavra sobre as formas de sair da crise?


 


 


LISBOA


Dos filmes de Vasco Santana e António Silva ficam-nos na memória personagens como o Costa, do Castelo. Infelizmente agora o Costa é outro – tem pouco humor e muita malandrice. Especializou-se em cobrar taxas e mais taxas a quem gosta de viver em Lisboa. O Costa, da Câmara (um apoiante de Alegre, claro) cobra taxas do subsolo e agora quer aplicar taxas para a protecção civil e bombeiros. Por acaso quem vive em Lisboa já cá paga IRS, já paga a contribuição autárquica e as receitas arrecadadas deviam ser para fazer funcionar os serviços da cidade. Mas não – as taxas são para a máquina burocrática da Câmara. Os serviços básicos e de emergência, esses, ficam a descoberto. O que o Costa, da Câmara, anda a fazer é um abuso e dos grandes – anda a meter-nos a mão no bolsos - nas próximas eleições lembrem-se disto. Lisboa está cada vez pior, o  incentivo para cá viver é cada vez menor. É uma pena mas é assim. E enquanto isso o centro da cidade vai definhando e ficando cada vez mais deserto. O ponto é este: a protecção e o funcionamento de uma cidade fazem parte da razão de ser de pagarmos impostos – cobrar mais taxas pelos serviços básicos é abuso e nada mais.


 


 


COMPRAS


Quem por estes dias for a um supermercado fazer compras do Natal vai ficar espantado como há tão pouca coisa produzida em Portugal. De figos secos a guloseimas, de frutas variadas a congelados, cada vez há menos produtos cultivados, transformados e embalados em Portugal. Deixámos de ser um país produtor, mesmo nas coisas onde tínhamos tradição. Um dos efeitos perversos da política europeia foi este de destruir a capacidade agrícola dos pequenos países e de fomentar a exportação pelos grandes produtores. Agora, os grandes países apontam-nos o  dedo porque nos endividámos para lhes fazer compras – em tudo, da indústria à agricultura. A utopia europeia revelou-se uma  perigosa forma de acentuar as diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Apenas os ingénuos acreditam que em Berlim e Paris há quem pense no bem comum. Como sempre, cada um faz por si, à custa dos outros. É uma história que tem séculos.


 


 


PERGUNTA


Donde vem tanta euforia com os sucessos da educação se esta semana foram revelados estudos que indicam que em 45% das escolas os resultados são fracos relativamente ao insucesso escolar?


 


ARCO DA VELHA


A notícia é de estarrecer: PS e CDS receberam a dobrar reembolso do IVA relativo a despesas de campanha eleitoral, apenas porque os serviços que deviam ser competentes não detectaram que existia uma duplicação.


 


 


VER


Até 23 de Janeiro, no Museu da Electricidade, junto ao Tejo, a Fundação EDP apresenta a “As Cidades de Vieira da Silva e Arpad Szenes”., num bem sucedido esforço de complementaridade em relação à Trienal de Arquitectura. Através de 58 obras das colecções da Fundação Arpad Szenes Vieira da Silva, Metropolitano de Lisboa e de uma colecção particular,  traça-se um percurso de observação do espaço urbano e da presença das pessoas nesse mesmo espaço. Como curiosidade algumas destas obras são agora expostas pela primeira vez. De terça a Domingo, entre as 10 e as 18h00.


 


LER 


A edição de Janeiro da revista norte-americana «Vanity Fair» tem na capa uma extraordinária fotografia de Johnny Depp, executada por Annie Leibowitz. O mais curioso é que a entrevista a Depp é feita Por Patti Smith, sim a mesma que canta e toca. E é uma bela entrevista, a propósito do file «the Tourist», protagonizado por Depp. Outro ponto de interesse nesta edição é um belo artigo sobre a vida de Jacqueline Onassis enquanto editora de livros, com algumas revelações curiosas sobre a forma como ela organizava o seu dia a dia no mundo da edição livreira.


 


REGISTO


«Femina», de Legendary Tiger Man, aliás Paulo Furtado, está  entre os melhores do ano da revista francesa Les  Inrockcuptibles. Merece. Já agora, para a mesma publicação, o melhor disco de 2010 foi «Suburbs», dos Arcade Fire. Para mim, também.


 


OUVIR


Chet Baker começou por ganhar fama graças a uma versão de «My Funny Valentine» que o então jovem tropetista gravou em 1952, inserido no quarteto de Gerry Mulligan. Uns anos mais tarde, em 1958, Chet Baker grava para a etiqueta Riverside um disco em que aparece primordialmente  como cantor - «Chet Baker Sings». Baker tem uma voz envolvente e um estilo vocal descontraído, mas sedutor. Chet costumava dizer que ele próprio não sabia se era um trompetista que cantava ou um cantor que tocava trompete. O disco adensa a dúvida – mas é um exercício de criatividade vocal e um dos momentos altos da sua carreira, agora remasterizado digitalmente, e com a inclusão de quatro extras em relação aos dez temas da edição original. «It Could Happen To You» - Chet baker sings, CD Riverside/Universal, na FNAC.


 


PROVAR


Se um dia destes lhe apetecer ouvir  música africana, acompanhada por boa muqueca de camarão, moamba ou cachupa, o destino pode ser a Casa da Morna, na Rua Rodrigues Faria 21, a Alcantara. Nas noites de quinta-feira Tito Paris está por lá – é um dos sócios da casa. Sala ampla, mesas confortáveis, bom som. Telefone 213 646 399.


 


BACK TO BASICS


Era bom que as pessoas que têm dificuldade em comunicar optassem por ficar caladas – Tom Leher

(Publicado no Jornal de Negócios de 17 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Este ano as candidaturas ao mais alto cargo do regime resolveram todas usar trajes de virgens puríssimas e, em uníssono, afirmam-se totalmente castas e isentas de especialistas em marketing em comunicação. Não tenho tanto a certeza que assim seja, mas admitamos que os candidatos falam verdade – coisa rara entre políticos. Se isso acontecer, como diz um amigo meu, há duas coisas interessantes de seguir: por um lado será curioso ver como se comporta a participação do eleitorado sem o esforço de captação de vontades coordenado por especialistas – ou seja, teremos maior ou menor abstenção?; e, por outro, já que juram que não existem spin doctors de serviço, é lícito pensar que as asneiras e malfeitorias produzidas durante a campanha serão da responsabilidade dos próprios candidatos e não de nenhuns especialistas. Na fase em que estamos Manuel Alegre leva a palma na utilização de golpes baixos e na táctica Wikileaks – calhandrices descontextualizadas com o objectivo de denegrir outro candidato. Já que os candidatos se afirmam entregues a si próprios teremos oportunidade de ver qual é o que melhor pensa pela sua cabeça, o que, confesso, me provoca uma certa curiosidade. Para já registo que no primeiro debate televisivo Fernando Nobre passou um rolo compressor por cima de Francisco Lopes, que corre o risco de mostrar o seu jogo ainda antes do que tinha planeado: sair de cena e dedicar-se à venda de digestivos que ajudem a tragar outro candidato logo na primeira volta – talvez o mesmo do Bloco de Esquerda e do PS. Até finais de Janeiro ainda me vou divertir um bocadito.


