ROSSIO – António Costa decidiu fazer uma experiência piloto na Praça do Rossio, para combater o mau hábito de atirar pastilhas elásticas já mastigadas para o chão. A ideia é boa mas vê-se logo que Costa anda mais tempo com os olhos no chão do que com a atenção no ar: se no Rossio, sobretudo ao fim da tarde, olhasse não para o chão, mas para o que está à sua volta veria que tem muito com que se preocupar antes de chegar às pastilhas elásticas. Bastaria pensar no estado em que na maior parte dos dias se encontram as escadarias do Teatro Nacional, a sujidade dos passeios e da Praça, bastaria ver as actividades pouco recomendáveis que se processam em todos os cantos. Uma Praça que é o centro de uma cidade não pode ser um território no estado a que o Rossio chegou.
SUBMARINOS – Isto é um ping-pong: sai notícia incómoda para Sócrates, sai notícia incómoda para a oposição. Vivemos no reino dos criadores de suspeitas, um reino onde nada se esclarece, nada se apura, nenhuma responsabilidade é avaliada. Portugal é o país dos escândalos interrompidos, da culpa sem julgamento, do crime sem castigo. Até a Comissão de Ética da Assembleia da República dá triste imagem de si própria pela novela que tem alimentado. Já há personagens demais nesta história para o enredo ser credível. A Comissão está a desacreditar-se a si própria.
CONGRESSO – O convite de Pedro Passos Coelho a Paulo Rangel para encabeçar a sua lista ao Conselho Nacional, e a Aguiar Branco para dirigir a revisão do programa do partido, propostas que serão votadas no Congresso do PSD no próximo fim de semana, é um sinal de que alguma coisa está a mudar. O facto de Paulo Rangel e Aguiar Branco terem aceite o convite é outro sinal, muito importante, de que assumir as diferenças é a melhor forma de construir uma unidade duradoura. Tudo indica agora que a próxima segunda-feira, depois do Congresso, marcará o regresso do PSD à luta política. Isto é bem mais interessante que outras distracções que têm ocupado o tempo dos analistas políticos.
INVEJA – O pior que existe nos portugueses – o espreitar os outros, a inveja, fazer a denúnciazita - voltou esta semana em grande força. No sempre indispensável blogue Albergue Espanhol, António Nogueira Leite resumiu a situação das críticas às remunerações dos gestores de diversas áreas numa frase lapidar:« If you pay peanuts, you get monkeys». No universos dos tweets nacionais cito aqui um, de João Villalobos, que me ficou na memória: « Vejo gente criticada por darem ganhos a ganhar; gostava de ver críticas aos que ganham, mesmo contribuindo para percas consecutivas». Por esta boa lógica devíamos começar a fazer um levantamento dos responsáveis a quem devemos pedir indemnização por perdas e danos ao país, não só nos resultados práticos dos números, como nos gastos devidos ás orientações que deram a gestores de empresas onde o Estado ainda está presente.
VER – Carlos Medeiros é um fotógrafo e actor dos Açores, com um percurso já longo. A sua exposição, que esta semana inaugurou na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa (na Rua Barata Salgueiro, à Avenida da Liberdade), foi feita em colaboração com o Cineteatro Micaelense e mostra imagens a preto e branco, com base em película e numa impressão exemplar, fabricadas pelo autor como se fossem instantes ocasionais de uma narrativa. Fazendo nalguns momentos evocar fragmentos da obra de Duane Michals (uma boa influência), esta exposição, «insomnia», joga com sequências de imagens e com um olhar por vezes quase surrealista - 32 imagens. realizadas durante uma noite num mesmo quarto. «insomnia» é uma ideia bem concretizada, estará na Cinemateca até 31 de Julho e merece uma visita.
LER – No final dos anos 60 Patti Smith chega a Nova Iorque para descobrir a grande cidade. Casualmente encontra Robert Mapplethorpe e os dois estabelecem uma ligação, cuja cumplicidade se manterá até à morte dele. Na altura eram ambos ilustres desconhecidos que queriam desesperadamente mostrar o talento que sentiam ter e afirmarem-se como artistas. «Just Kids», escrito por Patti Smith, é a história do amor entre ambos, da amizade que depois os uniria, das descobertas que foram fazendo, mas também do apoio que sempre deram um ao outro, a nível pessoal e criativo. É um livro tocante, pela ingenuidade da narrativa, mas também pela naturalidade como as coisas se passaram. É, também, um livro de história, porque nos ajuda a perceber a Nova Iorque de final dos anos 60 e início dos anos 70, porque nos faz descobrir o papel de locais como o Chelsea Hotel, onde a certa altura quase tudo se passave e onde Jimi Hendrix se podia cruzar com Janis Joplin, ou, ainda, o papel que diversas outras figuras tiveram na criação artística contemporânea. «Just Kids» é um livro apaixonante, uma das obras que maior prazer me deu ler nos últimos meses. Edição Bloomsbury, via Amazon UK.
OUVIR – O disco que me tem deliciado nos últimos dias é de um novo grupo português, Orelha Negra, que vive agarrado à ideia de divulgar o funk, criar ritmos, fazer agitar as águas e mostrar o trabalho de grandes músicos como Sam the Kid, Dj Cruzfader, Francisco Rebelo, Frederico Ferreira e João Gomes – que são os participantes no projecto. Ao longo dos 12 temas do álbum desenvolve-se um trabalho musical notável com canções verdadeiramente surpreendentes. Destaque ainda para todo o conceito gráfico de Pedro Cláudio que torna este CD num objecto visualmente invulgar e único.
PETISCAR – Um cozido à portuguesa é um somatório de petiscos – as couves, cada um dos enchidos, o caldinho. Não sei bem por qual razão instaurou-se a ideia de que o cozido tem dia obrigatório – a quarta-feira (deve ser para retemperar forças a meio da semana). Confesso o meu descuido por não ter ainda experimentado o cozido à moda do «Salsa & Coentros», feito com enchidos de porco preto e com as carnes mais magras, abundante nas couves e com caldo saboroso. Ainda para mais vem acompanhado de uma deliciosa sopinha quente do cozido, feita com pão, hortelã e caldinho. É claro que depois a tarde é algo penosa e o espírito tende a vaguear pelos campos primaveris. Mas um dia não são dias e vale mesmo a pena experimentar este cozido das quartas no «salsa & Coentros» - Rua Coronel Marques Leitão 12, junto aos Bombeiros e ao mercado de Alvalade, reserva recomendada pelo telefone 218410990.
BACK TO BASICS – Nada é permanente, salvo a mudança - Heráclito
O que vou escrevendo, entre o Weekend do Jornal de Negócios e os Pensamentos Ociosos no SAPO. E mais umas coisas avulsas...
abril 12, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 9 de Abril)
abril 09, 2010
INDÚSTRIAS CULTURAIS
(Publicado no Jornal Metro)
Durante dois dias, por iniciativa da Presidência Espanhola da União Europeia, representantes dos Estados Membros debateram em Barcelona os novos desafios que se colocam a todos os que estão ligados às actividades do sector da Cultura. Infelizmente em Portugal teve muito pouco eco este Forum Europeu das Indústrias Culturais, praticamente limitado á notícia da presença da Ministra da Cultura no encerramento da reunião. O tema principal do Forum cujo tema principal do Forum foi a legislação da propriedade intelectual no novo mundo digital, como base para que as industrias culturais e criativas se possam desenvolver em todo o seu potencial. Para situarmos as coisas, estamos a falar de um sector – as industrias criativas e culturais – que representa já 3,1% de todos os postos de trabalho dos 25 Estados da União Europeia, tendo uma contribuição para o PIB europeu que atinge 2,6%, mais que o sector químico ou têxtil, por exemplo. A Comissão Europeia está a preparar um Livro Verde sobre este sector, que será divulgado no final do corrente mês. Vamos ver o que, agora, cada Estado membro fará para garantir o fomento das indústrias culturais e a competitividade no mundo dos conteúdos digitais, com um conjunto de legislação que proteja os direitos de produtores e autores. O Forum pediu ainda a atenção de cada Estado para o desenvolvimento de programas educativos específicos que tenham em conta as especificidades desta área. Deste ponto de vista é sintomático o balanço de uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG, cuja primeira edição terminou recentemente. O problema é que no curso, que contou com a recomendação de organismos do Ministério da Cultura, questões tão cruciais e decisivas, como a gestão dos direitos, a exploração de royalties, ou as técnicas de fund raising estiveram praticamente ausentes. Da mesma forma a importância – sistematicamente descurada - do marketing, da estratégia publicitária e da utilização, neste contexto, das redes sociais foram também pontos quase ignorados. Uma nova política cultural também passa por questões como estas.
