maio 28, 2013

NO REINO DAS EXPERIÊNCIAS

Quando olho para a actividade do principal partido do Governo e para a do principal partido da oposição tenho a estranha sensação que os respectivos líderes se esqueceram de que o seu trabalho devia ser desenvolver políticas e discutir política. Em vez disso vou assistindo a umas discussões, muitas vezes bizantinas, um a dizer que tem de se fazer, o outro a dizer que não se pode fazer. Estes dois líderes são hábeis na resposta, prolixos na guerrinha de soundbytes, mas muito fraquinhos na construção de políticas – o que, necessariamente passa pela construção de acordos e de pontes. Fico com a sensação que os dois, Passos e Seguro, preferem a intriga palaciana para a manutenção do poder ao exercício de facto da acção política, no sentido da resolução dos problemas e da construção de soluções.


 


É desesperante ver como estes políticos dos dois maiores partidos preferem escudar-se atrás de receitas, do que pensarem um pouco na realidade e construírem propostas objectivas a partir de dados objectivos. O desfasamento que ambos mostram frente à realidade das pessoas e do país é confrangedor – um porque acha que a solução está em evitar a mudança, o outro porque segue instruções para uma mudança tão rápida e tão grande que qualquer dia acaba com as pessoas. A actividade política é suposta evitar situações destas, não é suposta proteger experiências ditadas sabe-se lá de onde. Por estes dias Rui Zink postou no Facebook uma frase que resume na perfeição a situação que vivemos: “Povo, à beira-mar plantado, e bem amestrado, aluga-se para experiências científicas. Sigilo assegurado.”


 


(Publicado no diário Metro de 28 de Maio)

maio 24, 2013

Qual a relação entre 10 milhões de euros, o MUDE e o Pavilhão de Portugal?

MUDE - O Museu do Design e da Moda, MUDE, tem tido uma actividade assinalável, fruto da equipa dirigida por Bárbara Coutinho, que soube bem exponenciar o núcleo inicial da Colecção Capelo, assegurado ainda antes de António Costa ser Presidente da Câmara. A António Costa coube a instalação do MUDE no antigo edifício sede do Banco Nacional Ultramarino, na Rua Augusta - o edifício estava em péssimas condições e foi assumidamente usado “em bruto” pelo MUDE, com intervenções mínimas, fruto de um acordo entre a Câmara e a CGD, que detinha o imóvel. Por estes dias António Costa anunciou ir investir dez milhões de euros na reabilitação do edifício, num projeto que irá ampliar a área do Museu para os oito pisos do edifício, num total de 15 mil metros quadrados. Eu percebo que António Costa queira desenvolver o que começou, em plena baixa da cidade. Mas não deixo de sentir alguma estranheza por não se ter aproveitado esta oportunidade - e este investimento - para resolver a questão do Pavilhão de Portugal - questão que ainda fica mais saliente agora que passam 15 anos sobre a realização da EXPO. Faz pena que o edifício de Siza Vieira, concebido para ser um local de acolhimento de exposições, com características ideais para isso, e com infra estruturas de armazenamento de obras de arte, esteja praticamente abandonado e a degradar-se. A questão que se põe é a de ter abertura de espírito suficiente para equacionar fazer reviver o edifício com uma colecção e actividade como a do MUDE, fomentando as ligações à indústria e à universidade, e enriquecendo o pólo oriental da cidade. Os dez milhões para recuperar o edifício do BNU não poderiam ser melhor utilizados para dar uma utilidade consentânea com o projecto inicial do pavilhão de Portugal? Nunca é tarde para mudar de rumo. Bem sei que o problema central da não utilização do pavilhão de Portugal é saber quem assume o custo do edifício - mas será que um problema de engenharia financeira do Estado vai condenar à degradação e inutilidade aquele espaço?




SEMANADA - O Conselho de Estado, convocado para debater o futuro, esteve sete horas reunido e produziu um comunicado que é uma lista de tarefas para o presente; o pós-troika no pós-Conselho de Estado resume-se a análises sobre timing de remodelação no Governo, saída de Vitor Gaspar para Comissário Europeu e prazo para a ruptura da coligação; o conteúdo da reunião do Conselho de Estado foi tornado público nos jornais no espaço de 24 horas, e contribuíu, muito mais do que o vago comunicado oficial, para se perceber o que foi discutido; o banco central alemão deu orientações sobre o Banco Central Europeu e sobre a política do Governo francês; entre a chegada da troika e a sua partida prevista,  o desemprego deverá ter aumentado 60,9%, o PIB deverá encolher 5,8%, o investimento cairá 28,3% e o consumo privado cairá 6,7% - mas em compensação a dívida pública terá aumentado 24% e os juros da dívida terão um aujmento de 47,7%; Portugal está no top 5 europeu na compra de BMW, Mercedes e Audi; o ministro alemão das Finanças encontrou-se com Vitor Gaspar e teceu-lhe rasgados elogios; o Ministro Miguel Poiares Maduro encomendou um estudo sobre a melhoria das formas de comunicação do Governo e exortou “a comunidade política a contribuir para um discurso público mais construtivo e informado”.




ARCO DA VELHA - O Estoril teve 45 pontos na Liga e gastou três milhões de euros nesta época, enquanto o Sporting ficou atrás, com 42 pontos, e gastou 68 milhões - feitas as contas cada ponto custou ao Estoril 67 mil euros e cada ponto custou ao Sporting 1,6 milhões, o mais elevado custo por ponto de todos os clubes da I Liga.




VER - António Sena da Silva foi um homem visual - o prazer do olhar era o seu modo de vida e isso reflectiu-se, do design à fotografia. No Torreão Nascente da Cordoaria, estão cerca de duas centenas de imagens numa exposição criada por Sérgio Mah, intitulada “Uma Antologia Fotográfica”, que estará patente até 4 de Agosto. Tenho a tentação de dizer que Sena da Silva foi aquilo a que os americanos chamam “street photographer” - até porque, como a exposição mostra, ele dedicou-se a retratar a evolução de Lisboa entre os anos 50 e os anos 70. Aqui está o quotidiano da cidade, das pessoas que a habitam e, quase sempre, do rio que nessa altura era uma presença não vista, nem vivida. A exposição ocupa completamente os dois pisos da Cordoaria e mostra várias fases do trabalho de Sena da Silva - formatos de negativo diferentes, máquinas diversas, um uso impoluto do preto e branco e um uso discreto e contido da côr. O rigor do enquadramento é uma constante, quer fotografe paisagens urbanas, ou o campo, ou máquinas, ou fábricas ou objectos. Esta é uma exposição que nos ajuda a reter a memória do tempo - e o trabalho de Sérgio Mah é um exemplo de respeito pela obra, um exemplo do prazer de dar a descobrir o encanto da imagem fotográfica.




OUVIR- Até aqui “The Heart Of The Matter” era uma novela discreta de Graham Greene, escrita no final da década de 40. Agora é também um disco de Jane Monheit em que a sua versão da fusão de duas canções dos Beatles, “The Long And Winding Road” e “Golden Slumbers”, se torna fatalmente um ponto de atracção. Mas é em “Born To Be Blue” de Mel Tormé ,ou “When She Loved Me” de Randy Newman, que ela verdadeiramente mostra a sua versatilidade e capacidade de interpretação - que se faz ainda notar em dois temas de Ivan Lins, “Depende de Nós” e “A Gente Merece Ser Feliz”. Em “The Two Lonely People”, de Bill Evans, Monheit mostra como não receia mostrar a voz quase sem presença instrumental, uma voz às vezes tímida, outra à beira de um lamento. Os arranjos, no entanto, são parte importante deste álbum, assinados pelo teclista Gil Goldstein, que com o baterista Rick Montalbano e o guitarrista Romero Lubambo, asseguram um suporte musical digno de destaque. (CD Emarcy/Universal).




FOLHEAR - O jornal “Próximo Futuro” é uma das mais interessantes publicações de instituições culturais. É um jornal que a Gulbenkian edita para acompanhar o seu programa “Próximo Futuro”, coordenado por António Pinto Ribeiro. São 40 páginas, distribuídas na Fundação e disponíveis em versão electrónica em www.proximofuturo.gulbenkian.pt . A edição agora em distribuição, a nº 13,  anuncia o novo ciclo de programação de Junho e Julho e tem na capa uma obra impressionante do artista sul-africano Conrad Botes. Lá dentro um belo texto de António Pinto Ribeiro com o provocador título : “Lamento dizer-vos mas somos todos africanos”, citando a frase de abertura da intervenção de Desmond Tutu na Gulbenkian, no ano passado. A nova programação tem em destaque uma festa da Literatura e do Pensamento do Sul da África, a exposição dos Encontros de fotografia de Bamako, um ciclo de cinema com uma dúzia de filmes e bailes na garagem com, por exemplo, o DJ Rui Miguel Abreu. Além disso estão previstos concertos com música da Tanzânia e uma espectáculo de dança baseado na marrabenta, entre muitas outras iniciativas, todas elas bem anunciadas neste jornal que tem um delicio espírito “fanzine” em technicolor.




PROVAR - A ementa de um bom restaurante deve ser uma obra em permanente transformação. No De Castro Elias é isso que acontece e agora há algumas novidades: começo por umas chamuças de massa filo, umas com queijo da beira e mel, outras com alheira e espinafres. Para fazer crescer água na boca há umas tostadas de cavala fumada com legumes salteados e uma açorda de cogumelos e enchidos. Nos pratos mais substanciais sugiro um entrecosto assado com arroz de forno ou uma perna de pato com canela e azeitona. Seguindo a recomendação da casa os petiscos foram acompanhados por um muito honesto vinho  Santos Lima, o “Confidencial” Reserva, a bom preço. E claro que há sempre os clássicos da casa - moelas picantes e feijão manteiga com ameijoas.  O De Castro Elias fica na Elias Garcia 180, e tem o telefone 217 979 214. Vale a pena reservar.




DIXIT - “Perante as sucessivas medidas da troika, que não dão resultado, eu, no mínimo, gritava” - Manuela Ferreira Leite




GOSTO - Do início da edição portuguesa da revista “Granta” - o tema “Eu” foi o escolhido para o primeiro número, que inclui textos de vários autores e um porfolio fotográfico de Daniel Blaufuks. A direcção é de Carlos Vaz Marques.


NÃO GOSTO - De uma  luta anti-austeridade conduzida por quem andou a promover gastos bem acima das possibilidades do país.


BACK TO BASICS - O riso é a mais antiga e mais terrível forma de crítica - Eça de Queiroz.

maio 21, 2013

A JUNTA MÉDICA DE BELÉM

O pós troika inicia-se em Junho do próximo ano, antes da conclusão da atual legislatura. Mas pelos vistos o Conselho de Estado, que vai decorrer poucas horas depois do momento em que escrevo estas linhas, na tarde de segunda-feira 20, debaterá a situação política geral dessa altura futura, em vez da situação do presente. É mais uma originalidade do processo. Há quem diga que a lógica de discutir o futuro tem a ver com a convicção, mais ou menos generalizada, que daqui a um ano, mais coisa menos coisa, já não será Pedro Passos Coelho o Primeiro-Ministro. Nunca fui grande fã de crónicas de mortes políticas anunciadas – que geralmente nunca são certeiras. E parece-me que era bem melhor ter a coragem de olhar para o que se passa. Esta é daquelas situações em que mais vale a pena falar da dor de dentes que temos agora do que da gangrena que, se calhar, pode existir daqui a um ano.