 


 


WIKILEAKS


A questão básica em todo o caso Wikileaks é a da verificação dos factos. O Wikileaks pegou em registos de comunicações diplomáticas e divulgou-os, tal e qual. Enviou-os a alguns jornais que aceitaram publicar informações desses registos, sem se preocuparem com a verificação da verdade dos factos. Ou seja, alguns dos mais prestigiados jornais do mundo publicaram afirmações, boatos, interpretações, sem o mínimo cuidado de verificar a sua veracidade, ao contrário do que mandam as suas regras internas de apuramento de notícias. O Wikileaks, na feliz expressão de  João Quadros neste jornal, não é mais que a porteira do mundo, que se dedica à intriga. A única coisa que o Wikileaks mostra é o triste estado de diplomatas de diversos países, mais preocupados em fazer calhandrice em torno de um gin tónico, do que em fazer análises sérias. Os documentos tornados públicos dão uma imagem pífia da diplomacia, e se calhar o retrato corresponde à realidade. Espiões de pacotilha, boateiros compulsivos, construtores de fantasias e fofoqueiros profissionais – eis o conteúdo principal do que tem sido revelado. Talvez fosse altura para que os diplomatas começassem a pensar no que fazem e na forma como falam, e não nos resultados das asneiras que dizem quando são publicamente conhecidas.


 


 


RESUMO DA SEMANA


O FMI está de novo a visitar as nossas contas; O Tribunal de Contas quer esclarecer a compra pela PSP dos blindados que chegaram atrasados à cimeira da Nato; Mário Soares acusou Angela Merkel e Nicolas Sarkozy de quererem destruir a Europa; o Ministro Santos Silva mostrou-se indignado com a demagogia dos políticos.


 


 


PERGUNTA


Porque será que «Sem Eira Nem Beira», a célebre canção dos Xutos sobre o senhor engenheiro, não foi tocada no concerto de apresentação da nova imagem da Novabase, que por acaso tem como grandes clientes em Portugal diversos organismos públicos?


 


 


ARCO DA VELHA


Num total de 233 milhões de euros que o Estado português pagou às empresas de sete sectores responsáveis por actividades consideradas de serviço público,  70% foi para o sector da comunicação social e, destes, 145,9 milhões foram para a RTP (e o resto para a Lusa). Existe aqui uma clara desproporção – o que torna ainda mais urgente ver o que deve e não deve ser considerado serviço público nesta área.


 


 


CASTIGO


Depois de uma campanha publicitária em que, de forma canhestra, se tentava captar a simpatia dos lisboetas, a EMEL lançou nos últimos dias uma nova estratégia de sedução: tolerância zero nas zonas centrais da cidade neste período de compras de Natal. Imagino que seja uma medida de apoio ao comércio de rua e de incentivo a viver e comprar em Lisboa. Claro que nesta frenética actividade a EMEL depois demonstra o melhor da sua incompetência quando não consegue dar prazos para desbloquear viaturas, provocando mais e mais incómodos, e quando o seu centro de atendimento telefónico é um exemplo de desprezo pelos utentes. Disto  (da falta de resposta no serviço a multados e bloqueados) é que ninguém na EMEL fala – porque o princípio é pura e simplesmente cobrar – e aí vale tudo- até a má educação dos agentes que, quando protestam pela demora, dizem que é consequência de se ter prevaricado. Já agora – as queixas relativas a tudo isto também se aplicam, ipsis verbis, à Polícia Municipal.


 


 


VER


Até 30 de Janeiro está patente no Palácio Quintela (Rua do Alecrim 70), a exposição «Display: Objects, Buildings And Space», organizada pela Experimentadesign em colabortação com seis galerias de Lisboa e que apresenta obras de 22 artistas – entre os quais Daniel Blaufuks, João Penalva, José Pedro Croft, Rui Chafes e Mauro Cerqueira. De Terça a Domingo entre as 10 e as 20 horas.


 


 


LER


Como estamos em época de desafios culinários, deixo aqui uma bela sugestão que fará as delícias de todos os apreciadores da arte da cozinha: «Memórias e receitas culinárias dos Makavenkos», um livro do grande animador deste grupo lisboeta, Francisco de Almeida Grandella – o homem que fundou os armazéns do mesmo nome e cuja vida é contada num belo prefácio de Anabela Natário. As receitas incluídas no livro são cruzadas com relatos de episódios e memórias diversas – já nem sei distinguir o que é mais delicioso.


 


 


OUVIR


Se gostam de heresias «Mongrel» é o disco ideal para passar estes dias. Trata-se de uma interpretação muito livre do trio de Mário Laginha à música de Chopin. Atenção, não é uma adaptação jazzística do trabalho do compositor – vais num sentido de recriação, mais do que de apenas fazer arranjos. Além de Mário Laginha no piano, o trio integra Bernardo Moreira no baixo e Alexandre Frazão na bateria – uma formação sólida em cujo talento reside grande parte do bom resultado obtido.


 


 


PROVAR


O restaurante D’Oliva Al Forno criou reputação em Matosinhos ao longo dos anos e agora chegou ao centro de Lisboa, à Rua Barata Salgueiro, um pouco abaixo da Cinemateca, onde antes era uma loja de roupa. Primeiro o espaço: muito bem conseguido, em dois níveis, uma zona agradável para fumadores perto do bar (que também é utilizado para servir refeições) e outra, mais ampla, para não fumadores. Boa insoniração – mesmo quando cheio a cacofonia não incomoda. Público muito diversificado em idades – ambiente simpático, bem decorado e, sobretudo, muito bem iluminado. Depois: uma cozinha verdadeiramente bem dirigida, pratos simples, bem confeccionados, uma lista bem pensada, com opções de preço sensatas e uma lista de vinhos bem escolhida e, também, com preços ajustados à realidade. Resta dizer que o serviço é verdadeiramente invulgar, em qualidade e atenção às mesas, mesmo com o restaurante cheio. As propostas são diversas, desde peixes do dia a massas italianas. Rua Barata Salgueiro 37ª, Telefone 213528292


 


 


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Nada sei, excepto a dimensão da minha ignorância – Sócrates (469-399 A.C.)

dezembro 11, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 10 de Dezembro)

PRESIDENCIAIS


Não havia necessidade nenhuma de se ter criado ruído em torno da marcação dos debates entre os candidatos às presidenciais. A candidatura de Cavaco Silva teria ficado bem melhor na fotografia se não se tivesse deixado posicionar como avessa a debates, usando pretextos um pouco desfocados e que ainda por cima só vieram chamar atenção para o seu próprio atraso em ter terminado a recolha das assinaturas de suporte à candidatura – um misto de inocência e de inexperiência política da máquina que está na candidatura do actual Presidente.


 


No fundo, a posição assumida em relação aos debates é a mesma lógica do tabú sobre a recandidatura: uma persistente atitude de auto-suficiência, de muita insensibilidade e, talvez, até de alguma dificuldade em conviver com os mecanismos comunicacionais das sociedades abertas e contemporâneas. Não basta estar nas redes sociais e ter sítios de internet bem feitos. O que interessa é o conteúdo – que se constrói dia-a-dia com acções e, também, com a forma como as decisões são tomadas. Os actos, como se sabe, falam mais que as palavras.


 


Dito isto, Cavaco Silva é, acho eu, o menor dos males, embora exista um tema central nestas eleições, que devia ser a prioridade do debate e do esclarecimento dos candidatos: o que fazer à seguir à eleição, quando a situação económica e política inevitavelmente se complicar ainda mais? Que pensa cada um dos candidatos sobre o Day After? Com os dados que temos, qual a probabilidade de dissolver o Parlamento ou de procurar outras soluções de Governo? A ideia é manter a crise em lume brando até o cozinhado apodrecer ou existe alguma ideia nova?


