março 04, 2022

QUAL O RACIONAL DO PCP E BLOCO NO APOIO À INVASÃO DA UCRÂNIA?

 


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O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER - A posição assumida pelo PCP sobre a invasão da Ucrânia pela Rússia (e também pelo Bloco de Esquerda) resume-se a isto: aparentemente, dizem de dentes cerrados, Putin não é boa pessoa - mas a Rússia é ainda a mãe de todas as virtudes e, sobretudo, é ainda o garante contra os abusos ocidentais. Entre os abusos ocidentais, dizem, estão a União Europeia e a NATO. Estas almas gostariam que a Rússia pudesse agir como quer sem críticas nem oposição e Putin também não gosta de oposição, como se sabe. No fundo apoiam a reconstituição do império soviético por isso defendem a invasão da Ucrânia e o expansionismo russo. Para o conseguirem fazem um exercício de contorcionismo que tenta separar o comportamento de Putin do que é a política russa. Deixam críticas a Putin, mas aplaudem a invasão que ele ordenou. Analisam o que se passa como se a política de Putin e do Estado Russo fossem coisas diferentes. Esta gente e os seus porta-vozes habituais omitem as ligações de Putin e da política externa russa dos últimos anos: o apoio à extrema direita um pouco por toda a Europa, as ajudas dadas por Putin a Trump, a Viktor Orbán e a outros. Até na Rússia se levantam numerosas vozes contra a política de Putin mas o PCP (e o Bloco)  permanecem irredutíveis no seu apoio. É bom que nos lembremos disto, para memória futura. Mesmo em política a cegueira e a hipocrisia têm limites. Na foto desta página está um cartaz da autoria do publicitário Manuel Soares de Oliveira - uma imagem vale mais que mil palavras.


 


SEMANADA - Os sectores onde existe maior dificuldade em encontrar e contratar mão de obra são a construção, logística, tecnologias e turismo; nos últimos cinco anos 14% das casas em Portugal mudaram de mãos e nos concelhos à volta das grandes cidades o número aumenta para entre 20 a 30%; desde o início do ano a importação de electricidade cresceu 141%; a seca transformou a ilha do castelo de Almourol, no Tejo, numa península ; a taxa de inflação em Portugal acelerou para 4,2% em fevereiro, contra os 3,3% verificados em janeiro, o valor mais alto dos últimos anos; em fevereiro o preço das matérias primas na Europa subiu 5,4%;  a população portuguesa é a segunda na Europa com a média de idade mais elevada; entre Abril e Junho de 2021 a Autoridade para as Condições do Trabalho detectou cinco empresas que racionavam água dada a imigrantes que trabalhavam nos campos nas estufas de Odemira; há cerca de 40 milhões de euros de propinas em atraso no ensino superior e as dívidas de estudantes cresceram durante a pandemia; desde que em Cascais, por iniciativa do Município, os transportes públicos são gratuitos, o número dos seus utilizadores aumentou 10% em dois anos; os custos dos transportes públicos gratuitos são cobertos pelas receitas dos parques de estacionamento do concelho.





O ARCO DA VELHA - A Procuradoria Geral da República tem fragilidades na cibersegurança porque o Ministério da Justiça se atrasou na adaptação da sua estrutura orgânica.


 


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FOTOGRAFIAS - Antes de ser um realizador de filmes como “2001: Odisseia no Espaço”, “Laranja Mecânica”, “Lolita” ou “Eyes Wide Shut”, Stanley Kubrick foi um fotojornalista aclamado. Ainda adolescente começou a trabalhar para a revista “Look”, rival da “Life”, e onde publicaram grandes nomes da fotografia mundial. Kubrick realizou centenas de reportagens para a “Look” entre 1946 e 1951. Agora, e  até 22 de Maio, no Centro Cultural de Cascais, pode ser vista uma exposição de fotografias de Stanley Kubrick para a “Look”, intitulada “Through A Different Lens”. Com curadoria de Sean Corcoran e Donald Albrecht a partir dos arquivos do Museum of the City of New York, a exposição apresenta 130 fotografias, muitas delas nunca publicadas. Nestas imagens, Kubrick mostra a sua visão da vida em Nova Iorque e na América, durante esses anos, captando a essência de uma cidade em transformação após a Segunda Guerra Mundial, assim como a intensidade da vida quotidiana. Outras exposições a ver: no Museu Nacional do Teatro e da Dança, até 13 de Março, há 26 fotografias do estúdio de Silva Nogueira, retratos de nomes célebres dos palcos de Lisboa, feitos entre 1920 e 1940, a nomes como Beatriz Costa, Brunilde Júdice, Ilda Stichini, Luísa Santanela e Francis Graça, entre outros. No Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, Rua da Palma 246, Luís Pavão mostra um trabalho que iniciou há duas décadas, fotografando , de uma perspectiva pouco usual, as árvores das ruas.  “Pela Fresca Sombra das Árvores de Lisboa” é o título da exposição que estará patente até 29 de Abril.


 


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A VIDA EM PAPEL IMPRESSO - Há pouco tempo, quando estava a ler um artigo sobre  a relação que hoje existe entre os diferentes suportes de mídia, vi uma declaração que me chamou a atenção - mesmo nesta altura de explosão do digital e de redes sociais, uma coisa é certa: se uma coisa não for impressa, na realidade não existe. Vem isto a propósito de uma experiência rara em Portugal , exemplar na forma como combina a utilização do digital com uma revista trimestral, alargando a sua acção para outras áreas como a formação, a organização de iniciativas, conferências e debates em várias áreas e ainda a promoção de estudos. Aquilo de que falo chama-se Gerador, uma associação cultural sem fins lucrativos fundada em 2014. Tiago Sigorelho, que é o Presidente da Direcção da Associação Gerador, define a Associação como uma plataforma independente de jornalismo, cultura e educação. A revista Gerador  reivindica fazer jornalismo lento, “como contraponto da urgência dos tempos que nos envolvem”. A primeira edição deste ano, com a data de Fevereiro passado, tem por tema a relação existente entre o centro e a periferia nos dias de hoje, com reflexos na mobilidade, poder e segregação nas cidades. Outros temas são um olhar para a geração Z, através de um trabalho que segue como 10 alunos do Liceu Camões olham para o mundo e também um olhar para o conceito de “Ciência Cidadã”, que aborda a participação pública, acessível a qualquer pessoa, na investigação científica. A capa desta edição (na imagem) é uma ilustração de Jorge Charrua. A revista tem colaboradores como o músico Benjamim, o programador do festival Bons Sonhos Luís Sousa Ferreira, o humorista Carlos Manuel Pereira ou  a sexóloga Marta Crawford, entre outros. E depois há convidados para cada edição como Cristina Luís, uma bióloga que trabalha na área da História e Comunicação da Ciência ou Mauro Wah, um dinamizador de actividades comunitárias. Destaque ainda para o portfólio fotográfico de João Azevedo e um portfólio de ilustrações de Patrícia Shim. Mas além da revista o Gerador é também um site, gerador.eu , onde surgem outras iniciativas como a Academia Gerador, o prémio insties (instagram), uma grande diversidade de opiniões na secção “Gargantas Soltas” ou a estudo Barómetro da Cultura que este ano terá a sua quarta edição.


 


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O AMIGO SECRETO -  Tinha saudades de ouvir Elvis Costello e o novo disco, o 32º álbum de estúdio que grava desde 1977. Aqui estão 13 novas canções, onde a sua voz e guitarra são acompanhadas por The Imposters, num exercício de afirmação sobre como conciliar a tradição, a sensibilidade das baladas e a energia do rock. Sempre a meio caminho entre a observação cínica do que o rodeia, a desilusão pelo estado do mundo e o elogio daquilo que o entusiama, Costello continua a fazer grandes canções. Este novo álbum, “The Boy Named If (And Other Children’s Stories)” traz vários momentos mágicos. Uma das canções mais tocantes é “The Death Of Magic Thinking”, que evoca o título de um romance de Joan Didion (“The Year Of Magic Thinking”), mas há outras como “The Man You Love To Hate” ,  “Paint The Red Rose Blue”, “The Difference”, a canção título “The Boy Named If” ou, já agora o tema inicial, “Farewell, OK”, uma espécie de declaração de princípios inicial que parece deixar uma mensagem clara: ando há mais de 40 anos nisto e ainda não me cansei. Numa entrevista recente a uma revista britânica Elvis Costello afirmou que “the boy named if” é como que uma “alcunha para um amigo imaginário, o nosso eu secreto que conhece tudo aquilo que negamos, aquele que culpamos pelos disparates que fazemos e pelos corações - até mesmo o nosso - que quebramos”.


 


UM FESTIVAL DE COZINHA TRADICIONAL - Com a ajuda de amigos vou pesquisando restaurantes onde a comida tradicional é acarinhada. Tenho tendência a preferi-los aos locais da moda e aos disfarces com conceito que em geral apostam mais na decoração do que naquilo que servem aos clientes e na forma como os acolhem. Esta semana descobri mais um na margem sul, em Sarilhos Grandes, perto do Montijo. O “Girassol” é uma casa antiga mas que foi sofrendo ampliações e melhoramentos ao longo dos anos, permanecendo na mesma família - agora com a mãe ao leme na cozinha e a filha a garantir que na sala tudo se passa como deve ser. As entradas do “Girassol” são boas para partilhar - o que aconteceu com uma perdiz de escabeche muito bem temperada e generosa na carne da ave e com um polvo à galega, entrada quente, com as finas fatias de polvo sobre um puré de batata. Antes, na mesa, estava uma tomatada como há muito não provava, umas excelentes azeitonas e ainda um cesto de bom pão. Na lista de entradas há ainda petiscos como cabeça de xara, alcachofras confitadas com gambas, línguas de bacalhau com molho vinagrete, ovos com farinheira em massa folhada ou uma morcela de arroz crocante com hortelã. Nas carnes há um rabo de boi estufado, muito bom, pezinhos de porco de coentrada, e por vezes, aba de costela, cozinhada muito lentamente, ou ensopado de borrego. Os acompanhamentos servidos foram grelos salteados, batatas fritas e um esparregado exemplar. A lista é toda uma história de cozinha portuguesa, onde não faltam empadas, ensopado de enguias, filetes ou pastéis de massa tenra. A doçaria é também um caso sério, desde um folhado com doces de ovos até um abade de priscos. Garrafeira bem fornecida, serviço simpático mesmo com a casa cheia, uma das salas decorada com motivos tauromáquicos, ou não estivéssemos perto do Montijo. O “Girassol” fica na Avenida 5 de Outubro, em Sarilhos Grandes, e tem os telefones 212891820 e 910288999. Encerra às terças e domingo à noite.


 


DIXIT - “A crença no diálogo e cooperação com as ditaduras está a dar resultados nefastos” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Não consigo prever o que vai fazer a Rússia. É um enigma embrulhado num mistério dentro de um enigma” -  Sir Winston Churchill





fevereiro 25, 2022

UM APPARATCHIK É SEMPRE UM APPARATCHIK ONDE QUER QUE SEJA

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O PRESIDENTE DA JUNTA  - O Governo do PS dinamizou uma Film Commission que tenta, e bem, atrair para Portugal produções audiovisuais que sejam aqui filmadas. Quando foi Presidente da Câmara de Lisboa António Costa defendeu a importância de a cidade ser palco de rodagens de produções audiovisuais, aliás como vários seus antecessores No programa eleitoral do PS está inscrita a dinamização e o apoio às indústrias criativas, nas quais a produção audiovisual se insere. Acresce que em Portugal existem excelentes profissionais na área, desde técnicos de som a directores de fotografia, passando por responsáveis por guarda-roupa ou electricistas. Há muitas centenas de pessoas que vivem e trabalham no universo dos audiovisuais e para quem a existência, onde quer que seja no nosso país, de produções internacionais, significa trabalho e reconhecimento. Somos mesmo bons nisto - os nossos técnicos são competentes, falam várias línguas, estão a par das tecnologias mais recentes e são reconhecidos além fronteiras. Pois é com este enquadramento que um senhor presidente da Junta, no caso a Junta de Freguesia de Santa Maria  Maior, Miguel Coelho, se insurge contra as consequências das políticas defendidas por António Costa e o PS nesta matéria e apareceu a criticar as filmagens previstas de uma série da Netflix no seu território, que encara como um quintal. Este senhor, que aparece a queixar-se dos incómodos das filmagens, é o mesmo que fecha os olhos à degradação do edifício do Tribunal da Boa Hora e nem quer ouvir falar de planos para a sua recuperação. E, para rematar, há cinco anos os voluntários da Refood na freguesia de Miguel Coelho foram expulsos do espaço que o próprio autarca lhes cedera uns meses antes, para dali distribuir refeições aos pobres. Este senhor é o mesmo que foi dirigente nacional do PS, dirigente da sua concelhia de Lisboa e deputado à Assembleia da República. É doutorado em Ciência Política, matéria que leccionou, mas não passa de um apparatchik de segunda categoria na guerrilha do PS contra a actual presidência da Câmara de Lisboa. É um exemplo da incoerência. Imaginar que este personagem anda pelas universidades a ensinar Ciência Política é uma coisa que mete nojo. 