 


O Presidente da República faz malabarismos para, em simultâneo, se ir demarcado das políticas de Gaspar, para se manter sorridente a Paulo Portas, e para continuar a poder cavaquear com Seguro. É um equilíbrio difícil, este de manter pontes entre o presente e o futuro.  Este Conselho de Estado, que para uns vem tarde e que para outras vem com a ordem de trabalhos trocada, é mais um passo no imbróglio existente. A situação política está como a malfadada pneumonia que anda para aí: os remédios corriqueiros não a debelam e é preciso doses maciças de remédios muito fortes para amainar os sintomas. O ponto curioso disto tudo é saber se os doutores que se sentaram em Belém terão conseguido encontrar remédio que cure o paciente ou se optaram apenas por anestésicos e sonoríferos.


 


(publicado no diário Metro de terça  21 de Maio)


 

maio 17, 2013

CONCORRÊNCIA INFORMATIVA

Esta semana fui ver como se comportam os três canais informativos nas várias regiões do país, dentro dos espectadores qie têm televisão por subscrição e que são sensivelmente 2/3 do total. A nível nacional a SIC Notícias lidera estes canais informativos na sexta posição, seguida da TVI 24 na nona posição e da RTP Informação na 12ª. Na zona da Grande Lisboa a coisa é bem diferente – a SIC Notícias está em 5º lugar, a TVI 24 em 10º e a RTP Informação em 14ª. O melhor resultado da SIC Notícias é na zona sul, na quarta posição – a RTP Informação nem aparece nos 15 primeiros nesta região e a TVI 24 está na 8ª posição. A única região em que a TVI 24 consegue bater a SIC Notícias é a zona Centro, onde se coloca na 5ª posição, seguida da SIC Notícias na sexta posição e da RTP Informação na 13ª. Finalmente na zona norte a SIC Notícias aparece em 8º lugar, a TVI 24 em 9º e a RTP Informação em 12º. Na maior parte das regiões as preferências, excluindo os informativos e os generalistas, vão para o Hollywood, o Panda e o Disney Channel.


 


(Publicado dia 17 de Maio na revista Correio da manhã TV)

maio 14, 2013

O PECADO ORIGINAL

Qual a razão da recorrente instabilidade política a que se assiste em Portugal, ao clima, repetido em vários mandatos e com vários protagonistas, de desconfiança entre o Presidente da República e os Governos?  O novo livro de Pedro Santana Lopes chama-se “O Pecado Original” , dedica-se a analisar o choque constitucional entre Belém e São Bento ao longo dos anos e faz uma retrospetiva de como os vários Presidentes da República têm exercido os seus poderes. “O sistema de Governo da Constituição Portuguesa depende do discernimento de um homem só”– diz o autor, sublinhando que o Parlamento e o Governo dependem do Presidente da República e que “a Assembleia da República não dispõe de autoridade política equivalente, apesar de igualmente eleita por sufrágio direto e universal”. O resultado é que o sistema favorece “ um Presidente da República «que tome conta disto» ou «que deite isto abaixo», quando fôr o caso”.


 


Em jeito de conclusão, Santana Lopes escreve: “Importa clarificar o sistema semipresidencial: ou governa o Presidente (como em França), ou governa o Primeiro Ministro. Se é para o presidente governar, deve presidir ao Conselho de Ministros. Se não é, e se é o Governo que governa, a oposição deve estar – no que ao Estado respeita – no Parlamento. Nesse caso o Presidente só deve poder dissolver o Parlamento nas situações expressamente previstas na Constituição, deixando esse poder de ser discricionário”.


 


Isto quer dizer retirar do Presidente a capacidade de ser ele próprio oposição e a possibilidade que tem de demitir o Governo “para assegurar o normal funcionamento das instituições democráticas” – pretexto suficientemente amplo e que tem sido utilizado de forma discricionária. A polémica está lançada. E bem lançada.


 


(Publicado no diário Metro de dia 14 de Maio)

maio 11, 2013

Audiências, músicas, livros, anotações soltas

AUDIÊNCIAS -  Um dia se fará a história deste processo, a história de como se aumentou artificialmente o consumo de televisão, de como se aumentou o número de resultados indefinidos e se criaram distorções no mercado, como se fomentou a ruptura, como se pôs em causa a auto-regulação. Esta semana a RTP e a TVI deixaram a CAEM, a entidade que superintende na medição de audiências. Na origem estão todos os problemas com a audimetria da GFK. Vale a pena não esquecer quem desenhou e impulsionou o actual e polémico modelo, na altura em que o concurso para a nova audimetria foi lançado. Vale a pena não apagar a memória do que foi este processo, do papel desempenhado por cada protagonista, das divisões que provocou, dos erros causados e, eventualmente, dos prejuízos provocados. Teria sido possível encontrar equilíbrios entre a GFK e a Marktest e teria sido possível evitar a saída da RTP e TVI se tivesse havido mais bom senso. Para memória futura vejamos as diferenças verificadas na medição de audiências de televisão no primeiro trimestre deste ano. No painel da CAEM/GFK, a RTP1 obteve 12% de share, a RTP2 teve2,7, a SIC atingiu 23,2 e a TVI 25,7, enquanto o conjunto dos canais de cabo alcançou 24,9% e o conjunto de “outros” não identificados teve 11,5%. Mas no painel da Marktest/Kantar os números são um pouco diferentes: 16,6% para a RTP1, 2,2% para a RTP2, 23% para a SIC e 27,5% para a TVI, enquanto o cabo ficou nos 25% e os “outros” não identificados em apenas 5,8%. Como se vê persistem as diferenças, com sobrevalorização na CAEM/GFK dos não identificados, e diferenças, para menos,  na RTP1 (4,6%) e TVI (2,5%). Esta semana foi eleita nova direcção para a CAEM, espera-se que seja capaz de voltar a colocar o processo nos carris. E que volte a imperar o bom senso e se corrijam as anormalidades técnicas que persistem em existir.




SEMANADA - Passos Coelho anuncia várias novas medidas; Paulo Portas convoca imprensa para comunicação; Passos Coelho diz que Portas participou ativamente na elaboração das medidas; Paulo Portas vem dizer que foi e será sempre contra uma das medidas anunciadas; na sua crónica na SIC Marques Mendes afirmou saber que vai ser convocado a curto prazo o Conselho de Estado; Aguiar Branco, Ministro da Defesa, disse que o Governo está coeso e que o CDS está tranquilo; Fernando Seara disse que Paulo Portas assumiu uma posição muito respeitada em defesa dos pensionistas; o Ministro Poiares Maduro disse, na sua primeira entrevista, não ver na taxa suplementar sobre os pensionistas, divergência entre Passos Coelho e Paulo Portas; Pedro Passos Coelho disse à UGT que afinal não haverá nova taxa sobre os pensionistas; o novo secretário de Estado do Desporto decidiu, dez dias depois de tomar posse, conceder benefícios fiscais a quem der donativos ao clube de que é sócio, o Vitória de Guimarães;




ARCO DA VELHA - Angela Merkel confessou, numa entrevista, que tem “certas capacidades de camelo” que lhe fazem aumentar a resistência, disse-se atraída por homens “de olhos bonitos” e admitiu que um dos seus desejos secretos é cortar lenha.

VER - Muita actividade na Gulbenkian, justifica-se passar lá algum tempo. Para além da exposição documental sobre a vida e a obra da escritora Clarice Lispector, “A Hora da Estrela”, destaque para a mostra de cerca de duas centenas de desenhos que integram “A Obra Perdida de Emmerico Nunes”, um desenhador e ilustrador português que publicou quase toda a sua obra em revistas alemãs, nas décadas de 10 e 20 do século passado - com um traço fino, de humor e de observação. Além disso, o Centro de Arte Moderna apresenta  “Gálapagos”, o resultado de uma residência artística ali realizada, patrocinada pela Fundação em parecria com a Fundação Charles Darwin e o Museu de História Natural de Londres. E finalmente vale a pena ver “360º - Ciência Descoberta”,   uma exposição sobre a ciência ibérica na época dos descobrimentos, que apresenta os desenvolvimentos científicos e técnicos associados às grandes viagens oceânicas de Portugueses e Espanhóis nos séculos XV e XVI, e o impacto que causaram na ciência europeia. Por fim, se quiser petiscar tem ali ao lado a Cafetaria do Centro de Arte Moderna, que está com uma nova dinâmica - que se nota aliás no Facebook.




OUVIR- “O Grande Medo do Pequeno Mundo” é o terceiro álbum de Samuel Úria e começa logo assim: “Duplas Falsas Partidas/São motins contra quem/ Usa pólvora seca/ Para fazer-nos correr”. Úria é dos casos mais interessantes, surgidos nos últimos anos, a escrever canções em português e as suas letras são um exemplo do que a nossa língua permite fazer - falando de temas actuais, de estados de espírito, com ritmo, com sonoridade. Às vezes conta histórias, noutras deixa recados. A sua voz molda-se bem com as palavras e o seu caminho musical vai ficando mais coerente com a forma de cantar as palavras que usa. Confesso que gostava de ouvir outros cantores interpretarem algumas destas canções e também gostava de ouvir Úria, por exemplo, a cantar versões de alguns temas de Sérgio Godinho. Uma coisa é certa: não há, fora do fado,muita gente a percorrer, com esta qualidade e consistência, os caminhos das novas canções cantadas em português. Podia ser melhor, é imperfeito q.b. Mas isso abre a possibilidade de um dia destes conseguir dar o salto. Falta-lhe método e produção - o que, esclareça-se, não deve querer dizer complicação e sim contenção e força.




FOLHEAR - A Madeira foi das primeiras regiões do país onde a fotografia se desenvolveu, praticamente desde a sua descoberta, na primeira metade do século XIX - e isto pela mão fundamentalmente de dois estúdios: Vicentes Photographos e Perestrellos Photographos, a que rapidamente se adicionaram João Francisco Camacho, Augusto Maria Camacho , Augusto César dos Santos e Joaquim Augusto de Sousa. O mais notável é a qualidade do trabalho - estético e técnico - da maioria do trabalho destes fotógrafos madeirenses. Em 1982, nasce “A Photographia- Museu Vicentes”, na casa onde estava instalado o estúdio do mesmo nome. Hoje em dia estão lá depositados e conservados cerca de 800 mil negativos que são um testemunho da vida do arquipélado durante mais de uma centena de anos, desde meados do século XIX. Por iniciativa da delegação regional da Madeira da Ordem dos Economistas foi editado um livro intitulado “As Origens do Turismo Madeirense- Quintas e Hotéis do acervo da Photographia Museu Vicentes”. É um álbum fascinante e ao longo das suas 180 páginas vemos a evolução da ilha, a transformação da sua paisagem, os grandes marcos do tursimo madeirense, desde as quintas de aluguer onde se hospedavam os primeiros visitantes até ao campo de golfe do Santo da Serra e respectiva Casa de Chá, passando, claro pelo histórico Hotel Reid’s e os outros grandes hotéis madeirenses construídos na primeira metade do século XX. A obra, já nas livrarias, mostra imagens registadas entre cerca  1870 e o final dos anos 50 do século passado.