 


PARADOXO


Num país que inventa tantos mecanismos de regulação, que tantas vezes é intransigente em excesso em relação a normas e regulamentos, é paradoxal que uma situação que implica com a dignidade da vida humana, ainda por cima em situações de grande fragilidade física e psíquica, seja tão descurada e permita a manutenção em funcionamento - conhecendo-as – de instalações como o local onde se acumulavam idosos à espera da morte, na Charneca da Caparica, e que só por um infeliz acaso foi desmascarado.


 


Esta triste situação é o retrato de um Estado demasiado presente numas coisas e inexistente noutras. Para além dos responsáveis concretos pelo local, têm também de ser investigadas as entidades que deviam fiscalizar e evitar estas situações. Os nossos impostos, de todos, devem servir, em primeira linha, para evitar casos como este. Como sabemos não é isso que se passa.


 


 


PERGUNTA


O dinheirinho com que o Presidente Carlos César quer pagar compensações aos funcionários públicos açoreanos caíu do céu, foi pescado no mar, ou vem de todos os contribuintes?


 


 


ARCO DA VELHA


As preocupações governamentais sobre ecologia e sustentabilidade são esquecidas quando se operacionalizam sistemas como o dos novos recibos verdes electrónicos, que entraram em fase experimental no início de Dezembro. Não só, quando se imprimem, provocam um gasto mais alto de papel, como ainda por cima estão desenhados para inevitavelmente esvaziarem mais depressa os tinteiros das impressoras, provocando gastos suplementares e desperdícios acentuados. Aqui está um caso de uma medida que podia ter sido bem melhor pensada.


 


 


FOLHEAR


A edição do «The Economist» de 4 a 10 de Dezembro, traz uma série de artigos sérios e preocupantes sobre a Europa e sobre o Euro – analisando sem fantasmas nem pruridos a questão do desaparecimento do Euro, quer por dificuldades dos países do Sul, quer por falta de vontade da Alemanha. E na mesma edição está um belo dossier, sobre os perigos do aumento de poderio da China. Já agora, para os que têm iPad, é possível consultar alguns artigos escolhidos pelo editor de forma gratuita. E são boas escolhas, não é refugo.


 


 


VER


Cem anos depois do restauro dos painéis de S. Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, o Museu Nacional de Arte Antiga e a Faculdade de Belas Artes organizam uma série de colóquios e exposições, que, a propósito da efeméride, juntam artistas contemporâneos de várias gerações. Por exemplo na Galeria da Faculdade de Belas Artes estão até 7 de Janeiro obras de Ana Telhado, José Quaresma, Manuel San-Payo e Filipa Roque, entre outros. E, em vários locais do Museu Nacional de Arte Antiga, até 27 de Fevereiro, estão obras de Rui Chafes, Sara Bichão, Manuel Vieira, Manuel Botelho, Jorge Molder, Isabel Sabino e Pedro Cabrita Reis, entre outros.


 


LER


Confesso que de início pensei que a biografia de Keith Richards, «Life», seria um aborrecido relatório de ocorrências na vida dos Rolling Stones, nomeadamente os seus conflitos com Mick Jagger, pontuado por aspectos picantes da atribulada vida pessoal do guitarrista dos Rolling Stones. Acontece no entanto que logo nas primeiras páginas fiquei envolvido pela forma como a narrativa está construída por James Fox, o responsável pela forma final do livro. Ao longo de quase 550 páginas Keith conta a sua vida – desde as influências musicais da infância, até à forma como conheceu Jagger e os outros Stones.


 


Um dos aspectos curiosos é que ao longo do livro se percebe como desde cedo os elemntos dos Stones perceberam quepor mais divergências que tivessem tinham que manter o grupo em andamento – até porque o grupo era essencialmente a empresa que les haviam criado. Desse ponto de vista «Life» é um curioso relato de como manter um projecto no meio de todos os sobressaltos  - uma coisa que por exemplo os Beatles foram incapazes de fazer, divididos em primeiro lugar por disputas intensas em volta do quinhão de  pessoal cada um.


 


Keith Richards fala abertamente da forma como utilizou drogas e relata numerosos momentos da sua vida, na maior parte das vezes com o cuidado de procurar encontrar um ponto de contacto, no tempo, com a actividade da banda. E os relatos do processo de criatividade e de reinvenção que os Rolling Stones têm tido ao longo dos seus já quase 50 anos de vida – começaram em 1962 – são numerosos. De certa forma é também o relato destas décadas que passa por «Life», uma inesperada deliciosa leitura para estes dias.


 


 


OUVIR


Querem viajar no tempo e recuar até 1978? Fácil, ouçam o novo disco de Bruce Springsteen e vejam como gravações feitas nessa altura continuam actuais. «The Promise», assim se chama o novo duplo CD de Springsteen, agora editado, agrupa 21 temas que foram registados na altura das sessões de gravação do álbum «Darkness On The Edge Of Town» e que, na maioria, devido a um conflito legal entre o músico e o seu agente da época, ficaram bloqueadas para edição durante anos. Depois de convenientemente misturadas vêem agora a luz do dia, assim como alguns temas já conhecidos, como «Racing In The Street», que aliás abre o álbum. Há também as «versões Springsteen» de canções entretanto gravadas por outros artistas, como «Because The Night», um tema tornado popular por Patti Smith, e «Fire», que foi um tema que Springsteen escreveu para ser interpretado por Elvis Presley e cuja versão mais conhecida é das Pointer Sisters.


 


Ao longo destas duas décadas existem registos de algumas destas canções por Springsteen em gravações ao vivo, mas as gravações originais, de estúdio, eram desconhecidas. O que é mais curioso é que estas canções, escritas há mais de duas dezenas de anos, com uma das melhores formações de músicos da carreira de Springsteen ( Clarence Clemmons, Max Weinberg e Stevie Van Zandt nomeadamente) se mantêm particularmente actuais na conjuntura de crise e transformação em que vivemos.


 


 


PROVAR


Nada melhor para esta altura do ano que uma perdiz. Eu por mim gosto muito de as petiscar no Salsa & Coentros, quer a deliciosa perdiz com couve lombarda, quer a empada de perdiz. Rua Coronel Marques Leitão 12, Alvalade, telefone 218 410 990.


 


 


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Muita da histórica social do Ocidente nas últimas três décadas pode resumir-se a ter substituído o que funcionava por aquilo que parecia poder funcionar (Thomas Sowell)


 

dezembro 05, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 3 de Dezembro)

ANIVERSÁRIO – O Tratado de Lisboa está a celebrar o seu primeiro aniversário. A Europa, segundo opinião mais ou menos generalizada dos especialistas, está desfeita. Entre a pirómana Merkel e o desbragado Sarkozy, a crise alastra por todos os países. Depois da Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, já se fala de problemas em Itália, na Bélgica e na Holanda. Alguns mais atrevidos dizem que a França virá a seguir. Esta Europa é uma ilusão caríssima, que interessou aos grandes países só até certo ponto e que acabou por prejudicar de facto as economias mais pequenas. Os políticos que, nos pequenos países, se deixaram enredar pelo canto da sereia têm responsabilidades históricas no falhanço de uma comunidade que nunca foi verdadeiramente equalitária. A Comunidade Europeia é uma fantasia política cujo preço vamos pagar durante muitos anos. A verdade resume-se a isto: para nós, querer ser europeu é pior do que querer ser apenas português. Há uns anos a Restauração, que esta semana se assinalou, tinha percebido isso mesmo. Precisamos mais de uma Restauração do que de uma remodelação. E não precisamos ainda de um Presidente da República que olha para a ideia da Europa como para um Sol que nos ilumina – mesmo quando é evidente que nos apaga.


