A notícia do regresso de José Sócrates à actividade política tem sido um dos motivos de grande animação nos últimos dias – a evocação do passado é sempre uma tentação. Ninguém em seu perfeito juízo acredita que a intenção de Sócrates seja apenas observar e reflectir sobre o que se passa em Portugal e na Europa, para mostrar o que aprendeu nestes quase dois anos de estudo de Ciência Política, em Paris. Obviamente ele quer ter espaço para se promover e o convite caíu-lhe no regaço em boa altura, ajudando-o na construção do puzzle que é o seu regresso à política. Marques Mendes visou alto quando apontou que o objectivo de Sócrates seria preparar uma candidatura presidencial.
A mim não me interessa particularmente se Sócrates já se decidiu a querer ser Presidente da República ou se está apenas a fazer tiro ao alvo a António José Seguro. Interessa-me mais saber porque é que um canal de serviço público considera importante e relevante usar a chicana política na luta de audiências com canais privados em torno do comentário político.
O meu ponto é sobretudo este: qual o sentido de todos andarmos a pagar um serviço público de televisão, que mensalmente nos é debitado na factura da electricidade, se o objectivo desse canal é fazer guerra de audiências? Isto faz algum sentido para o desenvolvimento do serviço público? Produz conteúdos relevantes no futuro? Ajuda a desenvolver a indústria do audiovisual? Claro que Sócrates tem todo o direito de escrever, falar, comentar. Escusa é de ser convidado para o fazer, como foi dito, apenas porque ajuda a uma guerra de audiências da RTP com a SIC e a TVI.
(Publicado no diário METRO de 26 de Março)