PROVAR - Gosto de bons pequenos almoços, tomados com calma e de preferência em casa. Aos fins de semana permito-me uma pequena indulgência: torradas em bom pão, obviamente com manteiga. O pão alentejano, de Beja, da padaria “Fermentopão”, que se encontra com alguma facilidade nos supermercados lisboetas é a minha primeira escolha. Mas quando não o encontro há uma boa alternativa , da península de Setúbal, perto de Palmela, que é o pão da Lagoinha, e que também se encontra, igualmente fresco, em alguns supermercados. Para a coisa ficar completa prefiro manteiga dos Açores e as minhas duas escolhas vão para a manteiga Nova Açores, que tem boa distribuição em supermercados, e na mais artesanal (e mais aborosa)  Manteiga Uniflores (produzida pelas Cooperativa Ocidental na da Ilha das Flores) e que se pode encontras na Mercearia Criativa, da Avenida Guerra Junqueiro em Lisboa. E assim se começa bem o dia.




DIXIT - Pedro Passos Coelho e Paulo Portas fizeram “dois discursos de Primeiro Ministro sobre a mesma matéria,mas o do líder do CDS é bem melhor” - Marcelo Rebelo de Sousa.




GOSTO - Da análise feita no livro “Pecado Original” em que Santana Lopes aborda o funcionamento da Presidência da República no nossos sistema político.


NÃO GOSTO - Emigração portuguesa para a Alemanha aumentou 43% no último ano.


BACK TO BASICS - A Democracia é aquilo que permite que sejamos governados à medida daquilo que merecemos - George Bernard Shaw

maio 07, 2013

(DES) GOVERNO

Aqui vai um pequeno resumo dos últimos quinze dias: há cerca de semana e meia uma discussão interna no Conselho de Ministros tornou-se pública em 24 horas. Na semana passada o Primeiro Ministro anunciou uma série de medidas na quinta-feira à noite, teoricamente aprovadas em Conselho de Ministros, e o líder do CDS/PP, Paulo Portas, anunciou logo de seguida uma conferência de imprensa, para Domingo, onde se iria pronunciar sobre as referidas medidas.


 


Pouco depois desta informação, Passos Coelho elogiou o seu parceiro de coligação e disse que Paulo Portas tinha participado ativamente na elaboração das medidas anunciadas. No Domingo Paulo Portas declarou ser contra as novas taxas sobre os pensionistas, pondo assim em causa uma das medidas anunciadas por Passos Coelho.


 


Ficou claro que está a decorrer uma partida de xadrez em que cada um dos jogadores faz movimentos cuidadosamente planeados, tentando colocar o outro em xeque. Para complicar o jogo Marques Mendes resolveu iniciar uma simultânea e abriu novo tabuleiro, para anunciar que vai ser convocado um Conselho de Estado.




Como bem escreveu, ontem, Pedro Santos Guerreiro no seu Editorial no “Jornal de Negócios”, o Governo está a ficar ingovernável. Na última semana ficou evidente que Paulo Portas está a acelerar o movimento do seu reposicionamento, colocando o CDS/PP no papel de charneira indispensável para assegurar existência de uma maioria – não se vá dar o caso de haver uma crise e surgirem eleições com uma vitória do PS.




Na realidade, na conjuntura actual, nem PS nem PSD podem governar sozinhos – os dois partidos precisam de Portas e ele sabe disso. Algo me diz que esta vai ser uma longa partida de xadrez e ninguém pode dizer que sabe qual será o seu desfecho.


 




(Publicado na edição de hoje do diário METRO)

maio 03, 2013

O TRABALHO DESAPARECE?

TRABALHO - O nível de desemprego na Europa e na União Europeia é preocupante. Noutras regiões do globo não é especialmente melhor. E a má notícia é que o Mundo se encontra num, ponto de viragem em que a criação de novas indústrias não quer necessariamente dizer a criação de um número significativo de novos postos de trabalho. Nos Estados Unidos e em vários países da Europa estão a regressar indústrias que tinham sido deslocalizadas para outras regiões - e esse regresso ocorre quer por razões de logística, de eficiência ou de qualidade. Mas as novas fábricas têm mais robots e menos pessoas, e o regresso da indústria não quer dizer um retomar do emprego. Ao virar da esquina está a revolução das impressoras 3D, que num futuro não demasiado distante poderão fabricar pequenas peças ou máquinas inteiras praticamente sem intervenção humana. Estamos numa encruzilhada - e saber qual o rumo a seguir para fazer crescer o emprego e dinamizar a economia não vai funcionar com as receitas das últimas décadas. E é sobre isto que temos que pensar e encontrar o nosso caminho, a partir dos nossos recursos e do nosso talento.




SEMANADA - O actual nível de emprego é o mais baixo desde 1997; os países periféricos pesam 44% no total dos desempregados da Europa; na zona Euro há 19 milhões de pessoas sem trabalho; a circulação dos jornais diários generalistas em Portugal caíu 10%; a Comissão Nacional de Proteção de Dados considera que a Autoridade Tributária está a recolher informações que extravasam os dados relevantes para efeitos fiscais; Mário Soares acusou Cavaco de fazer um discurso inconstitucional; Vitor Gaspar apelou ao consenso e criticou a “política de mentira”; a dívida das empresas públicas duplicou entre 2007 e 2012; O Primeiro Ministro anunciou que há grande coesão no Governo; Pedro Passos Coelho afirmou que quase 78% do que o Estado gasta são salários, transferências sociais e juros da dívida pública; Portugal registou em 2010 e 2011 o maior aumento da carga fiscal na União Europeia; o “Correio da Manhã” reportou que Sócrates fez o seu exame final de inglês técnico num restaurante do Bairro Alto, numa conversa ao almoço com o respectivo professor; um ex-deputado do PS processou a Assembleia da República para tentar receber uma subvenção vitalícia; o sistema de vigilância da cadeia de Faro está desligado há quatro anos por falta de manutenção.     




ARCO DA VELHA - Os grandes bancos que venderam “swaps” às empresas públicas são quase todos assessores financeiros do Estado

VER - Esta semana sugiro 3 ideias de fotografia, bem diferentes. Na Fundação EDP, Museu da Electricidade, está a exposição anual do World Press Photo, uma das mostras de fotografia que mais público atrai e que apresenta os melhores trabalhos de fotojornalismo escolhidos por um júri internacional -  teoricamente mostra o melhor da foto reportagem de todo o mundo. Noutro registo sugiro uma ida à recentemente inaugurada “Pequena Galeria“, que fica na Avenida 24 de Julho nº 4C, perto da Praça D. Luis - que apresenta uma exposição designada “O Grupo de Évora” e que agrupa trabalhos de António Carrapato, João Cutileiro, Pedro Lobo e José M. Rodrigues. E, finalmente, para algo completamente diferente, na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens nº 38  ) durante meia dúzia de dias - de 7 a 11 de Maio -  pode ver uma recolha de fotografias de trabalhos de Rui Chafes, o artista convidado este ano para oprojecto dedicado ao Espaço Público e à Arte Pública do Chiado e da Baixa.




OUVIR-  “Mosquito”, o quarto álbum dos norte-americanos Yeah Yeah Yeahs, podia estar nesta coluna na secção “Back To Basics”. O seu álbum de 2009, “It’s Blitz!” acabou por não corresponder às expectativas comerciais que a banda tinha colocado e este “Mosquito” fecha o círculo, regressando ao início da história, há uma década. “Area 52”, um dos melhores temas do disco, é bem exemplo disso e vive de evocações do próprio passado, mas também dos Stooges ou Cramps, por exemplo - e a faixa título, “Mosquito”, evoca a tradição musical de Nova York, a cidade onde a banda agora regressou. Há hinos, como “Sacrilege”, há um piscar de olhos a outras músicas como em “Buried Alive”, que conta com a colaboração do rapper Kool Keith/Dr. Octagon e há um retrato de Nova York em “Subway”. Karen O, Nick Zinner and Brian Chase estão de volta à sua cidade, onde aliás este álbum foi gravado numa cave desocupada - e fizeram um disco que bem pode ser um ajuste de contas com o passado e uma preparação para o pensam fazer no futuro. Eu confesso que gosto disto e tenho ouvido “Mosquito” um bom par de vezes nos últimos dias - é despretencioso, bem produzido e com uma sonoridade desafiante que nos faz pensar que mesmo depois das crises há esperança.




FOLHEAR - Um dos temas recorrentes da revista “Monocle” é o interesse por pequenos projectos de produçāo artesanal, seja de roupa, mobiliário, acessórios ou ... apitos metálicos e óculos de tartaruga. A edição de Maio da revista vem cheia de exemplos destes, feitos em Inglaterra, França, Dinamarca ou Espanha. Alguns destes projectos internacionalizam-se e ganham mercados inesperados - muitos sāo quase "case studies". E tanto podem ser uma produtora de filmes na Dinamarca que trabalha com uma equipa de dez pessoas até à oficina que faz móveis inesperados ou sapatos por medida. Todos têm em comum o facto de fazerem a aliança entre design contemporâneo e métodos de produçāo artesanais, mas sem esquecer as facilidades dadas pela técnica. Em comum têm também a presença humana - na criatividade, na atenção ao pormenor. São pequenas empresas que desenvolvem novos projectos nas mais diversas áreas, das mais tecnológicas às mais simples e tradicionais. Dão emprego, contribuem para a economia, utilizam mão de obra local. Esta edição está cheia de exemplos destes. O tema forte de capa desta “Monocle” de Maio é a guerra de audiências nos programas matinais de rádio e televisão, mostrando a partir da concorrência desenfreada que se passa nos nossos antípodas, na Austrália. Pode parecer um tema esotérico, mas a verdade é que o espaço da manhã, nas estações de televisão e da rádio está a ser no novo prime time, um dos poucos momentos em que as pessoas estão menos ligadas à internet e ao Facebook, esse grande concorrente na partilha dos sofás ao fim do dia. Outros registos dignos de nota dizem respeito ao novo protagonismo de Londres no campo da fotografia - desde uma nova Feira a várias galerias. A revista tem um roteiro da cidade com todos os novos locais a não perder para quem gosta de fotografia.




PROVAR - Olivier Costa, o “chef” que se especializou em criar espaços de entretenimento onde se come bem, abriu agora o “Honra”, integralmente dedicado á tradição culinária portuguesa. Fica no novo Hotel Figueira - numa Praça da Figueira desleixada pela Câmara - esta semana quando lá fui o centro da praça estava um caos de sujidade e desleixo, cercado por grades municipais que envolviam cadeiras plásticas meio tombadas. Não imagino o que ali tenha acontecido, mas não é bonito de ser ver numa praça que quer agora captar turistas. Mas Olivier não tem culpa da preguiça dos vereadores camarários em exercício na área do espaço urbano e merece elogios por mostrar aos muitos estrangeiros que o visitam o que são ovos verdes, peixinhos da horta, lulas recheadas ou um simples bitoque - já para não falar dos travesseiros e pastéis de nata à hora do chá. Como sempre nos restaurantes de Olivier  a cozinha é honesta - se bem que aqui algumas frituras mereçam mais cuidado - nomeadamente a dos pastéis de nata. Mas o bitoque estava em muito boa forma com batatas fritas como deve ser e o polvo panado com arroz de feijão cumpria. Há cocktails de ginjinha e vinhos a copo das melhores precedências e a preço decente.  Praça da Figueira 16, telefone 210 194 154. Reserve, que a casa anda cheia e é bom ir à baixa jantar ou almoçar.