 


FEIRAR –  A Arte Lisboa tem o objectivo, programático, de divulgar a actividade de artistas e galeristas portugueses e de internacionalizar o mercado de arte em Portugal. Aos poucos tem deixado de fazer qualquer destas coisas. Este ano, por força da cimeira da NATO, mudou-se da Expo para a Junqueira, o que só por si podia ser uma boa coisa. A Junqueira é um espaço projectado por Keil do Amaral, mais aconchegado, mais central. O grande problema é que não foi feita comunicação suficiente para a mudança de local e muita gente foi ter à FIL Expo à procura de uma Feira que estava a uma dezena de quilómetros de distância.  Esta feira modificada teve um dia de duração a menos, a segunda feira, crucial para o público alvo que pode preferir não estar em Lisboa ao fim de semana. Não convidou jornalistas estrangeiros para divulgarem o evento, nem fez a mínima tentativa de internacionalizar o certame junto dos mercados de arte que nos são próximos. A lógica da FIL é apenas alugar os metros quadrados dos stands sem se preocupar em garantir notoriedade ou estimular a presença de visitantes. A campanha publicitária foi má e  quase inexistente. A comunicação foi ridículamente fraca. O lado profissional do marketing do evento foi desprezível. Comparando com o que a AEP faz a Norte, nas suas feiras, a FIL tem muito a aprender. E é uma pena, porque entre interesse dos artistas, vontade dos galeristas e até apoios do Estado, o que aqui falta é uma capacidade de organização e divulgação que justifique a sua existência.


 


MUDAR - A remodelação vai-se fazendo aos poucos. Na Justiça, entre Secretários de Estado e directores gerais, já começou. Nas Obras Públicas, Ministro e Secretário de Estado já lêem o mesmo discurso, portanto presume-se que um dos postos seja extinto, por óbvia sobreposição de competências. O Governo desfaz-se, em cada reprimenda europeia que leva, à média mínima de duas por semana. Um dia destes Sócrates é Primeiro Ministro de um Governo-sombra.


 


ARCO DA VELHA – O Governo anunciou esta semana outra medida de contenção: vai criar  mais uma empresa pública – a Agência para o Investimento Público e Parcerias. A empresa destina-se a acompanhar as grandes obras públicas e as parcerias público-privadas. Terá três admnistradores e um quadro técnico à medida das necessidades e servirá para retirar competências a várias Direcções Gerais do Estado e mesmo a alguns Ministérios.


 


PERGUNTA – O que é feito do Hot Clube? Porque é que já ninguém fala do assunto? As antigas instalações do Hot Clube, na Praça da Alegria, arderam em 22 de Dezembro do ano passado, está quase a fazer um ano. Em Abril soube-se que a Câmara Municipal disponibilizaria um outro espaço, também na Praça da Alegria, uma antiga loja nos números 47 e 49 e contribuiria com 200.000 euros para as obras. Entretanto não se sabe de mais nada. A Escola de Jazz Luis Vilas Boas lá vai tendo actividade, na Rua da Galé, a Alcântara, mas o site e a newsletter do Hot Clube são completamente omissos a respeito das novas instalações, do ponto de situação das obras, dos planos para o regresso à Praça da Alegria. Quem é que não está a cumprir?



 


LER Em 1987 Herberto Hélder pegou em alguns dos seus textos favoritos de outros autores e fez deles uma versão portuguesa. Assim nasce “As Magias”, que como o autor esclarece mais não são que “poemas mudados para português”. São poemas breves de autores como Blaise Cendars, D.H. Lawrence, Henri Michaux ou Marie Welch, para além de escritos tradicionais, anónimos, dos índios Cunas, dos pigmeus da África Equatorial, da Austrália, da Roma antiga, da Colômbia ou do México. A Assírio & Alvim reeditou agora o livro, na sua bela colecção O Gato Maltês. Uma pequena jóia para tardes outonais


 



FOLHEAR – A edição de Dezembro-Janeiro da revista “Monocle” parece ter sido inspirada num dos nossos queridos almanaques do Borda d’Água. Tem previsões para o ano que aí vem, receitas diversas para ultrapassar dificuldades, sugestões avulsas sobre as mais variadas áreas. E tem três especiais: um guia sobre novas ideias para pequenos negócios, um dossier sobre a Finlândia que faz  crescer a vontade de visitar o país e um especial sobre viagens com um top de 50 sugestões. Fiquem a saber que o melhor restaurante frente ao mar, Segundo a Monocle, é o Azenhas do Mar, aqui mesmo ao pé de Lisboa, no alto da falésia com o Atlântico pela frente.


 



VER– Até 22 de Janeiro pode ser vista na Plataforma Revólver a exposição “Pieces and Parts”, que numa selecção cuidada agrupa curiosas tendências e artistas, entre os quais Alexandra Mesquita, Ana Vidigal, Cristina Ataíde, Inês Nunes, Julião Sarmento, Rui Effe e Teresa Milheiro, entre outros. Será certamente uma opção individual, mas gostei especialmente do trabalho que Cristina Ataíde fez para esta exposição, e que serviu aliás de imagem para o evento. Rua da Boavista 84-1º, Lisboa.


 



OUVIR – Jane Monheit editou o seu primeiro disco há cerca de dez anos e tem feito uma carreira notável. “Home”, o seu novo disco, recolhe uma série de standards e é uma bela prova do seu amadurecimento artístico e da forma como a sua interpretação vocal  foi ficando cada vez mais segura. Neste disco existe um único tema original, “It’s Only Smoke”, um dos dois duetos vocais do album. Aqui, Monheit canta com Peter Eldrige e o resultado é arrebatador. Mas o ponto alto do disco vem no outro dueto, uma versão do clássico “Tonight You Belong To Me” onde se cruzam as vozes de Jane Monheit e de John Pizarelli, que é também quem toca, de forma superior, a sua guitarra eléctrica. Só por isto já valia a pena descobrir este “Home”.


 


PROVAR – Lisboa tem um novo restaurante nepalês, nas Avenidas Novas. Chama-se Casa Nepalesa e oferece uma boa escolha de pratos do dia, assim como à lista. Provei um frango cortado aos pedaços, cozinhado com espinafres e um molho temperado que estava excelente e uns filetes de linguado com molho de caril que foram uma bela surpresa. Como sobremesa comi um arroz doce à moda do Nepal, diferente do nosso, que me deixou a pensar de onde veio aquela ideia – se fomos nós que buscámos inspiração a oriente, se foram eles que tiveram algum visitante lusitano.  O ambiente é muito acolhedor, a decoração evoca uma casa nepalesa, o serviço é muito atento e simpático e o preço é comedido. Há vinho a copo e uma lista pequena mas razoável de vinhos. Casa Nepalesa, Avenida Elias Garcia 172 A, telefone 217979797.


 


BACK TO BASICS – Gosto de Teatro é muito mais real que a vida. Oscar Wilde.


 

novembro 22, 2010

Rui Pereira inventa novo jogo

Está a fazer furor o novo jogo que Rui Pereira lançou no seu Ministério da Administração Interna. É baseado no popular «Onde Está Wally» e chama-se «Onde estão os blindados da PSP?».

novembro 19, 2010

Untitled

A CASA DOS SEGREDOS


 


Se eu fosse estrangeiro e estivesse em Portugal na semana passada ficaria um pouco intrigado. Deputados europeus do PS pedem a cabeça de ministros, Ministros pedem a cabeça do Governo, eternos candidatos a líder apontam novos possíveis candidatos. É como se o programa «Casa dos Segredos» fosse agora ocupado por políticos que passam a vida a fazer revelações inesperadas. O Governo, o Primeiro-Ministro e o seu círculo de fiéis tornaram-se subitamente personagens de reality show.