abril 05, 2010
(Publicado dia 1 de Abril no Jornal de Negócios)
CULTURA – «A principal matéria prima é a capacidade de criar e inovar», sublinhou Odile Quintin, Directora Geral de Educação e Cultura da Comissão Europeia, na abertura do Forum Europeu das Indústrias Culturais, que decorreu em Barcelona no início da semana, com representação oficial do governo português. Não deixa de ser curioso que numa recente entrevista Gabriela Canavilhas se tenha discretamente demarcado do conceito de indústrias culturais, colocando de novo a tónica nos subsídios concedidos pelo Estado e fugindo a traçar planos de incentivo a iniciativas sustentáveis no sector. Mais preocupante é o facto de a Ministra da Cultura retomar o discurso de colocar o Estado como árbitro da qualidade no momento da atribuição dos financiamentos. Questões fulcrais para possibilitar uma dinamização do investimento no sector, como incentivos fiscais especiais (das artes plásticas ao audiovisual) ou uma Lei do Mecenato mais ambiciosa e eficaz são deixados completamente de parte. E na mesma entrevista a Ministra afirma, preto no branco, que o caminho que pretende seguir não é o de garantir um grande orçamento para o Ministério que dirige.
ENSINO – Precisamente sobre o ensino relacionado com as indústrias culturais, aqui há um ano atrás formulei muitas reservas sobre uma pós graduação em Gestão e Empreendedorismo Cultural, do ISCTE/INDEG. Agora que terminou essa primeira pós graduação cabe dizer que as reservas tinham fundamento: questões tão cruciais e decisivas do ponto de vista do desenvolvimento desta indústria, como a gestão dos direitos, exploração de royalties, marketing, publicidade, redes sociais e fund raising foram praticamente ausentes. Mesmo dando de barato que a gestão do curso foi (por facilitismo?) orientada para museus e função pública, a verdade é que o conteúdo privilegia a noção estatal da cultura em detrimento da visão de desenvolvimento de uma economia assente no desenvolvimento das industrias criativas e culturais.
PSD – Pedro Passos Coelho venceu folgado, trabalhou para isso e juntou um vastíssimo leque de apoios. O mais difícil começa agora, com o arrumar da casa, com a forma de relacionamento das clientelas internas sequiosas de poder, com a concretização das verdades gerais em propostas políticas concretas e, sobretudo, com a forma de fazer oposição e disputar a sua liderança. Com um PP parlamentarmente muito activo, com Paulo Portas a ser, para um número crescente de eleitores, a cara da oposição a Sócrates, e com a capacidade de marcação da agenda política que os Populares têm sabido gerir, como recentemente na educação e na segurança, o grande desafio imediato de Passos Coelho é disputar a liderança da oposição sem descurar a possibilidade de alianças futuras que permitam uma nova solução governativa.
NÚMEROS - Um estudo recente mostra um dado aflitivo: nos últimos três anos a taxa de execução do QREN foi de 23,5 por cento e dos 8,3 mil milhões de euros que a Comunidade Europeia disponibilizou para Portugal, ficaram por utilizar 6,3 mil milhões. Contra números destes não há grandes argumentos, mas deviam ser procurados responsáveis – a começar pelo Governo – e deveria ser analisado o que falhou. Na situação em que estamos este funcionamento perdulário é mais que irresponsável – é criminoso. Sócrates chegou ao poder a bramar contra a má gestão da coisa pública. Os números do deficit, os números do endividamento externo e os números da execução destes programas comunitários não deixam dúvidas sobre o que de facto é uma péssima gestão do PS.
LISBOA – O vereador Gonçalo Reis publicou um belo artigo sobre a verdade dos números do orçamento proposto para a Câmara Municipal de Lisboa, com três meses de atraso, por outra paladino da gestão eficaz, António Costa: crescimento da despesa corrente em 6,2% para 492,4 milhões de euros, fornecimentos e serviços externos a aumentarem 26,4% para 30,9 milhões de euros, deficit previsto no exercício de 2010 de 115,4 milhões de euros, investimentos previstos a três anos no valor de 669,6 milhões de euros sem indicação de como serão financiados. As contas de Lisboa apresentadas pela equipa de António Costa são uma trapalhada. Claro que agora há-de dizer que a ausência de orçamento aprovado se deve à oposição e não à sua incapacidade.
LER – A palavra «Money» em destaque é o elemento comum nas mais recentes edições das revistas Vanity Fair e Wired, por acaso ambas do grupo editorial Condé-Nast e por acaso ambas com edições preparadas para o iPad, cujo lançamento está por dias. Digital à parte, são duas boas edições em papel. A Wired dedica-se ao futuro do dinheiro virtual, em novas formas digitais. E a Vanity Fair centra a edição na continuação de Wall Street com Michael Douglas no papel de Gordon Gekko, nas sequelas do crash de há um ano e nas novas fortunas nascidas na crise. Revistas assim há poucas.
OUVIR – É uma delícia ouvir um disco feito por bons músicos pelo prazer de tocar boa música – a descrição aplica-se que nem uma luva a Hats And Chairs, dos Soaked Lamb, uma banda portuguesa que revisita os sons do vaudeville norte-americano, com referências claras ao blues e a New Orleans. Destaque para Mariana Lima, a vocalista e saxofonista que contribui para que este seja um dos discos portugueses dos últimos tempos que mais gozo me deu.
VER – Medina Carreira e Nuno Crato, moderados por Mário Crespo e com a presença de mais um convidado em cada semana, fazem de «Plano Inclinado» um dos melhores programas de debate da televisão portuguesa. Passa na SIC Notícias ao sábado às 22h00, com repetições noutros horários e sempre disponível na internet.
DESILUSÃO – Vítima de algumas descrições entusiásticas, resolvi um dia destes experimentar um estabelecimento intitulado OPAQ, que se apresenta como um restaurante e bar muito ligado à moda e ao mundo da moda, muito glamour e coisa e tal.
A decoração adequa-se à descrição, mas a coisa fica por aí. A comida era apenas mediana, o serviço bem intencionado mas frouxo, a lista de vinhos curta e mesmo assim com algumas faltas. A terminar não havia outro vodka sem ser Eristoff – o que é uma má ideia – e nada de Visa, apenas Multibanco. Fraco, fracote. Boqueirão do Douro 50 (ao Conde Barão), telef 213 940 602.
BACK TO BASICS – As ideias são o motor do progresso – Dalai Lama
março 30, 2010
CULTURA: SUBSÍDIO OU INCENTIVO?
(Publicado no diário Metro de 30 de Março)
Com o Forum Europeu de Industrias Culturais a decorrer em Barcelona ainda é mais actual pensar nestes temas...
Quando se começa a falar dos dinheiros da Cultura existe uma tendência para a conversa se entornar rapidamente. Extremam-se posições entre os que reivindicam maior orçamento, maiores subsídios e os que propõem sobretudo medidas de estímulo ao desenvolvimento de várias actividades.
