janeiro 20, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 15 de Janeiro)

ZIGUEZAGUE - A situação das contas portugueses nos últimos meses parece um filme de horror – os indicadores degradam-se cada vez mais, desde o desemprego ao endividamento externo, passando pelo défice. Depois de ter andado meses a negar as evidências e a atacar quem relatava a verdade sobre o estado da nação, José Sócrates começou agora a fazer ziguezagues na sua até aqui intocável política de investimentos públicos. Tenho alguma curiosidade em ver onde isto vai parar, que projectos o Governo vai acabar por cancelar. Uma coisa é certa – foi preciso a realidade ser muito dura e desagradável para alguma coisa acontecer. E não precisava de ser assim. 

 


SEXO - Agora que as discussões sobre sexo abrandaram no Parlamento e que os debates sobre casamentos de geometria variável se vão desvanecendo, fica já evidente que a pressa foi tanta que tecnicamente o trabalho ficou mal feito. Mais importante, fica claro que o agendamento destas questões fez apenas parte de uma estratégia de desviar a atenção de problemas mais importantes – a situação estrutural das contas públicas e das finanças portuguesas – na esperança que algum milagre as resolvesse. Como é bom de ver não houve milagre e andou-se a perder tempo precioso para tomar medidas ou para fazer negociações políticas em torno de questões verdadeiramente urgentes e estratégicas. Chama-se a isto mau governo – um governo que foge da realidade e arranja artifícios para adiar a resolução dos problemas mais graves. 

 


PARTIDOS - A crise pela qual estamos a passar é um sintoma claro de que o sistema político e partidário têm que mudar – desde a forma de eleição até ao funcionamento do Parlamento ou das autarquias. A reflexão sobre estes assuntos está a tornar-se prioritária, sob pena de cada vez mais diminuir o interesse das pessoas na acção política e cívica. Atravessamos uma época em que a política é encarada como um expediente para obter vantagens pessoais ou uma ocupação para ociosos – é este estado de coisas que é preciso mudar. Atravessamos uma época em que aos eleitos é requerida apenas obediência e desejado conformismo. O resultado desta forma de agir está à vista. 

 


TV - Eu acho que em televisão não existem lugares cativos nem eternas fórmulas de sucesso. Mas também acho que quando se consegue conciliar audiência com qualidade é verdadeiramente um desperdício acabar com um programa como «As Escolhas De Marcelo Rebelo de Sousa» - que na semana passada foi o 15º programa mais visto em todos os canais e o 5º mais visto na RTP. Esta decisão, exclusivamente política, de terminar com o programa volta a colocar a necessidade de debater como deve funcionar o serviço público – e como deve ser de facto garantido o pluralismo. As matemáticas da ERC redundam numa diminuição objectiva de qualidade da emissão – alguma coisa está mal quando o serviço público é obrigado a sobrepor critérios políticos a critérios qualitativos e ao juízo dos espectadores e da crítica. 

 


LER – A edição 41 da revista trimestral «Egoísta» é dedicada à natureza e tem numerosos portfolios fotográficos, bastante desiguais. Merecem destaque os de Pedro Cláudio, de Gonçalo F.Santos, de Alfredo Cunha e de Nelson D’Aires. Nos textos destaque para «A Natureza da Carne» de Miguel Gullander e «A Velha» de Hélia Correia. São poucos mas bons – talvez a obrigar a revista a voltar a ter alguns rasgos de inovação que lentamente se vão sempre perdendo ao longo dos anos. De qualquer forma a «Egoísta» continua a ser um objecto impresso invulgar – precisa é de voltar a ser surpreendente. 

 


OUVIR – Sou um devoto dos trios de jazz na sua formação mais clássica – piano, baixo e bateria. Aqui há uns anos Brad Mehldau recuperou, e bem, o género e algumas novas formações foram ganhando público. Stefano Bollani é um pianista italiano muito versátil que tem interpretado desde temas clássicos até versões pop-rock – mas é no jazz que se tem destacado. Há cerca de seis anos encontrou dois músicos dinamarqueses com quem tem vindo a trabalhar – Jesper Boldisen no baixo e Morten Lund na bateria. «Stone In The Water» é o mais recente disco do trio – que na semana passada esteve em Lisboa na Culturgest. Este «Stone In The Water» é um trabalho verdadeiramente surpreendente, na escolha de repertório (dois temas de Boldisen, quatro de Bollani, um de Caetano Veloso, um de Tom Carlos Jobim e um de François Poulenc), mas sobretudo pela enorme elegância, contenção e fluidez do trabalho dos músicos – aqui está um trio pouco exibicionista mas muito eficaz. Estou em crer que grande parte do encanto vem da forma muito especial com que o baixo de Jesper Bodilsen dialoga com o piano de Bollani. Este é verdadeiramente um trabalho de um grupo de músicos apaixonados pelo que estão a fazer. Vai sendo raro. Edição ECM. 

 


EXPERIMENTAR – O «Sessenta» é um restaurante despretencioso com um conceito engraçado – ao almoço concilia rapidez com qualidade e ao jantar tem propostas mais elaboradas. Ao almoço há pratos do dia que vão de frango panado com farinheira (segundas) até favinhas com entrcosto e chouriço (quartas), passando por caril de camarão (terças), lulinhas guisadas com arroz branco (quinta) ou lombo de perca com broa e legumes (sexta). A qualidade é acima da média, o serviço é simpático e o espaço é divertido. À noite a carta apresenta outras propostas, a maior parte baseadas na tradição portuguesa com alguns toques de criatividade não exagerados. A lista de vinhos é razoável e os preços são honestos. O restaurante tem ainda serviço de take-away e um site invulgarmente informativo e exacto dentro do género – www.sessenta.pt. Resta dizer que O Sessenta fica na Rua Tomás Ribeiro nº60, esquina com a Luís Bívar, e o telefone é 213526060. 

 


BACK TO BASICS – A escola certa para se aprender não é a vida, é a arte – Oscar Wilde