 


Não deixa de ser curioso que as maiores investidas contra o Governo, nesta última semana, tenham vindo de dentro do PS. Críticas a ministros, pedidos de remodelação, insinuações sobre o efeito positivo que seria o afastamento de José Sócrates, de tudo vimos um pouco. É um sinal dos tempos, da constatação do falhanço, da descrença na resolução dos problemas e, sobretudo, um claro aviso que a contagem decrescente para a noite das facas longas no Largo do Rato já começou. A lavagem da roupa suja socialista na praça pública vai chegar mais longe e vai agudizar-se à medida que as lutas pelo poder interno crescerem – é inevitável, faz parte da história das conspirações.


 


É engraçado ver como, embora muitos critiquem, poucos são os que se chegam à frente, dispostos a assumirem responsabilidades, temerosos do caos em que o Governo deixou o país cair. É curioso ver como a conjuntura torna António Costa desinteressado do poder e o leva a vaticinar apoio a Francisco Assis, baralhando assim as contas a António José Seguro. Os políticos calculistas sabem bem os riscos de pegar agora neste caldeirão, e deixarão sempre que outros avancem para queimarem as mãos a tirarem o país do braseiro. Os próximos meses vão ser de confusão e seguramente que, como escreveu Fernando Sobral, o grande problema que nesta altura deve ocupar o pensamento de muitos dirigentes do PS é que solução hão-de arranjar para José Sócrates aceitar sair de cena em recato. 


 


DICIONÁRIO DE SINÓNIMOS


Descrença : Teixeira dos Santos


 


 


ARCO DA VELHA


 Era uma vez um funcionário do PS, de 26 anos, que rescindiu, por mútuo acordo, o contrato com o seu patronato, neste caso um partido político. Passou a receber o subsídio de desemprego e depois recebeu 41.000 euros de subsídios do Instituto de Emprego e Formação Profissional, para a criação de uma empresa e do seu posto de trabalho. Já depois disto foi contratado como assessor na Câmara Municipal de Lisboa por uma vereadora do PS, tendo passado a receber 3950 euros mensais. Falta dizer que pelo meio foi candidato, derrotado, a uma junta de freguesia de Lisboa, à qual estava ligada a vereadora que o contratou, pela lista patrocinada pelo seu anterior empregador. Confuso? Não, apenas um exemplo de alguém com bons relacionamentos.


 


FOLHEAR


A mais recente edição da revista «Monocle» é dedicada às empresas de origem familiar, como são geridas, o que funciona bem, quais os problemas que surgem. É um tema muito curioso e actual e a abordagem da revista é interessante. Por exemplo é engraçado ler a história do império editorial e mediático da família Bonnier na Suécia, tanto mais que Snu Abecassis tinha ligações a essa família. O tema das empresas familiares tem vindo a ganhar actualidade e a revista mostra como a presença de um dono, e não apenas de accionistas, às vezes pode fazer a diferença. Algumas empresas portuguesas bem podiam ler esta edição com atenção.


 


LER 


 Stephen Hawking tornou-se conhecido pela forma genial como consegue abordar as mais complexas questões da física, facilitando a sua compreensão. Agora, com Leonard Mlodinow,  publicou «The Grand Design – New Answers To The Ultimate Questions Of Life». Apetece dizer que este livro foi escrito para dar resposta às perguntas que surgem sempre quando se começa a falar das origens da vida e do universo. É um livro aliciante, das obras de ciência mas fascinantes que li. Não apetece largar – é como um bom romance. Em 200 páginas «The Grand Design» traça um panorama bastante completo do Universo e do que é o nosso lugar nesta imensidão. De forma precisa, mas acessível, Stephen Hawking e Leonard Mlodinow levam-nos a encontrar respostas para as nossas dúvidas, fazendo de cada capítulo do livro uma narrativa diferente que, no final se complementam. (Bantam Press, na Amazon)


 


VER


Já se conhecia o interesse de António Barreto pela fotografia – nomeadamente como coleccionador. Também já se sabia que ele próprio há muitos anos registava imagens do seu dia-a-dia, e quem as conhecia dizia que tinha um olhar surpreendente. Agora, finalmente dispôs-se a expô-las publicamente, de maneira dupla. Editou, na Relógio de água, um álbum que recolhe 227 fotografias suas, igualmente expostas na Galeria Corrente d’Arte, avenida D. Carlos I, nº 109, em Lisboa. São fotografias feitas em vários países e vários locais de Portugal, entre 1967 e 2010, todas a preto e branco, todas com enquadramentos rigorosos, muitas a apontarem os instantes decisivos de que Cartier-Bresson falava com frequência. António Barreto, já agora, é fundador e Presidente da Associação Portuguesa de Photographia. Excertos do  texto «Ler Fotografia»,  de Angela Camila-Castelo Branco, publicado no livro, e diversas fotografias feitas por António Barreto podem ser vistas em www.apphotographia.blogspot.com .


 


OUVIR


 Em 1962 o trio de Vince Guaraldi gravava um dos primeiros discos que fazia a fusão entre o jazz e o samba. O álbum chamava-se «Jazz Impressions Of Black Orpheus» e incluía um tema que rapidamente ganhou vida própria - «Cast Your Fate To The Wind», um caso raro de uma faixa instrumental, de jazz, editada em single, e que altura foi um grande êxito popular. Mais tarde foi usada como banda sonora da série de animação baseada na banda desenhada Charlie Brown. A Universal Music fez agora, na etiqueta Concord, uma edição remasterizada digitalmente do álbum original,  que inclui 5 faixas extras inéditas, provenientes da sessão de gravação original. Os temas brasileiros  escolhidos por Vince Guaraldi eram clássicos do samba que faziam parte da banda sonora do filme «Orfeu Negro», de 1959, baseado numa peça teatral de Vinicius de Moraes, banda sonora composta por António Carlos Jobim, aqui representada pelos temas «Samba de Orfeu», «Manhã de Carnaval» e «O Nosso Amor». As interpretações do trio de Vince Guaraldi são arrebatadoras e este é um daqueles discos que, mesmo ouvido a quase 50 anos de distância, continua a ser incontornável.


 


PROVAR  


No local onde anteriormente existia o restaurante Bachus, na esquina da Rua da Misericórdia com o Largo da Trindade, está agora o Bistro 100 Maneiras, uma nova área de actuação do chefe Ljubomir Stanisic, um bósnio que há uns anos está em Portugal e que é responsável pelo já clássico 100 Maneiras. Aqui as propostas são diferentes, há uma lista apelativa que inclui maravilhas de entradas como cascas de batata com ervas aromáticas e uma curiosa secção «para Corajosos» onde está um invulgar «Maranhos como tu gostas», na verdade um delicioso arroz de maranhos enrolado como uma torta e fatiado grosso, e ainda um curioso pica pau que na realidade é uma taça de túbaros, bem bons por sinal. Para coisas mais substanciais recomendo as  Bochechas e porco preto, puré de aipo, espargos e cogumelos shitakke. Nos doces o crumble de figo com gelado liquida os mais estóicos. O serviço é atencioso e vistoso, o apoio do escanção à escolha dos vinhos é muito bom (aquele rapaz ainda vai dar que falar), pena é que garças ao efeito pladur a sala fique um bocado barulhenta. Preço médio de 40 euros por pessoa sem devaneios demasiados.