DIXIT - “Já engolimos todos os venenos sem efeito algum” - José Pacheco Pereira, na “Sábado”.




GOSTO- Da iniciativa de aulas interactivas de matemática para crianças, da Khan Academy, lançado pela Fundação PT no seu site, numa versão em português.




NÃO GOSTO -  Os prejuízos com swap são equivalentes a 10% da dívida das empresas públicas.




BACK TO BASICS - Os factos são terríveis; as estatísticas são mais maleáveis - Mark Twain.




(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 3 de Maio)

abril 30, 2013

INCOMPETÊNCIA OU CORRUPÇÃO?

Uma das curiosidades  mais intrigantes dos últimos dias é a forma como as operações de swaps que mais prejuízos causaram em empresas públicas estão  concentradas em número apreciável ligadas ao sector dos transportes.  Podia ter acontecido noutras áreas, mas a verdade é que desde os Metros de Porto e Lisboa até à Carris ou Refer, é grande a concentração  destas operações em empresas públicas tuteladas pelo Ministério dos Transportes, decisões tomadas praticamente em simultâneo, na época do Governo Sócrates.  Por acaso foi também nos Transportes que surgiram as negociatas com as sucatas e as pressões para que fossem tomadas decisões de favor. No caso dos swaps alguns responsáveis financeiros dessas empresas, à época, já estão identificados.




A mim quer parecer-me que falta contar muita coisa: quem apareceu com o negócio? Quem fomentou o negócio? Quem trouxe os bancos e os seus contratos? Foram os directores financeiros ou eles limitaram-se a obedecer a instruções das suas administrações?  A ideia de fazer do dinheiro dos contribuintes material para apostas arriscadas veio dessas administrações ou através da tutela? Quem montou um jogo de apostas ruinoso nas empresas públicas de transportes?




Quando o dinheiro dos contribuintes se envolve em negócios privados, que terminam com um prejuízo colossal para o Estado e um lucro desproporcionado para os privados, a coisa merece atenção. Pode ter sido incompetência; pode ter sido ambição; mas também pode ter sido corrupção. E convinha esclarecer isso – é que no fim do dia quem toma as decisões e gera prejuízos acaba olhando para a paisagem com ar intrigado – mas os contribuintes são sempre quem tem de  pagar a factura dos disparates que outros fizeram em seu nome.




(publicado no diário Metro de  30 de Abril)

abril 26, 2013

O PROBLEMA DE BASEAR A POLÍTICA NUM EQUÍVOCO

 


OS RESTOS - É certo que os enganos fazem parte da vida e que só quem nada faz nunca se engana ou se erra. Mas o caso do estudo de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart, “Growth in a time of debt”, que nos últimos anos moldou o pensamento de instituições internacionais e responsáveis políticos, é um pouco mais que isso. É um estudo que veio a calhar para servir de guarda-chuva à adopção de medidas e que foi adoptado de forma tão cega, como se de um dogma se tratasse, sem pelos vistos ter sido suficientemente escrutinado. Quando um estudante mais atento descobriu os erros de análise e tratamento dos dados em que o estudo se baseia para chegar às suas conclusões abre-se caminho para colocar uma dúvida: as falhas foram acidentais, ou foram deliberadas, para permitir chegar às conclusões que todos conhecemos? Nunca se saberá a resposta a esta questão, mas é perturbante perceber que as políticas de austeridade, nos moldes que conhecemos, aproveitaram bem a circunstância e o erro para conseguirem uma cobertura teórica. Mais perturbante ainda é a forma como pessoas desde António Borges a Durão Barroso começaram a mudar de opinião sobre as políticas de austeridade precisamente na semana em que o erro - ou a fraude - se descobriu. Quando percebemos que o sistema - e a política da União Europeia - se baseia num equívoco, teme-se o pior. Retive o que o economista Felix Ribeiro, uma voz infelizmente pouco ouvida, disse esta semana na TVI: «a união europeia já acabou e agora discute-se apenas quem manda nos restos».




SEMANADA - Continuou a remodelação de secretários de Estado, a quinta deste Governo, também conhecida por remodelação Swap; Durão Barroso diz que a austeridade “atingiu o limite”; Angela Merkel considera que os Estados da Zona Euro têm de estar preparados para ceder mais soberania  às instituições europeias; comparando números de 2011 com 2012, dos países da zona Euro, Portugal diminuíu no PIB e aumentou na dívida pública e no défice; em 2012 houve 17 Estados da União Europeia com défices acima dos 3% e 14 Estados com dívida pública acima dos 60% do PIB - ou seja, em violação das regras do pacto de Estabilidade; mais de 55% dos desempregados não recebem qualquer apoio do Estado; o Governo reviu em baixa a taxa de crescimento da economia portuguesa, que passou para -2,3%, a seguir a uma revisão provocada pelo abrandamento das exportações;  nos primeiros três meses do ano os portugueses compraram 101 milhões de raspadinhas, que deram 8,2 milhões de euros de prémios; até o programa “Governo Sombra”, na TVI 24, derrotou “A Opinião de José Sócrates” na repetição emitida à uma da manhã de Domingo para Segunda.




ARCO DA VELHA - Luis Filipe Menezes considerou Pedro Passos Coelho “o Primeiro Ministro mais sério desde o 25 de Abril”, sem mencionar sequer Sá Carneiro.

VER - Volta e meia há filmes assim, que nos fazem pensar no país que somos, nas pessoas que somos, no estado da nação neste ano da graça de 2013. «É O Amor”, de João Canijo, é um filme assim. Mostra o que frequentemente não queremos ver - sobretudo mostra um Portugal que às vezes as grandes cidades não querem saber que existe. Não é um filme “voyeur” sobre uma outra realidade, é um retrato cúmplice de uma descoberta. A ideia base é seguir o dia a dia de uma comunidade de pescadores, de Caxinas, Vila do Conde, na qual Anabela Moreira (que foi a cabeleireira de “Sangue do Meu Sangue”) surge como uma actriz em conflito interno que vai procurar perceber o que é a vida das mulheres dos pescadores nestes tempos actuais. Vou recorrer às palavras do próprio realizador : «A mulher das Caxinas é um modelo da portuguesa moderna. Esta afirmação contradiz a imagem tradicional de uma peixeira enlutada do Norte de Portugal. Mas foi isso o que descobrimos durante a investigação para este filme. E foi isso que nos encantou. A força romântica e vital daquelas mulheres, capazes de amar e lutar pela vida - delas e dos maridos -, fez com que se lhes dedicasse um filme. » 
«É O Amor» é um manual de como combater ideias feitas e de como saber olhar para a realidade e, com poucos meios, fazer um filme que não é uma excursão veraneante fora das grandes cidades, mas um documento sobre o nosso tempo.




OUVIR- “Overgrown”, o segundo disco de James Blake, agora editado, mostra uma sensível evolução desde o álbum estreia de 2011. Os ingredientes base - uma mistura equilibrada de jazz e soul - mantêm-se aqui, mas mais vigorosos, ou, se quisermos, com uma mais acentuada presença dos rhythm ‘n’blues, logo bem evidenciada no primeiro single deste novo trabalho, “Retrogade”. Mas logo a seguir, “DLM” é um tema marcado por um piano envolvente em diálogo com a voz de Blake. O primeiro tema do disco, “Overgrown”, faz a declaração de intenções: “I don’t want to be a star, or a stone on the shore, or a doorframe in a wall when everything’s overgrown”. Blake, que compôs todos os temas e toca todos os intrumentos no álbum, faz questão em evidenciar com este disco que não vai passar a vida a repetir a fórmula de sucesso que obteve na sua estreia. Muda, evolui, arrisca, às vezes entra em ruptura. O disco é mais directo, as canções são mais variadas entre si e curiosamente aquela cuja sonoridade se aproxima mais do primeiro disco é “Digital Lion”, que foi produzida por Brian Eno. Os sinais mais fortes são dados em “Voyeur”, com o seu ritmo marcado, e no tema “Take A Fall For Me”, o único a incluir um convidado, o rapper RZA dos Wu-Tang, a marcar as palavras por cima de uma escapadela de Blake pelo hip hop. (CD Atlas/Universal)




FOLHEAR - A edição de Maio da “Vanity Fair” tem uma capa lindíssima - Audrey Hepburn, em 1957, fotografada por Bud Fraker para o filme “Funny Face”. Mas o artigo não é sobre este filme, mas sim sobre os tempos em que a actriz viveu em Roma, depois do êxito que “Roman Holiday”, o seu filme de 1953. A “Vanity Fair” recorre a um novo livro do filho da actriz para mostrar imagens e contar episódios dos tempos em que ela viveu La Dolce Vita, em que descobriu a liberdade de Roma. Outro artigo fantástico é a história da ascensão e queda da revista “Holiday”, que nos anos 50 e início dos anos 60 foi o magazine de viagens por excelência e um exemplo de trabalho editorial, nos textos e nas imagens, um daqueles relatos que nos faz ter saudades das revistas a sério. Finalmente há uma bela reportagem sobre o crescimento do Facebook - não no número de utilizadores, mas como um novo media, como um novo suporte de publicidade. Neste artigo a Vanity Fair recorda como os meios são efémeros e, no início, parecem estranhos - a rádio gratuita nos anos 20 não parecia um negócio possível até transmitir o primeiro anúncio em 1923, o tempo que demorou a surgir o primeiro spot publicitário na televisão, em 1941, a maneira como a Nielsen começou a medir audiências nos anos 50, a internet a surgir em 1991 mas a primeira publicidade digital a aparecer em 1994 - e o Google adwords a surgir apenas em 2000. E, agora, o Facebook, algo mais do que aquilo que já se conhecia.




PROVAR - Durante os últimos anos o restaurante do Teatro S.Luiz foi o Spot S. Luiz, uma casa onde nos primeiros anos existiam algumas experiências curiosas, um quase percursor dos hamburgueres gourmet e de refeições leves e bem elaboradas - uma cafetaria como até então não existia naquela zona da cidade. Nos últimos tempos a qualidade foi decaindo, até encerrar. Agora, no mesmo local, surgiu o Café São Luiz, pela mão da equipa que está desde há uns anos no Café no Chiado. A decoração foi mudada, a carta foi completamente refeita e a garrafeira também. Na cozinha estão os “chefs” Nuno Bandeira de Lima e Luís Barros, que trabalharam juntos no Lapa Palace. A inspiração é da culinária portuguesa mas com toques de surpresa - como um risotto de cogumelos porto bello e rabo de boi ou um osso buco com batatinhas na chapa e molho de iogurte. Nas entradas há uma tentadora cavala em escabeche com broa de milho, azeite, hortelã e agrião. Nas sobremesas o destaque vai para o creme brulée de abóbora e requeijão com praliné de amendoa e tomilho. Pronto, a seguir, dieta... Rua António Maria Cardoso, 58, telefone 213 460 898.




