dezembro 30, 2010

(Publicado no Jornal de Negócios de 30 de Dezembro)

2011 - Desta vez, quando começo a desejar bom ano aos meus amigos, sinto-me um pouco cínico. Já sabemos que o ano que entra não vai ser bom. Vamos ter maiores dificuldades, os preços aumentam, os impostos aumentam, provavelmente o desemprego aumentará, há uma elevadíssima probabilidade de não passarmos do fim de Março sem o FMI nos bater à porta. O mais engraçado de tudo isto é que a entrada do FMI pode ser, paradoxalmente, o seguro de vida de José Sócrates. Com o FMI em acção diminui-se a possibilidade de se radicalizar a crise política – a começar pelo Presidente da República que for eleito e que pensará ainda mais, antes de qualquer tentação de dissolver a Assembleia da República. Se o FMI entrar em cena muito provavelmente fica afastado o cenário de eleições antecipadas no próximo ano e aumentam as possibilidades de Sócrates chegar ao final desta legislatura. Por este andar, José Sócrates ainda vai acender uma vela a Dominique Strauss-Kahn, o Director Exxecutivo do FMI.


 


2010 - Este ano serviu para mostrar que em Portugal subsistem dois grandes problemas estruturais – uma Justiça que não funciona e que se degrada cada vez mais, e uma corrupção que grassa de forma endémica e tem tentáculos em todo o lado, alimentando partidos, instituições, figuras públicas. De certa forma os agentes da justiça estão hoje tão desacreditados como os políticos. Para o mundo exterior fazem parte do mesmo círculo de sobreviventes que faz tudo para iludir a verdade e manter o poder. O alastrar da corrupção tem a ver com a degradação da justiça, com o sentimento de impunidade que se tornou uma característica da sociedade portuguesa, com a aplicação de dois pesos e duas medidas no dia-a-dia nos mais diversos sectores. A ineficácia da justiça corrói o país e este é um daqueles sectores onde as reformas não têm existido e, ao invés, tudo se tem degradado ainda mais.


 


PERGUNTA – Com o switch off analógico e a implementação da Televisão Digital Terrestre já definido para o primeiro semestre de 2012, quando é que a Anacom esclarece a forma e calendário de escolha dos operadores de canais TDT?


 


ARCO DA VELHA – António Guterres, em entrevista à Única: «Olho para trás com enorme tranquilidade». É preciso ter lata.


 


VER – Nesta semana fui ver «Inside Job - A Verdade da Crise», um documentário de origem norte-americana que faz uma análise factual da crise de subprime de 2008  e que lançou o sistema financeiro mundial no abismo. O realizador é Charles Ferguson e o narrador é Matt Damon. Através de uma investigação cheia de dados e de entrevistas com algumas figuras chave da política, da finança, de universidades, instituições internacionais e da informação, o filme segue o crescimento da influência de uma indústria cujas principais figuras procuraram – e conseguiram – menorizar os organismos nacionais de regulação, manipular e influenciar agências de rating e que permanecem em postos chave do Governo e de organismos oficiais nos Estados Unidos. O filme baseia-se no contraste de depoimentos, no uso de contraditório e é um belo exemplo de cinema documental – tecnicamente escorreito, com todos os intervenientes convenientemente identificados, com uma  banda sonora dinâmica. Não deixa de ser curioso que as entrevistas a responsáveis do FMI pareçam as mais lúcidas na análise do que aconteceu, chamando a atenção para numerosos alertas feitos ao longo do tempo e que não foram escutados. A História não se repete – mas foi isso mesmo que aconteceu em Portugal – avisos repetidos, vindos de todo o lado, olimpicamente ignorados por quem tinha o poder de intervir e mudar as coisas.  Nos Estados Unidos, desde que foi lançado, em meados de Outubro, o filme já fez mais de três milhões de dólares de bilheteira, um número invulgar para a exibição de um documentário. Em Portugal, em cerca de um mês, já ultrapassou os 16.000 espectadores. Quando se sai do cinema, depois de ver este «Inside Job», percebe-se que os implicados nesta história estão por todo o lado – a começar pela Administração Obama – e preparam-se para fazer outra das suas habilidades logo que possam. A título de curiosidade . um dos responsáveis das agências de rating que na véspera da explosão davam boa nota ao Lehman Brothers, diz alto e bem som, numa Comissão do Senado, que se limita a dar a sua opinião e que os ratings nada mais são que uma opinião. Uma poderosa opinião, pelos vistos.


 


LER – Aqui há uns anos, um dos grandes enigmas para os apreciadores de histórias de espiões, era saber como é que escritores como John Le Carré sobreviveriam ao fim da Guerra Fria, à queda do muro de Berlim e à desarticulação da URSS. Pois a verdade é que lá têm sobrevivido, e como se mostra no novo livro de Le Carré, «Um traidor dos nossos», continua a existir forma de construir um enigma e uma história em torno de um casal inglês de classe média e de um Russo de contornos duvidosos. O encontro entre os dois homens, o inglês e o russo, dá-se num court de ténis e é esse o cenário para a definição de personagens e o ponta pé de saída de toda a história. Empolgante, com belos episódios, «Um Traidor dos Nossos» é um regresso de John Le Carré a alguns dos seus melhores momentos, evocando situações do passado, numa mistura bem doseada com o presente, algures entre a nostalgia pelo tempo das longas partidas de ténis nas férias e a realidade do presente, marcada pelo instantâneo dos actos e das notícias.


 


OUVIR – O melhor disco português de 2010 teve a sua edição original em 1970. Chama-se «Com Que Voz» e é considerado, a par de «Busto», a melhor gravação da fadista. David Ferreira, que conhece como poucos a obra de Amália, pegou no disco original e nos arquivos da Valentim de Carvalho e criou uma nova edição. Rodeou-se de pessoas conhecedoras. A nova edição tem dois discos – o álbum original, remasterizado (e ainda mais surpreendente) e um segundo disco, intitulado «A Procura», que revela 19 gravações feitas na época e que eram desconhecidas ou pouco conhecidas, entre as quais alguns inéditos, como por exemplo uma gravação alternativa de «Com Que Voz». Frederico Santiago, que fez a procura nos arquivos e depois dirigiu a recuperação das gravações, fez um trabalho extraordinário. Da edição faz ainda parte um livro, de 88 páginas, no formato do CD, e que agrupa textos de vários autores, contando diversos episódios que marcaram uma época e as pessoas que na altura trabalhavam mais de perto com Amália Rodrigues. É preciso sentir e viver uma dedicação especial para fazer um objecto assim – com respeito pela tradição e com a curiosidade da descoberta; com evocação da memória e a revelação do que estava escondido. David Ferreira é dos grandes editores portugueses e não havia melhor pessoa para ter dirigido este trabalho e nos ter feito redescobrir, ao fim de 40 anos, a grandeza, criatividade e originalidade de Amália Rodrigues.


 


BACK TO BASICS – «Hoje que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades? É disso que há-de vir a dissolução » - Eça de Queiroz