 


BACK TO BASICS –  Só os superficiais são conhecidos e só os medíocres são populares - Oscar Wilde 

novembro 16, 2010

ASSAPANDO

Este espaço não é de publicidade, mas não resisto a contar como sou fã do SAPO. É uma coisa antiga, confesso. Eu acho que devemos ter orgulho nas nossas empresas que funcionam bem. E o SAPO é uma das grandes marcas portuguesas, tecnologicamente evoluída, tecnicamente muito boa e com uma dinâmica especial – como se pôde ver no final da semana passada em mais uma edição do Codebits, um evento que juntou sete centenas de pessoas, a maior parte delas bem jovens, durante três dias, para entrarem em concursos de ideias, apresentação de projectos e desafios tecnológicos diversos.


 


Um dos participantes, já presença frequente no Codebits (que se realiza anualmente), dizia-me que o esforço de pôr de pé aquela iniciativa deve ser grande (em termos de custos e em termos de pessoas envolvidas), mas o resultado é compensador. Toda a gente que lá vai aprende qualquer coisa, conhece outras pessoas. No Codebits o SAPO rastreia talentos, observa tendências, eventualmente estuda comportamentos. Ouve feed-backs dos utilizadores mais exigentes – os geeks fanáticos por jogos, programação e pelo mundo digital.


 


Vou aqui recordar um pouco de história: o SAPO teve origem na Universidade de Aveiro, em Setembro de 1995, e o seu nome surgiu a partir da sigla SAP – serviço de Apontadores Portugueses. Em Abril de 1999 o SAPO , já nas mãos da empresa Saber & Lazer, foi renovado e tornou-se no primeiro portal de língua portuguesa. Pouco tempo depois, em Setembro do mesmo ano, a PT Multimedia adquiriu a maioria do capital e o SAPO começou o seu percurso a uma outra escala. Sobreviveu à crise de 2001 e tornou-se na marca de internet da PT.


 


O encontro Codebits, que foi a razão desta pequena história, realiza-se desde 2007 e tem sempre vindo a ter importância crescente. E este ano, no arranque do Codebits, o SAPO estreou-se noutra área e apresentou o seu primeiro telemóvel, com um sistema operativo Android. Numa altura em que tudo são más notícias resolvi dedicar esta minha coluna ao SAPO porque ele é um bom exemplo das nossas capacidades.  E da importância de não ficarmos de braços cruzados á espera que alguém resolva a crise por nós.


 


 

novembro 12, 2010

A Esquina do Rio de 12 de Novembro

ALERTA 


A mais forte tomada de posição sobre a situação a que chegou o país veio, inesperadamente, da assembleia plenária dos bispos portugueses. No discurso de abertura do encontro sublinharam: «não podemos deixar de evidenciar a nossa perplexidade pela falta de verdade nos centros de decisão da gestão pública e pela ausência de vontade de solucionar os desafios actuais» . Ao mesmo tempo denunciaram «a inverdade frequentemente resultante de querelas pessoais e de jogos político-partidários pouco transparentes que aprisionam os líderes aos interesses instalados nas estruturas público-privadas». E mais à frente: «A verdade é um imperativo colocado a todos, é um acto de honestidade, sobretudo ao nível dos centros de decisão dos diversos cargos».


 


Ora nestas palavras simples e fortes reside o busílis da nossa vida recente. Discute-se muito o Orçamento e a aprovação do Orçamento – mas o que verdadeiramente é mais importante é a sua execução, é a forma como se controla e reduz a despesa. E a experiência destes últimos anos é feita de mentiras dos centros de decisão, de negação da realidade, de adiamento de decisões.


 


A resolução dos problemas portugueses, parece-me, não está na inexistência de um plano, mas na falta de vontade e coragem em executar medidas que todos já sabemos quais são. Se o Orçamento de 2011 não for executado, como não foi o de 2010 e os PECs que já foram devorados, então tudo ficará muito fora de controlo.


 


Por isso, olhando para o que se passa à nossa volta, encaro com desconfiança que a mesma equipa que não conseguiu garantir a execução de medidas anteriores, seja agora capaz de o fazer. Duvido que quem negou as evidências decida agora falar com verdade. Mais cedo ou mais tarde vamos ser confrontados com isto: aceitamos continuar a ser atirados para o abismo pelos mesmos? Ou, como dizem os Bispos, «o sentido de responsabilidade pública e de participação na vida democrática exigirá líderes com propostas novas e sérias que visem promover a equidade e a coesão da sociedade portuguesa»?


 


ARCO DA VELHA


Paulo Campos, Secretário de Estado das Obras Públicas, nomeou para a Administração dos CTT dois ex-sócios seus numa empresa apropriadamente chamada «Puro Prazer», entretanto dissolvida.


 


FOLHEAR 


O mais interessante livro publicado nos últimos tempos chama-se «Como o Estado Gere O Nosso Dinheiro», do juiz jubilado Carlos Moreno, onde o autor defende a responsabilização de quem gasta e utiliza abusivamente dinheiros públicos.


 


IR


Vale cada vez mais a pena ir a Madrid. A cidade está magnífica e apesar da crise (quase cinco milhões de desempregados – praticamente a população activa de Portugal…) tudo funciona. Os taxistas são bem dispostos e educados, nos bares de tapas há animação ao fim de tarde, os preços são simpáticos e a animação é garantida. A uma hora de avião a coisa é tentadora, mesmo com os crónicos atrasos da Easy Jet. Mas voltemos a Madrid: toda a zona central , da Atocha à Gran Via está soberba, completamente recuperada, com a estação pronta para a Alta Velocidade, as ruas cheias de gente mesmo ao fim de semana, um contraste enorme com Lisboa. O renovado Mercado de S. Miguel, muito perto da Plaza Mayor,  é um exemplo do que se pode fazer, bem feito, na recuperação de um espaço tradicional de um velho mercado, para um sítio animadíssimo de tapas, copos e compras onde há de tudo para todos os gostos em matéria de comida e bebida. Já agora – quando estive, há duas semanas, em Madrid, decorria uma Mostra Portuguesa (de programação discutível) e escassa divulgação, e em duas galerias privadas existiam exposições de artistas portugueses – uma de Helena Almeida e outra de Pedro Calapez, ambas com boas referências de imprensa.


 


OBSERVAR


Há menos de 20 anos toda a zona central de Madrid pouco mais tinha que os grandes armazéns, alguns restaurantes e os monumentos. Há 20 anos não existiam ainda nem o Museu Rainha Sofia nem o Museu Thyssen-Bornemiza (foram ambos inaugurados em 1992). Mas hoje o triângulo dos Museus agrupa o Prado, renovado (uma bela exposição de Renoir), o Thyssen (onde estão fotografias de Mario Testino) e o Reina Sofia, entretanto ampliado em 2006 por Jean Nouvel numa bela e eficaz intervenção arquitectónica (e onde está uma fantástica e supreendente exposição de Hans Peter Feldman) – isto claro, falando apenas de exposições temporárias, para além das respectivas colecções permanentes. Mas a dois passos deste triângulo está a Fundação La Caja e a Fundação MAPFRE – esta com uma bela mostra de arte americana do século XX, da Colecção Philips. Tudo está cheio de gente - espanhóis, estrangeiros também, numa festa permanente que nem os chuviscos de Outono arrefecem. É nestas alturas que me ponho a pensar em Lisboa e vejo como fomos falhando oportunidades, fazendo coisas sem plano, desbaratando recursos (como o Pavilhão de Portugal), espalhando as coisas em vez de as concentrar. Há 20 anos Madrid não tinha nada disto e hoje tem uma zona central recuperada, contenção de novas construções, equilíbrio estético, investimento na cultura como dinamizadora do turismo, obras emblemáticas de grandes arquitectos.