 


SEMANADA - As rações e forragens para alimentação de animais aumentaram 53% e podem fazer disparar o preço da carne; menos de um milhão de crianças recebem abono de família, o número mais baixo desde 2005; segundo o INE quase 11% das crianças portuguesas estão em privação material e social; em Janeiro o desemprego aumentou pelo segundo mês consecutivo; o PS acusou o PSD de irresponsabilidade e insensibilidade"  por ter querido que a lei fosse respeitada no caso da votação indocumentada dos emigrantes; 36% dos professores dizem não ter recebido qualquer formação para a utilização de tecnologia digital nas aulas; Vítor Ramalho, um histórico amigo e assessor de Mário Soares, afirmou que “não podemos deixar a gestão do Governo passar para o PS”; segundo ele o PS “não ouve as pessoas, não há um gabinete de estudos como devia haver”; de Bragança a Madrid, de comboio, leva-se uma hora para fazer os primeiros 45 quilómetros até se apanhar o comboio de alta velocidade espanhol que demora mais duas horas para fazer 334 quilómetros; as multas por condução com excesso de álcool no sangue subiram 141% no espaço de um mês; em 2021 mais de 24 mil automobilistas foram multados por utilizarem o telemóvel enquanto conduziam.


 


O ARCO DA VELHA - O “Avante!”, órgão central do PCP, descreve a situação na Ucrânia como uma “obscena campanha provocatória do imperialismo contra a Federação Russa” e o site do PCP  “denuncia a perigosa estratégia de tensão e propaganda belicista promovida pelos EUA, a NATO e a UE”.


 


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PINTURAS NATURAIS - Muito para ver esta semana. Começo pela exposição de Inez Teixeira (na imagem), que fica na Fundação Carmona e Costa até 21 de Maio (Rua Soeiro Pereira Gomes Lote 1- 6º andar). Apresentada como uma antológica, que mostra obras de desenho feitas entre 1989 e 2021, a exposição inclui dois conjuntos de produção recente, pinturas a óleo sobre papel - Degelo e Paisagens, sendo que a primeira dá o título genérico à exposição. Estes dois conjuntos de pinturas feitas no final do ano passado são marcantes e mostram uma nova e interessante direcção no trabalho de Inez Teixeira, uma aproximação à pintura e à reflexão sobre a natureza e os desafios que ela enfrenta. O curador, Nuno Faria, destaca: “O conjunto de desenhos reunidos na exposição Degelo, realizados durante um extenso período de tempo, inédito na sua quase integralidade, revela um programa de pesquisa livre de constrangimentos formais e um entendimento do desenho como prática processual e experiencial. Da exposição constam cerca de uma centena de desenhos, sobretudo organizados em séries, pontuadas por surpreendentes exceções, e um singular conjunto de pequenas esculturas em que a artista integra pedras encontradas no espaço natural”. Outra das novas exposições apresenta trabalhos de Rita Gaspar Ferreira e António Olaio, e está até 30 de Abril  na Galeria Belo-Galsterer (Rua Castilho 71 r/c esq). Na realidade ali estão três exposições: "Sobrevoo" de Rita Gaspar Vieira, “Polka Dot Brain” de António Olaio e “Upstairs, Downstairs”, uma colectiva dos dois artistas. Finalmente, na Galeria Miguel Nabinho, Luísa Cunha apresenta até 2 de Abril, a instalação sonora “Partitura 4- op” (Rua Tenente Durão 18-B).





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UMA VISÃO DA AMÉRICA - John Steinbeck, californiano,  foi um dos grandes escritores americanos, observador atento do seu país. Assinalando os 120 anos do nascimento de John Steinbeck e os 60 anos da atribuição do prémio Nobel, surge agora em Portugal a edição de “A América e os Americanos e outros textos”. O volume reúne mais de 60 textos de não ficção, publicados em jornais e revistas entre 1936 e 1966. Neles, Steinbeck discorre sobre temas como as guerras do seu tempo, a pobreza, o racismo, mas também as suas viagens e os seus amigos. Durante trinta anos, a par dos seus famosos romances, como “As Vinhas da Ira”, escreveu vários trabalhos curtos de não ficção, que foram sendo publicados em jornais e revistas no seu país e no estrangeiro. Estes textos permitem uma visão singular de uma era de profunda transformação nos Estados Unidos. Esta antologia reúne mais de sessenta destes textos, desde artigos que serviram de inspiração para o célebre romance “As Vinhas da Ira”, até ao último livro que publicou, “A América e os Americanos”, de 1966. Nestas páginas  encontra-se o olhar do jornalista, cobrindo a Grande Depressão norte-americana, a Segunda Guerra Mundial e o Vietname. Aqui estão textos sobre o julgamento de Arthur Miller, o seu manual sobre como se faz um nova-iorquino, a sua reportagem sobre uma convenção do partido Republicano, a visão que um escritor tem dos críticos, o seu discurso de aceitação do Nobel, textos sobre personagens como o grande fotógrafo Robert Capa, o actor Henry Fonda ou o músico Woody Guthrie e ainda várias das suas reportagens de guerra. Entusiasmante da primeira à ultima página.


 


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REDESCOBRIR A LOVE SUPREME -  Na primeira metade dos anos 60 era raro fazer-se gravações de actuações ao vivo e assim se perdeu a oportunidade de comparar registos dos mesmos temas, tocados em ocasiões diferentes. Nesse tempo Coltrane compunha imenso e tocava ainda mais. Volta e meia ainda se descobrem gravações, que andaram muitos anos perdidas,  e que mostram o que Coltrane e a sua banda faziam. Uma dessas gravações, que agora veio à luz do dia, é uma interpretação de “A Love Supreme”, uma das peças de referência de Coltrane, editada originalmente no início de 1965, numa altura em que o músico sentia a necessidade de mostrar como tinha descoberto a religião e a espiritualidade. Seis meses depois da edição, Coltrane actuava em Seattle e a interpretação que ali fez de “A Love Supreme” foi gravada e depois perdida. Até há pouco tempo a única gravação ao vivo da suite “A Love Supreme” que se conhecia tinha sido gravada em Antibes, na França, e era muito contida, mantendo a forma do disco original. Esta que agora surgiu, gravada em Junho de 65 em Seattle, mostra muito mais espaço para improvisação. Em Seattle, mantendo a ligação à composição original, Coltrane deu muito maior espaço de liberdade aos músicos. Nesta gravação surge a formação que gravou “A Love Supreme” em estúdio - Coltrane no sax tenor, McCoy Tiner no piano, Jimi Garrison no baixo e Elvin Jones na bateria. Mas a eles foram acrescentados um segundo baixista, Donald Garrett, Pharoah Sanders no sax tenor e Carlos Ward no sax alto - sendo que o próprio Coltrane e Sanders deram uma mãozinha nas percussões adicionais. Na realidade a versão de “A Love Supreme” nesta gravação tem quase 75 minutos, o dobro do tempo do registo original. Há uma energia muito maior, os próprios solos de Coltrane são bem diferentes.Se gostam de Coltrane e de jazz,procurem nos serviços de streaming esta edição - “A Love Supreme, Live in Seattle”.


 


CREME PARA PAPALVOS - Depois de dois anos de pandemia os restaurantes começam a voltar a funcionar e há mesmo alguns novos espaços que começam a surgir pela cidade. Nada de muito relevante, infelizmente. O que mais abunda nesta nova vaga é o restaurante de conceito, onde o essencial não é a qualidade da comida nem do serviço, e sim a vivência de um momento, de uma experiência de um apregoado conceito. Devo dizer que isto é uma coisa que me desagrada profundamente. Por via de regra evito deslocar-me a tais locais, sem alguns amigos em que confio me contarem antes o que lá se passa. Um dos casos que me fez mais rir nos últimos tempos foi o relato feito por um amigo de uma visita ao Rocco, um novo restaurante cheio de peneiras, conceitos e efeitos decorativos, no piso térreo do Ivens Hotel (Rua Ivens 14). Tudo começa pela dificuldade que é reservar uma mesa usando os meios tradicionais. Por fim, quando se consegue alguma coisa e lá se chega, a uma zona de balcão, descobre-se que a sala do restaurante está às moscas e que havia mais que lugares para a reserva que havia sido negada. Enfim, tudo isto é cómico e a única comida que ali servem é creme para papalvos que queiram armar-se em frequentadores de locais de moda. 


 


DIXIT -  “Não é expectável que o PCP possa ter a influência política e social que já teve” - António Filipe, ex-deputado do PCP


 


BACK TO BASICS - “Não se pode evitar uma guerra quando se faz tudo para a preparar” - Albert Einstein


 


 








fevereiro 18, 2022

QUE POLÍTICA CULTURAL TERÁ O PRÓXIMO GOVERNO?

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E A CULTURA?  - Que vai ser da Cultura no próximo Governo? Depois do quase interregno no desenvolvimento da política cultural durante a legislatura anterior é oportuno perguntar qual a estratégia que o Governo vai desenvolver na área cultural. É escusado irem procurar no programa do PS porque o que lá está é um rol de generalidades, com boa dose de banalidades. Reconheça-se, em abono da verdade, que neste processo de desertificação de ideias em matéria de política cultural o PS não está sozinho. A maioria dos partidos seguiu a sua bitola. Mas o que interessa agora é saber se o PS vai aproveitar, nesta como noutras áreas, a sua maioria absoluta para fazer reformas estruturais. Esta semana foi divulgado um importante estudo, promovido pela Gulbenkian, sobre as práticas culturais dos portugueses e o seu resultado dá muito que pensar a quem fôr ocupar a pasta da Cultura. Mas há coisas básicas: não vou mais longe do que reivindicar uma maior autonomia de gestão orçamental das instituições que conseguem captar financiamentos privados, a par com a atribuição de um financiamento público suficiente para travar a degradação do funcionamento dos museus nacionais e a conservação do património. Já agora, se não for demais, a anulação do acordo ortográfico seria também bem-vinda, assim como acções de promoção do livro e da leitura. E apesar de umas modestas recentes alterações, é imperioso conseguir flexibilizar e facilitar mais a Lei do Mecenato para que o financiamento privado à cultura possa ser estimulado e compensado, para além do que agora existe - seguindo o que de melhor e mais eficaz se faz noutros países. E, já que estamos nesta área, seria muito interessante rever o enquadramento fiscal das compras de obras de arte por empresas e cidadãos, por forma a incentivar o mercado. Uma política cultural diferente não é apenas um esperado aumento da dotação do Orçamento de Estado ao sector, é também a criação de mecanismos que recompensem os privados pelo que decidirem investir nesta área. Neste fim de semana foram muitas as notícias sobre o início da temporada cruzada Portugal-França. Mas será curioso ver, daqui a uns meses, quanto é que o Governo português atribuiu de facto à iniciativa - dizem-me que muito pouco, mas vamos esperar para ver. Uma das obras mais salientes, a reinterpretação da obra clássica “As Três Graças”, por Pedro Cabrita Reis, exposta nos jardins do Louvre, (na imagem) só foi possível, segundo declarações do autor numa entrevista, graças ao financiamento de entidades privadas - no caso três empresas francesas que actuam em Portugal - Altice, Engie e Vinci, e de outros apoios como o da corticeira Amorim e da Fundação Gulbenkian. Confesso que neste cenário custa um pouco ver figuras do Governo a pendurarem-se na obra como se tivessem feito alguma coisa por ela. Como diz um amigo meu, é o país que temos. 


