janeiro 29, 2010

(Publicado no «Jornal de Negócios» de 22 de Janeiro)

EXERCÍCIOS SOBRE A MEMÓRIA 

 


 


DESPERDÍCIOS - Em declarações à Bloomberg, o antigo Ministro da Economia, Augusto Mateus, defendeu que alguns municípios deviam proceder à demolição dos estádios construídos para o Euro 2004 já que «é muito difícil lidar com dívidas de algo que não cria riqueza nem representa um bem público». Como a mamória é parte da política, recordo que o actual Primeiro Ministro José Sócrates foi o responsável pela condução do processo que levou a que o Euro viesse para Portugal, o que implicou um programa megalómano de construção dos estádios, que arruinou vários clubes e, também, alguns municípios – e que agora se prova ser um enorme desperdício. Os estádios que causam maiores impactos negativos nos respectivos municípios são os de Aveiro, Leiria e Faro. Ponham isto no curriculum de Sócrates, na secção Obras Públicas – também nessa altura se argumentou muito com o efeito positivo que o Euro e os estádios teriam. 

 


 


PRESIDENCIAIS - Manuel Alegre, o responsável pela decisão governamental de acabar com o jornal «O Século» e o seu grupo editorial em 1979, é, para já, o candidato do Bloco de Esquerda; Vitalino Canas, do PS, deu a entender que não seria o seu candidato; Francisco Assis, do PS, deu a entender que Manuel Alegre seria o seu candidato; Marco António, do PSD, deu a entender que Marcelo Rebelo de Sousa poderia ser candidato à Presidência da República; O Presidente da ERC mostrou-se contrário à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da RTP depois de o Director de Informação desta estação ter declarado que era por instruções da ERC que Marcelo teria de deixar o seu comentário dominical.   

 


 


LISBOA - Esta semana assisti, na Assembleia Municipal, à apresentação da Carta Estratégica de Lisboa. Confirmei o que suspeitava: excepção feita à área a cargo de Augusto Mateus, o resto é um documento propagandístico cheio de banalidades e de sugestões avulsas mais ou menos de senso comum, quase nunca surpreendentes, extremamente pouco inovadoras e muito embaladas pelas ideias politicamente correctas mais em voga. Trata-se de um bom levantamento de problemas – até aí concordo – mas de um fraco trabalho de apresentação de propostas ou de formulação de uma estratégia. Qualquer empresa de consultoria ficaria envergonhada se, após tanto tempo, apresentasse um resultado destes - na realidade, em matéria de perspectivas e de futuro, o documento é de uma pobreza  confrangedora. Na realidade, na maioria dos casos, não se trata de uma Carta Estratégica mas de um Inventário de Problemas. 

 


 


HOT CLUBE – Hoje completa-se um mês sobre o incêndio que fez interromper a actividade do Hot Clube, na Praça da Alegria. Ao fim deste mês ainda não se conhece uma solução (estou a escrever este artigo na quarta-feira à noite, dia 20).  Eu acho que nesta questão tem de existir bom senso e realismo. Se a questão mais importante fôr proporcionar o rápido retomar das actividades do Hot (concertos incluídos), a prioridade é encontrar um espaço com área semelhante, condições técnicas razoáveis e localização e acessos simpáticos. Já se sabe que poderá não ser uma solução definitiva, mas também é evidente que a questão da recuperação do prédio vai demorar uns anos a concluir. O bom senso – quer da Direcção do Hot, quer da CML, mandaria que se procurasse uma solução rápida. Se cada um se entricheira no ideal (como me parece que está a acontecer), o Hot vai acabar por se esvair – e vai ficar apenas a alimentar as memórias dos saudosistas. O conservadorismo em relação a tradições e locais é mau conselheiro. O bom é inimigo do óptimo – eu acho que havia já tempo para se ter escolhido um local que, depois, em dois meses, ficasse pronto para funcionar. Mas pelos vistos ligou-se o complicómetro… 

 


 


FILMES – Segundo números do Instituto do Cinema e do Audiovisual, dos 20 filmes mais vistos em 2009, apenas quatro tem participações na produção de países europeus e nenhum é português. O filme mais visto foi «A Idade do Gelo 3», com 667.551 espectadores e o vigésimo foi «A Troca» com 188.611. Em comparação com o ano anterior verificou-se uma diminuição de espectadores de 1,9%, sendo o número final de 15,6 milhões de bilhetes vendidos. O mês com melhores resultados foi Dezembro. Dos 20 filmes mais vistos, todos estrangeiros, 18 tiveram mais que 200.000 espectadores. Passemos à produção nacional – o filme mais visto entre as 22 longas-metragens portuguesas estreadas, foi «Uma Aventura Na Casa Assombrada» com 102.309 espectadores. Destes 22 filmes portugueses, 13 tiveram menos que 3.000 bilhetes vendidos e apenas cinco mais de 10.000 espectadores. Aqui estão alguns números que devem fazer pensar – um país sem uma produção audiovisual massificada é um país sem idioma vivo nos tempos que correm - o resto é pura conversa da treta. Uma curiosidade – até ao início desta semana «Avatar», estreado em Dezembro, já era recordista de bilheteira em Portugal com um total 672.133 entradas. Enfim… 

 


 


VER – Para assinalar o seu 450º aniversário, a Universidade de Évora resolveu convidar o colectivo de fotojornalistas da agência Kameraphoto para mostrar a realidade da Universidade, nas suas várias áreas, nos dias de hoje. O trabalho dos 13 fotojornalistas que trabalharam no projecto, ao longo de um ano lectivo inteiro, resultou em 170 fotografias e também num documentário em video - este é um trabalho exemplar, de que resultou uma exposição e um livro, ambos do ano passado. É um dos raros casos de uma encomenda séria de um ensaio fotográfico, ao que sei com total liberdade para os fotógrafos envolvidos poderem trabalhar e aceder onde quisessem. Fazem falta mais obras assim, mais ideias assim , mais encomendas assim. Talvez algumas das muitas Fundações que existem em Portugal pudessem tomar este exemplo e adaptá-lo. A (boa) edição é da Reitoria da Universidade de Évora. Espreitem www.kameraphoto.com/450/ 

 


 


OUVIR – Um quarteto tradicional (Jon Irabagon no saxofone, Kenny Barron no piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria) mostra como é possível conciliar melodias acessíveis e tonalidades jazzisticas clássicas, com interpretações de uma clara sonoridade contemporânea. Os dez temas são todos compostos por Jon Irabagon, o vencedor de 2008 da Thelonious Monk Institute International Jazz Saxophone Competition. Aqui está um músico a seguir, com um dos discos recentes a ter em conta. CD Concorde/Universal Music, «The Observer», Jon Irabagon, disponível na Fnac. 

 


 


BACK TO BASICS – Na política nada é tão útil como uma memória curta – John Kenneth Galbraith