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maio 03, 2013

O TRABALHO DESAPARECE?

TRABALHO - O nível de desemprego na Europa e na União Europeia é preocupante. Noutras regiões do globo não é especialmente melhor. E a má notícia é que o Mundo se encontra num, ponto de viragem em que a criação de novas indústrias não quer necessariamente dizer a criação de um número significativo de novos postos de trabalho. Nos Estados Unidos e em vários países da Europa estão a regressar indústrias que tinham sido deslocalizadas para outras regiões - e esse regresso ocorre quer por razões de logística, de eficiência ou de qualidade. Mas as novas fábricas têm mais robots e menos pessoas, e o regresso da indústria não quer dizer um retomar do emprego. Ao virar da esquina está a revolução das impressoras 3D, que num futuro não demasiado distante poderão fabricar pequenas peças ou máquinas inteiras praticamente sem intervenção humana. Estamos numa encruzilhada - e saber qual o rumo a seguir para fazer crescer o emprego e dinamizar a economia não vai funcionar com as receitas das últimas décadas. E é sobre isto que temos que pensar e encontrar o nosso caminho, a partir dos nossos recursos e do nosso talento.




SEMANADA - O actual nível de emprego é o mais baixo desde 1997; os países periféricos pesam 44% no total dos desempregados da Europa; na zona Euro há 19 milhões de pessoas sem trabalho; a circulação dos jornais diários generalistas em Portugal caíu 10%; a Comissão Nacional de Proteção de Dados considera que a Autoridade Tributária está a recolher informações que extravasam os dados relevantes para efeitos fiscais; Mário Soares acusou Cavaco de fazer um discurso inconstitucional; Vitor Gaspar apelou ao consenso e criticou a “política de mentira”; a dívida das empresas públicas duplicou entre 2007 e 2012; O Primeiro Ministro anunciou que há grande coesão no Governo; Pedro Passos Coelho afirmou que quase 78% do que o Estado gasta são salários, transferências sociais e juros da dívida pública; Portugal registou em 2010 e 2011 o maior aumento da carga fiscal na União Europeia; o “Correio da Manhã” reportou que Sócrates fez o seu exame final de inglês técnico num restaurante do Bairro Alto, numa conversa ao almoço com o respectivo professor; um ex-deputado do PS processou a Assembleia da República para tentar receber uma subvenção vitalícia; o sistema de vigilância da cadeia de Faro está desligado há quatro anos por falta de manutenção.     




ARCO DA VELHA - Os grandes bancos que venderam “swaps” às empresas públicas são quase todos assessores financeiros do Estado

VER - Esta semana sugiro 3 ideias de fotografia, bem diferentes. Na Fundação EDP, Museu da Electricidade, está a exposição anual do World Press Photo, uma das mostras de fotografia que mais público atrai e que apresenta os melhores trabalhos de fotojornalismo escolhidos por um júri internacional -  teoricamente mostra o melhor da foto reportagem de todo o mundo. Noutro registo sugiro uma ida à recentemente inaugurada “Pequena Galeria“, que fica na Avenida 24 de Julho nº 4C, perto da Praça D. Luis - que apresenta uma exposição designada “O Grupo de Évora” e que agrupa trabalhos de António Carrapato, João Cutileiro, Pedro Lobo e José M. Rodrigues. E, finalmente, para algo completamente diferente, na Galeria João Esteves de Oliveira (Rua Ivens nº 38  ) durante meia dúzia de dias - de 7 a 11 de Maio -  pode ver uma recolha de fotografias de trabalhos de Rui Chafes, o artista convidado este ano para oprojecto dedicado ao Espaço Público e à Arte Pública do Chiado e da Baixa.




OUVIR-  “Mosquito”, o quarto álbum dos norte-americanos Yeah Yeah Yeahs, podia estar nesta coluna na secção “Back To Basics”. O seu álbum de 2009, “It’s Blitz!” acabou por não corresponder às expectativas comerciais que a banda tinha colocado e este “Mosquito” fecha o círculo, regressando ao início da história, há uma década. “Area 52”, um dos melhores temas do disco, é bem exemplo disso e vive de evocações do próprio passado, mas também dos Stooges ou Cramps, por exemplo - e a faixa título, “Mosquito”, evoca a tradição musical de Nova York, a cidade onde a banda agora regressou. Há hinos, como “Sacrilege”, há um piscar de olhos a outras músicas como em “Buried Alive”, que conta com a colaboração do rapper Kool Keith/Dr. Octagon e há um retrato de Nova York em “Subway”. Karen O, Nick Zinner and Brian Chase estão de volta à sua cidade, onde aliás este álbum foi gravado numa cave desocupada - e fizeram um disco que bem pode ser um ajuste de contas com o passado e uma preparação para o pensam fazer no futuro. Eu confesso que gosto disto e tenho ouvido “Mosquito” um bom par de vezes nos últimos dias - é despretencioso, bem produzido e com uma sonoridade desafiante que nos faz pensar que mesmo depois das crises há esperança.