DIXIT - “João Capela tem grande futuro” - Pinto da Costa, referindo-se à actuação do árbitro do Benfica-Sporting




GOSTO- Da iniciativa de fazer uma Vila Literária em Óbidos.




NÃO GOSTO - Do abate de árvores, contra as regulamentações camarárias, na Avenida da Ribeira das Naus.




BACK TO BASICS - Não sou um grande humorista nem invento piadas: limito-me a observar o que o Governo faz e a reportar os factos - Will Rogers

abril 23, 2013

Vai uma voltinha, Dr. Costa ?

Hoje vou aqui deixar um convite ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa: venha comigo dar um passeio de moto nas ruas da cidade para ver o estado em que elas estão, para perceber o perigo que os buracos e os pavimentos ondulados representam para os motociclistas. Prometo ir devagar, mas gostava que visse – e sentisse nos solavancos -  o que se passa.


 


O efeito, para os turistas que nos visitam, do desleixo na conservação dos pavimentos da cidade, é péssimo – basta ver o estado calamitoso da Avenida Brasília, junto ao rio, que parece uma pista de todo o terreno. Por todo o lado há exemplos destes – até em pavimentações recentes.


 


Este ano vai haver eleições e qualquer dia começa o regabofe da caça aos votos. Imagino até que inventem umas repavimentações. Mas o importante seria existir um trabalho de manutenção sério, alguém na Câmara que se preocupe em prevenir em vez de ficar imóvel a assistir á degradação da cidade. Já nem falo da sinalização no pavimento, que na maior parte das zonas mal se vê, criando fatores adicionais de perigo.


 


Choca-me  ver que se investe em tanta coisa e na segurança dos cidadãos que circulam em Lisboa se investe tão pouco. Quanto significaria, em melhorias na segurança nas ruas da cidade, o custo das obras sucessivas na rotunda do Marquês de Pombal?


 


Aqueles que por opção preferem andar de motociclo em Lisboa, aliviando o trânsito, a poluição e o estacionamento, são penalizados em comparação com outros lisboetas. São o parente pobre das atenções da autarquia. Há uns 40 anos que circulo em duas rodas na cidade e nunca a vi em tão mau estado como agora. Faz pena.


 


(Publicado no diário metro de  23 de Abril)

abril 19, 2013

UM FILME FALHADO, BES PHOTO, JAZZ E CICLO PETISCO

FANTASIA - Às vezes a política não é uma encenação, mas é raro tal acontecer; às vezes a política consegue ser coerente, mas não é nada frequente; às vezes os políticos são sinceros, mas não é costume. A semana que agora acabou foi pródiga em tudo isto. Por momentos parecia um ensaio de bailado entre Passos Coelho e Seguro - só que ambos escorregavam e caíam, sem conseguirem completar os movimentos. Na época da comunicação digital, o Primeiro Ministro e o líder do maior partido da oposição correspondem-se por carta para criar um ambiente de romance - uma coisa para inglês ver, melhor dizendo para troika observar. Nesta última semana não houve dia em que Passos e Seguro não falassem. Falaram demais - dias de cacofonia, de simulações e de muito poucos actos. Até a cena final - a conferência de imprensa matinal de quinta-feira, depois da dramatização de um Conselho de Ministros ao longo da madrugada, foi um triste espectáculo de vazio, uma ilusão de óptica. No fim da conferência de imprensa fiquei com a certeza que a troika vai saber, antes dos cidadãos, os cortes orçamentais que não foram revelados. Fecho os olhos e imagino tudo isto como se fosse um filme: o Governo retocou-se, escolheu uma nova maquilhagem, até fez um casting interessante para novos personagens. Mas mesmo bons actores podem aparecer em maus filmes, quando o realizador falha o seu serviço e o produtor está apenas interessado em tapar as evidências de que as coisas não vão bem. Olho para o Governo e tenho a sensação de que estou a ver um filme que é uma produção falhada, um filme que ultrapassou o orçamento, falhou a história, um filme onde os actores não se entendem e realizador e produtor não conseguem concretizar o projecto. Vítor Gaspar falhou estrondosamente no orçamento de produçāo, e Passos Coelho é um realizador que deixa a história degradar-se, por causa das dificuldades do produtor, e que nāo consegue dirigir os seus actores. Espero que nunca se candidatem a um subsídio à produção de cinema.




SEMANADA - Pinto da Costa anunciou ir avançar para o 13º mandato no FCP; Paulo Portas ainda não confirmou se vai ser candidato à liderança do CDS-PP;  George Soros defendeu uma zona Euro sem a Alemanha; Miguel Relvas renunciou ao cargo de Deputado na sequência da sua saída do Governo; o Governo foi retocado; António José Seguro foi reeleito líder do PS com 96,53% dos votos expressos; o Secretário Geral do Parlamento demitiu-se ao fim de 10 meses na função por questões relacionadas com o controlo das despesas dos partidos; a Assembleia da República tem pago o funcionamento da Comissão Nacional de Eleições e dos seus funcionários à margem das normas legais; trabalhadores com salários em atraso triplicaram em 2012; Mário Soares, falando sobre a situação presente, avisou Cavaco que, “por menos, houve o regicídio” que matou D. Carlos; no início da sua actuação em Portugal a troika previa uma taxa de desemprego de 13,5%, agora a previsão já vai em 18,5%; a procura por novos automóveis caiu 9,8% no primeiro trimestre em toda a Europa e em Portugal aumentou 2,7%; na Alemanha nasceu um partido político cujo programa defende o fim do Euro; várias empresas públicas perderam mais de três mil milhões de euros com contratações de produtos financeiros de risco - entre elas as dos Metropolitanos de Lisboa e Porto, que, juntas,  perderam dois mil milhões de euros a brincarem à especulação financeira.




ARCO DA VELHA -  A ASAE só detectou 12 infracções de menores a beber em locais públicos em 2012.




VER - No Museu Berardo, no CCB, está patente mais uma edição do  BES Photo: quatro exposições de outros tantos autores, num critério de escolha que continua polémico. Dois dos escolhidos - Pedro Motta e Sofia Borges - são brasileiros e usam apenas a fotografia como vago suporte de manipulações, não se entendendo de todo o sentido da sua presença, ainda por cima com ambos num mesmo registo pós-fotográfico. O português Albano da Silva Pereira, que ganhou reputação a fazer os Encontros de Fotografia de Coimbra, mostra fotografias da sua vida de viajante, intercaladas com recordações, numa montagem que evoca um “cabinet d’artiste” encenado como um caderno de viagem e com um recurso, desnecessário, a um video. Resta o moçambicano Filipe Branquinho, o único a apresentar uma ideia fotográfica, que como ele próprio refere, evoca o trabalho de Ricardo Rangel ou José Cabral, nomes maiores da fotografia do seu país. Tenho desde há muito grande dificuldade em compreender os critérios do BES Photo, que insiste em misturar meios e processos que usam apenas a fixação da imagem fotográfica como uma das etapas do processo, em detrimento do registo da forma de ver. O estreito corredor onde os trabalhos de Filipe Branquinho estão presentes vale uma deslocação ao CCB. E, noutro registo, as memórias de Albano da Silva Pereira introduzem um espírito coleccionista que remete para a descoberta e a memória.




FOLHEAR - Enquanto não chega a nova encomenda, de Primavera, tenho nas mãos a edição de Inverno de 2012 da “Aperture”, uma revista que se edita quatro vezes por ano, destinada a mostrar os caminhos da fotografia, fundada por Minor White e que pertence à Aperture Foundation, de Nova York. A “Aperture” é a minha maneira de me manter ligado ao que se faz, aos melhores trabalhos no campo da fotografia. É, de alguma maneira,  a minha galeria privada de fotografia que, graças à Amazon, recebo em casa. Vive da imagem fotográfica e não liga muito às modas passageiras. Sinto que os curadores que, por cá, vivem dos equívocos de imagens de jogos florais têm pouco interesse nesta publicação, até porque contraria o pensamento dominante por estas bandas. Nesta edição gostei muito dos retratos da holandesa Rineke Dijkstra, do trabalho, algo revivalista, de Alec Soth em busca dos subúrbios num misto de técnica datada e factos contemporâneos, e das paisagens urbanas de Tim Davis. Mas a peça de reflexão é um excelente trabalho sobre cinco livros de fotografia que marcam a história da América, feitos por Walker Evans, Robert Frank, Joel Sternfeld, Jacob Holdt e Doug Rickard. Dei por mim a pensar que, por cá, muito pouco trabalho, como o que está em qualquer destes livros, foi feito e editado.




OUVIR- José James podia ser considerado simplesmente um músico de jazz. Mas vale a pena pensar que a música soul que lhe corre nas veias e impulsiona a voz é de facto o seu toque diferenciador, mesmo quando ronda o hip-hop. Neste seu novo álbum, “No Beginning, No End”, o primeiro para a Blue Note, ele deixa de lado sonoridades mais electrónicas do trabalho anterior, “Blackmagic” e percorre arranjos mais acústicos e, de alguma forma, mais genuínos e o efeito final é mais intimista, mais intenso. Temas como “Trouble”, “Vanguard”, “No Beginning, No End”, “Tomorrow” ou a versão de “Come To My Door” com Emily King, são provas do talento de José James. E razões mais que suficientes para ouvir este disco.




PROVAR - Há uma razão líquida para ir ao Vélocité Café na Duque de Ávila - é a cerveja artesanal “Sovina”, na variedade Bock. Combina muito bem com o hamburguer de bacalhau com, aioli em pão pita, uma das especialidades da casa. Outra é o prego em bolo de caco de alfarroba e uma outra é a tosta de broa de milho com pasta de chouriço. A lista é razoavelmente extensa, enmtre saladas e snacks e alguns pratos do dia, muitas vezes com uma opção vegetariana. Se gosta de cerveja não hesite em provar esta “Sovina”, feita no Porto e ainda uma raridade em Lisboa. Tem um paladar único - e apesar dos seus 7,5 graus de alcool, o que exige prudência, é de uma grande leveza. O estabelecimento onde tudo isto se passa é um misto de restaurante e cafetaria com oficina de bicicletas, loja de acessórios e, claro, também de diversos modelos de bicicletas para várias idades. Boa decoração, boa onda, bom espaço e, ainda por cima uma cozinha simples mas bem cuidada. Para os adeptos do petisco a tábua de queijos com doces da estação é também uma boa experiência e ao fim de semana há brunch. O Vélocité Café fica na  Avenida Duque de Ávila 120, mesmo ao pé da ciclovia, e tem o telefone 213 545 252.




DIXIT - Paulo Portas sabe mais de táctica sózinho que a direcção do PSD por atacado - José Eduardo Martins




GOSTO- Código do processo civil vai dar prazo máximo de 30 dias a juízes para proferirem sentenças




NÂO GOSTO - Três dos quatro bancos que tiveram ajuda do Estado reduziram mais o crédito às empresas do que a média do sector.



BACK TO BASICS -  A invocação da necessidade é o argumento mais utilizado para se justificar a limitação da liberdade -William Pitt




(Publicado dia 19 de Abril no Jornal de Negócios)

abril 16, 2013

O SÓCRATES

Apresentado pela RTP como um trunfo para combater a queda de audiências, verifica-se no entanto que Sócrates está a perder espectadores desde que voltou à televisão. Na entrevista transmitida dia 27 de Março, e que assinalou o seu regresso à RTP, o ex-Primeiro Ministro teve cerca de 1,61 milhões de espectadores. No Domingo 7 de Abril a estreia de “A Opinião de José Sócrates” alcançou 978 mil espectadores mas neste último Domingo, dia 15, a segunda emissão caíu para 757 mil espectadores, uma queda de cerca de 22,5%.