 


SEMANADA - Grande parte das verbas previstas para as autarquias no processo de descentralização iniciado há cinco anos ainda não saíu do Estado central; foram anulados cerca de 80% dos votos de emigrantes do círculo da Europa nas eleições legislativas de 30 de Janeiro; entre os 230 deputados eleitos há apenas nove com 30 anos ou menos; até agora, nos executivos de António Costa um terço dos lugares foram ocupados por mulheres; cerca de 13 mil funcionários do estado pediram a reforma em 2021, sobretudo nas áreas da educação e saúde mas, apesar disso, o número total de funcionários públicos aumentou 3% para o total de 733 495 pessoas ou, se quisermos, perto de 20% dos votos expressos nas recentes eleições; nos últimos três anos, os portugueses terão consumido menos 25,6 toneladas de sal e menos 6256 toneladas de açúcar; segundo o estudo TGI da Marktest perto de um em cada três portugueses compra chocolates ou bombons em caixas; o impacto no défice do combate à pandemia foi maior em 2021 do que em 2020; as empresas portuguesas de ourivesaria e joalharia enviaram, no ano passado, 4,5 milhões de peças para os serviços de contrastaria, mais um milhão de peças do que em 2020, o que representa um crescimento de 28,6%; o preço das botijas de gás aumentou cinco vezes mais que a inflação; António Costa lamentou os erros do Ministério dos Negócios Estrangeiros, do seu amigo Santos Silva, no processo eleitoral junto dos emigrantes portugueses na Europa e que levou agora à anulação de cerca de 80% dos seus votos; um estudo promovido pela Gulbenkian indica que 61% dos portugueses não leram um só livro no último ano.


 


O ARCO DA VELHA - O Ministro do Ambiente declarou de “imprescindível utilidade pública” uma central solar a construir no concelho de Gavião que implica o abate de mais de mil sobreiros.


 


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PRAZERES VISUAIS - João Maria Gusmão apresenta na Galeria Cristina Guerra “Lusque-Fusque Arrebol”, uma exposição individual (na imagem) que reúne, numa grande instalação, esculturas em bronze, fotografias e lanternas mágicas produzidas no último ano. Durante anos, entre 2001 e 2018, Gusmão trabalhou em parceria com Pedro Paiva e fez numerosas exposições em vários países, além de uma retrospectiva recente em Serralves. Desde 2020  tem vindo a desenvolver e apresentar várias exposições e projectos curatoriais e editoriais em colaboração com outros artistas como Alexandre Estrela, Mattia Denisse, Gonçalo Pena e Mauro Restife. “Lusque-Fusque Arrebol” pode ser visto até 9 de Abril na Cristina Guerra Contemporary Art (Rua de Santo António à Estrela 33). Outros destaques: na Casa A. Molder (Rua 1º de Dezembro 101-3º) Carla Rebelo apresenta até 18 de Março “Geologia de Um Lugar”; na Galeria Vera Cortês (Rua João Saraiva 16-1º), Joana Escoval apresenta até dia 12 de Março “Wind Dreams”; na Galeria Balcony (Rua Coronel Bento Roma 12A), Rui Castanho mostra  até 12 de Março “Once Upon A Time”, até 12 de Março; na Fundação Arpad Szenes- Vieira da Silva ( Praça das Amoreiras 56), Carlos Nogueira apresenta “Sombras de Vento, Entre Águas” ; e no Porto, a Galeria Nuno Centeno (Rua da Alegria 598), apresenta novos trabalhos de Secundino Hernández, Gretta Sarfaty e Gabriel Lima. Entretanto nos próximos dias todos os caminhos vão dar a Madrid, para a feira de arte contemporânea ARCO, de 23 a 27 de Fevereiro. 


 


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A FOGUEIRA DA JUSTIÇA - Em meados de 1895 o escritor Oscar Wilde foi preso e condenado a dois anos de prisão pela prática de sodomia, considerada um crime na Londres vitoriana. No tribunal onde o processo decorreu o escritor defendeu a sua obra maior,  “O Retrato de Dorian Gray”, retratada no julgamento como imoral e ofensiva, pelo seu teor alegadamente homossexual. Na sua defesa Oscar Wilde afirmou que um livro será sempre um bom livro «se estiver bem escrito, se provocar uma sensação de beleza, a mais pura sensação de que um ser humano é capaz. Se estiver mal escrito, a sensação é de repulsa”. “A Intransigente Defesa da Arte” é o livro que faz a transcrição quase integral do julgamento, que se presumia perdido nos arquivos da lei. No livro, recuamos a 1895 e assistimos ao julgamento mais sensacional do século XIX. Da sórdida exposição, na Londres vitoriana, da homossexualidade de Oscar Wilde, nasce um articulado e brilhante discurso da vida real do escritor: uma veemente e majestosa defesa da absoluta liberdade da criação artística. Termino com estas palavras de Oscar Wilde no tribunal: “O prazer de alguém criar uma obra de arte é um prazer puramente individual, e é para alimentar esse prazer que alguém cria. O artista trabalha olhando para o seu objecto. Nada mais lhe interessa. O que as pessoas possam dizer é algo que não lhe diz respeito”. Esta é a primeira publicação em Portugal deste texto, numa tradução de André Morgado, com a chancela da Guerra & Paz. 


 


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INESPERADOS CONVIDADOS -  Após uma década de silêncio o ex-líder dos Pearl Jam, Eddie Vedder regressa com um disco a solo, “Earthling”. A surpresa está na lista de convidados: Elton John, Ringo Starr e Elton John. Com treze canções e quase uma hora de duração, o álbum arranca com um quase hino, “Invincible”, mas as três canções que recolhem maior número de audições no Spotify são “Long Way”, “Brother The Cloud” e “The Haves”. O arranque do disco é festivo, Vedder solta-se de uma forma inesperada e a sua voz molda-se às melodias de uma forma quase pop, enquanto a produção usa coros, percussão bem marcada  (o baterista é Chad Smith, ex-Red Hot Chili Peppers) e guitarra eléctrica também ex-Chili Peppers é Josh Klinghoffer. Eles são essenciais para marcar a imagem sonora do disco. Aqui há 30 anos, no início dos Pearl Jam, ninguém se arriscaria a apostar que três década depois Vedder cantaria ao lado dos nomes que agora incluíu como convidados. Ringo faz o seu usual trabalho de bateria em “Mrs. Mills,” uma homenagem à pianista Gladys Mills, enquanto “Try” abre o som à harmónica de Stevie Wonder. E Elton John canta em dueto com Vedder em “Picture”. Numa das canções, “Try”, Vedder resume esta sua aventura: “Good men don’t have to pretend!”. Chega-se ao fim e a coisa foi divertida - mas não mais que isso.


 


PEIXE FRITO - Esta não é só a época da lampreia, já aqui abordada há umas semanas. É também a época de um magnífico peixe de rio que dá pelo nome de sável e que é uma das delícias destes meses de Fevereiro e Março. Cortado em postas muito finas e muito bem frito, depois de devidamente temperado, é um petisco fantástico. Uma fritura feita como deve ser vem enxuta para a mesa e foi feita a uma temperatura suficiente para neutralizar as numerosas e finas espinhas do peixe - que assim nem se sentem. O acompanhamento conveniente para esta maravilha é uma açorda tradicional, que poderá e deverá levar ovas do mesmo peixe. A tradição indica que os maiores especialistas deste prato estão no Ribatejo, o sável fresco pescado no rio e levado logo para o restaurante. Mas há sítios em Lisboa onde a sua tradição é respeitada, como o Pap’Açorda, onde a chef Manuela Brandão desde há muitos anos pratica o sável com saber e proveito dos comensais. Aconselha-se um branco a acompanhar, cítrico, fresco, envolvente.


 


DIXIT - “Os ciberataques são, infelizmente, o futuro que nos espera” - Marques Mendes.


 


BACK TO BASICS - “Devemos insistir em ser nós próprios e não em imitar os outros. Cada homem é um ser único” - Ralph Waldo Emerson


 





fevereiro 11, 2022

OS NÚMEROS DO DESPERDÍCIO DO SISTEMA ELEITORAL

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OS VOTOS INÚTEIS - Há um estudo que indica que fazer reformas no sistema não dá votos a nenhum político. Mas a verdade é que manter o sistema eleitoral como está é uma estragação de votos. Ora vejam: nas recentes eleições legislativas mais uma vez foram diretos para o lixo cerca de 700 mil votos. Ou seja, quase 13% dos votos em território nacional (excluindo círculos da emigração) não foram convertidos em mandatos. Destes, cerca de 200 mil foram votos brancos, nulos ou para partidos que não alcançaram representação parlamentar. Mas depois ainda há mais de 400 mil que, apesar de terem uma cruz em partidos que vão estar representados na Assembleia da República, não tiveram qualquer contributo para essa eleição. Vejamos os números com maior atenção: para os dois maiores partidos, PS e PSD, bastaram cerca de 20.000 votos para eleger cada um dos seus deputados. O esforço foi muito superior nos partidos mais pequenos. O PAN, por exemplo, conquistou apenas um lugar no parlamento apesar de ter obtido 82 mil votos. Aliás, apenas pouco mais de 20 mil votos no PAN serviram para eleger a sua deputada única no círculo eleitoral de Lisboa, os restantes 60 mil votos foram dispersos pelo país e inconsequentes na eleição de qualquer deputado. Comparando com o partido mais votado, o PS teve 26 vezes mais votos (cerca de 2,2 milhões de eleitores) que o PAN, mas conquistou 117 vezes mais deputados. Já o CDS, apesar de ter conquistado 87 mil votos, mais do que o PAN e o Livre, e quatro vezes mais do que os votos correspondentes a cada deputado do PS e PSD, não teve nenhum deputado eleito e perdeu a representação  parlamentar. Outros dados mostram que, curiosamente, o sistema vigente é também uma forma de promover o centralismo: é melhor ter 2% de votos em Lisboa (cerca de 25 mil votos, que permite eleger um deputado) do que ter 100 mil votos espalhados por todo o país (não elegeria nenhum deputado). Repare-se num caso significativo: em Portalegre mais de metade dos votos não serviu para eleger nenhum deputado. Uma análise das eleições entre 1975 e 2019 revela que durante esse período uma média de 8,67% de votos válidos não foram convertidos em mandatos. Foram votos inúteis graças ao sistema que existe.


 


SEMANADA - Quase mil médicos de família vão atingir este ano a idade da reforma e o número de pessoas sem médico de família vai aumentar; as principais empresas de transporte recuperaram passageiros no ano passado, à excepção do Metropolitano de Lisboa e Transtejo; o Mosteiro dos Jerónimos, o da Batalha e o Convento de Cristo foram os três monumentos portugueses mais visitados em 2021; a taxa de inflação da zona euro tem um novo máximo de 5,1% e isto levanta uma questão: como será que a geração de gestores que nunca geriu sob inflação vai viver estes novos tempos?; o preço da gasolina em Portugal no final do ano passado era de 1,669 cent/l, a oitava mais cara da União Europeia; as famílias portuguesas gastaram mais de dez mil milhões de euros no supermercado em 2021; em 2021 os bancos fizeram empréstimos à habitação de mais de 15 mil milhões de euros, mais 34% que em 2020; segundo o Censos 21 existem em Portugal 3.573.416 edifícios, um aumento de 0,8% em relação ao recenseamento de 2011; o maior incremento no número de edifícios foi observado nos concelhos do Seixal (mais 2080), Barcelos (mais 1822) e Vila Nova de Famalicão (mais 1436); em termos relativos foi nos concelhos da Golegã, Madalena e Corvo que o número de edifícios mais aumentou entre Censos, respetivamente mais 12.6%, 12.4% e 7.7%; os concelhos do Porto, Lisboa e Funchal foram aqueles que mais parque edificado perderam: no Porto, foram contabilizados menos 5021 edifícios, em Lisboa menos 3273 e no Funchal menos 1226; 


 


O ARCO DA VELHA - Habitantes da Aldeia da Luz, em Mourão (Évora), ainda hoje pagam Imposto Municipal sobre Imóveis dos terrenos que possuíam e ficaram submersos na antiga povoação, 20 anos após o início do enchimento do Alqueva.