FOLHEAR - Um dos temas recorrentes da revista “Monocle” é o interesse por pequenos projectos de produçāo artesanal, seja de roupa, mobiliário, acessórios ou ... apitos metálicos e óculos de tartaruga. A edição de Maio da revista vem cheia de exemplos destes, feitos em Inglaterra, França, Dinamarca ou Espanha. Alguns destes projectos internacionalizam-se e ganham mercados inesperados - muitos sāo quase "case studies". E tanto podem ser uma produtora de filmes na Dinamarca que trabalha com uma equipa de dez pessoas até à oficina que faz móveis inesperados ou sapatos por medida. Todos têm em comum o facto de fazerem a aliança entre design contemporâneo e métodos de produçāo artesanais, mas sem esquecer as facilidades dadas pela técnica. Em comum têm também a presença humana - na criatividade, na atenção ao pormenor. São pequenas empresas que desenvolvem novos projectos nas mais diversas áreas, das mais tecnológicas às mais simples e tradicionais. Dão emprego, contribuem para a economia, utilizam mão de obra local. Esta edição está cheia de exemplos destes. O tema forte de capa desta “Monocle” de Maio é a guerra de audiências nos programas matinais de rádio e televisão, mostrando a partir da concorrência desenfreada que se passa nos nossos antípodas, na Austrália. Pode parecer um tema esotérico, mas a verdade é que o espaço da manhã, nas estações de televisão e da rádio está a ser no novo prime time, um dos poucos momentos em que as pessoas estão menos ligadas à internet e ao Facebook, esse grande concorrente na partilha dos sofás ao fim do dia. Outros registos dignos de nota dizem respeito ao novo protagonismo de Londres no campo da fotografia - desde uma nova Feira a várias galerias. A revista tem um roteiro da cidade com todos os novos locais a não perder para quem gosta de fotografia.




PROVAR - Olivier Costa, o “chef” que se especializou em criar espaços de entretenimento onde se come bem, abriu agora o “Honra”, integralmente dedicado á tradição culinária portuguesa. Fica no novo Hotel Figueira - numa Praça da Figueira desleixada pela Câmara - esta semana quando lá fui o centro da praça estava um caos de sujidade e desleixo, cercado por grades municipais que envolviam cadeiras plásticas meio tombadas. Não imagino o que ali tenha acontecido, mas não é bonito de ser ver numa praça que quer agora captar turistas. Mas Olivier não tem culpa da preguiça dos vereadores camarários em exercício na área do espaço urbano e merece elogios por mostrar aos muitos estrangeiros que o visitam o que são ovos verdes, peixinhos da horta, lulas recheadas ou um simples bitoque - já para não falar dos travesseiros e pastéis de nata à hora do chá. Como sempre nos restaurantes de Olivier  a cozinha é honesta - se bem que aqui algumas frituras mereçam mais cuidado - nomeadamente a dos pastéis de nata. Mas o bitoque estava em muito boa forma com batatas fritas como deve ser e o polvo panado com arroz de feijão cumpria. Há cocktails de ginjinha e vinhos a copo das melhores precedências e a preço decente.  Praça da Figueira 16, telefone 210 194 154. Reserve, que a casa anda cheia e é bom ir à baixa jantar ou almoçar.




DIXIT - “Já engolimos todos os venenos sem efeito algum” - José Pacheco Pereira, na “Sábado”.




GOSTO- Da iniciativa de aulas interactivas de matemática para crianças, da Khan Academy, lançado pela Fundação PT no seu site, numa versão em português.




NÃO GOSTO -  Os prejuízos com swap são equivalentes a 10% da dívida das empresas públicas.




BACK TO BASICS - Os factos são terríveis; as estatísticas são mais maleáveis - Mark Twain.




(Publicado no Jornal de Negócios de  dia 3 de Maio)