(Publicado no diário METRO de 18 de Janeiro)
Domingo que vem há eleições e encaro seriamente a possibilidade de, pela primeira vez na vida, não ir votar em nenhum candidato. Gostava de poder e querer ir votar mas estou farto do mal menor. Não me apetece votar num candidato que passou um mandato a ver se não incomodava ninguém, para poder ser reeleito. Estou farto de superioridades morais apregoadas. Nenhum dos candidatos me motiva.
A campanha eleitoral é um exemplo do que não deve acontecer: insultos em vez de ideias, mentiras em vez de esclarecimento, promessas em vez de factos. Irrita-me a política tratada como um jogo de futebol: o nosso sistema reduziu a actividade política e cívica a uma guerra clubística entre partidos e entre quem eles apoiam.
Cada cidadão tem o dever de participar – e votar é uma forma de participação. Mas os políticos, os candidatos, têm o dever de nos mobilizarem, têm o dever de, mais por actos do que por palavras, nos convencerem. Mas da mesma forma que votar é uma forma de participação, não votar é uma forma de rejeição do sistema, dos seus intervenientes. Se não encontro candidato que me satisfaça, não sou obrigado a votar em ninguém.
A minha única dúvida está em saber exactamente como vou fazer isto – se me abstenho por ser incapaz de escolher um voto, ou se faço voto nulo e escrevo qualquer coisa. Uns amigos meus – aviso já que até são à esquerda – vão escrever « FMI»no boletim de voto. Eu talvez escreva «eleições antecipadas». Tenho até ao fim de semana para decidir, mas uma coisa é certa: nenhum destes candidatos leva o meu voto e não me apetece encher-me de comprimidos contra a azia no Domingo à tarde.
Domingo à noite, quando os resultados forem conhecidos, vou contar a soma de abstenções, com votos nulos e votos em branco. E vou ver quantos votaram. Eu aposto que a maioria dos eleitores não vai querer participar nisto, não vai votar em nenhum dos candidatos – e se isso acontecer, ainda bem. Talvez se perceba que é preciso mudar alguma coisa.