 


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UMA CASA VISTA DE FORA - Patrícia Garrido trabalhou ao longo de vários meses numa escultura que desde a semana passada, e até final de Abril, ocupa quase todo o espaço da Galeria Giefarte (Rua da Arrábida 54). A obra, no fundo a evocação de uma casa dentro das quatro paredes da galeria, é feita a partir de pedaços de cantoneira, que se entrelaçam de forma a que ninguém pode entrar no seu espaço, podendo apenas espreitar a partir do exterior (na imagem). O título da peça, “Interior”, é no fundo a descrição de uma realidade que se observa mas onde ninguém pode entrar. Entretanto, em Elvas, no Museu de Arte Contemporânea, é apresentada até 3 de Julho a exposição “Caminhos Cruzados”, que agrupa 62 obras de José Pedro Croft que estão incluídas na colecção António Cachola. Num salto mais a norte, Pedro Calapez e André Gomes apresentam no Museu Nacional Soares dos Reis, até 8 de Maio, uma nova montagem da exposição “Seja Dia Ou Seja Noite Pouco Importa”, que havia sido apresentada no final do ano passado no Museu Colecção Berardo; na Galeria Insofar, até 30 de Abril, o artista angolano Cristiano Mangovo apresenta “Black Rock Senegal”. Se gostam de anúncios luminosos do século passado não percam a exposição Brilha Rio, no Parque de estacionamento do Prata Riverside Village em Marvila, com 70 peças - pode ser visitada ao fim de semana até início de Março.


 


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O PIOR TEMPO DE ESPANHA -  Estudou geografia e história, tornou-se conhecida com uma novela erótica, “Las Edades de Lulu”, que ganhou o prémio “La sonrisa vertical” e inspirou um filme do realizador Bigas Luna. Almudena Grandes Hernández foi uma das grandes escritoras espanholas e morreu em 2021. A Mãe de Frankenstein , o seu derradeiro livro, publicado em 2020, é um romance histórico elaborado, a quinta parcela da série Episódios de uma guerra sem fim, e é por muitos considerada a novela mais intensa e emocional dessa série.Este título apresenta uma narrativa ambientada na Espanha do pós-guerra. Da mesma forma, o tema do livro aborda parte das consequências psiquiátricas causadas pela Guerra Civil e pelo regime de Franco. A acção começa em 1954, quando o psiquiatra Germán Velásquez regressa a Espanha para trabalhar no manicómio feminino de  Ciempozuelos, após 15 anos de exílio na Suíça onde foi acolhido pela família do doutor Goldstein. Naquela instituição psiquiátrica, Germán reencontra Aurora Rodríguez Carballeira, uma mulher inteligente e paranóica, tristemente célebre por matar a tiro a própria filha. Ali conhece também María Castejón, que cuida dela com enorme desvelo e gratidão. A amizade que acaba por nascer entre a jovem auxiliar e o doutor Velázquez leva o leitor a descobrir não apenas a sua origem humilde como neta do jardineiro da instituição, os anos de criada em Madrid e a infeliz história de amor que protagonizou, mas também o que levou Germán a abandonar a tranquilidade suíça e regressar a Espanha, país onde então os pecados se convertem em crimes, e o puritanismo – defendido pelo regime de Franco – encobre todo o tipo de abusos. Em A Mãe de Frankenstein, Almudena Grandes regressa ao período mais difícil da história de Espanha, destacando as feridas imensas que uma longa guerra provocou. 


 


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MÚSICA MARÍTIMA -  Mário Barreiros, baterista, já participou como músico ou produtor em mais de três centenas de discos de vários géneros musicais, além de ter integrado grupos que fizeram história na pop portuguesa, como os Já Fumega. Mas o jazz é desde há muito o seu terreno de eleição e o seu novo trabalho é prova disso mesmo. Nas palavras de Mário Barreiros trata-se de um regresso ao jazz e à música improvisada e este “Dois Quartetos Sobre O Mar”  é definido por Barreiros como uma homenagem ao mar e às pessoas que meritoriamente cuidam dele”. O disco está dividido em duas partes, cada uma interpretada por um quarteto,  em que o único elemento comum é o próprio Mário Barreiros, na bateria. O primeiro desses quartetos, Pacífico, conta com Carlos Barretto (contrabaixo), Abe Rábade (piano) e Ricardo Toscano (saxofone alto); o segundo quarteto, Abissal, é composto por Demian Cabaud (contrabaixo), Miguel Meirinhos (piano) e José Pedro Coelho (saxofone), e desenrola-se ao longo de oito andamentos. Mário Barreiros diz que os primeiros quatro temas são “mais românticos” e os restantes quatro “mais profundos e reflexivos”. Em comum as duas partes do disco têm o esboçar de paisagens sonoras - o que reforça este disco como sendo um álbum conceptual ligado ao tema dos Oceanos. Este é um dos mais interessantes discos portugueses na área do jazz  e merece destaque a qualidade da prestação dos músicos e a cuidada produção. 


 


PETISCAR - Um dos meus petiscos favoritos é fazer uma massa com brócolos, anchovas e alcaparras. A coisa é simples: cortem um pé de brócolos de forma a aproveitar só as flores, que devem cozidas em água com sal, a ferver, por três minutos. Uma vez cozidas, retirem e reservem. Aproveitem a água usada nos brócolos para cozer a massa, que deve ficar menos um minuto que o indicado na embalagem. Eu gosto muito desta receita com esparguete de boa qualidade (o de molde de bronze da Milaneza é óptimo porque capta bem os sabores do molho onde é misturado). Uma vez cozida escorram a massa e reservem, mas guardem uma chávena de chá da água da cozedura. Ao lado, numa frigideira funda coloque duas colheres de sopa de azeite, uma lata pequena de filetes de anchova escorridos e duas colheres de sopa de alcaparras passadas por água corrente, adicionem um pouco de gengibre fresco picado, e duas malaguetas pequenas esmagadas. Salteiem tudo durante uns três minutos, mexendo para as anchovas ficarem aos pedaços. A seguir coloquem os brócolos e a chávena de água da cozedura da massa  na mesma frigideira, mexendo sempre para as flores dos brócolos se desfazerem. Continue o processo até metade da água evaporar - deve demorar entre 5 a 7 minutos. No final deite por cima a massa escorrida e misture tudo muito bem para ficar envolvida no molho. Polvilhe a gosto com queijo parmesão e misture tudo mais uma vez, transferindo para uma taça que levará para a mesa. Bom apetite.


 


DIXIT - “Uma Marinha focada na sua missão, pronta para servir Portugal, útil para a afirmação do valor do mar, significativa nas suas capacidades e tecnologicamente avançada”  - Henrique Gouveia e Melo, Chefe do Estado Maior da Armada


 


BACK TO BASICS - “Quando a maré baixa é que se descobre quem andava a nadar nu” - Warren Buffett


 








fevereiro 04, 2022

SOBRE A IMPORTÂNCIA DA TÁCTICA

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DER NUTZLOS - Até Domingo passado, na cabeça de muita gente, num mundo perfeito o PS ganharia as eleições sem maioria absoluta, o PSD teria um resultado próximo, o berbicacho estaria em conseguir gerir alianças à esquerda e à direita conforme os assuntos e conveniências, sob a arbitragem do Presidente da República. Só que não foi isto que aconteceu. Costa, que desde o início tornou claro que preferia ter condições para governar sozinho, fez uma viragem táctica a meio da campanha, quando surgiam sondagens que pareciam indiciar uma hipotética vitória do PSD, deixou de pedir a maioria absoluta e, na prática, passou a pedir o voto útil que lhe permitisse afastar o espectro da direita. O resultado já se sabe qual foi: o povo de esquerda uniu-se em torno de Costa, deu-lhe a maioria absoluta e tirou o tapete a todos. O resultado das eleições ditou uma crise no PSD, com Rui Rio a questionar a sua utilidade, tirou o CDS do leque parlamentar e reconfigurou o Parlamento de forma significativa, atirando Bloco e PCP para o fim do pelotão. Em Belém Marcelo Rebelo de Sousa assistirá, se alguma coisa não mudar, a quatro anos de desfile de António Costa no tapete voador do PRR. Quando o resultado foi conhecido, Rui Rio questionou qual seria a utilidade da sua pessoa no PSD. De facto ele não tem sido útil. É impossível esquecer como Rui Rio foi, ao longo dos anos, inútil na oposição, abrindo espaço para quem o soube fazer à sua direita, como foi incapaz de dizer o que faria no pós eleições, como não se bateu por uma aliança eleitoral com o CDS, o que, percebe-se agora, facilitou a Costa a aritmética da maioria absoluta. Assim sendo, na sua próxima conferência de imprensa talvez alguém possa dizer “Rio ist nutzlos”, o mesmo é dizer “Rio é inútil”.


 


SEMANADA - Em Lisboa, nas legislativas, o PS conquistou mais 30 mil votos no concelho do que tinha tido nas recentes autárquicas; a Iniciativa Liberal foi o terceiro partido mais votado no Porto e em Lisboa; se fizermos as contas ao número de votos expressos e deputados eleitos por cada partido vemos como o sistema eleitoral português, baseado na Lei de Hondt, distorce a proporcionalidade: o PS precisou de 18.927 votos por deputado, o PSD de 20.930, o Chega de 31.636, a Iniciativa Liberal de 33.053, a CDU de 38.668, o Bloco de Esquerda de 47.351, o Livre de 67.776, o PAN de 80.8109 e o CDS obteve 85.786 votos mas não teve nenhum deputado eleito; se o PSD tivesse aceite fazer uma coligação com o CDS, de acordo com os resultados obtidos nestas eleições por cada partido, essa coligação teria conseguido eleger mais quatro deputados que o total obtido pelo PSD, retirando assim a maioria absoluta ao PS; à esquerda só o PS ganhou votos e o apuramento das contas dá aos partidos da esquerda parlamentar menos 36 mil votos que em 2029; a abstenção baixou, mas foi a terceira mais elevada de sempre; o PS venceu em todos os distritos do país nas legislativas mas de entre as dez cidades mais populosas de Portugal apenas cinco são dirigidas por eleitos PS nas autárquicas e de entre as dez mais ricas apenas 4 têm presidentes de câmara do PS; quase um terço dos deputados eleitos são estreantes no parlamento; em 2021 a economia portuguesa cresceu mais que o previsto mas ficou ainda aquém da recuperação da zona euro.


 


O ARCO DA VELHA - Em 2021 a violência doméstica fez 23 mortes, das quais 16 foram mulheres, duas crianças e cinco homens.


 


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POR DENTRO DAS MEMÓRIAS - “Loreto”, a exposição que a fotógrafa Luísa Ferreira inaugurou esta semana na Sociedade Nacional de Belas Artes, e que ali fica até 5 de Março, é um retrato da transformação da cidade de Lisboa nos últimos anos. Focada na zona onde Luísa Ferreira vive e trabalha, o Loreto, no coração da zona antiga da cidade, a exposição mostra como as transformações urbanas dos últimos anos afastaram pessoas das suas casas, dos locais onde viveram toda a vida (na imagem). Como diz a autora no texto que acompanha a exposição, as pessoas “foram empurradas para fora do seu ciclo de vida construído desde sempre, simplesmente perderam o direito à cidade”. João Silvério, no texto do catálogo, sublinha que este é um trabalho que cruza a ficção com o documentário, englobando fotografias, objectos de uso doméstico, notas visuais que mostram “os laços afetivos que se geram na experiência do lugar, na partilha da vizinhança e do tempo”. A exposição, agora em Lisboa, já passou pelo Festival de Fotografia do Barreiro e mostras internacionais de fotografia. Outras sugestões: na Galeria Filomena Soares, Rua da Manutenção 80, João Penalva apresenta até 19 de Março“Fernand Lantier e outros”; no Museu Nacional de Arte Antiga, até 10 de Abril, pode ser vista a coleção de Maria e João Cortez de Lobão, “O Belo, a Sedução e a Partilha”, que apresenta a obra “O Martírio de São João Damasceno”, Luigi Miradori, Il Genosevino (séc XVII).