 


VER


A exposição de Hans Peter Feldman no Museu Rainha Sofia, de Madrid, tem um título singelo : «Uma exposição de arte». Lá dentro estão fotografias, instalações de objectos, colecções pessoais, fotocópias, capas de jornais. Mas, em todas elas, há uma ideia, uma ideia criativa. Uma das salas mais impressionantes é a «9/12», onde  estão expostas mais de centena e meia de capas de jornais de todo o mundo, todas do dia 12 de Setembro de 2001 – o atentado às Torres Gémeas visto do mundo inteiro (e lá estão jornais portugueses como o Correio da Manhã, o Diário de Notícias o Público, e a extinta capital, entre outros). A sala é devastadora, a ideia é violenta, o resultado é um abanão nas nossas memórias. Nascido perto de Dusseldorf em 1941, Feldman baseia a sua actividade num espírito coleccionista que é patente nas suas séries de imagens fotográficas, mas também na fascinante instalação «Shadow Play», baseada em peças em movimento num ambiente de sombras chinesas. Só para ver esta exposição vale a pena ir a Madrid.


 


OUVIR


O contrabaixista Charlie Haden juntou de novo o seu Quartet West  (com Ernie Watts no sax tenor, Alan Broadbent no piano e Rodney Green na bteria), juntou-lhe seis vozes femininas contemporâneas (bem escolhidas) e fez uma colecção de 12 standards em torno de um tema clássico de Duke Ellington, «Sophisticated Ladies».  De certa forma este disco é um regresso à ideia de um anterior álbum de Haden e seu quarteto, «The Art Of The Song»,  igualmente dedicado a grandes canções e também com uma voz feminina, Shirley Horn. Desta vez as senhoras que dão a voz neste disco são Cassandra Wilson, Diana Krall, Melody Gardot, Norah Jones, Renée Fleming e Ruth Cameron. A qualidade da interpretação musical e dos arranjos é exemplar e gostaria de destacar o trabalho de Melody Gardot em «If I’m Lucky», a contenção de Norah Jones em «Ill Wind» e sobretudo a forma como Cassandra Wilson pegou numa letra inédita de Johnny Mercer para «Always Say Goodbye» e criou uma preciosidade. CD Emarcy, disponível em Portugal.


 


PROVAR


Se gosta de cozinha indiana e oriental e não sabe onde pode adquirir os adequados temperos, tenho uma boa notícia para si – já não precisa de ir ao Martim Moniz,  na Avenida Visconde de Valmor, no quarteirão entre a Avenida da República e a 5 de Outubro, abriu uma loja especializada, Ayur. Lá encontra especiarias diversas (e raridades como sementes de funcho, folhas de caril ou pasta de Tamarindo), especiarias goesas pré-preparadas, congelados, aperitivos, chá, doces e mesmo, a partir do próximo mês, comida feita para levar para casa. O casal que gere a loja é muito simpático e ajuda a escolher os produtos dando boas sugestões. Mais informações em www.ayur.com.pt .


 


BACK TO BASICS


O meu grande problema é fazer conciliar os meus hábitos em matéria de gastos com a realidade dos meus rendimentos – Errol Flynn 


 

MENOS ESTADO, MENOS GASTOS

(Publicado no Metro de 9 de Novembro)


 


Durante quase uma semana estive fora do país. Lá fui seguindo o que se passava graças às edições on line dos nossos jornais . Estive numa reunião, sobre o mercado publicitário, onde estavam duas dezenas de países representados – alguns deles da Europa de Leste. Nós e os gregos fomos os mais apreensivos. Os Irlandeses começam a levantar a cabeça e na generalidade dos outros territórios existe a sensação de que o pior já passou.


 


Eu gostava de sentir o mesmo , mas não consigo. Vejo toda a gente hesitante em relação às decisões a tomar. Vejo os orçamentos a decrescerem, vejo alterações muito rápidas no consumo de conteúdos e de informação. O mercado retrai-se.


 


O Orçamento que foi aprovado é apenas um mapa e uma declaração de intenções – muito mais importante é ver como ele poderá ser executado. Basta aliás ver o que aconteceu ao longo deste ano – o Orçamento era muito bonito em teoria mas a sua execução foi tão catastrófica que acelerou a queda do nosso país e a paralisia da economia.


 


O ponto que verdadeiramente interessa é ver como as linhas gerais agora são executadas. Ver se o Governo consegue fazer descer a despesa, ver se é sincero nos esforços de contenção anunciados, ver se é realista nas opções sobre os grandes investimentos.


 


Nesta reunião onde estive, a propósito dos incentivos dados por vários Estados aos grandes bancos e ao fomento de grandes obras públicas, ouvi uma curiosa opinião que me pôs a pensar:  ter-se-ia gasto menos dinheiro e conseguido maiores resultados na economia, se, em vez de subsídios a fundo perdido, fosse revista a política fiscal, por forma a permitir o nascimento e desenvolvimento de pequenas e médias empresas, que fossem mais competitivas graças à fiscalidade, reduzida, e que criariam maior emprego, proporcionariam maior consumo e dinamizariam mais a economia. No fundo trata-se de diminuir a despesa pública, permitindo assim diminuir a receita fiscal e em simultâneo proporcionar maior desenvolvimento fora da esfera do Estado.


 

A Esquina do Rio, de 5 de Novembro

HERANÇA 


Escrevo terça-feira à noite, depois de assistir a resumos do dia parlamentar. Se não tivesse visto, não acreditaria. Ninguém, em seu perfeito juízo, que olhasse para o que se passou no Parlamento, poderia achar que existia, firmado a menos de 72 horas, um acordo sobre o Orçamento de Estado. Se Louçã fez o que lhe competia, procurando tirar vantagens do facto de o Orçamento passar graças à abstenção do PSD, já se compreende menos que o próprio Sócrates se tenha dado ao desplante de atacar o seu parceiro de negociação, precisamente por ter negociado e por ter procurado ser discreto na negocição.


 


Estava sentado a ver o resumo de imagens, olhava para a cara de Sócrates e para as as suas afirmações, dos seus ministros e dos seus parlamenteres, e dei comigo a pensar que o ambiente entre os pilotos kamikaze japoneses não devia ser muito diferente. Se exceptuarmos a questão da honra e do patriotismo, que os kamikaze japoneses tinham, o comportamento de Sócrates é igual apenas em matéria de vontade suicida.


 


Procura ansiosamente o fim, procura provocá-lo - esta negociação, em boa parte, foi contra os seus planos:  No seu íntimo teria preferido romper e conseguir uma saída aparentemente honrosa para a situação.


 


Nestas últimas semanas acho que Sócrates se imaginou a conseguir seguir a tendência exportadora de alguns recentes ex-primeiro ministros portugueses: Guterres foi para ass Nações Unidas, Durão Barroso para  a Comissão Europeia, ele talvez se imaginasse nalgum cargo internacional de Atletismo, ligado ao jogging e às meias maratonas – a mais não poderia aspirar embora, no fundo, o seu sonho fosse ser um Al Gore europeu a fazer powerpoints filmados sobre as energias renováveis.


 


Olho para o que se passou nestes últimos dias e vejo um rasto de mentiras, por parte do Governo, em todo este processo negocial. Numa negociação destas quem tem de mostrar boa fé é quem tem o objecto de negociação na mão – o Orçamento. Ora foi eaxactamente isso que não se viu - o Governo nunca esteve, aparentemente, de boa fé. Teixeira dos Santos poderá ser um homem sério, mas em todo este processo não foi essa a imagem que transmitiu.