Temos à mão um bom exemplo com a produção de telenovelas e séries portuguesas. Os mais cépticos perguntarão logo – o que é que isso tem a ver com cultura? Tem muito mais do que aquilo que se pensa.
Há uns anos atrás, antes de existir em Portugal a produção regular e constante de novelas e séries para televisão que hoje existe, o trabalho dos actores era bem mais precário e as oportunidades bem mais reduzidas. Desde que esta produção se desenvolveu a maior parte dos grandes nomes do nosso teatro passou a encarar a televisão como um boa forma de encontrar uma estabilidade que o Teatro e os subsídios não podem proporcionar.
Por outro lado uma nova geração de actores estreou-se na televisão e alguns já deram depois o salto para o cinema e, nalguns casos, para o Teatro. De uma forma geral nos últimos dez anos desenvolveu-se o guionismo (a escrita de argumentos), uma série de profissões técnicas fundamentais para a produção artística (iluminação, sonorização, realização) e tudo isto foi feito sem subsídios.
Recentes declarações da Ministra da Cultura parecem querer desvalorizar as actividades que movimentam mais dinheiro, mas que criam mais emprego e desenvolvem mais competências, como é o caso da televisão e da produção audiovisual no geral. Esta atitude perante o sector industrial das actividades da cultura e do entretenimento é a responsável pelo miserabilismo de grande parte da política cultural do Estado ao longo dos últimos 20 anos.
Em vez de se pensar em fomentar a actividade e em criar mercado, centraram-se os esforços apenas nas formas de distribuição de subsídios e no aumento da participação do estado em várias actividades. Assim, já se sabe, não há dinheiro que chegue. E no fim não há quase nenhum efeito multiplicador. Melhor do que querer mais subsídios é por exemplo fomentar incentivos fiscais, a começar por uma nova Lei do mecenato.
março 23, 2010
E O PAVILHÃO DE PORTUGAL?
(Publicado no diário Metro de dia 23 de Março)
Enquanto se lançam primeiras pedras de mais obras, como o novo Museu dos Coches, o Pavilhão de Portugal, na Expo, lá continua vazio – é pena que um edifício feito para albergar exposições permaneça quase votado ao abandono, tornado um espaço de aluguer para eventos. O Museu Colecção Berardo, que podia ter ido para lá, acabou por ficar no CCB, onde aliás está a fazer bom trabalho. A colecção de Moda e design também podia ter ido para lá, mas acabou por ficar na Baixa, nas antigas instalações de um Banco. Quase todos os anos surgem em Lisboa notícias de ampliações ou obras de novos museus – desde o de Arte Contemporânea até um eventual museu da cidade no Terreiro do Paço. Estas obras de recuperação são caríssimas na generalidade dos casos e no entretanto ninguém se lembra de dar uma utilização condigna ao Pavilhão de Portugal. Com uma área de 2000 m2, com infra- estruturas raras em edifícios deste género, com uma pala enorme e impressionante que se tornou entretanto um emblema de Lisboa, o Pavilhão de Portugal projectado por Siza Vieira, é um enorme elefante branco em que ninguém quer tocar.
A razão desta situação de abandono é meramente contabilística – quem ficar com o Pavilhão vai ter que arcar com o valor a que ele está considerado nas contas da Expo, e que não é pequeno – mas a verdade é que há mais de dez anos vários governos e várias presidências da Câmara ainda não foram capazes de encontrar uma solução racional que permita a utilização deste belíssimo edifício para a finalidade – mostrar exposições – para o qual foi pensado e construído. A mim faz-me muita impressão que se projectem tantas obras e que ninguém se lembre de resolver esta questão – em Dezembro a Ministra da Cultura disse que o Pavilhão tinha um destino mas não disse qual e deixou entender que – estranhamente – não seria na área do seu Ministério. E entretanto lá continua desesperantemente vazio, a ser alugado ao dia como um salão de hotel. Este país não se percebe.
março 22, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 19)
CORTES – Várias análises publicadas esta semana mostram que os principais cortes que o PEC realizou foram obtidos à custa das despesas sociais, muito mais do que à custa da diminuição do peso do aparelho de Estado. Traduzido por miúdos o Governo corta naquilo que se esperaria que os impostos e taxas que cada um paga garantissem, e não se aplica a racionalizar e a melhorar efectivamente o serviço que o Estado presta aos cidadãos.
JUSTIÇA – Precisamente a este respeito o funcionamento da Justiça é um dos maiores problemas que temos. Infelizmente ainda esta semana se voltou a confirmar que o funcionamento da polícia é parte dos problemas no funcionamento da Justiça – sobretudo quando se percebe que em 2009 a polícia efectuou nove execuções e em 2010 já vai em mais quatro. Para um país que se gaba de ter sido dos primeiros a abolir a pena de morte, não está mal.
CONGRESSO – De todo do Congresso do PSD retive a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, a tentar colocar os pés dos congressistas bem na terra – para o PSD conseguir um Governo estável tem que desenvolver uma estratégia de alianças, o que quer dizer ter as ideias bem assentes sobre o que quer fazer no Governo e com quem. É básico, mas não estava dito e fez bem ouvir alguém falar do assunto naquela ocasião. Quanto ao resto apenas me ocorre dizer, como um bom amigo me disse no dia seguinte, que o Congresso correu bem…ao PS.
TELEVISÃO – Em vésperas da data prevista para a transição do sistema analógico actual para a televisão digital terrestre seria bom voltar a discutir qual o papel do Serviço Público na nova paisagem audiovisual, como se devem encarar nesse contexto as novas oportunidades abertas pelas tecnologias mais recentes, como criar condições para desenvolver a oferta e os modelos de negócio dos operadores privados de televisão, e como criar as bases para o desenvolvimento da indústria de produção audiovisual em língua portuguesa e em Portugal. O resto, nesta matéria, na nossa situação actual, é pura perca de tempo e de energias.
VER – Na Galeria Baginski inaugurou nesta quarta feira uma dupla exposição muito curiosa: novas pinturas de Carlos Correia e manipulações de fotografias por Délio Jasse. «Ensaio» é o título da exposição de Carlos Correia, um dos mais originais pintores portugueses contemporâneos, com obra pública iniciada há pouco mais de uma década e com presença já assinalável numa série de colecções importantes. As novas obras exploram nomeadamente as memórias de imagens que marcam a vida quotidiana. Na sala ao lado o angolano Délio Jasse apresenta «Schengen», uma evocação da sua condição de imigrante e da vigilância que as sociedades europeias exercem sobre os imigrantes. Jasse reflecte sobre a sua condição através da manipulação e intervenção sobre a imagem fotográfica. Até 15 de Maio, Rua Capitão Leitão 51/53, a Marvila.
LER – Joaquim Manuel Magalhães é dos poetas portugueses que mais gosto. A sua produção é escassa e o autor submete-a a periódicas revisões. Este ano foi publicado pela Relógio d’Água «Um Toldo Vermelho», uma antologia que o próprio autor descreve desta forma numa discreta nota final: «Este volume constitui a minha obra poética até 2001, a que acrescento um poema publicado em 2005. Exclui e substitui toda a anterior». O autor quer assim como que rever a forma como expõe a sua obra, preferindo não incluir aqueles textos que por alguma razão deixou de considerar poemas publicáveis. O que gosto mais em Joaquim Manuel Magalhães é a forma como escreve, o ritmo que imprime, o modo como escolhe palavras e a narrativa que desenha, Tem uma forma de escrita quase gráfica, permanentemente sugerindo imagens. E, como explora os limites do português e tem um olhar totalmente contemporâneo, consegue escrever poesia sobre um tema tão improvável como as máquinas de um ginásio.