 


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O NASCER DE UMA PENSADORA - Ao longo da sua vida Susan Sontag foi elaborando um diário, que sempre manteve reservado. Apenas em “Histórias”, um conjunto de pequenos textos que cruzam a ficção com a sua própria biografia, Sontag deixou espreitar a sua intimidade. Depois da sua morte, em 2004, o filho, David Rieff, recuperou os diários e apontamentos de Sontag, feitos entre 1947 e 1963, e editou-os sob o título “Renascer”. Ensaísta, Sontag foi uma das mais importantes intelectuais norte-americanas da segunda metade do século XX e teve presença assídua em publicações como The New Yorker, The New York Review of Books, The New York Times e The Times Literary Supplement, entre muitas outras. Este “Renascer” teve edição original nos Estados Unidos em 1992 e uma primeira edição em Portugal em 2010. O livro regressa agora com uma segunda edição pela mão da Quetzal e tradução de Nuno Guerreiro. A primeira nota publicada, escrita em 1947, é uma espécie de declaração de princípios que considera deveriam nortear a sua vida - por exemplo, a afirmação de que a única diferença entre os humanos é a inteligência”. E em 1948 declara: “as ideias perturbam o equilíbrio da vida”. Mais tarde, em Maio de 1949, aos dezasseis anos, deixa a frase que inspira o título do livro:«Tudo começa a partir de agora – Renasci.» Na introdução David Rieff, sublinha: «O que sei é que, enquanto leitora e escritora, a minha mãe adorava diários e cartas – quanto mais íntimos, melhor. Assim, talvez Susan Sontag, a escritora, tivesse aprovado o que eu fiz. Seja como for, assim o espero», escreve, em justificação pela divulgação destes textos íntimos, que se iniciam com os anos da adolescência, em 1947, atravessam os anos da faculdade, as primeiras experiências na escrita, a sua formação sexual e emocional, e terminam em 1963, quando Susan Sontag era já plena participante e observadora da vida da cidade de Nova Iorque.


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DANÇA IMPARÁVEL - A primeira grande surpresa portuguesa deste ano é o disco de estreia do Club Makumba, um projecto que vive de sonoridades multiculturais, com ventos do mediterrâneo e de África. O Club Makumba teve origem na parceria criada entre as guitarras de Tó Trips (Dead Combo e Lulu Blind) e a bateria e percussões de João Doce (Wraygunn), a que se juntam agora o saxofone de Gonçalo Prazeres e o contrabaixo e baixo de Gonçalo Leonardo. O álbum contém 11 temas contagiantes em que a sonoridade única da guitarra de Tó Trips marca de forma clara todo o ambiente do disco. Há coisas que vêm do trabalho “Guitarra Makaka” o segundo disco a solo que em 2015 fez parte das aventuras de Trips e em que já surgia a percussão pela mão de João Doce. O Club Makumba é um ambiente de festa, está feito como a banda sonora de um clube de dança exótico e arrebatador, um local onde apetece passar a noite. Gonçalo Prazeres (saxofone) e Gonçalo Leonardo (contrabaixo) que agora se juntaram à banda são músicos oriundos do jazz e que acompanharam a tour de Odeon Hotel, dos Dead Combo. Juntaram-se os quatro em estúdio, foram aproveitados temas do “Guitarra Makaka” em Novembro de 2019. A pandemia fez o adiamento, o disco saíu agora, a digressão pelo país arranca em Fevereiro e podem ouvi-los nas plataformas de streaming.


 


CAVALGADA ALTA - O restaurante Cavalariça nasceu na Comporta pela mão de Bruno Caseiro e Filipa Gonçalves. Em dezembro de 2020 veio para Lisboa parte da equipa do Cavalariça, com Bruno Antunes, o braço direito da dupla de fundadores, a comandar a operação na capital. O local escolhido, assumido como transitório até se encontrar outro mais central, fica na Rua da Boavista, onde já existira o restaurante Optimista, paredes meias com o espaço de galerias e ateliers Transboavista -VPF. A pandemia veio no entanto perturbar as operações e levou ao seu encerramento passado pouco tempo, tendo reaberto no Verão passado. O restaurante tem uma carta baseada em produtos sazonais, que ao almoço tem uma proposta de menu executivo, de 25 euros, sem bebidas, com couvert, entrada, prato principal e sobremesa. À noite, para além das opções da carta, há duas propostas de menu degustação, a que chamam Rédea Solta, uma de 5 e outra de 7 pratos. O nome de Rédea Solta vem do facto de a degustação depender do que o chefe encontrou no mercado e quis preparar. Os clientes apenas sabem o que é à medida que os pratos forem chegando à mesa. A visita foi à hora de almoço, o menu executivo como base. Destaque para a focaccia do couvert, muito boa a entrada escolhida, de cogumelos silvestres com ovo a baixa temperatura, espinafres e batatinhas, tudo sobre uma mousse também de cogumelos. O prato principal, frango do campo com couve coração assada, recheada com miúdos do frango, surpreendeu pela diversidade de sabores e o tempero acertado numa carne que nem sempre é fácil de manter apetitosa. Por fim a sobremesa foi marmelo cozido, acompanhado por uma espécie de granizado de romã e gelado de pão tostado - o ponto fraco foi o granizado, insípido. A lista de vinhos é curta e ostensivamente cara - algo que poderia ser revisto introduzindo maior escolha. Mesmo no menu executivo, duas pessoas que partilhem uma garrafa, não escapam a perto de meia centena de euros por cabeça. O Cavalariça fica na Rua da Boavista 86, telefone 213460629.


 


DIXIT - “Com ideias, sem protagonistas, sem populismo e com rigor, provámos que é possível tirar pessoas da apatia e crescer” - João Cotrim Figueiredo


 


BACK TO BASICS - “A melhor das vitórias é quando o opositor se rende antes de começarem as hostilidades.” - Sun Tzu


 

janeiro 28, 2022

A UTILIDADE DA MUDANÇA

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ALTURA DE MUDANÇA - As eleições de domingo são uma ocasião para cada um de nós manifestar o que deseja: se queremos continuar no sentido do empobrecimento ou se queremos dinamizar a economia e fazer crescer o país. Em resumo, se queremos uma mudança no rumo que tem sido seguido. Desde 2015, quando António Costa montou a geringonça, e segundo dados oficiais da União Europeia, fomos ultrapassados pela Estónia, Lituânia, Hungria e Polónia. Estamos praticamente na cauda da Europa. Um outro estudo da Comissão Europeia indica que a carga fiscal em Portugal aumentou desde que o PS é Governo para 34,7% do PIB, o que significa uma das maiores cargas fiscais europeias face ao rendimento per capita, começando logo nos escalões mais baixos, Nos últimos 26 anos, desde 1995, tivemos 19 anos de governos liderados pelo Partido Socialista, um dos quais chamou a Troika, e 7 anos de governos liderados pelo PSD. A situação é esta: temos uma muito elevada dívida pública que continua a aumentar, uma sociedade que está dependente dos financiamentos e subsídios da Europa. Nos últimos anos a sociedade ficou ainda mais rígida, com maior peso do Estado. Temos uma justiça que não funciona, uma educação que se degrada, anos de desinvestimento nas principais funções que o Estado deve assegurar. Temos, ainda segundo estudos internacionais, um sério problema de corrupção no Estado, que não tem registado melhorias. Continuamos a agravar desigualdades, a penalizar a classe média e sem capacidade para proteger os mais fracos. Por isso mesmo a decisão de 30 de Janeiro tem a ver com saber se queremos continuar na mesma ou dar uma oportunidade à mudança. Por mim desejo uma mudança que possa fazer reformas essenciais para o nosso desenvolvimento.


 


SEMANADA - No ano passado, em Lisboa, cerca de duas centenas de pessoas morreram sem que os seus corpos tivessem sido reclamados, o maior número desde 2009; no início desta semana quase um milhão de pessoas estava em isolamento devido ao covid-19, mais de 9% da população; o valor das indemnizações pedidas ao Estado nos tribunais administrativos, por cidadãos e empresas,  atinge já 4,5 mil milhões de euros; nas prisões portuguesas verificaram-se em cinco anos mais de 300 mortes e só em 2020 foram sinalizados 1386 reclusos em risco; desde o início deste  ano já  morreram nas prisões sete reclusos, e duas destas mortes foram reportadas como suicídios; cerca de 200 adeptos estão impedidos de entrar em recintos desportivos devido à participação em actos violentos; em 2021 foram recebidas 1160 denúncias de cibercrimes, o dobro do verificado em 2020; 14 albufeiras portuguesas estão 40% abaixo do seu nível normal e a seca está já ter efeitos na agricultura e na qualidade da água; no final de 2021 havia cerca de 35 mil desempregados inscritos nos setores do alojamento, restauração e similares e o seu número subiu nos últimos dois meses do ano; em 2021 foram vendidos 190 mil móveis no valor de cerca de 30 mil milhões de euros, um aumento de transacções de 18% face a 2020; em 2021 a TAP teve três vezes menos passageiros do que em 2019; 45% das empresas portuguesas apresentaram resultados negativos em 2020, o que compara com 36,9% em 2019; desde Janeiro ​​os preços da gasolina e do gasóleo já aumentaram quatro vezes e encher o depósito do carro ficou cinco euros mais caro; o número de pequenos partidos está a crescer desde 2009, em 46 anos mais de meia centena de partidos apresentaram-se a eleições, mas só 13 conseguiram eleger deputados.


 


O ARCO DA VELHA - A Igreja do Convento de São Francisco, em Bragança, classificada como Imóvel de Interesse Público, com uma rica colecção de arte sacra e frescos medievais, foi vendida em leilão na sequência de uma penhora por dívida a um empreiteiro e desconhece-se o comprador.


 


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TESTEMUNHOS FOTOGRÁFICOS  - Daniel Blaufuks apresenta no Pavilhão Preto do Museu de Lisboa (Campo Grande) a exposição “Lisboa Cliché”, uma seleção de 80 fotografias de entre as mais de 300 que integram o livro com o mesmo nome, lançado no ano passado. As imagens, feitas entre o final da década de 1980 e o início dos anos 90, mostram espaços, ambientes e pessoas de uma Lisboa a preto e branco, evocando locais como o Frágil, o British Bar, a Cinemateca, a Versailles e a Trindade. A exposição estará patente até 27 de Fevereiro. Antes de publicar o livro que enquadra estas imagens com textos do próprio Blaufuks, as fotografias foram publicadas numa conta de Instagram também intitulada “Lisboa Clichê”, que acabou por desencadear o livro e esta exposição. Blaufuks tem trabalhado sobre a relação entre a memória pública e a memória privada e tem exposto em museus, galerias de arte contemporânea e festivais, trabalhando principalmente com fotografia e vídeo. Em 2016 recebeu o prémio AICA pelas exposições Tentativa de Esgotamento e Léxico e a relação entre a memória e o Holocausto tem atravessado o seu percurso criativo. Outro destaque desta semana vai para  «Last Folio», de Yuri Dojce e Katya Krausova, no Museu Berardo. Inaugurada no Dia Internacional em Memória do Holocausto, a exposição mostra  um conjunto de fotografias que documentam os últimos testemunhos de uma cultura e da história de um povo, uma história que foi brutalmente interrompida quando das deportações dos judeus para os campos de concentração, em 1942. São imagens marcantes de ruínas de escolas, de sinagogas, de livros e de objetos. A exposição inclui ainda um conjunto de retratos contemporâneos de sobreviventes do Holocausto e um filme sobre as cicatrizes da tragédia nazi e da destruição da cultura judaica. E em Coimbra, na Antiga Sala do Capítulo do Convento de São Francisco, Nuno Cera apresenta até 27 de Março “As Quedas/The Falls”, um trabalho de vídeo e fotografia realizado nas cataratas do Niagara.