 


À mesma hora, na TVI, Marcelo mantinha-se firme, sem grandes variações, nos seus habituais 1,6 milhões de espectadores. Tudo isto acontece numa semana em que teoricamente podia haver interesse político em ouvir a opinião de Sócrates: o PS tinha feito eleições directas que reconduziram António José Seguro, tinha havido uma mini-remodelação e o CDS/PP lançou uma ponte ao PS a propósito da reforma do Estado. Mas nem nesta conjuntura política José Sócrates conseguiu aumentar a sua plateia.


 


Confesso que ainda não tinha visto o programa que a RTP emite com José Sócrates na noite de Domingo. Ontem espreitei e uma das coisas que me causa alguma perplexidade no programa é o cenário – baseado numa imagem híper-aumentada que reproduz a silhueta da cara de Sócrates, por trás da sua presença ao vivo. Parece-me de mau gosto e um pouco a puxar ao culto de personalidade. A falta de capacidade de fixar audiências tem também a ver com isto – e com um discurso mais revanchista que virado para o futuro. O estilo de propaganda, que Sócrates escolheu, é derrotado pela conversa bem disposta e mais solta de Marcelo Rebelo de Sousa.


 


(publicado no diário Metro de dia 16 de Abril)

abril 12, 2013

Como criar saturação nos públicos?

 


ANÁLISES - No Domingo passado José Sócrates, na RTP1, teve uma audiência média de 978 mil telespectadores, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa, na TVI, alcançou 1,6 milhões. Os números nāo mentem e, nesta semana em particular, evidenciam uma coisa, que voz amiga bem me sublinhou: estamos numa fase em que as pessoas nāo querem ouvir comícios, nem ataques, nem vinganças; querem quem as ajude a pensar e a compreender, querem quem aponte algum optimismo com espírito construtivo. É isto que Marcelo faz, e é o contrário do que Sócrates proporciona. Mesmo o universo anónimo e heterogéneo das audiências televisivas consegue separar o trigo do joio.




POLÍTICA - Chego ao meio da semana um pouco perplexo. Será possível que o Governo verdadeiramente nāo equacionasse um “chumbo” do Tribunal Constitucional? Os juristas que estāo no Governo e nos gabinetes nāo se pronunciaram? Os políticos nāo previram? Os constitucionalistas da área do PSD nāo disseram ao Primeiro-Ministro aquilo que nestes dias mais recentes têm escrito, comentando a situaçāo? Ou pura e simplesmente o Governo nāo quis ouvir? Nāo consigo deixar de pensar que, ou o Governo previu o que ía acontecerr e estudou alternativas,  ou não previu - e aí o caso revela inconsciência. Nem quero pensar que o Governo soubesse, desde o início do processo do Orçamento que isto iria acontecer, e que voluntariamente deixasse a panela ao lume, para,quando fervesse, poder dramatizar a situaçāo. Qanto maior a dramatizaçāo, já se sabe, maiores os argumentos para justificar o que aí vem - os cortes na despesa. Os mesmos cortes que há muito deviam ter sido estudados, preparados e anunciados, para poderem ser implementados de acordo com um plano gradual que tivesse apoio político para além da coligaçāo. Infelizmente o Governo preferiu fechar-se cada vez mais dentro de si próprio, criando divergências nos próprios partidos que o apoiam e menosprezando a necessidade de conseguir alianças. No fundo, o desprezo pela negociaçāo política, que é a única coisa que nos pode salvar.




SEMANADA - Miguel Relvas à quinta, Tribunal Constitucional à sexta, Conselho de Ministros ao sábado, Passos Coelho, José Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa ao Domingo, António José Seguro à segunda; ainda no Domingo o Nobel da Economia Paul Krugman, referindo-se a Portugal e a novas medidas de austerirdade, comentou “Just say Nao”; o Financial Times escreveu em editorial que os sacrifícios dos portugueses serāo em vāo se nāo houver um plano europeu para impulsionar o crescimento; António Lobo Xavier afirmou no início da semana que “este é o momento da remodelação do Governo”; Vitor Bento afirmou que o acordão do Tribunal Constitucional “estreitou o caminho de permanência no euro”; Num artigo de opinião, Ângelo Correia sublinhou: “só se reforma ou refunde um Estado, se se reformar ou refundar os principais atores, ou seja, os partidos”; o economista João Ferreira do Amaral propôs que o melhor para as contas públicas seria diminuir a carga fiscal para que a economia voltasse a crescer; Eduardo Catroga disse que o Governo desperdiçou ano e meio para reduzir a despesa pública; o chumbo do Tribunal Constitucional a quatro artigo do Orçamento de Estado para 2013 não terá efeitos imediatos no 'rating' da dívida soberana de Portugal, considera a agência de 'rating' Standard & Poor's; a troika anunciou que na próxima semana fará uma visita de urgência a Portugal.




ARCO DA VELHA - Título da semana, sobre a saída de Miguel Relvas do Governo: “Passos perde pára-raios”.




VER - Carlos Correia é um dos mais interessantes artistas portugueses contemporâneos e desde há alguns anos tem vindo a mostrar um olhar muito peculiar em relação ao que se passa à sua volta, evocando momentos que misturam a realidade com referências a obras clássicas da pintura (nomeadamente Manet) ou situações de imagem quase noticiosa. Mas em todas elas há um peculiar sentido de observação, um sentido de humor elegante e o estabelecimento de uma cumplicidade entre o artistas e o espectador da sua obra, que se revela aliás no título que retoma para a sua nova exposição - “La Place Du Spectateur II”, e que estará patente desde quinta-feira 18 de Abril na Galeria  Baginsky, em Lisboa, na Rua Capitão Leitão 51 a 53, ao Beato, em Lisboa.




OUVIR- Mesmo num disco com muita produção, como é este, Madeleine  Peyroux consegue transmitir a ideia de que estamos num clube de jazz a falar com amigos e a beber um copo quando surge uma cantora que nos começa a seduzir. Essa faceta, digamos, de cabaret, sempre me atraíu em Peyroux. Quando começou a trabalhar em “The Blue Room”, o novo álbum, a ideia seria fazer um disco de homenagem a Ray Charles, baseado no repertório de “Modern Songs”, dois álbuns que se tornaram referência na obra do cantor. Mas a meio do percurso a coisa evoluíu para incluir outras canções modernas, como “Bird On The Wire” de Leonard Cohen, “Desperadoes Under The Eaves” de Warren Zevon, ou “Guilty” de Randy Newman. As interpretações de Peyroux de temas cantados por Ray Charles, como “Take These Chains”, “I Can’t Stop Loving You”, “Bye Bye Love” ou “Born To Lose” são exemplos de contenção e criatividade, ajudados pelos arranjos de Larry Klein. O disco inclui ainda um DVD com uma versão acústica, ao vivo, de “I Can’t Stop Loving You”, um documentário sobre o processo de produção do trabalho, e o teledico de “Changing All Those Changes”, uma das interpretaçōes clássicas de Ray Charles, uma canção de Buddy Holly, que Madeleine Peyroux resgatou para este “The Blue Room”.




FOLHEAR - A revista “Photography” (melhor dizendo, British Journal of Photography) é uma das melhores publicações que podemos encontrar sobre os caminhos percorridos pela imagem fotográfica, novidades técnicas e exemplos do trabalho de fotógrafos de diversas sensibilidades. Não mostra apenas fine art, nem apenas foto-jornalismo. Abre as páginas a ensaios e a novos criadores, e assim torna-se uma das poucas publicações do género a dar uma imagem ampla do que se faz pelo mundo - como prova o artigo sobre novos fotógrafos orientais. Além disso reporta iniciativas como o “The Commons”, resultado de um acordo entre a Library of Congress dos Estados Unidos e o Flickr, destinado a recuperar e a trabalhar arquivos antigos e geralmente esquecidos. Mas o prato forte desta edição é o especial de 16 páginas sobre “Genesis”, o novo trabalho de Sebastião Salgado que ele desenvolveu ao longo dos últimos oito anos. Além de várias imagens da série (que vai dar um livro e uma exposição), o artigo mostra o processo de trabalho de Salgado, da preparação à impressão das imagens, fala do material que usa desde 2008 (Canon 1Ds Mk III, digital) e revela que no final as fotografias são processadas através de um programa de software, DxO que, a partir de imagens digitais, consegue reproduzir o aspecto característico do filme a preto e branco Kodak Tri-X de 35 mm. O artigo é fascinante e só por si vale os 12 euros que a revista custa em Portugal. Podem ter uma ideia da coisa em www.bjp-online.com ou na aplicação para iPad.




PROVAR - Nos últimos tempos começa a surgir uma nova geração de restaurantes que apostam na comida portuguesa de qualidade, ementa diária limitada mas variada e serviço atencioso. O S- Restaurante & Petiscos, está neste campo. Abre de segunda a sexta ao almoço e à sexta, à noite, serve petiscos. Fica nas antigas instalações da “Bruschetta”, ao Rato, uma bela sala de arcos de pedra, agora dividida em duas áreas, uma delas, ao fundo, para fumadores. A ementa diária tem quatro pratos cozinhados e alguns grelhados, o vinho da casa, branco e tinto, é servido em jarros e vem da Casa Ermelinda Freitas; o couvert inclui um honesto paio fatiado e um queijo simpático. Panadinhos de frango com arroz de coentros, bola de cozido, polvo com batata doce, galo de cabidela ou arroz de pato são alguns dos pratos que fazem a marca da casa. Pode ser reservada para graupos ao jantar. S - Rua de S. Filipe Nery 14, telefone 213 866 372. Chegue cedo, que a casa enche depressa com uma clientela fiel.




GOSTO - Da aplicação “wunderlist” , para me ajudar a organizar os dias.




NĀO GOSTO - Da absurda situação de confusão a que o silêncio do parlamento remeteu as candidaturas autárquicas.



BACK TO BASICS - “Aquilo que é ilegal pode fazer-se imediatamente. O que é inconstitucional demora um pouco mais de tempo” - Henry Kissinger em, 1973, ao New York Times.




(Publicado no Jornal de Negócios de dia 12 de Abril)

abril 09, 2013

À ESPERA...

Temos todos passado estes dias à espera. Na sexta-feira, depois de esperarmos meses, o Tribunal Constitucional ainda nos fez esperar um bom bocado para além da hora anunciada. A partir daí passámos a esperar pelo Conselho de Ministros extraordinário de sábado; depois esperámos pelo comunicado do Presidente da República; a seguir passámos a esperar pela comunicação oficial do Primeiro Ministro, no Domingo, que por sua vez criou expectativa por aquilo que Sócrates e Marcelo Rebelo de Sousa iriam dizer à noite. À hora a que escrevo aguarda-se que Seguro fale, à mesma hora que Passos falou na véspera, e que seja anunciado um novo Conselho de Ministros extraordinário para terça-feira.