OUVIR – Neste tempo em que muito se fala da necessidade de cada pessoa ou empresa se reinventar permanentemente é muito curioso observar como os Tindersticks passaram eles próprios por esse processo. Este «Falling Down A Moutain», o oitavo disco do grupo, que há cinco anos não publicava originais, mostra uma banda num momento alto de criatividade, a revisitar ambientes de jazz, influências dos rhythm’n’blues, de Tom Waits e até de Johhny Cash, para além das baladas que são a imagem de marca de Stuart Staples. Vale a pena destacar um dueto de Mary Margaret O’Hara com Staples, «Peanuts», um diálogo bem humorado e irresistível. Destaque ainda para «Piano Music», a faixa instrumental que encerra o disco, num ambiente que faz o contraponto perfeito à faixa de abertura, que é a muito jazzy e quase hipnótica «Falling Down A Moutain», que dá o nome ao álbum. CD 4AD.
PETISCAR – Muitos dos estabelecimentos comerciais que hoje em dia se intitulam gourmet shops são na realidade pouco mais do que as antigas mercearias e charcutarias finas – como as mercearias antigas da Baixa (como a Jerónimo Martins) ou as charcutarias Diplomata. Confesso que muitas vezes gosto de acabar as minhas tardes com um pequeno passeio num destes estabelecimentos, a procurar inspiração para o jantar ou à procura de alguma novidade para o paladar – salvaguardadas as devidas distâncias não é, do ponto de vista sensorial, um exercício muito diferente de percorrer as estantes de uma livraria ou os escaparates de uma discoteca. Bem perto do Chiado, junto ao Largo Barão de Quintela, a meio da Rua das Flores, fica a Mercearia Doubles - um local despretencioso, mas com um razoável garrafeira, uma boa secção de frutas e legumes frescos, óptimas compotas, queijos e enchidos. Mesmo ali ao pé fica a nova padaria Quinoa, na Rua do Alecrim 54 – onde pode comprar desde bagels até diversos pães pouco usuais e de boa qualidade. O local também serve refeições leves e oferece uma boa selecção de chás, cafés e chocolates. Entre as duas pode encontrar forma de levar para casa o suficiente para petiscar como deve ser.
BACK TO BASICS – É o Governo que deve trabalhar para os cidadãos e não os cidadãos que devem trabalhar para alimentar os governantes – Gordon Beck
março 16, 2010
VALE A PENA TER SERVIÇO PÚBLICO DE TV?
(Publicado no diario Metro de 16 de Março)
A DEMAGOGIA REINANTE
(Publicado no Jornal de Negócios de 12 de Março)
FUTURO – Esta semana ficámos a saber que a governação recente hipotecou o país por mais uma década. Feitas as contas haverá mais uma geração desprezada em Portugal, que irá certamente engrossar o rol dos novos emigrantes. Em qualquer caso existe um pano de fundo que ainda é pouco assumido, porque em geral não interessa a uma classe política desfasada da realidade e que vive de fazer promessas: o mundo mudou e não vai voltar a ser como era antes. Acabaram os tempos de facilidades e as projecções super optimistas.
março 10, 2010
A ECONOMIA DA CULTURA
(PUBLICADO NO DIÁRIO METRO DE DIA 9)
Um recente estudo, de Augusto Mateus, sobre a área da cultura e entretenimento mostra que hoje em dia o peso económico das indústrias criativas já é maior, por exemplo, que o dos têxteis. A Ministra da Cultura, numas declarações a propósito do estudo, meteu os pés pelas mãos e embrulhou-se toda para explicar, meio engasgada, que o estudo abrangia um universo muito lato que ía até ao que designou por música pimba, que não é mais que a música popular. Na realidade a vantagem deste estudo é que partiu para a análise do sector sem ideias feitas e com espírito aberto, adoptando aliás o enquadramento do sector que é utilizado em todo o mundo e que abrange, além das áreas habituais, a industria discográfica, os espectáculos, o audiovisual (cinema e televisão), os jogos de computador ou a publicidade, por exemplo. Analisando as coisas nesta perspectiva, que é a que corresponde à realidade, cedo se torna evidente que o que interessa para desenvolver este sector é canalizar para lá mais investimentos em vez de a preocupação estar centrada apenas em subsídios pontuais. Ou seja, do ponto de vista de criação de postos de trabalho é importante fomentar a actividade nestas áreas, nomeadamente no audiovisual e no digital, assim como criar esquemas financeiros que fomentem, à semelhança de outros países, a compra de obras a jovens artistas plásticos. Desculpem por puxar a brasa ao audiovisual – uma língua e uma cultura que não estejam presentes de forma consistente na produção para digital, televisão e cinema estão condenadas ao progressivo desaparecimento no mundo actual. Por isso, o Fundo de Investimento para o Cinema e o Audiovisual, lançado há uns anos, era uma ideia importante. Infelizmente, soube-se esta semana, o Governo e o Ministério da Cultura não cumpriram os seus compromissos e estão a provocar a paralisia de empresas de produção, o despedimento de técnicos e a asfixia do sector. Ou seja, na prática o Governo faz o contrário daquilo que o estudo que encomendou aconselha.
março 08, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Março)
PSD – Olho para a discussão entre os candidatos a líderes do PSD e fico um pouco perplexo. Eu, como muitos outros cidadãos sem partido, gostaria que houvesse um debate mais político e menos aparelhístico. Citando Marcelo Rebelo de Sousa, a última coisa que desejo é que a discussão entre os candidatos à liderança do PSD se transforme num concurso de tempos de aplausos no próximo congresso social-democrata. Nestes dias, nestes debates, vejo surgirem muitas propostas, a maior parte delas sem serem acompanhadas de uma estratégia que permita concretizá-las, para além da vontade pessoal de cada um dos candidatos. Sinceramente gostaria que tivéssemos um governo reformista, liberal, capaz de começar a apagar o peso do Estado, capaz de defender as pessoas, capaz de combater o despesismo e capaz de fazer investimentos produtivos. Já percebemos que o caminho do Governo do PS não é este. Eu espero que possa ser encontrado um rumo para que num futuro próximo surjam condições políticas para criar uma nova forma de governar – com mais respeito pelas opiniões dos outros, com respeito pelas vozes críticas, com menos escândalos e trapalhadas.
PS - Nas últimas semanas uma série de figuras do PS têm-se desdobrado em defesa de José Sócrates e o próprio tem vindo a terreiro defender-se do que entende serem ataques pessoais. Estas atitudes subvertem completamente o que está em jogo – o que se tem passado, numa série de casos recentes, não é uma perseguição pessoal a José Sócrates, é um ataque político a atitudes ligadas ao exercício do cargo de Primeiro Ministro. Na realidade, o carácter do Primeiro-Ministro é porto em causa não por outros, mas por ele próprio.
ÉTICA – O teatro pode ser um bom palco para reflectir sobre a ética– foi o que pensei quando estava a assistir a «Édipo», no Teatro Nacional D. Maria II. Achou louvável que o Teatro Nacional leve à cena grandes textos clássicos e acho ainda mais louvável que escolha um encenador como Jorge Silva Melo, que fez um belo trabalho. Mas acho muito descabido que o Director de um Teatro Nacional aceite colocar-se no papel principal das peças que produz. Esta confusão de papéis – entre director artístico e actor - gera situações equívocas. Independentemente do fraco resultado artístico da actuação de Diogo Infante como Édipo, a questão está na mistura de funções. Infelizmente estas coisas discutem-se pouco e existe uma espécie de pudor em dizer - «o Rei vai nu». Mas, neste caso, vai mesmo. Fica se na duvida se isto é programação em causa própria e, se o for, talvez lhe ficasse melhor fazer o papel de Narciso
Salva-se a encenação, a banda sonora e os pastores, sobretudo Cândido Ferreira.