 


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O ENCANTO DE UMA PEQUENA NOVELA - Escrita no exílio francês de Joseph Roth e publicada no jornal parisiense de língua alemã Pariser Tageblatt, em 1935, a novela O Busto do Imperador constitui, por um lado, uma tentativa de fuga da realidade que se vivia na altura na Alemanha e na Áustria, por outro, representa uma defesa utópica dos valores de tolerância resultantes do cosmopolitismo, traço essencial do Império Austro-Húngaro. É uma novela encantadora que parte da pequena aldeia de Lopatyny, situada na antiga Galícia Oriental, onde o próprio Roth nasceu, e em que vive o velho conde Franz Xaver Morstin. O fidalgo, relíquia do derrotado Império Austro-Húngaro, é obrigado a conformar-se com a diminuição do seu estatuto e com as trágicas mudanças ocorridas na Europa após a Primeira Guerra Mundial. Só um busto em arenito barato, representando a figura do Imperador Francisco José, feito «pela mão desajeitada dum jovem camponês» e colocado em frente à sua casa lhe dá a vã ilusão de nada ter mudado


Publicada agora na Assírio & Alvim, com tradução a partir do alemão, notas e introdução de Álvaro Gonçalves, esta edição abarca uma cronologia da vida e obra de Joseph Roth, bem como uma carta do autor a Gustav Kiepenheuer, o seu editor alemão.


 


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UMA INSPIRAÇÃO FOLK - Aoife O’Donovan vem de uma família irlandesa que emigrou para os Estados Unidos e cresceu a ouvir canções do seu país, muitas delas com uma clara inspiração celta. O’Donovan recorda-se que o seu pai, além da música irlandesa, ouvia discos de nomes como Joni Mitchell ou Suzanne Vega. Depois de estudar música no New England Conservatory, Aoife O’Donovan cantou com uma banda folk, os  Crooked Still, e foi co-fundadora de um trio feminino, I’m With Her. Agora com 39 anos, ela tem trabalhado com numerosos músicos de diversos géneros, do folk ao jazz, passando pela pop, participando em muitas digressões como vocalista convidada.. O seu primeiro disco em nome individual foi gravado em 2010 e agora surge “Age Of Apathy”, o terceiro álbum a solo, uma colecção de canções envolventes, simultaneamente íntimas e desafiadoras, autobiográficas e metafísicas. Musicalmente a presença da herança folk é muito grande, mas O’Donovan não hesita em surpreender com melodias inesperadas ou súbitas mudanças de ritmo. Neste disco ela foi buscar para a produção Joe Henry, que já assinou trabalhos de nomes como Bonnie Raitt, Joan Baez, Bettye LaVette, Elvis Costello e Allen Toussaint. Gravado ao longo de um ano, “Age of Apathy” é talvez o seu trabalho mais pessoal. As 11 canções deste disco, muitas onde se nota a influência de Joni Mitchell,  falam de viagens, de memórias de actuações, do sentimento experimentado em momentos marcantes da sua vida, da sua experiência durante as digressões com outros músicos, do papel que a música tem na sua vida. 


 


OUTRO FRANGO - Gosto muito de frango assado de churrasqueira e acho que proporciona uma boa base para cozinhados - desde salada a arrozes, passando por massa. E é de um frango assado desfiado com massa que vou falar. Num tabuleiro de ir ao forno, que aqueci previamente,  coloco uma meia dúzia de tomates cherry cortados em metades com folhas de espinafres frescos. Por cima ponho uma massa como o penne, que já cozi previamente, deixando-a ainda rija. Depois vai o frango desfiado e por cima uma chávena de chá de um molho feito com mostarda, azeite, tomate em pasta e um pouco da água da cozedura da massa. Mexa tudo muito bem mexido, tempere a gosto com sal e pimenta e no fim, por cima de tudo, deite uma camada generosa de mozarella aos pedaços. Vai ao forno até perceberem que o queijo derreteu e está a ficar tostado. Bom apetite.


 


DIXIT - “Quanto menos produtivos formos, menos actividade mantemos e atraímos, mais portugueses qualificados emigram e pior serão as condições de vida dos que restam” - António Nogueira Leite


 


BACK TO BASICS - “Não é de admirar que as pessoas desprezem a política quando, ano após ano, ouvem os políticos fazerem promessas que não se concretizam porque nem sequer são feitas com intenção de se executarem - são fantasias eleitorais para vencer eleições mas que não fazem os países prosperar “ - Bill Clinton






 








janeiro 21, 2022

COSTA: O PROBLEMA DA MEMÓRIA

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O COSTISMO - Pode acreditar-se numa pessoa que diz uma coisa e depois faz o seu contrário? Passo a citar António Costa: “Há 20 anos o que era governar à esquerda? Governar à esquerda era, em primeiro lugar, fazer nacionalizações. Hoje em dia nenhum partido socialista da Europa entende que as nacionalizações são instrumentos adequados à execução da sua política. Os últimos que entenderam isso foram os socialistas franceses em 1981 e, em 1984, iniciaram as privatizações das nacionalizações porque perceberam, e percebeu-se, que o instrumento nacionalização, ou seja a apropriação pelo Estado de determinados bens de produção, não alterava nem as relações de produção na empresa, nem alterava o papel das pessoas dentro da empresa, nem assegurava sequer uma maior redistribuição de riqueza”. Estas palavras foram ditas por António Costa a 27 de Janeiro de 1997, numa entrevista que Pedro Rolo Duarte lhe fez no programa “Falatório”, na RTP2. Ela está disponível on-line no arquivo da RTP, a afirmação citada pode ser ouvida ao minuto 18’35” da segunda parte dessa entrevista. E pouco antes, respondendo a outra questão de Pedro Rolo Duarte, sobre a esquerda, afirmava António Costa: ”PS e PC são duas famílias dentro do que designa habitualmente a esquerda. São hoje claramente duas famílias distintas porque houve uma fronteira, que se foi traçando ao longo de décadas, que era uma fronteira que foi traçada pela questão da liberdade”. O mote para estas respostas de António Costa foi dado pela citação que Pedro Rolo Duarte fez de declarações feitas na época, na entrevista a um jornal, por Manuel Alegre: “Estou cansado e saturado da política à portuguesa, os valores estão virados do avesso e os políticos têm horror à ideologia e pânico da política. Há muita cobardia, um carreirismo desbragado, canalhices e tanta gente rasteirinha. Tudo isto perverte os partidos e a própria democracia”. 


 


SEMANADA - No ano passado 438 mil condutores perderam pontos na carta de condução, um aumento de infracções de 80% face ao ano anterior; em 2021 as infracções às normas da inspecção periódica a veículos aumentou 53%; o aumento anual da reforma levou 53 mil pensionistas a perderem rendimentos por terem passado para o escalão seguinte do IRS; a avaliação anual da qualidade do ar está há seis meses à espera da Direcção Geral da Saúde; mais de meio milhão de pessoas estavam isoladas no final da semana passada devido à pandemia; no início da semana Portugal era o quarto país da Europa com mais infecções registadas diariamente; a Comissão Nacional de Protecção de Dados aplicou uma multa de 1,2 milhões de euros à Câmara Municipal de Lisboa devido à comunicação de dados pessoais de promotores de manifestações repetidamente realizada pela gestão de Fernando Medina na autarquia; as vendas de vinho em Portugal no ano passado ficaram 19% abaixo do período pré-pandemia; o número de reclusos com mais de 60 anos quase triplicou nos últimos 12 anos; os casos de violência doméstica são a causa da atribuição de mais de metade das pulseiras eletrónicas; 94% do território nacional já está em seca meteorológica; o preço das casas em Portugal subiu 57% desde 2010; e as rendas aumentaram 24% no mesmo período; um quinto das vagas para estágios na função pública está por preencher; um estudo recente indica que a actividade política absorve mais de 500 funcionários públicos por ano e o Estado desperdiça mais de 30% da despesa graças à proliferação de “jobs for the boys”; os aeroportos nacionais tiveram em 2021 menos de metade dos passageiros de 2019; metade das vagas para médico de família na região de Lisboa e Vale do Tejo ficaram por ocupar; os serviços públicos foram alvo de 16 mil reclamações em 2021 no Portal da Queixa, um aumento de 19% face a 2020.


 


O ARCO DA VELHA - No caso de Tancos, o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, foi absolvido por, no entender do juiz, não ter percebido o que leu no memorando do director da Polícia Judiciária Militar.


 


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LEITURAS COMPLEMENTARES - Esta semana destaco dois livros que têm em comum serem particularmente adequados aos tempos que vivemos, não só na Europa, mas também aqui em Portugal. Começo pela filósofa francesa Simone Weil e o seu ensaio “A Pessoa E O Sagrado”, escrito no último ano da sua vida, em 1943. Para Simone Weil, «há em todo o homem algo de sagrado, mas não é a sua pessoa. Também não é a pessoa humana. É ele, aquele homem, simplesmente». Na apresentação do livro, agora editado na colecção Livros Vermelhos da editora Guerra e Paz, escreve-se: “Na obra, a filósofa parte das suas mais essenciais assunções filosóficas – a beleza, a justiça e o mal – para este debate sobre a «pessoa», convocando também o direito e a democracia e isolando-a de qualquer colectividade, partido ou instituição”. Portugal terá sido o país que representou um ponto de viragem do pensamento de Weil. Na Póvoa de Varzim, assistiu a uma procissão católica em 1935. Um cortejo de mulheres de pescadores, vestidas de negro, percorria a praia, em luto, promessas e orações pelos maridos, e esses cantos, «de uma tristeza lancinante», segundo palavras suas, abriram nela a ferida mística que não mais a largaria. Albert Camus considerou-a  «o único grande espírito do nosso tempo».


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O segundo livro que hoje trago é precisamente uma recolha de textos de conferências e discursos proferidos por Albert Camus. O livro "Conferências e Discursos" reúne os trinta e quatro textos proferidos publicamente, ao longo de mais de vinte anos, por Albert Camus, incluindo o discurso pronunciado por ocasião do Prémio Nobel da Literatura 1957. Com exceção da reflexão sobre «a nova cultura mediterrânica», de 1937, todas estas comunicações foram realizadas no pós-guerra, resultado de solicitações que se foram multiplicando à medida que crescia a notoriedade do escritor e a vontade de ouvir o seu ponto de vista sobre as mudanças mundiais em marcha. Termino com uma frase de Camus, particularmente actual: «Prefiro os homens empenhados às literaturas empenhadas. Coragem na vida e talento nas obras, já não é assim tão mau.»


 


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A ESCRITORA E O REALIZADOR - “O Princípio da Incerteza” é uma exposição centrada na parceria criativa que uniu Agustina Bessa-Luís a Manoel de Oliveira ao longo de quatro décadas. Por ocasião do centenário de Agustina, que se evoca este ano, a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, em Serralves, criou uma mostra onde acompanha os dez textos de Agustina que habitam a obra de Oliveira: cinco romances, dois diálogos, uma peça de teatro, um conto e um discurso lido pela própria escritora. A exposição é constituída por três áreas distintas: uma antecâmara com uma seleção de depoimentos de ambos os autores, através dos quais é possível antever como um e outro se foram posicionando relativamente ao trabalho que conjuntamente desenvolveram; uma sala onde é projetado, em contínuo, o registo vídeo de uma longa conversa entre a escritora e o cineasta, gravada em 2006; e uma terceira sala que, além de sequências fílmicas  integra vitrines com documentação e outros objetos, distribuídos por 10 núcleos organizados cronologicamente e correspondentes a cada um dos títulos resultantes da colaboração entre Agustina Bessa-Luís e Manoel de Oliveira.


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Para além de documentos de trabalho, rascunhos e manuscritos inéditos da autora, muitos anotados por Manoel de Oliveira (na imagem duas páginas de “Vale Abraão”), está ainda exposto todo um conjunto de elementos – anotações, esboços, fotografias, guiões e outros materiais que dão conta dos procedimentos adotados pelo cineasta quanto à transposição cinematográfica dos escritos de Agustina, bem como dos seus métodos de trabalho. Esta seleção é complementada por toda a correspondência trocada entre ambos ao longo de cerca de quarenta anos, que nunca antes havia sido exposta, sendo igualmente de referir uma ampla seleção de itens bibliográficos, documentos e objetos colocados em diálogo com cada um dos projetos que compõem o universo literário-cinematográfico criado pelos dois autores. Esta exposição, “O Princípio da Incerteza”, que fica patente até 5 de Junho, é acompanhada por um belíssimo catálogo que reproduz muito do material exposto.