 


No entretanto, olhando para as audiências de televisão da semana passada, constata-se que  o futebol derrotou completamente a política. Os dois programas de televisão mais vistos na semana passada foram as transmissões dos jogos Benfica-Newcastle e do Real Madrid-Galatasaray. O terceiro lugar coube à novela "Dancin'Days" e em quarto lugar ficou o "Jornal das 8" de Domingo da TVI, que inclui o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa - que teve 34,1% de share. "A Opinião de José Sócrates" limitou-se ao 14º lugar de audiências com 19,5% de share - enfim , coisa pouca para quem esperava que isto voltasse a colocar a RTP no pódio.




Parece que agora, finalmente, se vai olhar para a despesa. Só por causa das coisas recordo as palavras de Eduardo Catroga, num artigo de opinião: “O Governo desperdiçou ano e meio para reduzir a despesa pública (...) O Governo devia, na segunda metade de 2011, ter confrontado a troika (...) ter criado capital de queixa para utilizar no momento oportuno.” Pelos vistos o Governo ficou à espera - infelizmente andamos sempre demasiado tempo à espera.




(publicado no diário METRO de 9 de Abril)

abril 05, 2013

DIAS DE PESADELO, SÍTIOS DE FOTOGRAFIA E O FADO...

PESADELO - Na mesma semana em que o PS apresentou, como puro gesto de retórica, uma moção de censura ao Governo, sem conseguir detalhar uma única medida alternativa plausível para conseguirmos sair da crise, soube-se que aumenta o número de Ministros que desejam sair do executivo e o número daqueles que não se sabe bem o que lá andam a fazer. Miguel Relvas já saíu pelo seu pé mas Vitor Gaspar continua ao leme, autêntico Primeiro Ministro sombra, alimentando-se de previsões falhadas, entre ministros até aqui imobilizados como Nuno Crato, ou um Santos Pereira que não consegue encontrar espaço para fazer o que quer que seja. O comportamento de uma parte cada vez maior do Governo e de uma parte cada vez maior dos partidos que o integram é um sinal de perigo mais evidente que a moção de Seguro. No meio disto continua a obsessão por mudar o nome às coisas sem cuidar da substância - é assim que depois de se terem enterrado as Novas Oportunidades se dá uma dose de vitaminas a um Impulso Jovem que se arrisca a ser o maior exemplo de política espectáculo dos últimos anos. Não estou certo que mais política espectáculo seja aquilo que nos faz falta, e inclino-me para pensar que o Governo e o Presidente da República fariam bem melhor em estudar como se pode mudar de politicas e como é absolutamente necessário alterar a forma de fazer política. E, no entretanto, estamos todos à espera de um Tribunal Constitucional que desenha a sua própria táctica politiqueira. Isto tem todos os ingredientes para acabar mal.




SEMANADA - Entre 2010 e 2012 as dívidas das famílias e das empresas tiveram uma pequena diminuição, mas a do Estado teve um aumento de 25%; os impostos indirectos caíram 6,4% em Fevereiro, mas a previsão do Governo era um aumento de 0,2%; as contribuições para a segurança social subiram 1,8% mas as previsões do Governo eram de uma subida de 8,1%; os gastos com o subsídio de desemprego aumentaram 21,1% em Fevereiro face ao período homólogo de 2012, mas o Governo só previa um aumento de 3,8%; prevê-se agora uma redução do PIB nominal  de 1,1 mil milhões de euros face a 2012, quando no Orçamento de Estado estava previsto um aumento de 0,4 mil milhões de euros; um estudo da Goldman-Sachs sobre o acesso das empresas ao crédito em diversos países europeus, mostra que em Portugal o custo dos financiamentos bancários é de 6,68% e na Alemanha é de menos de 3%; as queixas sobre a conta da electricidade duplicaram este ano em relação a igual período do ano passado; no hospital de West Suffolk, em Inglaterra, 40 dos 55 enfermeiros são portugueses; a série norte-americana “A Bíblia”, exibida pela SIC na Páscoa, e que tinha como protagonista o actor português Diogo Morgado no papel de Jesus Cristo, foi vista no total por 2,5 milhões de espectadores, batendo largamente o reality-show do serviço público de televisão protagonizado por José Sócrates.




ARCO DA VELHA - O piso do novo passeio da Ribeira das Naus teve que ser reparado três dias depois da inauguração oficial.



VER - O início de actividade de A Pequena Galeria (Av 24 de Julho 4c, à Praça D. Luis) é o pretexto para hoje sugerirmos uma incursão pela fotografia. Obra de sete sócios, A Pequena Galeria foi buscar o seu nome a The Little Galleries of the Photo Secession, de Alfred Stieglitz, fundada em 1905 na Quinta Avenida, em Nova Iorque. A Pequena Galeria é uma bela ideia, que promete actividade e variedade - abriu a 21 de Março com a colectiva #Salão1 e quinta-feira 4 de Abril inaugurou a sua segunda exposição, Flâneur Noir,  de um dos sócios, Guilherme Godinho, que tem a particularidade de fotografar a preto e branco com um Blackberry 9700 Bold, o que, em tempos de Instagram e iPhone não deixa de ter a sua graça. Na K Galeria (Rua das Vinhas 43A, ao Bairro Alto), Pedro Letria comissariou a primeira mostra de imagens do colectivo Kameraphoto tiradas em 2012 no âmbito do projecto DR - Um Diário da República. A exposição tem edição em livro, sob o título Please Hold e, ao mesmo tempo, inaugurou também, no mesmo local, Volto Já, de Augusto Brázio. A Galeria Quadrado Azul mudou-se do Largo Stephens, ao Cais do Sodré, para Alvalade, na Rua Reinaldo Ferreira 20-A (perto da Padre António Vieira). "Gloom", uma exposição individual de Paulo Nozolino, formada por um conjunto de 10 imagens verticais, a preto e branco, todas da Bretanha. E, finalmente, Rita Barros mostra na Loja da Atalaia (ao lado do restaurante Bica do Sapato), a  série, Displacement 2, que foi iniciada no final do verão de 2012 e que mostra o processo de desconstrução do Chelsea Hotel, em Nova Iorque, onde ela viveu durante vários anos e que tem sido uma inspiração recorrente na sua obra.




OUVIR- O fado, por estes dias, desenvolve-se entre a moda e a poluição, que na música andam de mãos dadas. Hélder Moutinho não é moda porque não tem época nem tempo. É diferente dos imitadores e das poluições porque a voz anda a par com o sentir - o sentir do peso das palavras e o sentir das músicas. Esta combinação não é frequente, é rara. Quando acontece, devemos ouvir. Quem canta assim, quem conjuga a voz com as guitarras e as violas, quem diz o que sente e pronuncia as palavras a fazerem poema, merece ser ouvido - embora, no meio das modas e poluições, não seja fácil conseguir voltar a ouvir. Mas, mal começa a tocar este “1987”, percebe-se que Hélder Moutinho é diferente. Precisa mesmo de ser ouvido. Bem ouvido. Sente-se como ele e Frederico Pereira, que assegurou a direcção musical e a produção, fizeram equipa. Dá gozo ouvir este disco, sentir o trabalho, a dedicação, o conceito, a imaginação. De certa forma este álbum é conceptual - desenvolve-se em cinco momentos - cada um deles escrito de forma diferente - por Hélder Moutinho ele próprio, José Fialho Gouveia, João Monge, Pedro Campos e Fernando Tordo, que fez um fado absolutamente surpreendente, de homenagem a Beatriz da Conceição, o culminar perfeito de um disco que é uma história de Amor e de Lisboa. Não por acaso o primeiro fado do disco explica tudo: “Venho De Um Tempo”. Daqui a um mês, dia 3 de Maio, Hélder Coutinho apresenta estes fados, ao vivo, no Teatro de S. Luiz. (CD “1987”, de Hélder Moutinho,  HM Música/ Valentim de Carvalho).




FOLHEAR - Foi preciso folhear com atenção a Monocle de Abril para descobrir uma marca de armações de óculos portuguesa exemplarmente desenhada - Paulino Spectacles, criada por Ramiro Pereira, e fabricada à mão em Portugal. Outra referência lusitana na mesma edição vai para o restaurante Can The Can, no Terreiro do Paço, onde se criam delícias a partir de conservas portuguesas, um projecto de Rui Pragal da Cunha que foi buscar o nome de uma canção de Suzi Quatro, a rainha do Glam Rock, para designar a casa. Logo por acaso o Can the Can está na mesma edição em que a Monocle fala do St John em Londres, do Vivant Table em Paris ou do célebre Noma em Copenhaga - isto além de um completo guia de viagem a Tanger. Mas a história mais deliciosa desta edição da Monocle é sobre o grande negócio que representa para os museus a venda de postais com reproduções de obras das suas exposições.O Nezu, um dos mais célebres museus japoneses, em Tóquio, recebe 180 000 visitantes por ano e vende cerca de um milhão de postais e o departamento de postais da Tate Modern, de Londres, vende 750.000 libras de postais por ano a 65 pence cada um, todos cuidadosamente impressos em  papel de 330 gramas. O mais vendido é o que reproduz uma obra de Salvador Dali e outro, de Roy Lichtenstein, segue a curta distância.




PROVAR - Mercearia do Peixe é um nome invulgar para um restaurante, mas ele funciona bem - e se o peixe é fresco e bem grelhado a carne não lhe fica atrás. Aqui exercem com perfeição o exercício dos bons grelhados, feitos a partir de boa matéria prima, seja tirada do mar, seja crescida em terra como um belo naco de boa carne. O serviço é simpático e eficiente, a sala é ampla com uma boa esplanada (agora coberta) que quando chegar finalmente o bom tempo deve ser bem agradável. Este é um daqueles restaurantes onde os preços são comedidos sem que isso signifique sacrifício na qualidade. Fica em Caxias, por trás do Jardim da Cascata Real, na Avenida António Florêncio dos Santos 7, telefone 214 420 678.




GOSTO- A editora portuguesa Planeta Tangerina foi considerada a melhor da Europa em livros para a infância


NÂO GOSTO - As fraudes em reformas e em subsídios da segurança social atingem cerca de cinco mil milhões de euros


BACK TO BASICS - Governo e sorte são necessários à vida, mas apenas um louco confia plenamente no Governo e na sorte - P.J. O’ Rourke



(Publicado no Jornal de Negócios de 5 de Abril)



abril 02, 2013

O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DO IVA

Parece que os rapazes da troika andam muito surpreendidos com o facto de a electricidade estar cara e não ter tido grandes reduções de preço. Por mim falo, mas na realidade eu pago bem mais electricidade desde que se lembraram de aplicar o IVA a 23% a este consumo. Mas o IVA não se aplica apenas à energia que eu efectivamente consumo.


 


A EDP fez o favor de este mês incluir nas facturas um esclarecimento aos consumidores sobre a composição do preço. Fiquei a saber que cerca de 30% do total do valor que a EDP me factura, antes de IVA, vem das rendas pagas a municípios pela passagem da rede de abastecimento e dos subsídios à produção dos vários tipos de energia - atenção: dos subsídios e não dos custos de produção e comercialização que são outra coisa e estão indicados à parte.