LER – A edição nº 31 da revista «Monocle», publicada em Março, tem dois especiais que são dignos de nota. O primeiro é sobre a cidade do Rio de Janeiro, considerada como uma cidade em alta depois do anúncio dos Jogos Olímpicos. O artigo é completo, tem dicas de locais, de hotéis e restaurantes a bares e lojas. Fala do renascimento urbano do Rio e cita o exemplo de uma instituição chamada Rio Filmes, que financia filmes que têm a cidade como palco – e que trabalha em estreita relação com a Film Commission local – um bom exemplo de trabalho nesta área de produção de cinema. O segundo especial é um suplemento de 36 páginas inteiramente dedicado a Espanha. Está editado com enorme cuidado, é objectivamente feito em parceria com as autoridades espanholas do turismo e quem o vir nem acredita que existe uma grave crise aqui no país vizinho. Editorialmente está focado em temas com a indústria, a energia, a cultura, turismo, moda e design, entre outros, sempre numa perspectiva de mostrar o que é novo e não apenas o que já é conhecido. Em termos das pessoas focadas nota-se o cuidado em mostrar talentos emergentes na área do cinema e da moda e não os nomes já consagrados. A imagem que resulta é a de uma sociedade criativa, viva e dinâmica, a responder às dificuldades. É um suplemento exemplar daquilo que pode ser a divulgação da imagem contemporânea de um país. Outro interessante artigo relata a guerra política que vai em torno dos grandes grupos de media turcos – muito interessante se tivermos em conta a nossa história recente por estas bandas.
VER - «Sem Rede», a exposição retrospectiva de Joana Vasconcelos que esta semana inaugurou no Museu Berardo é verdadeiramente irresistível. A artista é polémica e eu descrevo assim o seu trabalho: excessivo, intensamente físico, delirante e fantástico. A montagem aproveita os grandes espaço do CCB e obras de referência da artista como «A Noiva» (o lustre feito de tampaxes), «Burka», «Contaminação» ou «Cinderela» são aqui novos motivos de surpresa. A exposição vai estar até 18 de Maio e garantidamente constituirá um êxito de público – o que é muito bom.
OUVIR – As coisas simples são frequentemente as melhores. «Home», um disco do norte-americano Peter Broderick datado de 2008, é o exemplo de como se podem fazer excelentes canções com parcos recursos – guitarras, alguma percussão, alguns instrumentos electrónicos, uma harmónica e um vibrafone aqui e ali. Arranjos elegantes, letras intimistas e inteligentes, uma voz quente. E aqui está um grande disco.
PETISCAR – Durante anos habituei-me a encontrar no restaurante «O Manel» do Parque Mayer um refúgio seguro a preço razoável. Por lá tive encontros de trabalho, almoços e jantares com amigos, sempre com serviço cuidado e boa qualidade. Quando o Parque Mayer fechou, no final do ano passado fiquei sem saber o que tinha acontecido a Júlio Calçada, o filho e herdeiro do fundador, e à sua equipa. Mudaram-se para o restaurante do Clube Municipal de Ténis de Monsanto, a Grelha Real. A lista do velho «O Manel» mantém-se e esta semana lá fui experimentar a primeira lampreia da época – arroz saborosíssimo, no ponto, belos bocados do bicho perfeitamente cozinhados. Enquanto a lampreia durar por lá estará às quartas; o cozido mantém-se às quintas e todos os dias há bom peixe fresco. E Júlio Calçada continua a saber o que é tratar bem os seus clientes. Está encerrado ao Domingo à noite e toda a Segunda-feira e nos outros dias serve almoços e jantares. Tem parque privativo, fica a dez minutos de carro das Amoreiras e o telefone é 213 646 302.
BACK TO BASICS – Os partidos têm de ter vergonha e ter cuidado com quem colocam nos postos cimeiros - José Luis Saldanha Sanches
fevereiro 27, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 26 de Fevereiro)
ONG – Admiro as pessoas que se entregam a causas e que têm a capacidade de fazer, em Organizações Não Governamentais, aquilo que os Governos se mostram incapazes, insensíveis ou desinteressados em fazer. Mostram uma capacidade de mobilização , uma capacidade de atingir objectivos e de alcançar resultados que fazem inveja a muitos gestores. É uma forma de intervenção cívica que vive do princípio de juntar vontades, juntar esforços e evitar a tradicional armadilha da política e políticos tradicionais – dividir para reinar. Espanto-me por isso que Fernando Nobre surja agora no papel de político, forçosamente a provocar divisões entre quem o tem apoiado na AMI, e a meter-se numa luta de facções no mínimo exótica. Resta esperar que no fim desta aventura não seja a AMI a prejudicada – o que é um risco considerável. Ganhar notoriedade no bem comum para depois a gastar no poder pessoal é no mínimo uma coisa desagradável.
EXEMPLO – Onde é que a arrogância do Governo e a inoperância da Câmara Municipal de Lisboa se cruzam? - Na devastação criada frente à Torre de Belém, que viu a sua área envolvente destruída pelas festividades da assinatura do Tratado de Lisboa. Uma operação de imagem de Sócrates devastou um dos emblemas da cidade e do país e a Câmara lá tem ficado parada a ver o lamaçal adensar-se, nada fazendo em quase três meses para resolver a situação. É mais ou menos desde essa altura que anda a destruir o Jardim do Princípe Real. ESTUDO – Na semana passada o semanário «Expresso» publicou um bom estudo elaborado pela empresa de consultoria de Augusto Mateus sobre o peso económico das indústrias culturais e criativas na economia portuguesa. Muito resumidamente conclui-se que este sector já vale mais que os têxteis e quase tanto como o sector automóvel. O bom senso mandaria que os amáveis políticos, que nos governam ou querem governar, se dedicassem a estudar o tema e a apresentar políticas. Mas quase nada surge, muitas vezes o que aparece é meramente rotineiro e bastante ultrapassado, pouco passando de vagas declarações de princípio. Há pouco estudo de bons exemplos internacionais, há pouco conhecimento de tendências, há ignorância na aplicação de vantagens fiscais, continua a preferir-se subsidiar a incentivar. E, na realidade, as indústrias culturais e criativas fortes, para além das vantagens económicas, são um factor de atractividade, de competitividade e de imagem – e menos sujeitas a deslocalizações que as quimondas desta vida. FICA – O Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual foi uma das grandes bandeiras do primeiro Governo de Sócrates na área da Cultura. A ideia em si era boa – mas precisava de dinheiro. Ora nos últimos tempos o FICA tem-se deparado com falta de fundos – o Estado não pagou durante muito tempo (quase dois anos), depois utilizou verbas do CREN para pagar o que devia – solução que levanta dúvidas – e na sequência dos atrasos do Estado claro que as televisões também não entregaram a fatia que lhes competia. Em resumo, o FICA está numa crise de financiamento e de gestão, algumas produtoras já estão a sofrer com o assunto e nalguns casos já se verificam despedimentos. Sobre este assunto – precisamente na área das indústrias criativas e da inovação, que tem o Governo a dizer? LER – A revista norte-americana «Wired» foi considerada a «revista da década» pela «Adweek», uma publicação especializada na análise de media. A edição de Fevereiro inclui um artigo muito interessante, que podem também ser consultados na edição on line. O artigo mais interessante diz respeito ao novo conceito de revolução industrial no século XXI – uma revolução que muda os paradigmas das grandes instalações industriais para a criatividade individual, desenvolvida em poucos espaços e muitas vezes apenas com recursos próprios. Dá que pensar e vale a pena ler.