 


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A TRANSFORMADORA DE CANTIGAS   - Cat Power gosta de fazer versões de músicas alheias. Tem a particularidade de muitas vezes as transformar por completo, criando quase novas canções - foi o que já aconteceu em 2000 no álbum “The Covers Record”, com a sua versão de “Satisfaction”, um original dos Rolling Stones ou “I Found A Reason” dos Velvet Underground. Mais tarde, em 2008, com “Jukebox”, ela percorreu temas de folk, country e blues de autores como Hank Williams, Joni Mitchell ou Jessie Mae Hemphill. Cat Power, Chan Marshall de seu nome, acaba de editar a sua terceira coletânea de versões, singelamente intitulado “Covers”. Aqui estão originais de Frank Ocean, Lana Del Rey, Nick Cave e até uma nova versão de um dos seus próprios temas - “Hate”, que passou agora a “Unhate.” Este novo “Covers” é talvez o seu disco com  um leque mais alargado de inspirações e é o que melhor mostra o seu talento de reinventar canções. Veja-se o que fez a “The Endless Sea” de Iggy Pop, que inclui uma evocação  de “Dirt” dos Stooges, até “I Had A Dream Joe” de Nick Cave, passando por um arrebatador “A Pair Of Brown Eyes” dos Pogues, ou à balada “These Days” de Jackson Browne, que já tinha sido interpretada por Nico. Nesta linha ouça-se ainda “I’ll Be Seeing You”, uma canção de amor popularizada nos anos 40 por Billie Holiday. Mas também pode ouvir como ela recria “Bad Religion” de Frank Ocean, uma melancólica interpretação de “White Mustang”, de Lana Del Rey, ou uma versão emocionante de “Here Comes a Regular”, dos The Replacements. O disco inclui ainda uma das canções que tem interpretado mais ao vivo, uma versão de “Pa Pa Power” do efémero projecto Dead Man’s Bones, do actor Ryan Gosling, um tema de protesto que se tornou o hino da campanha Occupy Wall Street. Ao longo da sua carreira Cat Power recolheu já inspiração em temas de Bob Dylan, Duke Ellington, Liza Minnelli ou dos Creedence Clearwater Revival. E cada uma das suas versões, como poderão constatar neste “Covers”, é uma nova canção. Disponível em streaming.


 


DIXIT - “A justiça jamais se reformará a ela própria” - António Barreto


 


BACK TO BASICS - “É fundamental ter boa memória para se ser capaz de cumprir as promessas que se fazem” - Friedrich Nietzsche


 




janeiro 14, 2022

COLOCAR OS OVOS TODOS NO MESMO CESTO?

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LIBERDADE DE MOVIMENTOS - Os debates eleitorais têm tido audiências acima do esperado, sobretudo quando comparados com debates de anteriores e recentes campanhas eleitorais. Com a pandemia a impedir uma campanha eleitoral tradicional, de rua, as atenções concentram-se nos debates transmitidos pelas três estações generalistas e por canais de cabo. Alguns candidatos jogam tudo: preparam-se muito bem e conseguem marcar os adversários políticos de forma metódica. Estão neste caso Catarina Martins e Rui Tavares à esquerda e Cotrim de Figueiredo, à direita. Os três não têm dado tréguas e frequentemente entalam quem está do outro lado da mesa. António Costa segue o método da cassete que não muda e fica tudo na maioria absoluta que pretende alcançar. O seu discurso varia pouco, é repetitivo e esgota-se ao fim de pouco tempo. Não muda o registo qualquer que seja o oponente e, surpreendentemente, foi mais agressivo para Jerónimo de Sousa do que para André Ventura. Este último, Ventura, é ainda mais redutor e vazio de conteúdo, fechado num pequeno círculo de ideias, com o único objectivo de provocar os seus adversários. Rui Rio pelo seu lado foi o líder partidário que arrancou pior nos debates, enrolando-se nas palavras e não conseguindo passar uma mensagem coerente. Teve azar, porque a sua pior prestação foi precisamente no debate que teve a maior audiência até agora, quando contracenou com Catarina Martins. E Francisco Rodrigues dos Santos lá se vai queixando, mantendo a linha de patinho feio que anda a seguir na sua comunicação desde meados de Dezembro. Vamos ver como corre a substituição de Jerónimo de Sousa, que, sabe-se agora tinha uma situação clínica que contribuíu para prestações abaixo do que é seu hábito. Estou em crer que a inteligência colectiva faz com que as pessoas numa situação destas não queiram juntar os ovos todos na mesma cesta e prefiram manifestar diferenças. A grande questão é que, como se viu nas autárquicas, já não há seguidores fiéis e talvez por isso as pessoas procuram nos debates alternativas ao que têm votado. Há no ar o sentimento de que os eleitores querem saber se há alternativas, querem ter liberdade de movimentos e têm receio de ficarem restringidos a uma só pessoa, a uma só entidade. A abstenção vai ser decisiva neste jogo. Quanto maior a abstenção, menor a probabilidade de concentração de votos. 


 


SEMANADA - Segundo a OMS a Ómicron pode infectar mais de metade dos europeus nas próximas semanas; desde o início da pandemia a Ordem dos Enfermeiros recebeu mais de dois mil pedidos de declarações para emigração; no Serviço Nacional de Saúde foram feitos 22 milhões de horas extra no ano passado; no início do segundo período escolar ainda há 118 horários por preencher o que afecta entre cinco a seis mil alunos e Lisboa continua a ser a zona onde há mais carência de docentes; em 2021 reformaram-se quase dois mil professores, o valor mais elevado desde desde 2013; os pedidos de vistos gold caíram 31% no ano passado; no primeiro dia de canais abertos para denúncias de abusos sexuais na igreja católica portuguesa foram validados cerca de 50 testemunhos; um estudo recente indica que Portugal é o país que vai ter a população mais envelhecida da Europa em 2050; Portugal é o terceiro país da Europa com maior dívida pública, atrás da Itália e da Grécia e é um dos países da europa com menor produtividade; nas últimas duas décadas o PIB per capita português foi ultrapassado por Malta, República Checa, Eslovénia, Lituânia, Estónia, Polónia e Hungria; o programa mais visto da semana passada foi o debate entre Catarina Martins e Rui Rio, que obteve 1,4 milhões de espectadores, mais que “Isto É Gozar Com Quem Trabalha” ou o “Big Brother”; já o debate entre Catarina Martins e António Costa teve cerca de um milhão de espectadores; em 2021 dos 233 filmes estreados comercialmente em sala, 16 foram de produção portuguesa;  o filme mais visto em Portugal em 2021 foi “007: Sem Tempo Para Morrer”, que conseguiu 435 mil espectadores; O filme português mais visto foi “Bem Bom”, de Patrícia Sequeira, sobre as Doce, com 89 mil espectadores, 


 


O ARCO DA VELHA -  Um estudo da Marktest indica que cerca de um  milhão de mulheres portuguesas diz terem feito dieta nos últimos 12 meses.


 


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VER JORGE PINHEIRO - O destaque desta semana vai para uma retrospectiva da obra de Jorge Pinheiro, agora com 90 anos, que abriu esta semana na Galeria Miguel Nabinho, com o título “Introspectivamente”. A exposição, que ficará na Galeria até 4 de Fevereiro, inclui cerca de três dezenas de obras de Jorge Pinheiro, feitas entre 1961 e 2016. Na imagem está um óleo sobre madeira, sem título, de 1969. Miguel Nabinho, o galerista, sublinha que a exposição percorre o percurso do artista na parte mais abstrata do seu trabalho, permitindo compreender a pertinência e a contemporaneidade da sua obra em cada época da sua criação. A Galeria Miguel Nabinho fica na Rua Tenente Ferreira Durão, 18B. Outras sugestões: no Porto, na Galeria Fernando Santos, até 12 de Março, “Amanhã” é o título de uma exposição, que resulta de uma conversa entre os artistas Pedro Valdez Cardoso e Nuno Sousa Vieira. Na mesma Galeria, Pedro Valdez Cardoso apresenta “Luvas Brancas”, uma exposição que integra obras que vão de 2003 a 2021, a maior parte inéditas ou nunca expostas.  A Galeria Fernando Santos fica na Rua Miguel Bombarda 526-536; e na Galeria Monumental (Campo dos Mártires da Pátria 101) Luis Brilhante apresenta “Ilhas vistas do mar parecem pinturas”, em exposição até 26 de Fevereiro. Finalmente a Ato Abstrato (Rua de São Sebastião da Pedreira) apresenta até 18 de Fevereiro a exposição “Chão”, de João Ferreira, Mário Caeiro e Thierry Ferreira.


 


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O MISTÉRIO DO DIAMANTE- No princípio era um diamante. Um diamante misteriosamente desaparecido, que estava nas mãos da família Dain Legett. O seu desaparecimento coincidiu com um outro desaparecimento, o da bela herdeira da família, Gabrielle, que assim se torna a principal suspeita. Este é o pano de fundo de uma das obras de referência de Hammett, considerado o criador do policial negro e um dos mais importantes autores do género. Nascido em 1894, morreu em 1961 e deixou uma extensa obra que vai desde os romances policiais a numerosos contos publicados em diversas revistas e argumentos para filmes. Publicado originalmente em 1929, “A Maldição dos Dain” coloca em cena um detetive privado da agência Continental, nunca tratado pelo seu nome, sempre por Continental Op, personagem nascida num conto da revista “Black Mask” de 1923. Neste livro há crimes, muitos crimes que se sucedem uns aos outros. Crimes com armas brancas, com armas de fogo, com explosivos. Há suspeitos, muitos também, que vão mudando no decorrer da história. E há o detective, de que nunca sabemos o nome, que escapa sempre a tudo. Por fim há a jovem rapariga em redor de quem tudo se passa, uma daquelas heroínas românticas, viciada em morfina, que acredita estar amaldiçoada e cuja simples existência parece ameaçar a vida de todos os que a rodeiam. Este é um clássico do livro policial - se nunca leram Dashiell Hammett esta é uma boa oportunidade de conhecerem o seu trabalho - e a tradução de Dora Reis, nesta nova reedição da histórica colecção Vampiro, é um bom pretexto para os amantes de enigmas intrincados.


 


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POP RADIO - The Weeknd, aliás Abel Tesfaye, concebeu o seu novo álbum, o quinto, como se fosse uma emissão de uma estação de rádio focada no pop de antigamente, ou retro-pop, se preferirem. “Dawn FM”, o álbum, é bem diferente do trabalho anterior, “After Hours”, editado em 2020. Enquanto este era um disco pensado para levar as pistas de dança a casa de cada ouvinte fechado no confinamento de então, “Dawn FM” tem 16 canções pop, entre ritmos e melodias, marcadas por este tempo em que vivemos, entre a pandemia e o caos que se espalhou pelo mundo. Muito bem produzido e interpretado, Abel Tesfaye fez-se acompanhar por um conjunto de notáveis: desde logo Jim Carrey que faz o papel do locutor da rádio imaginada, falando entre as canções. Mas aparecem também colaborações de nomes como Quincy Jones, o Beach Boy Bruce Johnston, Lyl Wayne ou Tyler, The Creator. Cheio de citações de tempos musicais passados é possível identificar evocações de Barry White, Prince ou Marc Bolan. Só mesmo The Weeknd podia lembrar-se de um cocktail destes. As canções, todas as 16, são boas. Mas vale a pena destacar uma balada como “Out Of Time”, o electro pop de “How Do I Make You Love Me?” ou o disco de “Take My Breath”. Não há muitos discos assim, quase perfeitos nas intenções e no resultado final.