 


Este apoio obrigatório que os consumidores têm que dar a mais de 30% do que lhes é cobrado, está também sujeito a IVA – apesar de, para todos os efeitos, ser uma espécie de taxa. Mas além de pagarmos IVA sobre estes subsídios, também pagamos IVA sobre a contribuição audiovisual obrigatória (que é o que alimenta a RTP para supostamente ela prestar serviço público), também pagamos IVA sobre o Imposto Especial de Consumo de Electricidade e também pagamos IVA sobre a Taxa de Exploração que se destina a pagar a existência da Direcção Geral de Energia.


 


Praticamente um terço do valor da factura de electricidade reflecte taxas e subsídios, também sujeitos a IVA – uma espécie de dupla tributação. Isto é um bocadinho de roubalheira, ou é impressão minha? Se o IVA, mesmo continuando a 23%, só fosse aplicado à parte correspondente à energia e à distribuição, aquilo que cada um de nós paga desceria quase sete por cento.


 


(Publicado no diário METRO de dia 2 de Abril)

março 28, 2013

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO + SUGESTÕES AVULSAS

CULTURA & SERVIÇO PÚBLICO - Num país com a dimensāo de Portugal, qual o sentido de existir um serviço público de televisāo, suportado pelos cidadāos, neste caso por uma taxa obrigatoriamente paga por todos os consumidores de electricidade? Numa sociedade onde felizmente existem vários operadores privados de televisāo e de rádio, e numa época em que o digital veio proporcionar novas formas de emissāo, difusāo e recepçāo - para nāo falar já profunda alteraçāo dos hábitos e formas de  consumo de televisāo, sobretudo entre os mais novos - para que serve um serviço público?


Nesta conjuntura, porque deve existir um serviço público financiado pelos cidadāos, quando três quartos das casas têm cabo e acesso a mais de 50 canais de todo o mundo? O serviço público deve fazer concorrência aos privados, disputando com eles audiências e publicidade? Ou deve proporcionar programaçāo alternativa e formativa? O serviço público deve ser comprador concorrencial de direitos de exibiçâo de futebol, um conteúdo comercial especialmente apetecível, contribuindo para inflacionar o seu preço? Ou deve privilegiar o fomento da produçāo de ficção e dos documentários sobre a realidade portuguesa? Deve fomentar a criatividade ou a boçalidade? Deve fazer programaçāo infantil em português, que possa ser difundida noutros países lusófonos, ou deve gastar recursos a fazer formatos internacionais de concursos e de entertenimento? Deve privilegiar a co-produção com outros países do universo cultural lusófono, ou adquirir séries que passam nos canais de cabo emitidos em Portugal? As perguntas são numerosas, mas no fim resumem-se a isto: o serviço público deve investir em produção de stock, que possa ser reutilizada, emitida diversas vezes, ou, como tem predominantemente feito, investir em produção de fluxo que se esgota na primeira emissão? Bem sei que um canal que se focasse na nossa cultura e na nossa história, que fizesse uma informação de referência, abdicando da espectacularidade do sensacionalismo e da chicana política, teria menos audiência e menor influência na luta partidária. Mas, ao nível a que já caíram as audiências da RTP, a diferença não seria grande e até poderiam surgir surpresas. Mais vale um serviço público sério, rigoroso e dinamizador do tecido industrial audiovisual que um serviço incaracterístico, concorrencial com os privados e que tenha por missão disputar audiências. Um serviço público pensado sobre uma matriz cultural nma acepção mais ampla da palavra, seria uma alternativa verdadeira, teria um carácter complementar, e um papel maior e mais importante a longo prazo na defesa da presença da nossa língua no mundo. Um serviço público assim, que dinamizasse a indústria audiovisual, que apostasse na produção externa, seria um investimento com retorno em vez de um problema a fundo perdido - como a RTP tem maioritariamente sido nos últimos 20 anos. Um país que não tiver produção audiovisual de referência, que não apostar em conteúdos duradouros, não terá existência futura no mundo digital, o seu idioma não existirá para geração futuras, não terá presença nem influência internacional. Infelizmente a estratégia é esta, a da dissolução da nossa presença no mundo contemporâneo - bem diferente de outros países com idiomas menos falados, como a Noruega, a Finlândia ou a Islândia, onde no entanto se pensa numa estratégia nacional de conteúdos - que tem sabido cativar audiências onde menos se espera.




SEMANADA - A Biblioteca Nacional contava em 2010 com 46.502 leitores presenciais, uma redução em relação aos 69.341 de 2000; Em 1997 existiam 164 bibliotecas escolares, em 2011 o total era de 2490, das quais 2069 no ensino básico público e 36 no ensino privado; em 2007 foram registados 17.097 novos títulos de livros, em 2011 o número desceu para 16.839, o valor mais baixo dos últimos anos; em 1960 existiam 437 recintos de espectáculos, em 2011 o número era de 165; em 1960 a percentagem de espectadores de cinema era de 2,9% por mil habitantes e em 2011 era de 1,5%; 2011 foi o ano com menor número de filmes portugueses exibidos desde 2000; o número de exibições de filmes de origem norte americana quadriplicou entre 1980 e 2011; o número médio de espectadores de cinema por sessão era de 334 em 1960, passou para 179 em 1980, reduziu para 56 em 1990 e caíu para 23 em 2011; em 2009 o Teatro Nacional de S. Carlos registou 46.272 espectadores de ópera e em 2011 desceu para 23.838, um numero ainda menor que os 27.675 de 1986; os gastos familiares com cultura e lazer desceram 9,5% no último ano.




ARCO DA VELHA - O número de exemplares vendidos de publicações de imprensa periódica em 2011 foi o mais baixo desde o início do milénio

VER - Na galeria Ratton (Rua da Academia das Ciências 2C, 2ª a 6ª, das 15 às 19h30), está uma mostra do trabalho realizado nos últimos 25 anos por Júlio Pomar sobre o suporte azulejo - como as figuras de convite, evocação dos painéis que eram colocados na entrada de edifícios numa atitude de cortesia. Na exposição, “Que Procura Vmê” estão também cerâmicas -  por exemplo  cinco peças  feitas a partir dos moldes de Bordallo Pinheriro, que resultaram de um desafio feito pela galerista, Ana Viegas, a Júlio Pomar, a propósito da comemoração do centenário da morte de Bordallo Pinheiro, em 2005.




OUVIR- O jazz é um território de cruzamentos, de fusões, de encontros inesperados, de desafios. Jason Moran, 38 anos, é um dos mais interessantes pianistas da nova geração do jazz americano, um contraste com o saxofonista Charles Lloyd, de 75 anos. São duas gerações de músicos, com influências diferentes. Moran integra a formação regular de Lloyd, mas em “Hagar’s Song” decidiram juntar-se apenas os dois. Charles Lloyd assegura o sax alto e tenor e flautas e Jason Moran o piano e tamborim. O título do álbum, e um dos seus temas, “Hagar Suite”, representam uma homenagem à avó de Lloyd, que foi uma escrava negra. Para além dos temas originais, intensos, aqui estão versões inesperadas e cativantes de Mood Indigo, de Duke Ellington, de “Bess You Are My Woman Now” de Gershwin, de “I Shall Be Released” de Bob Dylan e de “God Only Knows”, dos Beach Boyes, com quem aliás Lloyd tocou na California nos anos 70. CD ECM, na Amazon..




FOLHEAR - Como era o mundo do jazz na Lisboa entre os anos 20 e 50 do século passado? João Moreira dos Santos, um dos homens que mais se tem dedicado á investigação da história do jazz em Portugal, fez um curioso roteiro do que foi o despontar do jazz em Lisboa, desde clubes como o Bristol, a cabarets como o Maxim (que era no Palácio Foz), clubes como o Magestic ou o Nina (onde tocou Louis Armstrong), passando por cafés como o Negresco, o Hot Clube, ou salas como o Teatro Apolo, o Condes ou o Coliseu dos Recreios, não esquecendo o São Carlos onde já em 1925 se tocava jazz. Ao longo de uma centena de páginas compilam-se informações, pequenas histórias e curiosidades que ajudam a fazer o retrato de uma Lisboa cosmopolita - como se diz na capa, este é um “guia ilustrado de 40 espaços históricos dos primórdios do jazz em Portugal”. Edição Casa Sassetti.


 


PROVAR - O pastel de Chaves é uma especialidade tradicional constituída por uma espécie de folhado finíssimo de carne picada no interior, com tempero transmontano. A receita original foi inventada há 150 anos e em 2012 passou a ser um produto de indicação geográfica protegida. Desde há algum tempo passou a ser possível prová-los em Lisboa, na loja Prazeres da Terra, que fica no nº6 do Largo Dona Estefãnia. Lá estão eles fresquinhos todos os dias, prontos a comer ou a levar, ou ainda congelados para fazer em casa á medida das necessidades - e na versão congelados há também um belo formato mini.A casa tem muitos e bons produtos transmontanos, de enchidos a azeite, passando por vinhos, queijos, compotas e o célebre pão de Gimonde, pitos de Santa Luzia, corvilhetes (umas empadas...) de Vila Real, ou o folar de Chaves. Um mundo de bons petiscos.




GOSTO- Na Islândia o sector das indústrias criativas tem uma receita que é o dobro da riqueza produzida pela agricultura e quase igual à receita das pescas.




NÂO GOSTO -  A receita produzida pelas  industrias criativas na economia, em Portugal, tem vindo a diminuir nos últimos cinco anos.




BACK TO BASICS - "Se tiveres a impressão de que és pequeno demais para poder mudar alguma coisa neste mundo, tenta dormir com um mosquito e verás qual dos dois impede o outro de dormir” - Dalai Lama




(Publicado no Jornal de Negócios de 28 de Abril)

março 26, 2013

Ò TEMPO VOLTA PARA TRÁS?

A notícia do regresso de José Sócrates à actividade política tem sido um dos motivos de grande animação nos últimos dias – a evocação do passado é sempre uma tentação.  Ninguém em seu perfeito juízo acredita que a intenção de Sócrates seja apenas observar e reflectir sobre o que se passa em Portugal e  na Europa, para mostrar o que aprendeu nestes quase dois anos de estudo de Ciência Política, em Paris. Obviamente ele quer ter espaço para se promover e o convite caíu-lhe no regaço em boa altura, ajudando-o na construção do puzzle que é o seu regresso à política. Marques Mendes  visou alto quando apontou que o objectivo de Sócrates seria preparar uma candidatura presidencial.  


 


A mim não me interessa particularmente se Sócrates já se decidiu a querer ser Presidente da República ou se está apenas a fazer tiro ao alvo a António José Seguro. Interessa-me mais saber porque é que um canal de serviço público considera importante e relevante usar a chicana política na luta de audiências com canais privados em torno do comentário político.


 


O meu ponto é sobretudo este: qual o sentido de todos andarmos a pagar um serviço público de televisão, que mensalmente nos é debitado na factura da electricidade, se o objectivo desse canal é fazer guerra de audiências? Isto faz algum sentido para o desenvolvimento do serviço público? Produz conteúdos relevantes no futuro? Ajuda a desenvolver a indústria do audiovisual? Claro que Sócrates tem todo o direito de escrever, falar, comentar. Escusa é de ser convidado para o fazer, como foi dito,  apenas porque ajuda a uma guerra de audiências da RTP com a SIC e a TVI.


 


(Publicado no diário METRO de 26 de Março)