- «The New Industrial Revolution», por Chris Anderson. VER – A programação do Museu Berardo, em Lisboa, no CCB, continua verdadeiramente exemplar. Desde o início do mês já inauguraram três exposições dignas de nota e, para a semana, na segunda-feira, arranca uma retrospectiva da obra de Joana Vasconcelos – mas isso ficará para outra ocasião. Das exposições que já estão a funcionar destaco «Body Without Limits» de Judith Barry, surpreendente de criatividade e originalidade na forma de utilizar o vídeo e com uma montagem excepcional – um projecto que teve curadoria de Luis Serpa. Quase tão entusiasmante como a exposição de Judith Barry é a retrospectiva de Robert Longo, um artista norte-americano muito influenciado pela pop (fez vários videoclips para os New Order e REM por exemplo), e que mais tarde se dedicou à escultura e ao desenho. Finalmente, num registo diferente, as fotografias de viagem de Annemarie Schwarzenbach mostram um olhar de época sobre destinos exóticos para uma suíça – entre os quais Portugal. Mas o que interessa reter é a dinâmica da programação, a agitação do local com públicos de várias idades, a variedade de propostas e o empenho em divulgar artistas e as suas obras. OUVIR – Depois de um interregno de oito anos Peter Gabriel regressa com um surpreendente disco, onde reinventa o conceito de versões – reconstrói os originais e com a ajuda de John Metcalfe cria novos arranjos, recorre a instrumentações pouco usuais, alterações de ritmos e harmonias e, finalmente, arrisca interpretações vocais que propositadamente se afastam do que podia ser esperado. Aqui estão canções, de David Bowie, Arcade Five, Magnetic Fields, Regina Spektor, Neil Young mas também de Paul Simon, Talking Heads e Lou Reed, entre outros, numa curiosa recolha de preferências do próprio Gabriel – que nas interessantes notas de capa do disco confessa que o processo de escrita de uma canção foi o que o atraiu para a música. Sublinha que escolheu algumas das suas canções favoritas e focou-se no lado da interpretação e não na criação original. O resultado é um exemplo de criatividade aplicada à reinvenção, muitas vezes mais complexa do que o processo criativo original. «Scratch My Back» é o título do projecto, a que se seguirá um outro disco, com os autores das canções aqui utilizadas a recriarem canções de Gabriel que eles escolherão – e o novo trabalho continua o título deste - «And I’ll Scratch Yours». (CD Real World). BACK TO BASICS – Quanto maior o poder, maiores as responsabilidades e maiores as consequências - juiz americano, ao condenar a prisão um alto funcionário por mentir em inquéritos oficiais.
fevereiro 22, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 19 de Fevereiro)
fevereiro 18, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Fevereiro)
UMA LINHA POLÍTICA – O caso das tentativas de ingerência do Governo, do PS e, em especial, de José Sócrates na comunicação não são um caso de violação de segredo de justiça – desde que Sócrates, em pleno Congresso do PS, apontou a dedo os alvos a abater em matéria de informação criou uma linha política. A actuação do PS e do seu Governo nesta matéria tem-se limitado a seguir essa linha com o objectivo de, sempre que possível, combater a divergência, castigar quem critica, querer assegurar a manipulação e uniformizar a informação. Os relatos sobre estas malfeitorias são numerosos e oriundos de várias procedências.
O PS E A IMPRENSA – O Partido Socialista gosta de ostentar galardões em prol da liberdade de imprensa e Mário Soares veio em defesa de Sócrates agitar os seus pergaminhos. Como a luta pela liberdade de expressão e de imprensa não era um monopólio do PS antes de 1974, proponho que se analisem as coisas ocorridas depois do 25 de Abril. Ao ataque de que a «República», próxima do PS, foi alvo em 1975, por forças à sua esquerda, respondeu o PS, anos depois, com o encerramento de todo o grupo «Século», pela mão de Manuel Alegre, então com funções governativas nessa área – foi o primeiro caso em que o PS resolveu acabar com um voz que lhe era incómoda, não se preocupando nem com o desemprego causado, nem com o facto de estar a encerrar um dos grupos de imprensa com maior História em Portugal. A geração de dirigentes do PS dessa época passou, depois, a querer criar jornais que seguissem a cartilha do partido, sempre com assinalável dose de insucesso comercial – desde o extinto «Portugal Hoje» que se esboroou a combater Eanes, até à aventura com Robert Maxwell, que acabou no meio da trapalhada do caso Emaudio. Ao longo destes vários casos o PS sacrificou jornalistas, fez e desfez empresas e postos de trabalho. A geração pós-Soares, esta que agora está no poder, é muito mais profissional e eficaz nesta matéria: usa-se o aparelho de Estado, a pressão, a influência e se necessário for o dinheiro para alcançar os objectivos.
O CASO TVI – Um dia ainda alguém há-de fazer a história da entrada da Prisa em Portugal, da forma como a vida lhe foi facilitada, das primeiras nomeações que fizeram (na Administração e na rádio, por exemplo) e dos apoios, dentro do actual PS, que tiveram em relação aos seus primeiros anos em Portugal, no início do primeiro Governo Sócrates e com um empurrão de Zapatero. Quem seguir a linha dos acontecimentos no sector dos media perceberá que o que se está a passar no país não pode ser discutido apenas à luz da justiça, mas sobretudo à luz da política. Na realidade a única coisa que todo o processo Face Oculta mostra é que uma investigação sobre corrupção se cruzou com uma conspiração política, que acabou por tocar o núcleo central do regime.
ELEIÇÕES – Hoje em dia fica claro que o objectivo de uma sucessão de movimentações desencadeadas por figuras próximas de Sócrates no sector dos Media era condicionar a opinião pública num ciclo de sucessivos períodos eleitorais. Na realidade o que é politicamente relevante é que o núcleo duro de José Sócrates agiu em nome de um conceito absolutista de poder, através do qual se habituou a mandar no país, e criou um plano que apenas abortou porque foi conhecido antes de finalizado. Mas, mesmo assim, acabou por atingir a maior parte dos seus objectivos, tal enunciados por Sócrates no Congresso do PS – mudou direcções no «Público» e na TVI.
PERGUNTINHA – As figuras do PS que se insurgiram contra a inger~encia nos media, que vão fazer agora?
LISBOA – António Costa, neste seu segundo mandato, está a ter a característica de andar razoavelmente ausente dos grandes problemas da cidade. Não se lhe vê nem a energia nem a vontade de tomar conta dos grandes dossiers que podem fazer Lisboa mudar, nem tão pouco a capacidade de evitar situações como a do Principe Real. Quem assiste às reuniões da Câmara dá conta do seu ar frequentemente enfadado. Na Assembleia Municipal tornou-se maioritariamente ausente – desde que foi reeleito já são em maior número as reuniões em que não esteve do que aquelas a que se dignou comparecer. E entretanto, vai sendo cada vez mais habitual o PS não conseguir ganhar votações na Assembleia Municipal, que esta semana recomendou à Câmara que não se envolvesse na Red Bull Air Race.
LER – A edição de Fevereiro da «Monocle» é um número perfeito para viajantes. O tema de capa é a importância da hospitalidade na capacidade de atracção turística de países, cidades, linhas aéreas e hotéis – muito didáctico para a realidade nacional. Outros bons artigos – uma perspectiva diferente sobre o balanço do primeiro ano de Obama como Presidente, uma bela reportagem sobre a realidade do Nepal, um artigo sobre a aposta dos correios suíços na produção e distribuição de conteúdos como nova área de negócio, uma avaliação de alguns dos hotéis que vale a pena conhecer e, a terminar, um guia de Banguecoque e um portfolio sobre uma das fronteiras de Israel.