 


Estamos autenticamente em clima de fim de festa, rufam já os tambores de eleições no horizonte. Olhamos para o futuro e vemos o que Sócrates nos deixa:  um país pior, uma economia destruída, um clima de corrupção generelizado, a desconfiança dos cidadãos em relação ao Estado. Em suma, a receita para que a participação eleitoral seja menor, para que as pessoas participem menos nas grandes decisões. A imagem que


Sócrates pretende fazer passar - de infalível e insusbtituível -  ajuda muito pouco a que as novas gerações olhem para a política com, vontade. À sua volta só vêem mentira, demagogia, engano.


 


Se Sócrates cumprir o mandato legislativo até ao fim há uma geração que irá votar pela primeira vez depois de quinze anos de desgoverno de Guterres e Sócrates. Um a geração que usos Magalhães, mas que tem uma economia destruída, finanças púnblicas caóticas e possibilidade de emprego compatível com as qualificações muito difícil. É uma pesada herança. Mas é o que Sócrates levará às costas quando sair.


 


 


RESUMO DA SEMANA


Em matéria de Orçamento, Sócrates, primeiro, empatou as negociações; a seguir Sócrates engoliu as negociações; depois, Sócrates atacou as negociações.


 


ARCO DA VELHA


O processo Facer Oculta começa cada vez mais a ter caras visíveis: depois de Armando Vara, eis que Mário Lino também surge no processo. Segundo a acusação o ex-Ministro das Obras Públicas, uma das mais ridículas e penosas figuras da governação socrática, terá intercedido a favor de Godinho, procurando avolumar-lhe as negociatas, sob o argumento de que o empresário seria um «amigo do PS». Bem sei que é uma piada um bocado secante e que o homem, no fundo, é um sucateiro  - mas com amigos destes, quem precisa de inimigos?


 


REGISTO


Cavaco Silva, no twitter, no primeiro dia do debate parlamentar sobre o Orçamento de Estado em que o PS acusou o PSD de ter vergonha do acordo que fez, disse vewr “com muita apreensão o desprestígio da classe política e a impaciência com que os cidadãos assistem a alguns debates”.


 


PERGUNTA


O que é feito da Ministra da Cultura e da política cultural?


 


FOLHEAR  


A edição de Novembro da revista Vanity Fair é dedicada aos diários secretos de Marilyn Monroe, ou seja, à maneira como ela encarava os Kennedys, os seus maridos e amantes e as preocupações que a atormentavam. Mas esta belíssima edição daquela que muitos consideram ser A REVISTA por excelência, tem também uma curiosa entrevista com o princípe Carlos de Edimburgo e um artigo que bem podia ser intitulado o Watergate parisense, sobre as ligações de Liliane Bettencourt, a herdeira da L’Oreal, com o Presidente Sarkozy. Picante, atrevida e aliciante – é esta a imagem de marca da Vanity Fair, uma indispensávelleitura todos os meses. Como bónus, nesta edição, a mostra, em primeira mão para os leitores da revista, das aventuras de David Hockney com o aplicção Brushes para o iPad. Deliciosas. Alguma coisa de novo está a nascer.


 


OUVIR


O que eu gosto mais em Tricky é de ele dar a ideia de que trabalha para que os ouvites da sua música se sintam parte da aventura dos sons, do ambientes, do espírito nómada e irrequieto que anima os seus discos. Desde que  se fez notado nos Massive Attack, e, depois, quando começou a sua carreira a solo, Tricky tem persistentemente explorado a capacidade de produzir sonoridades que percorrem os rimos e os ritos do encantamento. Umas vezes não consegue atingir os seus objectivos e noutras, felizmente, como acontece neste «Mixed Race», acerta em pleno no alvo. Em 2008 Tricky fez um album chamado «Knowle West Boy», que surgia um pouco como o seu regresso às origens. Este novo «Mixed Race» tem pouco mais de meia hora, as canções raramente passam os três minutes, as faixas são envolventes e intensas. Não era preciso mais tempo. É a medida certa para um grande disco. (Tricky, Mixed Race, CD Dominico)


 


PROVAR


O local é muito simpático – literalmente em cima do Tejo, no Cais do Sodré, fica mesmo ao lado do Bar do Rio. A esplanada, desde que não chova, nestes dias simpáticos de Outono, é uma possibilidade. O Ibo tem uma inspiração moçambicana, bem expressa na carta. Mas para quem não quer arriscar nessa aventura (e faz mal), tem atractivos europeus – até nos belos bifes. A decoração é sóbria, contemporânea e confortável, o serviço tenta ser atento e a cozinha é verdadeirtamente a boa razão de conhcer esta casa. Eu submeti-me com gosto ao caril de caranguejo desfeito, um prato de confecção fabulosa, com origens em Moçambique. Desta safra há mais propostas, na carta. Se quiser uma coisa mais, digamos, ocidental, prove os impecáveis filetes de polvo com arroz de feijão manteiga, ou, as vieiras salteadas com açafrão. Remate a refeição com banana crocante, acompanhada de gelado. Se conseguir peça uma mesa no primeiro andar, do lado do rio. A vista é de cortar a respiração. Pena que as obras de António Costa tenham estragado tanto a envolvente deste restarurante. Merecia bem melhor. IBO,  telefone 21 342 36 11, fica no


Armazém A, compartimento 2, Cais do Sodré, logo a seguir á estação de combois. Encerra Dopmingo ao jantar e segunda-feira todo o dia.


 


BACK TO BASICS


Ser contra o aumento de impostos é o único combate intelectual susceptível de trazer alguma recompensa – John Maynard Keynes.

novembro 02, 2010

O PIÁSSABA

(publicado no Jornal metro de 2 de Novembro)


 


Caros leitores. Proponho-vos que adiram ao movimento «Um piássaba para António Costa». Eu sou o primeiro aderente e já tenho o meu piassaba para entregar nos Paços do Concelho. É o mínimo que eu posso fazer. Vejam bem: percebo que existe crise, sei que a Câmara tem dificuldades (por isso é que aplica a taxa do subsolo à conta do gás…), e por isso mesmo, antes que me imponham uma taxa nova sobre a sola dos sapatos, comprei um belíssimo piássaba de cerdas amarelas na drogaria aqui do bairro.


 


A minha lógica é esta – se para tomar banho com água quente o Costa me impõe uma taxa, então para ter os pés secos e evitar que as sarjetas entupidas alaguem as ruas, ainda me vai fazer pagar uma taxa maior. De maneira, que bem vistas as coisas, resolvi lançar este movimento. Se formos muitos a alinhar nos piássabas, António Costa receberá ferramenta suficiente para poder evitar que se repitam as cenas de sexta-feira passada.


 


Eu, por mim, gosto das ruas assim mais ou menos sem enxurradas. Eu imagino que será pedir muito – mas também me parece que se podia fazer um esforço. Por isso me lembrei deste movimento, pode ser que ajude a limpar as sarjetas. Não me lembro, em anos da minha vida, de ver a Avenida da Liberdade transformada num ribeiro, nem um Rossio num lago. Certo, certo, é que qualquer dia temos que comprar um bote para podermos circular em Lisboa em dias de chuva.


 


Eu até percebo que pode existir aí a ideia de que importar os canais de Veneza para Lisboa pode fazer aumentar o fluxo de turismo dos países de Oriente. Estou mesmo a ver turismos japoneses em barcos de borracha com a marca Cityrama. Mas sinceramente acho é que tudo isto é desleixo, facilitismo, falta de trabalho e falta de previsão – enfim, aquilo que é o dia a dia da cidade de Lisboa nas mãos de António Costa.