O pós troika inicia-se em Junho do próximo ano, antes da conclusão da atual legislatura. Mas pelos vistos o Conselho de Estado, que vai decorrer poucas horas depois do momento em que escrevo estas linhas, na tarde de segunda-feira 20, debaterá a situação política geral dessa altura futura, em vez da situação do presente. É mais uma originalidade do processo. Há quem diga que a lógica de discutir o futuro tem a ver com a convicção, mais ou menos generalizada, que daqui a um ano, mais coisa menos coisa, já não será Pedro Passos Coelho o Primeiro-Ministro. Nunca fui grande fã de crónicas de mortes políticas anunciadas – que geralmente nunca são certeiras. E parece-me que era bem melhor ter a coragem de olhar para o que se passa. Esta é daquelas situações em que mais vale a pena falar da dor de dentes que temos agora do que da gangrena que, se calhar, pode existir daqui a um ano.
O Presidente da República faz malabarismos para, em simultâneo, se ir demarcado das políticas de Gaspar, para se manter sorridente a Paulo Portas, e para continuar a poder cavaquear com Seguro. É um equilíbrio difícil, este de manter pontes entre o presente e o futuro. Este Conselho de Estado, que para uns vem tarde e que para outras vem com a ordem de trabalhos trocada, é mais um passo no imbróglio existente. A situação política está como a malfadada pneumonia que anda para aí: os remédios corriqueiros não a debelam e é preciso doses maciças de remédios muito fortes para amainar os sintomas. O ponto curioso disto tudo é saber se os doutores que se sentaram em Belém terão conseguido encontrar remédio que cure o paciente ou se optaram apenas por anestésicos e sonoríferos.
(publicado no diário Metro de terça 21 de Maio)