OUVIR – Electro-folk-pop: sabem o que é? Se não sabem descubram o novo disco de Charlotte Gainsbourg, «IRM», que deve muito da sua eficácia à produção certeira e elegante de Beck. Mas a produção não faria nada sem as canções simples, intimistas e muitas vezes surpreendentes que são todas assinadas ou co-assinadas pelo próprio Beck Hansen. A minha dúvida é se hei-de considerar este o melhor disco de Beck dos últimos anos ou se, como me parece neste momento, se trata de um trabalho a quatro mãos em que Charlotte Gainsbourg serviu de inspiradora e veículo para nos trazer uma outra faceta desse génio às vezes meio desaparecido que é Beck. De qualquer das formas «IRM» é um disco absolutamente arrebatador, por vezes erótico, por vezes dramático, sempre com a sobrevivência e a busca da vida como pano de fundo. CD
DESCOBRIR – Todos os espectadores de teatro têm agora à disposição uma eficaz agenda com indicações úteis sobre estreias, peças em cena, horários e preços. Vale a pena conferir em www.agendadeteatro.com .
BACK TO BASICS – Se alguém diz a verdade, é certo que, mais cedo ou mais tarde, será descoberta – Oscar Wilde
fevereiro 10, 2010
Aquela Máquina
(Publicado no jornal "Metro" de 9 de Fevereiro)
O novo tablet da Apple, o iPad, é mais do que uma novidade tecnológica para maluquinhos da internet – é um novo tipo de aparelho que abre uma nova área de desenvolvimento na indústria de conteúdos. Na realidade o iPad não é um computador - é um centro de entretenimento móvel. Se quiserem uma comparação, o iPad está para o mundo actual como os rádios portáteis a transístores estiveram para o mundo do início dos anos 60. Com o iPad pode transportar-se tudo para todo o lado, desde música e jogos a filmes, passando por livros, jornais e revistas, ou pelo acesso ao email e a visualização de programas de televisão – para já não falar das estações de rádio que habitam a internet. O iPad – e outras máquinas semelhantes que inevitavelmente se lhe seguirão – vai de facto mudar a nossa forma de viver, de nos relacionarmos e de consumir conteúdos. Quando o iPad estiver na sua idade madura, digamos daqui a uns dois anos, meados de 2012, a primeira geração que já cresceu num ambiente digital estará a sair das faculdades e a começar a trabalhar. Pare eles, máquinas como o iPad serão tão familiares como as consolas portáteis de jogos e serão um acessório incontornável no dia-a-dia. Isto coloca um enorme desafio ao nosso país: Portugal é subdesenvolvido em matéria de produção audiovisual e de conteúdos digitais. Isto quer dizer que, a menos que exista uma esforço sério de criar conteúdos audiovisuais de nova geração – jogos, aplicações, micro séries, revistas virtuais – os utilizadores portugueses destas máquinas terão pouca escolha de conteúdos nacionais. Ou seja, o português corre o risco de se extinguir no novo mundo digital. Numa altura em que se discute muito a sobrevivência da nossa língua e a reforma ortográfica vale a pena dizer que tudo isso não servirá para nada se a língua não existir nas plataformas de conteúdos audiovisuais e digitais. Um país que não exista neste domínio será um país esquecido, uma cultura inexistente e uma língua morta.
fevereiro 08, 2010
(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Fevereiro)
fevereiro 02, 2010
COMEMORAR FALHANÇOS
(Publicado no diário Metro de 2 de Fevereiro)
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 29 de Janeiro)
janeiro 29, 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 22 de Janeiro)
EXERCÍCIOS SOBRE A MEMÓRIA
DESPERDÍCIOS - Em declarações à Bloomberg, o antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, defendeu que alguns municípios deviam proceder à demolição dos estádios construídos para o Euro 2004 já que «é muito difícil lidar com dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público». Como a mamória é parte da política, recordo que o actual Primeiro Ministro José Sócrates foi o responsável pela condução do processo que levou a que o Euro viesse para Portugal, o que implicou um programa megalómano de construção dos estádios, que arruinou vários clubes e, também, alguns municípios – e que agora se prova ser um enorme desperdício. Os estádios que causam maiores impactos negativos nos respectivos municípios são os de Aveiro, Leiria e Faro. Ponham isto no curriculum de Sócrates, na secção Obras Públicas – também nessa altura se argumentou muito com o efeito positivo que o Euro e os estádios teriam.
PRESIDENCIAIS - Manuel Alegre, o responsável pela decisão governamental de acabar com o jornal «O Século» e o seu grupo editorial em 1979, é, para já, o candidato do Bloco de Esquerda; Vitalino Canas, do PS, deu a entender que não seria o seu candidato; Francisco Assis, do PS, deu a entender que Manuel Alegre seria o seu candidato; Marco António, do PSD, deu a entender que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser candidato à Presidência da República; O Presidente da ERC mostrou-se contrário à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP depois de o Director de Informação desta estação ter declarado que era por instruções da ERC que Marcelo teria de deixar o seu comentário dominical.
LISBOA - Esta semana assisti, na Assembleia Municipal, à apresentação da Carta Estratégica de Lisboa. Confirmei o que suspeitava: excepção feita à área a cargo de Augusto Mateus, o resto é um documento propagandístico cheio de banalidades e de sugestões avulsas mais ou menos de senso comum, quase nunca surpreendentes, extremamente pouco inovadoras e muito embaladas pelas ideias politicamente correctas mais em voga. Trata-se de um bom levantamento de problemas – até aí concordo – mas de um fraco trabalho de apresentação de propostas ou de formulação de uma estratégia. Qualquer empresa de consultoria ficaria envergonhada se, após tanto tempo, apresentasse um resultado destes - na realidade, em matéria de perspectivas e de futuro, o documento é de uma pobreza confrangedora. Na realidade, na maioria dos casos, não se trata de uma Carta Estratégica mas de um Inventário de Problemas.
HOT CLUBE – Hoje completa-se um mês sobre o incêndio que fez interromper a actividade do Hot Clube, na Praça da Alegria. Ao fim deste mês ainda não se conhece uma solução (estou a escrever este artigo na quarta-feira à noite, dia 20). Eu acho que nesta questão tem de existir bom senso e realismo. Se a questão mais importante fôr proporcionar o rápido retomar das actividades do Hot (concertos incluídos), a prioridade é encontrar um espaço com área semelhante, condições técnicas razoáveis e localização e acessos simpáticos. Já se sabe que poderá não ser uma solução definitiva, mas também é evidente que a questão da recuperação do prédio vai demorar uns anos a concluir. O bom senso – quer da Direcção do Hot, quer da CML, mandaria que se procurasse uma solução rápida. Se cada um se entricheira no ideal (como me parece que está a acontecer), o Hot vai acabar por se esvair – e vai ficar apenas a alimentar as memórias dos saudosistas. O conservadorismo em relação a tradições e locais é mau conselheiro. O bom é inimigo do óptimo – eu acho que havia já tempo para se ter escolhido um local que, depois, em dois meses, ficasse pronto para funcionar. Mas pelos vistos ligou-se o complicómetro…
FILMES – Segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual, dos 20 filmes mais vistos em 2009, apenas quatro tem participações na produção de países europeus e nenhum é português. O filme mais visto foi «A Idade do Gelo 3», com 667.551 espectadores e o vigésimo foi «A Troca» com 188.611. Em comparação com o ano anterior verificou-se uma diminuição de espectadores de 1,9%, sendo o número final de 15,6 milhões de bilhetes vendidos. O mês com melhores resultados foi Dezembro. Dos 20 filmes mais vistos, todos estrangeiros, 18 tiveram mais que 200.000 espectadores. Passemos à produção nacional – o filme mais visto entre as 22 longas-metragens portuguesas estreadas, foi «Uma Aventura Na Casa Assombrada» com 102.309 espectadores. Destes 22 filmes portugueses, 13 tiveram menos que 3.000 bilhetes vendidos e apenas cinco mais de 10.000 espectadores. Aqui estão alguns números que devem fazer pensar – um país sem uma produção audiovisual massificada é um país sem idioma vivo nos tempos que correm - o resto é pura conversa da treta. Uma curiosidade – até ao início desta semana «Avatar», estreado em Dezembro, já era recordista de bilheteira em Portugal com um total 672.133 entradas. Enfim…
VER – Para assinalar o seu 450º aniversário, a Universidade de Évora resolveu convidar o colectivo de fotojornalistas da agência Kameraphoto para mostrar a realidade da Universidade, nas suas várias áreas, nos dias de hoje. O trabalho dos 13 fotojornalistas que trabalharam no projecto, ao longo de um ano lectivo inteiro, resultou em 170 fotografias e também num documentário em video - este é um trabalho exemplar, de que resultou uma exposição e um livro, ambos do ano passado. É um dos raros casos de uma encomenda séria de um ensaio fotográfico, ao que sei com total liberdade para os fotógrafos envolvidos poderem trabalhar e aceder onde quisessem. Fazem falta mais obras assim, mais ideias assim , mais encomendas assim. Talvez algumas das muitas Fundações que existem em Portugal pudessem tomar este exemplo e adaptá-lo. A (boa) edição é da Reitoria da Universidade de Évora. Espreitem www.kameraphoto.com/450/
OUVIR – Um quarteto tradicional (Jon Irabagon no saxofone, Kenny Barron no piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria) mostra como é possível conciliar melodias acessíveis e tonalidades jazzisticas clássicas, com interpretações de uma clara sonoridade contemporânea. Os dez temas são todos compostos por Jon Irabagon, o vencedor de 2008 da Thelonious Monk Institute International Jazz Saxophone Competition. Aqui está um músico a seguir, com um dos discos recentes a ter em conta. CD Concorde/Universal Music, «The Observer», Jon Irabagon, disponível na Fnac.