A BELA LAMPREIA - Inesperadamente, um prazer que estava há dois anos confinado, revelou-se esta semana em todo o seu esplendor. Falo da lampreia, esse maravilhoso animal que desencadeia paixões, receios e ódios. O feliz acontecimento deu-se a convite de um bom amigo no restaurante “O Gaveto”, em Matosinhos. O ciclóstomo era de bom porte e pôde ser apreciado vivo no aquário antes de proporcionar prazer a alguns convivas. Escolheu-me a modalidade bordalesa, os pedaços de lampreia cozinhados a preceito, com arroz branco à parte, umas fatias de pão frito de lado. O Gaveto é bem conhecido pela qualidade do seu peixe e mariscos, fresquíssimos e muito bem confeccionados. Mas é também elogiado pelas especialidades sazonais que proporciona, de pratos de caça ao sável frito, passando pela caldeirada e, claro, a lampreia. O petisco começa a aparecer em meados de Janeiro, vindo do Minho e, com sorte, encontra-se até ao final de Março, início de Abril. Em 2020 e 2021 os confinamentos desses meses impediram-me de o provar, mas uma bendita viagem ao Porto levou-me até este templo, em Matosinhos.  O Gaveto fica na Rua Roberto Ivens 826 e o telefone é o 229 378 796. Para quem não gostar de lampreia há um elogiado arroz de lavagante que é também um dos ex-libris da casa. Este ano a lampreia já ninguém me tira.



DIXIT - “O Ministério da Cultura preocupa-se com o que dá nas vistas, mais do que com o que faz falta” - António Barreto.


 


BACK TO BASICS - “Dois tigres não podem partilhar a mesma montanha” - provérbio chinês.








janeiro 07, 2022

O VOTO DO VÍRUS DECIDIRÁ AS ELEIÇÕES?

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O ELEITOR OCULTO - Com cada nova eleição vem o dilema habitual: a abstenção é que decide o resultado, como a contornar? Até final do século passado, nas eleições legislativas, a abstenção ainda ficava abaixo dos 40%. Mas em 2009 atingiu os 40,3% , em 2011 os 41,9%, em 2015 os 44,1% e em 2019 deu-se o grande salto para os 51,4%. Não há maneira de fugir a isto: o Parlamento que agora foi dissolvido representava a vontade expressa de menos de metade dos eleitores. Durante anos e anos os partidos recusaram-se a encarar o problema e as suas causas. Continuamos a votar com uma Lei Eleitoral basicamente inalterada desde há mais de quatro décadas, quando tudo era diferente na sociedade portuguesa, a começar pela forma de consumo de informação até acabar nas operações mais corriqueiras que se podem fazer pela internet. O Estado, reconheço, foi rápido a possibilitar um contacto digital com os cidadãos em áreas como a obtenção de documentação. Mas a Assembleia da República, e nomeadamente os maiores partidos, nunca quiseram mexer no processo eleitoral, na alteração das formas de representatividade possíveis e na forma de votação, obviamente garantindo a veracidade e segurança do escrutínio. O resultado da recusa em mudar a Lei Eleitoral está à vista. E nas eleições legislativas de 30 de Janeiro as coisas podem ser bem piores: o risco de o número de abstenções ser enorme entre o previsível grande número de contaminados em isolamento, que podem atingir os 600 mil. Arriscamo-nos a que seja o vírus, autêntico eleitor oculto, a decidir por nós. A pandemia veio colocar de novo na ordem do dia a necessidade de alterar a votação, utilizando formas alternativas seguras que evitem a deslocação dos eleitores e facilitem o voto. E, claro, a própria pandemia tem influência nas campanhas eleitorais, limitadas nas acções de rua, com debates televisivos maioritariamente com audiências marginais. As eleições e as campanhas eleitorais, tal como estão, arriscam-se a ser o resultado da vontade de uma minoria, o contrário do que devia ser uma democracia - ou será que estou enganado?


 


SEMANADA - Segundo o Tribunal de Contas dois terços dos contratos públicos foram assinados sem registo no respectivo portal; os programas de entretenimento estão a esmagar as audiências dos debates eleitorais; a compra de carros eléctricos cresceu 68,3% com a pandemia; ainda há 14 concelhos do país sem postos de carregamento de automóveis eléctricos; o número de estudantes internacionais matriculados no ensino superior cresceu em 2021 quase 13% em relação ao ano anterior; imigrantes na escola pública aumentaram 47% em dois anos; Portugal ganhou 109 mil residentes estrangeiros num ano, e o seu total é agora de 771 mil, o dobro dos registados em 2015; os dados provisórios do Censos 21 indicam que 43% dos residentes em Portugal são solteiros, 41% casados, 8% viúvos e 8% divorciados - e comparativamente aos dados dos Censos 2011, o número dos casados sofreu uma quebra de 14%; segundo a Marktest 4,5 milhões de portugueses ouvem regularmente música online; o desempenho económico de Portugal nos últimos 20 anos, medido por indicadores como o rendimento disponível das famílias ou o PIB per capita é o pior desde o final do século XIX; Em Dezembro o índice de preços no consumidor aumentou 2,8% em relação ao mês homólogo de 2020.


 


O ARCO DA VELHA - A PSP recebeu ordens de só se deslocar a situações urgentes porque o novo contrato de fornecimento de combustível, que devia estar em vigor no início do ano, ainda não foi aprovado.


  


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A POLÉMICA DE VENEZA - O que hoje aqui deixo são sobretudo palavras de Patrícia Fernandes, uma Professora da Universidade do Minho, num artigo com o título “A politização da arte”. O artigo comenta a polémica desenvolvida nas últimas semanas sobre a escolha do representante oficial português na Bienal de Veneza deste ano. A escolha, organizada pelo Ministério da Cultura, tinha um regulamento e um júri. A decisão final, baseada no número de votos recolhido por cada projecto, foi contestada pelo agente da segunda classificada, uma artista chamada Grada Kilomba. O referido agente pretendia que a sua representada é que devia ganhar e contestou a decisão do júri. A partir de agora uso, com a devida vénia, excertos do artigo de Patrícia Fernandes. “O concurso - diz ela- parece ser mais uma trapalhada do governo, tendo gerado críticas generalizadas quanto a prazos, regras e mecanismos. Mas os artistas e os curadores concorreram tendo conhecimento das regras estabelecidas e aceitaram-nas no momento da candidatura. Naturalmente, os derrotados têm legitimidade para recorrer do resultado se entenderem que as regras não foram cumpridas – no entanto, a polémica que tem ocupado o espaço público é outra: dentro da lógica identitária e antissistema, o que se tem questionado é o facto de as regras previamente estabelecidas não terem conduzido ao resultado que foi pré-definido por aqueles que têm contestado a decisão final do concurso.” E sublinha uma questão importante: “A crise da arte chegou aqui: já não discutimos o objeto em si, mas as identidades dos artistas e a necessidade de as regras no mundo da arte responderem a exigências identitárias.” E conclui: “Essa visão totalitária decorre da própria supressão das fronteiras entre esfera pública e esfera privada quando afirmamos que o pessoal é político. Ao fazê-lo, eliminamos a possibilidade da diferença, da criatividade e da crítica livres e da arte como objeto de beleza e admiração, porque tudo o que fazemos deve subordinar-se à lógica política.“ Patrícia Fernandes cita, a propósito George Orwell: “não podemos realmente sacrificar a nossa integridade intelectual em nome de um credo político – ou pelo menos não podemos fazê-lo e permanecer escritores”. E termina com um alerta: “Isto revela como a deriva politizadora e identitária repete a mesma lógica da utilização da arte por parte dos regimes totalitários do século XX”


 


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FOLHEAR IMAGENS - A minha recomendação para iniciar o ano é o livro “Um Passeio de Lisboa a Cascais - postais e fotografias do passado”. Esta edição, de 168 páginas, foi desenvolvida por Miguel Gaspar, Beatriz Horta Correia, Nuno Gaspar e Ana Nobre de Gusmão. É um álbum que recolhe imagens desde o final do século XIX até meados do século XX, num percurso que começa no Terreiro do Paço e se estende até Cascais. O eixo é o percurso da linha de comboio, o território da visão é, quase sempre, o que se apanha da linha de comboio e da estrada marginal. O ponto de partida foi uma colecção de postais ilustrados do avô de uma das autoras, Ana Nobre Gusmão, a que se foram adicionando postais de outras colecções e fotografias de diversas colecções. Retomando a visão que se tem na viagem de Comboio, Ana Nobre de Gusmão escreve no início do livro: “Se partir para Cascais sentado do lado esquerdo do comboio e regressar a Lisboa do lado direito, a paisagem continua a ser a que se espraia através da janela, o comboio a deslizar nos carris. Do outro lado foram destruídos fortes e conventos, casas e palacetes, bosques e jardins, para dar lugar à crescente mancha urbana.” A primeira imagem que aparece no livro é datada de 1901 e mostra o Terreiro do Paço de então. E a última é o mar, na Boca do Inferno, a ser visto, das rochas, por três pessoas. Separados por escassas dezenas de quilómetros, assim se vê o centro do poder do país e o mar onde Portugal acaba. Há imagens muito curiosas  como o mercado do peixe da 24 de Julho em 1905, Alcântara vista do rio no final no século XIX, gado bravo na Praça de Algés em 1909, a praia de Pedrouços, a praia de Carcavelos, os fatos de banho da época, as então termas do Estoril, a construção do Casino, postais de publicidade do Hotel Atlântico no início do século XX. O livro é uma viagem no tempo que permite o confronto com o presente.


 


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UM  TRIO - Este é um daqueles discos ideais para se ouvir sossegado, ao fim da tarde, no regresso a casa, eventualmente com um aperitivo na mão. Fechem os olhos e ouçam. Não se vão arrepender. Falo de “Skyline”, o álbum do final de 2021 que junta o pianista cubano Gonzalo Rubalcaba com Ron Carter no baixo e JackDe Johnette na bateria. É um trio imperdível, sobretudo porque “Skyline” junta standards da música cubana com originais dos membros do trio, incluindo temas de Carter e DeJohnette. Rubalcaba retorna às sonoridades do seu país, de onde emigrou há duas décadas e onde aprendeu a música que hoje toca. O disco é também uma demonstração das potencialidades de uma das formações de jazz que mais me agradam, o trio piano, baixo, bateria. Entre os temas clássicos contam-se “Lagrimas Negras”, “Novia Mia” e “Siempre Maria” e, de entre os originais de Jack DeJohnette, destaco”Ahmad The Terrible”, uma homenagem do baterista a Ahmad Jamal, com quem tocou tantas vezes, e também “Silver Hollow”, onde Rubalcaba mostra como o piano pode transmitir emoções de forma intensa. Finalmente, a faixa final das nove que compõem o álbum é “RonJackRuba”, um improviso não planeado, gravado ao vivo no estúdio onde “Skyline” foi produzido. Disponível em streaming.


 


OVOS, SEMPRE! - Depois das comezainas de Natal, que tal um jantar simples e que não dá trabalho? Aqui fica a receita que fiz na segunda feira passada: ovos mexidos com salmão fumado e gambas. Para duas pessoas bastam três ovos, desta vez adicionei uma colher de sopa de crème fraiche que tinha sobrado do fim de ano, uma embalagem de 80 gramas de salmão fumado cortado em pedaços, uma dezena de gambas pequenas descascadas, que cozi previamente e deixei arrefecer. Na frigideira coloque uma colher de sopa de manteiga já quando ela estiver bem quente. Os ovos, temperados apenas com pimenta moída na altura,  devem ser muito bem batidos, de preferência com a varinha mágica para ficarem leves. Primeiro deitam-se os ovos, que se vão mexendo com uma espátula em lume brando. Quando começarem a ficar prontos deita-se o salmão e os camarões e mexe-se bem, já com o fogão desligado. Mistura-se tudo bem aproveitando ainda o calor da frigideira, divide-se em dois pratos e salpica-se com cebolinho fresco picado. Acompanha com salada e tostas. Bom apetite.


 


DIXIT - “Antes, o artista era alguém que olhava a tela em branco e pensava: “Ah, tantas possibilidades!” Agora é alguém que pensa: “Tela em branco? Em branco? Racismo!”- José Diogo Quintela


 


BACK TO BASICS - “A sobreposição do discurso e da ideologia à produção material artística é o eclipse da obra de arte” - Robert Klein