BACK TO BASICS – Na política nada é tão útil como uma memória curta – John Kenneth Galbraith
janeiro 20, 2010
(Publicado no «Jornal de Negócios» de 15 de Janeiro)
ZIGUEZAGUE - A situação das contas portugueses nos últimos meses parece um filme de horror – os indicadores degradam-se cada vez mais, desde o desemprego ao endividamento externo, passando pelo défice. Depois de ter andado meses a negar as evidências e a atacar quem relatava a verdade sobre o estado da nação, José Sócrates começou agora a fazer ziguezagues na sua até aqui intocável política de investimentos públicos. Tenho alguma curiosidade em ver onde isto vai parar, que projectos o Governo vai acabar por cancelar. Uma coisa é certa – foi preciso a realidade ser muito dura e desagradável para alguma coisa acontecer. E não precisava de ser assim.
SEXO - Agora que as discussões sobre sexo abrandaram no Parlamento e que os debates sobre casamentos de geometria variável se vão desvanecendo, fica já evidente que a pressa foi tanta que tecnicamente o trabalho ficou mal feito. Mais importante, fica claro que o agendamento destas questões fez apenas parte de uma estratégia de desviar a atenção de problemas mais importantes – a situação estrutural das contas públicas e das finanças portuguesas – na esperança que algum milagre as resolvesse. Como é bom de ver não houve milagre e andou-se a perder tempo precioso para tomar medidas ou para fazer negociações políticas em torno de questões verdadeiramente urgentes e estratégicas. Chama-se a isto mau governo – um governo que foge da realidade e arranja artifícios para adiar a resolução dos problemas mais graves.
PARTIDOS - A crise pela qual estamos a passar é um sintoma claro de que o sistema político e partidário têm que mudar – desde a forma de eleição até ao funcionamento do Parlamento ou das autarquias. A reflexão sobre estes assuntos está a tornar-se prioritária, sob pena de cada vez mais diminuir o interesse das pessoas na acção política e cívica. Atravessamos uma época em que a política é encarada como um expediente para obter vantagens pessoais ou uma ocupação para ociosos – é este estado de coisas que é preciso mudar. Atravessamos uma época em que aos eleitos é requerida apenas obediência e desejado conformismo. O resultado desta forma de agir está à vista.
TV - Eu acho que em televisão não existem lugares cativos nem eternas fórmulas de sucesso. Mas também acho que quando se consegue conciliar audiência com qualidade é verdadeiramente um desperdício acabar com um programa como «As Escolhas De Marcelo Rebelo de Sousa» - que na semana passada foi o 15º programa mais visto em todos os canais e o 5º mais visto na RTP. Esta decisão, exclusivamente política, de terminar com o programa volta a colocar a necessidade de debater como deve funcionar o serviço público – e como deve ser de facto garantido o pluralismo. As matemáticas da ERC redundam numa diminuição objectiva de qualidade da emissão – alguma coisa está mal quando o serviço público é obrigado a sobrepor critérios políticos a critérios qualitativos e ao juízo dos espectadores e da crítica.
LER – A edição 41 da revista trimestral «Egoísta» é dedicada à natureza e tem numerosos portfolios fotográficos, bastante desiguais. Merecem destaque os de Pedro Cláudio, de Gonçalo F.Santos, de Alfredo Cunha e de Nelson D’Aires. Nos textos destaque para «A Natureza da Carne» de Miguel Gullander e «A Velha» de Hélia Correia. São poucos mas bons – talvez a obrigar a revista a voltar a ter alguns rasgos de inovação que lentamente se vão sempre perdendo ao longo dos anos. De qualquer forma a «Egoísta» continua a ser um objecto impresso invulgar – precisa é de voltar a ser surpreendente.
OUVIR – Sou um devoto dos trios de jazz na sua formação mais clássica – piano, baixo e bateria. Aqui há uns anos Brad Mehldau recuperou, e bem, o género e algumas novas formações foram ganhando público. Stefano Bollani é um pianista italiano muito versátil que tem interpretado desde temas clássicos até versões pop-rock – mas é no jazz que se tem destacado. Há cerca de seis anos encontrou dois músicos dinamarqueses com quem tem vindo a trabalhar – Jesper Boldisen no baixo e Morten Lund na bateria. «Stone In The Water» é o mais recente disco do trio – que na semana passada esteve em Lisboa na Culturgest. Este «Stone In The Water» é um trabalho verdadeiramente surpreendente, na escolha de repertório (dois temas de Boldisen, quatro de Bollani, um de Caetano Veloso, um de Tom Carlos Jobim e um de François Poulenc), mas sobretudo pela enorme elegância, contenção e fluidez do trabalho dos músicos – aqui está um trio pouco exibicionista mas muito eficaz. Estou em crer que grande parte do encanto vem da forma muito especial com que o baixo de Jesper Bodilsen dialoga com o piano de Bollani. Este é verdadeiramente um trabalho de um grupo de músicos apaixonados pelo que estão a fazer. Vai sendo raro. Edição ECM.
EXPERIMENTAR – O «Sessenta» é um restaurante despretencioso com um conceito engraçado – ao almoço concilia rapidez com qualidade e ao jantar tem propostas mais elaboradas. Ao almoço há pratos do dia que vão de frango panado com farinheira (segundas) até favinhas com entrcosto e chouriço (quartas), passando por caril de camarão (terças), lulinhas guisadas com arroz branco (quinta) ou lombo de perca com broa e legumes (sexta). A qualidade é acima da média, o serviço é simpático e o espaço é divertido. À noite a carta apresenta outras propostas, a maior parte baseadas na tradição portuguesa com alguns toques de criatividade não exagerados. A lista de vinhos é razoável e os preços são honestos. O restaurante tem ainda serviço de take-away e um site invulgarmente informativo e exacto dentro do género – www.sessenta.pt. Resta dizer que O Sessenta fica na Rua Tomás Ribeiro nº60, esquina com a Luís Bívar, e o telefone é 213526060.
BACK TO BASICS – A escola certa para se aprender não é a vida, é a arte – Oscar Wilde